quinta-feira, 5 de novembro de 2026

 

É preciso recuperar a hipótese socialista nas sociedades contemporâneas

Pensar no socialismo hoje exige afirmar que a crise orgânica chilena só poderá ser resolvida por meio de uma alternativa antioligárquica, popular e socialista.

Arte de El Cometa Ludo (Chile). Cortesia do artista.

I. A proscrição da hipótese socialista

Durante mais de três décadas, sob a transição negociada e a democracia tutelada pela Constituição de 1980, assistimos a uma operação ideológica metódica: a proscrição da hipótese socialista do debate público no Chile. Não foi apenas jurídica, mas sobretudo cultural e semântica. O neoliberalismo chileno não apenas privatizou os direitos sociais; ele cerceou nossa imaginação política.

Um desses obstáculos era jurídico: uma Constituição ardilosa, redigida a portas fechadas pela Comissão Ortúzar, com o Congresso fechado e milhares de chilenos presos e desaparecidos pela ditadura civil-militar.

Essa Constituição pétrea, por meio de princípios como o da subsidiariedade do Estado, admitiu apenas um modelo econômico: o neoliberal, sistema que fez do Chile um dos países mais desiguais do mundo. A essa condenação econômica somaram-se os “cadeados” da democracia: quóruns supramajoritários de dois terços para reformar seus capítulos centrais, como aqueles relativos aos direitos sociais. Durante trinta anos, cada tentativa de consagrar direitos, como o direito à moradia ou ao aborto, esbarrou na resposta de que era inconstitucional, e nenhuma coalizão jamais alcançou essa proporção. A ditadura sabia muito bem disso.

Nesse processo, a hegemonia dominante instaurou um dogma sufocante: a única política possível era a gestão eficiente do que já existia. O “socialismo” foi substituído pelo rótulo ameno, mas desprovido de força transformadora do “progressismo”. Tomás Moulian caracterizou esse ponto cego:

O transformismo do sistema político chileno operou desarticulando os imaginários de ruptura e substituindo a vontade de soberania popular por uma mitologia do consumo e da governabilidade tecnocrática. A democracia foi reduzida ao ritual do voto, enquanto as decisões sobre a vida e o trabalho permaneciam blindadas pelo fetiche do mercado (Chile actual: anatomía de un mito, 1997).

Pensar no socialismo hoje exige romper essa chantagem ideológica e afirmar que a administração compassiva do modelo chegou ao seu limite histórico e que a crise orgânica chilena só encontrará uma saída por meio de uma alternativa antioligárquica, popular e socialista.

Arte de El Cometa Ludo (Chile). Cortesia do artista.

II. A ruptura com o progressismo sem horizonte

Por que o progressismo é insuficiente diante das demandas da classe trabalhadora? Porque opera sob a ilusão de que o Estado é um instrumento neutro, modificável por meio de ajustes normativos que não tocam a matriz de acumulação nem a relação entre capital e trabalho. Ao desvincular as conquistas imediatas do poder popular, acaba neutralizando as forças mobilizadas: se as reformas não questionam a propriedade dos meios de produção nem os pilares do capital financeiro, são cooptadas ou revertidas pela contraofensiva das classes dominantes.

É isso que o Chile vive hoje sob o governo de José Antonio Kast. A oligarquia não apenas protege seus interesses: ela disciplina o povo por meio de cortes sociais, da cobrança compulsória do Crédito com Garantia do Estado e da transferência dos custos do mercado para as famílias. Assim, pune direitos conquistados após anos de luta. É a restauração pinochetista, agora sem a pose de “fundamento intelectual” que um dia teve; é a comédia total e o descaramento na administração do Estado.

Em relação ao progressismo, Rosa Luxemburgo já havia alertado sobre isso em sua polêmica com Bernstein:

Quem defende a via da reforma legal em vez da conquista do poder político e da transformação da sociedade, e em oposição a elas, não escolhe um caminho mais tranquilo, seguro e lento para chegar ao mesmo fim, mas um fim diferente: não a construção de uma nova ordem social, mas meras modificações secundárias na velha ordem (Reforma ou revolução, 1899).

Não se trata de desprezar as reformas. Para o marxismo, reforma e revolução são momentos de uma mesma unidade dialética: a luta pela jornada de trabalho, pelos salários ou pela saúde pública é a “ginástica revolucionária” por meio da qual a classe trabalhadora toma consciência de sua própria força. O erro do progressismo é transformar a reforma em um fim em si mesmo, isolado da auto-organização popular e submetido aos limites tolerados pelo grande empresariado.

Arte de El Cometa Ludo (Chile). Cortesia do artista.

III. O marxismo como pulsão criadora

Pensar o socialismo também exige evitar dois desvios: a adaptação pragmática ao institucionalismo e o dogmatismo que reproduz fórmulas do século XX na realidade hiperdigitalizada e fragmentada do século XXI. Reivindicamos a lição de José Carlos Mariátegui: “Não queremos, certamente, que o socialismo na América seja decalque e cópia. Deve ser criação heroica” (“Aniversário e balanço”, Amauta, 1928).

Essa criação heroica dialoga com Alain Badiou, para quem o comunismo não é uma teleologia da história, mas uma hipótese emancipatória e uma pulsão criadora, capaz de intervir nas fissuras do real: um acontecimento de ruptura no qual os “inexistentes” de um sistema se afirmam como sujeitos. Gramsci nos legou a compreensão de que a disputa pelo poder, enquanto disputa pela hegemonia, consiste em articular um bloco histórico de classes subalternas capaz de dissolver o senso comum burguês. O socialismo é, em última instância, portanto, a democratização radical da existência: o salto da pré-história da necessidade para o reino consciente da liberdade — a liberdade do povo, das maiorias organizadas.

Daí decorrem quatro teses:

  1. O socialismo não surge mecanicamente quando as contradições do capitalismo se tornam insustentáveis. Ele é uma alternativa que organiza de outra maneira os mesmos elementos: meios de produção, distribuição e mercado. As crises podem, de fato, levar a formas ainda mais intensas de capitalismo.
  2. Por serem alternativos, espaços socialistas podem existir dentro do capitalismo; portanto, chega-se ao socialismo organizando esses microssocialismos em disputa com o capital.
  3. O socialismo é, antes de tudo, uma tarefa política: a organização consciente de suas condições subjetivas e objetivas, sem etapas prévias obrigatórias.
  4. Não existe triunfo final. Ambos os sistemas podem ser derrotados; por isso, o socialismo é escolhido e construído a cada dia, como uma tarefa inacabada.

Arte de El Cometa Ludo (Chile). Cortesia do artista.

