– Homenagem a Jorge Lobo Miglioli (1935-2025)
Carolina Alves [*]

Conheci o Professor Jorge Miglioli no ano 2000, ano em que comecei minha graduação em Economia na UNESP, Araraquara – Brasil, plenamente convencida de que era o caminho certo para quem queria mudar o mundo. Cheguei a considerar Sociologia também, mas minha mãe (como qualquer outra mãe que sonha que seus filhos vão mais longe do que ela foi) bateu o pé: “Eu não trabalhei tanto para te dar uma boa educação para você virar professora de escola!”. E assim ficou decidido.
Pouco mais de um mês após o início do curso, eu me vi no meio de uma das mais longas greves das universidades públicas brasileiras. Aquela greve, tão cedo na minha trajetória acadêmica, fez com que eu questionasse se havia escolhido o curso certo. A maioria dos meus colegas simplesmente voltou para suas cidades natais, em vez de permanecer e se envolver com o que estava acontecendo. Não seria justo dizer que eram contra a greve; eles simplesmente não se importavam. Muitos vinham da classe média brasileira ou de classes superiores, o que reflete a esquizofrenia do nosso sistema de ensino superior gratuito. Eles seguiam um caminho claro rumo à elite, trabalhando em bancos, grandes corporações e afins, e a greve havia simplesmente interrompido essa trajetória. Tudo o que queriam era voltar às suas vidas normais. A situação era ainda pior no meu departamento, o Departamento de Economia, onde apenas dois, talvez três professores apoiassem a greve. A maioria deixou claro que era contra e desapareceu da universidade durante todo o período, que durou quase quatro meses.
Por outro lado, aquele momento me apresentou a outros estudantes de Economia e Ciência Sociais que ficaram, apoiaram a greve e abriram a porta para uma disciplina de Economia que realmente importava. Eles também se tornariam queridos amigos. Foi por meio deles que comecei a estudar Karl Marx. Também conheci a presidente do Diretório Central dos Estudantes, Renata Belzunces, a estudante que liderava a greve no meu campus, admirada por muitos, incluindo o Professor Jorge Miglioli, e que se tornaria uma das mulheres mais inspiradoras que já tive como modelo.[1] E foi nesse momento que conheci também o Professor Jorge Miglioli.
Miglioli, que acabou se tornando “Miglis” para mim, um apelido de que ele nunca gostou, mas aceitou mesmo assim (não sei se lhe dei muita escolha!), era diferente. Não havia “mas” com Miglioli quando se tratava da greve. Lembro-me de ele dizer algo como: “Como mais vocês esperam que os capitalistas e o governo nos ouçam?” Mas não era apenas o que ele dizia, era como ele dizia. Não havia tentativa de convencer, nenhum floreio retórico. Era mais como: por que estamos sequer debatendo isso? Seu tom carregava uma espécie de certeza tranquila e, por baixo dela, uma profunda frustração e desilusão com o fato de que aquilo precisasse ser explicado.
Mais tarde, descobri que, em 1962, quase 40 anos antes dessas conversas acontecerem, Miglioli havia escrito um pequeno livro intitulado Como são feitas as greves no Brasil? Ele estava no final dos seus vinte e poucos anos na época e o livro fazia parte da coleção Cadernos do Povo Brasileiro. A missão da coleção dizia tudo:
Os grandes problemas do nosso País são estudados nessa série com clareza e sem qualquer sectarismo; seu objetivo principal é o de informar. Somente quando bem-informado é que o povo consegue emancipar-se.
Esse livro foi provavelmente a primeira vez em que vi a Economia tão claramente, e de forma tão eloquente, entrelaçada com política, classes sociais, termos como capitalismo e conceitos como imperialismo. Lembro-me de ter dito “sim!” em voz alta logo no início, quando Miglioli escreveu que greves são feitas para paralisar a produção, então, se não prejudicam os capitalistas, não servem para nada; não são eficazes. E depois me lembro de ter ficado pensativa, tentando processar o que vinha a seguir: “No entanto, uma greve não é realizada com a intenção de prejudicar os capitalistas, mas sim de beneficiar os trabalhadores” (Miglioli, 1962, p. 11).
