UMA ENTREVISTA DE

Hugo Albuquerque

Ofilósofo americano – e pai do conceito de “fim da História” – Francis Fukuyama compartilhou, para a surpresa de muitos, um breve artigo que afirmava como os norte-coreanos fizeram bem em desenvolver armas nucleares. Diante da agressão americana e israelense ao Irã, Fukuyama teve de compartilhar uma opinião de os países teriam de estar preparados para uma intervenção militar ilegal.

Fukuyama não se rendeu ao marxismo, mas fez uma constatação amarga que a “ordem baseada em regras” foi não apenas destruída como, ainda por cima, desmoralizada, pelo ato bárbaro de Trump e Benjamin Netanyahu. Há tantas confusões nesse raciocínio, mas ainda que de maneira torta, Fukuyama reconhece mais uma vez a barbárie do poder americano junto da resiliência da Coreia do Norte: goste-se ou não, o país asiático virou o jogo.

E parte dessa resistência passou pelo desenvolvimento de um arsenal nuclear, o que transformou a invasão da Coreia do Norte em uma missão suicida. Mas não é apenas a capacidade de dissuasão que marca a resiliência do regime norte-coreano: há uma série de processos em curso internamente por lá, e por essa razão fomos entrevistar o professor Lucas Rubio, especialista em Coreia do Norte, que visitou lá há pouco.

Rubio acompanha de perto as transformações que a Coreia do Norte, sobretudo nos últimos anos, e o progresso impressionante pelo qual passa o país, desde grandes construções na capital, políticas de equiparação entre campo e cidade e distribuição de renda de um modo geral, enquanto joga como ninguém o duro jogo da geopolítica atual – onde o mínimo erro pode ser um desastre completo. 


Hugo Albuquerque

As imagens mais recentes que vêm da Coreia Popular mostram um desenvolvimento surpreendente. Inclusive se cunhou o termo Pyonghattan para se falar de novas áreas urbanas com construções modernas e impressionantes. O que explica isso?

Lucas Rubio

A Coreia Popular, conhecida comumente por “Coreia do Norte”, tem investido muito no desenvolvimento da sua economia nos últimos anos. Isso acontece depois dela passar por um período muito grave, em razão da crise internacional pela queda da União Soviética e do socialismo no Leste Europeu, e de ter colocado seus recursos à disposição do programa nuclear – e militar de um modo geral – por uma questão óbvia de sobrevivência. 

Agora, a Coreia que já sente que alcançou um nível de desenvolvimento tecnológico na área da defesa satisfatório – e equivalente à sua projeção desejada de força. Agora, ela remaneja esses recursos e suas atenções para outros ramos da vida do país.

Desde 2021, a Coreia tem implementado uma série de novos esforços na área da economia para incrementar e modernizar o que já existe, mas também para criar coisas novas. Essa decisão nasceu no Oitavo Congresso do Partido do Trabalho da Coreia. Eles, por exemplo, começaram a modernizar as cidades do interior que estavam muito atrasadas em relação à capital Pyongyang e outras cidades industriais. 

Então para resolver essa diferença entre a cidade e o campo, entre cidades grandes e cidades pequenas, foi lançado um grande programa chamado Política de Desenvolvimento Regional 20×10, que consiste no programa de incremento das 20 áreas do interior do país no período dos próximos 10 anos. 

O interior norte-coreano, por esse programa, deve ser modernizado em todos os aspectos, seja com construção de casas populares, indústrias, infraestrutura ou transporte para integrá-las melhor ao resto do país. Algumas áreas interioranas sofriam, até pouco tempo, com certo isolamento por conta da infraestrutura, pois a Coreia do Norte é um país montanhoso, cujas ligações por terra às vezes são um pouco difíceis. Eles estão renovando isso.

A outra área que foi escolhida para se desenvolver foi a de tecnologia, seja para melhorar a produção industrial do país ou, também, para dar à população um nível de vida maior, com inclusão digital e acesso às tecnologias de ponta. Por exemplo, na viagem que eu fiz em 2025 à Coreia do Norte, reparei que já existem métodos de pagamento virtual por lá, na moeda local deles. Os jovens hoje não usam mais dinheiro vivo ou moedas, mas sim fazem pagamento virtual. 

A área agrícola deu um salto. A Coréia sofria com problemas nessa área já fazia muito tempo, pelo menos desde a crise dos anos 90: é um território muito pequeno, com escassos terrenos para plantio, sujeito a muitas intempéries e desastres naturais, porque fica na rota de tufões, passa pelas chuvas de monções etc. 

