segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Dissecando o cadáver do “Estado Profundo”

 


Dmitry Orlov – 20 de setembro de 2026

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O termo “Estado profundo” há muito deixou de ser um mero slogan político e passou a fazer parte do quadro analítico. É indispensável para explicar a continuidade das agendas e prioridades, apesar da constante renovação entre os membros públicos das elites governantes. Ele desempenha a função essencial de manter a continuidade. É capaz de perseguir objetivos estratégicos de longo prazo que devem permanecer ocultos por trás de uma fachada política caótica.

Sem o apoio de um Estado profundo, um Estado torna-se frágil, sem nada para sustentá-lo, exceto o uso da força. Um ditador pode alegar que seu poder deriva da aprovação pública. Mas, na realidade, ele provém da cooperação e do apoio de uma rede informal de indivíduos influentes, porém estritamente não públicos. Da mesma forma, sem um Estado profundo, uma democracia representativa degenera rapidamente em uma república das bananas. As tendências populistas dos partidos ou coalizões no poder levam-nos a fazer promessas de campanha que não podem cumprir. Por sua vez, o acúmulo recorrente de promessas não cumpridas faz com que, periodicamente, a oposição pareça menos ruim em comparação. À medida que os partidos ou coalizões no poder e na oposição trocam de lugar, cada um tenta zerar o quadro, desfazendo o trabalho do governo anterior. Se não fosse pelo Estado profundo, isso destruiria a continuidade e tornaria o planejamento de longo prazo praticamente impossível.

Seria um erro encarar o “Estado profundo” como uma conspiração — uma camarilha secreta de atores nefastos. Seria inútil tentar nomear seus membros individualmente, pois seu poder não reside em seus membros, mas em suas interações informais. Atores-chave dentro da elite se auto-organizam espontaneamente em uma rede fluida. Essa rede, então, exerce influência sobre decisões críticas relativas à política interna e externa. Trata-se de um sistema vivo e dinâmico que sobrevive graças à sua capacidade de se adaptar e responder efetivamente às realidades em constante mudança.

É muito importante observar que o “Estado profundo” não atende especificamente aos interesses do povo. Ele não busca servir à sociedade como um todo. O “Estado profundo” pode se beneficiar quando a sociedade como um todo vai bem, mas esse nunca é seu objetivo final. Seu propósito é atender aos interesses das principais partes interessadas, o núcleo da elite, e manter suas redes de influência. Quaisquer benefícios ou efeitos colaterais positivos que revertam para a sociedade como um todo são puramente incidentais.

Por exemplo, as realidades políticas da Guerra Fria forçaram os EUA a competir com a URSS em matéria de política social. Na URSS, o governo comunista melhorou o padrão de vida de todos, e não apenas das elites ou da classe média. Como consequência, nos EUA, pela primeira vez na história, a pobreza generalizada tornou-se politicamente embaraçosa e algo precisava ser feito a respeito. Para esse fim, o governo federal introduziu os chamados projetos da “Grande Sociedade”. Essa medida foi uma injeção pontual de uma dose de socialismo em um sistema que é alérgico a ele. E assim, todos esses projetos foram medidas incompletas. Os EUA nunca chegaram ao ponto de introduzir ensino superior gratuito ou licença-maternidade remunerada. E então o colapso da URSS tornou os projetos da “Grande Sociedade” um projeto obsoleto e ultrapassado.

Mas era politicamente impossível encerrá-los todos de uma só vez. Em vez disso, os sucessivos governos foram forçados a reduzi-los gradualmente ao longo de décadas de cortes orçamentários, descentralização e reforma da previdência social. Mas o processo estagnou e agora cerca de 50% dos lares americanos recebem algum tipo de pagamento recorrente do Tesouro dos EUA. Trata-se do mesmo Tesouro dos EUA que tem uma dívida de US$ 40 trilhões e apresenta um déficit orçamentário que equivale a cerca de um terço de suas receitas. Esse caminho leva à falência nacional. Enquanto isso, o déficit orçamentário e a dívida federal da Rússia são minúsculos, ao passo que seus gastos sociais são enormes. Chame isso de vingança dos comunistas.

Essa competição entre o Oriente e o Ocidente foi além dos projetos da “Grande Sociedade” e da “guerra contra a pobreza”. A própria existência da classe média nos EUA servia apenas para manter os comunistas e os socialistas à distância. Após o fim da experiência comunista, a classe média, nos EUA e no restante do Ocidente, vem sendo gradualmente desinflada. E agora cerca de metade dos graduados universitários nos EUA volta a morar com os pais após a formatura. Essa estatística, por si só, refuta a alegação de que os EUA ainda são uma sociedade de classe média. Trata-se de uma sociedade de classe baixa que caminha inexoravelmente para se tornar uma sociedade de classe inferior. Cada nova geração está em situação pior do que a anterior. Será que isso perturba de alguma forma o “Estado profundo”? Nem um pouco! É claro que ele está perturbado com a iminente falência nacional. Mas é tarde demais para fazer qualquer coisa a fim de evitá-la. O “Estado profundo” não é onipotente, veja bem.

Como observação adicional, o colapso repentino da URSS foi desencadeado pelas maquinações secretas do “estado profundo” soviético. Ele consistia, em grande parte, na nata dos partidos comunistas das diversas repúblicas socialistas soviéticas — a chamada “nomenclatura”. Notavelmente ausente estava o Partido Comunista Russo — os russos não tinham permissão para ter um. A URSS era bastante popular entre o povo — mas não entre seu “estado profundo”! 77,8% da população votou pela preservação da URSS em um referendo nacional realizado em 17 de março de 1991. Mas, então, a URSS foi formalmente dissolvida em 26 de dezembro de 1991. Ela foi dissolvida por votação do Soviete Supremo. Esses deveriam ter sido os representantes do povo. Mas, pode ter certeza, as bases para essa decisão foram estabelecidas em outro lugar, a portas fechadas. A vontade do povo foi desconsiderada. Muitas pessoas viram isso como um ato de traição. Os resultados foram terríveis para a população em geral. Segundo algumas estimativas, 10 milhões de pessoas morreram como consequência. Mas foi um excelente resultado para uma nova classe de proprietários privados. Muitos deles surgiram de dentro da antiga nomenclatura do Partido Comunista. Eles enriqueceram com a privatização da propriedade pública. Aos olhos de muitos que testemunharam o ocorrido, “privatização” era apenas um eufemismo para “roubo”. Foi uma derrota para a nação e uma vitória para seu “Estado profundo”.

Assim, seria um erro pensar que o Estado profundo serve à sociedade como um todo. Pode até ser um exagero dizer que ele serve ao próprio Estado. Essa conexão se torna cada vez mais tênue à medida que o Estado profundo começa a perder seu caráter nacional. Será que um Estado profundo pode sobreviver à medida que se torna cada vez mais internacionalizado, como vem acontecendo na Europa e à medida que as corporações transnacionais ganham mais poder nos EUA? Atualmente, a Europa é governada por um conjunto de cosmopolitas sem raízes e profundamente impopulares (que é como Joseph Stalin os teria chamado). A França e a Alemanha são atualmente lideradas por ex-banqueiros. Eles estão diretamente subordinados a conglomerados financeiros transnacionais. Eles falam inglês quando se reúnem. Preocupam-se muito pouco com a nação histórica que está sob sua responsabilidade. E todos são nomeados por um “Estado profundo” transeuropeu e transatlântico.

O que acontecerá com os “Estados profundos” nacionais das nações europeias à medida que suas nações continuam a se dissolver dentro da União Europeia? Talvez se tornem como caranguejos-eremitas que perderam suas conchas — presas fáceis para outros “Estados profundos”? Caranguejos-eremitas são canibais altamente oportunistas, você sabia! Imagine, se quiser, um grupo de caranguejos-eremitas, com suas conchas dissolvidas pelos ácidos secretados pela Comissão Europeia, amontoados em medo abjeto da Rússia. Mas a Rússia nem sequer está interessada neles. Com o tempo, eles ficarão com fome e começarão a se devorar uns aos outros. De acordo com a antiga tradição europeia, provavelmente comerão a Polônia primeiro. Voltaremos a esse ponto específico mais tarde.

Não deveria ser uma grande surpresa se a perda da identidade nacional fizesse com que o “Estado profundo” de uma nação perdesse sua coerência e foco, entrasse em conflito interno e se dissolvesse. A única exceção pode acabar sendo o “Estado profundo” britânico. Teremos que ver se ele sobreviverá ao colapso do Reino Unido, à medida que este se fragmenta voltando ao estado de 1707, perdendo a Escócia, a Irlanda do Norte, o País de Gales e quaisquer outras pequenas colônias que ainda lhe restem. À medida que a Grã-Bretanha encolher até se tornar a Pequena Inglaterra, será que seu “estado profundo” se manterá unido ou será que suas diversas criaturas do “estado profundo” fugirão correndo em busca de outras cascas nacionais nas quais se esconder?

O “estado profundo” britânico merece uma análise cuidadosa. É, de longe, o “estado profundo” mais antigo que ainda existe. É o único “estado profundo” que, de fato, possui estatuto oficial. Uma sucessão de documentos oficiais, começando pela Carta de Guilherme de 1067, garantiu seus direitos e privilégios especiais. O Parlamento não ousa infringir esses direitos, e a City — o centro financeiro de Londres — designa um supervisor especial para zelar por isso. Assim, a City é um verdadeiro Estado dentro do Estado. E há ainda os maçons e a aristocracia, com suas próprias formas bastante opacas e secretas de agir.

