quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O trabalho associado e a liberdade




Candido Giraldez VIEITEZ

Introdução

A liberdade é um sonho muito antigo dos trabalhadores , que remonta à constituição das sociedades de classes.
A história dessas sociedades pode ser compreendida a partir das lutas dos trabalhadores para conquistar a liberdade, para ampliá-la ou simplesmente para não perdê-la. E cabe notar que a massa submetida jamais se conformou com seu status, e pequenas ou grandes revoltas em busca da liberdade tem transfixado a existência das sociedades de classes, antigas ou modernas (AKAL, 1986; MACHADO, 2011).
Na baixa Idade Média as revoltas dos camponeses (ENGELS, 1971) foram indicativas da crise vindoura do regime de servidão, bem como prefiguraram as futuras lutas pela liberdade que viriam a ter um momento emblemático na Revolução Francesa (RF).
O lema dessa revolução, liberdade, igualdade e fraternidade , mantêm-se indelével em sua capacidade de evocar plasticamente a aspiração de liberdade das massas trabalhadoras. A RF culminou numa revolução burguesa (SOBOUL, 1985, p. 23). No entanto, as classes populares, que atuaram como os verdadeiros motores da revolução, defenderam um conceito de liberdade inédito por sua amplitude e radicalismo.
No tríptico simbólico da RF, a fraternidade representava o desejo de rompimento das cadeias de dependência feudais. No que diz respeito aos trabalhadores representava sua aspiração de elevarem-se à condição civil de pessoas livres e iguais, e de fato, de que todas as pessoas oprimidas indistintamente se elevassem a essa condição. Portanto, a fraternidade era a metáfora da libertação com caráter universal, a emancipação no âmbito da família, do trabalho e da política. Este ideal incluía a libertação dos escravos nas colônias e a questão étnica e das nacionalidades, e também, ao menos virtualmente, a emancipação das mulheres frente às relações patriarcais. No dizer de Domenèch (2004, p.21, t/n) a fraternidade era:
[...] a pretensão [...] de civilizar o âmbito inteiro da vida social: de erradicar o despotismo herdado da velha loi de famille – o despotismo patriarcal doméstico, não menos que o despotismo do patrão sobre o trabalhador -, e de erradicar o despotismo burocrático-estatal herdado da velha loi politique dos estados monárquicos absolutistas modernos.

Essa tradição fraternal inscreveu-se nas lutas sociais europeias desde a grande revolução. Em 1845, por exemplo, na antessala das rebeliões de 1848, Marx e Engels estavam tentando “desenvolver uma sociedade internacional de socialistas ou ‘democratas fraternos” (HUNT, 2011, p.135). E no dizer de Domenèch (2004, p.20), o socialismo político, como também o anarquismo, teve um ponto de partida na “[...] democracia republicana herdada do ideário de fraternidade jacobina”.
A luta democrático-fraternal esteve presente nos movimentos populares europeus até meados do século XIX. Porém, por volta de 1850, a onda de revoluções democráticas europeias foi derrotada em toda linha. E a partir daí, segundo Domenèch (2004, p.20), o ideário revolucionário fraternal foi eclipsado com a consequência de que, “ao que parece, seu mais legítimo herdeiro, o movimento operário de inspiração socialista pouco se lembrou dele, salvo em momentos de particular e às vezes enigmático simbolismo”.
Se o ideal da fraternidade entrou em eclipse depois de 1850, após a II Guerra Mundial é o próprio ideário de liberdade e igualdade que se obscurece no movimento dos trabalhadores (MT).
Durante todo o período compreendido entre o término da II Guerra e o fim do século passado, que inclui o capitalismo do welfare, o socialismo histórico, e mais recentemente o capitalismo neoliberal, os trabalhadores continuaram a desenvolver suas lutas com maior ou menor intensidade e amplitude (SILVER, 2003). Contudo, essas lutas, muitas vezes de grande impacto social, em sua maior parte não foram realizadas sob a bandeira da liberdade. Isto certamente não ocorreu em termos literais, uma vez que a liberdade deixou de funcionar como consigna. Porém, tampouco ocorreu de modo substantivo, pois, no MT, a aspiração a superar o jugo do capital foi preterida em troca de ganhos econômicos imediatos.
O paradoxal nessa evolução é que enquanto a liberdade foi relegada pelo MT à ordem das calendas gregas, a burguesia deu continuidade à sua recorrente luta com os trabalhadores utilizando amplamente o seu travestido conceito de liberdade. No transcurso da Guerra Fria, os países capitalistas hegemônicos trataram de massificar a ideia de que o Ocidente era o campeão da liberdade enquanto que, o socialismo histórico, que viera à luz com a autopropalada missão de consumar a verdadeira liberdade para os trabalhadores, não passaria de um regime social despótico ou totalitário.
No segmento histórico subsequente, em vista do desaparecimento da URSS, a liberdade liberal esgrimida contra o supositício totalitarismo comunista perdeu algo de sua capacidade de invocação, o que induziu a burguesia a deslocar a ênfase de sua invectiva, transmudando a defesa da liberdade em defesa dos direitos humanos e da democracia. Com esta inflexão, os inimigos da liberdade passavam a ser agora o MT, os terroristas, e também os rogue states, ou seja, os estados que os centros imperialistas consideram malfeitores, pouco significando que estes sejam socialistas, remanescentes do socialismo ou capitalistas.
De fato, o mais paradoxal em todo esse desenvolvimento não é que a classe dominante tenha defendido o que ela entende por liberdade. O mais paradoxal é que a parte mais significativa do MT e de suas organizações, como sindicatos e partidos, por exemplo, tenha se deixado seduzir pela liberdade liberal, vindo a acreditar inclusive que essa concepção não é simplesmente uma característica do capitalismo, mas sim um valor universal (LIRIA; ZAHONERO, 2010).
Como foi possível que um regime social despótico como o liberal capitalista, herdeiro do absolutismo monárquico (BROWN, 2009), pudesse apresentar-se com sucesso perante as massas populares e suas organizações como o paladino da liberdade? A resposta depende do que entendemos por liberdade e de muitas outras determinações, não cabendo nestas linhas. Porém, convém assinalar que o fato do MT ter praticamente abdicado da luta pela emancipação certamente deu sua contribuição ao fenômeno .
A derrocada da URSS significou grande desmoralização não só para os socialistas como também para o MT. O regime capitalista na fase do neoliberalismo, ao se livrar de seu antagonista geopolítico, despontou vitorioso em âmbito planetário. A hegemonia neoliberal tornou-se tão avassaladora que os seus ideólogos falaram em fim da história, fim das classes sociais, fim da luta de classes, dentre outras categorias que teriam chegado ao fim, e o pensamento liberal pôde aparecer como sendo o único realmente válido.
Contudo, a partir de fins do século passado, o movimento operário e popular (MOP) na América Latina reavivou-se energicamente em muitos países, evidenciando que essas análises apolegéticas foram apressadas. Recentemente as movimentações dos trabalhadores brotaram em lugares tão inesperados como o norte da África, o Oriente Médio, a China e os próprios países metropolitanos.
No entanto, até o presente, a América Latina continua sendo um dos laboratórios sociais mais interessantes. Vários desses movimentos, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Brasil, o bolivariano na Venezuela, o Movimiento al Socialismo na Bolívia, o zapatista no México, dentre outros, abriram uma pequena janela da qual se pode vislumbrar a possibilidade de que a luta pela liberdade real dos trabalhadores venha a integrar o proscênio histórico.
Neste texto defendemos que o trabalho associado (TA), também aflorado nessa dobradura do tempo latino-americano, é parte dessa possibilidade. Procuramos mostrar que o TA, ao se constituir real ou potencialmente nas unidades de trabalho, ao instaurar uma ruptura ainda que fragmentária e virtual nesse lócus, aponta para a liberdade ou emancipação dos trabalhadores. Porém, também indicamos a problematicidade do TA sob o domínio capitalista, o que nos leva a sustentar que: 1) suas possibilidades de desempenhar um papel relevante no processo de emancipação dos trabalhadores, antes de serem econômicas como pode parecer, são predominantemente políticas; 2) a base de sua possível generalização é a propriedade social, o que demanda a perspectiva do socialismo.
A liberdade dos antigos e modernos: a propriedade privada como fundamento da liberdade

Na sociedade primitiva e igualitária, a comunidade zelava por sua liberdade exercendo uma atividade de vigilância constante para que não surgissem desigualdades sociais, o que se dava em virtude de sua condição objetiva de sociedade sem classes (CLASTRES, 2003; GRAEBER, 2001). Nesse tipo de sociedade, a questão da liberdade apresentava-se primordialmente no âmbito das relações com outras comunidades (MAUSS, 2001; MANN, 2006).
A problemática da liberdade parece ter se constituído plenamente na história somente a partir do momento em que amplos contingentes de trabalhadores ou mesmo a maioria deles, foram submetidos a algum tipo recorrente de servidão. Esse momento corresponde à desintegração das sociedades comunitárias e da concomitante formação das sociedades de classes (ENGELS, 1968; LINERA, 2009). Essa metamorfose implicou mudanças radicais no conjunto da vida social. Dentre essas sobreleva o fato de que a apropriação comunitária se transmudou em propriedade privada como base da ordem social. A propriedade privada como fundamento sobre o qual se obtém os meios de vida transfixa a história das sociedades de classes, ainda que com as peculiaridades correspondentes às diversas formações sociais.
A formação de classes sociais precipita uma dialética da liberdade, tanto no plano prático quanto reflexivo. Esta é a razão pela qual na Grécia Antiga encontramos Aristóteles (1977) tratando de explicar porque eram livres os homens livres, bem como porque os escravos deveriam seguir como estavam.
A Grécia e Roma antigas eram sociedades escravistas (AKAL, 1986). Sobre a base escravista soerguiam-se vários segmentos de homens livres que compreendiam tanto os que viviam da exploração do trabalho alheio, quanto os que viviam do seu próprio trabalho (WOOD, 2003). A liberdade, porém, encontrava-se inextricavelmente jungida ao domínio da propriedade privada.
Os escravos, naturalmente, eram tão desfavorecidos em virtudes, segundo Aristóteles (1977), que por definição se encontravam fora da sociedade civil ou política. Mas, os homens livres pobres, aqueles que tinham a posse ou a propriedade de uma pequena parcela de terra e que ganhavam a vida basicamente com o próprio trabalho, também estavam sujeitos às peripécias dos poderosos, e se encontravam em risco mais ou menos permanente de caírem sob alguma forma de servidão. A democracia na Grécia e a república em Roma, formas políticas transitórias nas trajetórias dessas formações sociais constituíam o apanágio dos homens livres (proprietários). E, em boa parte esses regimes políticos resultaram da luta dos pequenos proprietários trabalhadores para garantir um ambiente social favorável à reprodução de sua condição.
Na Idade Média não havia trabalhadores livres e autônomos, porque todos se encontravam presos numa teia de dependências pessoais em relação aos senhores militares ou eclesiásticos. Ainda assim, segundo Kula (1974), a propriedade ou a posse da terra ou meios de produção, propiciava aos trabalhadores - enquanto produtores – liberdades reais relativas à organização do trabalho, à apropriação do excedente econômico, e à administração do tempo, dentre outras.
A propriedade constituía a base da liberdade preconizada pelo setor democrático popular da Revolução Francesa. Rousseau (1995) e Robespierre (1999), para mencionar dois expoentes implicados na revolução, entendiam que a pequena propriedade, especialmente a agrária, deveria ser generalizada para constituir a base da república democrática, pois, na concepção deles, não pode existir nenhuma democracia real se os trabalhadores não têm garantidos os seus meios de subsistência. Esta posição, embora utópica em última análise, não era destituída de suporte empírico.
O campesinato “até o fim do século XIX formava a grande base da raça humana e o alicerce da economia” (HOBSBAWN, 2007, p.37). Portanto, no século anterior, o domínio da economia camponesa era bem mais acentuado. A divisão do trabalho ou cooperação social era ainda incipiente, não obstante o notável impulso do mercantilismo. E a propriedade ou posse da terra, como na Antiguidade, era uma instituição social capaz de propiciar uma base material de subsistência relativamente autárquica. O capitalismo industrial era imberbe e de futuro enigmático, mesmo no fim do século, quando estourou a RF. E seria necessário esperar até 1848 para que a Liga dos Comunistas, pela pena de Marx e Engels (HUNT, 2011, p. 147), mostrasse cabalmente o irrefreável desenvolvimento do capitalismo acoplado à sua tendência de expansão sem fim.
Portanto, é compreensível que enquanto o capitalismo não se tornou avassalador, os setores populares supusessem como plausíveis outras vias de evolvimento social. E neste campo das possibilidades, o trabalho familiar autônomo vinculado à pequena propriedade foi seguramente o modelo de evolução mais emblemático.
A liberdade liberal: a pseudo-universalização da propriedade privada e da liberdade
Vitoriosa no processo que envolveu tanto a luta contra a nobreza quanto a luta pela hegemonia na RF , a burguesia impôs seu conceito de liberdade, o que lhe permitiu incorporar, embora formalmente, parte do ideário radical que pressupunha a generalização da liberdade e da propriedade.
O capitalismo é provavelmente o maior liquidador de propriedade privada ou comunitária de toda a história. Esta característica aparece claramente no fenômeno da acumulação primitiva (MARX, 1972), sem a qual o próprio capitalismo não teria se constituído. Foi necessário um processo secular, em certo sentido ainda hoje não concluído (HARVEY, 2004), de absorção da pequena propriedade pelo capital para que os trabalhadores tivessem que se tornar empregados. De qualquer modo, ao menos no mundo industrializado, esse processo culminou no fato de que desde aproximadamente o terço final do século passado, os assalariados tornaram-se a maioria esmagadora da população economicamente ativa.
Não obstante essa sua característica de exterminador, o capitalismo ou liberalismo , como todos os regimes de classes anteriores, está erigido sobre a propriedade privada. Além disso, não só se apresenta como seu defensor por excelência, como também, no momento em que empolgou o poder político, realizando flexão histórica transcendental, decretou por via jurídica a universalização da propriedade privada, transformando em proprietários os assalariados reais ou virtuais. E a universalização da propriedade privada possibilitou a concomitante universalização da liberdade liberal. Domènech (2004, p. 42,43, t/n) nos oferece uma visão de como ocorreu essa flexão.
[...]a ordem civil de matriz napoleônica (ou seu equivalente funcional nos países anglosaxões) rompeu a lógica republicana do direito romano, que vinculava inextricavelmente a liberdade pessoal às instituições sociais capazes de propiciar base material à existência social autônoma e separada dos livres, gerando assim uma ilusão de liberdade geral fundada na ficção jurídica de que todos são proprietários de algo, e portanto, capazes de relações contratuais livres.

