Prabhat Patnaik [*]

A única área da vida social que o neofascismo procura destruir de forma específica, obstinada e descarada é a educação. Não se trata apenas de ignorar a educação, ou de a privatizar e privá-la de fundos públicos; trata-se de uma destruição deliberada e intencional.
A atitude do neofascismo a este respeito é diametralmente oposta à da Esquerda, especialmente dos comunistas. O país está repleto de inúmeras instituições de ensino fundadas originalmente por líderes comunistas. Havia uma crença sincera entre os comunistas pioneiros de que, se as pessoas fossem educadas, seriam quase naturalmente atraídas para o comunismo, que era visto como a expressão máxima da consciência social. Esta crença, aliada à convicção de que, para apreciar o comunismo, era necessário compreender não só a sociedade burguesa, mas também a teoria burguesa, traduziu-se numa paixão geral pela educação (e não apenas numa promoção sectária da própria ideologia). Esta paixão pela educação em geral distinguiu os comunistas da maioria dos outros durante a luta anticolonial.
A atitude fascista e neofascista é exatamente o oposto disto. O fascismo e o neofascismo diferem de outros movimentos de direita por possuírem uma "teoria" própria. Esta "teoria", que serve de base para a "alterização" ("othering") de alguma minoria infeliz e para o fomento do ódio contra ela por parte da maioria, deriva das declarações de alguns dos seus próprios precursores, mas não é sustentada por qualquer evidência. Na verdade, os fascistas e neofascistas abominam qualquer tipo de evidência. Agarram-se à sua "teoria" perniciosa precisamente ao rejeitar todas as provas e ao fecharem as suas mentes a qualquer investigação científica autêntica, que deve basear-se na procura e interpretação de provas. As instituições de ensino, cuja razão de ser consiste em serem espaços de investigação científica, representam, portanto, um perigo para a "teoria" dos fascistas e, consequentemente, uma ameaça à ideologia do fascismo e do neofascismo; são vistas pelos fascistas não apenas com desconfiança, mas com hostilidade declarada.
O ataque à educação no período atual provém, portanto, de duas fontes: há o já conhecido ataque neoliberal, que, ao impor "austeridade" ao governo e forçar a privatização e, consequentemente, a mercantilização da educação, a transforma de uma atividade de investigação crítica em, na melhor das hipóteses, uma mera aquisição de competências. Depois, há o ataque dos neofascistas, que também consideram qualquer investigação crítica como perigosa e que, além de negarem a educação a grandes massas da população, aceitam de bom grado a transformação da educação numa mera aquisição de certas competências, na melhor das hipóteses. A educação, ao invés de ser um meio de esclarecimento é, assim convertida numa atividade de aquisição de competências reservada apenas aos filhos da elite. Isto, como sabemos, constitui o eixo central da Nova Política Educativa do governo liderado pelo [partido] BJP.
Existe, no entanto, um estímulo subterrâneo adicional por trás da tentativa neofascista de destruir a educação, que é particularmente relevante no caso da Índia. Os neofascistas não são apenas indivíduos obstinados, mas também crédulos, que por acaso se agarram teimosamente a uma "teoria" vazia com implicações sinistras. O que é notável é que os próprios líderes neofascistas estão, em geral, cientes da vacuidade da sua "teoria"; no entanto, continuam a promovê-la como um meio de manipular os seus próprios seguidores, bem como as massas em geral, para que a aceitem. Por outras palavras, o neofascismo caracteriza-se não apenas por uma narrativa sinistra e falsa; caracteriza-se, acima de tudo, pela má-fé, pelo desejo por parte das principais lideranças neofascistas de manipular as pessoas para que aceitem essa narrativa falsa. O neofascismo não é apenas sinistro; está eternamente empenhado em "vender" essa narrativa falsa e sinistra às pessoas, sabendo que é falsa.
O segmento instruído da população não cai facilmente nesta manipulação. Muitos deles alinham-se com os neofascistas porque são coagidos a fazê-lo; muitos outros apoiam-nos devido às promessas que lhes são feitas pelos neofascistas. Outros ainda apoiam-nos por motivos de classe, devido à perspetiva e às posições de classe que os neofascistas propagam e que lhes são do agrado. Mas o sentimento geral entre eles no que diz respeito à "teoria" dos neofascistas varia entre o ceticismo absoluto e a hostilidade declarada. Mais importante ainda, a maioria deles, incluindo aqueles que apoiam as posições de classe dos neofascistas, tem consciência da sua "má-fé" e da sua condição manipulativa.