O know-how especial do “Estado profundo” britânico consiste em lucrar com as desgraças alheias. Se puder, de alguma forma, contribuir para causar e perpetuar um conflito, certamente o fará. Muitas nações sofreram com a nefasta intromissão britânica, a Rússia em particular. Ela teve participação na instigação de uma guerra entre a Rússia e a França na época de Napoleão Bonaparte. Também teve participação na Revolução Russa de 1917. Mais recentemente, fez o possível para impedir que a paz se estabelecesse entre a Rússia e a antiga Ucrânia. Suas ações dissimuladas ao longo dos séculos renderam-lhe o apelido russo de “поганый остров” — a ilha podre. Agora, muitos russos veem o Reino Unido como uma casca pós-imperial em decadência, cujo colapso é matematicamente inevitável. Sua decadência social, econômica e moral é simplesmente profunda demais. Os noticiários noturnos russos têm grande prazer em narrar seu declínio.

O “Estado profundo” britânico também é uma espécie de franquia. Seus tentáculos se estenderam até Nova York, Cingapura, Hong Kong, Dubai e outros centros financeiros globalistas. Em cada caso, um destacamento de alguns milhares de súditos britânicos é enviado para manipular a situação nos interesses do “Estado profundo” britânico. Essa tendência de se espalhar pelo mundo, infestando pontos-chave ao longo de importantes rotas marítimas, torna difícil perceber onde ela termina. Mesmo depois que o Reino Unido deixar de existir, cortar esses tentáculos promete ser um processo demorado e trabalhoso para os “Estados profundos” concorrentes.

O “estado profundo” britânico também é um parasita de grande sucesso. Após o colapso do Império Britânico, ele se fixou aos EUA, da mesma forma que um peixe-ventosa se fixa a um tubarão. Não sendo mais capaz de se sustentar sozinho, ele tem usado habilmente o poder americano para servir aos seus próprios interesses perniciosos, que apresentou de forma irônica como interesses comuns. Algumas autoridades americanas foram ingênuas demais para perceber o ardil, enquanto outras tiveram que ser corrompidas. Atualmente, estão surgindo fissuras entre os “estados profundos” britânico e americano. Isso pode significar que essa relação especial está chegando ao fim. Ou pode significar que os “estados profundos” britânico e americano estão se preparando para pular juntos de um penhasco, de mãos dadas.

O “Estado profundo” é uma bênção ou uma maldição? Certamente é ambos. É uma maldição porque sequestra o Estado para atender às suas próprias necessidades, em vez das necessidades da população em geral. É uma bênção porque, sem ele, o Estado em que habita se torna presa fácil para outros. Uma hipótese perfeitamente razoável que vale a pena testar é que uma nação que não possui um “Estado profundo” é uma colônia de uma nação que o possui.

Como exemplo de um “Estado profundo” degenerado, vamos dar uma olhada muito breve na Polônia. A Polônia sofre de um defeito congênito: tem apresentado consistentemente não um, mas pelo menos dois “Estados profundos” que estão permanentemente em guerra um com o outro. O rancor entre eles inevitavelmente irrompe no discurso público, dando origem ao comportamento político mais ridículo, bombástico e provocativo. Tão profundo é o ódio mútuo que, ao lutarem entre si, eles negligenciam a proteção dos interesses nacionais da Polônia. Olhando para trás na história, é do interesse nacional da Polônia evitar irritar a Rússia. Fazer isso sempre acaba mal para a Polônia. Se a Polônia tivesse um “Estado profundo” saudável e consolidado, ele agiria rapidamente para neutralizar qualquer político polonês que se esforçasse para ofender e irritar a Rússia.

Nesse sentido, um exemplo emblemático é o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radosław Sikorski. Recentemente, ele sugeriu que seria uma boa ideia começar a hostilizar a Rússia realizando exercícios militares altamente agressivos ao longo das fronteiras do enclave russo de Kaliningrado. Autoridades russas tomaram nota disso e talvez tenham revisado alguns planos de batalha. A Polônia é um país pequeno e a Rússia pode forçá-la a se render em um ou dois dias usando armas convencionais de longo alcance. Ninguém estava forçando Radosław a se expor. Mas tais provocações ridículas são típicas do comportamento político polonês ao longo da história. Se a Polônia tivesse um “Estado profundo” forte, saudável e unificado, teria amordaçado Radosław ou o tirado do palco com um gancho. É esse tipo de propensão a acidentes políticos que fez com que a Polônia fosse dividida um total de seis vezes a partir de 1772. Atualmente, a Europa está lutando para se rearmar, antecipando a saída das forças americanas da Europa. Assim que isso acontecer, será hora de mais uma guerra europeia. Tradicionalmente, as guerras europeias começam com a partilha da Polônia.

E agora, vamos discutir a anatomia do Estado profundo. Quais são seus órgãos vitais e como eles se conectam entre si? Aqui, os EUA servem como um cadáver excelente, possuindo o exemplo mais estudado e mais institucionalizado de um Estado profundo. Seu Estado profundo é muito mais bem documentado do que qualquer outro, devido à tradição de jornalismo investigativo dos EUA e a um movimento dissidente barulhento, porém ineficaz. A pesquisa acadêmica também teve seu papel. Noam Chomsky, Howard Zinn e outros radicais moderados e sistêmicos americanos ajudaram a esboçar muitos de seus detalhes, sem qualquer efeito positivo.

Além disso, a dissecação do “cadáver” do Estado profundo é facilitada pela propensão americana a vazamentos e escândalos públicos. A maioria dos outros países não oferece tal transparência a observadores externos. Isso não significa que eles não tenham um Estado profundo. É apenas que ele não é tão visível de fora, para um observador casual. Nenhuma nação é tão disposta quanto a americana a expor suas sujeiras à vista de todos.

Mas as ações do “Estado profundo” são quase sempre claramente visíveis de dentro, para aqueles que estão a par da situação. Qualquer pessoa que tenha conseguido acelerar uma decisão por meio dos tribunais, do legislativo ou do aparato de segurança simplesmente teve que tomar conhecimento deles. Obviamente, raramente é vantajoso para um especialista divulgar amplamente seu conhecimento especializado. Em certos lugares, tais ações seriam consideradas traição. E, a menos que se seja americano, tais ações seriam consideradas de péssimo gosto.

Embora seja o exemplo mais bem estudado, o “estado profundo” americano não é uma invenção americana nem é único. O “estado profundo” é a sombra universal da autoridade formal, acompanhando-a onde quer que exista uma sociedade complexa. Ele pode ser mais ou menos coeso, agressivo ou oculto, mas está sempre presente. A questão não é se ele existe, mas sim qual é a sua configuração, a quais interesses ele atende e se é capaz de se adaptar a mudanças catastróficas. Caso você esteja se perguntando por que isso deveria ser motivo de preocupação, saiba que mudanças catastróficas são exatamente o que está ocorrendo atualmente em grande parte do mundo.

A mídia e vários especialistas, comentaristas e blogueiros dedicam uma quantidade excessiva de tempo discutindo personalidades: quem disse o quê a quem, onde, quando e por quê. Mas, se a maioria das decisões importantes é tomada dentro do “estado profundo”, essa discussão não trata de nada que seja importante. O foco doentio em personalidades — que bobagem Trump disse agora? — ignora o ponto crucial: o “Estado profundo” não se resume a indivíduos específicos. Trata-se de um sistema de conexões informais entre pessoas que preferem permanecer anônimas. Não há uma lista pública delas para que possamos examinar.

Mas se fôssemos procurar seus membros, eles seriam encontrados em todos os serviços de inteligência e segurança, nas Forças Armadas e em suas empresas contratadas para a defesa, nas grandes corporações, nas instituições financeiras, nos ecossistemas de lobby, nos think tanks, nas universidades e no corpo diplomático. O importante é como esses membros interagem. A essência do fenômeno reside em seus protocolos informais de interação. Eles permitem que mantenham o controle sobre decisões estratégicas mesmo quando o poder formal passa para um populista ou um reformista. A alternância democrática é apenas uma espécie de farsa encenada diante de uma fachada apresentável que esconde um aparato feio, mas poderoso.

As manifestações desse fenômeno são diversas e nem sempre imediatamente evidentes. A principal delas é a continuidade das políticas. As guerras persistem ao longo dos mandatos presidenciais. A vigilância se expande independentemente de qual partido esteja no poder. Os sistemas financeiros servem aos mesmos interesses arraigados. Os governos presidenciais podem se alternar de forma caleidoscópica, mas a máquina do Estado profundo continua produzindo o mesmo resultado, independentemente de quem esteja nominalmente no poder. Ela demonstra grande resiliência diante de desafios externos, como a ascensão de políticos populistas, o desenvolvimento de novas tecnologias poderosas ou turbulências geopolíticas. O Estado profundo altera sua estrutura e suas táticas, e ou absorve os novos atores ou os marginaliza.

O Estado profundo compartilha uma característica de todos os seres vivos: a capacidade de preservar o equilíbrio homeostático. Assim como um sistema biológico mantém a estabilidade interna, o Estado profundo mantém um núcleo imutável. Mesmo que suas formas externas mudem constantemente, ele mantém o controle sobre recursos estratégicos, a segurança dos grupos de elite e a perpetuação de sua influência. Mudanças na economia, na tecnologia e na geopolítica desencadeiam uma reconfiguração das conexões internas, mas a rede em si permanece intacta.

Embora os membros do Estado profundo possam defender esta ou aquela ideologia, o próprio Estado profundo carece de uma ideologia. Seu único imperativo é manter as condições necessárias para sua própria existência e para o bem-estar de seu núcleo de elite e daqueles que a servem. Todo o resto — seja capitalismo, fascismo, socialismo ou comunismo — é meramente um instrumento. A caixa de ferramentas do Estado profundo também contém itens como moralidade pública, patriotismo, direitos humanos, democracia, livre comércio e assim por diante, mas esses são apenas instrumentos aplicados cinicamente para alcançar certos resultados físicos e, mais importante ainda, financeiros para o próprio Estado profundo.