IV. O tabuleiro global: multipolaridade e experiências de Nuestra América

Assistimos ao ocaso da hegemonia unipolar estadunidense e ao surgimento de uma ordem multipolar na qual a China tem um peso decisivo. Seu “socialismo com características chinesas”, baseado no planejamento soberano, na vanguarda científica e na “prosperidade compartilhada”, demonstra que a modernização não é patrimônio exclusivo do modelo estadunidense, cujas guerras deixaram regiões inteiras em colapso no Oriente Médio e em outras partes do mundo. O socialismo, por sua vez, representa um desenvolvimento em grande escala sem a necessidade do imperialismo belicista, abrindo caminho e prefigurando uma nova hipótese geopolítica global: a da Arca de Noé, ou do barco compartilhado da humanidade.

Independentemente de nossas fronteiras, os dados mundiais refletem não apenas a incapacidade do capitalismo de redistribuir a riqueza, mas também sua própria lógica de acumulação. É o que demonstra o Primeiro relatório sobre a desigualdade global do G20 (2025), que alerta para o fato de que o 1% mais rico do mundo concentrou 41% da nova riqueza mundial entre 2000 e 2024, enquanto os 50% mais pobres receberam apenas 1%. Essa tendência parece não estar diminuindo, mas, ao contrário, se aprofundando. Em contraste, o socialismo não apenas alfabetizou populações em todo o mundo, como também retirou, na China — apenas para citar um exemplo —, 800 milhões de pessoas da pobreza extrema.

Em Nuestra América, Cuba continua sendo, apesar do bloqueio, uma referência de soberania, solidariedade sem fronteiras e internacionalismo. A Quarta Transformação no México, que se define como de centro-esquerda, promoveu mudanças profundas e alcançou uma popularidade sem precedentes. O Governo da Mudança na Colômbia revelou tanto a força da mobilização para afastar as oligarquias do poder quanto os bloqueios institucionais e midiáticos que o capital impõe a qualquer iniciativa de redistribuição.

A lição é clara: um projeto soberano no Chile exige articulação latino-americana e um horizonte comum para construir um mundo multipolar e respeitoso, no qual se consolide uma prosperidade compartilhada e, sobretudo, uma sólida base popular, capaz de resistir ao grande capital transnacional. Neste período, isso exige, em particular, um campo popular comprometido e atuante, capaz de resistir à narrativa disseminada nas redes sociais por meio da inteligência artificial. Talvez seja aí que esteja a porta de entrada para a pergunta: qual socialismo?

Arte de El Cometa Ludo (Chile). Cortesia do artista.

V. Práxis prefigurativa: só se chega ao socialismo por meio do socialismo

O socialismo não é um acontecimento futuro, mas uma práxis prefigurativa no presente. Assim como a democracia, o socialismo é, ao mesmo tempo, um meio e um fim em si mesmo, ao qual só se pode aspirar precisamente por meio dele. Na tradição revolucionária chilena, essa compreensão tem um nome e um rosto: Luis Emilio Recabarren. Recabarren não esperou conquistar o Palácio de La Moneda para começar a construir o socialismo. Ele o construiu nas associações operárias das regiões salitreiras, nas gráficas da imprensa operária, nos teatros proletários e nos ateneus populares. Para Luis Emilio, a auto-organização do povo era, simultaneamente, o instrumento de luta e a semente da nova sociedade.

Uma tarefa urgente é estabelecer, em nossa atuação junto às massas populares, uma distinção categórica entre o assistencialismo focalizado e a caridade própria do modelo neoliberal, que trata o povo como cliente ou beneficiário passivo, e a práxis socialista, que concebe as comunidades como sujeitos ativos da transformação. Devemos nos reapropriar de valores sociais fundamentais, como a solidariedade. A solidariedade é socialista porque é cooperação e empatia entre iguais, que prefigura e nos permite habitar a sociedade que estamos construindo. Essa matriz deve orientar nossa atuação nos governos locais e nos movimentos sociais. As Farmácias Populares, o Aluguel a Preço Justo e os cursos preparatórios populares para o ingresso na universidade não são políticas acessórias: são rupturas com a lógica da mercadoria. Demonstram que a saúde, a moradia e a educação podem ser geridas com justiça social.

Conquistar avanços concretos, como a redução da jornada de trabalho para 40 horas, o aumento do salário mínimo ou a gratuidade do ensino universitário, fortalece a posição do trabalho diante do capital. No entanto, essas conquistas só serão sustentáveis se estiverem enraizadas em uma massa crítica organizada, consciente de seu destino histórico e de sua responsabilidade na salvaguarda e no avanço da revolução socialista.

Arte de El Cometa Ludo (Chile). Cortesia do artista.

VI. Tarefa histórica: reposicionar a hipótese socialista

Por fim — e esse não é um aspecto menor —, nos últimos anos, a esquerda e as forças progressistas tenderam a se entrincheirar sob o guarda-chuva do “antineoliberalismo”. No entanto, precisamos dizer isso com clareza e rigor dialético: hoje, o antineoliberalismo é insuficiente.

Em termos dialéticos, declarar-se “antineoliberal” significa posicionar-se apenas no momento da reação ou da negação. Trata-se de uma postura meramente defensiva, um movimento de recuo que busca preservar as poucas garantias do Estado social ou atenuar as garras do mercado. O antineoliberalismo nos diz o que rejeitamos, mas não possui a potência criadora, o projeto histórico nem a carga utópica exigidos pela gravidade do momento atual.

Essa insuficiência é perigosa, pois o vazio de projeto vem sendo ocupado, em escala global e local, pelo avanço da ultradireita e do fascismo. Assistimos à irrupção de um fascismo reeditado: ignorante, estridente e anti-intelectual, que explora o descontentamento popular, captura a raiva dos despossuídos e a canaliza por meio do ódio aos migrantes, da rejeição às mulheres e às diversidades e do fetiche pelo autoritarismo repressivo.

Diante de um fascismo ignorante, que mobiliza emoções primárias e soluções simplistas, a resposta não pode ser o discurso morno, diluído e tecnocrático do progressismo ou do “antineoliberalismo”. O avanço fascista não é detido pela administração compassiva do modelo; ele é derrotado pelo enfrentamento das causas estruturais do capital. Por isso, afirmamos categoricamente que não basta ser antineoliberal; é preciso ser decididamente socialista.

Ser decididamente socialista significa recuperar a capacidade de propor um projeto de sociedade qualitativamente distinto, baseado na propriedade social dos recursos estratégicos, no planejamento democrático da economia e na soberania popular. Significa assumir a formação política e a organização de base não como um passatempo acadêmico, mas como o principal escudo contra a demagogia da extrema direita.

Não estamos condenados a administrar o que existe nem a viver com medo diante da barbárie neofascista. Voltemos a reconstruir a hipótese socialista com rigor teórico, combatividade política e amor pelo nosso povo. Pela reconstrução do pensamento crítico, pela criação heroica do socialismo em Nossa América Latina.