É nesse sentido que o liberalismo retém as idéias de liberdade e igualdade dos republicanos radicais. Isto ocorre, porém, contra o fato de que:
Nem o mundo antigo mediterrâneo republicano nem os revolucionários norte-americanos e franceses de fins do século XVIII teriam jamais admitido a ficção jurídica de que a propriedade da força de trabalho fosse uma propriedade de verdade, capaz de dar independência, existência social e separada – livre- a quem a possuísse. A locatio conductio operarum, o contrato assalariado de serviços, foi sempre visto pelos antigos como um contrato de escravidão temporária, indigno de homens livres.

O ponto de referência dos antigos era a escravidão clássica, enquanto sob o regime do capital os trabalhadores são livres nos termos da lei, veem-se a si como homens livres e gozam de liberdades consideráveis. Neste sentido a expressão escravidão não é adequada para exprimir a atual realidade. De qualquer modo, temos que examinar, ainda que sucintamente e cingindo-nos ao propósito deste texto, como é que a escravidão temporária dos trabalhadores assalariados pode se apresentar travestida como liberdade geral.
A liberdade dos trabalhadores no capitalismo é parte integrante do direito e da estrutura das relações jurídicas. E a relação jurídica é o tipo de relação necessária que existe entre possuidores ou traficantes de mercadorias. Essa é a razão pela qual o pensamento jurídico romano pôde servir de base ao pensamento jurídico moderno, e de fato, pôde permanecer indelével como “a ratio scripta de qualquer tipo de sociedade produtora de mercadorias” (PASUKANIS, 1976, p.68). Entretanto, só com o advento do capitalismo industrial o tráfico de mercadorias alcançou a massa crítica necessária para que a relação jurídica se desenvolvesse plenamente, o que leva Pasukanis (1976, p.73) a afirmar, parafraseando Marx, que do “[...] mesmo modo que a riqueza da sociedade capitalista reveste a forma de uma acumulação de mercadorias, também a sociedade em seu conjunto se apresenta como uma cadeia ininterrupta de relações jurídicas”.
Uma sociedade de traficantes de mercadorias tem que ser regulada por relações jurídicas, o que pressupõe a igualdade entre sujeitos autônomos ou proprietários privados livres. De fato a atividade capitalista não prescindiu no passado, assim como não prescinde agora, muito pelo contrário, de ações violentas como guerras, colonialismo, imperialismo, racismo ou ações mais ou menos apoiadas na violência, não no direito (FERRO, 2004). No entanto, é certo que a atividade capitalista regular e recorrente é realizada sobre a base de relações jurídicas. E a generalização das relações jurídicas, que pressupõe o instituto do contrato, conduz aos direitos civis (MARSHAL, 1967) ou humanos, e em outro nível, ao Estado de direito, o que se encontra enunciado por pensadores tão distintos quanto Locke (1963), Rousseau (1995) ou Brown (2009), dentre outros.
A generalização das relações jurídicas de per se não explica porque o direito criou os proprietários fictio iures como se estes fossem proprietários reais. O busílis da questão encontra-se no modo como é produzido e apropriado pela burguesia o excedente econômico resultante do trabalho social, uma vez que a apropriação privada desse excedente é a razão de ser última de qualquer classe dominante, seja esta atual ou pretérita.
A engenharia social utilizada para a produção e apropriação do excedente redundou na criação de uma forma de organização do trabalho revolucionária. Os seus elementos fundamentais, a cooperação e o locatio conductio operarum já eram conhecidos, mas a burguesia recombinou-os segundo uma fórmula original que resultou na constituição do que Marx (1972, p. 259-271) denomina trabalhador coletivo moderno. Este trabalhador coletivo não é outra coisa senão um sistema de cooperação historicamente novo em que os trabalhadores alienam para o capital a sua própria cooperação, o que faz dele um sistema de cooperação alienado (MARX, 1972)
Um aspecto crucial nesse sistema é a servidão do trabalhador. Pasukanis (1976, p. 120) afirma que “a autoridade no interior da empresa constitui um assunto privado de cada capitalista individual. A instauração de normas internas é um ato de legislação privada, ou seja, um elemento autêntico de feudalismo [..]”. E a legislação interna resulta sempre em uma rigorosa hierarquia com o patrão na condição de senhor. No entanto, embora essa servidão mais imediata se renove todos os dias, é temporária e adstrita à jornada de trabalho. E fora da unidade de trabalho, como cidadão e traficante de sua mercadoria força de trabalho, o trabalhador assalariado parece gozar de tanta liberdade quanto gozam os proprietários verdadeiros.
A situação de dependência é inseparável da exploração econômica. No escravismo a própria pessoa do trabalhador é integralmente apropriada. Em outros regimes sociais a apropriação pode ocorrer mediante a cobrança de um tributo, o que também deixa visível a transferência da riqueza de uma mão para outra. No capitalismo, o patrão tende a pagar o valor da força de trabalho. Com isto, também neste âmbito parece imperar o regime de compra e venda de mercadorias enquanto troca de equivalentes, e a apropriação do excedente ou mais-valia do trabalhador permanece oculta (CARCANHOLO, 2011).
No universo da produção de mercadorias, o que é característico ao capitalismo é o sistema de cooperação alienado, o verdadeiro rei Midas deste regime. E este sistema, diversamente do escravismo ou feudalismo, pressupõe o trabalhador como homem livre, como homem jurídico. Portanto, pressupõe o trabalhador como homem habilitado a comparecer ao mercado como traficante da mercadoria força de trabalho, aparentemente do mesmo modo como os proprietários reais comparecem como vendedores e compradores de mercadorias ao mercado em geral. Em formações sociais pretéritas estiveram presentes o intercâmbio de mercadorias e o trabalho assalariado. Porém, esses foram acontecimentos sociais variavelmente excêntricos. Somente quando, sob o capitalismo, o trabalho assalariado tornou-se a força geradora de excedente econômico dominante, a categoria proprietário fictio iures apresentou-se como um imperativo funcional da sociedade.
É certo que o despotismo que o proprietário fictio iures padece na unidade de trabalho não se coaduna com a liberdade do proprietário real. Ainda assim, o trabalhador assalariado quando adentra a unidade de trabalho, retém parte de sua liberdade, de seus direitos civis ou humanos, como o direito à vida ou à autonomia de sua pessoa, inclusive o direito ou não de vender sua força de trabalho. Além disso, o que não é menos importante, o interesse do capital na servidão assalariada diz respeito primordialmente à queima da força de trabalho no processo de trabalho. Os assuntos relativos ao vasto campo da reprodução, que interessam ao capital, porém, de modo mais mediato, como a família, a educação, a saúde, a territorizalização e a moradia, dentre outros, permanecem em parte sob a gestão privada dos próprios trabalhadores , o que contribui para a verossimilitude do sistema liberal de liberdade.
A liberdade liberal encontra-se demarcada pela produção e intercâmbio de mercadorias. O trabalhador em sua condição de vendedor de sua força de trabalho integra esse universo das mercadorias que, segundo Marx (1972, p. 38), “reveste aos olhos dos homens a forma fantasmagórica de uma relação entre objetos”, uma relação fetichista em vez de aparecer como o que realmente é, ou seja, um sistema de relações sociais demarcadas por relações jurídicas constitutivas de um sistema de direito.
Não obstante a ocultação da apropriação do excedente econômico, bem como da capacidade de sedução do sistema de liberdades, na dinâmica da vida econômica e cidadã, a artificialidade e as contradições virtualmente explosivas inerentes ao estatuto do proprietário fictio iures manifestam-se em conflitos entre o capital e o trabalho, de modo latente ou franco.
O problema é que o proprietário fictio iures, como indicamos, não é um proprietário verdadeiro. E a mercadoria que vende tampouco é uma mercadoria como qualquer outra. O proprietário verdadeiro não vende sua força de trabalho. E a mercadoria força de trabalho, diversamente de todas as demais, vai ao mercado com as próprias pernas, pensa, tem emoções e vontades, ou seja, é uma persona e não simplesmente um objeto como faz crer o mundo fantasmagórico das mercadorias.
A dialética do proprietário verdadeiro e do proprietário fictio iures desencadeia-se basicamente em torno da questão do trabalho: oferta de trabalho, condições de trabalho e remunerações. O fulcro dessa dialética reside no sistema de cooperação alienado. No entanto, pode manifestar-se neste âmbito ou no espaço mais abrangente da cidadania, no qual o trabalhador encontra-se na situação de assalariado virtual.
Como observamos, o capital tende a pagar o equivalente ao valor da força de trabalho. Porém, de fato isto só se realiza como curva oscilante, como média histórica. Mais decisivo que isto é o fato de que não é possível calcular aritmeticamente o valor da força deste trabalho. E o valor desta termina por ser mais imediatamente o resultado do confronto entre o cálculo subjetivo do capital e o cálculo subjetivo dos trabalhadores.
No entanto como a massa e a taxa de mais valia dependem em boa parte do valor que se paga à força de trabalho, a tendência do capital é manter esse valor no patamar mais baixo possível. Também as condições de trabalho, como a jornada e os ritmos, por exemplo, podem ser insatisfatórias para os trabalhadores. E se o mercado de trabalho encontra-se em situação adversa, com escassez ou inexistência da oferta de empregos, por exemplo, o imbróglio pode ser ainda maior. O resultado histórico é que os trabalhadores se organizam em associações, sindicatos, conselhos de fábrica, etc., e tratam de fazer com que a balança se incline a seu favor. As ações usualmente encetadas com esse objetivo são assaz conhecidas: paralisações, greves, ocupações de unidades de trabalho, manifestações públicas, marchas, protestos, etc.
A liberdade liberal, demarcada no contexto de um pressuposto contrato social, opera exclusivamente no âmbito deste quadro. Os proprietários das unidades de trabalho esperam e exigem que os assalariados cumpram o contrato de trabalho, de modo que a queima da força de trabalho se realize tão naturalmente quanto se realiza naturalmente o consumo de uma máquina ou uma matéria prima. Mutatis mutandis, ocorre o mesmo na esfera alargada da cidadania ou do mercado de trabalho. Em qualquer dessas instâncias, ações contestatárias dos trabalhadores como as enumeradas acima, são explícita ou imanentemente adversas à lógica inerente das relações jurídicas, e tornam-se objeto imediato de repressão ou disciplinamento por parte do patronato ou do Estado.
Em situações desse tipo, o Estado burguês, expressão coletiva despersonalizada e pública dos verdadeiros proprietários (PASUKANIS, 1976), intervém com seus aparatos de controle social. Porém, nessa intervenção, o que sobreleva não é sua feição de Estado de direito, senão o seu anverso de Estado de exceção (PASUKANIS, 1976; BROWN, 2002; AGAMBEN, 2007) . Como resultado, o Estado retira dos trabalhadores, em termos macro ou micro políticos, formal ou informalmente, e variavelmente segundo as circunstâncias, direitos civis ou políticos importantes ou fundamentais. O mais dramático dessa amputação é naturalmente a suspensão do direito de segurança, ou seja, o garante da vida das pessoas. Este fenômeno se manifesta em acontecimentos dos mais díspares: a criminalização dos movimentos sociais, a presença ostensiva da polícia em atividades reivindicativas em nome da manutenção da ordem pública, os espancamentos dos grevistas ou dos manifestantes, os ferimentos à bala ou mortes supostamente decorrentes da incontrolabilidade das aglomerações de pessoas, os massacres, as guerras e inclusive os genocídios. A história do movimento operário e popular, por este ângulo, se apresenta como uma história de violência da classe dominante contra a classe trabalhadora e suas organizações (CAMPO DAS LETRAS, 1998).
No entanto essa intervenção do Estado de exceção na vida pública deixa em evidência que, se na vida econômica os trabalhadores inscrevem-se em relação servis, na vida política encontram-se em posição de subordinação. E esta situação subalterna não é alterada pela vigência da democracia liberal representativa, a forma de regime político aparentemente menos onerosa para os trabalhadores, como prontamente estes percebem quando se encontram imersos em conflito, uma vez que, o seu legalmente declarado poder soberano, é de fato um poder que opera contra eles próprios.
O regime social liberal decreta como sendo de direito a liberdade e a igualdade de todos os homens. Os trabalhadores, em sua condição de proprietários fictio iures, contam com liberdades. Porém, entre a liberdade dos trabalhadores e a dos proprietários capitalistas há um abismo. Esta desigualdade de liberdades permeia toda a vida social, contudo, é gritante nas unidades de trabalho produtoras de mais valia e no Estado. Este se apresenta à sociedade como público ou acima das classes, e como Estado de direito. De fato é Estado de direito e Estado de exceção, e tem como função primordial realizar a luta de classes contra os trabalhadores. Ou no dizer de Brown (2009, p.32), o poder tem um centro, “mas um centro que jamais se explicita nem na economia nem no direito, e este centro – móvel – é a luta de classes. Na luta de classes, o que está efetivamente em jogo é a perpetuação ou a abolição definitiva da expropriação do trabalhador”.
O trabalho associado: a propriedade social como base da liberdade
O sistema de cooperação que emergira com a manufatura no século XVI apresentou potente impulso com o desenvolvimento do capitalismo industrial. A força de trabalho destituída de capital, em situação servil no local de trabalho, atomizada e politicamente alienada, descobriu que a associação podia ser a sua riqueza. Os trabalhadores associaram-se, portanto, com os mais diversos objetivos. Associaram-se para lutar pelo sufrágio universal e a educação autônoma como no cartismo (LOVETT; COLLINS, 184?); para lutar por melhores salários e condições de trabalho nos sindicatos; para obter produtos de consumo de qualidade e melhores preços nas cooperativas de consumo, ou, muito mais parcamente, para constituir uma nova modalidade de organização do trabalho, uma estrutura de cooperação para si numa unidade de trabalho associado (TA).
Essa modalidade de organização (VIEITEZ; DAL RI, 2001; FAJN, 2004), baseada no trabalhador coletivo, não prosperou durante o século XIX. E de fato, não obstante certo crescimento do setor, sobretudo a contar dos anos 1970, ocupa até hoje um lugar excêntrico no quadro da economia capitalista.
Esse novo tipo de trabalhador coletivo caracteriza-se pelas seguintes determinantes fundamentais: é um sistema de cooperação dos trabalhadores e para os trabalhadores; em princípio, não utiliza trabalho assalariado e; encontra-se regulado coletivamente por meio da assembleia geral dos trabalhadores num sistema de autocoordenação.
Essa configuração constitui o núcleo duro, por assim dizer, do trabalho associado. No entanto há outras variantes de cooperação que denominamos aqui de brandas. Estas formas aparecem ligadas frequentemente às cooperativas de consumo ou comercialização, às cooperativas formadas por pequenos proprietários, e às cooperativas que têm vida democrática mais formal do que real, dentre outras.
Sob essas variantes de cooperação a evolução do TA vem sendo outra. Tomemos um dado. Segundo Bertossi (2011), a ONU – Organização das Nações Unidas - “mediante a Resolução A/64/432 proclamou 2012 como ano internacional das Cooperativas”, as quais segundo esse mesmo organismo, “são responsáveis por 100 milhões de empregos em todo o planeta”.
A maior parte das cooperativas de trabalhadores utiliza trabalho associado e também trabalho assalariado. E a maioria delas possivelmente se caracteriza mais por uma modalidade de parlamentarismo democrático endógeno do que propriamente pela autocoordenação. Além disso, os organismos oficiais, quando agregam dados a respeito de cooperativas, não costumam diferenciar as cooperativas de trabalhadores das cooperativas de capitalistas. O termo emprego, portanto, não nos permite distinguir o que corresponde a cooperação entre trabalhadores e o que corresponde a cooperativas meramente formais e ou capitalistas. De qualquer modo, é fato consabido que o TA, neste sentido brando, apresenta apreciável disseminação social.
Com a instauração de um sistema de cooperação para si os trabalhadores dispensam da organização de trabalho associado (OTA) as encarnações do capital. Com isto, os trabalhadores passam a ter, em princípio, tanta liberdade quanto tem uma empresa capitalista para produzir e comerciar. Não menos notável é que, sob este regime, a força de trabalho como mercadoria fica suprimida no âmbito da empresa, uma vez que o quadro de associados tende a ser estável, e as práticas de admissão de novos associados não seguem as pautas do mercado de trabalho. Há liberdade também para modificar outros elementos da organização do trabalho. A jornada de trabalho, o ritmo de trabalho, os horários, vale dizer, as normas que ordenam a organização podem ser reconfiguradas pelos trabalhadores. Especialmente importante é a supressão total ou parcial da burocracia. Numa palavra, em termos imediatos e endógenos os trabalhadores se libertam da servidão assalariada. No entanto, em termos exógenos e dada a dominação societária do capital, as determinantes relativas à produção de mercadorias impõem-se em grande medida sobre o modus operandi do trabalhador coletivo, inclusive, no sentido de que o perigo de regressão ou reconversão está sempre presente. O problema foi enunciado por Marx (1991, p. 509) numa das parcimoniosas passagens de sua obra em que se reporta às cooperativas.
As fábricas das cooperativas de trabalhadores, no interior do regime capitalista, são a primeira ruptura da velha forma, embora naturalmente, em sua organização efetiva, por toda parte reproduzam e tenham de reproduzir todos os efeitos do sistema capitalista. Mas dentro delas suprime-se a oposição entre capital e trabalho embora ainda na forma apenas em que são os trabalhadores como associação os capitalistas deles mesmos, isto é, aplicam os meios de produção para explorar o próprio trabalho. Elas mostram como, em certo nível do desenvolvimento das forças produtivas materiais e das formas sociais de produção correspondentes, novo modo de produção naturalmente desponta e se desenvolve partindo do antigo.