Mais tarde, também vim a saber que a distinta trajetória acadêmica de Miglioli esteve profundamente entrelaçada ao seu compromisso com a luta comunista. Membro histórico do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ele contribuiu para a Revista Estudos Sociais, uma publicação do Partido voltada a intervir no discurso sobre os problemas mais urgentes do Brasil. No âmbito do PCB, Miglioli é reconhecido por avançar a compreensão do Partido sobre a luta de classes, as dinâmicas da economia capitalista e as possibilidades de construção do socialismo no Brasil.
Miglioli tinha um profundo conhecimento de Karl Marx e Michał Kalecki, e era assumidamente anticapitalista, embora nem todos os marxistas no Brasil concordassem com isso (e o fato de ele dirigir um Toyota Corolla não caía bem entre setores da esquerda!). Para Miglioli, os marxistas haviam dedicado tempo demais a estudar a classe trabalhadora e tempo de menos a estudar a burguesia. Ainda assim, as classes sociais, o trabalho e as lutas dos trabalhadores foram sempre centrais em sua obra, em sua visão de mundo e em suas inquietações. O fato de que os economistas e a Economia, como disciplina, estavam se afastando cada vez mais dessas questões não era apenas frustrante para ele, era uma derrota. E essa derrota muitas vezes se transformava em uma tristeza profunda, uma espécie de permanente nostalgia que eu só comecei a compreender melhor à medida que nos tornamos amigos.
Ele tinha frustrações semelhantes com os sociólogos. Para Miglioli, a era pós Queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética inauguraram uma espécie de névoa triunfante: a ideia de que o capitalismo havia vencido, de forma definitiva e heroica. Esse clima não apenas tornava o tema do “fim do capitalismo” algo ultrapassado, como também deu origem a um vasto corpo de literatura celebrando os supostos méritos desse sistema socioeconômico, agora liberalizado e globalizado, aparentemente destinado a perdurar até o fim dos tempos (Miglioli, 2007, p. 97). Miglioli tinha pouquíssima paciência para essa literatura sobre “sociedades pós-industriais”, “sociedades pós-capitalistas” e “o fim do trabalho”. Para ele:
(…) quase toda essa literatura não trata efetivamente do fim do capitalismo como sistema socioeconômico (ou como "modo de produção", na linguagem marxista), mas apenas de algumas mudanças mais ou menos profundas ocorridas dentro desse sistema, sendo que, não raramente, diversas são mais imaginárias do que reais (como o "fim do mundo do trabalho") (Miglioli, 2007, p. 98).
Na verdade, grande parte dessa literatura, argumentava ele, simplesmente reempacotava o capitalismo contemporâneo com novos nomes, apresentando-o como de alguma forma “melhor” ou superior ao “velho capitalismo” estudado por Marx. E “melhor” podia significar qualquer coisa: mais eficiente, mais equitativo, mais emancipador, “ou mais qualquer outra coisa a gosto do autor” (Miglioli, 2007, p. 98).
Admiração intelectual: a macroeconomia crítica
Quando a greve terminou, percebi que veria Miglioli todas as semanas durante um semestre inteiro, já que ele daria a disciplina de Introdução às Ciências Sociais para os estudantes de Economia (sim, eu fiz um bacharelado em Economia no qual uma das disciplinas era Introdução às Ciências Sociais!). Meu primeiro ano inteiro foi, na verdade, bastante incrível: tive Instituições de Direito, História do Pensamento Econômico, História do Pensamento Político e até Contabilidade! Mas o curso do Miglioli era, sem dúvida, o ponto alto. Antes de mais nada, ele entrava na sala, sentava-se à mesa, abria seu caderno (de páginas amareladas, sugerindo que o acompanhavam havia décadas), e acendia um cigarro. Ele nunca se levantava. E fumava pelo menos uns dez cigarros por aula! A minha memória daquelas aulas também é uma mistura rica de anedotas da vida de Miglioli, que era basicamente uma história viva do pensamento político e econômico brasileiro.