O Estado profundo também não possui uma estrutura hierárquica de poder. A influência não é determinada pela posição hierárquica e não se expressa por meio de ordens diretas. Em vez disso, ela flui naturalmente, mediada por vários fenômenos mais ou menos intangíveis, como reputação, lealdade, laços familiares e amizades, troca de favores, oportunidades de ascensão profissional, objetivos compartilhados e obrigações mútuas. Esses fatores são, por vezes, considerados como corrupção. De fato, eles se enquadram em algum ponto do espectro da corrupção. Esse espectro abrange favoritismo, nepotismo, clientelismo, patrocínio e tráfico de influência. Quando as condições são estáveis e favoráveis, isso normalmente não chega a constituir um comportamento criminoso declarado, como suborno, desvio de fundos, chantagem, extorsão e assassinato político.

Alguns “Estados profundos” são apenas um pouco corruptos, outros um pouco mais, e um deles — o “Estado profundo” ucraniano — parece consistir, na verdade, em 100% de corrupção e criminalidade, sem qualquer outro ingrediente. Milhões de ucranianos foram condicionados a considerar essa situação perfeitamente normal e estão dispostos a morrer para defendê-la. Além disso, é altamente contagioso e, até agora, já conseguiu “ucranizar” boa parte da União Europeia. Felizmente, um país desenvolveu um poderoso antibiótico que, no devido tempo, esterilizará a antiga Ucrânia. Como você já deve ter adivinhado, esse país é a Rússia. Mas estou divagando.

Voltemos aos EUA, então. Lá, certas formas de comportamento que geralmente são consideradas corruptas são perfeitamente legais, especialmente o lobby. Os lobistas já foram pessoas de má reputação que não tinham permissão para ir além do saguão de um prédio público. Eles ficavam no saguão e tentavam interceptar autoridades públicas na entrada ou na saída, tentando influenciar suas opiniões e decisões por meio de manipulação bajuladora ou abordando-as de forma insistente e fazendo ameaças vazias. Hoje, é claro, eles estão presentes em todas as salas de reunião. Frequentemente, redigem projetos de lei que os legisladores assinam sem sequer se darem ao trabalho de lê-los. A propensão a acrescentar certas cláusulas especificamente concebidas para beneficiar esta ou aquela parte causa um enorme inchaço regulatório. Por sua vez, apenas os próprios lobistas, que servem às grandes corporações, são capazes de navegar nesse mar de jargão regulatório. Todos os demais apenas se debatem e se afundam, acabando por se afogar nele.

No ano passado, os gastos com lobby nos EUA, apenas no âmbito federal, atingiram um recorde de US$ 5 bilhões. Além do lobby, as principais empresas de lobby oferecem uma ampla gama de outros serviços. Entre eles estão a representação jurídica perante órgãos governamentais, análise de políticas, preparação de depoimentos jurídicos e apoio regulatório. Seu quadro de funcionários inclui ex-membros do Congresso, ex-assessores do Congresso e ex-embaixadores. Eles funcionam como uma máquina que converte gastos com interesses especiais em resultados legislativos e regulatórios concretos, tudo perfeitamente legal. Embora possa soar, parecer e cheirar a corrupção, não pode ser corrupção — porque, veja bem, não é ilegal. Como sempre tenho que lembrar às pessoas, nos EUA, escapar impune de um crime é moralmente equivalente a não cometê-lo.

Outro mecanismo perfeitamente legal, mas totalmente corrupto, pelo qual o “estado profundo” manipula eleições é algo chamado “dinheiro sujo”. Organizações políticas sem fins lucrativos registradas sob a Seção 501(c)(4) do Código Tributário não precisam divulgar seus doadores. Em 2024, grupos de “dinheiro oculto” ligados a candidatos à presidência arrecadaram anonimamente quase US$ 900 milhões. Um grupo que apoiava Kamala Harris arrecadou US$ 613 milhões, dos quais US$ 515 milhões vieram de apenas dez grandes doações. A maior delas foi de US$ 97,5 milhões, proveniente de um único indivíduo ou grupo. Tais organizações podem canalizar parcelas significativas de seus fundos para os Super PACs, que são organizações sem restrições quanto à campanha direta. Juntas, essas regulamentações criaram um sistema por meio do qual interesses financeiros exercem influência política direta de forma anônima. Toda essa estrutura — desde as partes interessadas envolvidas até as campanhas de projetos específicos — opera como um sistema vivo que se perpetua por meio de interesses alinhados. Como os incentivos dos participantes se alinham naturalmente, não é necessário um comando central. O sistema é imune a mudanças no governo e continua a funcionar independentemente de qual partido controle os poderes legislativo ou executivo.

Nos Estados Unidos, o funcionamento do “Estado profundo” está sujeito a algumas restrições legais e a um certo grau de divulgação pública e escrutínio. Em particular, matar dezenas de americanos, como ocorreu com o uso de vacinas defeituosas contra o coronavírus, causa alguma surpresa, embora sem efeito prático. Mas tais restrições não existem quando se trata do resto do mundo. Lá, o “Estado profundo” dos EUA tem carta branca e pode operar em total sigilo. No entanto, alguns fatos são bem conhecidos. As empresas militares privadas americanas constituem um setor de US$ 250 bilhões. Empresas que surgiram da Blackwater, como a Constellis, agora absorvem os gastos com defesa, independentemente de sua origem. Erik Prince, fundador da Blackwater, assinou um contrato de 10 anos com o governo haitiano para combater gangues no país. Seus outros contratos incluem um acordo com a República Democrática do Congo para fornecer segurança a operações de mineração e uma parceria com o Equador para combater o crime organizado. Ele também foi nomeado presidente não executivo da Swarmer, uma startup especializada em enxames de drones autônomos controlados por IA. A empresa possui uma instalação na antiga Ucrânia que, ironicamente, é ela própria alvo de enxames de drones autônomos controlados por IA da Rússia. Tais instrumentos privados podem ser usados para promover a agenda de partes interessadas em escala geopolítica, sem qualquer coordenação com o establishment de defesa dos EUA ou consideração pelos interesses nacionais ou políticas dos EUA.

E há ainda os gigantes da defesa: a RTX (ou Raytheon), a Lockheed Martin e a Booz Allen Hamilton. Por meio de seus inúmeros canais políticos secretos e de “portas giratórias”, elas representam um enorme lobby para tornar as guerras mais generalizadas, mais frequentes e mais duradouras. A RTX registrou receita de US$ 88,6 bilhões para 2025, com uma carteira de pedidos de US$ 268 bilhões. A Booz Allen Hamilton, que se situa na fronteira entre consultoria de defesa e inteligência, registrou receita de US$ 12 bilhões e uma carteira de pedidos de US$ 41,3 bilhões, incluindo um contrato de US$ 1,58 bilhão com a Agência de Inteligência de Defesa. E há também a Palantir, que fornece inteligência de campo de batalha e informações de alvos. Ah, e não podemos esquecer o sistema de satélites Starlink, de Elon Musk, tão pacífico, mas usado para guiar mísseis de cruzeiro e drones ucranianos até seus alvos. Esses alvos incluem praias públicas movimentadas, parques infantis e prédios de apartamentos cheios de civis adormecidos. Juntas, todas essas entidades possibilitam e facilitam inúmeros crimes de guerra, incluindo atos de genocídio. Esse é o tipo de ato pelo qual alguns nazistas alemães acabaram pendurados na forca. No entanto, nos EUA, tudo isso é perfeitamente legal e, além disso, bastante aceitável para a maioria dos americanos patriotas e amantes da liberdade. Essas empresas não se limitam a fazer “lobby” junto ao governo dos EUA — elas são parte integrante da infraestrutura de tomada de decisões. Elas desenvolvem, fabricam, dão suporte, mantêm e, muitas vezes, chegam a operar os sistemas de armas que tornam inevitáveis os conflitos armados internacionais — porque são extremamente lucrativos!

O termo “estado profundo” anda de mãos dadas com o termo “teoria da conspiração”. “Teoria da conspiração” é um termo muito útil inventado e introduzido no discurso público pela CIA. Ele permite que o estado profundo se esconda à vista de todos. Qualquer pessoa que aponte isso pode ser descartada como um “teórico da conspiração”. Mas, para nossos propósitos, é importante distinguir uma abordagem puramente analítica de qualquer tipo de caça às conspirações. Os teóricos da conspiração devem procurar uma “mão oculta”, evidências de planos e esquemas nefastos e sinais de intenção maliciosa. A ideia é, suponho, encontrar evidências incontestáveis de tal prevaricação e, então, divulgá-las publicamente. Os malfeitores não teriam então outra escolha a não ser se entregar às autoridades para receberem a punição justa, certo? Bem, não. Eles simplesmente ririam na sua cara e te chamariam de “teórico da conspiração”. E você riria junto com eles, porque a “teoria da conspiração” é uma forma de entretenimento. “Evidências intrigantes… abra seu coração!”, cantou certa vez David Byrne, do Talking Heads.

Conspiração? Que conspiração? O “Estado profundo” não tem um único centro, presidente ou conselho de administração. Ele consiste em vários grupos de interesses que interagem de acordo com a situação, motivados por prioridades e incentivos alinhados. Não requer conspiração, pois sua coordenação surge espontaneamente por terem interesses e agendas em comum. O “Estado profundo” consiste em interações espontâneas e sem roteiro entre atores-chave que atuam em diversos campos. Eles conseguem manter o controle sobre decisões estratégicas trabalhando juntos de forma cooperativa. É uma rede viva e dinâmica que se reconfigura constantemente em resposta às mudanças em seu ambiente, mantendo intactos seus interesses centrais. Mas não possui um núcleo propriamente dito; cada parte é periférica em relação a todas as outras. Essa distinção é a chave para compreender o fenômeno.