Então, todo ano era esperada uma perda agrícola por conta de inundações ou pelo extremo contrário, isto é, períodos de seca prolongada. Por isso eles resolveram implementar uma verdadeira revolução econômica na construção de fazendas de estufas. 

A nova cidade norte-coreana de Samjiyon foi oficialmente inaugurada por Kim Jong-un em 2019. (Fotografia: STR/AFP via Getty Images)
A nova cidade norte-coreana de Samjiyon foi oficialmente inaugurada por Kim Jong-un em 2019. (Fotografia: STR/AFP via Getty Images)

Então, os norte-coreanos têm construído muitas fazendas gigantescas, com complexos de estufa que produzem comida o ano inteiro em condições perfeitas, de temperatura, de umidade, de terreno, tudo mais – porque independente do clima que está lá fora, dentro das estufas, o alimento está ali sendo cultivado, está recebendo luz o dia inteiro, vai crescendo mais rápido. E mesmo nas situações rigorosas, como o inverno, a produção continua.

E por último, um outro grande ramo da economia que foi avançado nesses últimos anos e que é o mais notável e visível, é justamente a razão da sua pergunta, que é o da construção civil. Para além da construção de casas no interior, o governo também, desde 2021, tem dado uma grande importância à construção de novas habitações populares na capital Pyongyang. 

Foi construído um distrito chamado Hwasong, com 50 mil habitações para 50 mil famílias. Só que essas casas foram construídas de modo realmente exuberante: são prédios muito altos de 50 até 80 andares, com vista e centros comerciais nas bases. Ele é um exemplo de bairros totalmente novos, que têm não só as moradias, como também escolas, hospitais, lojas, outros tipos de serviço, lazer, cultura com churrascarias, cervejarias, lojas de videogame, concessionárias e salões de beleza – todo o tipo de coisa que as pessoas precisam, localizado na base desses prédios hipermodernos. 

Tudo isso numa arquitetura muito bonita que chama a atenção, como vemos pelo panorama real da cidade de Pyongyang, que é muito diferente do imaginário do ocidental sobre ela, isto é, de que seria uma cidade cinza, cheia de blocos de apartamentos inspirados na União Soviética dos anos 50. E a realidade hoje em dia já não é essa. É um país que realmente se transformou e tem feito esses novos distritos habitacionais para o povo comum. 

É importante dizer que as moradias na Coreia são distribuídas gratuitamente para o povo trabalhador.  Não existe cobrança de imposto, as pessoas não precisam pagar para estar lá, para viver nessas casas.  Também não há aluguel, nem compra e venda. Essas pessoas beneficiadas são trabalhadores comuns, não se trata da elite do país, nem nada disso: são trabalhadores de diversas áreas diferentes, da indústria, da educação etc que são realocados para esses novos bairros, os quais estão sendo construídos algumas das vezes em cima de bairros antigos.

HA

Como a agressão militar americana e israelense ao Irã está sendo percebida entre os norte-coreanos?

LR

A Coréia do Norte recebeu a notícia da agressão americana-israelense ao Irã de forma muito negativa, mas sem surpresa. O país já denuncia Israel e a atuação dos Estados Unidos na Ásia Ocidental há muitas décadas – e nunca reconheceu Israel como Estado legítimo. E é claro que a atuação dos Estados Unidos naquela área do mundo é contestada por uma razão natural pelo governo da Coréia Popular, porque ela própria foi alvo de intervenção americana nos anos 1950.

É praxe, por essa razão, a Coreia do Norte se solidarizar com outros países do mundo que também sofrem com intervenções dos Estados Unidos. O governo norte-coreano protestou por meio do seu Ministério das Relações Exteriores, que publicou uma nota condenando os ataques, chamando a comunidade internacional a condenar os Estados Unidos e Israel, pressionando eles a recuarem. 

Lembrando ainda que a Coreia do Norte é aliada histórica do Irã: o aiatolá Khamenei, que foi martirizado pelos Estados Unidos agora nessa operação, visitou a Coreia em 1989 e se encontrou com o presidente Kim Il-sung, o que ocorreu pouco antes dele virar líder supremo que época ainda era o aiatolá Khomeini. 

Além disso, é importante dizer que, além dessas manifestações feitas por meio dos canais diplomáticos, há também uma análise interna que a gente pode acessar por meio das atas do Nono Congresso do Partido – que acabou de ser realizado no início de 2026. Lá, os norte-coreanos afirmaram que já não existe no mundo uma ordem internacional pacífica de negociações e de diálogo. 

A Coreia Popular admitiu que é a lei do mais forte que agora prevalece na prática, com os países centrais como os agressores, isto é, Estados Unidos, Israel, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e os seus aliados nas outras partes do mundo – como Japão e a Coreia do Sul: eles não respeitam leis internacionais e só ouvem as vozes daqueles que têm força suficiente para se contrapor. 