O conteúdo principal entrelaçava a história da sociologia como uma ciência burguesa e antimarxista, com uma crítica constante, afiada e muitas vezes pungente à disciplina da economia. Não era apenas ensino, era narrativa, análise política e uma forma de resistência intelectual, tudo ao mesmo tempo. Foi em uma dessas aulas que Miglioli nos perguntou: “Vocês sabem para que serve a estatística para os economistas?” Seguiu-se aquele silêncio típico de sala de aula. Ele esperou e então disse: “É uma maneira de espancar os números até que eles digam o que você quer.” Esse era o estilo do Miglioli: transmitir conhecimento por meio de anedotas e piadas afiadas e espirituosas, sempre pontuadas com porra, um palavrão inaceitável para a maioria dos brasileiros em ambientes formais — exceto, claro, para os cariocas. Suas aulas nunca eram convencionais, e eram memoráveis. Ele ensinava com um tipo de brilhantismo irreverente que fazia você rir, pensar e questionar tudo o que achava que sabia sobre Economia.
Depois da aula, eu frequentemente ia atrás de Miglioli com a desculpa de fazer alguma pergunta sobre a matéria quando, na verdade, eu só queria continuar ouvindo-o falar sobre e/Economia. Logo, soube por amigos, que Jorge Miglioli era “o” economista no Brasil. Ele havia sido membro do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), um instituto fundado em 1955 no Rio de Janeiro para promover uma reflexão crítica sobre o desenvolvimentismo, buscando formular uma estratégia nacional de desenvolvimento e construir um quadro ideológico capaz de orientar a burguesia a liderar a transformação econômica, social e cultural do Brasil. Tinha trabalhado com Nelson Werneck Sodré e Álvaro Vieira Pinto, dois gigantes intelectuais Brasileiros do século passado na área de desenvolvimento econômico e social. Havia sido exilado durante a ditadura militar e tinha feito seu doutorado com Michał Kalecki na Polônia. Também havia sido ele a introduzir Kalecki e o conceito de demanda efetiva ao público brasileiro.
No entanto, eu nunca senti nele qualquer traço de grandiosidade, muito pelo contrário. Ele sempre encontrava tempo para os estudantes, para mim. Vinda de uma família não acadêmica e de um contexto distante daquele ambiente bem-educado e rico que tantas vezes domina os espaços universitários no Brasil, eu achava o ambiente acadêmico pouco acessível. Mas, com Miglioli, eu nunca precisei me preocupar com nada disso. O estilo de vida dele era simples e conversar com ele era sempre divertido, sempre encorajador; eu sempre saía tendo aprendido algo novo, sem sentir-me ansiosa por não estar no nível dos meus colegas.
Não demorou muito para que eu começasse a me perguntar por que Miglioli não estava nos ensinando macroeconomia. Nunca descobri de fato o motivo. Quando lhe perguntei, ele não demonstrou a menor preocupação, disse simplesmente “que não queria ter nada a ver com a Economia”. Miglioli fez bacharelado em Ciências Sociais, mestrado em Planejamento e doutorado em Economia. Sob a supervisão de Kalecki na Escola de Estatística e Planejamento de Varsóvia, ele se aprofundou no estudo do planejamento econômico socialista, um conjunto de trabalhos que mais tarde se tornou o livro Introdução ao planejamento econômico, publicado em 1982. Essa contribuição o posicionou como uma figura central na conformação do debate sobre planejamento econômico no Brasil, articulando teoria e prática na busca por uma ordem econômica mais justa. Seu trabalho de pós-doutorado, Acumulação de Capital e Demanda Efetiva, foi publicado como livro em 1981 e é considerado um marco para a introdução da macroeconomia no Brasil.
Curiosamente, Miglioli não deu muita atencão ao Keynes no seu livro Acumulação de Capital e Demanda Efetiva. Claro, há referências, mas nenhuma discussão real. Nunca lhe perguntei o porquê; e nas nossas conversas, Keynes nunca apareceu com destaque. O grande tema sempre foi economia política, Marx e Kalecki. E, sinceramente, com o que o livro oferece, é difícil sentir que Keynes faz falta. A Parte I trata da Lei de Say (a base da economia clássica e neoclássica) e das críticas de Thomas Malthus e J. C. L. Sismondi. Depois, há uma seção inteira dedicada a Marx, com um foco intenso em marxistas russos como Mikhail Tugan-Baranovski e uma parte inteira sobre Rosa Luxemburg. É uma obra rica, multifacetada, que reflete os compromissos intelectuais de Miglioli e sua recusa em diluí-los.