Ter um núcleo implicaria um círculo fixo de indivíduos, uma sede secreta, co-conspiradores com cartões de filiação. Por não ter um núcleo, o estado profundo se perpetua por meio de funções, e não de personalidades específicas. Indivíduos específicos podem ir e vir, gerações se sucedem, cenários políticos mudam, mas o protocolo informal de interação perdura. Ele é transmitido por meio de canais de ascensão profissional, dos valores compartilhados por instituições de ensino de elite, da troca de favores pessoais e do mecanismo da “porta giratória”, pelo qual um funcionário público passa para o setor privado apenas para retornar, posteriormente, a um cargo governamental de nível superior. Ele existe porque uma convergência de interesses e regras tácitas do jogo torna a coordenação natural — e quase automática. Ninguém emite ordens diretas, mas o rumo permanece estável.


Fonte:https://boosty.to/cluborlov/posts/2586f2ec-d4d4-4e95-9842-2cc6d751e8a7

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Sakerlatam

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21/6/2026

 

sábado, 19 de setembro de 2026

LUCHA FRATRICIDA EN LA GUERRA CIVIL ESPAÑOLA: LA MENTIRA QUE APOYA LA DERECHA

 

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Por LIDIA FALCÓN PARA CANARIAS-SEMANAL.ORG.-

 

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   En estos noventa años que nos separan del golpe militar de 1936, los militares, los gobiernos fascistas, la derecha coaligada con ellos, la Iglesia, y los medios de comunicación, soporte fundamental de estas fuerzas, han repetido sin empacho que la Guerra Civil española fue una lucha entre hermanos. Hoy mismo, en un periódico soporte del PSOE y de su poliédrico gobierno, se repite esta consigna, poniendo como prueba de semejante afirmación el conocimiento de su autor de una familia donde un hijo estuvo con los golpistas y el otro con los milicianos republicanos. Y todavía estoy sorprendida porque semejante consigna se repita, después de la recuperación histórica de esa época, que decenas de profesores y escritores, de varios países, especialistas de la historia de España de esa época, nos hayan regalado los mejores estudios sobre la guerra civil española. Contienda que más autores de diversas nacionalidades han analizado en este casi un siglo transcurrido.

 

  Mi primera recomendación a estos colaboradores y opinadores de pacotilla, es que lean un poco más, puesto que la vida no les dio ocasión de observar en tiempo real los sucesos de aquella época. Que la guerra civil española es el ejemplo perfecto de lo que el marxismo define como lucha de clases, lo demuestra, para comenzar, la Constitución de la II República española, aprobada por mayoría absoluta en el Congreso de los Diputados, que reproducía los objetivos del Frente Popular, que había salido ganador en las elecciones municipales del 12 de abril, también por una abrumadora mayoría. El opinador de hoy debía leerla antes de atreverse a escribir un burdo artículo como el suyo, en el que reduce la ofensiva del gran capital nacional e internacional (que no olvide otra vez la participación de los ejércitos alemán e italiano en apoyo de los fascistas españoles) contra las clases trabajadoras de nuestro país, a la bobalicona y beata fábula de Caín y Abel.   

 

  Los redactores del texto constitucional, que cumplían los objetivos de las fuerzas políticas que componían el Frente Popular, y que se difundieron profusamente en la campaña electoral que precedió a las elecciones municipales de 1931, afirman en su artículo 1º que España es una República democrática de toda clase, que se organiza en régimen de Libertad y Justicia.

 

  Así  mismo declara que “los poderes de todos sus órganos emanan del pueblo”.

 

  “La República constituye un Estado integral, compatible con la autonomía de los municipios y las Regiones”.

 

  En su artículo 3º afirma que el Estado español no tiene religión oficial.

 

 El artículo 6º asevera que España renuncia a la guerra como instrumento de política nacional. 

 

  En su artículo 15 declara que corresponde al Estado español el derecho de expropiación, el régimen minero y bases mínimas sobre montes, agricultura y ganadería, en cuanto afecte a la defensa de la riqueza y a la coordinación de la economía nacional.

 

  En el apartado 11, afirma que así mismo corresponde al Estado el Derecho de expropiación, salvo siempre la facultad del Estado para ejecutar por sí sus obras peculiares.

 

  En el apartado 12, habla de la Socialización de riquezas naturales y empresas económicas, delimitándose por la legislación la propiedad y las facultades del Estado y de las regiones.

 

  En su artículo 25 afirma: “El Estado no reconoce distinciones y títulos nobiliarios”.

 

  El artículo 26 afirma que “todas las confesiones religiosas serán consideradas como asociaciones sometidas a una ley especial”.

 

  El Estado , las regiones, las provincias y los municipios no mantendrán, favorecerán, ni auxiliarán económicamente a las iglesias, asociaciones e instituciones religiosas.

 

  Una ley especial regulará la total extinción , en un plazo máximo de dos años, del presupuesto del clero.

   

  Quedan disueltas aquellas órdenes religiosas que, estatutariamente impongan, además de los tres votos canónicos, otro especial de obediencia a autoridad distinta de la legítima del Estado. Sus bienes serán nacionalizados y afectados a fines benéficos y docentes.

 

  Prohibición de ejercer la industria, el comercio o la enseñanza.

 

  Sumisión a todas las leyes tributarias del país.    

 

  Una ley especial regulará la total extinción, en un plazo máximo de dos años, del presupuesto del Clero. 

 

  El artículo 44 declara que “Toda la riqueza del país, sea quien fuere su dueño, está subordinada a los intereses de la economía nacional y afecta al sostenimiento de las cargas públicas».

 

  El Estado podrá intervenir por ley la explotación y  coordinación de industrias y empresas cuando así lo exigieran la racionalización de la producción y los intereses de la economía nacional.

 

  La república asegurará a todo trabajador las condiciones necesarias de una existencia digna.

 

  En un documental soviético sobre la guerra civil española, la voz en off iba relatando la naturaleza económica del conflicto promovido por los consorcios internacionales y las grandes fortunas entre las que se encontraban las familias aristocráticas que en 1936 poseían el 50% de las tierras cultivables de España. Las imágenes retrataban la huida de los republicanos hacia la frontera francesa ante el avance de las tropas fascistas, hombres, mujeres y niños de los últimos pueblos y ciudades que habían resistido la embestida militar , campesinos mal vestidos, calzados con alpargatas, mujeres y niños descalzos, con ropas destrozadas, maletas de cartón, hatillos de pañuelos remendados, y el relato en off decía: “Quiénes son los que huyen, los trabajadores, el pueblo famélico y sin recursos. Sus enemigos son los poseedores del capital, de la industria, de los grandes latifundios, que no podían consentir los propósitos de la República”. No ha habido una lucha de clases más determinada y claramente provocada y financiada por la banca y los grandes consorcios internacionales que la guerra civil española.

 

  Juan March, el banquero más potente de la época, tras ser acusado de contrabando y colaboración con la dictadura de Primo de Rivera por la Comisión de Responsabilidades de las Cortes de la República,el 15 de junio de 1932, tras más de un año de investigaciones parlamentarias y bajo la célebre advertencia del ministro de Hacienda Jaime Carner («O la República somete a March, o él someterá a la República»), se procedió a su ingreso en la Cárcel Modelo de Madrid. En mayo de 1933 fue trasladado al reformatorio de Alcalá de Henares. En  noviembre de 1933, tras diecisiete meses de reclusión, March consiguió fugarse de la prisión sobornando al director de la prisión y a los oficiales de guardia, escapando con éxito hacia Gibraltar. El capital de la Banca March fue fundamental en la financiación del golpe militar y del ejército franquista.  

 

  Por las conspiraciones que la Iglesia católica mantenía contra la República,  y que llegó a declarar la contienda Cruzada contra el marxismo, el cardenal Pedro Segura y Sáenz, primado de España y arzobispo de Toledo, fue detenido por orden del gobierno provisional de la República el 14 de junio de 1931 en Guadalajara, tras haber regresado clandestinamente al país pocos días después de su primer exilio.

 

  No hacen falta más hechos -aunque los hay- para comprender cómo el capital y la Iglesia fueron el sostén económico e ideológico del golpe de Estado militar y del ejército franquista contra la República, así cómo tuvo el apoyo decisivo de los estados fascistas de Europa, Alemania e Italia, ante la inhibición culpable y vergonzosa de los gobiernos democráticos del mundo. Y por qué esa República fue defendida heroicamente por el ejército republicano leal a su régimen, y el pueblo español, en los tres años de la masacre que practicó contra él el ejército franquista, sin que en ese plazo de tiempo éste pudiera tomar Madrid, núcleo fundamental de la defensa republicana.

  

  Pero los medios de comunicación, no solo en poder de grandes consorcios económicos privados, sino también aquellos de titularidad pública, bajo un gobierno socialista, siguen defendiendo la tesis de que la guerra civil fue un conflicto familiar, en el que desgraciadamente e enfrentaron hermanos de la misma familia.

 

 Aunque lo he preguntado repetidas veces, cuando he impartido conferencias en instituciones educativas, no he podido saber con concreción cómo los docentes enseñan esa época de España a sus alumnos de todos los grados. Si lo hicieran con el deseo de informar verazmente a las generaciones que han seguido a la republicana, sobre los hechos y los propósitos de esa II República que nos arrebataron tan sangrientamente, seguramente ni el PP, ni por supuesto VOX, reunirían tantos millones de votos como han acumulado en los últimos años.

