quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O imperialismo estado-unidense ataca


Vijay Prashad [*]

Bases dos EUA no mundo.

A guerra contra o Irão não deve ser entendida como uma manifestação isolada de agressão por parte do hiperimperialismo norte-americano. Nem tão pouco pode ser explicada apenas pelas obsessões de Donald Trump, pelas ambições expansionistas de Israel ou pela influência dos setores mais reacionários da classe dominante norte-americana. A guerra insere-se numa crise muito mais ampla. Os Estados Unidos estão a atacar porque os alicerces do seu poder estão a enfraquecer, enquanto a sua classe dominante não possui nem a imaginação política nem a capacidade social para os reparar.

Os EUA não estão impotentes. Continuam a ser a potência militar mais perigosa do mundo, com novecentas bases militares no estrangeiro e quase dois terços das despesas militares anuais globais, e controlam muitas das instituições financeiras internacionais no âmbito do complexo Wall Street-dólar. Um tigre ferido continua a ser um tigre. Mas Washington está cada vez mais incapaz de converter as suas vantagens militares, financeiras e diplomáticas em resultados políticos estáveis. Pode destruir países, mas não consegue reconstruir facilmente a sua própria economia produtiva nem construir uma ordem internacional que inspire consenso. A violência contra o Irão é, portanto, uma expressão não de confiança, mas de frustração.

FONTES DE FRUSTRAÇÃO

A primeira fonte desta frustração é o longo declínio da capacidade industrial dos EUA. Durante as décadas neoliberais, a classe dominante do país transferiu fábricas para o estrangeiro, atacou os sindicatos e transformou o investimento produtivo em especulação financeira. Regiões industriais inteiras foram esvaziadas e transformadas em desertos fabris para que as empresas pudessem tirar partido de mão-de-obra mais barata noutros locais, enquanto Wall Street captava uma parte crescente dos lucros resultantes. Não é que os EUA tenham deixado de fabricar produtos, uma vez que a produção industrial real aumentou nos últimos cinquenta anos devido, entre outros fatores, a ganhos de produtividade. No entanto, verificou-se uma profunda erosão da profundidade industrial, com menos trabalhadores (de 25% do emprego não agrícola em 1970 para 8% atualmente) na indústria transformadora, uma pequena quota da produção industrial global, cadeias de abastecimento enfraquecidas, ecossistemas produtivos perdidos, défices comerciais persistentes e dependência da capacidade estrangeira em indústrias estrategicamente vitais.

Os Estados Unidos continuam a ser um importante fabricante, particularmente nos setores aeroespacial, de armamento, farmacêutico e em várias tecnologias avançadas. Mas a direção da mudança é inconfundível. De acordo com a UNIDO, a China produziu 32% do valor acrescentado da indústria transformadora global em 2024, em comparação com 15% dos EUA. A América do Norte registou um défice substancial em bens manufaturados, ao passo que a China consolidou a sua posição como a maior economia industrial do mundo. Em dezembro de 2025, a utilização da capacidade industrial dos EUA situava-se em apenas 75,6%, abaixo da sua média a longo prazo.

Washington pode impor tarifas, conceder subsídios e exigir que as empresas repatriem a produção. Mas a industrialização não é um interruptor que um presidente possa ligar. Requer trabalhadores qualificados, infraestruturas públicas, investimento a longo prazo, profundidade tecnológica e um Estado capaz de planear. A economia financeirizada dos EUA passou décadas a desmantelar estas capacidades. A sua classe dominante quer os benefícios da força industrial sem desafiar o poder das finanças nem elevar o salário social da classe trabalhadora.

A segunda fonte de ansiedade é o sistema do dólar e da Wall Street. O dólar continua a ser a principal moeda de reserva, representando quase 57 por cento das reservas cambiais oficiais alocadas no final de 2025. A banca denominada em dólares, a dívida, a faturação comercial e os mercados offshore do dólar — o vasto sistema do eurodólar — ainda conferem aos EUA um enorme poder estrutural. Como os bancos e as empresas fora dos EUA precisam de dólares, Washington pode usar o acesso ao seu sistema financeiro como arma política. Mas esta arma tem sido utilizada em excesso. A apreensão de ativos soberanos, as sanções unilaterais, a exclusão dos sistemas de compensação em dólares e a ameaça de sanções secundárias demonstraram a todos os governos que as suas reservas e transações comerciais só estão seguras enquanto Washington permitir que o estejam. O congelamento dos ativos russos foi particularmente revelador. Mostrou que os direitos de propriedade, supostamente sagrados para a ordem capitalista, podem ser suspensos quando a estratégia dos EUA assim o exigir.

Nenhuma outra moeda conseguiu ainda substituir o dólar, e o declínio da sua quota nas reservas tem sido gradual. Mas a procura de alternativas é real. As liquidações bilaterais em moedas nacionais, os sistemas de pagamentos regionais, os acordos digitais dos bancos centrais e o aumento das compras de ouro não são declarações de uma nova ordem financeira. São apólices de seguro contra a coação dos EUA. O sistema do dólar não está a entrar em colapso, mas a confiança de que depende está a ser constantemente corroída pela própria Washington.

O terceiro problema é a Europa. Desde 1945, os EUA têm tratado a Europa Ocidental como o flanco oriental do seu próprio poder. A NATO institucionalizou a subordinação militar europeia, enquanto o sistema do dólar e as empresas norte-americanas reduziram a soberania económica do continente. A guerra na Ucrânia aprofundou esta dependência, à medida que a Europa se afastou da energia russa relativamente barata, expandiu as compras de energia norte-americana e aumentou as despesas militares, em grande parte através de sistemas de armamento ligados à produção e às estruturas de comando dos EUA.

