Apoiado por poderosos movimentos da classe trabalhadora e camponesa, bem como por governos de esquerda que estiveram no poder intermitentemente, o movimento de cooperativas de Kerala deu origem a milhares de cooperativas, cada uma delas uma incubadora de futuros possíveis para além do capitalismo.
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Instituto Tricontinental de Pesquisa Social em colaboração com o Centro de Pesquisa UL (Uralungal Labour Contract Cooperative Society)
A arte deste estudo foi produzida por integrantes da Young Socialist Artists (YSA). Desde 2020, esse grupo reúne artistas e trabalhadores culturais de toda a Índia, inseridos em movimentos sociais e políticos em suas regiões. A maioria dos membros da YSA que criou as ilustrações para este estudo é originária de Kerala, onde vivem, e onde essas cooperativas fazem parte do cotidiano. As ilustrações são baseadas em fotografias tiradas pelos pesquisadores que produziram este texto durante suas visitas de campo.
Ashique Ali Thuppilikkat é cofundador e diretor da Fundação SAFAR, um centro de pesquisa-ação com sede em Bengala Ocidental, na Índia. Ele participou ativamente do movimento estudantil na Universidade de Delhi e na Universidade Jawaharlal Nehru, onde pesquisou cooperativismo durante seu mestrado em ciência política. Atualmente, Ashique é estudante de doutorado na Universidade de Toronto, no Canadá, e pesquisador no STREET Lab. Sua pesquisa se concentra em projetos sociotécnicos de resistência, explorando a intersecção entre tecnologia e organização de movimentos sociais/trabalhistas.
Aswathi Rebecca Asok é economista do desenvolvimento e formada em direito, com experiência em pesquisa interdisciplinar, baseada em evidências e orientada para políticas públicas. Ao longo dos últimos nove anos, Aswathi realizou uma extensa pesquisa sobre a trajetória de desenvolvimento de Kerala e explorou uma série de temas, como inclusão financeira, pobreza, gênero, migração, trabalho e descentralização. Ela foi uma ativista estudantil em diversas universidades e campi na Índia.
Najeeb VR é cientista social e coordenador de pesquisa no Centro de Pesquisa da UL em Kozhikode, Kerala, onde integra abordagens transdisciplinares ao desenvolvimento cooperativo, à transformação social e aos sistemas de conhecimento. Ele também é membro do comitê de especialistas do Subgrupo do 14º Plano Quinquenal do Conselho de Planejamento do Estado de Kerala e contribui ativamente para a divulgação acadêmica, o desenvolvimento curricular e a pesquisa pública. É doutor em sociologia pela Universidade Jawaharlal Nehru e é bolsista do programa Revise PhD Fellowship do Conselho de Pesquisa Histórica de Kerala.
Vijoo Krishnan é secretário-geral da All India Kisan Sabha (AIKS) e membro do comitê político do Partido Comunista da Índia (Marxista). Como líder da AIKS, desempenhou um papel crucial na histórica mobilização dos agricultores em Delhi, em 2021-2022. Antes de se tornar um ativista político em tempo integral, era chefe do Departamento de Ciência Política do St. Joseph’s College, em Bangalore. Entre 1998 e 1999, foi presidente da União dos Estudantes da Universidade Jawaharlal Nehru. Vijoo também é fotógrafo e retrata o cotidiano da classe trabalhadora.
Nidheesh J Villatt é membro do Comitê Central de Agricultores da All India Kisan Sabha e coordenador de pesquisa do P Sundarayya Memorial Trust, um instituto de pesquisa que se concentra em questões agrárias e movimentos do campo. Nidheesh dedica-se ao estudo e à construção da aliança operário-camponesa, com foco em economia política e filosofia. Ele escreveu sobre lutas de classes agrárias e industriais, “competição” no capitalismo, ecologia política e Hindutva.
Nitheesh Narayanan é pesquisador de movimentos, escritor e trabalha no Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Estuda a história dos movimentos da classe trabalhadora, incluindo as cooperativas, e foi vice-presidente da Federação Estudantil da Índia e editor do jornal Student Struggle. É doutor pela Universidade Jawaharlal Nehru. Ele é autor de vários livros em inglês e malaiala, incluindo A Rebelião de 1921 em Malabar: Uma coletânea de escritos comunistas, editada com Vijay Prashad, e Se a humanidade é um país: dias cubanos.
Sarga TK é professora assistente na Universidade Azim Premji, em Bhopal. Sua pesquisa aborda temas como mobilidade urbana, migração laboral e cooperativas de construção, explorando como o trabalho e o deslocamento moldam a paisagem urbana. Sarga também já lecionou na Universidade de Kannur, em Kerala.
Subin Dennis é economista e pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Antes de ingressar no Tricontinental, trabalhou como correspondente no portal de notícias online NewsClick. Subin também fez parte do movimento estudantil e atuou como vice-presidente estadual de Delhi da Federação Estudantil da Índia. Os escritos de Subin em inglês e malaiala sobre assuntos relacionados à economia e à política aparecem em diversos periódicos e sites. Atualmente, reside em Kerala.
Vijay Prashad é diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Ele é autor de quarenta livros, incluindo Uma história popular do Terceiro Mundo, The Poorer Nations: A Possible History of Global South, e (com Grieve Chelwa) How the International Monetary Fund Suffocates Africa. Vijay é editor da LeftWord Books (Nova Delhi), Inkani Books (Joanesburgo) e La Trocha (Santiago).
Introdução: Comunismo possível
Mas ainda estava por vir uma vitória ainda maior da economia política do trabalho sobre a economia política da propriedade. Falamos do movimento cooperativo, especialmente das fábricas cooperativas erguidas pelos esforços independentes de algumas poucas “mãos” ousadas. O valor dessas grandes experiências sociais não pode ser subestimado. Por meio de fatos, e não de argumentos, demonstraram que a produção em larga escala, e em consonância com os preceitos da ciência moderna, pode ser realizada sem a existência de uma classe de mestres que emprega uma classe de trabalhadores; que, para dar frutos, os meios de trabalho não precisam ser monopolizados como forma de domínio e extorsão contra o próprio trabalhador; e que, assim como o trabalho escravo e o trabalho servil, o trabalho assalariado é apenas uma forma transitória e inferior, destinada a desaparecer diante do trabalho associativo, realizado com boa vontade, mente preparada e coração alegre.
– Karl Marx, Discurso de posse da Associação Internacional dos Trabalhadores, 1864.
A miséria saúda o planeta. A pobreza persiste para bilhões de pessoas em todo o mundo. As mudanças climáticas – produto do expansionismo capitalista – ameaçam a sobrevivência da vida na Terra. Guerras de enormes proporções se alastram pelo globo em inúmeras formas, incluindo o genocídio contra os palestinos em Gaza promovido por Israel, enquanto fomes provocadas pelo comportamento humano assolam vastas áreas da população. É como se os cinco cavaleiros do apocalipse já não fossem suficientes – em vez disso, inúmeros cavaleiros percorrem o planeta sufocando as possibilidades da vida humana.
Tudo isso contribui para a sensação de que nada além desse pesadelo é possível, que alternativas não podem ser imaginadas. Quando pessoas resilientes ousam pensar em um futuro melhor, como inevitavelmente acontece, aqueles que detêm o poder as recebem com escárnio e se esforçam para sufocá-las. É melhor para os poderosos e os proprietários de terras garantir que nenhuma alternativa floresça. A sobrevivência de um único resquício de esperança colocaria em xeque a afirmação de que a História chegou ao fim.
Um desses núcleos é o estado indiano de Kerala (com uma população de 35 milhões), que possui uma rica história de construção socialista. Dez anos após a Índia conquistar sua independência em 1947, o Partido Comunista da Índia venceu as eleições estaduais em Kerala. Desde o início, o governo de esquerda em Kerala adotou uma agenda para destruir hierarquias e costumes sociais ancestrais, fornecer bens sociais que não estavam prontamente disponíveis à população no resto da Índia (incluindo educação pública de qualidade, saúde e transporte) e construir as bases do poder da classe trabalhadora e dos camponeses, defendendo o direito dos trabalhadores de se organizarem em sindicatos e criarem cooperativas. Embora o governo nacional em Délhi tenha destituído inconstitucionalmente o governo estadual comunista de Kerala em 1959, a agenda estabelecida pela esquerda permaneceu em grande parte inalterada. A esquerda retornou ao poder periodicamente (1967-1969, 1980-1981, 1987-1991, 1996-2001, 2006-2011 e 2016-presente), expandindo a cada vez a agenda de descentralização, incentivando a ação pública e construindo as bases para instituições estatais social-democratas.1 Mesmo quando a direita chegou ao poder nos anos seguintes, não conseguiu minar a dinâmica que havia sido iniciada pelos governos de esquerda. Foi nesse contexto que o movimento cooperativo se desenvolveu em Kerala.