Saudações fraternas,

Millaray

Este texto é uma adaptação da apresentação feita por Millaray Huaquimilla Neyra, secretária executiva do Instituto de Ciências Alejandro Lipschutz (ICAL), no evento “Qual socialismo?”, organizado em agosto passado, conjuntamente pelo ICAL, pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e pelo Centro de Estudos de Políticas Públicas, Território e Comunidade.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

A guerra do neofascismo contra a educação

 


Prabhat Patnaik [*]

RSS, organização paramilitar do Hindutva.

A única área da vida social que o neofascismo procura destruir de forma específica, obstinada e descarada é a educação. Não se trata apenas de ignorar a educação, ou de a privatizar e privá-la de fundos públicos; trata-se de uma destruição deliberada e intencional.

A atitude do neofascismo a este respeito é diametralmente oposta à da Esquerda, especialmente dos comunistas. O país está repleto de inúmeras instituições de ensino fundadas originalmente por líderes comunistas. Havia uma crença sincera entre os comunistas pioneiros de que, se as pessoas fossem educadas, seriam quase naturalmente atraídas para o comunismo, que era visto como a expressão máxima da consciência social. Esta crença, aliada à convicção de que, para apreciar o comunismo, era necessário compreender não só a sociedade burguesa, mas também a teoria burguesa, traduziu-se numa paixão geral pela educação (e não apenas numa promoção sectária da própria ideologia). Esta paixão pela educação em geral distinguiu os comunistas da maioria dos outros durante a luta anticolonial.

A atitude fascista e neofascista é exatamente o oposto disto. O fascismo e o neofascismo diferem de outros movimentos de direita por possuírem uma "teoria" própria. Esta "teoria", que serve de base para a "alterização" ("othering") de alguma minoria infeliz e para o fomento do ódio contra ela por parte da maioria, deriva das declarações de alguns dos seus próprios precursores, mas não é sustentada por qualquer evidência. Na verdade, os fascistas e neofascistas abominam qualquer tipo de evidência. Agarram-se à sua "teoria" perniciosa precisamente ao rejeitar todas as provas e ao fecharem as suas mentes a qualquer investigação científica autêntica, que deve basear-se na procura e interpretação de provas. As instituições de ensino, cuja razão de ser consiste em serem espaços de investigação científica, representam, portanto, um perigo para a "teoria" dos fascistas e, consequentemente, uma ameaça à ideologia do fascismo e do neofascismo; são vistas pelos fascistas não apenas com desconfiança, mas com hostilidade declarada.

O ataque à educação no período atual provém, portanto, de duas fontes:   há o já conhecido ataque neoliberal, que, ao impor "austeridade" ao governo e forçar a privatização e, consequentemente, a mercantilização da educação, a transforma de uma atividade de investigação crítica em, na melhor das hipóteses, uma mera aquisição de competências. Depois, há o ataque dos neofascistas, que também consideram qualquer investigação crítica como perigosa e que, além de negarem a educação a grandes massas da população, aceitam de bom grado a transformação da educação numa mera aquisição de certas competências, na melhor das hipóteses. A educação, ao invés de ser um meio de esclarecimento é, assim convertida numa atividade de aquisição de competências reservada apenas aos filhos da elite. Isto, como sabemos, constitui o eixo central da Nova Política Educativa do governo liderado pelo [partido] BJP.

Existe, no entanto, um estímulo subterrâneo adicional por trás da tentativa neofascista de destruir a educação, que é particularmente relevante no caso da Índia. Os neofascistas não são apenas indivíduos obstinados, mas também crédulos, que por acaso se agarram teimosamente a uma "teoria" vazia com implicações sinistras. O que é notável é que os próprios líderes neofascistas estão, em geral, cientes da vacuidade da sua "teoria"; no entanto, continuam a promovê-la como um meio de manipular os seus próprios seguidores, bem como as massas em geral, para que a aceitem. Por outras palavras, o neofascismo caracteriza-se não apenas por uma narrativa sinistra e falsa; caracteriza-se, acima de tudo, pela má-fé, pelo desejo por parte das principais lideranças neofascistas de manipular as pessoas para que aceitem essa narrativa falsa. O neofascismo não é apenas sinistro; está eternamente empenhado em "vender" essa narrativa falsa e sinistra às pessoas, sabendo que é falsa.

O segmento instruído da população não cai facilmente nesta manipulação. Muitos deles alinham-se com os neofascistas porque são coagidos a fazê-lo; muitos outros apoiam-nos devido às promessas que lhes são feitas pelos neofascistas. Outros ainda apoiam-nos por motivos de classe, devido à perspetiva e às posições de classe que os neofascistas propagam e que lhes são do agrado. Mas o sentimento geral entre eles no que diz respeito à "teoria" dos neofascistas varia entre o ceticismo absoluto e a hostilidade declarada. Mais importante ainda, a maioria deles, incluindo aqueles que apoiam as posições de classe dos neofascistas, tem consciência da sua "má-fé" e da sua condição manipulativa.

Essa "má-fé" e manipulação suscitam, entre grandes segmentos da população instruída, um sentimento de repulsa em relação aos neofascistas, quer isso seja explicitamente articulado ou não; e os neofascistas estão bem conscientes disso. Por outras palavras, os segmentos instruídos da população estão conscientes da elaborada farsa encenada pelos neofascistas, uma farsa que não tem qualquer pretensão de verosimilhança; e os principais líderes neofascistas estão cientes de que esses segmentos instruídos percebem a sua má-fé. Isto faz com que os neofascistas tenham um complexo de inferioridade em relação aos segmentos instruídos da população.

A insegurança pessoal, o complexo de inferioridade, da liderança do Hindutva face aos elementos instruídos é um fenómeno palpável, mas significativo, na Índia. O contraste que isto apresenta com a adulação geral ao "líder" entre outros segmentos da população torna-se particularmente irritante para os escalões neofascistas de topo.

A imensa hostilidade dos principais elementos do Hindutva para com os segmentos instruídos surge porque estes últimos percebem a sua má-fé e a sua manipulação. A raiva dos escalões dirigentes do Hindutva, especialmente do "líder", em relação a estes segmentos instruídos encontra expressão em zombarias como "bando do Khan Market" ou "bando Tukde Tukde", que utilizam para se referir aos intelectuais e aos segmentos instruídos em geral.

Há ainda outro ponto a assinalar aqui. Quanto mais distinta for a instituição de ensino, quanto mais notáveis forem os seus formandos, tanto maior é a probabilidade de estes formandos perceberem as artimanhas, a vacuidade, a "má-fé" e a manipulação dos elementos neofascistas do Hindutva. Por conseguinte, quanto mais hostis são os próprios elementos do Hindutva em relação a tais instituições, mais empenhados estão em atacá-las, pois vêem-nas como obstáculos à sua ascensão. É por isso que, paradoxalmente e de forma extremamente irónica, os neofascistas — e o governo por eles dominado — têm sido os mais assíduos a atacar precisamente as melhores instituições de ensino do país. A Universidade Jawaharlal Nehru, a Universidade de Jadavpur, a Universidade Central de Hyderabad, a Universidade de Deli, a Viswa Bharati e a Jamia Milia Islamia estão, sem dúvida, entre as melhores instituições de ensino do país, instituições das quais o país se pode orgulhar genuinamente; e são precisamente estas instituições que têm estado na linha da frente do ataque do Hindutva. Não satisfeitos com isto, os elementos do Hindutva também alargaram o seu ataque a outras instituições de destaque, que não são instituições académicas, mas onde mentes criativas também estão empenhadas no processo de análise crítica da sociedade, tais como o Instituto de Cinema de Pune e o Instituto de Estudos Cinematográficos Satyajit Ray. O caso da última instituição mencionada é particularmente chocante, uma vez que capangas do Hindutva afiliados à RSS [organização paramilitar do Hindutva] simplesmente invadiram o seu campus e começaram a espancar estudantes!

