quarta-feira, 27 de maio de 2026

Marx, Kalecki e o sonho desenvolvimentista no Brasil

 


– Homenagem a Jorge Lobo Miglioli (1935-2025)

Carolina Alves [*]

Jorge Lobo Miglioli.

Conheci o Professor Jorge Miglioli no ano 2000, ano em que comecei minha graduação em Economia na UNESP, Araraquara – Brasil, plenamente convencida de que era o caminho certo para quem queria mudar o mundo. Cheguei a considerar Sociologia também, mas minha mãe (como qualquer outra mãe que sonha que seus filhos vão mais longe do que ela foi) bateu o pé: “Eu não trabalhei tanto para te dar uma boa educação para você virar professora de escola!”. E assim ficou decidido.

Pouco mais de um mês após o início do curso, eu me vi no meio de uma das mais longas greves das universidades públicas brasileiras. Aquela greve, tão cedo na minha trajetória acadêmica, fez com que eu questionasse se havia escolhido o curso certo. A maioria dos meus colegas simplesmente voltou para suas cidades natais, em vez de permanecer e se envolver com o que estava acontecendo. Não seria justo dizer que eram contra a greve; eles simplesmente não se importavam. Muitos vinham da classe média brasileira ou de classes superiores, o que reflete a esquizofrenia do nosso sistema de ensino superior gratuito. Eles seguiam um caminho claro rumo à elite, trabalhando em bancos, grandes corporações e afins, e a greve havia simplesmente interrompido essa trajetória. Tudo o que queriam era voltar às suas vidas normais. A situação era ainda pior no meu departamento, o Departamento de Economia, onde apenas dois, talvez três professores apoiassem a greve. A maioria deixou claro que era contra e desapareceu da universidade durante todo o período, que durou quase quatro meses.

Por outro lado, aquele momento me apresentou a outros estudantes de Economia e Ciência Sociais que ficaram, apoiaram a greve e abriram a porta para uma disciplina de Economia que realmente importava. Eles também se tornariam queridos amigos. Foi por meio deles que comecei a estudar Karl Marx. Também conheci a presidente do Diretório Central dos Estudantes, Renata Belzunces, a estudante que liderava a greve no meu campus, admirada por muitos, incluindo o Professor Jorge Miglioli, e que se tornaria uma das mulheres mais inspiradoras que já tive como modelo.[1] E foi nesse momento que conheci também o Professor Jorge Miglioli.

Miglioli, que acabou se tornando “Miglis” para mim, um apelido de que ele nunca gostou, mas aceitou mesmo assim (não sei se lhe dei muita escolha!), era diferente. Não havia “mas” com Miglioli quando se tratava da greve. Lembro-me de ele dizer algo como:   “Como mais vocês esperam que os capitalistas e o governo nos ouçam?” Mas não era apenas o que ele dizia, era como ele dizia. Não havia tentativa de convencer, nenhum floreio retórico. Era mais como: por que estamos sequer debatendo isso? Seu tom carregava uma espécie de certeza tranquila e, por baixo dela, uma profunda frustração e desilusão com o fato de que aquilo precisasse ser explicado.

Mais tarde, descobri que, em 1962, quase 40 anos antes dessas conversas acontecerem, Miglioli havia escrito um pequeno livro intitulado Como são feitas as greves no Brasil? Ele estava no final dos seus vinte e poucos anos na época e o livro fazia parte da coleção Cadernos do Povo Brasileiro. A missão da coleção dizia tudo:

Os grandes problemas do nosso País são estudados nessa série com clareza e sem qualquer sectarismo; seu objetivo principal é o de informar. Somente quando bem-informado é que o povo consegue emancipar-se.

Esse livro foi provavelmente a primeira vez em que vi a Economia tão claramente, e de forma tão eloquente, entrelaçada com política, classes sociais, termos como capitalismo e conceitos como imperialismo. Lembro-me de ter dito “sim!” em voz alta logo no início, quando Miglioli escreveu que greves são feitas para paralisar a produção, então, se não prejudicam os capitalistas, não servem para nada; não são eficazes. E depois me lembro de ter ficado pensativa, tentando processar o que vinha a seguir:   “No entanto, uma greve não é realizada com a intenção de prejudicar os capitalistas, mas sim de beneficiar os trabalhadores” (Miglioli, 1962, p. 11).

Mais tarde, também vim a saber que a distinta trajetória acadêmica de Miglioli esteve profundamente entrelaçada ao seu compromisso com a luta comunista. Membro histórico do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ele contribuiu para a Revista Estudos Sociais, uma publicação do Partido voltada a intervir no discurso sobre os problemas mais urgentes do Brasil. No âmbito do PCB, Miglioli é reconhecido por avançar a compreensão do Partido sobre a luta de classes, as dinâmicas da economia capitalista e as possibilidades de construção do socialismo no Brasil.

Miglioli tinha um profundo conhecimento de Karl Marx e Michał Kalecki, e era assumidamente anticapitalista, embora nem todos os marxistas no Brasil concordassem com isso (e o fato de ele dirigir um Toyota Corolla não caía bem entre setores da esquerda!). Para Miglioli, os marxistas haviam dedicado tempo demais a estudar a classe trabalhadora e tempo de menos a estudar a burguesia. Ainda assim, as classes sociais, o trabalho e as lutas dos trabalhadores foram sempre centrais em sua obra, em sua visão de mundo e em suas inquietações. O fato de que os economistas e a Economia, como disciplina, estavam se afastando cada vez mais dessas questões não era apenas frustrante para ele, era uma derrota. E essa derrota muitas vezes se transformava em uma tristeza profunda, uma espécie de permanente nostalgia que eu só comecei a compreender melhor à medida que nos tornamos amigos.

Ele tinha frustrações semelhantes com os sociólogos. Para Miglioli, a era pós Queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética inauguraram uma espécie de névoa triunfante: a ideia de que o capitalismo havia vencido, de forma definitiva e heroica. Esse clima não apenas tornava o tema do “fim do capitalismo” algo ultrapassado, como também deu origem a um vasto corpo de literatura celebrando os supostos méritos desse sistema socioeconômico, agora liberalizado e globalizado, aparentemente destinado a perdurar até o fim dos tempos (Miglioli, 2007, p. 97). Miglioli tinha pouquíssima paciência para essa literatura sobre “sociedades pós-industriais”, “sociedades pós-capitalistas” e “o fim do trabalho”. Para ele:

(…) quase toda essa literatura não trata efetivamente do fim do capitalismo como sistema socioeconômico (ou como "modo de produção", na linguagem marxista), mas apenas de algumas mudanças mais ou menos profundas ocorridas dentro desse sistema, sendo que, não raramente, diversas são mais imaginárias do que reais (como o "fim do mundo do trabalho") (Miglioli, 2007, p. 98).

Na verdade, grande parte dessa literatura, argumentava ele, simplesmente reempacotava o capitalismo contemporâneo com novos nomes, apresentando-o como de alguma forma “melhor” ou superior ao “velho capitalismo” estudado por Marx. E “melhor” podia significar qualquer coisa: mais eficiente, mais equitativo, mais emancipador, “ou mais qualquer outra coisa a gosto do autor” (Miglioli, 2007, p. 98).

Admiração intelectual: a macroeconomia crítica

Quando a greve terminou, percebi que veria Miglioli todas as semanas durante um semestre inteiro, já que ele daria a disciplina de Introdução às Ciências Sociais para os estudantes de Economia (sim, eu fiz um bacharelado em Economia no qual uma das disciplinas era Introdução às Ciências Sociais!). Meu primeiro ano inteiro foi, na verdade, bastante incrível: tive Instituições de Direito, História do Pensamento Econômico, História do Pensamento Político e até Contabilidade! Mas o curso do Miglioli era, sem dúvida, o ponto alto. Antes de mais nada, ele entrava na sala, sentava-se à mesa, abria seu caderno (de páginas amareladas, sugerindo que o acompanhavam havia décadas), e acendia um cigarro. Ele nunca se levantava. E fumava pelo menos uns dez cigarros por aula! A minha memória daquelas aulas também é uma mistura rica de anedotas da vida de Miglioli, que era basicamente uma história viva do pensamento político e econômico brasileiro.

O conteúdo principal entrelaçava a história da sociologia como uma ciência burguesa e antimarxista, com uma crítica constante, afiada e muitas vezes pungente à disciplina da economia. Não era apenas ensino, era narrativa, análise política e uma forma de resistência intelectual, tudo ao mesmo tempo. Foi em uma dessas aulas que Miglioli nos perguntou: “Vocês sabem para que serve a estatística para os economistas?” Seguiu-se aquele silêncio típico de sala de aula. Ele esperou e então disse:   “É uma maneira de espancar os números até que eles digam o que você quer.” Esse era o estilo do Miglioli: transmitir conhecimento por meio de anedotas e piadas afiadas e espirituosas, sempre pontuadas com porra, um palavrão inaceitável para a maioria dos brasileiros em ambientes formais — exceto, claro, para os cariocas. Suas aulas nunca eram convencionais, e eram memoráveis. Ele ensinava com um tipo de brilhantismo irreverente que fazia você rir, pensar e questionar tudo o que achava que sabia sobre Economia.

Depois da aula, eu frequentemente ia atrás de Miglioli com a desculpa de fazer alguma pergunta sobre a matéria quando, na verdade, eu só queria continuar ouvindo-o falar sobre e/Economia. Logo, soube por amigos, que Jorge Miglioli era “o” economista no Brasil. Ele havia sido membro do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), um instituto fundado em 1955 no Rio de Janeiro para promover uma reflexão crítica sobre o desenvolvimentismo, buscando formular uma estratégia nacional de desenvolvimento e construir um quadro ideológico capaz de orientar a burguesia a liderar a transformação econômica, social e cultural do Brasil. Tinha trabalhado com Nelson Werneck Sodré e Álvaro Vieira Pinto, dois gigantes intelectuais Brasileiros do século passado na área de desenvolvimento econômico e social. Havia sido exilado durante a ditadura militar e tinha feito seu doutorado com Michał Kalecki na Polônia. Também havia sido ele a introduzir Kalecki e o conceito de demanda efetiva ao público brasileiro.

No entanto, eu nunca senti nele qualquer traço de grandiosidade, muito pelo contrário. Ele sempre encontrava tempo para os estudantes, para mim. Vinda de uma família não acadêmica e de um contexto distante daquele ambiente bem-educado e rico que tantas vezes domina os espaços universitários no Brasil, eu achava o ambiente acadêmico pouco acessível. Mas, com Miglioli, eu nunca precisei me preocupar com nada disso. O estilo de vida dele era simples e conversar com ele era sempre divertido, sempre encorajador; eu sempre saía tendo aprendido algo novo, sem sentir-me ansiosa por não estar no nível dos meus colegas.

Não demorou muito para que eu começasse a me perguntar por que Miglioli não estava nos ensinando macroeconomia. Nunca descobri de fato o motivo. Quando lhe perguntei, ele não demonstrou a menor preocupação, disse simplesmente “que não queria ter nada a ver com a Economia”. Miglioli fez bacharelado em Ciências Sociais, mestrado em Planejamento e doutorado em Economia. Sob a supervisão de Kalecki na Escola de Estatística e Planejamento de Varsóvia, ele se aprofundou no estudo do planejamento econômico socialista, um conjunto de trabalhos que mais tarde se tornou o livro Introdução ao planejamento econômico, publicado em 1982. Essa contribuição o posicionou como uma figura central na conformação do debate sobre planejamento econômico no Brasil, articulando teoria e prática na busca por uma ordem econômica mais justa. Seu trabalho de pós-doutorado, Acumulação de Capital e Demanda Efetiva, foi publicado como livro em 1981 e é considerado um marco para a introdução da macroeconomia no Brasil.