 

(*) Lidia Falcón – Presidenta Partido Feminista de España

 

Em

Canarias.semanal.org

https://canarias-semanal.org/art/39119/lucha-fratricida-en-la-guerra-civil-espanola-la-mentira-que-apoya-la-derecha

 20/9/2026

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O IIPPE 2026 em Lisboa – Segunda parte: IA, imperialismo, moeda e fascismo

 


Michael Roberts [*]

Na segunda parte do meu relato sobre o IIPPE 2026 (a primeira parte está aqui), poderia continuar a informar de várias apresentações interessantes sobre o desenvolvimento da China, mas como a primeira parte foi dominada por questões relacionadas com a China, nesta segunda parte vou abordar sessões sobre outros temas.

Chandrasekharan Saratchand, professor de economia no Satyawati College, da Universidade de Deli, apresentou a sua crítica à chamada inteligência artificial "geral" (AGI). A tese aqui defendida é que a AGI pode aumentar indefinidamente a escala de produção sem depender da expansão da força de trabalho humana. Assim, ela ameaça a participação do trabalho na produção. Utilizando uma abordagem neoclássica marginalista dos "fatores de produção", Saratchand considera que a AGI transformará o conhecimento humano numa mercadoria e o automatizará, convertendo-o em "capital de máquina escalável", e que, consequentemente, os proprietários do capital deixarão de precisar de distribuir salários com base nas competências humanas. A desigualdade de riqueza e de rendimento aumentará acentuadamente, a par de uma maior concentração dos meios de produção. De facto, sem "intervenção", os enormes ganhos de produtividade trazidos pela AGI serão monopolizados, levando ao desemprego estrutural e à perda de poder da força de trabalho global. Saratchand considera que confiar na autocontenção das entidades comerciais é estruturalmente inviável devido às imensas pressões financeiras exercidas pelos financiadores. Em vez disso, apela à criação de "quadros institucionais rígidos e de cima para baixo para preservar o bem-estar humano".

Existem vários problemas com esta análise. Em primeiro lugar, parte do princípio de que a AGI — nomeadamente os modelos de IA superinteligentes — surgirá capaz de substituir quase totalmente o trabalho humano. Na minha opinião, é muito improvável que a utilização de Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) seja suficientemente "inteligente" para assumir o controlo em todos os setores e profissões da indústria. Na verdade, poderá demorar uma década ou mais até à adoção generalizada da IA "normal" em toda a economia.

Em segundo lugar, a IA Geral (AGI) nunca será capaz de substituir ou replicar as competências e o conhecimento humanos. Recorde-se o que Noam Chomsky disse sobre a IA: "A mente humana não é como o ChatGPT e os seus semelhantes, um motor estatístico pesado para a correspondência de padrões, que devora centenas de terabytes de dados e extrapola a resposta conversacional mais provável ou a resposta mais provável a uma questão científica. Pelo contrário, a mente humana é um sistema surpreendentemente eficiente e até elegante que opera com pequenas quantidades de informação; procura não inferir correlações brutas entre pontos de dados, mas sim criar explicações. Deixemos de lhe chamar inteligência artificial e chamemos-lhe pelo que é: "software de plágio", porque não cria nada, limitando-se a copiar obras existentes, de artistas, modificando-as o suficiente para escapar às leis de direitos de autor."

Tal como Guglielmo Carchedi e eu defendemos no nosso livro, Capitalism in the 21st century (pp. 167-74), as máquinas não conseguem conceber mudanças potenciais e qualitativas. O novo conhecimento provém dessas transformações (humanas), e não da extensão do conhecimento existente (máquinas). Apenas a inteligência humana é social e consegue vislumbrar o potencial de mudança — em particular, a mudança social — que conduz a uma vida melhor para a humanidade e para a natureza.

Recentemente, alguns investigadores de Oxford publicaram um artigo intitulado "Theory Is All You Need". Este artigo refuta a alegação de que os modelos computacionais podem gerar verdadeira novidade ou novo conhecimento. Os LLMs são máquinas de probabilidade que analisam retrospectivamente os dados existentes. A cognição humana é voltada para o futuro e capaz de gerar verdadeira novidade.

A cognição humana opera, teoricamente, de forma "de cima para baixo" (top-down) em vez de "de baixo para cima" (bottom-up) a partir dos dados. A IA baseia-se na previsão baseada em dados, que é, em grande parte, imitativa. Os seres humanos, no entanto, utilizam uma lógica causal baseada na teoria que lhes permite ter convicções que vão além dos dados existentes. Os seres humanos não se limitam a processar informação; utilizamos a teoria para, na prática, "intervir" no mundo. "Envolvemo-nos em experimentação direcionada para gerar dados inteiramente novos". Na minha opinião, estes são argumentos fortes contra o receio atual expresso pelas empresas de IA e aceito sem questionar os media (Martin Wolf), de que a IA está fora de controlo e destinada a dominar a humanidade até à nossa destruição.

O verdadeiro receio para o mercado de trabalho não é esse, mas sim a perda de empregos dignos e de padrões de vida à medida que os "agentes" de IA substituem os trabalhadores em diversos setores. O FMI estima que 60% dos empregos nas economias avançadas serão afetados. Os economistas do Morgan Stanley estimam que os bancos europeus poderão reduzir a sua força de trabalho em cerca de 10% até 2030. A estimativa baseia-se numa análise de 35 grandes instituições de crédito que, no total, empregam cerca de 2,12 milhões de pessoas. Um corte dessa magnitude traduzir-se-ia no desaparecimento de cerca de 212 000 postos de trabalho nos próximos cinco anos.

Na década de 1850, Marx esclareceu o efeito das novas tecnologias que poupam mão-de-obra:   "Os factos reais, que são deturpados pelo otimismo dos economistas, são estes: os trabalhadores, quando expulsos da oficina pelas máquinas, são lançados para o mercado de trabalho. A sua presença no mercado de trabalho aumenta o número de forças de trabalho à disposição da exploração capitalista… o efeito das máquinas, que tem sido apresentado como uma compensação para a classe trabalhadora, é, pelo contrário, um flagelo terrível. …

Portanto, a questão não é um desastre existencial que se avizinha para a humanidade devido a máquinas de IA superinteligentes "fora de controlo" – é mais provável que uma crise existencial resulte das alterações climáticas[NR]. A verdadeira questão é quem controla os meios de produção (IA). Em vez de desenvolver a IA para gerar lucros, reduzir postos de trabalho e comprometer os meios de subsistência dos seres humanos, uma IA sob propriedade e planeamento comuns poderia reduzir as horas de trabalho humano para todos e libertar os seres humanos do trabalho árduo, para que se concentrassem no trabalho criativo que apenas a inteligência humana pode realizar.

Houve uma série de comunicações sobre economia política marxista, teoria do valor e taxa de lucro. Permitam-me concentrar-me num estudo empírico. Leonardo Segura Moraes apresentou uma comunicação sobre Valor, preço de produção e rentabilidade na economia brasileira entre 2010 e 2025. Em vez de analisar dados agregados das contas nacionais, Segura utilizou os balanços de 48 empresas brasileiras – uma abordagem de baixo para cima. A partir destas contas, mediu as categorias marxistas de capital constante e capital variável, mais-valia, rotação do capital e taxa de lucro. Segura constatou que a taxa de lucro sobre o capital no Brasil diminuiu entre 2010 e 2015, recuperou-se até 2018 e, posteriormente, estabilizou-se. Entre 2010 e 2015, a taxa média de lucro da amostra apresentou uma tendência descendente, passando de 13,7% para 7,1%. Este período de crise foi seguido por um período de recuperação até 2018 (quando a taxa média de lucro na amostra atingiu 14,28%). Após o fim da recessão provocada pela pandemia, a taxa de lucro manteve-se mais elevada.

Gráfico 1.

O que achei interessante foi que os resultados da abordagem "de baixo para cima" de Segura coincidiram com os resultados obtidos a partir de dados agregados (abordagem "de cima para baixo"). Calculei a taxa de lucro sobre o capital do Brasil utilizando as Penn World Tables (série 11.0) e constatei uma queda semelhante na taxa de lucro quando o boom das matérias-primas, que teve início na década de 2000, chegou ao fim; e, tal como nos dados de Segura, verificou-se uma recuperação a partir de 2015, mas a taxa continuava a ser mais baixa em 2023 do que em 2010. Assim, dois métodos de cálculo diferentes deram resultados semelhantes — reforçando o suporte empírico à lei da rentabilidade de Marx.

Gráfico 2.

Noutra sessão, Cristina Re, da Universidade de Parma, e Gianmaria Brunazzi, da Universidade de Milão, apresentaram uma versão atualizada da sua tese sobre o "imperialismo da dívida", que haviam apresentado na conferência "Historical Materialism", em Londres, em novembro passado. A sua teoria na altura era que, uma vez que o dólar era a moeda de troca e de reserva mundial, a dívida dos EUA para com o exterior não constituía uma desvantagem, mas sim uma nova arma económica para o imperialismo norte-americano dominar outros países. "O imperialismo da dívida é uma configuração em que o centro mantém o seu domínio através da emissão de passivos com procura internacional, da absorção de excedentes estrangeiros e do uso do poder de mercado, monetário e militar para gerir as contradições geradas pela ascensão das semiperiferias. Os défices dos EUA não são simplesmente um sintoma de declínio. Fazem parte da arquitetura do poder imperial contemporâneo."

Devo dizer que, na altura, não achei esta teoria convincente (ver os meus comentários em anexo). Para mim, o "imperialismo da dívida" é quando os países pobres acumulam dívidas enormes (empréstimos) junto de instituições imperialistas para crescer, mas depois, em crises económicas, são forçados a entrar em incumprimento, a desvalorizar as suas moedas e a impor medidas de austeridade severas para cumprir as suas obrigações para com os bancos do Norte Global e o FMI, etc. Os EUA constituem uma exceção enquanto devedor devido ao "privilégio extraordinário" do dólar e ao facto de poderem financiar facilmente os seus défices comerciais através do investimento estrangeiro em empresas e ativos financeiros norte-americanos. Mas não vejo como se pode deduzir daí que a dívida dos EUA seja uma nova via de dominação para o imperialismo norte-americano. No IIPPE, Re e Brunazzi alargaram a sua teoria para argumentar que o imperialismo da dívida dos EUA passou para uma fase "terrorista", tendo evoluído do mero poder financeiro para uma dominação mais política e o uso da força (presumivelmente na Venezuela, no Irão, etc). Debaterei esta teoria em novembro.