Pode pensar-se que, embora o governo do Hindutva possa estar a atacar instituições de ensino modernas, na realidade é a favor da promoção de instituições de ensino tradicionais indianas, pelo que rotulá-lo de "anti-educação" como tal é tanto incorreto como injusto. É significativo, no entanto, que durante os doze anos de governo do Hindutva, mesmo com instituições de ensino modernas e consolidadas como a JNU, a JU e a HCU a serem alvo de ataques implacáveis, nenhuma instituição que ministrasse ensino em estudos tradicionais indianos (ou disciplinas afins) e que aspirasse a destacar-se nesta área tenha sido criada ou apoiada até alcançar proeminência. Não demora muito para que uma instituição de excelência se torne conhecida:   a JNU ganhou reputação internacional numa década após a sua criação. Se tivesse surgido uma instituição que promovesse os estudos tradicionais indianos, a sua reputação já se teria espalhado. Isto não aconteceu pela simples razão de que nenhuma instituição desse tipo surgiu durante o período de governo do Hindutva.

O exposto tem uma implicação importante. Cada dia que o governo do Hindutva permanecer no poder, haverá uma tentativa de levar o sistema educativo à extinção. Não se trata de "dar mais algum tempo ao governo do BJP a fim de que possa fazer algo para melhorar o sistema educativo"; o que quer que façam em relação ao sistema educativo apenas o empurrará para uma destruição ainda maior. Um indício da sua atitude em relação ao mundo das letras é o apoio condenável dado pelo Ministro-Presidente de Bengala Ocidental aos vândalos que destruíram livrarias criadas pela Frente de Esquerda perto das tendas (pandals) de Puja em todo o estado.

01/Novembro/2026

domingo, 1 de novembro de 2026

 

A extrema-direita na Europa:   quando a ira social é desviada

– O imigrante não determina os salários. Não decide sobre os despedimentos. Não fecha as fábricas nem deslocaliza as empresas. Não é dono dos grandes grupos industriais nem controla os bancos.
– A extrema-direita não cria necessariamente a raiva. Dá-lhe uma orientação reacionária.

El Hadj Mohamed Brahim [*]

Ventura atiça o ódio e procura bodes expiatórios para a crise.

A extrema-direita está a ganhar terreno na Europa. Na Alemanha, o peso eleitoral da AfD é uma das manifestações mais visíveis desse fenómeno. Em vários outros países, forças nacionalistas, xenófobas e autoritárias estão a ganhar terreno, explorando o descontentamento de uma parte crescente da população.

Esta ascensão é frequentemente explicada pelo aumento do racismo, pelo medo da imigração, pelo nacionalismo, pela desinformação ou ainda pela influência de líderes populistas. Estes fenómenos existem, sem dúvida. Mas não bastam para explicar por que razão a extrema-direita encontra hoje um terreno tão favorável. Para compreender esta evolução, é preciso partir da realidade social.

Há várias décadas que os trabalhadores europeus enfrentam uma deterioração das suas condições de vida: estagnação salarial, precarização do emprego, crise da habitação, enfraquecimento dos serviços públicos, encerramento de fábricas e desindustrialização de regiões inteiras. As políticas de austeridade, as privatizações, a flexibilização do trabalho e a concorrência entre os trabalhadores transformaram profundamente as sociedades europeias.

Estas políticas não foram conduzidas apenas por governos conservadores. Foram também aplicadas, com algumas nuances, por governos liberais e social-democratas, por vezes até por forças que se reivindicam da esquerda.

Esta é uma das razões da atual crise política. Uma parte das classes populares já não distingue claramente os partidos que se sucedem no poder. Os governos mudam, mas as mesmas exigências permanecem:   competitividade, rentabilidade, redução das despesas públicas e pressão sobre o mundo do trabalho. Esta situação gera uma raiva genuína. Mas essa raiva não tem automaticamente uma orientação política.

A PROCURA DE BODES EXPIATÓRIOS

Pode conduzir à solidariedade, à sindicalização e à luta coletiva. Pode também ser desviada para a procura de bodes expiatórios.

Quando um trabalhador vê o seu salário diminuir, a sua renda habitacional aumentar ou o seu emprego tornar-se precário, podem ser-lhe apresentadas duas explicações. A primeira leva-o a questionar-se sobre a distribuição da riqueza, a relação entre o capital e o trabalho e o poder económico. A segunda aponta-lhe um responsável mais próximo: o imigrante, o refugiado, o desempregado, uma minoria ou uma instituição estrangeira.

É assim que o conflito social é deslocado.

Em vez de questionarem quem detém a riqueza e toma as decisões económicas, os trabalhadores são levados a considerar-se concorrentes. O trabalhador nacional é oposto ao trabalhador imigrante, o trabalhador do setor público ao do privado, os jovens aos reformados, as cidades ao campo.

Enquanto os trabalhadores se opõem uns aos outros, as relações económicas que geram as desigualdades permanecem, em grande medida, fora do debate.

O racismo desempenha aqui um papel político importante. Não se trata apenas de preconceitos individuais:   pode tornar-se um instrumento de divisão social.

O imigrante não determina os salários. Não decide sobre os despedimentos. Não fecha as fábricas nem deslocaliza as empresas. Não é dono dos grandes grupos industriais nem controla os bancos.

No entanto, a extrema-direita procura responsabilizá-lo pelo desemprego, pela crise da habitação, pela queda dos salários ou pela saturação dos serviços públicos.

A questão social é assim transformada numa questão de identidade.

O trabalhador já não é convidado a considerar-se, em primeiro lugar, como um trabalhador com interesses comuns a outros trabalhadores. É chamado a definir-se, acima de tudo, pela sua nacionalidade:   alemão, francês, italiano, grego ou outro.

A solidariedade de classe recua em benefício da divisão nacional.

Esta evolução é tanto mais fácil quanto o movimento operário foi enfraquecido em muitos países europeus. Durante décadas, os sindicatos, os partidos operários e as organizações populares davam às reivindicações sociais uma expressão coletiva. Os trabalhadores sabiam que a sua força residia na sua capacidade de se organizarem.

Quando essa organização recua e as lutas se tornam principalmente defensivas, abre-se espaço para outras forças.