Essas contradições indicadas por Marx, nessa passagem, estão presentes nas cooperativas e mutatis mutandis em todas as organizações de trabalho associado sob o regime social capitalista.
O TA apresenta-se sob diversas variantes, de sorte que este tipo de associação “aparece com diferentes finalidades, em diferentes países e em distintos momentos históricos”. Sem qualquer preocupação taxonômica distinguimos três tipos de organização do TA: econômico-corporativo, econômico-político e hegemônico (VIEITEZ; DAL RI, 2009, p. 27). Nesta caracterização esquemática consideramos as práxis dos movimentos de TA, ou seja, tanto os seus aspectos objetivos institucionais, quanto os aspectos subjetivos ou teleológicos.
Essas variantes de TA são muito diferentes e inclusive radicalmente diferentes entre si, ao menos quanto aos seus desígnios teleológicos. No entanto, compartilham uma determinante fundamental que é a conquista de relativa liberdade no local de trabalho. Este espaço de liberdade, formado por ilhotas num ambiente capitalista dominante, constitui-se em geral mediante a conquista e detença da propriedade. Muito mais raramente o TA se apresenta também sob a forma de propriedade estatal. Neste caso a problemática do TA se altera, mas de qualquer modo, a sua inserção social continua sendo sobredeterminada pelo capitalismo.
A maior parte das organizações de TA existente é de tipo econômico-corporativo, ou, melhor dizendo, que se encontra nesta condição uma vez que esta pode mudar. Estas OTAs podem surgir de uma motivação política. A maior parte delas, no entanto, se forma como uma reação espontânea dos trabalhadores à precarização do mercado de trabalho e com o propósito de conservarem ou obterem postos de trabalho. Estas OTAs podem fazer parte de alguma organização mais ampla, o que é comum; porém, se isto acontece, a relação com esta organização é usualmente mais formal do que real. Fundamentalmente, as suas ligações sociais ocorrem do mesmo modo que na empresa capitalista, ou seja, por meio do mecanismo fetichista de produção, compra e venda de mercadorias.
Estas OTAs, embora tenham se libertado da servidão assalariada no plano mais imediato do local de trabalho, encontram-se submergidas na atividade econômica mercantil, estão instituídas sobre a propriedade privada, usualmente cooperativa , e não contam com uma visão transcendente de emancipação dos trabalhadores.
Econômico-políticas são aquelas OTAs que integram uma organização mais abrangente, apresentam uma impostação política visando a emancipação dos trabalhadores do jugo capitalista e envolvem-se em ações políticas com variável amplitude e frequência. Um exemplo são as OTAS ligadas ao MST no Brasil (PERCASSI, 2011). Elas são criadas por esse movimento e encontram-se integradas a ele. Entretanto, o objeto político primacial do MST não é o TA e sim a reforma agrária.
Outro exemplo é o do Movimento da Economia Solidária (ES). A ES parte do suposto de que a liberdade capitalista não é bem a liberdade para os trabalhadores. E esta carência de liberdade está ligada ao modo como o capitalismo concebe a organização da cooperação, notadamente nas empresas. Portanto, a ES, diferentemente do TA econômico-corporativo, embora tenha como um de seus objetivos básicos a criação de postos de trabalho e renda, não se limita a isto. Em consequência, a ES caracteriza-se por uma visão política de longo prazo que é negadora do capitalismo, embora não do capital. E, no entanto, como veremos em seguida, esta é uma visão política que, paradoxalmente, está centrada na economia, não na política.
A corrente da ES com a visão teleológica mais acentuadamente utópica, no sentido de ser propugnadora de transfiguração social, defende a substituição do trabalho assalariado pelo trabalho associado. No entanto, a práxis da ES é assaz eloquente em mostrar que a tomada das empresas capitalistas ou do Estado capitalista não faz parte de seus propósitos, e muito menos faz parte deles a ideia de revolução (DAL RI; VIEITEZ, 2008). Tudo indica que o caminho preconizado está centrado na expansão ilimitada do trabalho associado a partir da criação de empreendimentos. A produção de mercadorias e o mercado não são propriamente questionados. Reconhece-se o seu potencial para engendrar desigualdades sociais, porém, supõe-se que é possível civilizar o mercado ou o universo das mercadorias, motivo pelo qual se acredita no comércio justo ou intercâmbio solidário (SINGER, 2002; BARKLIN; LEMUS, 2011).
O que denominamos aqui de vertente econômico-política de TA, é de fato composta por movimentos muito diferentes.
O MST, embora sem precisão, proclama-se socialista, e trava com a classe dominante uma denodada luta pela reforma agrária que, amiúde, cobra de suas fileiras um tributo em mortos, feridos ou encarcerados.
Outro movimento que se vale do TA, de modo inclusive peculiar, é o zapatista no México. À semelhança do que ocorre no MST, no entanto, o objeto central de sua luta não gira sobre o trabalho associado, mas sim sobre a defesa da propriedade comunal indígena (VIEITEZ; DAL RI, 2009, p. 27). .
A palavra socialista é pouco ouvida ou não é pronunciada nos meios da ES. E a ES, como mencionamos, é avessa a enfrentamentos com o capital, tendo ampla preferência pela criação de empreendimentos de TA a partir da iniciativa dos próprios trabalhadores.
Enfim, o que há realmente de compartilhado entre as várias correntes que agrupamos sob o tipo econômico-político é o fato de que a propriedade privada, embora sob a égide de um coletivo de trabalhadores, continua sendo a base da liberdade.
No entanto, cabe introduzir certa ponderação nessa assertiva. Parece-nos inequívoco o fato de que as OTAs econômico-políticas tenham no momento a sua atividade direcionada para a apropriação privada dos meios de produção. Porém, num outro quadrante histórico, este posicionamento pode mudar. E esta mudança de curso se nos afigura tanto mais possível, quanto mais estiverem os movimentos diretamente envolvidos na luta social. De fato, cremos que a articulação dos empreendimentos de TA com o MOP, ou seja, uma aliança com a classe trabalhadora assalariada, é necessária inclusive para contrabalançar as pressões capitalistas restauradoras que impactam diuturnamente as OTAs.
Passemos ao tipo hegemônico tomando como exemplo o movimento pelo controle operário (MCO) na Venezuela. A Venezuela é provavelmente o único país hoje em dia no qual o MCO tem presença significativa e é abertamente defendido por partidos e sindicatos do MOP, além de contar com um punhado de empreendimentos que já se encontram sob o controle e ou a gestão dos trabalhadores.
O MCO resgata o ideal de luta pela emancipação dos trabalhadores que, como indicamos, foi praticamente abandonado depois da II Guerra. Esse movimento situa-se em uma linhagem que, concretamente, aflorara na Comuna de Paris de 1871, e que daí em diante se colocou em paralelo com a anterior concepção democrática republicana.
Até meados do século XIX pelo menos, a luta pela liberdade identificava-se com a luta pela república democrática e o sufrágio universal, como se pode observar, por exemplo, em texto dos cartistas Lovett e Collins (184?). Esse programa era pleno de sentido para o MOP porque ele significava a superação da servidão feudal ou da dependência colonial.
Marx e Engels fizeram parte desse movimento. No entanto, tendo compreendido que a democracia liberal suprimia a servidão feudal apenas para entronizar a servidão capitalista, formularam a teoria da revolução permanente, que postula a continuidade da luta após a revolução democrática até a instauração do socialismo (TEXIER, 2005).
A Comuna de 1871, portanto, praticamente abriu a era das revoluções proletárias propriamente ditas. O enfoque e a linguagem refletiam o fato de que o capitalismo, sobretudo o industrial, na segunda metade do século XIX não só estava bastante disseminado nos países centrais, como também continuava a se expandir impetuosamente. E da Comuna em diante, ao menos para uma ala do MOP, a problemática da emancipação transmudou-se da liquidação da servidão feudal para a liquidação da servidão assalariada.
Essa nova versão da concepção de liberdade reapresentou-se em 1917 no movimento que culminou na revolução soviética. Um dos atores deste movimento revolucionário denominou-se movimento dos comitês de fábricas ou movimento pelo controle operário, envolvendo as fábricas, sobretudo.
O lema paz, terra e pão: todo o poder aos sovietes motivou e ligou o bloco de forças que atuaram na revolução. Este lema denotava a heterogeneidade da sociedade russa. O seu primeiro termo funcionou como o substrato de fundo da mobilização operária e popular e deixava à vista a aliança com o campesinato tradicional. Porém, o segundo, que foi o catalisador imediato da revolução, tinha como caixa de ressonância o proletariado urbano, caudatário das grandes aglomerações capitalistas industriais que vicejavam nas principais cidades russas. (TROTSKY, 1967).
A luta pela emancipação se apresentava nesse lema com um duplo significado. Em paz, terra e pão dominava a fórmula democrática republicana que contemplava a reforma agrária e a supressão do absolutismo e o que restava da servidão feudal. Porém, todo o poder aos sovietes era uma fórmula socialista, que partia da realidade do proletariado industrial. A revolução vacilou entre passar do Antigo Regime à república democrática ou diretamente à construção do socialismo. Tendo vencido esta última opção, impôs-se, em princípio, a república dos sovietes (BETTELHEIM, 1979).
Os sovietes eram lato senso os comitês de fábricas (CF), e estrito senso os conselhos de trabalhadores de delegados das fábricas em âmbito de cidades e de bairros, sobretudo. Ambos envolveram-se profundamente no processo de luta revolucionária, atuando como animadores e articuladores das massas em movimento. Os CF lutaram por implantar o controle operário (CO) nas fábricas, enquanto que os sovietes buscaram o controle geopolítico.
O movimento pelo controle operário (MCO) foi uma das vertentes mais importantes do movimento revolucionário. Contudo, o significado do CO para as diversas forças presentes no movimento era díspar e contraditório. Para umas, era apenas uma forma de luta. Outras o viam como uma forma de luta e uma espécie de supervisão ou controle parcial da empresa capitalista. A maioria dos anarquistas o identificava com a gestão operária e a plena autonomia das unidades de trabalho.
De fato, o movimento, em sua profunda interconexão com a revolução em curso era tumultuoso tanto prática quanto conceitualmente. No entanto, Brinton (1975) entende que o caudal principal do movimento tinha como perspectiva a gestão operária uma vez que mesmo as formas mais simples de CO prefiguravam o trabalho associado.
Essa era também a opinião dos comunistas de esquerda que acreditavam que no contexto da revolução se poderia ter passado do “[...] ‘controle operário’ à ‘gestão operária’ através da mediação de alguns organismos centrais que [regulariam] a totalidade da economia socializada” (Brinton, 1975, p. 123).
Contudo, essa não era a posição oficial do Partido Bolchevique (Lênin, 1978) durante os meses candentes da revolução, assim como nos anos subsequentes à tomada do poder, o que veio a ser determinante para a involução do movimento dos comitês de fábrica e da gestão operária.
Não obstante, todo o poder aos sovietes foi a fórmula sintagmática que expressou a aspiração dos trabalhadores à liberdade nas condições específicas de uma sociedade capitalista. Foi a fórmula que, partindo do sistema capitalista de cooperação alienado, se propunha criar um sistema de cooperação dos trabalhadores para os trabalhadores, a maioria esmagadora do povo.
Voltemos à Venezuela e ao MCO. Embora as circunstâncias sociais e políticas da Rússia de 1917 e da Venezuela atual sejam muito diferentes, há evidências de que esse movimento é herdeiro político do MCO da Revolução Russa. Ao menos, é o que se depreende de muitos dos documentos que tratam do assunto, como por exemplo, da Sistematización del Encuentro Nacional por el Control Obrero y los Consejos de Trabajadores y Trabajadoras (APORREA.ORG, 2011).
Tampouco há aqui unanimidade de visões. Isto se deve em parte ao fato de que o movimento opera sobre um terreno novo e a partir das mais diversas situações e experiências concretas. E em parte, também, devido ao fato de que nele estão presentes distintas organizações e ideologias. Portanto, podemos dizer que quanto às concepções do CO estamos em presença de uma situação heterodoxa e ainda historicamente aberta, à semelhança do verificado na Revolução Russa antes que o Estado anulasse a iniciativa do movimento.
No entanto, coincidindo com Brinton e os comunistas de esquerda referidos, consideramos que a tendência do MCO, pelo menos considerado em si mesmo, é passar do controle operário ao trabalho associado e daqui à articulação simbiôntica das unidades de trabalho com as instâncias de coordenação geral.
Duas características que cabe mencionar sobrelevam no movimento pelo estabelecimento do CO na Venezuela.1) Embora o movimento aceite circunstancialmente a formação de cooperativas, o que defende é a nacionalização das fábricas e de outros meios de produção sob controle dos trabalhadores (bajo control obrero). 2) Fundamentalmente, o movimento está interessado em conquistar e transformar radicalmente os empreendimentos capitalistas.
Nesse sentido, o MCO, sem deixar de lutar para fazer avançar o controle ou a gestão no maior número possível de fábricas ou outros estabelecimentos, é antes de tudo um movimento político de luta de classes enfrentado com o capitalismo. Ou seja, o MCO é primordialmente um movimento de luta pela emancipação dos trabalhadores, uma consigna dirigida imediatamente contra a servidão nas unidades de trabalho capitalistas e, mediatamente, contra a servidão capitalista em geral.
Cabe ainda assinalar o seguinte. As liberdades conquistadas pelos trabalhadores mediante o acesso à propriedade privada dos meios de produção, ainda que essa seja modificada sob a égide do trabalhador coletivo nas cooperativas, são muito relativas e problemáticas, sujeitas à reabsorção pelo sistema e com potencial de expansão limitado. Por outro lado, a nacionalização dos empreendimentos, ainda que em um grau de socialização superior ao inerente à propriedade privada, tampouco pode ser mais que uma fase de transição, uma vez que o Estado não deixa de ser uma expressão travestida da propriedade privada em sentido estrito ou de um sucedâneo desta em sentido lato.
Em suma, os trabalhadores só poderão ultrapassar a sociedade de classes se, superando os limites da propriedade privada, forem capazes de instaurar a propriedade social dos meios de trabalho, uma vez que esta é a premissa tanto para a consolidação de um sistema de produtores associados, quanto para a articulação não contraditória nesse sistema entre o todo e a parte, entre o centro regulador e as unidades de trabalho.