Se Joan Robinson argumentou que é possível ver uma teoria incipiente da demanda efetiva em Marx (Robinson, 1966; Alves, 2022), Miglioli foi além. Valendo-se de uma de suas grandes qualidades, a clareza didática, ele expôs e explicou a teoria da demanda efetiva de Marx e dos marxistas, conhecida, na linguagem marxista, como a teoria da realização. De maneira original, mostrou como a oferta nas economias capitalistas sempre tende a exceder a demanda, impulsionando aquilo que Marx identificou como uma das contradições centrais do capitalismo: a produção ultrapassando a demanda monetária necessária para absorver o produto, levando a crises de superprodução, ou, de forma mais ampla, à desproporcionalidade.
Seu engajamento com os autores mencionados acima foi sempre guiado por esse problema, seja por meio dos marxistas russos e seus debates sobre subconsumo, comércio internacional e trabalho improdutivo, seja por meio da abordagem subconsumista de Rosa Luxemburgo. Miglioli não fazia concessões ao defender Luxemburgo e Marx. Ele argumentava que ambos estavam absolutamente corretos ao identificar o subconsumo no curto prazo, enraizado na contradição entre a crescente capacidade produtiva e os limites estreitos do consumo (Miglioli, 1981). Para Miglioli, essa era a razão por trás das crises de desproporcionalidade, e o problema fundamental da demanda efetiva.
Essa foi a minha introdução à macroeconomia, via Marx, Luxemburgo, Kalecki e planejamento econômico! Tudo graças a Miglioli. Por uma ironia do destino, em 2017/18, tudo isso retornou com muita força em meus pensamentos quando eu dizia que era macroeconomista no próprio departamento do Keynes, o Departamento de Economia da Universidade de Cambridge, na Inglaterra; mas era recebida com ceticismo porque eu não conseguia nomear o modelo que usava. Fiquei intimidada, não sabia como responder e pensei que era melhor começar a dizer que sou economista política. Mas hoje, escrevendo este texto, queria ter dito para mim mesma naquela época: “Porra, Carolina, para de levar economista tão a sério!”
Olhando para trás, agora acho que a decisão de Miglioli de deixar Keynes de fora foi deliberada. Ele queria introduzir a demanda efetiva por meio de Marx. Minha compreensão de macroeconomia nunca foi moldada pela síntese neoclássica IS–LM–MP, por modelos DSGE ou por estruturas de equilíbrio.[2] Fui moldada por economistas do desenvolvimento, teóricos da dependência e por Miglioli. Dele herdei a insistência em discutir capitalismo, mais‑valia, a determinação de lucros e salários, a acumulação de capital, sempre tendo em vista as classes sociais, o imperialismo e o desenvolvimento econômico. Essa abordagem, em diálogo com pensadoras como Rosa Luxemburgo, moldou profundamente minha compreensão do campo. É isso que significa macroeconomia para mim, ainda que tudo ao meu redor pareça sugerir que essa compreensão é equivocada.
A amizade: entre a minha formação e a sua desilusão
Desde aquele primeiro encontro em 2000, ainda no meu primeiro ano da graduação, acabamos nos tornando amigos. Miglioli também se tornou meu orientador do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Quando eu disse que queria estudar capital financeiro, ele respondeu: “Antes de entrar no mundo das finanças, você precisa aprender que capital é, antes de tudo, uma relação social”. Grande parte da minha monografia acabou girando em torno disso por causa dele, algo que até hoje considero essencial para a minha leitura de Marx e para a minha crítica à economia neoclássica. Aquele primeiro contato com pesquisa também despertou em mim uma paixão e uma valorização profunda pela teoria, algo do qual não abro mão, mesmo em uma era dominada por dados e por políticas evidence‑based.
