sábado, 7 de fevereiro de 2026

Lembrando os tempos de Jango

 

Luís Nassif


Arquivo Senado Federal

Nesse período de revisão histórica, o período da ditadura tem sido bem dissecado em várias obras. Falta um olhar sobre o governo João Goulart.

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Foi o tema de um especial do GGN com dois filhos de figuras centrais do governo Jango: Paulo de Tarso da C. Santos, filho do ex-Ministro da Educação Paulo de Tarso (e autor do slogan político mais cantado da história: Lula-lá) e Henrique Pinheiro, filho de João Pinheiro Neto, o homem que, à frente da Superintendência da Reforma Agrária (SUPRA), conduziu o último lance de Jango, uma proposta de reforma agrária que ajudou a acelerar sua queda.

Ambos estão trabalhando temas da época, Henrique em um documentário sobre o pai, Paulo de Tarso, em um livro de crônicas sobre política, começando por Jango.

 interessante a origem familiar de ambos.

Paulo de Tarso Santos pertencia à esquerda católica paulista, grupo que incluía descendentes de famílias tradicionais, borrifadas pelas águas da JUC (Juventude Universitária Católica). João Pinheiro Neto era de tradicional família política mineira, descendente de João Pinheiro, Israel Pinheiro, ligada a JK.

A ambição de ambos era um reformismo modernizante, que aproximasse o Brasil da social-democracia europeia. Nada além disso. E essa era a posição de todos os reformistas do governo Jango.

Jango foi reduzido a personagem quando, na prática, representava um projeto de país. E projetos, quando ameaçam estruturas consolidadas, não são apenas derrotados: são desmoralizados, esvaziados, tornados risíveis ou perigosos. No caso brasileiro, optou-se pelas duas coisas. A imagem de personagem fraco, pespegada em Jango, é fruto de uma desconstrução histórica, não de sua atuação.

Anos atrás entrevistei Almino Affonso, um dos políticos que, na época, fazia críticas pesadas, do lado da esquerda. Ele admitiu que, depois de algum tempo, percebeu a grandeza de Jango, conduzindo um governo modernizante, mas tendo que se equilibrar entre o golpe e a ousadia.

Jango era contrário a conflitos. Na infância enfrentou a ferocidade das guerras civis gaúchas. Mas herdou a visão trabalhista de Getúlio Vargas e avançou mais: queria não apenas uma classe média urbana fortalecida, mas também uma classe média rural. Como estancieiro sabia da situação de pobreza no campo. 

Ao criar a SUPRA, incumbiu João Pinheiro Neto de organizar a CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares).

Enquanto Paulo de Tarso colocava como objetivo a alfabetização total dos brasileiros, recorrendo ao método Paulo Freire, João Pinheiro tentava o fortalecimento da classe média rural.

O drama de Jango estava no seu paradoxo. Governar, naquele contexto, significava escolher entre ruptura social ou ruptura institucional. Tentou adiar ambas — e pagou o preço.

À esquerda, a grande pressão que sofria era o cunhado Leonel Brizola. No governo gaúcho, Brizola organizou feitos extraordinários para resistir ao golpe tentado pelas forças militares. Montou a Rede da Legalidade, composta por mais de 200 emissoras, organizou a resistência em Porto Alegre. E sempre tentava empurrar Jango para uma radicalização maior. Na outra ponta, Jango resistia, e era incentivado por San Tiago Dantas a tentar aproximação com as elites financeira e intelectual cariocas.

Em algum momento, no curtíssimo espaço de tempo de seu governo, montou um governo verdadeiramente popular. “Muito mais do que o de Lula”, pondera Paulo de Tarso, filho.

Mas havia uma conspiração em marcha, um processo longo, no qual a construção do medo desempenhou papel central: medo do comunismo, da reforma agrária, da mobilização popular, medo da própria democracia.

A pá de cal foi o Comício da Central, no qual Jango anunciou o grande avanço social do seu governo: a desapropriação de terras improdutivas ao longo das rodovias, ferrovias e açudes federais. Foi o passo fatal.

Tratado por JK quase como um filho, João Pinheiro Neto ouviu seu conselho. Montesquieu dizia que podem ameaçar até a esposa do pessoa, mas quando ameaça a propriedade, o homem vira bicho.

A reforma agrária de Jango durou 3 semanas, entre o Comício e o golpe.

Depois, seus ministros foram perseguidos, presos, cancelados. Alguns conseguiram ir para o Chile que, até o golpe contra Allende, abrigou o que de mais brilhante havia na inteligência brasileira.

Mas o golpe nunca mais saiu da cabeça da esquerda brasileira, diz Paulo de Tarso da C. Santos. O medo de qualquer espécie de confronto fez com que abandonasse, ano a ano, qualquer veleidade reformista, contentando-se com programas tipo Bolsa Família.

Só quando se juntar as bandeiras da soberania, do desenvolvimento e da justiça social, os progressistas poderão se redimir e propor, de fato, uma luta de salvação nacional.

Em

Jornal GGN

https://jornalggn.com.br/coluna-economica/lembrando-os-tempos-de-jango-por-luis-nassif/ 



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