A extrema-direita sabe ocupar esse espaço. Alega falar em nome do "povo" contra as "elites" e apresenta-se como antisistema.

Mas é preciso olhar para além dos slogans.

Criticar os partidos tradicionais não significa pôr em causa o domínio do capital. Denunciar as elites políticas não significa atacar o poder económico dos grandes grupos.

Uma força política pode apresentar-se como próxima do povo, ao mesmo tempo que defende a propriedade capitalista e os interesses fundamentais das classes possidentes.

A verdadeira questão é, portanto, saber que interesses sociais defende.

MILITARIZAÇÃO CRESCENTE

Não à austeridade e aos orçamentos de guerra!

A ascensão da extrema-direita deve também ser enquadrada no contexto internacional. A Europa está envolvida em rivalidades económicas e geopolíticas crescentes em torno de mercados, recursos energéticos, matérias-primas, tecnologias e zonas de influência.

A crescente militarização do continente insere-se neste contexto.

Em nome da segurança nacional ou da defesa dos interesses do país, pede-se aos povos que aceitem novos sacrifícios. Mas os interesses de um povo e os dos grupos económicos dominantes não são necessariamente os mesmos.

O trabalhador a quem se pede que suporte a austeridade para financiar mais despesas militares não tem os mesmos interesses que as empresas que beneficiam dessas encomendas. O trabalhador a quem se pedem sacrifícios em nome da competitividade não tem necessariamente os mesmos interesses que os acionistas que lucram com essa competitividade.

O nacionalismo pode, assim, mascarar as contradições de classe por detrás das fronteiras.

A história recente da Alemanha permite avaliar as consequências destas transformações.

Em várias regiões da antiga Alemanha Oriental, a reunificação de 1990 foi seguida de reestruturações brutais, encerramentos de empresas e um desaparecimento significativo de atividades industriais. Perderam-se postos de trabalho, as populações partiram para o Ocidente e alguns territórios viveram um sentimento duradouro de degradação social.

Esta memória social pode ser explorada pela extrema-direita.

Em vez de questionar as causas económicas desta degradação, a extrema-direita propõe uma outra interpretação:   alguém teria "tirado" às populações aquilo que estas possuíam no passado. Os estrangeiros, as minorias, as instituições europeias ou outros grupos são então apontados como responsáveis.

A extrema-direita não cria, portanto, necessariamente a raiva. Dá-lhe uma orientação reacionária.

A questão essencial continua a ser a do poder económico:   quem detém as riquezas? Quem detém os meios de produção? Quem decide sobre a utilização do trabalho e dos recursos produzidos pela sociedade?

A democracia não pode ser reduzida às eleições. Uma sociedade em que uma minoria detém grande parte das riquezas e exerce uma influência considerável sobre as decisões políticas continua a ser atravessada por relações de dominação.

É por isso que a luta contra a extrema-direita não pode limitar-se a apelos morais ou a orientações eleitorais.

Não se pode pedir aos trabalhadores que votem contra a extrema-direita e, ao mesmo tempo, deixar intactas as condições sociais que alimentam o seu desenvolvimento.

É preciso defender os salários, as pensões, a habitação, os serviços públicos, o emprego e os direitos sindicais. Mas, acima de tudo, é preciso reconstruir a capacidade de organização coletiva dos trabalhadores.

O trabalhador alemão e o trabalhador imigrante não têm de ser adversários. Podem ter línguas, histórias e nacionalidades diferentes, mas estão sujeitos às mesmas relações de dependência em relação ao capital.

A sua divisão beneficia aqueles que têm interesse em impedir a sua unidade.

É por isso que o internacionalismo mantém toda a sua força. Os capitais circulam para além das fronteiras. As grandes empresas organizam a sua produção à escala internacional. Também os trabalhadores devem poder construir a sua solidariedade para além das fronteiras.

A resposta ao nacionalismo não pode ser a indiferença perante as realidades nacionais, mas sim a solidariedade entre os trabalhadores de todos os países.

A extrema-direita propõe outro caminho. Promete proteger o trabalhador nacional, colocando os povos uns contra os outros. Transforma uma questão social numa questão de identidade e apresenta o estrangeiro como uma ameaça.

Esta política pode permitir-lhe aproveitar parte da ira popular, mas não elimina nenhuma das causas profundas dessa ira.

Enquanto os salários continuarem sob pressão, a habitação estiver sujeita à especulação, os serviços públicos forem reduzidos e os trabalhadores forem colocados em concorrência, o descontentamento continuará a existir.

A verdadeira questão é, portanto, saber qual a força política que será capaz de lhe dar uma outra direção.

Se as organizações populares continuarem fracas e se o movimento operário não conseguir reconstruir uma perspetiva coletiva, a extrema-direita continuará a encontrar terreno fértil.

A luta contra ela deve, portanto, ser travada em duas frentes:   combater sem ambiguidades o racismo, a xenofobia e o nacionalismo reacionário, mas também atacar as condições sociais que permitem que essas ideologias avancem.

Isso significa defender os trabalhadores, os seus direitos e as suas condições de vida. Significa reconstruir as solidariedades coletivas. Significa recusar que o imigrante seja apresentado como inimigo do trabalhador, que o desempregado seja responsabilizado pelo desemprego ou que os povos sejam colocados uns contra os outros.

Significa também defender a paz e recusar que os trabalhadores paguem o preço das rivalidades entre potências.

Pois o que está em jogo vai muito além da AfD ou de tal ou tal partido nacionalista. Diz respeito ao futuro político e social da Europa.

Existem duas respostas possíveis à crise.

A primeira consiste em desviar a raiva para o racismo, o nacionalismo, o autoritarismo e a procura de bodes expiatórios.

A segunda consiste em transformar essa raiva em consciência, em organização e em luta coletiva.

Quando os trabalhadores perdem a confiança na sua própria capacidade de mudar a sociedade, outras forças oferecem-lhes um futuro. A extrema-direita promete-lhes então uma comunidade nacional livre dos seus supostos inimigos.

Cabe ao movimento operário opor outra perspetiva: a da solidariedade entre todos aqueles que vivem do seu trabalho, para além das fronteiras, das origens e das nacionalidades.

Combater a extrema-direita não é apenas defender a democracia contra uma ameaça política. É devolver aos trabalhadores a confiança na sua própria força e reabrir a possibilidade de um outro futuro.

15/Setembro/2026

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

 

El desmantelamiento del Estado Social Europeo

por Dmitry Orlov. En Club Orlov. Traducción automática verificada por Comunidad Saker Latinoamérica

Para comprender cómo Europa ha llegado a su actual y grave situación, debemos hacer primero un breve viaje al pasado. En 1917 tuvo lugar la Revolución rusa. Los bolcheviques llegaron al poder en Rusia y crearon la URSS (Unión de Repúblicas Socialistas Soviéticas), que se convirtió en el primer Estado social del mundo. El término «Estado social» es preferible al de «Estado socialista». El «socialismo» remite a una ideología —que puede ser comunista, socialista o incluso capitalista— y tiene que ver con las intenciones, no con los resultados; por el contrario, el «Estado social» se refiere directamente a estructuras económicas observables.