Isso, então, é lido por Pyongyang como uma razão para sustentar o seu próprio programa nuclear, que é visto como uma estratégia de sobrevivência – e da expressão da autodeterminação e soberania do país.

HA

Ainda no assunto da guerra, o sistema antimísseis THAAD instalado na Coreia do Sul em 2017, quando gerou um enorme polêmica inclusive com a China, foi desmontado e enviado pro Oriente Médio. Como isso foi visto na Coreia Popular e o que isso muda no equilíbrio de forças na península?

LR

Não há um grande reflexo disso na Coreia do Norte, pois hoje em dia ela adotou a postura de considerar a Coreia do Sul como seu principal inimigo – e abandonou a política de reunificação nacional, por não enxergar possibilidade de diálogo com a Coreia do Sul. Os norte-coreanos olharam com certo desprezo e indiferença a saída desse armamento, porque já não há desejo nenhum de se caminhar na direção da Coreia do Sul, seja para o diálogo pacífico ou para uma guerra para anexar ela ou algo assim. 

É claro, a Coreia do Norte continua sustentando a posição de que se a Coreia do Sul continuar ameaçando, e por algum dia abrir algum tipo de agressão aberta, ela vai ser rapidamente punida por isso – e sabemos que os norte-coreanos possuem não só equipamento nuclear, mas também ampla artilharia convencional, que destruiria facilmente a Coreia do Sul em poucos instantes. 

Essa é a situação que temos na Coreia do Norte: ela olha para a Coreia do Sul e diz “olha, se a você fizer algum ataque contra o nosso território, mancomunada com os Estados Unidos, nós responderemos abertamente” – mas isso não significa que com a saída de alguns equipamentos americanos da Coreia do Sul, a Coreia do Norte esteja vendo isso como uma oportunidade de empreender alguma coisa, seja ela militar ou diplomática.

HA

Recentemente, ninguém menos do que Francis Fukuyama compartilhou um artigo em que dava razão à Coreia Popular por ter construído armas nucleares. O que você acha disso? Essa notícia chegou à Coreia Popular?

LR

Eu acho que a conclusão que o Francis Fukuyama chegou, sobre a justeza do programa nuclear norte-coreano, é uma opinião e uma visão que já é compartilhada por muitas pessoas no mundo há muito tempo, muito antes dele perceber ou falar sobre isso. Muitas pessoas no mundo já tinham reparado o quão importante era o programa nuclear da Coreia do Norte por várias razões, sejam internas ou externas. 

O programa nuclear norte-coreano sustentou, literalmente, a existência do país, ao fazer com que os Estados Unidos não cogitassem, de jeito nenhum, qualquer tipo de empreendimento militar contra a Coreia do Norte,, porque sabe que seria totalmente mortal – os norte-coreanos têm armamentos nucleares, sim, e os norte-coreanos têm meios de entregar esses armamentos nucleares, de lançá-los. 

Esses armamentos nucleares podem chegar ao território continental dos Estados Unidos, não só nos seus aliados da Ásia que são próximos como Japão e Coreia do Sul. Então o programa nuclear salvou o povo coreano de um destino parecido com o que houve com os afegãos, iraquianos, líbios, sírios ou o que está acontecendo agora no Irã. 

Imagine um mundo no qual os contrapontos ao poder americano não existissem, e a Coreia Popular é um dos principais junto de China e Rússia: perderia não só o povo coreano, com uma guerra na península, como também perderiam todos os povos do mundo, porque a sanha do imperialismo estaria ainda maior ainda mais sem esses limites – e com certeza avançaria ainda mais em diversas outras regiões do mundo. 

HA

Qual a visão que a Coreia Popular tem do Brasil hoje?

LR

A Coreia do Norte vê o Brasil como um país muito importante, especialmente pela nossa função de grande mediador internacional de conflitos. O Brasil é um país  diplomaticamente muito respeitado e está nos Brics desde o início. Por isso, os norte-coreanos olham para o Brasil como um país com um grande potencial de remodelar as relações internacionais, dessa vez com base na multipolaridade, principalmente durante nossos governos mais progressistas.

Porém, o Brasil é um país infelizmente muito distante para a Coreia do Norte. Fica do outro lado do globo. São 18 mil quilômetros de distância e é um país com uma dificuldade de, muitas vezes, pôr em prática o seu discurso. Então embora o Brasil tenha muito esse discurso da multipolaridade e por aí vai, infelizmente a gente tem por vezes ficado do lado dos Estados Unidos, quando se trata da Coreia do Norte – e temos tido uma lentidão muito grande para fortalecer laços diplomáticos e econômicos com a Coreia do Norte. 