Curiosamente, Miglioli não deu muita atencão ao Keynes no seu livro Acumulação de Capital e Demanda Efetiva. Claro, há referências, mas nenhuma discussão real. Nunca lhe perguntei o porquê; e nas nossas conversas, Keynes nunca apareceu com destaque. O grande tema sempre foi economia política, Marx e Kalecki. E, sinceramente, com o que o livro oferece, é difícil sentir que Keynes faz falta. A Parte I trata da Lei de Say (a base da economia clássica e neoclássica) e das críticas de Thomas Malthus e J. C. L. Sismondi. Depois, há uma seção inteira dedicada a Marx, com um foco intenso em marxistas russos como Mikhail Tugan-Baranovski e uma parte inteira sobre Rosa Luxemburg. É uma obra rica, multifacetada, que reflete os compromissos intelectuais de Miglioli e sua recusa em diluí-los.

Se Joan Robinson argumentou que é possível ver uma teoria incipiente da demanda efetiva em Marx (Robinson, 1966; Alves, 2022), Miglioli foi além. Valendo-se de uma de suas grandes qualidades, a clareza didática, ele expôs e explicou a teoria da demanda efetiva de Marx e dos marxistas, conhecida, na linguagem marxista, como a teoria da realização. De maneira original, mostrou como a oferta nas economias capitalistas sempre tende a exceder a demanda, impulsionando aquilo que Marx identificou como uma das contradições centrais do capitalismo:   a produção ultrapassando a demanda monetária necessária para absorver o produto, levando a crises de superprodução, ou, de forma mais ampla, à desproporcionalidade.

Seu engajamento com os autores mencionados acima foi sempre guiado por esse problema, seja por meio dos marxistas russos e seus debates sobre subconsumo, comércio internacional e trabalho improdutivo, seja por meio da abordagem subconsumista de Rosa Luxemburgo. Miglioli não fazia concessões ao defender Luxemburgo e Marx. Ele argumentava que ambos estavam absolutamente corretos ao identificar o subconsumo no curto prazo, enraizado na contradição entre a crescente capacidade produtiva e os limites estreitos do consumo (Miglioli, 1981). Para Miglioli, essa era a razão por trás das crises de desproporcionalidade, e o problema fundamental da demanda efetiva.

Essa foi a minha introdução à macroeconomia, via Marx, Luxemburgo, Kalecki e planejamento econômico! Tudo graças a Miglioli. Por uma ironia do destino, em 2017/18, tudo isso retornou com muita força em meus pensamentos quando eu dizia que era macroeconomista no próprio departamento do Keynes, o Departamento de Economia da Universidade de Cambridge, na Inglaterra; mas era recebida com ceticismo porque eu não conseguia nomear o modelo que usava. Fiquei intimidada, não sabia como responder e pensei que era melhor começar a dizer que sou economista política. Mas hoje, escrevendo este texto, queria ter dito para mim mesma naquela época: “Porra, Carolina, para de levar economista tão a sério!”

Olhando para trás, agora acho que a decisão de Miglioli de deixar Keynes de fora foi deliberada. Ele queria introduzir a demanda efetiva por meio de Marx. Minha compreensão de macroeconomia nunca foi moldada pela síntese neoclássica IS–LM–MP, por modelos DSGE ou por estruturas de equilíbrio.[2] Fui moldada por economistas do desenvolvimento, teóricos da dependência e por Miglioli. Dele herdei a insistência em discutir capitalismo, mais‑valia, a determinação de lucros e salários, a acumulação de capital, sempre tendo em vista as classes sociais, o imperialismo e o desenvolvimento econômico. Essa abordagem, em diálogo com pensadoras como Rosa Luxemburgo, moldou profundamente minha compreensão do campo. É isso que significa macroeconomia para mim, ainda que tudo ao meu redor pareça sugerir que essa compreensão é equivocada.

A amizade: entre a minha formação e a sua desilusão

Desde aquele primeiro encontro em 2000, ainda no meu primeiro ano da graduação, acabamos nos tornando amigos. Miglioli também se tornou meu orientador do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Quando eu disse que queria estudar capital financeiro, ele respondeu:   “Antes de entrar no mundo das finanças, você precisa aprender que capital é, antes de tudo, uma relação social”. Grande parte da minha monografia acabou girando em torno disso por causa dele, algo que até hoje considero essencial para a minha leitura de Marx e para a minha crítica à economia neoclássica. Aquele primeiro contato com pesquisa também despertou em mim uma paixão e uma valorização profunda pela teoria, algo do qual não abro mão, mesmo em uma era dominada por dados e por políticas evidence‑based.

Eu tinha dificuldade para ler por longos períodos e para escrever no estilo acadêmico. Por isso, passávamos horas discutindo cada autor que ele me pedia para estudar, e ele me obrigava, com a paciência de quem sabe o que está fazendo, a sentar à mesa dele e escrever. Eu simplesmente não existiria como pesquisadora se não fosse por ele. Muitos outros teriam me ignorado, porque não consideram esse trabalho extra, o de nutrir estudantes que vêm “de trás”, sem “cultura acadêmica” como background, como parte de suas responsabilidades. Eu não era a estudante mais brilhante da turma. Não me parecia com a maioria dos acadêmicos no Brasil. Eu não falava outras línguas, não era boa em matemática, nunca tinha viajado para fora, e não carregava aquele repertório confortável de “boas” músicas brasileiras ou da literatura brasileira e internacional. Mas Miglioli nunca julgou minha capacidade ou inteligência por nada disso. Ele viu valor na minha perspectiva, e me apoiou. Ele me fez sentir segura, inteligente.

Nossa amizade não terminou quando concluí a graduação. Miglioli incentivou e apoiou minha decisão de fazer um Mestrado em Sociologia. Enquanto ele lecionava em Araraquara, uma cidade a 181 km de sua casa em Campinas, passou a dividir uma casa comigo e com outras três amigas, Renata Zambelli, Francine Hirata e Stela Godoi. Da minha parte, eu queria evitar que ele ficasse sozinho em um hotel; mas meu argumento oficial era outro (e também verdadeiro):   com a ajuda dele, poderíamos dar um pequeno passo adiante, morar em um lugar menos estudantil, mais adequado para nos prepararmos para as provas de ingresso no mestrado. (As imobiliárias em Araraquara oferecem muito mais opções quando o locatário é um professor universitário!)

Ele também me dava carona até Campinas e abria sua casa para mim quando eu assistia, como ouvinte, disciplinas de pós-graduação na Universidade Estadual de Campinas para me preparar para o Mestrado. Eu jamais teria condições de arcar com aquelas viagens sozinha. Em Campinas, conheci sua família: seus filhos, Rafael, Daniel e Aline, e Marli, sua ex-mulher. O cuidado entre eles era incondicional; as preocupações de pai, carregadas de certos arrependimentos, eram evidentes, assim como suas alegrias e o orgulho radiante de ser o “papai”.

Ele esteve ao meu lado durante os dois anos do meu Mestrado, mesmo que nunca tenha deixado de criticar minhas escolhas teóricas: o Marxismo vindo de Georg Lukács e a Ontologia do Ser Social (Trabalho). E, muitas vezes, demonstrava um orgulho silencioso, quase uma alegria cúmplice, pelo fato de eu ser a primeira orientanda do Professor Jesus José Ranieri, então o docente recém-contratado no departamento, alguém de quem ele só ouvira elogios. Saber que eu estava sendo orientada por ele parecia, para Miglioli, uma confirmação de que eu estava no caminho certo, mesmo quando minhas escolhas teóricas o faziam resmungar.

Miglioli também foi um dos meus examinadores e, durante a minha defesa em 2007, simplesmente não conseguiu se conter: “Porra, Carolina, eu te disse que toda essa coisa do Hegel não ia ajudar!” E, ainda assim, dois anos antes, ele próprio tinha me dado meu primeiro livro sobre Hegel. E três anos antes disso, tinha me incentivado, com entusiasmo genuíno, a conversar com Maria Orlanda Pinassi, cuja produção intelectual é profundamente influenciada por Lukács, entre outros, e por quem ele nutria enorme admiração. Ela também foi uma das pouquíssimas pessoas a quem eu o ouvi se referir abertamente como amiga.

Ele também me apoiou sem hesitar quando decidi viajar ao exterior por seis meses, em 2007, para aprender inglês, na tentativa de alcançar rapidamente o nível dos meus colegas, que quase todos falavam uma segunda língua. E quando, em 2010, contei que queria voltar ao Brasil, ele foi categórico: “Não. As coisas no Brasil estão tomando um rumo muito ruim. Não é o momento de voltar. Faça seu doutorado aí (Inglaterra)”. Ele estava absolutamente convicto de que eu não deveria retornar, certo de que o Brasil caminhava para um declínio econômico e político. Insistia que não haveria nada no Brasil para mim. Hoje me pergunto: “como ele sabia que o país estava prestes a entrar em um dos períodos mais difíceis de sua história moderna?”

Ele era humilde. Simples. Vinda de São Carlos, uma cidade universitária, minha imagem de professores era moldada por aqueles que viviam em casas luxuosas, em bairros ricos, arrogantes, distantes, superiores. Mas nunca foi assim com Miglioli ou com sua família, que passei a conhecer bem. A casa dele parecia uma mistura de casa de praia despretensiosa com um bangalô dos anos 1960. Nada de luxo, nada de etiqueta. Apenas aconchego. Seu escritório/biblioteca, a primeira biblioteca particular em que entrei na vida, não era nada intimidadora, apesar de ter o que parecia ser zilhões de livros. Era simples, bagunçada no seu próprio modo organizado. Acolhedora. Aconchegante. O tipo de espaço que faz você querer se sentar, ler e ficar ali por horas. É o escritório/biblioteca que sonho ter um dia na minha própria casa.

Ele nunca foi cheio de si por causa do próprio passado. Nunca mencionava Kalecki a menos que alguém perguntasse. E mesmo assim, sempre começava dizendo: Kalecki era um cavalheiro. E em algum momento, ele inevitavelmente acrescentava: “Eu não era o único lá. Eu não era especial”. Acredito que, para Miglioli, era importante nos lembrar que Kalecki havia acolhido muitos brasileiros que fugiam da ditadura. Nomes como Leandro Konder surgiam de forma casual, enquanto ele relembrava o Rio de Janeiro pré‑golpe; um tempo que, em seu relato, não era apenas politicamente vibrante, mas também cheio de longos dias ensolarados na praia com amigos como Leandro! Com Nelson (Nelson Werneck Sodré) era a mesma coisa. Miglioli geralmente o mencionava ao reclamar, brincando, de quando queria dormir no escritório depois de ter saído na noite anterior, mas não conseguia porque dividia a sala com Nelson, que estava sempre lá, religiosamente, datilografando em sua escrivaninha perfeitamente organizada. Tlec‑tlec‑tlec, o dia inteiro.