Conclusão
A sociedade capitalista parece estar se aproximando de seus limites. O planeta ficou pequeno perante a voracidade expansiva do capital. Este trata de ir em frente suprimindo ou recortando direitos que haviam sido conquistados pelos trabalhadores. Surgem novos problemas sociais, os antigos se agravam e o desemprego acena com um desastre social de amplas proporções. Contudo, o fato de ter chegado aos seus limites não significa que o capital vá dar-se por findo. A recriação pela destruição é desde sempre uma característica do capitalismo, seja por meio das crises econômicas, seja por meio de guerras.
A atual crise abre uma era de oportunidades para a ação revolucionária dos trabalhadores. Porém, isto dependerá em grande parte da vontade política, organização e clarividência da classe.
Face à grandeza do ônus decorrente das políticas neoliberais e da crise em curso o MOP volta a agitar-se em âmbito mundial, buscando resistir ao desmonte dos direitos conquistados como a educação pública e gratuita, a saúde pública, a seguridade social, etc. Assim, as organizações dos trabalhadores ou a maior parte delas, tradicionais ou novas, estão a clamar por mais democracia (parlamentar) e, sobretudo, por mais empregos (assalariados), uma vez que o trabalho é a questão mais cruciante.
Tratar de resistir ao desmonte desses direitos ou lutar para ampliá-los é imprescindível. Contudo esta ainda é uma impostação política segundo a linha da menor resistência, à qual nos referimos ao princípio deste texto. Na época dourada do capitalismo, quando este por razões estratégicas necessitou - e pôde - deixar que algo da riqueza amassada gotejasse do festim dos ricos para a mesa dos trabalhadores, esta linha política teve sucesso ao mesmo tempo em que se imobilizou no welferism. Atualmente, sob a crise estrutural do capital, quando o roubo do trabalho alheio vai se tornando cada vez mais uma base miserável para a produção da vida em sociedade, as lutas de resistência deverão tomar uma feição mais radical.
No entanto, mesmo que essa radicalização venha a ocorrer, a práxis dos trabalhadores não pode prescindir de um programa que indique a necessidade de transcender o capitalismo e de como lutar para isso. O welferism trouxe importantes benefícios para os trabalhadores, porém, deixou praticamente intactas tanto a estrutura social quanto a concepção de sociedade prevalecente entre as próprias massas populares, razão pela qual a classe dominante pode agora descartá-lo sem cerimônia. Portanto, faz-se necessária uma linha de ação que não se detenha no welferism, ou seja, que introduza um princípio de ruptura com a lógica do capital em todas as instâncias sociais..
É certo que ninguém poderá dizer precisamente como será uma sociedade socialista ou qual é a via para se chegar a ela porque isto só poderá decorrer da práxis do MOP. Porém, a classe trabalhadora conhece as determinantes principais do capitalismo que devem ser superadas para que uma nova sociedade possa formar-se a partir da transformação dos elementos presentes. Dentre essas determinantes cabe mencionar para os efeitos deste trabalho: a servidão assalariada e a anarquia inerente à produção de mercadorias.
A superação do trabalho assalariado nas condições modernas de produção aponta para a instauração de trabalho associado em substituição ao trabalho assalariado, enquanto que a superação da anarquia do mercado remete à propriedade social como universalidade.
As visões e aspirações do MCO não se reduzem às determinantes assinaladas. Porém, as indicadas nos são suficientes para justificar porque consideramos o MCO como de tipo hegemônico. O cerne da questão está em que, ao menos em potência, o MCO se propõe empreender o revolucionamento do capitalismo a partir da luta pelo controle dos trabalhadores sobre suas próprias atividades. Porém, não apenas a partir dos poros ou interstícios da sociedade, mas em enfrentamento direto com os institutos fundamentais do capital.
Dado o delineamento programático do MOP depois da Segunda Guerra, essa variante do espírito dos sovietes, que por ora se mantém como fenômeno circunscrito e até esotérico, pode aparecer como irrealista. Porém, se é certo que nos encontramos face à crise estrutural do trabalho assalariado, dentro em pouco a luta dos trabalhadores pelo trabalho associado não será tão mais irrealista do que a luta por empregos assalariados que o sistema não pode criar.
O método para fazer avançar o controle dos trabalhadores sobre as unidades de trabalho só pode ser primordialmente prático, o que é indissociável da luta política. No entanto, como parte desse processo prático terá grande relevância para o MOP a tarefa de educar ou reeducar os trabalhadores. No plano reflexivo isto se faz encetando a crítica do trabalho alienado e, ao mesmo tempo, indicando as possibilidades de (des) alienação das atividades humanas que se apresentam com a libertação dos trabalhadores do jugo do capital.
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terça-feira, 8 de outubro de 2013

¿Qué está pasando en Sidor?


