domingo, 22 de fevereiro de 2026

"o desafio da esquerda é oferecer um novo horizonte de esperança"




Alysson Mascaro

*247 -* Alysson Leandro Mascaro afirmou que a política brasileira vive
um momento de esgotamento e transição, com sinais de encerramento de um
ciclo histórico marcado pela centralidade de Luiz Inácio Lula da Silva,
ao mesmo tempo em que a disputa pública passa a ser cada vez mais
moldada pela lógica do espetáculo e da captura de atenção.

A avaliação foi feita em entrevista à TV 247, na qual Mascaro discutiu
com o jornalista Leonardo Attuch, editor-responsável pelo Brasil 247, os
dilemas do campo progressista, a reorganização da direita e a
necessidade de que a esquerda ofereça “um novo horizonte de esperança”
para além de respostas imediatistas e de comunicação performática. 


      *Um ciclo histórico que se encerra com troca de gerações*

Mascaro enquadrou o presente como parte de movimentos largos da história
brasileira. Ele argumentou que períodos políticos não se explicam por
“fatos isolados”, mas por eras e inflexões que atravessam gerações.
Nesse sentido, sugeriu que o ciclo aberto com a redemocratização, em
1985, pode estar chegando ao seu limite, inclusive por mudança geracional.

Para o filósofo, Lula foi o “elemento simbólico chave” desse período. A
possibilidade de uma última eleição presidencial do líder petista,
mencionada pelo entrevistador, surge então como marco de encerramento.
Mascaro também vinculou esse processo a uma transformação global: junto
ao “fim de um ciclo do Brasil”, haveria o esgotamento de “uma velha
forma de fazer política” no mundo inteiro.


      *Redes, algoritmo e política como performance*

Um dos eixos centrais da conversa foi a crítica à forma contemporânea de
fazer política, atravessada pelo imediatismo das redes e pela competição
por atenção. Mascaro observou que a política atual assume “outra forma
de espetáculo”, mais dependente de mídia digital e menos conectada a um
sentido de futuro.

Ele resumiu esse deslocamento ao enfatizar a lógica performática: “É uma
característica do capitalismo contemporâneo que as estruturas sociais e
políticas se esgotem em performance.” Na leitura do filósofo, isso
também explica por que lideranças tendem a ser mais descartáveis: “Não
há nesse espectro das performances praticamente nenhuma liderança
política do mundo performática que fique por 20, 30 anos.”

A discussão avançou para a transição dos antigos filtros — partidos e
grandes meios — para uma centralização global nas plataformas. Mascaro
citou a passagem de um modelo em que “bastava uma edição do Jornal
Nacional” para produzir consensos, para outro em que a atenção é
“customizada”, disputada no celular, sob influência direta dos
algoritmos das big techs.


      *Direita com discurso “realista” e esquerda com fala “adoçada”*

Ao analisar a disputa ideológica, Mascaro rejeitou uma leitura moralista
segundo a qual “o povo piorou”. Pelo contrário, disse ver maior
politização social em comparação ao início dos anos 1990: “O nosso povo
de hoje é mais politizado do que o povo do tempo do Collor.” Ele apontou
que influenciadores e correntes da direita operam com jargões e
referências políticas mais presentes no cotidiano, ainda que, em sua
avaliação, isso venha acompanhado de ideias frágeis e simplificações.

Na outra ponta, criticou o que chamou de despolitização do discurso de
esquerda ao longo das últimas décadas. Para ele, a direita busca
organizar afetos e indignação com mais força narrativa, enquanto a
esquerda frequentemente recua para um discurso de gestão e melhora
incremental. Esse contraste aparece quando Mascaro compara a
contundência de uma direita que “fala grosso” com uma esquerda que fala
de forma “educada”, em termos como “vamos todos nos unir” e “respeito ao
próximo”, num mundo social estruturado pela competição.