Sempre que Miglioli falava sobre seu papel na fundação do que hoje é um dos mais importantes polos de economia heterodoxa do Brasil, e, sem exagero, do mundo, o Instituto de Economia da UNICAMP (originalmente o Departamento de Economia e Planejamento Econômico, DEPE), suas palavras vinham muitas vezes marcadas por uma certa decepção. Era possível ouvir em sua voz tanto a esperança que um dia teve quanto a profunda e dolorosa desilusão com aquilo que o Instituto, e a Economia de modo mais amplo, estavam se tornando. Ainda assim, ele se iluminava sempre que o visitávamos o Instituto. Velhos amigos, administrativos e acadêmicos, o abraçavam com afeto, e logo começavam a surgir histórias, atualizações sobre a família e muitas risadas. Especialmente quando encontrava Wilson Cano (aqueles dois podiam conversar por horas; sério, sem exagero!). Essa reação mista surgia também quando Caio Navarro de Toledo, um amigo que, segundo Miglioli, “nunca o esquecia”, telefonava. Da conversa, sempre emergia uma frustração, uma tristeza quase resignada, ligada à sensação de que eles estavam discutindo as mesmas questões de décadas antes.

Era igual quando ele falava sobre o Brasil dos anos anteriores ao golpe de 1964. A forma como descrevia a energia daquele período, a certeza da mudança, a crença na emancipação, no fim da dependência e da desigualdade. Era como se ele transmitisse, ao mesmo tempo, um sentido de vida e um sentido de perda. O impacto de um sonho desfeito era muito visível. Recentemente, ao revisitar a obra de Celso Furtado e ao ler Celso Furtado, correspondência intelectual: 1949–2004, de Rosa Freire D’Aguiar, notei em Furtado, pela primeira vez, o mesmo sentimento pungente e derrotado que sempre esteve presente em Miglioli. Só posso imaginar o que deve ter sido: estar à beira de uma mudança real, acreditar que o Brasil poderia se tornar uma nação desenvolvida e independente, e, então, enfrentar um golpe de Estado, ir para o exílio e, anos depois, voltar apenas para perceber que não era possível retomar o caminho interrompido. Pior ainda: testemunhar a “corrupção de amigos e camaradas”. Miglioli falava disso com frequência, especialmente quando refletia sobre José Serra. Ainda assim, quando seu amigo Tamás Szmrecsányi morreu em 2009, aquela voz sempre tomada por derrota e desalento suavizou. Para Miglioli, a integridade acadêmica e política de Tamás contrastava profundamente com a desilusão que ele sentia em tantos outros lugares.

As histórias que ele contava sobre o que parecia ser um “mágico” tempo vivido no Rio de Janeiro vinham sempre acompanhadas de um carinho imenso pela mãe. Muitas vezes, Miglioli relembrava o episódio em que, tomada pelo medo à medida que os rumores do golpe se espalhavam, ela queimou todos os seus livros numa tentativa desesperada de protegê‑lo. Salvou apenas um, O Capital, de Karl Marx, porque achou que capital se referia a sede de governo de um país, estado ou província, e concluiu que aquele livro, entre todos, não representava ameaça alguma.

Ele amava tango, samba e filmes italianos. E me educou nos três, submetendo-me a assistir, com um entusiasmo quase pedagógico, ao que deve ter sido cada filme já produzido por Vittorio De Sica. Mas, mais do que isso, ele me ajudou, indiretamente e sem perceber, a reconstruir minha relação com a minha mãe. Por duas razões: o profundo amor e admiração que nutria pela própria mãe e os desafios que enfrentou como pai, desafios que, de forma surpreendente, espelhavam os meus com a minha própria mãe. Com ele, eu finalmente consegui enxergar o outro lado.

Sempre que eu visitava o Brasil e conseguia ver o Miglioli, eu saía com uma dor pesada no peito, pensando que talvez fosse a última vez. E quando o filho dele, Rafael, me disse que ele já não se lembrava mais de mim, aquela mesma dor voltou de repente. Mas hoje, a sensação é diferente. Não é apenas a dor da despedida, é a sensação de que uma luz que eu nem percebia que estava acesa foi apagada. A ausência dele deixa um silêncio que é ao mesmo tempo pessoal e coletivo.

Descanse em poder, Miglioli.

Miglioli faleceu pacificamente em casa na manhã de domingo, 24 de agosto de 2025, aos 89 anos. Deixou dois filhos, Rafael e Daniel, e uma filha, Aline.

   [1] Renata cursava simultaneamente Economia e Sociologia quando atuou como diretora do nosso Diretório Central dos Estudantes UNESP–FATEC “Helenira Resende” (DCE‑HR, ou simplesmente DCE), a instância política que representa todos os estudantes da UNESP e das FATECs. Batizado em homenagem a Helenira Resende de Souza Nazareth, militante guerrilheira, integrante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e da Guerrilha do Araguaia, o DCE carrega um poderoso legado de resistência.
   [2] A macroeconomia dominante do pós‑guerra foi amplamente estruturada em torno da chamada síntese neoclássica e, mais tarde, dos seus desdobramentos formais nos modelos de equilíbrio geral dinâmico e estocástico (DSGE). Desde o esquema IS–LM, passando pela sua reinterpretação moderna (IS–MP), até à consolidação dos DSGE como paradigma hegemónico, o objetivo central foi integrar a instabilidade keynesiana num arcabouço analítico compatível com microfundamentos neoclássicos, expectativas racionais e a tendência ao equilíbrio.

Bibliografia
Alves, C. (2022.) ‘Joan Robinson on Karl Marx: "His Sense of Reality Is Far Stronger".’ Journal of Economic Perspectives 36 (2): 247–64.
D'Aguia, R. F. (2021) Celso Furtado, Correspondência intelectual: 1949-2004. São Paulo: Companhia das Letras.
Miglioli, J. 2004 [1981] Acumulação de Capital e Demanda Efetiva. 2nd Edition. São Paulo: Hucitec.
Miglioli, J. (1982) Introdução ao planejamento econômico. São Paulo: Editora Brasiliense.
Miglioli, J. (1962) Como são feitas as greves no Brasil? Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira.
Miglioli, J. (2007) ‘Schumpeter e o perecimento do capitalismo e da burguesia’. Estudos de Sociologia, v. 7, n. 12.
Robinson, J. (1966) [1942] An Essay in Marxian Economics. 2nd ed. New York: Macmillan, St Martin’s Press.

25/Agosto/2025

[*] Professora Associada de Economia no Institute for Innovation and Public Purpose (IIPP), University College London (UCL), Reino Unido; Fellow em Economia no Girton College, University of Cambridge, carolina.alves@ucl.ac.uk

Este obituário encontra-se em resistir.info

https://resistir.info/brasil/miglioli.html 

 
Comentários em https://t.me/resistir_info

sábado, 23 de maio de 2026

Para onde vai o excedente?

 


– As burguesias periféricas e a política de desinvestimento

Emiliano López [*]

Paul Baran abre A Economia Política do Crescimento (1957) com uma pergunta que a maioria dos economistas do desenvolvimento ainda se recusa a levar a sério:   se as economias periféricas geram um excedente económico — a diferença entre o que a sociedade produz e o que precisa para se reproduzir —, por que razão tão pouco desse excedente se traduz em desenvolvimento produtivo? O excedente existe. Em muitos casos, representa uma fração substancial do rendimento nacional. O obstáculo não é a escassez. É o que as classes dominantes fazem com o que extraem.

Baran distinguiu entre o excedente real — o que efetivamente se poupa e se acumula — e o excedente potencial:   o que uma economia poderia acumular se a ordem social existente não o desperdiçasse. Esse desperdício assume quatro formas:   o consumo excessivo das classes proprietárias, o trabalho improdutivo, a organização irracional da produção e o desemprego. Nos países periféricos, a combinação é devastadora. Os proprietários de terras gastam as suas rendas em importações de luxo e em residências urbanas, em vez de melhorarem a produtividade agrícola; o capital mercantil circula na usura e na especulação, em vez de na produção de bens e serviços; os monopólios estrangeiros repatriam lucros, em vez de os reinvestirem localmente. Baran documentou isto com rigor empírico:   "A maior parte deste excedente não é utilizada para expandir nem melhorar as instalações e os equipamentos produtivos". Grandes parcelas do excedente fluem para o exterior, são consumidas suntuosamente ou são absorvidas por operações financeiras sem conteúdo produtivo.

Baran e Sweezy aprofundaram o argumento em O Capital Monopolista (1966):   sob o capitalismo monopolista, o excedente tende a crescer à medida que os canais de investimento produtivo se contraem, o que empurra o capital para as aplicações financeiras ao invés das produtivas. O que este quadro ainda exigia era uma análise de classes, ou seja, a identificação do agente social específico cujas escolhas produzem estes resultados. Vania Bambirra, a partir da tradição dependendista latino-americana, refletiu sobre este problema. A autora refutou duas ilusões simultâneas:   a expectativa de uma aliança anti-imperialista com uma "burguesia nacional progressista" e a convicção da CEPAL de que o capital industrial impulsionaria organicamente a transformação nacional. Ambas interpretaram mal a estrutura de classes que realmente existe na América Latina. A grande burguesia na América Latina não é uma burguesia nacional frustrada, à espera das condições adequadas para investir produtivamente. É uma classe cuja acumulação está constitutivamente articulada com o imperialismo — dominante no plano interno, subordinada no plano internacional — cujos interesses materiais contradiziam o tipo de desenvolvimento que ambas as tradições esperavam desta classe.

Com dados sistemáticos de 36 países ao longo de 28 anos (1996–2023), estas não são apenas afirmações teóricas.

Medindo para onde vai o excedente

O rácio de Baran mede a proporção do excedente económico — o PIB menos a remuneração total dos assalariados — que se destina à formação bruta de capital fixo:   maquinaria, infraestruturas, equipamento e os fundamentos materiais da capacidade produtiva. Isto capta algo que os rácios investimento-PIB obscurecem:   dividir o investimento pelo produto total confunde o excedente controlado pelo capital com o rendimento salarial auferido pelos trabalhadores. A questão que Baran colocava não é quanto do produto total um país investe, mas quanto do excedente que as classes dominantes controlam é destinado à acumulação produtiva e quanto não é. Ambas as coisas podem evoluir em direções muito diferentes e, na periferia, fazem-no sistematicamente.

Figura 1. Rácio de Baran por Posição Estrutural (1996–2023)
Figura 1.
Fonte:   elaboração própria com base em dados do BM, FMI e Penn World Table.

A média global do rácio de Baran na nossa amostra de 36 países é de 50% — aproximadamente metade do excedente é destinada ao investimento produtivo. Essa média é menos informativa do que o que lhe está subjacente:   um gradiente que não é aleatório nem produto de dotações diferenciais ou de acidentes institucionais, mas sim uma expressão estrutural da posição na hierarquia global do capital.

Ao longo de todo o período de 1996 a 2023, a Coreia do Sul reinveste produtivamente 70% do seu excedente; a China, 64%. Mas estas médias do período completo nivelam uma trajetória que variou drasticamente. Desde 2013 — o ano em que a China atingiu o seu pico de 98% e começou a estabilizar-se num novo patamar estrutural — o panorama é substancialmente diferente:   a China registou uma média de 88%, a Coreia do Sul de 74% e a Índia de 73%. As economias ocidentais, entretanto, seguiram na direção oposta. A Alemanha registou uma média de 67% entre 1996 e 2012; desde 2013, tem registado uma média de apenas 60%. A França manteve-se nos 63% e subiu para 66% — uma exceção num grupo que, em geral, tem visto a reinvestimento produtivo ser comprimido à medida que a financeirização avança. Os Estados Unidos mantiveram-se estáveis em torno dos 53-54% em ambos os períodos, o que reflete a estrutura particular da acumulação de capital norte-americana. Na extremidade inferior, a Periferia Subordinada latino-americana registou uma média de 36% ao longo de todo o período, sem melhorar significativamente:   a Argentina passou de 25% para 32% entre os dois subperíodos, e o México de 37% para 34%.