Lembrando que há laços diplomáticos há 25 anos. Desde 2001 existe uma embaixada da Coreia do Norte no Brasil e uma embaixada do Brasil na Coreia do Norte. Mas o Brasil, por enquanto, está sem embaixador na Coreia do Norte e isso já é um retrato de dez anos, que vem do governo Temer: dez anos nos quais o Brasil não tem embaixador na Coreia do Norte, o que mostra a falta de independência dos governos Temer e Bolsonaro. Então eu acho que talvez os norte-coreanos tenham uma visão muito positiva do Brasil, mas nosso país nem sempre consegue acompanhar essa visão – e também nem sempre consegue, de fato. se mostrar proativo e com iniciativa de estabelecer um caminho de diálogo com a Coreia do Norte.

HA

Por fim, qual sua perspectiva para o futuro próximo, lançando um olhar da perspectiva de um brasileiro que conhece a Coreia Popular por dentro?

LR

Eu voltei de lá há muito pouco tempo e vejo um futuro muito bom para a Coreia. Eu consigo reparar que algumas questões econômicas, que até poucos anos atrás eram muito latentes, estão se tornando coisas do passado e que os norte-coreanos estão investindo muito na modernização de sua cadeia produtiva como eu disse anteriormente. Eles estão modernizando até mesmo os aspectos mais básicos da vida, e é um país que tem se informatizado muito e eu tenho percebido isso cada vez que vou lá.

Há pouco tempo, você praticamente não via quase ninguém com celulares na Coreia do Norte, mas, hoje, vê a intensa maioria das pessoas usando muitos celulares, muito parecido com a nossa sociedade. E a gente tem que pensar que a Coreia do Norte é um país muito sancionado – o mais sancionado do mundo – o que cria uma dificuldade muito grande para ela acessar coisas básicas — até mesmo como alimentos ou remédios –, imagine só a tecnologia e máquinas industriais. 

Eu admiro muito a capacidade norte-coreana de produzir por conta própria sua tecnologia, seus maquinários industriais. É muito interessante ver o que esse país tem projetado para o futuro: eles fazem planos com cinco anos a dez anos de duração, com metas ambiciosas para serem cumpridas na economia. Eu fico admirado de ver que há um planejamento racional e científico dos recursos nacionais, e que o objetivo desses planos econômicos de cinco a dez anos são, exclusivamente, para melhorar a qualidade de vida da população. 

Não há uma elite financeira na Coreia do Norte que esteja lucrando com a pobreza – o país não está fabricando pobreza, nem está lucrando com a guerra, por exemplo. Há um povo muito unido ao entorno de um projeto político que tem tentado melhorar a qualidade de vida e avançar na construção do socialismo. 

A Coreia do Norte é um país que se autodeclara socialista e sempre menciona, com orgulho, que está construindo o socialismo para chegar ao comunismo. Então, é um país com um sistema econômico socialista, que está tentando construir uma alternativa de existência no mundo. 

É um país com bases econômicas diferentes das nossas, e elas priorizam as massas populares como tem ficado cada vez nítido. Então eu acho que em um futuro muito breve, nós veremos uma Coreia do Norte cada vez mais próspera, resolvendo problemas econômicos críticos que perduraram por muitos anos naquele país, construindo para si uma base técnica aprimorada em várias áreas. 

Vejo que nós estaremos cada vez mais admirados com as novas cidades que nascem na Coreia, seus novos prédios que serão inaugurados e eu acho que nós temos que olhar para isso como um grande exemplo, porque a Coreia é um país que não se curva diante de nenhum outro mesmo sendo muito pequeno: é um país que conseguiu construir para si um poderoso campo militar, que o colocou como uma das nações mais militarmente avançadas no mundo e que, por essa razão, consegue colocar a sua voz no cenário internacional e afastar toda e qualquer possibilidade de guerra. 

Isso é louvável, mas temos que lembrar que é fruto de uma luta de resistência nacional anti-imperialista de décadas, promovida por gerações naquele país – e é muito bom ver que no futuro as próximas gerações, aparentemente, estão dispostas a levar adiante o projeto dos seus antecessores.

é publisher da Revista Jacobina, editor da Autonomia Literária, mestre em direito pela PUC-SP e advogado.

Lucas Rubio

é presidente do Instituto Paektu Brasil, professor de russo e graduando em energia nuclear.

Em

Jacobina

https://jacobin.com.br/2026/03/como-a-coreia-do-norte-enterrou-o-fim-da-historia/

23/3/2026