O acordo comercial de 2025 entre a União Europeia e os Estados Unidos expôs a natureza desta relação. A Europa aceitou tarifas, prometeu enormes compras de energia norte-americana e comprometeu-se a realizar investimentos substanciais nos EUA. Os líderes europeus apresentaram a submissão como negociação e as suas classes dominantes aceitaram um crescimento mais lento, pressões industriais e maior insegurança energética para permanecerem dentro do cerco estratégico de Washington.

No entanto, um sátrapa só se mantém útil enquanto for económica e politicamente estável. A estagnação da Europa, as pressões orçamentais, os sistemas políticos fragmentados e o crescente descontentamento popular enfraquecem a sua utilidade para os EUA. Washington apertou o jugo, mas está a arrastar um continente cuja força produtiva está a ser prejudicada, em parte, por esse mesmo jugo.

A quarta fonte de fraqueza dos EUA reside no mundo árabe do Golfo. Durante décadas, Washington ofereceu segurança às monarquias em troca de petróleo cotado em dólares, instalações militares, aquisições de armamento e conformidade política. Este acordo nunca foi incontestado, mas constituiu um pilar central do poder dos EUA. A guerra contra o Irão abalou esse pilar. Demonstrou que as bases e as armas dos EUA não podem garantir a segurança das infraestruturas do Golfo, das rotas marítimas, das instalações de dessalinização ou das exportações de energia. A interrupção do tráfego através do Estreito de Ormuz e os ataques a instalações energéticas impuseram enormes perdas às economias do Golfo. O Catar, o Kuwait, o Bahrein, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita descobriram que os EUA podem iniciar uma guerra, mas não conseguem isentar os seus aliados das consequências.

Mesmo os governantes do Golfo hostis ao Irão têm agora de recalcular a sua segurança de forma diferente. Os seus planos económicos exigem paz, investimento, rotas marítimas previsíveis e relações estáveis em toda a Ásia. A China é o seu maior parceiro comercial, enquanto a Índia e outras economias asiáticas são mercados energéticos indispensáveis. Não podem subordinar indefinidamente estes interesses materiais a um projeto de guerra permanente dos EUA e de Israel. Washington pode ainda vender-lhes armas, mas já não lhes pode prometer ordem. A guerra transformou a proteção dos EUA numa fonte de insegurança.

O quinto fracasso diz respeito à China. Há mais de uma década que Washington tenta travar o desenvolvimento da China através de direitos aduaneiros, sanções, restrições tecnológicas, alianças militares e pressão naval. O objetivo não é meramente corrigir um desequilíbrio comercial, mas sim impedir que a China avance para os setores mais avançados da produção. No entanto, a escala da produção industrial chinesa não pode ser anulada por uma lista de tecnologias proibidas. A sua força assenta num sistema industrial integrado:   infraestruturas, educação científica, finanças públicas, vastas cadeias de abastecimento e a capacidade de coordenar o investimento. As restrições dos EUA infligiram custos, mas também aceleraram os esforços da China para desenvolver tecnologias nacionais. Entretanto, as políticas tarifárias de Washington têm perturbado as suas próprias empresas, aumentado os custos e incentivado a reorganização, em vez da destruição, das cadeias de abastecimento asiáticas.

Os EUA podem cercar militarmente a China, mas não podem recuperar a primazia industrial através de bombardeamentos. Os porta-aviões não produzem máquinas-ferramentas e as sanções não formam engenheiros. A contradição central da estratégia dos EUA reside no facto de estar a tentar resolver um problema económico e industrial através da pressão financeira e do cerco militar. Aos poucos, o Japão e a Coreia do Sul irão aprender as lições que estão a ser assimiladas nos Estados árabes do Golfo:   as bases militares dos EUA são um alvo, não um escudo, e — após o Acordo de Meca — talvez os Estados do Leste Asiático precisem de um acordo de segurança regional e não de uma segurança imperial imposta.

Há, no entanto, uma região onde Washington registou recentemente ganhos políticos:   a América Latina. O segundo ciclo progressista recuou, e uma «Maré de Raiva» surgiu. A extrema-direita de um tipo especial avançou através de eleições, guerra judicial, manipulação dos meios de comunicação social, greves de capital e a exploração de ansiedades públicas reais sobre a criminalidade, a inflação e a fraqueza institucional. Da Argentina e do Equador à Bolívia, Chile, Peru e Colômbia, governos reacionários prometeram ordem enquanto preparavam a privatização, a austeridade, uma cooperação militar mais estreita com Washington e Telavive e uma renovada submissão às finanças internacionais. Trata-se de uma vitória para os EUA, mas é uma vitória instável. A «Maré de Raiva» não tem resposta para os problemas estruturais do continente. Não consegue superar a dependência, criar capacidade industrial soberana, levar a cabo uma reforma agrária significativa, nem satisfazer as necessidades dos trabalhadores e dos camponeses. O seu programa é raiva sem emancipação:   violência policial para os pobres, liberdade para as finanças e submissão a Washington. Se os movimentos sociais e políticos no hemisfério se organizarem de forma eficaz, serão capazes de inverter a maré rapidamente.

A guerra contra o Irão surge deste panorama global. Os EUA não conseguem reconstruir facilmente a sua indústria, restaurar a autoridade inquestionável do dólar, estabilizar a Europa, garantir as monarquias do Golfo ou travar o avanço da China. Por isso, recorrem aos instrumentos em que mantêm uma vantagem esmagadora:   bombas, sanções, bloqueios e ameaças. Por essa razão, Trump é o presidente mais adequado para os EUA neste período. O liberalismo insípido não consegue fazer este trabalho. É necessário o machado do imperialismo hediondo.