Marea Socialista, Guayana
3 de octubre de 2013
Cuando escribimos este artículo están cumpliéndose 15 días de paro en Sidor. Al
mismo tiempo han parado desde hace una semana los trabajadores de Ferrominera
Orinoco y es posible que los trabajadores de las Briqueteras tomen acciones en
los próximos días.
El Presidente Nicolás Maduro hizo declaraciones dejando entrever que los
trabajadores son parte de una conspiración en la que estaría involucrada la
Embajada yanqui y por la que fueron expulsados del país tres altos funcionarios
gringos.
Sin descartar intenciones e hipótesis de sabotaje, la realidad es un poco más
compleja y el objetivo de este artículo es difundir y explicar, desde nuestro
punto de vista, lo que está ocurriendo en Sidor y en Guayana.
Los Reclamos de los sidoristas
Los reclamos de los trabajadores de Sidor son los siguientes:
- Pago de Utilidades: La causa principal que originó el conflicto es
unsupuesto mal cálculo de las utilidades desde el año 2008. Lo que ocurre es que
el Contrato Colectivo firmado en el 2008 dice que se pagarán 120 días de salario
básico más “la fracción del día de descanso”. Sin embargo, en ningún lugar quedó
especificado cómo se calculabadicha fracción de descanso, por lo que José Luis
Hernández, Presidente de SUTISS, acuerda y firma con la Empresa una fórmula para
dicho cálculo que es el que se aplicó durante estos cinco años.La Empresa, a
través del General Carlos Osorio (Presidente de la CVG) aceptó aplicar a partir
de ahora una nueva fórmula para calcular las utilidades que beneficia
enormemente a los trabajadores.
- Retroactivo del Tabulador: en el 2011 se aprobó un nuevo tabulador que sin
embargo se aplicó con muchos errores, afectando a un gran número de
trabajadores. La Comisión de Tabulador de SUTISS(que es dirigida por la
corriente Alianza Sindical) a partir de la discusión con los trabajadores en las
áreas fue corrigiendo las evaluaciones y se empezó a pagar bien, pero está
pendiente el retroactivo por estos dos años pagando mal. La Empresa lo aceptó,
ya hizo los ajustes correspondientes y se comprometió a comenzar a pagarlo este
viernes 4.
- Corrección y retroactivo por el mal cálculo del salario: La Empresa viene
pagando mal, desde hace años, algunos conceptos salariales (tiempo de viaje y
vacaciones).La Empresa aceptó corregirlo y pagar el retroactivo correspondiente.
- Prima Diurna: en el 2011 cuando se aprobó el nuevo tabulador no se incluyó a
los trabajadores Fijos de Día amparados por la nómina de convenio. Estos,
después de una larga lucha terminan consiguiendo una “prima diurna” para
compensar el salario mensual. Como ahora, gracias al nuevo Contrato Colectivo,
se elimina la Nómina de Conducción (Líderes, analistas, supervisores que estaban
fuera de la nómina de convenio), estos piden que se le aplique la Prima. Y los
trabajadores por turno piden que se les aplique cuando rotan en las guardias de
día. La Empresa aceptó comenzar a aplicarlapara ambos.
- Retroactivo de las utilidades: Es el punto por el que aún se mantiene el
paro. Un sector de las corrientes sindicales mantiene como condición para
levantar el paro un retroactivo por los 5 años que supuestamentese cobraron mal
las utilidades (exigiendo BsF 200.000 para los trabajadores por turno y BsF
150.000 para los fijos de día). La Empresa argumenta que no pagó mal, sino como
dice el Contrato, “120 días de salario básico más la fracción del día de
descanso”. Y que el cálculo de la fracción lo hizo el Sindicato. Es decir, que
durante 5 años se pagó como pidió el Sindicato y por lo tanto no corresponde
ningún retroactivo. Sí acepta, como explicábamos, cambiar la fórmula de ahora en
adelante.
Como puede verse, el Gobierno ha aceptado casi todos los reclamos hechos por los
trabajadores, al mismo tiempo que se está discutiendo un nuevo Contrato
Colectivo que tiene aprobadas ya 95 de las 109 cláusulas. ¿Por qué entonces se
mantiene el paro? ¿Por qué se condiciona en el último punto, que encima es un
punto de interpretación?Fundamentalmente porque un sector de la dirigencia
sindical está defendiendo sus propios intereses, tratando de ocultar su
responsabilidad por haber vendido beneficios de los trabajadores y buscando
posicionarse frente a unas próximas elecciones sindicales. Los dirigentes que
hoy intentan mantener el paro a toda costa son los mismos que habían vendido
esos beneficios, en el caso de José Luis Hernández la fórmula para el cálculo de
las utilidades, y en el caso de “Acarigua” Rodríguez los conceptos salariales.
Lamentablemente, esa es la realidad.
El origen del Paro
Cuando comenzó el paro, se estaban discutiendo las últimas cláusulas de la Nueva
Contratación Colectiva. Por primera vez en más de 20 años se está discutiendo un
Contrato completamente nuevo, que mejora absolutamente todas las cláusulas. Esta
discusión está siendo llevada adelante por la corriente Alianza Sindical, que es
la que tiene la mayoría del Comité Ejecutivo, de la Comisión Negociadora, y el
Secretario de Reclamos. La posibilidad de que luego de la firma del Contrato se
convocara a elecciones sindicales (ya que este año se vence el actual período)
puso en desesperación a las otras dos corrientes sindicales que forman parte del
Comité Ejecutivo: los Militantes Siderúrgicos (continuadora de Ramón Machuca,
hoy dirigida por José “Acarigua” Rodríguez) y el Movimiento Orinoco, del actual
Presidente de SUTISS, José Luis Hernández.
Hay que tener en cuenta que los Militantes Siderúrgicos fueron responsables de
la discusión de los Contratos Colectivos de Sidor por más de 20 años y lo que
hicieron año tras año fue ratificar unas cláusulas y vender otras (Cláusula 14,
méritos, contratos individuales, etc). Y el Movimiento Orinoco había presentado
un anteproyecto que ratificaba más del 50% de las cláusulas. Era un escenario
lógico entonces, que Alianza Sindical terminara capitalizando la nueva firma del
Contrato. Con más razón por haber sido la única corriente que informó a los
trabajadores sobre lo que se estaba discutiendo y cuáles eran las propuestas.
Es ante esta situación que estas corrientes (fundamentalmente Militantes
Siderúrgicos) comienzan a generar algunos conflictos aislados en distintas
áreas. Hasta que finalmente a través de dos dirigentes que responden a la MUD,
Jorge Machuca (hermano de Ramón) y Carlos Mata (dirigente de La Causa R) logran
“parar” las áreas de Laminación en Caliente (que ya se encontraba parada por
tareas de mantenimiento) y Barras y Alambrón. Los argumentos para el Paro eran
los señalados arriba, aunque todos ellos se estaban corrigiendo en la discusión
del Contrato Colectivo. Es por eso que, aunque parezca mentira, el origen del
paro es el sabotaje a la discusión del Contrato Colectivo.
Con el correr de los días, al mantenerse el Paro en las áreas mencionadas y ante
el peligro que hubiera sanciones contra los trabajadores, el Comité Ejecutivo
convoca al Paro de toda la planta para canalizar la discusión con la Empresa,
generalizando (equivocadamente) el conflicto.
Días después de comenzado el Paro, y tras algunas reuniones con el Comité
Ejecutivo, el Presidente de la CVG, General Carlos Osorio se presenta en el
Portón 3 de Sidor y acepta una nueva fórmula para calcular las utilidades,
corregir el mal cálculo del salario, aplicar la prima diurna y pagar el
retroactivo del tabulador. La mayoría de los trabajadores vota levantar el paro.
Sin embargo esa misma tarde, los Militantes Siderúrgicos y el Movimiento Orinoco
hacen una asamblea diciendo que la lucha es por el retroactivo de las utilidades
y que le corresponden BsF 500.000 a cada trabajador. Se acentúa una campaña de
mentiras y manipulación al servicio de mantener a toda costa el paro.
Adicionalmente comienza una fuerte campaña contra Alianza Sindical, acusándola
de patronal y gobiernera por su posición de levantar el paro frente a los
ofrecimientos del gobierno y continuar discutiendo en Mesas de Trabajo el punto
restante. Con el pasar de los días el paro está perdiendo fuerza y en muchas
áreas ya se está trabajando normalmente. Ante esta situación, este sector de la
dirigencia sindical está entrando en altos niveles de desesperación.
Las causas de esta situación
¿Por qué un grupo de dirigentes irresponsables y en beneficio propio logra
manipular de esta manera a un movimiento como el sidorista? Creemos que es ahí
donde hay que buscar las razones del paro. No alcanza simplemente con señalar la
manipulación de los dirigentes, ni planes conspirativos. Para que éstos puedan
imponerse tiene que haber, evidentemente, un terreno fértil. Y ese terreno
fértil lo constituyen, a nuestro entender, dos razones centrales:
En primer lugar, la difícil situación económica que estamos atravesando, que
hace que los salarios ya no alcancen para nada. Frente a dirigentes que le dicen
que les han estado robando y que la empresa les adeuda esa cantidad de dinero
(BsF 500.000), la reacción de los trabajadores parece hasta lógica.
Sin embargo, para nosotros hay otro elemento que es decisivo y es el Modelo
Sindical vigente hoy en Sidor y en la mayoría de las Empresas Básicas. Un Modelo
Sindical que tiene más que ver con el modelo de democracia representativa de la
IV° República que con la participación protagónica de los trabajadores que
impulsa la Revolución Bolivariana. Donde las Asambleas de Trabajadores son un
Mitin más que una Asamblea. Donde nada se debate, donde cada corriente sindical
realiza su propia asamblea. Un Modelo Sindical que ha transformado los Portones
de las empresas en un terreno fértil para la manipulación, en lugar de ser un
lugar de verdadero debate y decisión democrática de los trabajadores. Un Modelo
Sindical en el que la corriente sindical que gana elsindicato busca desaparecer
a las demás. Donde los dirigentes construyen su liderazgo en base a la
demagogia. Donde no se rinde cuentas de nada. Donde ser sindicalista se va
transformando cada vez más en un lugar de privilegios y prebendas y no en un
puesto de lucha.Un Modelo Sindical, en fin, incapaz de transformar la realidad,
que más bien termina reproduciendo la lógica del Capital. Es este Modelo
Sindical el que ha facilitado la manipulación y el engaño a un sector importante
de los trabajadores sidoristas.
Lamentablemente, en estos dos años, Alianza Sindical (corriente de la que Marea
Socialista forma parte) a través de su mayoría en la estructura sindical (Comité
Ejecutivo, delegados, seccionales) no ha dado pasos en la superación de este
Modelo Sindical, por lo que es fundamental sacar conclusiones de este conflicto
y avanzar en ese sentido. De lo contrario, el movimiento sidorista, como otros
en Guayana seguirá siendo presa fácil de la manipulación, incluso de la Derecha.
¿Trabajadores con la CIA y la embajada yanqui?
Esta situación, particular de Sidor, no puede ocultar la situación que se está
viviendo en Guayana. No nos vamos a detener aquí en analizar la odisea que hay
que hacer en esta Ciudad para poder conseguir un poco de leche, harina, aceite o
papel toilette, ni la brutal escalada de precios que estamos sufriendo, que si
bien son problemas que afectan a todo el país, aquí da la impresión siempre de
ser más profundo. En Guayana hay una crisis a nivel laboral y de las empresas
básicas que son una verdadera “bomba de tiempo” y a las que el gobierno no le
viene dando respuestas.
Las empresas se están en una situación muy grave. Por primera vez en la historia
las cuatro fábricas briqueteras se encuentran sin producir y esta situación se
extenderá probablemente hasta enero, ya que no hay materia prima (pellas). Las
inversiones que se anuncian en actos y cadenas de televisión nunca llegan.Los
sidoristas aún esperan los U$D 314 millones aprobados por el Presidente Chávez
hace más de un año. Los compromisos laborales que se acuerdan luego no se
cumplen, como es el ingreso de personal tercerizado en algunas empresas. Los
pasivos laborales se siguen acumulando, muchas veces sin ninguna respuesta, como
es el caso de Ferrominera. Es esta situación la que genera la lucha de los
trabajadores y que la derecha intenta capitalizar.
Pero acusar a los trabajadores de ser parte de un complot de la CIA o la
embajada yanqui no va a tapar ni a resolver ninguno de los problemas. Si bien es
cierto que la derecha se monta sobre estos problemas para desestabilizar al
gobierno, mucho más cierto es que los problemas realmente existen y que la forma
de cerrarle el paso a la derecha es resolverlos.
Si el Gobierno tiene pruebas de que se trata de un sabotaje tiene que dar
nombres y mostrar las pruebas, de esa manera podremos enfrentar con éxito a los
conspiradores y saboteadores. Pero no se puede mezclar los reclamos justos del
pueblo detrás de denuncias generales de conspiración.
No es novedad que las Empresas Básicas arrastran una crisis que es estructural
y que no se resuelve con parches. Fue esa misma situación la que llevó en el año
2009 a realizar el “Taller para la transformación de las Empresas Básicas”. De
allí surgió una de las experiencias más fabulosas de la clase obrera de Guayana
y de Venezuela, que fue el nacimiento del Plan Guayana Socialista y el impulso
al Control Obrero. Hoy, después de atravesar durante cuatro años la indiferencia
o el boicot directo por parte de numerosos funcionarios de Estado, la mayoría de
los proyectos surgidos desde las bases de los trabajadores están engavetados. De
los Trabajadores-Presidentes se pasó a un verdadero desembarco militar en la
presidencia de casi todas las empresas. Y del “protagonismo de los trabajadores”
a no consultar absolutamente nada. Todo, sin ningún tipo de balance ni
conclusión con los trabajadores que protagonizaron aquellas gloriosas jornadas.
Nosotros estamos convencidos queno hay ninguna manera de avanzar si no es con la
participación, el protagonismo, el debate y la decisión democrática de la clase
obrera.
****
In
Aporrea
http://www.aporrea.org/trabajadores/a174626.html
04/10/2013

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Argentina, La Pampa: Crece el trabajo autogestivo en General Pico


Melissa Zenobi (ACTA)

Militantes de la Central en la capital pampeana, comenzaron a organizarse en los
barrios conjuntamente con los vecinos desocupados y conformaron el Movimiento de
Trabajadores Desocupados (MTD-CTA). Ya son cuatro los emprendimientos
productivos que se generaron desde la organización y de ellos viven 56 familias.
Ricardo de Udaeta, miembro del MTD, dialogó con ACTA sobre esta experiencia de
trabajo autogestivo.