As pessoas que criticam o sistema capitalista costumam ser igualmente críticas das alternativas que estão sendo construídas dentro dos parâmetros desse sistema, pois argumentam que tais instituições são reféns da lógica do capitalismo. Mas essa é uma avaliação falha das cooperativas, que são, na verdade, incubadoras de diferentes lógicas de vida e trabalho, servindo como faróis de inspiração e esperança, oferecendo uma janela para o que a humanidade é capaz de fazer quando os grilhões do capitalismo são transcendidos. As cooperativas oferecem escolas para a classe trabalhadora e o campesinato, ensinando-os a construir relações sociais baseadas em uma base econômica diferente. Em seu terceiro volume de O Capital, Marx escreveu:
As fábricas cooperativas dos próprios trabalhadores representam, dentro da forma antiga, os primeiros brotos da nova, embora naturalmente reproduzam, e devam reproduzir, em toda a sua organização real, todas as deficiências do sistema vigente. Mas a antítese entre capital e trabalho é superada dentro deles, ainda que inicialmente apenas através da transformação dos trabalhadores associados em seus próprios capitalistas, ou seja, permitindo-lhes usar os meios de produção para o emprego de seu próprio trabalho. Eles mostram como um novo modo de produção surge naturalmente de um antigo, quando o desenvolvimento das forças materiais de produção e das formas correspondentes de produção social atingem um determinado estágio (Marx, 2010, p. 440).
A percepção de Marx aqui é crucial. As cooperativas não estão inerentemente presas à lei capitalista do valor, nem são capazes de transcendê-la facilmente. São “brotos”, escreve ele, de uma alternativa através da qual a classe trabalhadora pode experimentar a anulação da gestão capitalista. Marx observava com grande orgulho a utopia operária que estava sendo construída na Comuna de Paris de 1871, em que viu como os comunardos desenvolveram cooperativas operárias e outros meios de construir uma nova sociedade frente à euforia da queda do Segundo Império de Luís Napoleão III (1852-1870).2 Em A Guerra Civil na França, Marx escreveu que, durante os dois meses de existência da comuna, de março a maio de 1871, ela foi a “forma finalmente descoberta” para o futuro Estado operário. Foi nesse texto que Marx escreveu sobre as ideias das cooperativas:
Se a produção cooperativa não deve permanecer uma farsa e uma armadilha; se deve suplantar o sistema capitalista; se as cooperativas unidas devem regular a produção nacional segundo um plano comum, assumindo assim o seu controle e pondo fim à anarquia constante e às convulsões periódicas que são a fatalidade da produção capitalista – o que mais, senhores, seria senão o comunismo, o comunismo “possível”? (Marx, 1986, p. 335).
O presente estudo, O movimento de cooperativas no estado de Kerala, na Índia, faz parte de uma série do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social denominado “Socialismo em construção”. Trata-se do comunismo possível, das possibilidades que temos em nosso tempo para uma sociedade futura. Esta pesquisa, uma avaliação honesta de uma empreitada heroica, mostra que as cooperativas de Kerala não só conseguiram sobreviver em um nicho pequeno, como também crescer e se tornar instituições substanciais que se integraram à vida social da região. Atualmente, existem 16.429 cooperativas registradas em Kerala (das quais 12.278 estão ativas, 3.354 estão inativas e 797 estão prestes a encerrar suas atividades) (Governo de Kerala, 2025). As cooperativas atuam em uma ampla gama de setores, desde a produção e distribuição de bens e serviços até hospitais e restaurantes, passando pela produção agrícola e construção de moradias. A maior cooperativa (embora não esteja estritamente registrada como tal), a Kudumbashree, possui 4,8 milhões de integrantes, todas mulheres. Uma em cada quatro mulheres em Kerala está nesta cooperativa. Existem também muitas organizações semelhantes a cooperativas que estão registradas como sociedades e fundações de caridade, como a Brahmagiri Development Society, com foco no desenvolvimento agrário, e a Janatha Charitable Society, uma importante produtora de leite. A maioria das cooperativas ativas possui filiais em diferentes partes do estado.
Existem, naturalmente, desafios e contradições, e estes são discutidos com clareza: não faz sentido exagerar as possibilidades apresentadas pelas cooperativas que precisam lutar para sobreviver em um mundo em que a lei capitalista do valor é a lei vigente. Também não faz sentido minimizar as importantes contribuições dessas cooperativas para as pessoas que vivem em Kerala, tanto em termos materiais quanto espirituais. Essas cooperativas não são meramente uma fonte de inspiração: elas fornecem um modelo para cooperativas em todo o mundo, como sementes de um futuro justo que existem dentro dos limites do capitalismo atual

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