Eu tinha dificuldade para ler por longos períodos e para escrever no estilo acadêmico. Por isso, passávamos horas discutindo cada autor que ele me pedia para estudar, e ele me obrigava, com a paciência de quem sabe o que está fazendo, a sentar à mesa dele e escrever. Eu simplesmente não existiria como pesquisadora se não fosse por ele. Muitos outros teriam me ignorado, porque não consideram esse trabalho extra, o de nutrir estudantes que vêm “de trás”, sem “cultura acadêmica” como background, como parte de suas responsabilidades. Eu não era a estudante mais brilhante da turma. Não me parecia com a maioria dos acadêmicos no Brasil. Eu não falava outras línguas, não era boa em matemática, nunca tinha viajado para fora, e não carregava aquele repertório confortável de “boas” músicas brasileiras ou da literatura brasileira e internacional. Mas Miglioli nunca julgou minha capacidade ou inteligência por nada disso. Ele viu valor na minha perspectiva, e me apoiou. Ele me fez sentir segura, inteligente.
Nossa amizade não terminou quando concluí a graduação. Miglioli incentivou e apoiou minha decisão de fazer um Mestrado em Sociologia. Enquanto ele lecionava em Araraquara, uma cidade a 181 km de sua casa em Campinas, passou a dividir uma casa comigo e com outras três amigas, Renata Zambelli, Francine Hirata e Stela Godoi. Da minha parte, eu queria evitar que ele ficasse sozinho em um hotel; mas meu argumento oficial era outro (e também verdadeiro): com a ajuda dele, poderíamos dar um pequeno passo adiante, morar em um lugar menos estudantil, mais adequado para nos prepararmos para as provas de ingresso no mestrado. (As imobiliárias em Araraquara oferecem muito mais opções quando o locatário é um professor universitário!)
Ele também me dava carona até Campinas e abria sua casa para mim quando eu assistia, como ouvinte, disciplinas de pós-graduação na Universidade Estadual de Campinas para me preparar para o Mestrado. Eu jamais teria condições de arcar com aquelas viagens sozinha. Em Campinas, conheci sua família: seus filhos, Rafael, Daniel e Aline, e Marli, sua ex-mulher. O cuidado entre eles era incondicional; as preocupações de pai, carregadas de certos arrependimentos, eram evidentes, assim como suas alegrias e o orgulho radiante de ser o “papai”.
Ele esteve ao meu lado durante os dois anos do meu Mestrado, mesmo que nunca tenha deixado de criticar minhas escolhas teóricas: o Marxismo vindo de Georg Lukács e a Ontologia do Ser Social (Trabalho). E, muitas vezes, demonstrava um orgulho silencioso, quase uma alegria cúmplice, pelo fato de eu ser a primeira orientanda do Professor Jesus José Ranieri, então o docente recém-contratado no departamento, alguém de quem ele só ouvira elogios. Saber que eu estava sendo orientada por ele parecia, para Miglioli, uma confirmação de que eu estava no caminho certo, mesmo quando minhas escolhas teóricas o faziam resmungar.
Miglioli também foi um dos meus examinadores e, durante a minha defesa em 2007, simplesmente não conseguiu se conter: “Porra, Carolina, eu te disse que toda essa coisa do Hegel não ia ajudar!” E, ainda assim, dois anos antes, ele próprio tinha me dado meu primeiro livro sobre Hegel. E três anos antes disso, tinha me incentivado, com entusiasmo genuíno, a conversar com Maria Orlanda Pinassi, cuja produção intelectual é profundamente influenciada por Lukács, entre outros, e por quem ele nutria enorme admiração. Ela também foi uma das pouquíssimas pessoas a quem eu o ouvi se referir abertamente como amiga.
Ele também me apoiou sem hesitar quando decidi viajar ao exterior por seis meses, em 2007, para aprender inglês, na tentativa de alcançar rapidamente o nível dos meus colegas, que quase todos falavam uma segunda língua. E quando, em 2010, contei que queria voltar ao Brasil, ele foi categórico: “Não. As coisas no Brasil estão tomando um rumo muito ruim. Não é o momento de voltar. Faça seu doutorado aí (Inglaterra)”. Ele estava absolutamente convicto de que eu não deveria retornar, certo de que o Brasil caminhava para um declínio econômico e político. Insistia que não haveria nada no Brasil para mim. Hoje me pergunto: “como ele sabia que o país estava prestes a entrar em um dos períodos mais difíceis de sua história moderna?”