O que torna esta hierarquia analiticamente significativa é o facto de não se alinhar com o produto per capita, nem com a dotação de recursos, nem com as taxas nominais de investimento. Alinha-se com o grau em que o Estado subordinou historicamente a afetação do excedente a fins produtivos e, por trás disso, com as configurações de classe que tornaram possível ou encerraram essa subordinação. A correlação entre a taxa de mais-valia e o rácio de Baran entre países é r = −0,778:   nos países com maior exploração, o reinvestimento produtivo é mais baixo. Nas nações dependentes, a alta exploração e o baixo reinvestimento não são tendências independentes entre si. São duas faces da mesma estratégia de classe.

Figura 2. Perfil Estrutural por Posição na Economia Global
Figura 2.
Fonte:   elaboração própria com base em dados do BM, FMI e Penn World Table.

O gráfico radar torna visível o que os números agregados sugerem, mas não mostram na totalidade:   o perfil estrutural das economias ocidentais não é simplesmente diferente do da periferia, está constituído em relação a ela. A teoria da troca desigual de Arghiri Emmanuel oferece um complemento crucial ao Rácio de Baran. Enquanto Marx analisou a exploração no ponto de produção dentro de uma economia nacional, Emmanuel mostrou que a troca entre nações com níveis salariais sistematicamente diferentes transfere valor das economias de baixos salários para as de altos salários, mesmo na ausência de qualquer mecanismo explícito de coação. As taxas de mais-valia relativamente mais baixas na Alemanha e na França, de 0,48 e 0,53 respetivamente, face a 1,35 na Argentina e 1,73 no Peru, não são simplesmente o resultado de uma tecnologia mais produtiva ou de uma maior mobilidade laboral no centro. Sustentam-se, em parte, nos termos em que o capital do Norte importa bens produzidos no Sul em condições de superexploração, captando no diferencial de preços uma parte do valor produzido em condições salariais mais baixas. A baixa taxa de exploração do Norte e a alta taxa de exploração do Sul não são fenómenos independentes — estão interligados através dos circuitos do mercado mundial. Como mostra a Figura 2, quatro perfis estruturais distintos compõem um sistema único com uma divisão hierárquica do trabalho, do excedente e da reinvestimento.

A Figura 3 ordena as 36 economias de acordo com o seu rácio de Baran médio durante o período. A imagem torna inconfundível o agrupamento regional:   as economias latino-americanas ocupam a parte inferior da distribuição quase sem exceção, enquanto as economias do Leste Asiático e da Europa Ocidental se concentram no topo. O gradiente não é contínuo, mas apresenta quebras que correspondem a diferentes posições estruturais.

Figura 3. Classificação dos Países: Utilização Produtiva do Excedente (1996–2023)
Figura 3.
Fonte:   elaboração própria com base em dados do BM, FMI e Penn World Table.

China:   como se vê o contrário

Em 1996, a China reinvestia produtivamente 29% do seu excedente, abaixo da média latino-americana do período. O número merece ser analisado por um momento:   em meados dos anos 90, os trabalhadores chineses produziam um excedente que era proporcionalmente menos reinvestido na produção do que na Argentina ou na Colômbia. Em 2008, o rácio tinha atingido os 60% e, em 2013, atingiu o seu pico de 98% — praticamente todo o excedente foi redirecionado para o investimento produtivo, um valor sem paralelo no nosso conjunto de dados. Em 2023, tinha-se estabilizado em 88%, ainda muito acima de qualquer economia comparável. O que esta trajetória descreve não é simplesmente crescimento, mas sim transformação estrutural:   um triplo aumento na utilização produtiva do excedente em três décadas, sustentado ao longo de ciclos políticos, crises financeiras e condições globais em constante mudança.

O mecanismo por trás desta trajetória não é misterioso, mas requer uma especificação cuidadosa. O rácio de Baran da China não aumentou devido à transição do sistema socialista para o capitalista após a reforma e a abertura. Esta é uma explicação eurocêntrica:   todos os processos do mundo devem seguir a lógica da modernidade europeia. A China não se tornou mais eficiente porque as forças de mercado favoreceram, por acaso, o investimento produtivo. A melhoria ocorreu porque os sucessivos Planos Quinquenais subordinaram a alocação do excedente a objetivos produtivos explícitos — não como exercícios tecnocráticos de alocação de recursos, mas como instrumentos para integrar cadeias de valor nacionais, desenvolver capacidade tecnológica interna e mover progressivamente a estrutura produtiva para uma maior complexidade. No momento em que as economias ocidentais, desde a década de 1970, canalizaram uma parte crescente do excedente para a valorização financeira — encurtando o circuito do capital, inflacionando os preços dos ativos e desacoplando progressivamente os rendimentos financeiros da atividade produtiva —, o Estado chinês manteve o circuito longo:   excedente para investimento produtivo, investimento produtivo para capacidade ampliada, e a capacidade ampliada para uma integração mais profunda da estrutura produtiva nacional. O resultado é visível não só no rácio de Baran, mas também na composição das exportações chinesas, que passaram da montagem de baixo valor para a manufatura de alta complexidade precisamente durante o período em que o rácio aumentou.

Giovanni Arrighi, em Adam Smith en Pekín, atribuiu a ascensão da China à lógica smithiana da divisão do trabalho e da expansão do mercado. O que o rácio de Baran mostra é algo diferente:   a trajetória chinesa é impulsionada não pelo comércio, mas pela orientação sistemática do excedente para o investimento em capital fixo — uma lógica mais próxima da análise marxista da reprodução ampliada do que da leitura smithiana do desenvolvimento comercial.

Isto é importante para o argumento mais amplo deste artigo porque ilustra o que o quadro que desenvolvemos no nosso artigo anterior, Construindo soberanía, capta através da dimensão da dependência produtiva:   a importância do grau em que uma economia controla a sua própria estrutura produtiva, em vez de ocupar uma posição subordinada em cadeias de valor controladas a partir do exterior. A ascensão da China foi simultaneamente um aumento do rácio de Baran e uma redução da dependência produtiva, e ambos os processos não são independentes um do outro. A capacidade de reinvestir o excedente de forma produtiva e a de desenvolver uma estrutura produtiva autónoma condicionam-se mutuamente:   o investimento aprofunda a cadeia de valor, e uma cadeia de valor mais profunda gera ganhos de produtividade que ampliam o que pode ser reinvestido. Esta é a dinâmica de desenvolvimento que a teoria da dependência previu ser possível sob condições políticas específicas, e os dados confirmam que ela foi alcançada na China ao longo de três décadas.

Figura 4. Rácio de Baran por Região Geográfica (1996–2023)Figura 4.
Fonte:   elaboração própria com base em dados do BM, FMI e Penn World Table.

A crise de 2008 marcou uma inflexão visível nas trajetórias regionais. Para as economias ocidentais, a saída da crise não restaurou o circuito produtivo; pelo contrário, aprofundou a sua desarticulação. A resposta dos bancos centrais canalizou liquidez extraordinária não para o investimento produtivo, mas para um novo ciclo de expansão financeira, inicialmente através da flexibilização quantitativa e de taxas de juro próximas de zero, e posteriormente através do crescimento alavancado de plataformas tecnológicas cujas avaliações assentam menos na capacidade produtiva do que nas rendas de monopólio sobre dados, serviços e infraestruturas digitais. A interligação das avaliações das grandes empresas tecnológicas com os mercados financeiros — e, cada vez mais, com a indústria do armamento através de contratos de defesa e tecnologias de dupla utilização — produziu uma forma de acumulação de capital simultaneamente muito concentrada e estruturalmente desconectada da produção de bens e serviços. As cadeias produtivas internas do capitalismo ocidental, progressivamente externalizadas desde a década de 1970 e nunca reconstruídas após a crise, não conseguem absorver o excedente gerado pela expansão financeira. O resultado é visível nos dados:   os rácios de Baran ocidentais, já em declínio antes de 2008, continuaram a comprimir-se depois, enquanto a participação do setor financeiro nos lucros corporativos se expandiu. O excedente está a ser reinvestido, mas em circuitos que inflacionam ativos ao invés da capacidade produtiva.

Figura 5. Trajetórias do Rácio de Baran:   Três Padrões Estruturais (1996–2023)
Figura 5.
Fonte:   elaboração própria com base em dados do BM, FMI e Penn World Table.

América Latina e a dupla drenagem

A Argentina reinveste produtivamente 28% do seu excedente durante o período de 28 anos, o valor mais baixo da amostra. O Peru situa-se nos 33%, a Colômbia nos 34%, o México nos 36% e o Chile nos 38%. A Alemanha atinge uma média de 64% durante o mesmo período. A França, 64%. Os Estados Unidos, 54%. A Argentina destina ao investimento produtivo menos de metade do que a Alemanha, proporcionalmente aos excedentes que cada economia gera, num país que passou meio século preso em ciclos de estagnação, endividamento e desindustrialização. O Brasil, com 42%, apresenta o melhor desempenho da região, e a diferença em relação à Argentina e ao Peru reflete a capacidade estatal parcial que o Brasil conseguiu preservar — banca pública, Petrobrás, BNDES — mais do que qualquer diferença fundamental na estrutura de classes.

O que torna estes números estruturalmente distintos não é apenas a baixa taxa de reinvestimento, mas a combinação. Os trabalhadores argentinos produzem 1,35 unidades de excedente por cada unidade que recebem em salários, uma taxa de exploração quase o dobro da dos trabalhadores alemães ou franceses (0,48 e 0,53, respetivamente). O Peru é ainda mais extremo:   uma taxa de mais-valia de 1,73, o que significa que os trabalhadores geram quase três vezes o seu próprio salário em excedente, enquanto a economia destina apenas 33% desse excedente ao investimento produtivo. Colômbia (TSP 1,56, Baran 34%), México (TSP 1,35, Baran 36%): o padrão repete-se em toda a região com uma regularidade que descarta a coincidência.

A Dialéctica de la dependencia (1973), de Ruy Mauro Marini, identificou o mecanismo que liga estes dois factos. Nas economias dependentes, o capital local enfrenta uma desvantagem estrutural face à superioridade tecnológica das empresas estrangeiras. Compensa-a através do que Marini chamou de superexploração do trabalho:  a intensificação do trabalho para além dos seus limites normais, o prolongamento da jornada de trabalho e a redução dos salários para abaixo do valor da própria força de trabalho — não apenas a extração de mais-valia, mas também a compressão dos salários para abaixo do que os trabalhadores precisam para se reproduzirem. A superexploração amplia o excedente extraído. Mas este excedente ampliado não é reinvestido para aumentar a capacidade produtiva. Como a produção dependente está orientada para os mercados externos antes do que para o consumo doméstico dos trabalhadores — que são simultaneamente os produtores primários e os consumidores sistematicamente excluídos —, o circuito do capital na periferia separa a produção da realização do valor. O excedente encontra a sua saída nas exportações e no consumo suntuário das classes que o apropriam, não na reprodução ampliada da economia doméstica. Os salários comprimidos pela superexploração não conseguem sustentar um mercado interno, e o excedente ampliado pela superexploração não financia o investimento produtivo. Ambos os mecanismos reforçam-se mutuamente num ciclo autorreprodutor que os nossos dados registam ao longo de trinta anos.