Mas a violência não pode resolver a crise que a gera; apenas pode espalhar essa crise pelo mundo. O perigo é imenso precisamente porque a classe dominante dos EUA continua fortemente armada, ao mesmo tempo que se mostra cada vez mais incapaz de alcançar os seus objetivos por outros meios. A tarefa que se coloca aos povos do mundo não é celebrar o declínio imperialista como um processo automático, mas sim organizar as forças políticas e construir o bloco histórico capaz de impedir que um império desesperado incendeie o mundo.

30/Agosto/2026

[*] Historiador, indiano.

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2026/0830_pd/us-imperialism-lashes-out.

Em 

Resistir.info

https://resistir.info/eua/prashad_30ago26.html

30/8/2026 

domingo, 30 de agosto de 2026

Um capitalismo agonizante

 


Prabhat Patnaik [*]

Detroit, antiga fábrica da Packard.

Neste momento os sinais de decadência e decrepitude de um capitalismo agonizante já são demasiado evidentes. Claro que esta não é a primeira vez que o sistema apresenta tais sinais; já os apresentara no período entre 1914 e 1945, o que confirmou a previsão de Lenine de que se tratava de um sistema moribundo. A diferença entre então e agora reside na resposta do sistema à crise que o assolou.

Naquela altura, o sistema reagiu — quer por opção, quer por obrigação — "reformando-se" de, pelo menos, três formas distintas:   a primeira foi através da descolonização política, à qual líderes burgueses como Winston Churchill se opuseram veementemente na altura, e através de uma tentativa de controlar os recursos do Terceiro Mundo por outros meios;   a segunda foi através da introdução generalizada da democracia eleitoral com o princípio de "uma pessoa, um voto" nos principais países capitalistas do mundo; e   a terceira foi através da adoção de medidas de intervenção estatal para estimular a procura agregada e reduzir o desemprego:   na Europa, estas medidas implicaram maiores despesas com a segurança social, ao passo que nos EUA, como demonstraram Baran e Sweezy, assumiram a forma de maiores despesas militares. Esta última "reforma" foi particularmente importante, uma vez que permitiu ao sistema sobreviver, resistindo à ameaça que as duas primeiras poderiam ter representado para ele.

Em suma, o capitalismo superou a sua crise existencial, ao mesmo tempo que se apresentava como um sistema mais "humano" e mais "democrático", a funcionar perto do pleno emprego e superior ao socialismo em termos do seu historial em matéria de direitos humanos. Conseguiu, em grande medida, convencer o mundo da sua nova imagem, apesar de todas as manobras sujas, sob a forma de assassinatos de líderes e de organização de golpes de Estado, que infligia por todo o Terceiro Mundo, desde Mossadegh, passando por Arbenz, Lumumba e Allende, para não mencionar as horrendas guerras na Coreia e no Vietname.

Dito de outra forma, a superação da sua crise existencial deu-se através do início de uma fase do capitalismo que ficou conhecida como a "Idade de Ouro"; e, em comparação com o seu passado, representou, de facto, uma fase relativamente nova e diferente.

A principal diferença entre as crises existênciais de então e a de agora reside no facto de a intervenção estatal – através da gestão da procura para superar a atual crise de estagnação no mundo capitalista – já não ser possível. Qualquer aumento da despesa pública destinado a impulsionar a procura, para ser eficaz, tem de ser financiado quer através de um défice orçamental, quer através de impostos sobre os ricos:   tributar os trabalhadores — que, de qualquer forma, consomem a maior parte dos seus rendimentos — e gastar as receitas assim geradas apenas altera a composição da procura agregada, ao invés da sua magnitude. O capital financeiro, no entanto, não aprecia nem os défices orçamentais nem os impostos sobre os ricos (uma vez que os financistas se contam geralmente entre os mais ricos); e, dado que as finanças estão hoje globalizadas enquanto o Estado continua a ser um Estado-nação, essa aversão torna-se decisiva, pois ignorá-la acarreta o risco de uma fuga de capitais ruinosa.

Hoje, portanto, não há qualquer alívio da crise de estagnação que aflige o capitalismo neoliberal, uma crise causada pelo aumento maciço da desigualdade de rendimentos que o caracteriza. É este beco sem saída do capitalismo neoliberal, em que o sistema permanece atolado na estagnação mas pouco pode fazer para a superar, que está na origem dos seus atuais sintomas de decadência; estes sintomas são a própria antítese da imagem de si próprio que o capitalismo vinha apresentando anteriormente.

Em primeiro lugar, há um verdadeiro ataque à democracia. Por todo o mundo capitalista, existem regimes abertamente neofascistas ou regimes repressivos que operam sob fachadas democráticas, mas que se caracterizam por caças às bruxas ao estilo de McCarthy contra quaisquer tentativas de expressar a ira popular contra as políticas governamentais. Não só existe um apoio generalizado por parte dos governos de todo o mundo capitalista avançado ao genocídio de Israel contra os palestinos (com algumas exceções notáveis, como a Espanha), apesar de a maioria da população desses mesmos países se opor abertamente a esse genocídio, como também se verifica uma repressão severa contra todas as manifestações populares dessa oposição. Na Grã-Bretanha, um país que muitas vezes se orgulhou da sua tolerância em relação à dissidência, estudantes estão a ser julgados como "terroristas" apenas por proferirem discursos a favor da Palestina. Além disso, a maioria das pessoas detidas por cometer tais "delitos" nem sequer é acusada, muito menos levada a julgamento. E a situação é semelhante noutros países capitalistas avançados, sendo as reuniões para expressar solidariedade com a Palestina proibidas, por exemplo, na maioria das cidades alemãs. Não só a alegada defesa dos direitos humanos pelo capitalismo é, assim, desmentida pelo seu apoio aberto ao genocídio, como esse apoio é complementado por uma atenuação maciça da democracia sem precedentes na era do pós-guerra.