Un Estado social proporciona gratuitamente todos los elementos más esenciales: vivienda gratuita, atención sanitaria gratuita, cuidado infantil y educación gratuitos. Si es posible, provee también algunos servicios adicionales: escuelas de música, clases de ballet gratuitos y campamentos de verano para los niños gratuitos, y balnearios y sanatorios gratuitos para las personas mayores. Aquello que no es gratuito —alimentos, ropa, mobiliario, transporte público, etc.— resulta, en un Estado social, asequible para prácticamente todo el mundo. Un Estado social no lucha contra la pobreza; sencillamente no la tolera.

En la URSS, algunos de estos servicios gratuitos eran de una calidad excelente —la educación, la atención sanitaria primaria, las artes y las ciencias—, mientras que otros no siempre gozaban de la misma calidad ni estaban siempre disponibles. ¿Pero, al ser gratuitos, qué clase de ingrato se quejaría de un regalo? Junto con el programa socialista se incluía, además, la igualdad de derechos para las mujeres y las minorías étnicas, un sistema meritocrático de movilidad social que prácticamente eliminó cualquier vestigio de jerarquía de clases, entre otras muchas ventajas. Alguna gente que no se adaptó a este programa con la suficiente rapidez acabó disfrutando de talar árboles en Siberia. Con el tiempo, surgió una especie de sistema de clases a partir de la jerarquía del Partido Comunista soviético; y esto eventualmente terminó por arruinar el Estado social soviético, por la sencilla razón de que obstaculizaba el enriquecimiento de estos miembros jerárquicos.

En el camino aconteció la Segunda Guerra Mundial. Hitler invadió Rusia y, como resultado, la esfera de control soviética se expandió hasta abarcar toda Europa del Este, incluida una generosa porción de lo que había sido la Alemania nazi. Después de la guerra, los dirigentes soviéticos se dedicaron a remodelar sus nuevos dominios a su propia imagen: proveyendo abundantes beneficios gratuitos e instaurando regímenes socialistas que desarrollaron el Estado social en toda Europa del Este.

Mientras tanto, Europa Occidental permaneció sumida en una especie de sistema de clases semifeudal, dominada por una aristocracia degenerada y una oligarquía capitalista. En este sistema, la propiedad privada se extendía a casi todo, el acceso a los bienes y servicios dependía de la capacidad de pago, las mujeres carecían de igualdad de derechos y abundaban la discriminación étnica y racial, junto con otros horrores propios de la época medieval. Las evidentes deficiencias de este sistema retrógrado alimentaban un descontento social constante. Los partidos socialistas y comunistas periódicamente amenazaban con alcanzar el poder, a pesar de todos los esfuerzos por suprimirlos.

Para peor, Europa Occidental se encontraba bajo control estadounidense; y los estadounidenses parecen sufrir una especie de deformidad mental congénita: son incapaces de comprender cualquier sistema que no sea el suyo. Y entonces insistieron a ciegas en cierta apariencia de gobernanza democrática allí donde pudieron, lo que complicaba la tarea de reprimir a los partidos socialistas y comunistas. Esta estrategia no funcionó en todas partes: España, Portugal y Grecia permanecieron bajo dictaduras durante un periodo bastante prolongado.

Huelga decir que los estadounidenses se sentían profundamente contrariados cada vez que los europeos occidentales —al observar todas las ventajas gratuitas que se ofrecían justo al este de sus fronteras y sentir una envidia más que justificada— optaban por votar a partidos comunistas o socialistas. Otro defecto congénito de los estadounidenses es su odio implacable hacia cualquier cosa que huela a socialismo o comunismo. No obstante, para aplacar a su propia población se vieron obligados a hacer la vista gorda ante la introducción de políticas socialistas en toda Europa occidental. Con el tiempo, incluso los estadounidenses se vieron forzados a introducir algunas medidas de corte socialista, como la garantía de permiso por maternidad —aunque sin remuneración— y unas pensiones de jubilación tan exiguas que apenas permiten la supervivencia. Pero lo hicieron sin el menor convencimiento, volviendo atrás siempre que tuvieron ocasión. Es bien sabido que nunca llegaron a incluir la igualdad de derechos para las mujeres en su Constitución.

Algunas décadas más tarde, la URSS se desmoronó. Los defensores del modelo social soviético consideraron esta capitulación como un acto de traición por parte de la jerarquía del Partido Comunista, con Mijaíl Gorbachov y Borís Yeltsin a la cabeza de los traidores. Al verse privados de la generosidad rusa, gran parte de los países de Europa del Este cayeron en la pobreza. Lo mismo ocurrió en Rusia: tras el colapso, la proporción de la población que vivía en la pobreza pasó de un 2 % estimado en 1989 a casi un 24 % en 1998. Pero entonces, bajo el mandato de Vladímir Putin, el país se recuperó con gran rapidez y hoy se encuentra en una situación mejor que nunca. Incluso logró preservar gran parte del modelo social soviético, manteniendo la atención sanitaria básica gratuita, una educación mayoritariamente gratuita, tipos de interés subvencionados en las hipotecas para familias con hijos y otros muchos beneficios. La economía rusa es hoy decididamente empresarial y capitalista —con trabas burocráticas mínimas para crear una empresa privada—, pero mantiene una participación estatal de hasta el 50 %, concentrada sobre todo en grandes empresas y sectores industriales estratégicos.

Tras el colapso de la URSS, los estadounidenses sufrieron una especie de daño cerebral. Se convencieron de que la desbandada voluntaria de la URSS, orquestada por algunos traidores comunistas, constituía en realidad su victoria en la Guerra Fría y que, a partir de ese momento, podían dirigir el planeta entero a su antojo. Se extralimitaron al intentar hacerlo y ahora se encaminan, a su vez, hacia un colapso al estilo de la URSS; pero ese es un tema para otro artículo.

Mientras tanto, en Europa, ha llegado el momento de desmantelar el Estado social. Analizaremos más adelante las condiciones económicas que han hecho esto necesario; pero, por ahora, abordemos la cuestión del momento: las protestas. La perspectiva de desmantelar el Estado social ha provocado importantes protestas en toda Europa —desde París hasta Milán, Barcelona y Bruselas, e incluso hasta Tirana—. Estas protestas son comúnmente descriptas como una reacción al aumento de los precios o como una exigencia de reformas políticas concretas, pero tales interpretaciones resultan demasiado superficiales. En el fondo, estas protestas reflejan un cambio estructural más profundo: la transición de un Estado social a un sistema de gestión del descontento.