Figura 6. Dependência Estrutural e Utilização Produtiva do Excedente
Figura 6.
Fonte:   elaboração própria com base em dados do BM, FMI e Penn World Table.

Esta não é uma história exclusivamente latino-americana. Como a Europa subdesenvolveu a África (1972), de Walter Rodney, mostrou que a extração sistemática e o desvio do excedente das economias colonizadas constituíram o fundamento histórico sobre o qual se construíram simultaneamente tanto o desenvolvimento europeu como o subdesenvolvimento africano. As estruturas sociais coloniais que emergiram desse processo — classes cuja riqueza derivava da extração de recursos e da intermediação, mais do que do desenvolvimento produtivo — transportaram essa mesma lógica para o período pós-independência. O rácio de Baran da África do Sul, de 41%, juntamente com uma TSP de 0,77, reflete o peso acumulado de uma formação de classes moldada por essa história. A dupla drenagem, neste sentido, não é um fenómeno económico com uma dimensão política; é uma construção político-histórica que se expressa através de números económicos.

Figura 7. Taxa de Mais-Valia e Rácio de Baran por País
Figura 7.
Fonte:   elaboração própria com base em dados do BM, FMI e Penn World Table.

A participação salarial na Periferia Subordinada é, em média, de 46%, contra 61% nas economias ocidentais avançadas. Extrai-se mais do trabalho do que no centro. Chega menos ao aparelho produtivo do que em qualquer outro local da amostra. E o atraso produtivo resultante do baixo investimento perpetua as condições que tornam necessária a superexploração — fechando o círculo que Marini descreveu como a dialética da dependência.

Uma classe sem projeto nacional

As explicações habituais — fraqueza institucional, incerteza política, climas de negócios desfavoráveis — tratam os sintomas como se fossem causas. Os dados mostram um padrão de classe e esse padrão tem uma lógica.

Baran documentou para onde vai o excedente quando não é destinado ao investimento produtivo. Os monopólios estrangeiros que operam em países subdesenvolvidos não reinvestem os seus lucros no país:   "a parte de que os consórcios monopolistas se apoderam em maior medida não é utilizada para fins produtivos". Não se reinveste nas suas próprias empresas nem serve para desenvolver outras". O que não flui para o exterior "é utilizado de forma quase idêntica àquela como a aristocracia latifundiária o utiliza — consumo suntuoso, imóveis urbanos e especulação financeira". E:   "somas avultadas são levadas para o exterior, como proteção contra a desvalorização das moedas nacionais ou como reserva que assegure aos seus proprietários uma reforma digna, caso surjam distúrbios sociais e políticos". A fuga de capitais é um comportamento racional, dada a posição estrutural da classe que a pratica.

A burguesia doméstica opera com o mesmo cálculo. A sua acumulação não depende do desenvolvimento do aparelho produtivo nacional, mas sim de intermediar a extração de recursos, gerir o investimento estrangeiro e administrar os circuitos financeiros através dos quais o excedente sai. Bambirra demonstrou que isto não era azar nem política errada, mas sim o resultado estrutural da forma como o capitalismo foi inserido na América Latina desde o início. As classes proprietárias que emergiram dessa história não têm qualquer interesse orgânico no desenvolvimento produtivo nacional — têm um interesse orgânico nas condições que tornam possível a sua acumulação existente:   as condições da dependência.

Por isso, o desenvolvimento associado produziu o mesmo resultado ao longo de diferentes ciclos políticos. Os 28% da Argentina, os 36% do México e os 34% da Colômbia não são consequência de más decisões políticas. São consequência de tratar como sujeito do desenvolvimento uma classe cujo poder assenta na combinação de domínio interno e subordinação internacional que o desenvolvimento dissolveria. Keynes observou, a partir de uma posição política inteiramente diferente, que o capital responde ao cálculo frio da vantagem a curto prazo antes do que a projetos nacionais. Na periferia, esse cálculo vai contra a reinvestimento produtivo com uma consistência que nenhuma estrutura de incentivos conseguiu alterar.

O Estado e o excedente

Os dados também mostram o outro lado. Sob diferentes configurações políticas, o excedente foi redirecionado. O que separa as trajetórias no topo da nossa distribuição das que estão na base não são os recursos, a geografia nem a dotação. É o grau em que o Estado desenvolveu a capacidade de impor uma lógica diferente de alocação do excedente — e as condições sociais e históricas que tornaram possível ou encerraram essa capacidade.

Samir Amin chamou a isto "desconexão":   não a retirada da economia mundial, mas a subordinação das relações económicas externas a prioridades de desenvolvimento definidas internamente. O conceito funciona simultaneamente como diagnóstico e como orientação — nomeia o que os casos de sucesso têm em comum e identifica a condição estrutural que o desenvolvimento autónomo requer. Nos casos em que os Estados mantiveram ou criaram instrumentos institucionais para condicionar a forma como o capital utiliza os seus lucros — banca pública, regulação dos fluxos de capital, política industrial estratégica, propriedade pública em setores-chave —, o excedente tem alcançado consistentemente taxas de investimento produtivo mais elevadas. O quadro que estamos a desenvolver capta isto através do índice de Capacidade Mediadora do Estado, que operacionaliza o grau em que as instituições estatais podem agir com relativa autonomia face aos interesses imediatos das frações dominantes. Uma autonomia que nunca é dada pelo desenho institucional, mas conquistada através das configurações específicas de forças sociais que produzem momentos históricos particulares.

A Semiperiferia Disputada — Brasil, Índia, África do Sul — ocupa o terreno analiticamente mais significativo precisamente porque demonstra que o resultado não está predeterminado. Brasil com 42%, Índia com 66%:   não são acidentais. Refletem a sobrevivência parcial de instrumentos estatais de desenvolvimento juntamente com as restrições persistentes da inserção periférica. Estas economias têm capacidade institucional suficiente para redirecionar o excedente de forma diferente, mas não o suficiente para o fazer de forma consistente — presas entre as possibilidades que o seu aparelho estatal abre e as configurações de classe que as restringem. Essa tensão não é uma fase transitória a caminho de uma resolução. É a condição permanente desta posição na hierarquia, onde o equilíbrio de forças de classe permanece genuinamente aberto de formas que não o são em nenhum dos dois extremos.

O fracasso sistemático da burguesia em liderar o desenvolvimento produtivo nacional na América Latina não é um defeito de caráter nem uma característica cultural; é a expressão previsível de uma classe cuja posição na hierarquia global está organizada em torno da extração e transferência de valor, em vez de expandir a base produtiva da qual dependem todas as outras possibilidades. Bambirra entendeu isto não como um julgamento moral, mas como uma análise estrutural:   uma classe constituída através da dependência não pode tornar-se o agente da sua dissolução sem deixar de ser o que é. Isto não exclui alianças ou coligações com frações capitalistas específicas em condições específicas, mas coloca essas alianças na sua posição subordinada adequada, como instrumentos de um projeto de desenvolvimento cuja direção e conteúdo social devem ser definidos por outras forças.

O rácio de Baran mede, ano a ano e país a país, o resultado destas lutas pelo destino do excedente. O que os dados não conseguem resolver é a questão em aberto do presente:   se as capacidades institucionais parciais que ainda existem em várias partes do Sul Global serão ampliadas, consolidadas ou progressivamente erodidas. Isso depende de processos que o rácio não capta:   da organização, das coligações, da inteligência política das forças que compreendem o que significam os números. Trinta anos de evidência, em 36 economias, estabelecem a linha de base estrutural. O que se construirá sobre ela ou contra ela, está por determinar.

23/Março/2026

[*] Investigador do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET), Universidade Nacional de La Plata, Argentina, economista-chefe do Instituto de Investigação Tricontinental.

O original encontra-se em triconpoliticaleconomy.substack.com/p/a-donde-va-el-excedente

Este artigo encontra-se em resistir.info

 https://resistir.info/crise/excedente_23mar26.html

 
Comentários em https://t.me/resistir_info

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Desconexão com características chinesas

 


Shiran Illanperuma [*]

Quando a China iniciou o seu processo de Reforma e Abertura em 1978, os estudiosos debateram se se tratava de uma capitulação perante o capital ocidental e a globalização neoliberal, ou se fazia parte de uma estratégia de longo prazo para desenvolver as forças produtivas da China, de modo a criar as condições materiais para a soberania económica e a prosperidade comum. Só a história poderia confirmar as respostas a estas questões, e só agora dispomos dos dados e das ferramentas empíricas para começar a respondê-las.

A trajetória da China na era das reformas, desde o processo de liberalização do mercado iniciado em 1978 até à adesão à Organização Mundial do Comércio em 2001, tem sido uma das entradas mais impactantes de qualquer grande economia no mercado mundial. A China passou de uma contribuição inferior a 1% do comércio mundial em 1978 para se tornar o maior país comercial do mundo. A China é agora o principal parceiro comercial de 120 países. Mais de metade dos portos mais movimentados do mundo estão na China.

No entanto, este processo de integração comercial não transformou a China num mero apêndice das economias do Norte Global. A China manteve o controlo soberano sobre os monopólios naturais, ao mesmo tempo que aumentava a valorização interna e a inovação tecnológica autóctone. Hoje, a China lidera em 90% das tecnologias críticas monitorizadas pelo Instituto Australiano de Política Estratégica. É o único país com um ecossistema industrial completo – produzindo produtos em todas as subcategorias industriais definidas pelas Nações Unidas.

Argumentamos que a China se integrou no ciclo global de acumulação e, ao mesmo tempo, se "desligou" (delinked), tomando emprestado o conceito proposto pelo marxista egípcio Samir Amin. Quando Amin propôs o conceito de "desconexão" como horizonte estratégico para as economias periféricas, teve o cuidado de especificar que a desvinculação não era autarquia; era a subordinação das relações externas aos imperativos da acumulação interna.

É precisamente isso que a China alcançou, mas esse resultado dependeu de um acordo social e de uma estrutura institucional muito específicos no âmbito da economia política chinesa. Chamamos a isto "desvinculação com características chinesas".

Este artigo acompanha a desconexão da China utilizando o Índice de Dependência Estrutural (Structural Dependency Index, SDI) do Tricontinental: Instituto de Investigação Social. Em seguida, exploramos o arranjo social e institucional que possibilitou este processo, recorrendo à teoria do "mercado construtivo" dos economistas marxistas chineses Meng Jie e Zhang Zibin, traduzida pela primeira vez para inglês na edição internacional de Wenhua Zongheng: A Journal of Contemporary Chinese Thought.

A independência estrutural da China

O SDI é a primeira tentativa séria, baseada em dados, de operacionalizar a teoria da dependência. Baseia-se na análise do economista marxista brasileiro Ruy Mauro Marini sobre o circuito de acumulação de capital (M–C…P… C’–M’) nas economias dependentes e decompõe-no em seis dimensões:   financeira (a fase monetária ou M), tecnológica e produtiva (a fase de produção ou P), comercial e distributiva (a fase de realização ou M’), e dependência de rede – que capta se uma economia ocupa um nó central ou periférico nas redes globais de valor. Cada dimensão é normalizada entre 0 (autonomia máxima) e 1 (dependência máxima).