Ele era humilde. Simples. Vinda de São Carlos, uma cidade universitária, minha imagem de professores era moldada por aqueles que viviam em casas luxuosas, em bairros ricos, arrogantes, distantes, superiores. Mas nunca foi assim com Miglioli ou com sua família, que passei a conhecer bem. A casa dele parecia uma mistura de casa de praia despretensiosa com um bangalô dos anos 1960. Nada de luxo, nada de etiqueta. Apenas aconchego. Seu escritório/biblioteca, a primeira biblioteca particular em que entrei na vida, não era nada intimidadora, apesar de ter o que parecia ser zilhões de livros. Era simples, bagunçada no seu próprio modo organizado. Acolhedora. Aconchegante. O tipo de espaço que faz você querer se sentar, ler e ficar ali por horas. É o escritório/biblioteca que sonho ter um dia na minha própria casa.
Ele nunca foi cheio de si por causa do próprio passado. Nunca mencionava Kalecki a menos que alguém perguntasse. E mesmo assim, sempre começava dizendo: Kalecki era um cavalheiro. E em algum momento, ele inevitavelmente acrescentava: “Eu não era o único lá. Eu não era especial”. Acredito que, para Miglioli, era importante nos lembrar que Kalecki havia acolhido muitos brasileiros que fugiam da ditadura. Nomes como Leandro Konder surgiam de forma casual, enquanto ele relembrava o Rio de Janeiro pré‑golpe; um tempo que, em seu relato, não era apenas politicamente vibrante, mas também cheio de longos dias ensolarados na praia com amigos como Leandro! Com Nelson (Nelson Werneck Sodré) era a mesma coisa. Miglioli geralmente o mencionava ao reclamar, brincando, de quando queria dormir no escritório depois de ter saído na noite anterior, mas não conseguia porque dividia a sala com Nelson, que estava sempre lá, religiosamente, datilografando em sua escrivaninha perfeitamente organizada. Tlec‑tlec‑tlec, o dia inteiro.
Sempre que Miglioli falava sobre seu papel na fundação do que hoje é um dos mais importantes polos de economia heterodoxa do Brasil, e, sem exagero, do mundo, o Instituto de Economia da UNICAMP (originalmente o Departamento de Economia e Planejamento Econômico, DEPE), suas palavras vinham muitas vezes marcadas por uma certa decepção. Era possível ouvir em sua voz tanto a esperança que um dia teve quanto a profunda e dolorosa desilusão com aquilo que o Instituto, e a Economia de modo mais amplo, estavam se tornando. Ainda assim, ele se iluminava sempre que o visitávamos o Instituto. Velhos amigos, administrativos e acadêmicos, o abraçavam com afeto, e logo começavam a surgir histórias, atualizações sobre a família e muitas risadas. Especialmente quando encontrava Wilson Cano (aqueles dois podiam conversar por horas; sério, sem exagero!). Essa reação mista surgia também quando Caio Navarro de Toledo, um amigo que, segundo Miglioli, “nunca o esquecia”, telefonava. Da conversa, sempre emergia uma frustração, uma tristeza quase resignada, ligada à sensação de que eles estavam discutindo as mesmas questões de décadas antes.