- ¿Cómo nacen estos emprendimientos productivos?

- En el marco de los planes de lucha por la falta de trabajo que veniamos
padeciendo acá en la localidad de General Pico, hemos decidido organizarnos y
hacer peticiones al Estado por la precaria situación de muchisimas compañeras y
compañeros. Ellos nos han ofrecido subsidios para palear la situación a lo que
hicimos una contrapropuesta, que tenía que ver con resignificar el dinero y
generar distintos emprendimientos productivos desde el MTD.

- ¿De qué son los emprendimientos?

- La organización del MTD cuenta con cuatro emprendimientos. Tenemos una
hectárea de huerta, donde funcionan dos invernaderos de 50 metros por 6. Tenemos
una panificadora, una textilera y recientemente inauguramos la bloquera Darío
Santillán, donde estamos desarrollando, junto a un grupo de compañeras, la
experiencia de la construcción de bloques con adobe y cemento. Estos
emprendiemientos contienen alrededor de 56 familias, la gran mayoría son
mujeres.

- ¿Cómo comenzaron a organizarse?

- Cuando empezamos a organizarnos, tratamos de pensar distintas maneras de
involucrar al Estado, porque veíamos que no había ningún tipo de política social
en relación a la desocupación y tantos otros problemas de desnutrición,
viviendas, servicios. Así comenzamos a organizarnos y vimos en el trabajo
autogestivo, una manera de contener a nuestras compañeras. Las herramientas las
ganamos mediante distintos planes de lucha que venimos dando desde el año 2011.
En ese momento hicimos una toma del municipio durante 6 días, y ahí es que
conseguimos el acuerdo con las autoridades municipales para la puesta en marcha
de los distintos proyectos. No fue fácil, tenemos muchas causas penales, estamos
imputados, hemos recibido amenazas de parte de punteros de la ciudad.

- ¿Cómo es que se suman a la CTA?

- Entendimos que la Central de Trabajadores de la Argentina es la única
organización gremial que nos reconoce como trabajadores a nosotros, los
desocupados. No encontramos ningún otro lugar que nos contenga de la manera que
nos contiene la CTA. De hecho muchos miembros del MTD somos militantes de la CTA
desde su nacimiento acá en General Pico. Fue desde la CTA que empezamos a
laburar la problemática de niñez en los barrios y nos encontrábamos con que
muchos pibes tenían a sus padres desocupados. Ahí es que nos propusimos trabajar
directamente con la familia de estos pibes y así fue que se generó el Movimiento
de Trabajadores Desocupados. Encontramos así el modo de vincularnos con los
chicos a través de sus familias.
******
In:
http://www.argenpress.info/2013/10/argentina-la-pampa-crece-el-trabajo.html
04/10/2013

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Sem Terra se formam em Técnico em Administração de Cooperativas

Por Iana Reis
Da Página do MST

No último domingo (28), aconteceu a formatura da 12º turma do curso Técnico em
Administração de Cooperativas (TAC), na escola de formação José de Castro, em
Veranópolis (RS).

Além da própria formatura, a Turma Keno (nome dado em homenagem ao companheiro
Valmir Mota de Oliveira, o Keno) teve mais uma conquista a comemorar: foram
completados 20 anos de existência do TAC, no último mês de agosto.

Os três anos e meio de curso reuniram alunos de mais de dez estados diferentes,
misturando as variadas culturas, que com o tempo foram se moldando e somando
experiências para dar continuidade no processo da luta pela Reforma Agrária.

Após esse período, o sentimento é de dever cumprido, no momento em que se
finaliza uma etapa e se inicia outra, como afirmou o formando Wervison de
Oliveira, da Bahia.

“A partir é possível contribuir com uma base de conhecimento prático e teórico
bem melhor, já que a partir de agora essa será nossa realidade nos nossos
assentamentos. E essa formatura nos enche de motivação e realização”, acredita.
***********
In:
http://www.mst.org.br/node/15276
2/10/2013

terça-feira, 1 de outubro de 2013

La unidad de la masa trabajadora rompe paradigmas en la empresa socialista Lácteos Los Andes (ESLANDES)

En una visita realizada a la planta de Lácteos los Andes en Cabudare Municipio
Palavecino del Estado Lara por parte del equipo de la radio comunitaria Antena
Libre 96.3 fm “La voz de la Parroquia Unión” y Aporrea se realizó una entrevista
al camarada Francisco Acurero quien es vocero del comando político nacional de
la Empresa Lácteos los Andes.

Actualmente esta empresa tiene tres plantas principales: Cabudare, Caja Seca y
Machiques, que es la más grande de Venezuela, con una capacidad de procesar
700.000 lts/dia de leche y además cuenta con una capacidad instalada de 37
unidades de producción socialista UPSA.

Esta empresa en sus inicios era privada y bajo ese modelo los trabajadores eran
explotados y se generaba una gran plusvalía que quedaba en mano de los dueños,
una vez que es expropiada por el gobierno nacional y pasa al Estado,
lamentablemente el modelo burgués lleno de burocratismo, corrupción e
ineficiencia, absorbió todos los niveles provocando una situación extrema de
casi colapso y parada de las líneas de producción. Todo esto se pudo evitar
gracias a que se activó el poder obrero junto con el poder popular y se logró
denunciar a tiempo toda esta situación.

La lucha que actualmente impulsan los trabajadores contra la corrupción está
permitiendo un cambio estructural dentro de la dirección de la empresa, se pudo
activar la comisión presidencial de eficiencia o nada y se aprobó una
reestructuración con un nuevo modelo de gestión basado en la contraloria de
todos los trabajadores, se conforman 11 vocerías que luego fueron ampliadas a
25, todos ellos conforman el comando político nacional y es la máxima autoridad,
fueron escogidos todos por voto directo y secreto.

En todo este proceso las trabajadoras y los trabajadores escogieron al camarada
Luis Moreno como gerente obrero y es parte del comando político nacional que es
donde se hace la toma de decisiones, todos estos voceros llevan las decisiones
tomadas en las asambleas con los trabajadores y las trabajadoras en cada una de
las plantas, en cada región va a ver un comando político de las y los
trabajadores.

Las voceras y voceros van todos a un proceso de formación socio político en una
escuela de formación de cuadros para garantizar que todas las decisiones que se
tomen estén apegadas al proyecto nacional Plan de la Patria 2013-2019.

Se van a establecer 6 territorios en 4 estados, estos territorios van a manejar
su propias políticas gerenciales del territorio, es un proceso constituyente,
son los saberes de los trabajadores los que están construyendo este modelo.

Existe una empresa vertebral que es ESLANDES, va a ver una política de
reinversión social de las trabajadoras y trabajadores hacia dentro de la planta
y hacia las comunidades, es el pueblo organizado tomando decisiones importantes
y medulares. En todas las plantas se va a instalar la sala situacional comunal y
desde ya se están haciendo las conversaciones para que las comunas también
participen en la toma de decisiones dentro de la empresa así como lo pidió el
Comandante Supremo Hugo Chávez en su golpe de timón cuando nos llamó a conformar
las comunas.

En paralelo a todo este proceso se esta haciendo una lucha fuerte contra la
corrupción, para que los responsables de llevar a la planta a la situación de
colapso paguen con cárcel, se siguen haciendo las auditorías internas y
próximamente auditorías externas para combatir de frente todas las
irregularidades .
Por otro lado ya están aprobadas todas las divisas para las importaciones,
gracias a la gerencia obrera revolucionaria se han hecho acuerdos estratégicos
con CASA y ya se está descargando un barco con 800 toneladas de pulpa de
manzana, pera y durazno, también se están haciendo las alianzas estratégicas con
productores de frutas tropicales para continuar ampliando la variedad de
productos. Con la leche se logró que el gobierno impulsara un subsidio a este
estratégico rubro y la atención integral al productor de leche para seguir
aumentando la cantidad de litros que se arriman a las plantas.

En la reunión de este sábado 28/09 se está haciendo la planificación para 5 años
y en ella se encuentran los sindicatos, el consejo de trabajadores, el comando
político nacional, la nueva estructura gerencial y los nuevos líderes de cada
territorio escogidos por las bases.

Desde ahora en ESLANDES hay trabajo en conjunto y mayor participación.

Noticias relacionadas:

http://www.youtube.com/watch?v=RSZD1GP5ac4


http://www.youtube.com/watch?v=ZXM3hISf4hw


http://www.youtube.com/watch?v=rhyEjjjSEZI


http://www.youtube.com/watch?v=ExukMMWG-7o
********
In:
http://www.aporrea.org/endogeno/n237190.html
30/9/2013

En la Escuelita Zapatista los estudiantes aprenden organización comunitaria y resistencia civil como forma de vida


Por Alex Mensing

Especial para The Narco News Bulletin
29 de agosto 2013

Entre el 11 y el 17 de agosto, los zapatistas trajeron a más de 1.500
personas a sus comunidades para asistir a la Escuelita Zapatista. De
acuerdo con un comunicado del EZLN de febrero pasado, en una curso
titulado Libertad según l@s Zapatistas: Gobierno Autónomo I, nuestr@s
compas bases de apoyo zapatistas van a compartir lo poco que hemos
aprendido de la lucha por la libertad, y l@s compas de la Sexta ahí verán
qué les sirve y qué no para sus luchas.

Los alumnos se forman para registrarse para la primera “Escuelita
Zapatista” en el CIDECI, el Centro Indígena de Capacitación
Integral. FOTO DR 2013 Alex Mensing
En muchos sentidos, la Escuelita no era una escuela típica. Los maestros
no tenían títulos, los libros de texto no citaban a prestigiosos
académicos anteriores, y los salones de clase no tenían pizarrón. La clase
estaba en sesión 24 horas al día y la sección de preguntas y respuestas
estaba abierta todo el día. Y, sin lugar a dudas, los temas no eran
ordinarios.
Algunas de las lecciones impartidas en la Escuelita se entregaban en
lecturas de cuadernos de texto y presentaciones de autoridades zapatistas.
Pero la mayoría de las lecciones más importantes se aprendían al compartir
el hospedaje, las comidas, el trabajo la vida y las conversaciones con las
familias y guardianes zapatistas anfitriones de los estudiantes en sus
pequeñas y remotas comunidades durante los días que duró la Escuelita.
De acuerdo con los zapatistas, el objetivo de la Escuelita era mostrar a
las personas de afuera su territorio y la forma en qué organizaron su
lucha por autonomía, con la esperanza que los estudiantes compartieran la
experiencia con otros y usaran lo que aprendieron para organizar sus
propios movimientos de resistencia. Pero la escuela no se trató mucho de
“cómo hacerlo” sino “te muestro y te cuento”, más bien. “Esto es lo que
hacemos. ¿Preguntas?” De esa manera, la observación era la clave de
aprendizaje en esta escuela.
Algunos principios básicos de su proceso de organización pueden sacarse de
sus cuadernos de texto y experiencia, como la disciplina y el trabajo
duro, el acercamiento cara a cara de las comunidades, planeación a largo
plazo, reducción de la dependencia gubernamental a través de proyectos
colectivos de trabajo, evitar la confrontación con el enemigo y enfatizar
la experiencia compartida para convencer a los vecinos que no simpatizan
con ellos. La estructura de su gobierno autónomo también revela aspectos
clave de la resistencia y democracia zapatista.
Listo para la Escuela
En las primeras horas de la mañana del 11 de agosto, decenas de camionetas
de pasajeros comenzaron a llegar al Centro Indígena de Capacitación
Integral (CIDECI) en San Cristóbal de las Casas, Chiapas, en el sur de
México. Las camionetas venían de territorio zapatista, “donde el pueblo
manda y el gobierno obedece.” Cada vehículo tenía una conductora mujer y
uno hombre, cada uno de distintas comunidades zapatistas. Algunas
comunidades se encuentran a unas 10 horas de distancia. Todas llegaron a
tiempo.
Más tarde esa mañana hubo una segunda oleada de arribos, los pasajeros de
las camionetas volverían a territorio zapatista más tarde ese día. Eran
invitados de la Escuelita Zapatista, un curso de inmersión de una semana
en gobierno autónomo zapatista. Eran de todos los rincones del mundo, de
todas las edades, y no todos estuvieron a tiempo.
La Escuelita Zapatista fue anunciada a principios de 2013 en un de los
muchos comunicados desde su resurgimiento público en diciembre pasado.
Poco a poco, fueron difundiendo más información sobre la escuela. Los
estudiantes serían hospedados por familias zapatistas, así que no debían
traer su comida o alojamiento. Tampoco debían venir con la expectativa de
aprender cuestiones militares del EZLN—la escuela se trataba de
autogobierno y autonomía, y no sobre su resistencia armada. ¿El costo para
asistir? Además de tener que llegar a San Cristóbal, 100 pesos por cuatro
libros y dos DVD que ellos proporcionarían. Menos de ocho dólares.
En su característico estilo político, los primeros cuatro anuncios acerca
de los estudiantes describían a las personas que NO estarían en la
escuela: líderes de movimientos sociales que han sido desaparecidos,
presos políticos, y aquellos que llegaron antes y enseñaron a los
zapatistas como organizarse y resistir. Sobre aquellos que SÍ estarían:
1,700 personas, de cinco continentes, de entre 11 meses a 90 años (con una
gran concentración de 20 y 30 añeros), independientes o de colectivos, de
instituciones académicas, y grupos solidarios.