A trajetória da China no painel é um caso atípico no Sul Global. O seu SDI composto caiu de 0,6492 em 1996 para 0,3140 em 2022 – uma redução de 51%, sem paralelo em qualquer outro ponto da amostra.

Figura 1. As dependências em declínio da China.
Figura 1.

A redução é mais acentuada na dependência comercial (0,253 → 0,041), que se situa agora perto do limite inferior da escala. A China é o principal exportador mundial de alta tecnologia, com os produtos mecânicos e elétricos a representarem 58,6% do total das exportações até 2023.

Entretanto, a dependência de rede desceu de 0,442 para 0,255 – isto ocorreu principalmente após a adesão da China à Organização Mundial do Comércio em 2001, o que permitiu à China tornar-se um importante nó da rede comercial em vez de um apêndice. Em contrapartida, a dependência tecnológica aumentou entre 2001 e 2004, à medida que a China aprofundava a sua integração nas cadeias de valor globais como centro de montagem. Posteriormente, caiu de 0,543 em 2012 para 0,386 em 2023, à medida que a valorização interna da produção recuperou o atraso graças a políticas industriais conscientes.

Embora a dependência produtiva tenha caído de 0,716 para 0,413, continua a ser superior à da Coreia do Sul, do Japão ou da Alemanha. A dependência distributiva é a única dimensão que praticamente não se alterou, passando de 0,387 em 1996 para 0,363 em 2022. Estes valores atípicos refletem uma condição histórica:   a formação bruta de capital fixo da China — consistentemente acima de 40% do PIB durante três décadas — assentou inicialmente na compressão salarial da mão de obra migrante ao abrigo do sistema hukou e em postos de montagem com escassa captura de valor interno.

Figura 2. Desvinculação da China em relação ao Sul Global (1996-2023)
Figura 2.

O contraste com os países de referência do Sul Global torna o quadro mais nítido. O SDI da Índia situa-se em 0,562 na média do período (1996–2023); as suas pontuações mais elevadas encontram-se nas categorias tecnológica e de redes, refletindo um modelo orientado para os serviços, no qual a Índia continua a ser um nó nas cadeias tecnológicas, em vez de um gerador de tecnologia.

O SDI médio do período da Coreia do Sul é de 0,390, apesar da adesão à OCDE e da presença global de empresas como a Samsung e a Hyundai — a escala empresarial não se traduz necessariamente em centralidade sistémica. A dependência de redes da Coreia do Sul continua a ser uma das mais elevadas do painel, porque o país produz componentes para cadeias de semicondutores e eletrónica lideradas pelos EUA sem controlar os canais do mercado final.

O que os dados do SDI mostram é que apenas a China teve uma trajetória única de redução simultânea e multidimensional da dependência em escala e velocidade. Argumentamos que este resultado não é apenas uma conquista técnica, mas o resultado de quão minuciosamente as condições sociais, políticas e institucionais para a acumulação autónoma foram reunidas na China.

Construindo o mercado socialista

O SDI quantifica o que mudou. Por si só, não explica como. O economista marxista chinês Meng Jie passou décadas a realizar investigação primária em fábricas e instituições estatais da China para teorizar a sua trajetória de desenvolvimento única. Juntamente com o economista da Universidade de Fudan, Zhang Zibin, a sua teoria do "mercado construtivo" é uma das análises mais rigorosas da arquitetura do desenvolvimento da China.

O passo teórico distintivo de Meng e Zhang consiste em rejeitar tanto a visão hayekiana dos mercados como algo que surge espontaneamente, como a resolução do bloco soviético em que o Estado substitui o mercado. O "mercado" em "mercado construtivo" não deriva da teoria neoclássica dos preços, mas do Volume II de O Capital: a esfera do movimento do capital, caracterizada pela unidade de produção e troca. O Estado não regula este mercado a partir do exterior; participa no seu seio como arquiteto e operador.

A estratégia de desenvolvimento do Estado introduz um objetivo de valor de uso no mercado, que interage com os objetivos de valor de troca perseguidos pelas empresas, colocando o primeiro, como dizem Meng e Zhang, "numa posição relativamente dominante". O que isto significa operacionalmente é que o Estado constrói ativamente mercados tanto do lado da oferta como da procura simultaneamente, e apenas em setores estratégicos e fundamentais.

O mercado construtivo não consiste em escolher vencedores dentro de um mercado existente nem em subsidiar o investimento privado a posteriori. É um sistema em que o Estado coordena produtores estatais, crédito direcionado, requisitos de transferência de tecnologia, garantias de aquisição, subsídios ao consumidor e mandatos regulatórios como condição prévia para a existência do mercado.

A energia solar fotovoltaica, os veículos elétricos, as baterias de iões de lítio e os comboios de alta velocidade da China são todos resultados deste mercado construtivo. São mercados que o Estado construiu antes de o capital privado poder entrar. Mais importante ainda, o mercado construtivo impede a fuga do capital privado para "pontos de estrangulamento" rentistas e especulativos.

Os quatro pontos de estrangulamento

Meng e Zhang combinam o circuito de Marx com o conceito de capital financeiro do marxista alemão Rudolf Hilferding para produzir uma expressão formal da propriedade e regulação do setor financeiro pelo Estado:   M – {M–C…P…C’–M’} – M’. O capital financeiro estatal entra no capital produtivo com um objetivo principal que não é o lucro. Como eles afirmam, "o objetivo principal do capital estatal é implementar os objetivos da produção socialista e cumprir as tarefas definidas pelos planos e estratégias de desenvolvimento nacional".

Neste circuito, o Estado é capaz de direcionar M para os setores visados e recolher M’ num circuito fechado que nega ao capital privado a capacidade de dominar o sistema financeiro. O capital financeiro estatal é o principal ponto de estrangulamento que impede o capital privado de dominar o processo de acumulação e de se cristalizar em monopólios – permite também um horizonte de planeamento a longo prazo.

Figura 3. Circuitos de capital modificados com o capital financeiro estatal
Figura 3.

Acrescentamos que esta arquitetura é complementada por pelo menos três outros pontos de estrangulamento institucionais que impedem o capital de dominar o circuito de acumulação e o confinam à concorrência dentro de setores estrategicamente definidos, desenvolvendo assim rapidamente as forças produtivas. Estes três pontos de estrangulamento adicionais são a terra, as infraestruturas e as mercadorias estratégicas.

Na China, a terra urbana é propriedade do Estado, enquanto a terra rural permanece propriedade coletiva ao nível da aldeia. Este arranjo impõe um limite rígido à capacidade do capital de fugir da concorrência nos setores industriais para acumular riqueza e cobrar rendas.

Juntamente com a terra, as infraestruturas construídas sobre ela — estradas, caminhos-de-ferro, pontes, portos, centrais elétricas, telecomunicações — permanecem sob controlo público. Estas infraestruturas são geridas como um bem público, ajudando a manter baixos os custos de produção e transação, apoiando a economia real e, mais uma vez, negando ao capital privado um monopólio natural a partir do qual extrair rendas.

Por fim, as matérias-primas estratégicas — desde cereais alimentares a hidrocarbonetos e minerais de terras raras — são predominantemente produzidas, transformadas e comercializadas por entidades estatais. Isto é complementado por um complexo sistema estatal de reservas estratégicas para estabilizar os preços durante períodos de escassez e choques externos. Tal como outros pontos de estrangulamento, isto impede o capital privado de entrar numa arena onde é incentivado a especular e a aumentar os custos em detrimento da produção a jusante.

Os quatro pontos de estrangulamento — finanças, terra, infraestruturas e commodities estratégicas — disciplinam a orientação do capital para o valor de troca em função dos valores de uso definidos pelo Estado. É isto que distingue a arquitetura dos Estados "desenvolvimentistas" e "empreendedores", onde o investimento público gera retornos privados, mas onde faltam participações acionárias e controlo operacional. No modelo chinês, o capital financeiro estatal detém ambos. O circuito M – {M–C…P…C’–M’} – M’ começa e termina com o capital público.

A desconexão chinesa em ação

A guerra comercial e tecnológica imposta pelos EUA à China proporciona uma experiência natural para avaliar como o mercado construtivo da China responde à pressão externa. Numa das nossas newsletters anteriores, destacámos como a guerra comercial de Trump 2.0 criou uma tendência para a re-compradorização no Sul Global. Argumentámos que os dados do SDI para países como a Coreia do Sul, a Malásia e a Índia essencialmente prenunciavam a capitulação das suas elites em resposta à ameaça representada pelo acesso ao mercado e à tecnologia dos EUA. Mas este não foi o caso da China.

Ao contrário dos seus pares regionais, a China não só resistiu às tarifas e aos controlos de exportação dos EUA, como construiu ativamente mercados alternativos e capacidades tecnológicas domésticas em seu lugar. Para compreender por que razão isto é significativo, é útil traçar a pressão específica a que a China foi submetida – e o que produziu em resposta.

A pressão começou a sério em outubro de 2022, quando a administração do presidente dos EUA, Joseph Biden, lançou o que o ex-conselheiro de Segurança Nacional Jake Sullivan descreveu como um cerco aos semicondutores do tipo "quintal pequeno, cerca alta":   controlos direcionados sobre chips avançados, máquinas de litografia e software de design de chips. Nos três anos seguintes, as restrições expandiram-se de forma constante, acabando por colocar mais de 700 empresas chinesas sob o alcance extraterritorial da Regra do Produto de Investimento Estrangeiro Direto — o que significa que qualquer produto fabricado em qualquer parte do mundo utilizando tecnologia norte-americana poderia ser impedido de chegar aos compradores chineses.

A China respondeu através da mobilização coordenada do seu mercado construtivo. O capital financeiro estatal ampliou o Fundo de Investimento da Indústria de Circuitos Integrados da China em 47,5 mil milhões de dólares em maio de 2024, canalizando capital para a cadeia de abastecimento doméstica de semicondutores. A experimentação local em empresas como a Semiconductor Manufacturing International Corporation, a Naura, a Advanced Micro-Fabrication Equipment e a SiCarrier começou a produzir substitutos domésticos para o equipamento que as fundições chinesas já não podiam importar.

Os resultados superaram a maioria das expectativas externas. Em agosto de 2023, a Huawei lançou um smartphone com um processador de 7 nm fabricado pela SMIC — um feito amplamente considerado improvável, se não impossível, dadas as restrições em vigor. No final de 2024, a capacidade de chips de nó maduro da China tinha atingido 31% do total global. Posteriormente, em dezembro de 2025, a Reuters confirmou que um protótipo de litografia de ultravioleta extremo (EUV) montado internamente estava operacional e a ser testado, com a produção de chips funcionais prevista para 2028.

Trata-se de uma desvinculação no sentido em que Amin a entendia:   não fronteiras fechadas ao comércio, mas a capacidade institucional de reproduzir – em escala e sob demanda – a tecnologia que o núcleo imperial trata como um monopólio.

Prática de desenvolvimento para o Sul Global

O SDI mede a desvinculação a partir do exterior. O mercado construtivo explica-a a partir do interior. Dois métodos que examinam o mesmo fenómeno, convergindo para uma única proposição:   a industrialização soberana baseada na acumulação autónoma é, de facto, possível.