Este regresso à repressão por parte do capitalismo neoliberal é também acompanhado por uma tentativa, pelo menos por parte dos EUA até agora, de recolonização do Terceiro Mundo. Donald Trump não só anunciou esta sua agenda de forma explícita, como a concretizou com uma incursão efetiva na Venezuela, uma agressão militar em curso contra o Irão e possíveis planos de agressão contra a Gronelândia e outros países. Nestas manobras agressivas, os EUA gostariam de contar com o apoio de outros grandes países capitalistas. De facto, já foram dados dois passos importantes para obter esse apoio.

Uma delas é o rearmamento da Alemanha e do Japão, que haviam sido desarmados após a Segunda Guerra Mundial; e a resposta destes países a esta proposta de rearmamento tem sido entusiástica. Esta é mais uma forma de observarmos um retrocesso ao capitalismo da chamada era pré-Idade de Ouro. E com o neofascismo a marcar forte presença na Alemanha sob a forma do AfD, as consequências extremamente perigosas do rearmamento desse país dispensam qualquer explicação.

O segundo passo é a decisão da NATO de aumentar as despesas militares dos seus países membros para até 5 por cento do seu PIB até 2035, dos quais 3,5 por cento deverão ser gastos em atividades militares essenciais e 1,5 por cento na construção de infraestruturas militares. Isto representa um enorme aumento em relação aos níveis atuais, que ascendem a 3,4 por cento nos EUA e a uma média de 2,5 por cento na Europa. Exatamente as mesmas restrições — relativas ao aumento do défice orçamental e à tributação dos ricos — que impedem a adoção de medidas keynesianas de estímulo à procura, passarão também a aplicar-se ao aumento das despesas militares; o aumento do orçamento militar nos países da OTAN terá, portanto, de provir de uma restrição das despesas sociais que, pelo menos na Europa, tinham sido uma característica fundamental do capitalismo do pós-guerra. Assistimos, assim, mais uma vez a um regresso ao militarismo em grande escala, que é exatamente o oposto da prática do pós-guerra.

Para que a opinião pública burguesa na Europa não caísse na armadilha dos argumentos da luta anticolonial sobre os efeitos nefastos do colonialismo, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, falou recentemente com grande entusiasmo sobre cinco séculos de domínio ocidental na Conferência de Segurança de Munique e fez um apelo descarado ao renascimento dessa glória passada através do que os observadores identificaram claramente como um apelo à recolonização. Rubio assegurou aos seus aliados europeus que não tinham nada de que se sentir culpados pelo seu passado colonial; e a sua audiência, que incluía praticamente todos os líderes europeus, longe de se envergonhar com o seu discurso, acolheu-o com aplausos estrondosos.

O fascismo sempre teve uma relação muito estreita com o colonialismo. Embora o contexto para o surgimento do fascismo seja, evidentemente, diferente — tipicamente, uma crise económica que exige, no interesse do capital monopolista, um discurso alternativo e distrativo que o fascismo proporciona —, os métodos violentos adotados pelo fascismo foram testados pela primeira vez nas colónias. Por exemplo, o tratamento desumano da Alemanha para com os Nama e os Herrero na Namíbia, e o genocídio perpetrado pelo rei Leopoldo da Bélgica no Congo, que reduziu a população em 10 milhões — ou seja, em um terço —, serviram de "modelos" para o que mais tarde ocorreu na Europa sob o fascismo.

A propagação do neofascismo hoje em dia e uma nostalgia do colonialismo, com um projeto de recolonização no horizonte, estão, assim, intimamente ligadas. Estamos mais uma vez a assistir ao capitalismo a mostrar as suas garras nuas, que de certa forma haviam sido mantidas ocultas, exceto em ocasiões esporádicas no período do pós-guerra. Contudo, este regresso à sua natureza absolutamente implacável – que nega totalmente toda a propaganda sobre o "capitalismo do bem-estar", o "capitalismo transformado" e o "capitalismo humano" – é sintomático da sua decadência, do seu desespero e da sua decrepitude, do facto de ter chegado a um beco sem saída do qual não há uma via de fuga óbvia. É sintomático, numa palavra, de um capitalismo agonizante.

Contudo, este regresso a um capitalismo hiperagressivo e hiperrepressivo não salvará o sistema. Um capitalismo agonizante não pode salvar-se através do neofascismo, do esvaziamento da democracia e da recolonização. O que hoje está a acontecer com a agressão dos EUA e de Israel contra o Irão constitui a prova cabal disso.

30/Agosto/2026

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2026/0830_pd/dying-capitalism.

Este artigo encontra-se em resistir.info

https://resistir.info/patnaik/patnaik_30ago26.html 



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Da Revolução Industrial à era digital

 


– O salto da produção artesanal para a grande indústria
– A inteligência artificial atua como a encarnação contemporânea do "conhecimento alheio"

Luís Mesina [*]

cartoon, autor desconhecido.

A evolução dos sistemas de organização do trabalho desde a segunda metade do século XVIII até ao presente costuma ser narrada como uma crónica linear de progresso técnico e eficiência neutra. No entanto, uma análise rigorosa da história económica revela que a tecnologia e a gestão do trabalho não operam num vácuo social; pelo contrário, são mecanismos profundamente políticos que dependem de quem detém o controlo dos meios de produção. A transição da oficina artesanal para a fábrica mecanizada durante a Revolução Industrial não só transformou o modo de produção, como inaugurou uma disputa sistemática pelo controlo do tempo e do conhecimento.

Através de uma análise crítica de marcos como a cienticifização do trabalho de Frederick Taylor, a linha de montagem de Henry Ford e a flexibilidade baseada no "just-in-time" e na qualidade total de Taiichi Ohno, é possível perceber como a inovação organizacional tem sido a estratégia fundamental do capitalismo para garantir a sua taxa de lucro através da expropriação da autonomia dos trabalhadores. Com base nas categorias teóricas de Benjamín Coriat (2001), demonstra-se o grande paradoxo do desenvolvimento industrial:   enquanto a incorporação tecnológica catapultou a produtividade global para níveis históricos, os frutos dessa eficiência ampliaram os rendimentos do capital, perpetuando a estagnação e a precarização das condições materiais de vida da classe trabalhadora.