Henrique de Abreu Grazziotin, do Departamento de Economia da Universidade de Massachusetts Amherst, apresentou alguns aspetos de história económica, nomeadamente uma discussão sobre a crítica de Marx à Lei da Carta Bancária de 1844. Isto é relevante porque a tentativa das autoridades monetárias de controlar a oferta monetária e a inflação, vinculando-as às reservas de ouro do país, foi um fracasso desastroso. A lei não conseguiu impedir o pânico financeiro e, em vez disso, agravou as crises durante fases-chave do ciclo industrial capitalista.

Marx argumentou que a lei — defendida por Sir Robert Peel e inspirada pela Escola Monetária — assentava no pressuposto errado de que o volume de notas em circulação determina diretamente os preços das mercadorias. Tratava-se de uma teoria monetarista, precursora do monetarismo moderno tal como expresso por Milton Friedman. Marx alinhou-se com a Escola Bancária, afirmando que a circulação monetária é, na realidade, determinada pelas necessidades do comércio, pelos preços das mercadorias e pelo estado do sistema de crédito.

Grazziotin defende uma teoria das cinco fases do ciclo industrial capitalista, baseada na evolução da taxa média de lucro e da taxa de juro média. O "lucro da empresa" é a diferença entre a taxa geral de lucro e a taxa de juro, que impulsiona a acumulação de capital ao longo do ciclo. Uma crise pode surgir tanto do aumento da taxa de juro como da queda da taxa geral de lucro. No gráfico abaixo, podemos ver que uma queda na taxa de lucro pode comprimir o lucro da empresa e, assim, provocar uma recessão; ou um aumento da taxa de juro pode, eventualmente, desencadear um colapso financeiro. Nas três primeiras fases do ciclo, uma taxa de lucro em ascensão consegue acomodar um aumento da taxa de juro dos empréstimos, mas na quarta fase a taxa de lucro começa a cair enquanto a taxa de juro começa a subir. Na quinta fase, o lucro da empresa fica tão reduzido que se segue uma crise.

Gráfico 3.

Por fim, permitam-me referir-me à apresentação principal da sessão plenária do Professor Alfredo Saad Filho sobre Crises no Neoliberalismo e a Ascensão do Fascismo Neoliberal. Saad-Filho defende que o "fascismo neoliberal" é o resultado estrutural de cinquenta anos de neoliberalismo que esvaziaram a democracia, intensificaram a desigualdade e se basearam na financeirização. Mas, ao contrário do fascismo clássico do século XX, que surgiu em reação a sindicatos poderosos ou a movimentos socialistas em ascensão, o fascismo neoliberal emerge quando a classe trabalhadora se encontra no seu ponto mais baixo. Assim, combina uma defesa implacável dos interesses do mercado livre com a violência excludente do autoritarismo moderno. Estes partidos e até mesmo governos (Itália, EUA, Brasil, Argentina, etc) mobilizam a ira pública contra bodes expiatórios fabricados — tais como os imigrantes ou um suposto "Estado profundo" — para desviar a atenção da devastação económica em curso e consolidar um Estado totalitário resiliente.

Saad-Filho defende que superar esta nova ameaça fascista exige ultrapassar os fracassos dos sistemas do passado para lutar por "uma democracia renovada e genuinamente inclusiva". Isto parece-me um pouco vago — se interpretei corretamente a sua opinião. Além disso, a sua ênfase na fraqueza da classe trabalhadora organizada não pode ser compensada com a expectativa de que os imigrantes e os trabalhadores precários liderem a luta contra o novo fascismo do século XXI. O fascismo só será repelido através da coordenação de trabalhadores organizados — muitas vezes nas novas indústrias tecnológicas —, mobilizados em torno de um programa económico que lhes seja relevante (custo de vida, serviços públicos, habitação), e não apenas em torno da "democracia" ou da política identitária.

17/Setembro/2026

[*] Economista

[NR] Resistir.info não é obrigado a partilhar todas as opiniões que publica.

Ver também:
  • Primeira parte deste artigo
  • O original encontra-se em thenextrecession.wordpress.com/2026/09/17/iippe-2026-part-two-ai-imperialism-money-and-fascism/.

    Em

    Resistir.info

    https://resistir.info/m_roberts/iippe_2026_2.html

    17/6/2026 

    segunda-feira, 14 de setembro de 2026

     

    Quando a máquina vai parar? – Comunidad Saker Latinoamérica

     

    Dimitry Orlov


    Existe um certo conjunto de termos políticos de uso comum. Esses termos são utilizados de forma consistente por políticos europeus e americanos contra aqueles que se recusam a fazer o que eles mandam. Entre esses termos estão “democracia”, “direitos humanos” e “direito internacional”. O termo “ordem internacional baseada em regras” era ouvido com frequência antes, mas hoje em dia já não é tão comum.

    Esses termos são usados estritamente como eufemismos. Um país declarado “antidemocrático” pode não ser mais antidemocrático do que qualquer nação ocidental na qual os eleitores não decidem praticamente nada de importante. Um país declarado “antidemocrático” é simplesmente desobediente. Da mesma forma, “direitos humanos” é um pretexto para exercer pressão por parte de governos que são, eles próprios, violadores incorrigíveis e impenitentes dos direitos humanos.

    Por trás da fachada hipócrita criada por esses eufemismos está um sistema industrial bem lubrificado, destinado a forçar as nações a se submeterem. Aqueles que operam esse sistema são um grupo diversificado nos EUA e na Europa, que inclui políticos, corporações transnacionais, bancos, seguradoras, agências de classificação de risco, universidades e instituições financeiras globais. Aqueles que são forçados a atender às suas exigências podem ser Estados soberanos, blocos regionais ou até mesmo uma única grande corporação. No momento em que se lançam em um caminho rumo à independência ou tentam formar um espaço econômico alternativo, passam automaticamente a ser alvo de ataques.

    O que acontece a seguir é a execução de um algoritmo organizacional bem definido. Ele foi aperfeiçoado ao longo de muitos anos como um sistema eficaz. Enquanto estava sendo montado, exigiu bastante criatividade. Mas, desde então, tornou-se rígido e degenerou ao nível de reações automáticas e pensamento de grupo.

    Seu objetivo declarado é garantir o cumprimento de todas as exigências emitidas pelos centros imperiais em Washington, Londres e Bruxelas. Ele pode ser melhor descrito como um conjunto de etapas. O fracasso em garantir o cumprimento em cada etapa faz com que o processo avance automaticamente para a próxima etapa. Há apenas duas possibilidades para o resultado final: a destruição econômica e política da entidade rebelde ou sua rendição completa e incondicional e o cumprimento dos ditames imperiais.

    Eis, então, o algoritmo completo, passo a passo, dessa esteira rolante de subjugação.

    A Fase 0 envolve a coleta de informações. Antes de iniciar o programa para colocar uma nação desobediente sob controle, é realizada uma auditoria abrangente da vítima. Várias entidades estão envolvidas, desde o governo, passando por corporações, agências internacionais e a academia. As agências envolvidas incluem a CIA, o Departamento de Estado dos EUA, o Tesouro dos EUA e o Fundo Monetário Internacional. O objetivo é identificar pontos fracos, vulnerabilidades e potenciais agentes internos de influência. Centros privados de inteligência e análise, como a RAND e a Stratfor, também participam.

    Eles compilam um mapa das elites políticas e dos principais atores. Determinam quem detém ou ganha mais dinheiro, onde o mantêm, em quais escolas seus filhos são matriculados, quem são suas amantes e quais são seus gostos e vícios. Avaliam a dependência de um país em relação aos mercados globais de matérias-primas, produtos manufaturados, sistemas de armas e alimentos. Estudam seus fluxos de renda e inventam maneiras de interrompê-los. Eles analisam o peso da dívida e determinam quem são seus credores e como sua confiança pode ser abalada para elevar os custos dos empréstimos.

    Eles estudam a opinião pública. Procuram divisões sociais, sejam elas culturais, étnicas, religiosas ou geracionais. Procuram aquelas divisões que podem explorar com mais facilidade e menor custo e, então, usam essas divisões para fomentar conflitos e desordem, a fim de exercer pressão sobre o governo da nação desobediente.

    Eles avaliam o potencial de investimento da entidade em questão, considerando-a um ativo que pode ser confiscado e colocado sob controle externo. Eles determinam quais recursos particularmente valiosos, como petróleo, gás, metais de terras raras ou corredores de transporte, podem ser confiscados como recompensa após a conclusão do processo de subjugação.

    Essa fase é estritamente preparatória e não se pode dizer que alguma vez falhe. Mas é nessa etapa que muitas vezes são plantadas as sementes de um eventual fracasso. Os culpados aqui são a ignorância e a autoconfiança injustificada. Há simplesmente muito pouca compreensão, dentro das instituições ocidentais, sobre civilizações antigas e complexas, sejam elas a China, a Rússia ou o Irã. Não existe nem mesmo a linguagem necessária para descrever seus processos internos. Em vez disso, utiliza-se um modelo reducionista e puramente materialista, ignorando aspectos mentais e espirituais ancestrais e princípios de organização que podem ser de importância fundamental. Um modelo de racionalidade ocidental é aplicado a povos cuja noção de escolha racional pode ser drasticamente diferente. Como resultado, os povos em questão não agem como esperado quando chega a hora.