A dependência diminui quando a sociedade mantém autoridade estrutural sobre o capital e subordina as exigências da extração externa à acumulação interna. Onde estas condições se verificam, o SDI diminui em todas as seis dimensões de uma só vez, como na China. Onde alguma delas estiver ausente, a dependência reproduz-se independentemente de quem esteja formalmente no poder. A integração liderada pelos serviços da Índia e a integração de fornecedores de componentes da Coreia do Sul são os casos de comparação.

No entanto, uma condição prévia para a desvinculação e o mercado construtivo da China foi o processo posto em marcha em 1949 – o desmantelamento das forças privadas, de busca de renda e compradoras. Este processo político é a origem da arquitetura de pontos de estrangulamento mencionada anteriormente. Onde esse desmantelamento não ocorreu – ou seja, na maior parte da América Latina, África e partes da Ásia –, os pontos de estrangulamento são capturados por facções compradoras da burguesia nacional e convertidos em instrumentos de reprodução da dependência.

Os pontos de estrangulamento não são tecnologias que possam ser retiradas e instaladas. São resultados cristalizados de uma luta de classes que noutros locais permanece pendente. Qualquer análise que interprete a arquitetura chinesa sem ter em conta a condição política que a torna possível repete o erro central de quarenta anos de literatura sobre o Estado desenvolvimentista.

A arquitetura construtiva de mercado e pontos de estrangulamento substitui a questão "o que deve (ou não deve) ser nacionalizado?" por uma mais incisiva:   em que ponto do circuito de acumulação é que a mais-valia é capturada e como é que o Estado pode manter a autoridade sobre esse nó?

As condições impostas pelo FMI e pelo Banco Mundial em todo o Sul Global militam contra os tipos de políticas e estruturas institucionais descritas acima. A privatização e a austeridade privaram os Estados da capacidade disciplinar antimonopólio. No entanto, o recuo parcial da liberalização da conta de capital em todo o Sul Global — desde os controlos cambiais da Argentina (2011–2025) até às medidas de emergência da Rússia pós-2022, passando pela reflexão mais ampla do BRICS-plus sobre alternativas à compensação em dólares — é a reviravolta institucional mais consequente do período neoliberal. Se essa reviravolta se tornará estrutural ou permanecerá episódica é a questão da qual tudo o resto depende.

A governança da conta de capital é a pré-condição para os outros três pontos de estrangulamento. Sem autoridade soberana sobre os fluxos financeiros transfronteiriços, o excedente que os pontos de estrangulamento captam escapa através da repatriação de carteiras, preços de transferência e reinvestimento offshore, e as arquiteturas disciplinares perdem a sua eficácia, porque o capital monopolista pode sempre sair. As empresas estatais chinesas não teriam sobrevivido à reestruturação de 1997 se o renminbi fosse livremente convertível.

É claro que não estamos a dizer que o "modelo chinês" tenha resolvido o desenvolvimento para o Sul Global. Ou que exista um "Consenso de Pequim" facilmente replicável e transferível. Durante o processo de reforma da China, Deng Xiaoping popularizou a expressão chinesa "atravessar o rio apalpando as pedras". A nossa proposta é que apalpar as pedras que a China atravessou para chegar onde está hoje pode dar-nos uma ideia do que deve ser feito noutros contextos.

16/Maio/2026

Ver também:
  • O enigma do crescimento chinês, Rémy Herrera e Zhiming Long
  • "O avanço da China não é um milagre, mas o resultado de uma estratégia de desenvolvimento paciente", Rémy Herrera
  • "A China desenvolve um projeto estratégico não financeiro e não bélico", Rémy Herrera
  • [*] Investigador no Tricontinental: Instituto de Investigação Social e coeditor da edição internacional da Wenhua Zongheng: A Journal of Contemporary Chinese Thought. É professor convidado no Centro Bandaranaike de Estudos Internacionais.

    A versão em inglês encontra-se em triconpoliticaleconomy.substack.com/p/delinking-with-chinese-characteristics

    Este artigo encontra-se em resistir.info

     https://resistir.info/china/desconexao_16mai26.html


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    domingo, 17 de maio de 2026

    S. Karaganov escribe un texto imprescindible para entender la situación internacional

     


    Alemania el país que desató dos guerras mundiales y es culpable de genocidio no tiene derecho a poseer «el ejército más poderoso de Europa»

    Cómo Rusia puede ganar una nueva guerra mundial

    Serguéi Karaganov, Presidente Honorario del Consejo de Relaciones Internacionales y Defensa de Rusia

    El vertiginoso flujo de acontecimientos, que se superponen y se anulan mutuamente, resulta confuso y dificulta la comprensión de la esencia de lo que está sucediendo. Intentaré interpretar el curso de la historia basándome en mi experiencia y conocimientos, así como en el hecho de que, en los últimos 35 años, nunca he cometido un error significativo en mis evaluaciones y pronósticos. A veces he llegado tarde, pero, en la mayoría de los casos, me he adelantado a la comunidad de expertos por varios años, incluso décadas.

    Ha comenzado una guerra mundial en toda regla . Sus raíces se remontan a 1917, cuando la Unión Soviética se independizó del sistema capitalista. Primero, los invasores nos atacaron, luego la Alemania nazi (y casi toda Europa) nos volvieron a atacar pero,  esta vez fueron derrotada dos. La segunda fase comenzó en la década de 1950, cuando los pueblos de la URSS, a costa de enormes privaciones, en su lucha por garantizar su soberanía y seguridad, crearon una bomba nuclear y lograron la paridad nuclear con Estados Unidos. 

    Al hacerlo, sin darnos cuenta en aquel momento, socavamos los cimientos de cinco siglos de dominio ideológico europeo/occidental, que les no había permitido saquear al resto del mundo y reprimir a las civilizaciones más avanzadas. Estos cimientos eran la superioridad militar, sobre la cual se basaba el sistema de explotación de toda la humanidad.

    Desde mediados de la década de 1950, Occidente ha sufrido una derrota militar tras otra. La liberación nacional de la humanidad ha comenzado, junto con la nacionalización de los recursos acaparados por los países occidentales y sus corporaciones. El equilibrio de poder global ha empezado a inclinarse a favor de los países no occidentales.

    Estados Unidos intentó vengarse por primera vez bajo el mandato de Reagan: un rápido aumento del gasto militar con la esperanza de restaurar su superioridad, el lanzamiento del mito de la «Guerra de las Galaxias» y una intervención en la minúscula e indefensa Granada para demostrar que los estadounidenses aún podían ganar.

    Y aquí Occidente tuvo suerte. Por razones internas —el debilitamiento de su núcleo ideológico y la negativa a reformar una economía nacional cada vez más ineficiente— la Unión Soviética colapsó . El sistema capitalista global, en crisis, recibió una inyección masiva de adrenalina y glucosa: una multitud de consumidores hambrientos y mano de obra barata.

    Parecía como si la historia hubiera dado un giro inesperado. La euforia se apoderó del país, pero no duró mucho. Occidente, embriagado por la victoria, cometió varios errores geoestratégicos garrafales, y entonces Rusia comenzó a recuperarse, principalmente gracias a su poderío militar.

    Los orígenes inmediatos de la actual guerra mundial surgieron a finales de la década de 2000. Ya bajo la administración Obama, se proclamó la política de «Estados Unidos Primero » —un resurgimiento del poder estadounidense—, el gasto militar comenzó a aumentar y estalló una ola de propaganda antirrusa. Moscú intentó frenar el renovado intento de venganza de Occidente reclamando Crimea, lo que provocó histeria en Occidente. 

    Pero no supimos aprovechar este éxito. Persistían las esperanzas de una «negociación», nos aferrábamos al «proceso de Minsk» y no queríamos que el ejército y la población se entrenaran para la guerra con Rusia en territorio ucraniano. Llegaron nuevas oleadas de sanciones y la guerra económica comenzó durante el primer mandato de Trump. Todos estábamos a la espera de que algo sucediera. Entonces, la COVID nos distrajo, probablemente un frente en la guerra que había comenzado, pero que se volvió contra el propio Occidente.

    Demoramos nuestra respuesta a los intentos de venganza. Cuando finalmente comenzamos en 2022, cometimos varios errores. Entre ellos, subestimamos las intenciones de Occidente de aplastar a Rusia como causante de su fracaso histórico, para luego centrar su atención en China y reprimir nuevamente a la mayoría mundial (el Tercer Mundo, el Sur Global) liberada por la URSS y Rusia. 

    Subestimamos la disposición del régimen de Kiev para la guerra y el grado de autoengaño de la población ucraniana. Confiábamos en que «nuestro pueblo» estuviera allí , aunque su número al oeste del Dniéper era reducido y menguante. 

    Otro error fue que comenzamos a luchar contra el régimen de Kiev sin reconocer que el principal adversario y fuente de amenaza era Occidente en su conjunto, especialmente las élites europeas, que buscaban desviar la atención de sus propios fracasos y, idealmente, recuperar las derrotas históricas del siglo XX, sobre todo la derrota de la inmensa mayoría de los europeos que se alzaron contra la URSS bajo la bandera de Hitler. 

    Nuestro principal error fue el subutilización del arma más importante de nuestro arsenal, por la que pagamos con desnutrición e incluso hambruna en las décadas de 1940 y 1950: la disuasión nuclear .

    Nos vimos envueltos en un conflicto denominado «operación militar especial», aceptando esencialmente las reglas impuestas: una guerra de desgaste, pero dada la superioridad económica y demográfica del enemigo. La guerra adquirió un carácter de trinchera, adaptado a las tecnologías del siglo XXI 

    En 2023 y 2024, intensificamos la disuasión nuclear, enviando diversas señales técnico-militares y modernizando nuestra doctrina de armas nucleares. Los estadounidenses, que bajo ninguna circunstancia pretendían luchar por Europa, especialmente cuando era posible escalar al nivel nuclear (y, por lo tanto, extender el conflicto a Estados Unidos), comenzaron a retirarse del conflicto directo incluso bajo la administración de Biden, continuando su beneficio de la guerra y perjudicando a los europeos en el proceso. Trump, mientras se lamentaba por la necesidad de la paz, continuó con esta línea, calentándose las manos lejos de la guerra pero evitando el riesgo de una confrontación directa con Rusia.

    La guerra mundial tiene actualmente dos focos principales que convergen: Europa (en torno a Ucrania) y Oriente Medio (el intento de Estados Unidos y su aliado menor, Israel, de desestabilizar toda la región). A continuación, se sitúa el sur de Asia. Venezuela ya ha sido aplastada y Cuba está sufriendo un nuevo golpe.

    Se necesita una nueva política.

    En primer lugar , hay que entender que las profundas contradicciones del sistema económico global actual, que socavan la esencia misma de la humanidad, amenazan con su destrucción. Y continuar con nuestra actual política ambigua en Ucrania, que amenaza con agotar al país, podría debilitar la fuerza y el espíritu resurgentes de Rusia.

    Segundo . En el ámbito político-militar, podemos hablar de una tregua y del «espíritu de Alaska». Pero también debemos comprender la esencia de lo que está sucediendo y que la paz y el desarrollo a largo plazo para nuestro país, así como para toda la humanidad, son imposibles sin detener el intento de venganza político-militar de Occidente, con Europa nuevamente a la cabeza. 