A introdução de maquinaria avançada e da automatização tem funcionado frequentemente sob a lógica da destruição das forças produtivas, deslocando a mão-de-obra sob a ameaça constante da obsolescência humana. Em última análise, a grande contradição do desenvolvimento tecnológico reside no facto de a máquina ter conseguido emancipar o processo produtivo dos seus limites físicos, mas não ter traduzido essa riqueza numa melhoria substancial e proporcional das condições de vida da classe trabalhadora.

O cronómetro como "arma" contra o ofício operário (A abordagem de Coriat)

Como bem demonstrou o economista Benjamín Coriat (2001) na sua célebre análise A oficina e o cronómetro, a introdução da gestão científica não foi um ato de benevolência técnica, mas sim um ataque direto ao controlo que o operário profissional exercia na oficina. Antes de Taylor, o trabalhador qualificado possuía os "segredos de fabrico", o que lhe permitia regular os seus próprios ritmos e defender o seu salário face ao capital. A "cientificização" do trabalho, através da dissecação dos movimentos e da imposição do cronómetro, funcionou como uma estratégia deliberada da classe patronal para expropriar esse saber operário. Ao reduzir o ofício a gestos elementares executados por trabalhadores não qualificados, a tecnologia de controlo resolveu o principal obstáculo à acumulação capitalista: destruiu a resistência operária na própria base da produção.

A produtividade como salva-vidas da taxa de lucro

Para compreender a raiz desta expropriação, é imperativo precisar a própria natureza da produtividade. Na sua dimensão mais pura, a produtividade é um conceito estritamente técnico e transhistórico, comum a qualquer organização social:   representa o rendimento do trabalho; ou seja, a capacidade humana de gerar uma determinada quantidade de valores de uso num determinado tempo através da utilização de ferramentas. No entanto, no modo de produção capitalista, esta categoria sofre uma transformação ontológica. A produtividade deixa de ser um indicador de eficiência social para o bem-estar coletivo e transforma-se num imperativo coercivo de valorização.

Nesta perspetiva crítica, o aumento exponencial do rendimento laboral decorrente do taylorismo, do fordismo e, posteriormente, do toyotismo, revela-se como uma necessidade estrutural do mundo empresarial para contrariar a tendência decrescente da taxa de lucro. Ao eliminar o que Marx (2017) denomina "os poros da jornada de trabalho" (pequenos intervalos de tempo livre, pausas invisíveis ou tempos mortos) — núcleo que Coriat analisa no âmbito do taylorismo — e substituí-los por tempo efetivamente produtivo, o capital implementa uma rigorosa "economia do tempo". Isto não é mais do que a conversão sistemática dos minutos de vida do operário em valor de troca.

O paradoxo histórico que atravessa este ensaio é assim desnudado pela economia política:   a inovação organizacional e tecnológica torna-se indispensável para garantir a rentabilidade dos investimentos, mas ignora a reprodução social da força de trabalho. A eficiência torna-se um fim em si mesmo para a sobrevivência do capital, o que se traduz numa intensificação do trabalho que desgasta o corpo do trabalhador, ao mesmo tempo que aumenta os lucros dos proprietários.

A não neutralidade tecnológica como dispositivo político

Sustentar que a tecnologia é um agente neutro que opera em benefício do progresso abstrato constitui um dos maiores mitos da modernidade industrial. Pelo contrário, a evolução técnica das oficinas demonstra que as ferramentas nunca são neutras:   a sua conceção, adoção e implementação dependem estritamente de quem detém o controlo dos meios de produção. A máquina a vapor, o cronómetro taylorista, a linha de montagem móvel e os sistemas informatizados do "toyotismo" não foram ferramentas cegas, mas sim "dispositivos políticos" concebidos para inclinar a balança do poder para o lado do capital, em detrimento da classe trabalhadora.

Quando a tecnologia está subordinada à busca exclusiva da rentabilidade, a sua função principal deixa de ser o alívio do esforço humano e transforma-se num mecanismo de vigilância, padronização e desqualificação do trabalhador. Assim, o controlo tecnológico traduz-se em controlo social, determinando não só o que se produz, mas também quem se apropria do excedente à custa do desgaste da vida humana.

Taiichi Ohno e o miragem da qualidade total

A crise do modelo fordista na segunda metade do século XX, agravada pela saturação dos mercados e pelas crises do petróleo, exigiu uma nova mutação nas formas de organização do trabalho. A resposta não veio do Ocidente, mas do Japão do pós-guerra, onde Taiichi Ohno, diretor de operações da Toyota, concebeu um paradigma alternativo:   o toyotismo. Ao contrário da rigidez de Ford, que acumulava enormes stocks baseados em tecnologias de produção em massa, Ohno compreendeu que a sobrevivência empresarial exigia uma automatização flexível.

Através da introdução de tecnologias de controlo visual, como os cartões kanban e os painéis eletrónicos andon, o sistema japonês impôs a filosofia do just-in-time:   produzir apenas o que o mercado exige, na quantidade exata e no momento certo. A inovação técnica já não se centrava na velocidade bruta de uma correia transportadora ininterrupta, mas sim na eliminação absoluta dos sete desperdícios (muda), transformando o processo produtivo num fluxo ultraeficiente e maleável que erradicava o transporte, o stock, o movimento, a espera, o sobreprocessamento, a sobreprodução e os defeitos.