Ele também formulou uma oposição central da entrevista: “O modelo de
fala ideológica da direita tem mais impregnação na realidade, ainda que
estruturalmente falseado. O da esquerda… está impregnado na falsidade.”
A crítica se dirige ao modo como promessas de proteção e solidariedade
entram em choque com experiências comuns de precariedade e abandono.


      *Pós-Lula, medo do vazio e “melancia na cabeça”*

Provocado por Attuch sobre a ansiedade em relação ao pós-Lula, Mascaro
afirmou que o horizonte futuro pode ser ainda mais dominado pela disputa
performática. Em tom irônico, discutiu a ideia de que vencerá quem
conseguir chamar mais atenção — metáfora que atravessa a conversa com a
imagem da “melancia na cabeça”.

Ao avaliar um eventual quarto mandato de Lula, Mascaro argumentou que o
governo atual teria sido organizado por uma bandeira “em negativo”,
centrada na oposição ao bolsonarismo e na reconstrução institucional.
Mas sustentou que um próximo ciclo exigiria algo “em positivo”, uma
marca capaz de articular sentido histórico e não apenas contraste com o
adversário.


      *A crise como nó do capitalismo e o poder do mercado financeiro*

No trecho mais estrutural da entrevista, Mascaro insistiu que a crise do
capitalismo contemporâneo tem um núcleo decisivo: a finança. Ele
defendeu que, quando eclodem crises profundas, o Estado costuma agir
para salvar bancos e o mercado financeiro — e que a disputa política
fundamental está em quem controla esse processo.

O filósofo citou exemplos históricos para sustentar que momentos
críticos podem abrir janelas de transformação, mas apenas se houver
preparação ideológica e mobilização social. Evocou inclusive a frase
atribuída ao papa Francisco — “Acabou o carnaval” — como imagem de uma
ruptura simbólica: a possibilidade de um governo, em contexto de colapso
financeiro, recusar o salvamento privado e reorganizar o sistema sob
controle público.


      *Trump, extrema direita e o risco da “solução fascista” na crise*

Ao discutir a dinâmica internacional, Mascaro mencionou Donald Trump, o
presidente dos Estados Unidos, como exemplo de política contemporânea
marcada por espetáculo e radicalização. O filósofo argumentou que, em
crises severas, a extrema direita tende a oferecer uma saída baseada em
violência social, repressão e privatização.

Ele descreveu esse caminho como “solução fascista”, associando-o a
políticas que empurram o custo da crise para os mais vulneráveis. No
debate, Mascaro também indicou que uma esquerda sem capacidade de
enfrentamento econômico pode se limitar a respostas redistributivas
estreitas, incapazes de alterar o eixo de poder do sistema financeiro.


      *Quem pode construir a esperança: massa, linguagem e horizonte*

O ponto de chegada da entrevista foi a ideia de esperança como tarefa
política concreta — e não como slogan. Mascaro disse que a reconstrução
de horizonte depende de organização, disputa de linguagem e conexão real
com os setores populares que hoje são capturados pela extrema direita.

Ele argumentou que a transformação não virá automaticamente das
estruturas já acomodadas, criticando uma esquerda que se prende ao
“presente melhorado” e tende a ser conservadora em momentos-limite. Ao
contrário, afirmou que a energia social para agir muitas vezes está
justamente nas periferias e no trabalho precarizado — “motoboy”,
“entregador de aplicativo” — grupos que carregam urgência e disposição,
mas podem ser canalizados para projetos regressivos.

A síntese proposta por Mascaro, ao final, mira o coração do problema:
disputar a vontade de agir e transformá-la em projeto coletivo. É nesse
ponto que, para ele, se coloca o desafio central do campo progressista —
oferecer um novo horizonte de esperança que não se esgote em
performance, nem em remendos, mas que seja capaz de reorganizar forças
sociais diante da crise e do risco de barbárie política.

Em
BRASIL 247
https://www.brasil247.com/entrevistas/alysson-mascaro-o-desafio-da-esquerda-e-oferecer-um-novo-horizonte-de-esperanca
18/2/2026

Nenhum comentário:

Postar um comentário