    Por pior que seja feito esse trabalho preparatório, chega então a hora de passar para a Fase 1: a ofensiva de charme. Durante essa fase, as elites locais são compradas, corrompidas ou de alguma forma comprometidas.

    Esse é o soft power em sua forma clássica. À elite visada é oferecido o que parece ser um bom negócio: “Vocês ganham acesso ao nosso mercado e à nossa tecnologia. Em troca, nós ganhamos controle sobre a política econômica de vocês.” O objetivo é vincular as elites nacionais ao sistema financeiro ocidental por meio de um conjunto de contratos. Já nessa etapa, o algoritmo pode começar a falhar. Como o mercado agora é global e a tecnologia muitas vezes está disponível em fontes não ocidentais, essa estratégia de isca não consegue atrair.

    Os instrumentos utilizados incluem bancos globais, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, fundos de investimento, como a BlackRock e a Vanguard, “vistos dourados” e passaportes dos EUA e do Reino Unido para os membros das elites locais que se mostram totalmente complacentes, enquanto os tribunais de Londres e da Haia ajudam a resolver questões patrimoniais a seu favor.

    O que significa “controle sobre a política econômica” é, invariavelmente, servidão à dívida. O FMI concede empréstimos sob condições onerosas, como aumentos de tarifas, privatização de serviços públicos, cortes em programas sociais e a abertura dos mercados em detrimento dos produtores locais. Segue-se a deslocalização da riqueza nacional. Isso envolve a elaboração de esquemas, tanto transparentes quanto opacos, para que os oligarcas locais transfiram seu capital para Londres, Delaware e outros paraísos fiscais offshore.

    Igualmente importante é a substituição do quadro de pessoal da classe gerencial. Graduados de programas especiais de Harvard e Yale são colocados em cargos administrativos-chave. Eles trazem consigo padrões ocidentais de gestão e lealdade às instituições financeiras e econômicas ocidentais. Para garantir que não haja possibilidade de fuga, são contratadas empresas internacionais de auditoria — as Quatro Grandes. Sua função é obter uma compreensão profunda da situação financeira do país, tornando-o vulnerável à especulação financeira.

    Se as técnicas de poder brando da Fase I não produzirem o resultado pretendido, inicia-se a Fase II. Seu objetivo é a desestabilização política. Nesta etapa, parte da elite nacional já foi comprometida, mas o rumo político do país ainda desagrada aos atores ocidentais. Nesse caso, entra em cena a guerra cognitiva. O objetivo dessa guerra cognitiva é comprometer o governo nacional aos olhos de seus próprios eleitores.

    Um objetivo adicional é apagar o senso de identidade nacional e a memória histórica do povo, substituindo-os por uma história falsa baseada em narrativas inventadas por think tanks ocidentais. Um artifício típico é pegar o pior ditador da história — Hitler é a escolha clássica — e equipará-lo a vários líderes nacionais, como Mao ou Stalin. Tais narrativas servem para minar o passado soberano de uma nação, minando, por sua vez, seu futuro soberano.

    A melhor maneira de fazer isso é criando uma oposição controlada — idealmente, uma que tenha sido treinada no exterior — que apresente a intervenção estrangeira como libertação. As ferramentas institucionais empregadas nessa fase são a Fundação Nacional para a Democracia (NED), a USAID, as Fundações Open Society de George Soros, conglomerados de mídia globais como a BBC, a CNN e a Deutsche Welle, e empresas de mídia social como a Meta, o Google e a X, de Elon Musk.

    A mudança de narrativa geralmente tem como alvo crianças e estudantes, cuja cognição ainda é maleável e fácil de manipular. Um artifício típico é introduzir nas escolas e universidades novos livros didáticos patrocinados pelo Ocidente, que interpretam a história do país como uma série de crimes colonialistas e imperialistas. Livros didáticos mais antigos, que contradizem essa história falsificada, são frequentemente comprados e destruídos, como foi feito na Rússia pelas fundações de Soros. Inúmeras organizações não governamentais são acionadas para ajudar. Dezenas a centenas de organizações sem fins lucrativos, financiadas por verbas ocidentais, estabelecem operações sob o pretexto de proteger o meio ambiente, os direitos de minorias étnicas ou religiosas, de homossexuais ou os direitos das mulheres. Seu verdadeiro objetivo é criar um sistema paralelo de governança, controlado externamente e ilegítimo, que o governo legítimo não consiga controlar.

    Para dar a esse falso movimento de libertação um ponto focal, muitas vezes se recruta e prepara um líder carismático de protestos para a função. Uma figura que já seja controlada remotamente cumpre melhor essa função. Exemplos incluem Alexei Navalny ou Mikhail Khodorkovsky na Rússia, Nikol Pashinyan na Armênia ou Vladimir Zelensky na antiga Ucrânia. Esse líder recebe cobertura bajuladora da imprensa internacional, generosos subsídios e proteção jurídica. Visitas pagas de estrelas do cinema e da música pop ocidentais também costumam ser organizadas.

    Se o governo continuar a resistir, é hora da Fase III: uma revolução colorida. As técnicas de resistência não violenta ao estilo de Gene Sharp já são bem conhecidas e ainda podem ser eficazes. Elas incluem bloquear estradas, ocupar prédios administrativos e criar estruturas governamentais paralelas que recebem legitimidade dos governos e da mídia ocidentais. Para intensificar a revolução colorida, grupos ativistas são preparados em campos de treinamento especiais no país-alvo e no exterior. Para ajudar a deslegitimar o governo, atiradores de elite são enviados ao país e matam um certo número de manifestantes, atribuindo a culpa ao governo e forçando-o a renunciar, como aconteceu na antiga Ucrânia em 2014.

    Mas e se nada disso funcionar? E se o povo da nação alvo estiver unido em torno de seu governo? E se ele considerar os participantes da revolução colorida como traidores? E se o país tiver sua própria mídia nacional, estritamente interna e eficaz, apoiada por especialistas políticos, comentaristas e blogueiros? E se a população do país vir o Ocidente como inimigo, juntamente com as estruturas governamentais paralelas financiadas pelo exterior e os grupos ativistas?

    Bem, nesse caso, a revolução colorida fracassa. Alguns de seus líderes — aqueles que podem ser convenientemente julgados por peculato, sonegação fiscal ou falsificação — são presos. Os demais são declarados agentes estrangeiros e recebem a chance de deixar o país — discretamente ou não tão discretamente assim.

    E então chega a hora da próxima fase — a Fase IV —, que consiste na asfixia econômica por meio de sanções e desvalorização da moeda. Quando fica claro que o poder brando não funciona e que a “revolução colorida” fracassa ou nem sequer começa, e o governo permanece estável, é hora de lançar uma “bomba atômica financeira”. O objetivo aqui é tornar a busca por políticas econômicas e externas independentes algo suicida para o país em questão.

    As ferramentas utilizadas são o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA, o sistema de troca de mensagens interbancárias SWIFT e as agências de classificação de risco, como a S&P e a Moody’s. São impostas sanções contra instituições econômicas e financeiras-chave, bem como contra algumas figuras-chave, na tentativa de paralisar a economia. O bloqueio de transferências bancárias impede a liquidação de contas de importação e exportação, causando problemas de fluxo de caixa e escassez de produtos. Ataques especulativos contra a moeda nacional reduzem seu valor, enquanto rebaixamentos de classificação elevam os custos de financiamento para as empresas nacionais e preparam o terreno para aquisições hostis por parte de conglomerados financeiros estrangeiros.

    De acordo com o roteiro padrão, as reservas de ouro e divisas do banco central em contas na Europa e nos EUA são congeladas, às vezes juntamente com alguns grandes fundos privados. Os bancos do país são desconectados do SWIFT, isolando o sistema bancário e dificultando as liquidações internacionais. É imposta uma proibição às importações de componentes de alta tecnologia, como microchips. O cancelamento de licenças de software para sistemas de projeto assistido por computador e máquinas-ferramentas automatizadas interrompe a fabricação de alta tecnologia. São impostos tetos de preço às exportações do país, limitando artificialmente o preço de matérias-primas exportadas, como petróleo e gás, e forçando a venda desses recursos com desconto. Por fim, ocorre a manipulação das classificações de risco: a classificação soberana de um país é rebaixada instantaneamente para o status de “junk” (lixo). Isso força os fundos ocidentais a se desfazerem dos títulos do país, elevando as taxas de juros e os custos de financiamento.

    Mas e se a situação fiscal de um determinado país for sólida? E se ele quase não tiver dívida externa e não precisar de financiamento externo para cobrir o déficit? E se ele estiver repleto de ativos estrangeiros em seu território, que possa nacionalizar em resposta a ações hostis? E se ele tiver aliados suficientes ao redor do mundo para contornar a maioria das sanções? E se seu superávit comercial acumulado lhe proporcionar uma reserva financeira suficiente para muitos anos? E se ele tiver suas próprias indústrias de software e manufatura de alta tecnologia, suficientes para salvaguardar seus interesses nacionais?

    Bem, então é hora da Fase V: um bloqueio logístico. Se as sanções não surtirem efeito, tentam-se fechar fisicamente as artérias de recursos. Se um país encontrar formas alternativas de exportação, seja por meio de uma “frota-sombra” ou de dutos alternativos, então a própria infraestrutura passa a ser alvo de ataques. O objetivo é privar o país da capacidade física de exportar suas commodities. As ferramentas utilizadas são: forças navais da OTAN, agências de inteligência como a CIA e o MI6, empresas militares privadas, grupos de sabotagem de origem desconhecida, até mesmo pessoas desesperadas ou simplesmente estúpidas que estão dispostas a causar pequenos danos em troca de uma pequena remuneração.

    Os alvos durante essa fase incluem todos os tipos de infraestrutura comercial. Gasodutos são sabotados. Portos marítimos são atacados. Usinas nucleares são alvo de ataques com foguetes e bombas. É imposto um regime de inspeção de embarcações em águas internacionais. Isso pode incluir a apreensão e venda da carga, bem como a detenção de navios sob qualquer pretexto, como questões ambientais, suspeita de contrabando ou violações de sanções.

    Outra manobra é um bloqueio de seguros: as seguradoras ocidentais são proibidas de trabalhar com embarcações com destino ao país alvo. Sem seguro, as embarcações não podem entrar nos portos do país, o que complica a logística e torna o comércio menos lucrativo. É exercida pressão política e militar para fechar estreitos-chave, como o Bósforo, os estreitos da Dinamarca no Báltico e, é claro, o Estreito de Ormuz.

    Mas e se esses esforços resultarem em contra-medidas que não sejam menos eficazes? E se os portos marítimos continuarem funcionando, ainda que com capacidade temporariamente reduzida? E se forem encontradas rapidamente soluções alternativas eficazes para o fechamento de oleodutos? E se as tentativas de interceptar e apreender navios no mar resultarem em ações simétricas contra a navegação ocidental? Afinal, a Grã-Bretanha é o país com a maior “frota-sombra”, e a Rússia pode facilmente impedi-la de navegar ao redor da orla do Pacífico por rotas marítimas que contornam o território russo. E se um bloqueio do Estreito de Ormuz contra o Irã resultar em um bloqueio virtual do Estreito de Bab el Mandeb e do Canal de Suez, prejudicando a logística ocidental?

    Então, surge um certo impasse. De nada adiantam as declarações vazias de vitória contra o Irã e as comemorações falsas por danos bastante superficiais causados à infraestrutura russa.

    Se as restrições impostas ao Estado recalcitrante fossem bem-sucedidas, seu dinheiro logo se esgotaria. Com sua infraestrutura destruída e suas cadeias de abastecimento interrompidas, o Estado iria à falência. É nesse momento que os “abutres” – os maiores fundos de investimento – se lançariam sobre a presa agora indefesa. O objetivo é comprar os ativos restantes a preços de liquidação e impor uma nova estrutura de propriedade corporativa controlada por estrangeiros. Então, chegaria automaticamente a hora da liquidação de ativos, da privatização dos recursos e da infraestrutura estatais e da captura do mercado interno pelos importadores ocidentais. As instituições mobilizadas nessa fase são conglomerados financeiros transnacionais: BlackRock, Vanguard, fundos de private equity e o Fundo Monetário Internacional.

    O FMI fornece gestão de crises, concedendo ao país financiamento de emergência, mas apenas sob a condição de que um gestor tecnocrático ocidental seja nomeado para o governo. O resultado é uma liquidação implacável de ativos e a subsequente servidão permanente à dívida. A condição para a ajuda é a transferência de portos nacionais, oleodutos e instalações de produção para corporações ocidentais por um prazo de, por exemplo, 50 anos. As empresas transnacionais compram empresas estratégicas que, a essa altura, já teriam perdido cerca de 90% de sua capitalização devido às sanções e à interrupção da logística de exportação.

    Ao longo desse processo, a elite governante do país é substituída. O poder é transferido para uma classe tecnocrática inteiramente nova. Ela deve sua posição não ao povo do país, mas a entidades ocidentais. A soberania é eliminada como conceito, e o país se torna uma colônia em tudo, menos no nome.

    Mas se o país conseguir continuar resistindo, tornando essa fase impossível, então é hora de avançar diretamente para a Fase VI: transformar o país em um pária global permanente — pelo menos aos olhos da parte do mundo que o Ocidente ainda controla. Isso é feito para desencorajar qualquer pessoa de tentar restabelecer relações com esse país, mesmo em um futuro distante. Um objetivo adicional é legitimar todo tipo de ação ilegal e comportamento ofensivo em relação ao país aos olhos da própria população ocidental e estigmatizar quaisquer tentativas de resistência. Por exemplo, atualmente, qualquer pessoa no Ocidente que expresse a opinião de que a Rússia tem motivos legítimos para resistir às tentativas da OTAN de expansão para o leste até a Crimeia é automaticamente rotulada como agente russo e rejeitada.

    As ferramentas utilizadas nesse esforço de deslegitimação são a ONU, o Tribunal Internacional de Crimes de Guerra, o Tribunal Penal Internacional, o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia. São aprovadas resoluções (ou, na falta delas, propostas incessantemente) para declarar oficialmente a liderança do país, rotulada como “regime”, como “criminosa” e seus líderes como “criminosos de guerra”. Geralmente, segue-se a castração jurídica da liderança do país por meio de tribunais de crimes de guerra (como no caso da Sérvia) e a emissão de sentenças à revelia que sujeitam os representantes do país a apreensão e extradição em todo o mundo.

    E não nos esqueçamos das reparações por supostos crimes de guerra. Os ativos congelados do país são transferidos em benefício das supostas “vítimas”. Isso está sendo discutido incessantemente no momento no que diz respeito à transferência do principal dos ativos russos congelados para ajudar a antiga Ucrânia. O principal desses ativos já está sendo gasto dessa maneira. A discussão permanece inconclusiva por duas razões. Primeiro, a Rússia detém mais ativos ocidentais do que o Ocidente detém ativos russos. Se os ativos russos fossem roubados, a Rússia nacionalizaria ativos ocidentais no mesmo valor ou em valor superior. Segundo, grande parte das reservas soberanas russas congeladas está depositada na Euroclear, na Bélgica. Se essas contas fossem saqueadas, seguir-se-ia inevitavelmente uma corrida à Euroclear por parte de depositantes soberanos de todo o mundo.

    O processo de transformar um país em um pária internacional também não está isento de complicações e compromissos. Cada vez mais, as tentativas ocidentais de isolar e estigmatizar países como o Irã, a Coreia do Norte ou a Rússia não conseguem produzir o resultado pretendido. Roubar os ativos soberanos de um país tende a se voltar contra os ladrões, arruinando a reputação internacional de suas instituições financeiras.

    Além dessa última fase, há uma espécie de terreno baldio político. Mas muitas vezes se tenta causar um dano adicional: o apagamento cultural. Isso envolve derrubar monumentos, proibir filmes e shows, renomear ruas, proibir o ensino da língua e da cultura do país e, de modo geral, tentar apagar a própria memória da grandeza de um país. No entanto, isso não torna o país em questão menos grandioso. No entanto, isso torna os supostos “especialistas” do Ocidente sobre esse país um pouco mais ignorantes e propensos a cometer erros ainda mais embaraçosos ao tentar formular uma política externa, quando chega a hora de voltar à estaca zero e coletar informações de inteligência para a próxima tentativa de ataque.

    O que mais há a fazer? O Ocidente poderia, é claro, iniciar a Terceira Guerra Mundial. O Ocidente tem um histórico comprovado de iniciar guerras mundiais na tentativa de resolver seus problemas, que de outra forma seriam insolúveis. As duas Guerras Mundiais ajudaram os Estados Unidos a se apropriar de praticamente todas as colônias da Europa, transformando a própria Europa Ocidental em uma colônia no processo. Mas esse truque não funcionaria novamente. Os EUA não são mais os mais fortes, nem militarmente nem economicamente, seja sozinhos ou com todos os seus aliados. Além disso, enfrentam um terrível caos fiscal e estão internamente divididos e em conflito.

    Existe, no entanto, o risco de que, diante do fracasso total de seu algoritmo de domínio global, o Ocidente continue a incitar conflitos ao redor do mundo como última cartada que poderia tentar. Veja bem, esse algoritmo não é criação de nenhum presidente, partido político ou centro de estudos dos EUA em particular. Trata-se de uma prática comercial padrão e bem estabelecida de todo o sistema financeiro transnacional ocidental. Se as elites puderem ser compradas, a Fase 1 é ativada. Se as elites não cooperarem, mas o povo sucumbir à manipulação, a Fase 2 é acionada. Se o povo estiver unido e for patriota, o país é relegado ao status de “inimigo” e passa pelas Fases 3, 4 e 5, em uma tentativa de destruí-lo fisicamente, politicamente e financeiramente. Se essas fases também não funcionarem, as Fases 6 e 7 podem ser tentadas. E, se essas também falharem, há sempre a Fase 8: a Terceira Guerra Mundial. Não vejo o perigo da Terceira Guerra Mundial como particularmente grande, pois seria um ato suicida. Mas uma série interminável de provocações não parece totalmente improvável. A cada uma delas, o Ocidente ficará cada vez mais fraco. Resta saber se ainda resta inteligência suficiente no Ocidente para perceber que agir assim é suicídio.

    Por enquanto, o algoritmo permanece em vigor. Isso não se deve ao fato de ele ainda ser eficaz. É porque o nível de degradação no Ocidente é tal que nenhum novo algoritmo pode ser formulado. Simplesmente não há novas ideias em lugar algum. E essa é precisamente a razão pela qual “negociações” e “compromissos” com o Ocidente não são mais possíveis. Esse sistema não negocia com aqueles que já colocou em sua esteira de subjugação ou destruição. Restam apenas duas opções: capitulação total (que leva o país de volta à Fase 1, mas sob condições mais severas); ou destruição física.

    A compreensão desse algoritmo é a chave para entender por que tantos esforços diplomáticos terminam em um impasse. É uma máquina surda e cega que continuará girando em vão até ficar sem combustível. O combustível, nesse caso, é o dinheiro. Mais especificamente, é a dívida. Nesse ponto, a dívida precisa continuar crescendo para que se possa continuar pagando juros sobre a dívida existente. Quando a dívida parar de crescer, a máquina irá parar. 

     

    Em

    Sakerlatam

    https://sakerlatam.blog/quando-a-maquina-vai-parar/

    13/6/2026