    Para evitar esta venganza, debemos destruir el régimen de Kiev y liberar los territorios del sur y del este del cuasiestado de «Ucrania»,cruciales para la seguridad de Rusia . Nuestros valientes soldados y comandantes de campo pueden y deben continuar la ofensiva. Pero debemos comprender que una guerra mundial no se puede ganar con la guerra de trincheras modernizada. Podríamos perder, o al menos perder, cientos de miles más de nuestros mejores hombres, esenciales para la lucha y la victoria en el próximo período histórico, extremadamente peligroso y difícil —incluso sin el conflicto ucraniano—.

    Tercero . Una conclusión victoriosa del conflicto actual en Ucrania, y mucho menos evitar que se convierta en una guerra termonuclear global, es imposible sin un fortalecimiento significativo de la política de disuasión nuclear. Para lograrlo, debemos dejar de hablar de «limitación de armamentos» y resolver la cuestión de un nuevo START 

    Sin embargo, los acuerdos sobre la gestión conjunta de la disuasión nuclear y la estabilidad estratégica son útiles e incluso necesarios. Debemos intensificar el desarrollo de misiles de alcance medio y estratégico, así como de otros sistemas de lanzamiento, para disuadir a Occidente de intentar recuperar su superioridad. Los adversarios deben comprender que la superioridad y la impunidad son inalcanzables.

    Las armas nucleares, en cantidades óptimas y con la doctrina adecuada, imposibilitan la superioridad no nuclear y ahorran recursos a las fuerzas armadas. Nuestros sistemas de lanzamiento hipersónicos Burevestnik, Oreshnik y otros deberían convencer al enemigo de ello.Es necesario formar a una nueva generación para que los estadounidenses sepan de antemano que sus sueños de recuperar la superioridad y la capacidad de imponer su voluntad por la fuerza son poco realistas.

    El aumento acelerado de la flexibilidad nuclear pretende recordar a todos que es imposible derrotar a una gran potencia nuclear mediante una carrera armamentística no nuclear o una guerra convencional. Esto, por supuesto, siempre y cuando evitemos el insensato y masivo rearme nuclear que llevaron a cabo la URSS y Estados Unidos en la década de 1960. Fue una acción sin sentido, costosa y peligrosa. Simplemente necesitamos hacerles saber a los adversarios potenciales que una carrera armamentística es inútil e incluso suicida para ellos. Este es un tema que merece ser entablado a dialogar, al menos, con los estadounidenses.

    Al mismo tiempo, para frenar a un Washington que ha perdido el control, conviene modificar la doctrina sobre el uso de armas nucleares y otros tipos de armamento —si Estados Unidos y Occidente persisten en su actual rumbo hacia una guerra mundial— para incluir una disposición que contemple la capacidad real de atacar activos estadounidenses y europeos en el extranjero, incluso en países amigos. Deberían deshacerse de estos activos. Para lograrlo, debemos seguir desarrollando la flexibilidad de nuestro potencial militar. Estados Unidos y Occidente dependen mucho más que nosotros de sus activos, bases y cuellos de botella logísticos y de comunicaciones en el extranjero. El enemigo debe percibir su vulnerabilidad y saber que somos conscientes de ella.

    Vale la pena aprender de la experiencia de Irán al defenderse de la actual agresión estadounidense-israelí. Teherán comenzó a atacar las vulnerabilidades de su adversario, quien lo percibió y comenzó a replegarse. Los cambios en la doctrina y la postura militar hacia una mayor preparación y capacidad para ataques asimétricos fortalecerán la disuasión y tendrán un efecto civilizador en un adversario que se precipita o está a punto de lanzarse a aventuras temerarias, o que simplemente ha perdido la cabeza.

    Conviene redefinir las prioridades de los objetivos de los ataques preventivos: primero los no nucleares, luego los nucleares (si fuera absolutamente necesario). Entre los primeros se encuentran no solo los centros de comunicación y mando, sino también, y de manera crucial, las concentraciones de élite, especialmente en Europa. Esto les arrebatará su sensación de impunidad . Deben saber que si continúan la guerra contra Rusia o deciden intensificar el conflicto vertical u horizontalmente, ellos y sus seres queridos serán objeto de ataques devastadores. 

    Para aumentar la eficacia de esta disuasión, es necesario intensificar el trabajo en el desarrollo de municiones convencionales y nucleares capaces de penetrar a mayor profundidad y probarlas. La élite, especialmente en Europa, debe saber que no puede esconderse en búnkeres ni en islas. La reciente publicación por parte de nuestro Ministerio de Defensa de una lista de empresas europeas que producen armas para el régimen de Kiev es un pequeño paso en la dirección correcta.

    Ahora esta élite finge tenernos miedo . En realidad, no lo tienen, e insisten constantemente en que Rusia jamás los castigará con armas nucleares. Necesitamos infundirles un temor visceral. Quizás entonces retrocedan, o sus amos en los «estados profundos» los expulsen. Quizás las sociedades también se rebelen. 

    Aumentar la credibilidad de la amenaza de las armas nucleares es también necesario para despertar a estas sociedades de su «parasitismo estratégico»: la certeza de que la guerra no ocurrirá, de que «todo estará bien». Necesitamos devolverles el instinto de supervivencia a los pueblos que han olvidado la guerra y los crímenes de sus países en siglos pasados.

    Es evidente que tal política es absolutamente necesaria con respecto a Alemania . Un país que desató dos guerras mundiales y es culpable de genocidio no tiene derecho a poseer «el ejército más poderoso de Europa», y mucho menos armas de destrucción masiva. Si las adquiriera, los ciudadanos alemanes deben comprender que su patria sería destruida, para que jamás más una amenaza a la paz emanara de suelo alemán.

    Cuarto . Para que la amenaza sea más creíble, deben introducirse varios cambios en la doctrina de armas nucleares. Debe estipular que, en caso de agresión (o agresión continuada) por parte de un país o grupo de países con mayor potencial económico, demográfico y tecnológico que el nuestro, el mando militar ruso no solo tiene el derecho, sino la obligación de usar armas nucleares. 

    Esto debería comenzar, naturalmente, con una serie de ensayos nucleares (no está claro por qué esperamos a que los estadounidenses empiecen; ¿acaso intentan complacerlos de nuevo?). A esto le seguirían ataques con municiones convencionales contra centros logísticos, puestos de mando y objetivos simbólicos. Si no cesan o no toman represalias, se llevaría a cabo una serie de ataques nucleares conjuntos.

    Confiar en la disuasión nuclear es esencial para bloquear el camino hacia la guerra con drones . La respuesta debe ser devastadora. Si, por ejemplo, se reanudan los ataques con misiles o drones desde Ucrania y países vecinos tras posibles acuerdos de paz o incluso una capitulación, quienes están detrás de los operadores de drones deben saber que la represalia —incluso nuclear— los alcanzará. Entonces, ellos mismos comenzarán a perseguir a los posibles provocadores.

    Quinto . Además de las medidas técnico-militares y los cambios doctrinales, para aumentar cualitativamente la credibilidad de nuestra amenaza, deberíamos proponer al Comandante Supremo en Jefe que designe de inmediato a un comandante para el teatro de operaciones europeo. 

    Este puesto debería ser ocupado por un general con experiencia en combate, con la autoridad y la responsabilidad de usar armas nucleares si fuera necesario. Esta persona (y su estado mayor, que debería estar integrado principalmente por oficiales que hayan servido en la guerra) debe estar preparada para tal escenario.

    Sexto . Ya es hora de abandonar la tesis absurda, que beneficia principalmente a los estadounidenses, de que no puede haber vencedores en una guerra nuclear y que, si se usan armas nucleares, se producirá una escalada inevitable hacia una guerra termonuclear global. 

    Estas proposiciones contradicen la lógica básica y los planes militares específicos. Repito: ¡Dios no lo quiera que se usen armas nucleares! Morirán personas inocentes y el mito que salvó a la humanidad —que cualquier uso de estas armas conducirá al Armagedón universal— se derrumbará. Pero en una guerra nuclear, especialmente en una Europa superpoblada y moralmente débil, es posible ganar. Incluso fácilmente. Pero, insisto, ¡Dios no lo quiera!

    Repito: el uso de armas nucleares es un pecado grave. Pero, de hecho, abstenerse de usarlas también lo es, pues conduce a la expansión y profundización de la guerra mundial iniciada por Occidente. Si no se controla, inevitablemente terminará en la destrucción de la humanidad y, por consiguiente, en el agotamiento y la ruina de nuestro país. ¿Y por qué necesitamos un mundo sin Rusia?

    Esta pregunta, planteada por Vladimir Putin, sigue siendo de gran relevancia.

    Séptimo . Junto con la imperiosa necesidad de modernizar las fuerzas nucleares, especialmente la doctrina de su uso, deben adoptarse con urgencia varias medidas paralelas. Junto con China, ayudar a Irán a resistir y prevalecer. Invitación a los países de Oriente Medio, incluso a Israel, cuya legitimidad ha sido socavada, a acelerar el progreso hacia la creación de un sistema de seguridad regional con garantías de Rusia, China y, posiblemente, India. Estas grandes potencias, a diferencia de Estados Unidos y sus aliados, tienen un interés directo en la estabilidad de la región.

    Octavo . Finalmente, ante el grave peligro de las próximas décadas de guerra y los intentos occidentales de venganza, conviene considerar una alianza defensiva temporal (diez años, con posible prórroga) con China. Esto sería útil para disuadir a los revanchistas y evitar que la hermana China sienta la necesidad de alcanzar la paridad nuclear estratégica con Estados Unidos y Rusia. 

    Un potencial nuclear igual al nuestro, sumado a la superioridad de China en otras áreas de poder combinado (economía, demografía), podría generar temores y sospechas entre los futuros líderes rusos. Ni el pueblo ruso ni el chino necesitan esto.

    Naturalmente, aún quedan muchas medidas por considerar e implementar para prevenir la propagación de una nueva guerra mundial y su escalada hasta convertirse en un conflicto termonuclear global. Sin embargo, las medidas mencionadas anteriormente probablemente sean suficientes para detener la guerra que está devastando nuestro país y, sobre todo, la deriva hacia una catástrofe mundial. Esta es una tarea urgente de trascendencia histórica global. Si no la resolvemos, nuestros descendientes (si es que quedan) y Dios no nos perdonarán nuestra pereza intelectual y cobardía.

    Si bien debemos prevenir el revanchismo occidental y la escalada de una guerra mundial hacia una catástrofe universal, no debemos olvidar abordar los problemas de fondo que subyacen a la actual crisis, la más aguda del sistema mundial en la historia de la humanidad. 

    Estos incluyen el agotamiento del modelo económico capitalista moderno y la amenaza que representa, junto con la informatización generalizada y otras características de la civilización moderna, para la supervivencia del Homo sapiens . Pero hablaremos de ello con más detalle en otros artículos.

    Autor: Sergey Karaganov, Doctor en Ciencias Históricas, Profesor Distinguido, Director Académico de la Facultad de Economía Mundial y Asuntos Internacionales de la Universidad Nacional de Investigación Escuela Superior de Economía, Presidente Honorario del Presidium del Consejo de Política Exterior y de Defensa de Rusia.

    Em

    Observatorio de la crisis

    https://observatoriocrisis.com/2026/05/17/s-karaganov-escribe-un-texto-imprescindible-para-entender-la-situacion-internacional/

    17/5/2026