Era igual quando ele falava sobre o Brasil dos anos anteriores ao golpe de 1964. A forma como descrevia a energia daquele período, a certeza da mudança, a crença na emancipação, no fim da dependência e da desigualdade. Era como se ele transmitisse, ao mesmo tempo, um sentido de vida e um sentido de perda. O impacto de um sonho desfeito era muito visível. Recentemente, ao revisitar a obra de Celso Furtado e ao ler Celso Furtado, correspondência intelectual: 1949–2004, de Rosa Freire D’Aguiar, notei em Furtado, pela primeira vez, o mesmo sentimento pungente e derrotado que sempre esteve presente em Miglioli. Só posso imaginar o que deve ter sido: estar à beira de uma mudança real, acreditar que o Brasil poderia se tornar uma nação desenvolvida e independente, e, então, enfrentar um golpe de Estado, ir para o exílio e, anos depois, voltar apenas para perceber que não era possível retomar o caminho interrompido. Pior ainda: testemunhar a “corrupção de amigos e camaradas”. Miglioli falava disso com frequência, especialmente quando refletia sobre José Serra. Ainda assim, quando seu amigo Tamás Szmrecsányi morreu em 2009, aquela voz sempre tomada por derrota e desalento suavizou. Para Miglioli, a integridade acadêmica e política de Tamás contrastava profundamente com a desilusão que ele sentia em tantos outros lugares.
As histórias que ele contava sobre o que parecia ser um “mágico” tempo vivido no Rio de Janeiro vinham sempre acompanhadas de um carinho imenso pela mãe. Muitas vezes, Miglioli relembrava o episódio em que, tomada pelo medo à medida que os rumores do golpe se espalhavam, ela queimou todos os seus livros numa tentativa desesperada de protegê‑lo. Salvou apenas um, O Capital, de Karl Marx, porque achou que capital se referia a sede de governo de um país, estado ou província, e concluiu que aquele livro, entre todos, não representava ameaça alguma.
Ele amava tango, samba e filmes italianos. E me educou nos três, submetendo-me a assistir, com um entusiasmo quase pedagógico, ao que deve ter sido cada filme já produzido por Vittorio De Sica. Mas, mais do que isso, ele me ajudou, indiretamente e sem perceber, a reconstruir minha relação com a minha mãe. Por duas razões: o profundo amor e admiração que nutria pela própria mãe e os desafios que enfrentou como pai, desafios que, de forma surpreendente, espelhavam os meus com a minha própria mãe. Com ele, eu finalmente consegui enxergar o outro lado.
Sempre que eu visitava o Brasil e conseguia ver o Miglioli, eu saía com uma dor pesada no peito, pensando que talvez fosse a última vez. E quando o filho dele, Rafael, me disse que ele já não se lembrava mais de mim, aquela mesma dor voltou de repente. Mas hoje, a sensação é diferente. Não é apenas a dor da despedida, é a sensação de que uma luz que eu nem percebia que estava acesa foi apagada. A ausência dele deixa um silêncio que é ao mesmo tempo pessoal e coletivo.
Descanse em poder, Miglioli.
Miglioli faleceu pacificamente em casa na manhã de domingo, 24 de agosto de 2025, aos 89 anos. Deixou dois filhos, Rafael e Daniel, e uma filha, Aline.
[2] A macroeconomia dominante do pós‑guerra foi amplamente estruturada em torno da chamada síntese neoclássica e, mais tarde, dos seus desdobramentos formais nos modelos de equilíbrio geral dinâmico e estocástico (DSGE). Desde o esquema IS–LM, passando pela sua reinterpretação moderna (IS–MP), até à consolidação dos DSGE como paradigma hegemónico, o objetivo central foi integrar a instabilidade keynesiana num arcabouço analítico compatível com microfundamentos neoclássicos, expectativas racionais e a tendência ao equilíbrio.
Bibliografia
Alves, C. (2022.) ‘Joan Robinson on Karl Marx: "His Sense of Reality Is Far Stronger".’ Journal of Economic Perspectives 36 (2): 247–64.
D'Aguia, R. F. (2021) Celso Furtado, Correspondência intelectual: 1949-2004. São Paulo: Companhia das Letras.
Miglioli, J. 2004 [1981] Acumulação de Capital e Demanda Efetiva. 2nd Edition. São Paulo: Hucitec.
Miglioli, J. (1982) Introdução ao planejamento econômico. São Paulo: Editora Brasiliense.
Miglioli, J. (1962) Como são feitas as greves no Brasil? Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira.
Miglioli, J. (2007) ‘Schumpeter e o perecimento do capitalismo e da burguesia’. Estudos de Sociologia, v. 7, n. 12.
Robinson, J. (1966) [1942] An Essay in Marxian Economics. 2nd ed. New York: Macmillan, St Martin’s Press.
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