Un hombre camina por la calle en Rosario Río Blanco, en el municipio
autónomo de San Pedro Michoacán. FOTO DR 2013 Alex Mensing
Los estudiantes se registraron en el CIDECI y fueron asignados a uno de
los cinco caracoles zapatistas, como se conocen las regiones autónomas.
Aquellos sin invitación no fueron aceptados. Mientras los organizadores
registraban a una larga lista de los que llegaron tarde, música en vivo
entretenía a la gente y los colectivos vendían los típicos artículos
revolucionarios: camisetas, posters, cuadernos, publicaciones, etc.
Mientras tanto, los zapatistas encapuchados esperaban.
Luego vino la primera lección de organización zapatista: ejecución rápida
de las órdenes. La salida de la primera caravana fue anunciada, con
destino a La Realidad, el caracol más lejano. Esperaban diez horas de
viaje, y querían empezarlo pronto. En tan sólo minutos, los estudiantes
destinados a La Realidad fueron alineados en la entrada, incluyéndome.
Minutos después, nosotros con nuestro equipaje estábamos a bordo… excepto
aquellos estudiantes que habían llegado tarde o no escucharon el anuncio.
Por suerte para ellos, pudieron alistarse rápidamente.
La Realidad
En el Caracol I, La Realidad, fuimos recibidos a la 1 am por todos los
zapatistas en formación ordenada, con las caras cubiertas por pasamontañas
o paliacates rojos. Los estudiantes cansados caminaron a través del barro
y se pararon bajo la llovizna mientras la comunidad cantaba el himno
mexicano y zapatista. Algunos estudiantes se quedaron a bailar luego del
recibimiento, muchos otros fueron a dormir en el piso de concreto en los
espacios designados para su alojamiento.
Cuando los cursos comenzaron al día siguiente, los presentadores
zapatistas anunciaron que “a través de nuestro voz habla la voz del
Ejército Zapatista de Liberación Nacional.” Todos los maestros, las
familias anfitrionas, y guardianes habían sido declarados portavoces del
EZLN durante la duración de la Escuelita, dejando en claro el punto que
aprender de la autonomía zapatista es aprender de la sociedad zapatista en
su conjunto.
Esa horizontalidad, como fue remarcada en la primera clase, es una parte
fundamental para su gobierno autónomo. Los presentadores nos introducían
en la estructura de su gobierno, algo a lo que muchos ya están
familiarizados. El lenguaje del “buen gobierno” y “mal gobierno” que los
zapatistas usan dice mucho—su gobierno tiene un tipo de estructura
paralela al gobierno tradicional, pero las mecánicas y esencia son
distintas. Muchas características de su gobierno autónomo fueron
explicadas por los zapatistas en relación con el comportamiento del
gobierno mexicano.
“No hacemos campañas electorales,” explicó el presentador. “No gastamos
montones de dinero para elegir a un líder. Los representantes no están
elegidos antes de que la gente vote.” Todas las leyes o proyectos, los
representantes comunitarios y servidores públicos (maestros, promotores de
salud, etc.) en todos los niveles de gobierno (local, municipal,
regional), son elegidos directamente por la gente, que aprueba o
desaprueba las propuestas del gobierno.
El servicio público es realizado por iniciativa y no por recibir un pago.
Cualquier puede convertirse en “líder”. En el sentido estricto, no hay
líderes, sólo miembros de la comunidad en distintos roles. Esto asegura
que el gobierno, la organización, no pueda ir contra la voluntad del
pueblo.
Durante la primera clase, la importancia de la historia del movimiento
zapatista fue clara. Entienden que su movimiento es parte de un hilo
histórico de opresión y resistencia. Uno que se construye de sí mismo y no
olvida, la historia completa es relevante. Los acontecimientos importantes
en su entendimiento de la historia son bien conocidos:
- Antes de que llegaran los españoles, los pueblos indígenas vivían en
pequeñas comunidades y tradiciones culturales que le daban forma a su
relación en común y con la tierra que trabajaban.
-La Conquista española destruyó su tejido social e hizo que la gente
trabajara como individuos en un sistema de explotación.
-En 1810, Miguel Hidalgo condujo a los campesinos a la independencia de
la corona española, pero México permaneció en las manos de los ricos.
Ellos consideran esto como la primer manifestación de inconformidad.
-En 1910, Emiliano Zapata luchó en la Revolución por “Tierra y
Libertad,” logrando el sistema ejidal (tierras de propiedad comunal).
-Durante el Siglo XX, los terratenientes carcomieron las ventajas
obtenidas por el sistema ejidal y, junto con gobiernos corruptos,
oprimieron a las comunidades indígenas.
-En 1983 se forma el EZLN y llega a Chiapas, comenzando a entrenar y
organizar.
-En 1994 el levantamiento armado del EZLN logra espacio para el diálogo
y la autonomía.
-En 2003 se forman las Juntas de Buen Gobierno para organizar el
gobierno y autonomía zapatista.
Cuando hablan sobre su autonomía en un contexto histórico, consideran que
lo que han logrado en los últimos 19 años ha sido más importante que lo
logrado en los últimos 500. Esta historia estaba muy presente para los
presentadores, así como para otros zapatistas con los que hablé. En su
opinión, les da fuerza, sentido y contexto a sus esfuerzos de
organización. Mi familia anfitriona y mi guardián me preguntaron luego
tranquilamente sobre la historia y presente de los movimientos de
resistencia civil en mi país.
Cuando un estudiante le preguntó al panel zapatista si tenían planes de
brindar enseñanza superior, la respuesta reveló que su movimiento tiene
ciertos objetivos y su organización tiene prioridades. De acuerdo al
representante que respondió la pregunta, quieren que sus hijos aprendan a
leer, a escribir, a hacer las cuentas requeridas en las empresas de su
gobierno y colectivo, a entenderá la verdadera historia de su lucha y a
entender el mundo natural a su alrededor y su relación tradicional con él.
Así que no, no piensan hacer una universidad, dijo, “pero ese no es el
problema. El problema es el pinche sistema.”
Otra presentación fue dedicada a la importancia de sus propios medios de
comunicación. En cada uno de los cinco territorios tienen dos radios
comunitarias, dijo el presentador. Esto les permite distribuir la “voz,
palabra y trabajo” de todos por igual. Cuando el gobierno trata de
engañarlos o les envía paramilitares, señaló el presentador, sus cámaras y
radios les permite registrar lo que sucede y difundirlo. El gobierno tiene
sus propios medios, explican, así que tuvieron que crear los propios. De
hecho, más tarde durante la escuela, mi guardian me informó que la Fuerza
Aérea Mexicana hizo sobrevuelos a baja altura de las comunidades la noche
anterior. Lo había sabido a través de la radio comunitaria.
Otras lecciones claves surgieron de la primer clase:
La libertad no es algo que se pide, sino algo que se toma; su forma de
autogobierno no vino de un libro, sino del análisis de las necesidades y
estructura de su sociedad; el trabajo de la resistencia civil requiere que
la gente esté consciente e informada de lo que están haciendo.
La clase se detuvo dos veces. La primera interrupción fue por varios
momentos en que los zapatistas enfatizaron la importancia de la disciplina
en su organización y cuando los representantes de los grupos activistas de
todo el mundo se les mostró su carencia en esta habilidad particular. Una
autoridad zapatista tomó el micrófono y observó que muchos estudiantes se
estaban parando para caminar por ahí, para ir a la tienda cercana y
comprar café o galletas, o alguna otra cosa. “No queremos que se
distraigan. Les recordamos que el pozol se servirá a la 1 pm. Queremos que
entiendan las presentaciones.” En ningún momento sin humor, el presentador
llamó a la seguridad zapatista para que nadie se quedara dormido. La
segunda otra interrupción fue, por supuesto, el pozol, una bebida a base
de maíz que proporciona la energía necesaria al mediodía para muchos
campesinos en Chiapas.
Una segunda lección de disciplina zapatista fue dada esa tarde, pero al
igual que muchas de las enseñanzas de la Escuelita, fue conocida luego de
observar. Todos teníamos la instrucción de pararnos en formación mientras
anunciaban nombres para que los estudiantes se juntaran con sus
guardianes. Mientras los zapatistas anunciaban los nombres, fue claro que
muchos estudiantes no estaban presentes. Muchos otros estudiantes
rompieron la formación y comenzaron a platicar. Cada vez que el nombre de
un zapatista fue anunciado, aparecían prácticamente de inmediato. Muchos
de los nombres de los estudiantes no fueron respondidos por varios
minutos. Una mirada rápida a los guardianes zapatistas, parados
calmadamente en filas ordenadas, fue suficiente para deducir una lección
táctica. Nos moveríamos más rápido y aprenderíamos más si practicaramos la
disciplina. Tardamos tanto que tuvimos que pasar una noche extra ahí antes
de viajar a nuestras comunidades.
La ventaja de quedarnos otra noche en el cuartel del caracol fue que, sin
nada más qué hacer, pudimos probar la tradición musical zapatista. Después
de todo, no puedes mantener una lucha de 30 años sin alguna canción y un
baile. Un zapatista que tocaba la guitarra finalmente fue convencido para
tocar algunos corridos que contaban sus historias de resistencia. Después
de todo, las letras revelaban conmovedoramente la profundidad del
sufrimiento que algunos miembros del movimiento sentían. Algunas partes:
“Lo mató el maldito gobierno
nada más por exigir la justicia.”
“Los asesinos eran soldados de línea
vestidos de campesinos
cuando él dormido estaba
mataron su mujer y niños”
Sin embargo, no todo es sufrimiento.
“Mira que la hora ya llegó
Y no se puede andar de espectador.
La lucha del pueblo es sin parar
hasta ver el triunfo popular.”

El camino es sinuoso y la transportación no es fácil entre los
bosques de Rosario Río Blanco y La Realidad. FOTO DR 2013 Alex
Mensing
Al día siguiente, luego de tres horas en un camión de basura y un caluroso
recibimiento por parte de la comunidad zapatista de Rosario Río Blanco, el
periodo de inmersión en la escuela había comenzado. Por los siguientes
tres días, mi guardián Jorge, mi “padre” anfitrión Rodolfo y yo nos
levantamos a las 4:30 a.m. para el desayuno que la esposa de Rodolfo,
Rosa, ya había preparado. Fuimos a trabajar en el campo hasta el mediodía,
con un descanso a las 9 para tomar pozol, luego descansamos un poco, nos
bañamos en el río, y almorzamos. El resto de cada día estaba dedicado a
estudiar: leer los textos, hablar sobre su autogobierno, o visitar algunos
edificios “institucionales” del pueblo. Así es como la comunidad de
Rosario Blanco decidió llevar a cabo la Escuelita, sin embargo algunos
estudiantes en otras comunidades tuvieron experiencias un poco distintas.
El leer, trabajar, comer y caminar por el pueblo fueron lecciones
distintas sobre la organización zapatista.
Los cuadernos
Los cuadernos de texto para la Escuelita Zapatista, de acuerdo al
comunicado de febrero,
“son producto de las reuniones que las bases de apoyo zapatistas de todas
las zonas realizaron para evaluar los trabajos de la organización.
Compañeras y compañeros tzotziles, choles, tzeltales, tojolabales, mames,
zoques y mestizos, procedentes de las comunidades en resistencia de los 5
caracoles, se preguntaron y se respondieron entre sí, intercambiaron sus
experiencias (que son diferentes según cada zona), criticaron, se
autocriticaron, y evaluaron lo que llevan avanzado y lo que falta por
hacer. Esas reuniones fueron coordinadas por nuestro compañero
Subcomandante Insurgente Moisés y fueron grabadas, transcritas y
trabajadas para la elaboración de los cuadernos de texto.”
Una de las lecciones que aparecía varias veces en los cuadernos era la
importancia de no sobrecargar de trabajo a los miembros de la
organización. Desde su creación en el 2003, casi todas las Juntas de Buen
Gobierno (el nivel más grande de los cuerpos de representación zapatista)
han incrementado el número de representantes y disminuido el número de
tiempo necesario para hacer un trabajo de gobierno. Como un portavoz del
cuartel del caracol había mencionado, “nos dimos cuenta que tenemos
familias.” Cada familia zapatista tiene que mantener sus propios campos y
hogares. Además de ese trabajo, los representantes hacen sus labores de
gobierno.
Un colaborador de los cuadernos, Artemio de La Garrucha, comentó que “los
cambios de los turnos tardaban hasta meses, dos o tres meses,”, y los
representantes de las Juntas tenían otras posiciones gubernamentales.
“Cuando se eligieron los 24 elementos sólo para la Junta se organizaron en
tres turnos de ocho compañeros cada turno y cada turno quedó 10 días. Eso
es lo que se acordó para llevar el proceso más seguido, que no se nos haya
olvidado cuando llegue otra vez nuestro turno.” Antes de eso, muchos
representantes no cumplían sus rotaciones de trabajo, por necesidades en
el hogar.
Incluso con estos cambios, muchos zapatistas se cansan en su trabajo.
Rosalinda, representante del caracol de Oventik, relató en los cuadernos
que en un punto 70 por ciento de sus funcionarios de salud y educación
habían dejado sus puestos, e incluso algunos habían dejado el zapatismo
por completo. Al hablar con mi guardián y la familia sobre esto, aprendí
algo interesante sobre los zapatistas.
“¿Qué haces para mantener a la gente en sus puestos y en la organización?”
les pregunté. Me miraron de una forma extraña, y mi guardián respondió
“Nada. En esta lucha todos somos libres. Si les dijéramos que se quedaran,
se sentirían obligados, y entonces seríamos como el mal gobierno. Si
alguien se va de la organización, es porque ha cambiado su forma de
pensar. Nosotros continuamos trabajando, y cuando quieran ser parte de
ello, pueden volver.”
Debo admitir que al principio fue una sorpresa para mí, al venir de los
EEUU donde hay un énfasis desmesurado en el crecimiento. Los zapatistas
han aprendido que la fortaleza de la organización no viene simplemente de
sus números, sino de la calidad y dedicación de sus miembros. Organizar y
resistir es un trabajo difícil, y siempre habrá gente que no quiera
participar, dijeron mis anfitriones. Uno de los siete principios de
gobierno autónomo zapatista es “convencer y no vencer.”
Y ni que decir de que no hacen esfuerzos por convencer a sus vecinos para
unirse a la lucha. Además de mostrar con ejemplos, practican la estrategia
que se ha utilizado para construir muchos movimientos sociales no
violentos: poner énfasis en las experiencias compartidas. Los zapatistas
siempre hablan con miembros de las comunidades que no simpatizan con ellos
(en persona y a través de sus radios comunitarias, que son escuchadas por
muchos que no son zapatistas) sobre su identidad indígena compartida y la
opresión histórica y continua. También practican la no confrontación con
la gente que consideran hermanos y hermanas, resistiendo la provocación
cuando el gobierno propaga los conflictos intercomunitarios.
Los cuadernos de texto también enseñan la importancia de convertir la
ayuda externa en independencia interna. En otras palabras, las donaciones
de grupos solidarios casi siempre se invierten en el establecimiento de
proyectos colectivos de trabajo que generen sus propios ingresos. Los
proyectos colectivos de trabajo son parte de la esencia de la autonomía
zapatista.