Quienes ostentan el poder ya no intentan atender las demandas de la población —pues consideran que sería inútil—, sino que se centran en gestionar la forma en que dichas quejas se canalizan políticamente. Existe una divergencia entre lo que reclaman los manifestantes y las respuestas que ofrecen las autoridades. Esencialmente, los manifestantes y los que están en el poder no comparten las mismas preocupaciones. Los manifestantes exigen medidas como el aumento del salario mínimo, la congelación de precios o la financiación de escuelas y hospitales. Las autoridades responden con una doctrina policial que incluye el uso generoso de gases lacrimógenos, cañones de agua, balas de goma, detenciones prolongadas, procesos judiciales acelerados y la creación de un gulag digital. No se trata de alcanzar la justicia, sino de gestionar los síntomas de un colapso social inminente.

Esta brecha entre los manifestantes y quienes gestionan el sistema tiene un fundamento económico. El peso del sector manufacturero en la economía de la Unión Europea ha caído hasta representar aproximadamente el 14 % del PIB. La industria automotriz se está desmoronando. La industría química ha visto el cierre de casi un centenar de instalaciones en un solo año. Europa carece de recursos industriales clave: más del 90 % de sus tierras raras provienen de China, cerca de la mitad de su gas se importa de Estados Unidos y los costos de la energía en Europa son aproximadamente cuatro veces más caros que los de EE.UU.

En este contexto de declive económico, la distribución de la riqueza se desplaza hacia la cúspide: el 1 % más rico de la población posee casi una cuarta parte de la riqueza total, mientras que la mitad más pobre solo posee el 3 %. Además, el 10 % de los hogares más ricos de la zona euro concentra aproximadamente el 57 % de la riqueza neta total. Esto es una mayoría sólida y decide dónde es gastado el dinero. En consecuencia, los dividendos y las ganancias corporativas aumentan, mientras que los salarios reales de los trabajadores comunes declinan. Estos no son problemas aislados, sino más bien una única catástrofe unificada: el excedente económico se extrae de la economía real y se concentra en la cima, al tiempo que se desmantela el Estado social.

Como consecuencia política de este proceso, la riqueza se transforma en poder. En Francia, las preferencias políticas de los más acomodados tienen, aproximadamente, 1,5 veces más peso que las de los más pobres a la hora de formar gobierno; una brecha que no ha dejado de ampliarse desde 2017. Mientras es mantenida una fachada pseudodemocrática, la distribución real de la influencia política ha devenido profundamente antidemocrática. La oligarquía se ha consolidado no mediante la supresión de las elecciones, sino a través de la erosión de los mecanismos de control y contrapeso —como el poder judicial, los medios de comunicación y los organismos independientes—, cuya función es exigir responsabilidades a los oligarcas.

A medida que los pobres se empobrecen más y la clase media se reduce, la ira se redirige hacia cualquier objetivo, excepto hacia aquellos que realmente se benefician de esta redistribución de la riqueza. Paralelamente, surge una subclase parasitaria cuyos ingresos dependen de preservar el statu quo en lugar de transformarlo: el personal de seguridad, reclutado de los mismos estratos sociales que los manifestantes, tiene un mayor interés en mantener la estabilidad que en buscar la justicia. La disciplina y la movilización represiva no se enmarcan como coacción, sino como una respuesta necesaria ante diversas amenazas.

El modelo europeo está evolucionando alejándose de la democracia y del Estado social, aunque no hacia una dictadura clásica. Por el contrario, el nuevo modelo constituye un régimen formal y superficialmente democrático, pero en la práctica oligárquico: se siguen celebrando elecciones, pero sus resultados son manipulados sistemáticamente; el Estado de derecho existe solo de nombre, mientras que las instituciones capaces de exigir responsabilidades a la oligarquía han sido neutralizadas; el orden se mantiene mediante la fuerza, al tiempo que las demandas sociales se desestiman por considerarse impracticables o extremistas.

Existe un único objetivo primordial en todo este proceso: la preservación de la riqueza por parte de la minoría adinerada. Este propósito va de la mano con la garantización de la estabilidad general del sistema financiero mundial. Para ello, resulta necesario limitar el gasto deficitario adicional y el endeudamiento público que ya no encuentra respaldo en el crecimiento económico. Tales tácticas fiscales solo pueden sostenerse si el crecimiento económico supera al ritmo de aumento de la deuda pública; de lo contrario, el camino conduce directamente a la quiebra nacional. En la Unión Europea, el crecimiento de la deuda superó al crecimiento económico durante la crisis financiera mundial de 2008-2009 y la posterior crisis de deuda soberana europea; en aquel periodo, la ratio de deuda pública sobre el PIB aumentó drásticamente, mientras la actividad económica se contraía o se estancaba.

Los estudios sobre las economías de la UE revelan una relación negativa no lineal: cuando la ratio de deuda pública sobre el PIB alcanza niveles elevados o crecientes, tiende a frenar el crecimiento económico a largo plazo una vez superados ciertos umbrales. Los expertos aún debaten sobre el momento exacto en que se cruzaron dichos umbrales. Un influyente estudio de 2010, elaborado por Carmen Reinhart y Kenneth Rogoff, señaló que una ratio de deuda sobre el PIB del 90 % constituía un punto de inflexión. Si comparamos esto con los datos más recientes de Eurostat, observamos que, en el segundo trimestre de 2026, la ratio media de deuda bruta de las administraciones públicas sobre el PIB en la Unión Europea se situaba en el 82,9 %, cifra que ascendía al 88,8 % en la zona euro. A estas alturas, en el cuarto trimestre de 2026, cabe suponer que la situación fiscal de la UE se ha deteriorado aún más; Europa habría superado ya el punto de inflexión definido por Reinhart y Rogoff, iniciando un declive no lineal.

Así pues, el Estado social europeo será desmantelado. Las protestas públicas generalizadas conducirán a la represión, no a la reforma. Los votantes europeos no desean verse privados de todos los maravillosos servicios que se han acostumbrado a recibir del Estado social, pero su opinión no le interesa en absoluto a la oligarquía gobernante.

Es más, desde el punto de vista de la oligarquía gobernante europea, limitarse a dejar que el Estado social se disuelva en la nada no sería suficiente. En palabras inmortales de Friedrich Nietzsche: «Lo que está cayendo, hay que empujarlo». Analicemos los pasos concretos que dieron para hacer que este proceso fuera inevitable y se perpetuara a sí mismo.

El primer paso consistió en inundar Europa de migrantes. No se trataba de inmigrantes dispuestos a aprender el idioma y la cultura local, a integrarse y a desempeñar un papel productivo en la sociedad europea; eso solo habría prolongado la agonía. El recién llegado ideal es un parásito absoluto, hostil hacia todo lo europeo, ocioso, alienado y vicioso. Estos recién llegados competirían con la población local por los servicios estatales, sobrecargando al máximo el Estado social y conduciéndolo a un modo de fallo.