No entanto, sob a retórica empresarial da "qualidade total" e do princípio do kaizen (melhoria contínua), o toyotismo introduziu uma sofisticação ainda mais profunda nos mecanismos de exploração da força de trabalho. Enquanto Taylor e Ford privaram o operário da sua capacidade de pensar, reduzindo-o a um mero braço executor, Ohno compreendeu que, para maximizar a taxa de lucro, era necessário capturar também o cérebro do trabalhador. O toyotismo descentralizou a responsabilidade pela eficiência para os próprios operários, organizados em equipas. Em vez de um capataz externo com um cronómetro, o sistema utiliza o fluxo tenso do just-in-time e a ameaça de parar a linha através dos alarmes andon para que o próprio coletivo de trabalhadores se auto-pressione e se discipline.

A exploração tornou-se participativa:   o conhecimento do trabalhador é extraído através das suas sugestões de melhoria, transformando-o num cúmplice ativo da intensificação dos seus próprios ritmos de trabalho.

O algoritmo como o novo cronómetro: a mutação do taylorismo digital

Afirmar que as formas clássicas de exploração se tornaram obsoletas na economia do conhecimento constitui um erro de diagnóstico. O taylorismo não morreu; atingiu a sua fase mais omnipresente e refinada no âmbito do taylorismo digital e da inteligência artificial (IA). Se no século XIX o instrumento de controlo patronal era o cronómetro analógico, hoje esse papel é desempenhado pelo algoritmo preditivo. A IA não funciona como uma ferramenta neutra de assistência cognitiva, mas sim como o capataz invisível da era digital.

Esta mutação aperfeiçoa a "economia do tempo" descrita por Coriat (2001). Os sistemas algorítmicos contemporâneos fragmentam o trabalho intelectual e de serviços em microtarefas padronizadas, medindo os tempos mortos em milissegundos e eliminando qualquer vestígio de autonomia. Já não se vigia apenas o movimento do corpo na fábrica, mas sim os cliques, a digitação e a atenção do trabalhador no ecrã. A inteligência artificial alimenta-se do conhecimento acumulado pelos próprios trabalhadores para o codificar, expropriá-lo e, eventualmente, utilizá-lo como vetor para a deslocalização e a precarização laboral. Esta captura radical do saber encontra a sua explicação mais profunda nas advertências de Karl Marx (2007) nos Grundrisse (no seu célebre Fragmento sobre as máquinas), onde antecipava com lucidez:

A máquina não surge, de forma alguma, como meio de trabalho do operário individual... O conhecimento surge nas máquinas como algo alheio, externo ao operário; e o trabalho vivo surge como algo subordinado ao trabalho da máquina, que atua de forma autónoma. (p. 218)

Sob este prisma, a inteligência artificial atua como a encarnação contemporânea desse "conhecimento alheio". Não alivia o esforço humano, mas automatiza a subsunção do cérebro do trabalhador. A deslocalização de postos de trabalho não é uma consequência técnica inevitável da modernização, mas sim uma estratégia deliberada de reorganização produtiva para reduzir os custos da mão-de-obra e salvaguardar a taxa de lucro.

Conclusão

A revisão histórica e conceptual realizada neste ensaio demonstra que a evolução dos sistemas de organização do trabalho não responde a uma marcha inevitável rumo ao progresso técnico neutro. Pelo contrário, desde o cronómetro do século XIX até ao algoritmo preditivo da era digital, a inovação tecnológica consolida-se como um dispositivo político e um vetor de dominação social. No âmbito analítico de Benjamin Coriat, fica claro que cada mutação organizacional — taylorismo, fordismo, toyotismo e o atual taylorismo digital — surge como uma resposta estrutural do capital para contrariar a tendência decrescente da sua taxa de lucro através de uma agressiva "economia do tempo".

O grande paradoxo do desenvolvimento industrial e cognitivo contemporâneo é que a eficiência já não se define como um avanço técnico comum orientado para o bem-estar coletivo da sociedade, mas sim como um mecanismo de expropriação. A máquina e o software demonstraram uma capacidade inédita de impulsionar o rendimento do trabalho, emancipando os processos dos seus limites físicos tradicionais; no entanto, esta criação monumental de riqueza não se traduziu na libertação do ser humano, mas sim na sua subjugação. A apropriação do conhecimento, que antes se concentrava na destreza do braço do trabalhador, estende-se hoje às faculdades cognitivas de uma força de trabalho hiperconectada, vigiada e fragmentada por métricas opacas.

Em última análise, enquanto o controlo dos meios de produção e a conceção das tecnologias continuarem subordinados exclusivamente à acumulação privada, a produtividade continuará a funcionar como um salva-vidas da rentabilidade empresarial à custa da reprodução social. A democratização das forças produtivas e a reapropriação do tempo social surgem, então, não como utopias, mas como condições materiais urgentes para que o rendimento do trabalho volte a ser o motor da emancipação humana e não a ferramenta da sua própria precarização.

Referências bibliográficas
Coriat, B. (1992). A oficina e o robô: Ensaios sobre o fordismo e a produção flexível na era da eletrónica. Siglo XXI Editores.
Coriat, B. (2001). A oficina e o cronómetro: Ensaio sobre o taylorismo, o fordismo e a produção em massa (21.ª ed.). Siglo XXI Editores.
Marx, K. (2007). Elementos fundamentais para a crítica da economia política (Grundrisse) 1857-1858 (Vol. 2). Siglo XXI Editores. (Original publicado em 1939).
Marx, K. (2017). O Capital: Crítica da economia política. Tomo I: O processo de produção do capital. Siglo XXI Editores. (Original publicado em 1867).

20/Agosto/2026



terça-feira, 25 de agosto de 2026

Las raíces del capitalismo pasan por la esclavitud

 


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Fuentes: nstituto Tricontinental de Investigación Social [Imagen: Naudline Pierre (Haití), "This, I Know to Be True" [(esto lo sé con certeza), 2023]

Detrás de la pulida historia de Occidente se esconde otra: la máquina de vapor, la banca moderna y el capitalismo industrial no surgieron de una innovación pacífica, se pagaron con la sangre de personas esclavizadas.

Hay cierto encanto en las historias que los imperios cuentan sobre sí mismos. En ellas, el capitalismo aparece como el florecimiento natural del ingenio europeo: el producto de la razón, el descubrimiento científico, la innovación tecnológica y la austeridad de personas trabajadoras. El colonialismo y la esclavitud, cuando aparecen, son tratados como episodios lamentables en medio de una trayectoria triunfal hacia la modernidad.

Nuestro más reciente estudioLas raíces del capitalismo: la esclavitud y el comercio del azúcar (agosto de 2026), de Prabir Purkayastha, nos pide abandonar esta conveniente mitología. El estudio inaugura nuestra nueva serie de Estudios sobre Materialismo Histórico, que examinará la construcción del mundo moderno situando en el centro de este proceso la dialéctica entre el imperialismo y las luchas de liberación nacional.

Gran parte del estudio fue escrito durante los 225 días que Prabir estuvo encarcelado en la cárcel central de Rohini, en Delhi, India, entre octubre de 2023 y mayo de 2024. Fue arrestado ilegalmente por el gobierno indio como parte de una campaña más amplia contra la libertad de prensa y las voces progresistas. Durante su encierro, los pedazos de papel que iban y venían con las visitas se convirtieron en los primeros esbozos de esta historia del azúcar, la esclavitud y el capitalismo. Hay algo que encaja en esto: un estudio sobre los sistemas de confinamiento y explotación, escrito en condiciones de confinamiento por una mente que se negó a ser confinada.

El tema central del estudio es el azúcar, una de las grandes mercancías psicoactivas de la era colonial que, junto al alcohol, el chocolate, el café, el opio, el té y el tabaco, impulsó la Revolución Industrial. Antes de convertirse en un artículo cotidiano sobre las mesas de la clase trabajadora europea, el azúcar era un lujo consumido por reyes y aristócratas.

Su transformación en un artículo de consumo masivo exigió más que un cambio de gusto. Requirió el despojo de tierras, la destrucción de sociedades indígenas y la violenta mercantilización de seres humanos. Africanas y africanos capturados, transportados a través del Atlántico y vendidos a los dueños de las plantaciones como mano de obra esclavizada. El azúcar estuvo entre las primeras mercancías verdaderamente globales, y su transformación en tal mercancía demandó la construcción de un inmenso aparato comercial y financiero que conectaba a África, las Américas, Asia y Europa.

La riqueza acumulada mediante el azúcar no permaneció en las lejanas plantaciones caribeñas: financió la expansión comercial e industrial británica

La magnitud de la violencia colonial fue abrumadora. Al menos 10 millones de personas africanas esclavizadas desembarcaron en las Américas y el Caribe. Si se incluye a quienes murieron durante la captura, las marchas forzadas, el cautiverio y el Pasaje del Medio (la travesía forzada del Atlántico desde África hasta América), el número total de africanas y africanos capturados para la trata transatlántica fue probablemente de entre 14 y 20 millones.

Mientras que las poblaciones de Asia y Europa crecieron enormemente entre los siglos XVII y XIX, la población de África se estancó y, en muchas regiones, disminuyó. Esta catástrofe no fue una consecuencia accidental del comercio. Fue producida mediante lo que el estudio llama el “nexo armas-personas esclavizadas-oro”: las armas de fuego y la pólvora europeas se intercambiaban por personas africanas esclavizadas, cuya venta generaba las ganancias que reproducían el sistema.

La plantación construida para organizar y agotar esta fuerza de trabajo no era un vestigio de un mundo precapitalista más antiguo. Era uno de los laboratorios de la modernidad capitalista. En la plantación azucarera, el cultivo y el procesamiento industrial se integraban en un único régimen laboral en el mismo lugar. La caña debía cortarse, transportarse, molerse, hervirse y cristalizarse según un calendario rígido. Las personas esclavizadas eran organizadas en cuadrillas, divididas por edad y capacidad física, y sometidas a jornadas que podían durar de 18 a 20 horas durante la zafra.

Los administradores de las plantaciones llevaban contabilidades minuciosas, calculaban la productividad, medían la subsistencia frente a los costos de reemplazo y trataban a los seres humanos como capital fijo, como máquinas para ser agotadas y reemplazadas. La plantación era, como escribió el antropólogo estadounidense Sidney Mintz, una “síntesis de campo y fábrica”. Sus cálculos de tiempos y movimientos prefiguraron los sistemas de gestión asociados más tarde con el lugar de trabajo industrial moderno.

Las refinerías de azúcar de Londres, Bristol, Glasgow y Liverpool estuvieron entre los primeros centros de trabajo de tipo fabril de Gran Bretaña. A su alrededor crecieron el transporte marítimo, la construcción naval, el almacenamiento, los seguros, el crédito y la banca. Hacia 1774, el azúcar crudo representaba una quinta parte de todas las importaciones británicas. Entre 1700 y 1800, las importaciones británicas de azúcar aumentaron siete veces.

La riqueza acumulada mediante el azúcar no permaneció en las lejanas plantaciones caribeñas: financió la expansión comercial e industrial británica. Una estimación sugiere que, hacia 1770, cerca del 40% del capital utilizado para esta expansión provenía de las ganancias de la trata de personas esclavizadas. Las inversiones en las colonias podían ser de cuatro a siete veces más rentables que las inversiones en Inglaterra. En otras palabras, las colonias aportaron el pago inicial que hizo posible la Revolución Industrial en los centros imperiales.

La política colonial británica de preferencias imperiales aseguraba que las colonias suministraran materias primas mientras la manufactura permanecía en el centro imperial. El azúcar crudo cruzaba el Atlántico para ser refinado en Gran Bretaña, donde se retenían los mayores márgenes de ganancia. Los aranceles desincentivaban el refinado en el Caribe y protegían tanto a los refinadores británicos como a las plantaciones caribeñas de la competencia del azúcar indio. El colonialismo no se limitó a extraer riqueza de las colonias: reorganizó economías enteras para que sus capacidades productivas permanecieran subordinadas a las de la potencia colonizadora mucho después de que el dominio colonial terminara formalmente. Esto es lo que el primer presidente de Ghana, Kwame Nkrumah, llamó neocolonialismo.

La máquina de vapor de James Watt está manchada con la sangre de las personas africanas esclavizadas en las plantaciones y del campesinado indio hambriento

Prabir, desde la cárcel central de Rohini, trazó el circuito del capital no como un simple triángulo atlántico, sino como un sistema planetario de saqueo que conectaba a la India, África, las Américas y Europa. Los comerciantes europeos enviaban textiles indios a África occidental y los intercambiaban por personas esclavizadas.

El salitre de Bengala, esencial para fabricar pólvora, ayudó a armar ese comercio espantoso. Tras la conquista británica de Bengala en 1757, los ingresos por tierras extraídos del campesinado indio pagaron estas exportaciones. El triángulo atlántico fue, por tanto, parte de una geometría de saqueo mucho más amplia que se extendía por todo el planeta. La máquina de vapor de James Watt está manchada con la sangre de las personas africanas esclavizadas en las plantaciones y del campesinado indio hambriento.

Nunca sabremos si hubiera podido existir un capitalismo imaginario en un mundo sin colonialismo. La historia no ocurre en mundos imaginarios. El capitalismo realmente existente es inseparable de la expropiación colonial. El capitalismo no tomó forma primero en el campo inglés para luego expandirse pacíficamente por el planeta. Su historia debe situarse simultáneamente en el campo inglés, la plantación caribeña, la mina de plata de Potosí, el patio de retención africano, la oficina de recaudación india, la bodega del barco que transportaba a las personas esclavizadas y la refinería europea.

Esta historia también nos impide tratar lo que Karl Marx llamó ursprüngliche Akkumulation [acumulación originaria] como un episodio concluido. Sus métodos siguen entre nosotros: el despojo de tierras, la subordinación de las economías a la producción monoexportadora, los regímenes de deuda, el intercambio desigual, la subvaloración del trabajo del Sur y la transferencia de riqueza hacia sistemas financieros controlados por el Norte. Las formas han cambiado, pero la expropiación continúa.

Si se toman en serio estos antecedentes de explotación, entonces la demanda de reparaciones coloniales no puede descartarse como un mero llamado moral o una exigencia que mira hacia atrás. Las reparaciones deben entenderse como una necesidad material y política. No solo como un ajuste de cuentas con los crímenes del pasado, sino como una confrontación con las estructuras de acumulación vigentes que se construyeron mediante la expropiación colonial y que continúan reproduciendo la desigualdad global en el presente.

Este es el argumento del reciente libro de Kwesi Pratt Jr., Reparations: History, Struggle, Politics, and Law [Reparaciones: historia, lucha, política y derecho], que próximamente será publicado en una nueva edición sudafricana por Inkani Books. La edición incluye un prólogo del presidente de Ghana, John Dramani Mahama, y un epílogo de la profesora Verene Shepherd. Las reparaciones —ya sea mediante la cancelación de la deuda, la restitución de recursos robados, la transferencia de tecnología o la reconstrucción de capacidades públicas destruidas por el colonialismo y el ajuste estructural— son un antídoto esencial frente a la larga historia de saqueo que fundó el capitalismo moderno.

Esta nunca fue solo una historia de explotación. El sistema de plantación fue disputado en todas sus etapas. Las personas esclavizadas huían, saboteaban la producción, preservaban prácticas culturales prohibidas, formaban comunidades cimarronas, organizaban rebeliones y, en definitiva, quebraron la aparente permanencia de la esclavitud. La Revolución Haitiana, que culminó en la independencia en 1804, sigue siendo la declaración más contundente de esta verdad: incluso la maquinaria de opresión más sofisticada puede ser derrotada por quienes la padecen.

En 1935, el poeta marxista haitiano Jacques Roumain (1907-1944), indignado por el intento constante de asfixiar a su país, escribió Guinea. Ese poema, traducido al inglés por su amigo Langston Hughes, es una poderosa evocación de los orígenes africanos de Haití y de su lucha permanente por la dignidad:

Es el largo camino a Guinea:
La muerte te conducirá.
He aquí las ramas, los árboles, la selva
Escucha el sonido del viento en los largos cabellos de
eterna noche.

Es el largo camino a Guinea:
Tus padres te esperan sin impaciencia
En la ruta conversan
Te esperan
Es la hora en que los arroyos crepitan
Como rosarios de huesos
Es el largo camino a Guinea:
No se te hará una acogida luminosa
En la tierra oscura de los hombres oscuros:

Bajo un cielo humeante, atravesado de gritos de pájaros
Alrededor del ojo del río
Las pestañas de los árboles se abren a la claridad que se desvanece
Allí te esperan al borde del agua un pueblo apacible
La choza de tus padres y la dura piedra ancestral
Donde tu cabeza reposará por fin.

Fuente: https://thetricontinental.org/es/newsletterissue/las-raices-del-capitalismo/

Em

Rebelion

https://rebelion.org/las-raices-del-capitalismo-pasan-por-la-esclavitud/

25/8/2026 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Mientras en occidente discutíamos sobre el fin de la historia, China construía el futuro.

 

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