El escenario de la “Escuelita Zapatista” en La Realidad lleva las
figuras de los subcomandantes y de Emiliano Zapata. FOTO DR 2013
Alex Mensing
Un cuaderno incluía el testimonio de Alex de La Garrucha, quien describía
cómo su región había invertido en la compra de ganado, que es cuidado
colectivamente por los miembros de cada comunidad en una base rotacional.
“El objetivo de este trabajo”, dijo Alex, “es que los donativos que hay en
la Junta no se mal gasten así nomás en cualquier necesidad que hay, por
eso se creó esa idea de formar un colectivo de zona para que un día
tengamos de dónde sostenernos, no esperar a que haya alguna ONG que dé
proyectos para la Junta de Buen Gobierno.”
Ahora algo sobre igualdad de género en la organización zapatista. Uno de
los cuatro cuadernos de texto estaba dedicado a la participación de las
mujeres en los gobiernos autónomos. Para alentar la participación de las
mujeres, los zapatistas de cada comunidad así como sus representantes de
gobierno celebraban asambleas para discutir la importancia de la
participación de las mujeres. También tenían una estrategia a largo plazo
de proporcionar educación con igualdad, debido a que muchas mujeres
mayores no tuvieron la oportunidad de ir a la escuela y no saben leer,
escribir, o las matemáticas requeridas para hacer las cuentas financieras.
Los desafíos para la participación de las mujeres incluyen desde los
hombres zapatistas que no dejan que su esposa o hijas trabajen fuera del
hogar, a mujeres que se niegan a tomar puestos de gobierno, argumentando
que son incapaces o analfabetas, o que están preocupadas porque sus
familias no puedan cocinar, lavar o hacer otra de sus tradicionales
tareas. Algunas mujeres dejan sus puestos de gobierno cuando se casan.
Sin embargo, debido a la profundidad y al impulso generacional de la
cultura tradicional (algo que, en muchos casos, los zapatistas buscan
mantener), el progreso que los zapatistas han logrado en igualdad de
género en los últimos treinta años, aunque incompleto, es impresionante.
Mi guardián era un compañero zapatista ejemplar que cocina, lava y alienta
a que su esposa participe, aprenda y viaje. (No es que necesite mucho
aliento. Luego de reunirme con ella, es fácil ver que nunca se hubiera
casado con un machista.)
Cómo afilar el machete
La primera mañana de trabajo, aprendí a afilar un machete.
Desafortunadamente, debido a que aprendí a afilarlo antes que a blandirlo,
me corté el dedo muy rápido… Cuando mi guardián volvió con una venda
(luego de recoger hojas de una planta para ayudar a la cicatrización), nos
sentamos y platicamos. Esa fue la primera vez que Rodolfo y Jorge me
preguntaron sobre mí. Cuando les expliqué que viajaba y escribía sobre la
influencia de los EEUU en América Latina, me empezaron a hablar sobre las
trasnacionales estadounidenses, el neoliberalismo y las semillas
transgénicas.
Los zapatistas ven a los movimientos sociales globales como relevantes
entre sí, como parte del sistema capitalista global, y aún así entienden
cada comunidad y cada movimiento como algo internamente independiente.
Cuándo les pregunté si tenían algo específico que decirle a un ciudadano
estadounidense, ambos dijeron “no.” Con insistencia, explicaron que cada
uno debía hacer su propio movimiento. Y al mismo tiempo dijeron, la lucha
zapatista es para todo el mundo. Como dice la frase zapatista, luchan por
“un mundo donde quepan muchos mundos.”
Al día siguiente, cuando hablábamos de tomar un descanso para tomar pozol
en el maizal, Rodolfo me enseño a decir “vamos a tomar pozol” en su idioma
nativo, tojolabal. Wah kuti pichi, repetí. Luego me miró y dijo, “¿sabes
por qué tomamos juntos el pozol?” Pensé en muchas respuestas para esa
pregunta, pero no tenía idea de la respuesta que buscaba.
“Tomamos pozol juntos,” dijo Rodolfo, “porque en la lucha zapatista
hacemos todo colectivamente. Nadie en la organización recibe más o menos.
Tomar pozol uno sólo en un grupo es algo individualista.” Esta afirmación
repentina de Rodolfo llevó mi entendimiento de igualdad zapatista a otro
nivel. Por supuesto, mucha gente habla de igualdad y de compartir y
cooperación comunitaria. Pero lo que para muchos pareciera un grado
innecesario de compartir era algo natural y un hecho para Rodolfo y Jorge.
Cuando los zapatistas dicen que practican un valor, lo dicen en serio.
Sin duda alguna, la lección más importante al ver a los zapatistas
trabajar, es que trabajan muy duro. Trabajan muy, muy duro. Y es por eso
que han podido construir y mantener su movimiento, su resistencia y su
independencia. Los hombres y mujeres comienzan a trabajar mucho antes de
que amanezca, y cuando terminan el trabajo necesario para mantener a su
familia, participan en proyectos colectivos de trabajo para juntar dinero
para las medicinas de la comunidad o para los costos de transporte de sus
representantes de gobierno. O trabajan en los campos o cocinan para las
familias cuyos miembros trabajan como promotores de salud, maestros o
miembros de la Junta.
La Escuelita enseñó que los miembros de un movimiento de resistencia civil
no sólo deben trabajar duro, sino entender el porqué del trabajo duro. En
el caso de los zapatistas, si no apoyan su propio sistema médico,
educativo o de justicia, entonces dependerían del gobierno mexicano para
esos servicios. Y por doscientos años, el gobierno mexicano ha fallado en
proporcionarle esos servicios o los ha utilizado para controlar y
manipular a la población. El zapatista promedio lo entiende, habla sobre
ello y trabajo duro por ello.
Caminando por la cuadra
Una tarde, mi guardián y mi padre anfitrión me llevaron en un recorrido
por los edificios zapatistas del pueblo. Rosario Río Blanco tiene una
tienda local, una tienda regional, una escuela y una clínica de salud. En
la clínica de salud, el promotor de salud nos dio un ejemplo de la
importancia de la planeación a largo plazo, el compartir las habilidades y
la paciencia en la organización zapatista.

Un mural del subcomandante Marcos adorna una pared en La Realidad.
FOTO DR 2013 Alex Mensing
Poco a poco, los zapatistas han nombrado a miembros de la comunidad para
ser entrenados como promotores de salud. En un principio, voluntarios
externos con experiencia médica entrenaban a los zapatistas, pero al ganar
experiencia, los nuevos promotores de salud han podido entrenar a otros, y
de alguna manera han entrenado a suficientes personas para tener
practicantes generales en cada comunidad.
El gobierno zapatista llevó a cabo una asamblea y determinó 47 factores
importantes para mejorar la salud de la población, y ahora que hay los
suficientes practicantes, luego de años de entrenamiento, han comenzado a
abordar esos 47 factores en las comunidades zapatistas al mismo tiempo.
Pero en vez de tratar de trabajar en todos los factores de una sola vez,
eligieron diez de esos factores para abordar este año, 2013. Los factores
incluyen higiene personal, el uso de mesas para comer y el guardar de
forma adecuada la madera y los platos, etc.
Al celebrar asambleas locales y al visitar cada hogar para asegurarse que
estén implementando estas mejoras, los promotores de salud ya han
comenzado a ver importantes reducciones en las enfermedades. Pero el
desarrollo organizativo requirió de años de planeación a largo plazo y de
un extenso entrenamiento y de compartir habilidades.
Otro principio importante en el desarrollo del gobierno autónomo
zapatista, que los promotores de salud y de educación encarnaron, es que
debes de estar haciendo algo incluso cuando te sientas sin preparación. En
el caso de prácticamente todos los representantes zapatistas de gobierno,
maestros y doctores, comenzaron a practicar su papel con poca o nula
experiencia. Pero al mantener la sana cultura de cooperación, reflexión y
autoevaluación y crítica, grupos de individuos han podido mejorar sus
habilidades de acuerdo a las circunstancias y desafíos locales. Al final,
aprender de la experiencia ha ayudado a que los zapatistas construyan un
sistema que se ajuste a sus propias necesidades.
Conclusión
Al despedirme de mi guardián y agradecerle, su reacción me enseño una
última lección de organización zapatista. Cuando me di cuenta de la
dificultad de traducir y de agradecerle por su esfuerzo, (tradujo entre
tojolabal y español para mí), simplemente me respondió que era su trabajo,
y que todos en la organización habían hecho su parte para hacer posible la
Escuelita. Muchos estudiantes experimentaron esto. Los zapatistas ven su
movimiento como un esfuerzo colectivo, y mientras cada individuo es
responsable de su tarea, no toman crédito personal por el éxito de la
organización. Los movimientos sociales deben compartir sus
responsabilidades y habilidades para lograr sus objetivos. En
consecuencia, los zapatistas compartieron el crédito por sus logros.

El público prestaba atención durante la presentación final
anunciando la clausura de la primera “Escuelita Zapatista”. FOTO DR
2013 Alex Mensing
Los zapatistas invitaron a la gente a ir a su Escuelita para que pudieran
volver a sus comunidades, sus mundos, y organizar movimientos sociales
para luchar contra el neoliberalismo, contra la opresión, contra la
comercialización de los pueblos y el planeta. Pero la escuelita no estaba
estructurada como una serie de talleres, y no esperaba ser un modelo para
la revolución. Y la mayoría de los estudiantes con los que hablé después
no percibieron a la escuelita de esa forma. De hecho, muchos dijeron que
ya sabían muchas de las cosas que fueron explícitamente enseñadas en la
Escuelita.
Lo que la Escuelita Zapatista proporcionó a los estudiantes, por
sobretodo, fue la inmersión en un mundo donde no sólo se habla de
autonomía, sino que se vive. Vieron en cada acción los principios que ya
habían leído en internet y en panfletos. Probaron lo que es el trabajo
duro y la disciplina requerida para construir una resistencia efectiva a
un sistema poderoso. Hablaron cara a cara con la gente que ha sufrido y
resistido, los miraron a los ojos mientras contaban historias de represión
que muy pocos han estado siquiera cerca de experimentar.
El verdadero entrenamiento, los talleres verdaderos, los modelos
verdaderos, deben construirse fuera del territorio zapatista. Los
estudiantes deben convertirse en maestros. Deben diseñar sus propias
estrategias para alcanzar la autonomía, libertad y justicia; estrategias
que encuentran su camino a través de los obstáculos de sus propios mundos,
y que inevitablemente son distintos a los de los Altos de Chiapas, pero
que tienen los mismos valores fundamentales. Entonces, queda por ver el
papel que la Escuela Zapatista tendrá mientras los estudiantes de su
primera generación vuelven a sus lugares de opresión… digo, origen.

***
In
http://narconews.com/Issue67/articulo4711.html
1/10/2013