El segundo paso consistió en introducir una serie de medidas supuestamente ecologistas, que sustituyeron la generación de energía tradicional —basada en combustibles fósiles— por fuentes intermitentes y de corta vida útil (aunque consideradas renovables y respetuosas con el medio ambiente), como la eólica y la solar. Estas fuentes no son capaces de cubrir la carga base necesaria para la producción industrial. Adicionalmente, Europa perdió el acceso a fuentes de energía rusas asequibles y estables, incluidos los oleoductos y gasoductos.

En un intento por compensar esta pérdida, la Unión Europea importó una cifra récord de 12,18 millones de toneladas métricas de gas natural licuado (GNL) procedente de Rusia durante los primeros nueve meses de 2026. Esto supone un incremento interanual del 9,5 %, lo que se tradujo en unos pagos totales de la UE a Rusia de aproximadamente 7.880 millones de euros a lo largo de dicho periodo. Actualmente, el GNL ruso representa cerca del 20 % del total de las importaciones de GNL de la UE, lo que convierte a Rusia en el segundo mayor proveedor de la Unión, solo por detrás de Estados Unidos.

Aunque, dada la situación en el golfo Pérsico y la pérdida del GNL catarí, pueda parecer una medida descabellada, la UE decidió bloquear todas las importaciones de GNL ruso a partir de principios de 2027. Si bien Catar suministraba anteriormente cerca del 20 % de la capacidad mundial de exportación de GNL, gran parte de su capacidad productiva ha resultado dañada o destruida en el transcurso de la guerra regional en la que están implicados Israel, Estados Unidos e Irán. En caso de que cesaran las hostilidades, su reconstrucción llevaría prácticamente una década. Desde la perspectiva de la UE, prescindir del 20 % de sus importaciones de GNL en pleno invierno es una forma excelente de agravar aún más una crisis energética ya de por sí desesperada.

El tercer paso consistió en adoptar otras medidas contundentes destinadas a llevar al gobierno a la bancarrota. Una forma excelente de lograrlo es tomar todo el capital que podría destinarse a reactivar el crecimiento económico o a reforzar el Estado social y arrojarlo a un agujero negro. Pero ¿cómo encontrar un agujero negro en el que verter el dinero? Resulta que es bastante sencillo: existe precisamente un agujero negro de este tipo, acechando nada menos que en Europa. Algunos todavía lo llaman «Ucrania», mientras que otros preferirían no denominarlo de ninguna forma.

Hasta la fecha, la Unión Europea y sus Estados miembros han despilfarrado 231.500 millones de euros en concepto de apoyo financiero, militar, económico y humanitario a la antigua Ucrania. Una buena parte de esa suma —alrededor de un tercio— fue malversada por funcionarios ucranianos corruptos o evaporada en forma de sobornos para funcionarios de la UE, quienes realizaban frecuentes peregrinajes a Kiev, regresando con maletas repletas de efectivo en su equipaje diplomático. Gran parte del resto se desperdició en inútiles acciones militares contra unas fuerzas rusas que avanzaban constantemente; en el proceso, más de un millón y medio de soldados ucranianos fueron masacrados, todo ello para enriquecer a los funcionarios de la UE y a la junta de Kiev. La antigua Ucrania brindó una oportunidad inmejorable para dilapidar sumas astronómicas de dinero.

El cuarto paso consistió en preparar a Europa para la guerra, malgastando los fondos restantes en la adquisición de armamento y en una campaña de reclutamiento militar bastante infructuosa. En este aspecto, la antigua Ucrania ha resultado ser de gran ayuda: sus agentes de reclutamiento —conocidos como «TeTseKa»— se han vuelto expertos en el reclutamiento forzoso de civiles, secuestrándolos en plena calle y sometiéndolos a palizas hasta que se doblegan. Siguiendo la mejor tradición de la Marina británica de la época colonial, las palizas continúan hasta que la moral mejora. Sin embargo, en lugar de la ración diaria de medio litro de brandy o ron, a la carne de cañón ucraniana se le administran ahora sustancias basadas en metanfetaminas, diseñadas específicamente para anular el miedo, el hambre y el dolor. Estas mejores prácticas ucranianas resultarán, sin duda, muy eficaces en las futuras guerras de Europa.

Aunque el enemigo teórico de Europa ha sido, es y será siempre Rusia —Rusia, Rusia, Rusia—, esto es una artimaña bastante transparente. Rusia no tiene ningún interés en atacar o invadir Europa: no tiene la menor necesidad de cargar con quinientos millones de pensionistas, inmigrantes y jóvenes malcriados. Y si a Europa se le ocurriera cometer la mayor estupidez imaginable —atacar a Rusia—, su destino quedaría sellado en un abrir y cerrar de ojos. Rusia tiene una plenitud de medios a su disposición y es absolutamente seguro que recurrirá a las armas nucleares si esto llega a ser necesario.

La UE ya no cuenta con la protección del paraguas nuclear estadounidense, dado que a Estados Unidos no le interesa iniciar una guerra nuclear con Rusia por causa de Europa. De hecho, el arsenal nuclear británico es, en realidad, estadounidense; no puede utilizarse sin el permiso de Washington —permiso que, por las razones ya expuestas, no llegará—. Por su parte, Rusia podría neutralizar la capacidad de disuasión nuclear francesa en el mismo instante en que la burocracia militar gala intentara autorizar el uso de su arsenal, un conjunto de armas nucleares más bien testimonial. A la luz de lo anterior, una guerra entre Europa y Rusia queda totalmente descartada.

En la otra mano, una guerra entre naciones europeas seguiría un patrón bastante tradicional y podría estallar en cuanto se completen los preparativos necesarios. Si, por ejemplo, una región de Francia se volviera ingobernable —con alborotadores ocupando los centros urbanos mientras la policía abandona el lugar—, el ejército alemán podría intervenir para restablecer el orden con mucha más facilidad que el ejército francés; este último, lógicamente, se opondría a ser desplegado contra sus propios compatriotas.

Cuando los rusos decidan, simplemente, dejar a su suerte a Ucrania occidental —permitiendo que se llene de cárteles criminales—, Polonia, Hungría y Rumanía podrían intentar limpiar la zona, para luego acabar enfrentándose entre sí por el control de esos restos. Al fin y al cabo, se trata de territorios que, en el pasado, les pertenecieron. Existen, además, otras muchas fantasías irredentistas y agravios históricos por toda Europa que podrían explotarse de forma similar.

Todo este escenario plantea una gran incógnita: ¿serán suficientes estos preparativos para garantizar una transición fluida hacia una Europa pos-Estado social —estable y controlable—, en la que el orden financiero internacional se mantenga intacto y la oligarquía europea conserve su riqueza y su poder? Solo el tiempo lo dirá; pero, desde luego, al resto del mundo le convendría ir preparando las palomitas de maíz, ¡porque observar todo esto desde una distancia segura promete ser, cuando menos, interesante!

Em

Sakerlatam

https://sakerlatam.blog/el-desmantelamiento-del-estado-social-europeo/

30/6/2026