Essa "má-fé" e manipulação suscitam, entre grandes segmentos da população instruída, um sentimento de repulsa em relação aos neofascistas, quer isso seja explicitamente articulado ou não; e os neofascistas estão bem conscientes disso. Por outras palavras, os segmentos instruídos da população estão conscientes da elaborada farsa encenada pelos neofascistas, uma farsa que não tem qualquer pretensão de verosimilhança; e os principais líderes neofascistas estão cientes de que esses segmentos instruídos percebem a sua má-fé. Isto faz com que os neofascistas tenham um complexo de inferioridade em relação aos segmentos instruídos da população.
A insegurança pessoal, o complexo de inferioridade, da liderança do Hindutva face aos elementos instruídos é um fenómeno palpável, mas significativo, na Índia. O contraste que isto apresenta com a adulação geral ao "líder" entre outros segmentos da população torna-se particularmente irritante para os escalões neofascistas de topo.
A imensa hostilidade dos principais elementos do Hindutva para com os segmentos instruídos surge porque estes últimos percebem a sua má-fé e a sua manipulação. A raiva dos escalões dirigentes do Hindutva, especialmente do "líder", em relação a estes segmentos instruídos encontra expressão em zombarias como "bando do Khan Market" ou "bando Tukde Tukde", que utilizam para se referir aos intelectuais e aos segmentos instruídos em geral.
Há ainda outro ponto a assinalar aqui. Quanto mais distinta for a instituição de ensino, quanto mais notáveis forem os seus formandos, tanto maior é a probabilidade de estes formandos perceberem as artimanhas, a vacuidade, a "má-fé" e a manipulação dos elementos neofascistas do Hindutva. Por conseguinte, quanto mais hostis são os próprios elementos do Hindutva em relação a tais instituições, mais empenhados estão em atacá-las, pois vêem-nas como obstáculos à sua ascensão. É por isso que, paradoxalmente e de forma extremamente irónica, os neofascistas — e o governo por eles dominado — têm sido os mais assíduos a atacar precisamente as melhores instituições de ensino do país. A Universidade Jawaharlal Nehru, a Universidade de Jadavpur, a Universidade Central de Hyderabad, a Universidade de Deli, a Viswa Bharati e a Jamia Milia Islamia estão, sem dúvida, entre as melhores instituições de ensino do país, instituições das quais o país se pode orgulhar genuinamente; e são precisamente estas instituições que têm estado na linha da frente do ataque do Hindutva. Não satisfeitos com isto, os elementos do Hindutva também alargaram o seu ataque a outras instituições de destaque, que não são instituições académicas, mas onde mentes criativas também estão empenhadas no processo de análise crítica da sociedade, tais como o Instituto de Cinema de Pune e o Instituto de Estudos Cinematográficos Satyajit Ray. O caso da última instituição mencionada é particularmente chocante, uma vez que capangas do Hindutva afiliados à RSS [organização paramilitar do Hindutva] simplesmente invadiram o seu campus e começaram a espancar estudantes!
Pode pensar-se que, embora o governo do Hindutva possa estar a atacar instituições de ensino modernas, na realidade é a favor da promoção de instituições de ensino tradicionais indianas, pelo que rotulá-lo de "anti-educação" como tal é tanto incorreto como injusto. É significativo, no entanto, que durante os doze anos de governo do Hindutva, mesmo com instituições de ensino modernas e consolidadas como a JNU, a JU e a HCU a serem alvo de ataques implacáveis, nenhuma instituição que ministrasse ensino em estudos tradicionais indianos (ou disciplinas afins) e que aspirasse a destacar-se nesta área tenha sido criada ou apoiada até alcançar proeminência. Não demora muito para que uma instituição de excelência se torne conhecida: a JNU ganhou reputação internacional numa década após a sua criação. Se tivesse surgido uma instituição que promovesse os estudos tradicionais indianos, a sua reputação já se teria espalhado. Isto não aconteceu pela simples razão de que nenhuma instituição desse tipo surgiu durante o período de governo do Hindutva.
O exposto tem uma implicação importante. Cada dia que o governo do Hindutva permanecer no poder, haverá uma tentativa de levar o sistema educativo à extinção. Não se trata de "dar mais algum tempo ao governo do BJP a fim de que possa fazer algo para melhorar o sistema educativo"; o que quer que façam em relação ao sistema educativo apenas o empurrará para uma destruição ainda maior. Um indício da sua atitude em relação ao mundo das letras é o apoio condenável dado pelo Ministro-Presidente de Bengala Ocidental aos vândalos que destruíram livrarias criadas pela Frente de Esquerda perto das tendas (pandals) de Puja em todo o estado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário