sexta-feira, 17 de abril de 2015
Cinquenta Anos de Guerras Imperiais: Resultados e Perspectivas
Este artigo constitui uma notável tentativa de sistematização dos processos
através dos quais os EUA aspiram ao poder global. É tanto mais interessante
quanto permite constatar que a categoria “imperialismo”, mesmo quando abordada
de um ponto de vista que diverge da concepção marxista-leninista, permite
identificar traços e contradições essenciais do estado actual do capitalismo.
Coisa que não sucede com os ideólogos que vêm tentando substituir o conceito de
imperialismo pela palavra “império”.
(O Diário.info)
James Petras
Introdução
Nos últimos 50 anos, os EUA e as potências europeias envolveram-se em inúmeras
guerras imperiais em todo o mundo. A vontade de supremacia mundial revestiu-se
da retórica de “liderança do mundo”, cujas consequências foram devastadoras para
os povos atingidos. As maiores, mais longas e mais numerosas guerras foram
conduzidas pelos Estados Unidos. Presidentes de ambos os partidos dirigem e
presidem a esta busca de poder mundial. A ideologia que informa o imperialismo
varia do “anticomunismo” no passado ao “antiterrorismo” de hoje.
A tendência de Washington para o domínio mundial utilizou e combinou muitas
formas de belicismo, incluindo invasões e ocupações militares, exércitos de
mercenários por procuração e golpes militares, financiamento a partidos
políticos, ONG’s e amotinações de rua, para derrubar governos legalmente
constituídos. As forças motrizes no estado imperial por detrás da busca de poder
mundial variam com a localização e composição socioeconómica dos países a
atingir.
O que resulta claro da análise do crescimento do império americano no último
meio século é o relativo declínio dos interesses económicos e o aumento das
considerações político-militares. Isto é em parte devido ao fim dos regimes
colectivistas (URSS e Europa Oriental) e a conversão ao capitalismo da China e
dos regimes de esquerda asiáticos, africanos e latino-americanos. O declínio das
forças económicas como força motriz do imperialismo é um resultado do advento do
neoliberalismo global. A maior parte das multinacionais americanas e europeias
não estão ameaçadas por nacionalizações ou expropriações que possam desencadear
intervenções políticas do estado imperial. De facto, as empresas multinacionais
são convidadas a investir, negociar e explorar os recursos naturais, até por
regimes pós-neoliberais. Os interesses económicos entram em jogo na formulação
das políticas de estado imperiais, se e quando regimes nacionalistas emergem e
desafiam as empresas multinacionais americanas, como no caso da Venezuela com o
presidente Chávez.
A chave para o crescimento do império americano no último meio século
encontra-se na configuração do poder político, militar e ideológico que acabou
por controlar as alavancas do estado imperial. A história recente das guerras
imperiais dos EUA demonstrou que as prioridades militares estratégicas – bases
militares, orçamentos e burocracia – se expandiram muito para além de quaisquer
interesses económicos localizados. Além disso, as vastas despesas e as
dispendiosas intervenções militares do estado imperial dos EUA no Médio-Oriente
foram feitas às ordens de Israel. A detenção de posições políticas estratégicas
no ramo do executivo e no Congresso pela poderosa configuração de poder sionista
nos EUA reforçou a predominância dos interesses militares sobre os económicos.
A “privatização” das guerras imperiais – o vasto crescimento e utilização de
mercenários contratados pelo Pentágono – levou à grande pilhagem de dezenas de
milhares de milhões de dólares do Tesouro dos EUA. Empresas de grande dimensão
que fornecem combatentes militares mercenários tornaram-se uma força muito
“influente” na concepção da natureza e nas consequências do crescimento do
império dos EUA.
Os estrategas militares, os defensores dos interesses coloniais israelitas no
Médio-Oriente, as empresas mercenárias militares e de informações são atores
centrais do estado imperial e é a sua influência na tomada de decisões que
explica porquê as guerras imperiais dos EUA não têm como resultado um império
politicamente estável e economicamente próspero. Em vez disso, as suas políticas
têm tido como resultado economias instáveis, devastadas e em perpétua convulsão.
Prosseguimos identificando as áreas e regiões em mudança no crescimento do
império dos EUA de meados dos anos 70 até à actualidade. Examinaremos então os
métodos, forças motrizes e resultados da expansão imperial. Voltaremos depois a
descrever o corrente mapa geopolítico do crescimento do império e a natureza
variada da resistência anti-imperialista. Concluiremos examinando o como e o
porquê do crescimento do império e, mais particularmente, as consequências e
resultados da expansão imperial dos EUA durante meio século.
O Imperialismo no período pós-Vietnam: Guerras por procuração na América
Central, no Afeganistão e no sul de África
A derrota imperialista na Indochina marca o fim de uma fase do crescimento do
império e o começo de outra: uma mudança das invasões territoriais para guerras
por procuração. Uma opinião pública nacional hostil obstou a guerras terrestres
de grande escala. Iniciando-se durante as presidências de Gerald Ford e James
Carter, o estado imperial dos EUA passou a confiar cada vez mais em clientes por
procuração. Recrutou, financiou e armou forças militares por procuração para a
destruição de vários regimes e movimentos revolucionários nacionalistas e
sociais nos três continentes. Washington financiou e armou forças extremistas
islâmicas em todo o mundo, para invadirem e destruírem o regime secular e
modernizador apoiado pelos soviéticos no Afeganistão, com apoio logístico dos
militares e das agências de informação paquistanesas e a sustentação financeira
da Arábia Saudita.
A segunda intervenção por procuração foi no sul da África, onde o estado
imperial dos EUA financiou e armou forças por procuração contra os regimes
anti-imperialistas em Angola e Moçambique, em aliança com a África do Sul.
A terceira intervenção por procuração teve lugar na América Central, onde os
EUA financiaram, armaram e treinaram esquadrões da morte assassinos nos regimes
da Nicarágua, El Salvador, Guatemala e Honduras, para dizimarem movimentos
populares e revoltas armadas, resultando em mais de 300 mil mortes civis.
A “estratégia da procuração” do estado imperial dos EUA estendeu-se à América
do Sul: a CIA e o Pentágono apoiaram golpes militares que tiveram lugar no
Uruguai (general Alvarez), no Chile (general Pinochet), na Argentina (general
Videla), na Bolívia (general Banzer) e no Peru (general Morales). O crescimento
do império através de procuradores foi largamente por conta das empresas
multinacionais americanas que foram os principais atores no estabelecimento de
prioridades no estado imperial ao longo deste período.
A acompanhar as guerras por procuração, foram as invasões militares directas: a
pequena ilha de Granada (1983) e o Panamá (1989) com os presidentes Reagan e
Bush Sr. Alvos fáceis, com poucas baixas e despesas militares de baixo custo:
ensaios para o relançamento de operações militares de envergadura no futuro
próximo.
O que é notável sobre as “guerras por procuração” é a desigualdade de
resultados. Os resultados na América Central, no Afeganistão e em África não
conduziram a neocolónias prósperas, nem se provaram lucrativos para as empresas
multinacionais americanas. Pelo contrário, os golpes por procuração na América
do Sul levaram a privatizações em grande escala e lucros para essas empresas.
A guerra por procuração no Afeganistão levou ao crescimento e à consolidação do
“regime islâmico” Taliban, que se opôs tanto à influência soviética como à
expansão imperial dos EUA. O crescimento e consolidação do nacionalismo islâmico
desafiaram por sua vez os aliados dos EUA no sul da Ásia e na região do Golfo e
levaram depois a uma invasão militar americana em 2001 e a uma guerra prolongada
(15 anos) e ainda por concluir e, muito provavelmente, a uma retirada e derrota.
Os principais beneficiários económicos foram os clientes políticos do
Afeganistão, os “empreiteiros” militares mercenários americanos, os oficiais
militares intermediários e os administradores civis coloniais que pilharam
centenas de milhares de milhões do Tesouro dos EUA em transacções ilegais e
fraudulentas.
A pilhagem do Tesouro dos EUA não beneficiou de nenhuma forma as empresas
multinacionais não-militares. De facto, a guerra e o movimento de resistência
minaram qualquer entrada de maior escala e de longo prazo do capital privado dos
EUA no Afeganistão e nas regiões fronteiriças adjacentes do Paquistão.
A guerra por procuração no sul da África devastou as economias locais,
especialmente a economia agrícola nacional, deslocou milhões de trabalhadores e
agricultores, e privou as empresas petrolíferas americanas de penetração por
mais de duas décadas. O resultado “positivo” foi a desradicalização da anterior
elite revolucionária nacionalista. No entanto, a conversão política dos
“revolucionários” do sul da África ao neoliberalismo não beneficiou tanto as
empresas multinacionais dos EUA como os dirigentes transformados em oligarcas
cleptocráticos que montaram regimes patrimoniais em associação com uma colecção
diversificada de empresas multinacionais, especialmente da Ásia e Europa.
As guerras por procuração na América Central tiveram resultados diversos. Na
Nicarágua, a revolução sandinista derrotou o regime de Somoza apoiado pelos EUA
e Israel, mas enfrentaram logo de seguida um exército contra-revolucionário
mercenário, financiado, armado e treinado pelos EUA com base nas Honduras (os
“Contras”). A guerra dos EUA destruiu muitos dos projectos económicos
progressistas, minou a economia e mais tarde levou a uma vitória eleitoral da
cliente política apoiada pelos EUA Violeta Chamorro. Duas décadas mais tarde, os
procuradores dos EUA foram derrotados por uma coligação política desradicalizada
encabeçada pelos sandinistas.
Em El Salvador, na Guatemala e nas Honduras, as guerras dos EUA por procuração
levaram à consolidação de regimes clientes presidindo à destruição da economia
produtiva e à fuga de milhões de refugiados de guerra para os Estados Unidos. O
domínio imperial dos EUA corroeu as bases para um mercado de trabalho produtivo
que originou o crescimento de gangues da droga assassinos.
Em resumo, as guerras dos EUA por procuração conseguiram na maior parte dos
casos evitar o aparecimento de regimes nacionalistas de esquerda, mas levaram
também à destruição das bases económicas e políticas de um império estável e
próspero de neocolónias.
O Imperialismo Americano na América Latina: Mudança na Estrutura, Contingências
Externas e Internas, Alteração de Prioridades e Constrangimentos Globais
Para se entender as operações, a estrutura e o desempenho do imperialismo dos
EUA na América Latina, é necessário reconhecer a constelação específica de
forças em competição que conformaram as políticas do estado imperial. Ao
contrário do Médio-Oriente, onde a facção sionista-militarista conseguiu
hegemonia, na América Latina as empresas multinacionais desempenharam um papel
proeminente na direcção da política de estado imperial. Na América Latina, os
militaristas desempenharam um papel mais apagado, constrangidos por (1) o poder
das empresas multinacionais, (2) as mudanças no poder político na América Latina
da direita para o centro-esquerda e (3) o impacto das crises económicas e o boom
de mercadorias.
Em contraste com o Médio-Oriente, a configuração do poder sionista teve pouca
influência sobre a política de estado imperial, visto que os interesses de
Israel estão focados no Médio-Oriente e, com a possível excepção da Argentina, a
América Latina não é uma prioridade.
Durante mais de século e meio, as empresas multinacionais e os bancos
americanos dominaram e ditaram a política imperial dos EUA para a América
Latina. As forças armadas dos EUA e a CIA foram instrumentos de imperialismo
económico através da intervenção directa (invasões), “golpes militares” por
procuração ou uma combinação de ambos.
O poder económico imperial dos EUA na América Latina atingiu o pico entre
1975-1999. Os estados-vassalos e a clientela dirigente foram impostos através de
golpes militares por procuração, invasões militares directas (República
Dominicana, Panamá e Granada) e eleições controladas civil e militarmente.
Os resultados foram o desmantelamento do estado social e a imposição de
políticas neoliberais. O estado imperial conduzido pelas empresas multinacionais
e seus apêndices financeiros internacionais (FMI, BM, IDB) privatizou sectores
económicos estratégicos lucrativos, dominou o comércio e projectou um esquema de
integração regional que iria codificar o domínio imperial dos EUA.
A expansão económica imperial na América Latina não foi simplesmente um
resultado da dinâmica interna e das estruturas das corporações multinacionais,
mas dependeu de (1) a receptividade do país “hospedeiro” ou, mais precisamente,
da correlação interna das forças de classe na América Latina, que por sua vez
giravam à volta (2) do desempenho da economia – seu crescimento e
susceptibilidade às crises.
A América Latina demonstrou que contingências como a perda de regimes clientes
e classes colaboradoras podem ter um profundo impacto negativo na dinâmica do
imperialismo, minando o poder do estado imperial e invertendo o avanço económico
das empresas multinacionais.
O avanço do imperialismo económico americano durante o período 1975-2000 foi
manifesto na adopção de políticas neoliberais, na pilhagem de recursos naturais,
no aumento de dívida ilícita e na transferência do estrangeiro de milhares de
milhões de dólares. Contudo, a concentração de riqueza e propriedade precipitou
uma profunda crise socioeconómica através da região que mais tarde levou ao
derrube ou afastamento de colaboradores imperiais no Equador, na Bolívia, na
Venezuela, na Argentina, no Brasil, no Uruguai, no Paraguai e na Nicarágua.
Poderosos movimentos sociais anti-imperialistas, especialmente no campo,
emergiram no Brasil e nos países andinos. Movimentos urbanos de trabalhadores
desempregados e sindicatos de funcionários públicos na Argentina e no Uruguai
foram pontas de lança para alterações eleitorais, trazendo ao poder regimes de
centro-esquerda que “renegociaram” as relações com o estado imperial dos EUA.
A influência das multinacionais americanas na América Latina desapareceu. Não
podiam contar com a bateria completa de recursos militares do estado imperial
para intervir e voltar a impor clientes neoliberais devido às suas prioridades
militares noutros pontos: Médio-Oriente, sul da Ásia e norte de África.
Ao contrário do passado, as multinacionais americanas na América Latina não
tinham dois apoios essenciais do poder: o apoio completo das forças armadas dos
EUA e clientes civis-militares poderosos na América Latina.
O plano das empresas multinacionais americanas para a integração centrada nos
EUA foi rejeitado pelos regimes de centro-esquerda. O estado imperial voltou-se
para acordos de comércio livre bilaterais com o México, o Chile, a Colômbia, o
Panamá e o Peru. Como resultado das crises económicas e colapso da maior parte
das economias latino-americanas, o “neoliberalismo” como ideologia da penetração
económica imperial ficou desacreditado. Os advogados neoliberais foram
marginalizados.
As mudanças na economia mundial tiveram um profundo impacto no comércio entre
EUA e América Latina e nas relações de investimento. O dinâmico crescimento da
China e a subsequente explosão da procura e o aumento de preço das mercadorias
levaram a um súbito declínio do domínio americano dos mercados
latino-americanos.
O diversificado comércio dos estados latino-americanos procurou e conquistou
novos mercados estrangeiros, especialmente na China. O aumento dos rendimentos
da exportação criou maior capacidade para o autofinanciamento. O FMI, o BM e o
IDB, instrumentos económicos de alavancagem das imposições económicas americanas
(“condicionalidade”) foram postos de lado.
O estado imperial dos EUA enfrentou regimes latino-americanos que abraçaram
diferentes opções económicas, mercados e fontes de financiamento. Com poderoso
apoio popular interno e comando unificado civil-militar, a América Latina
moveu-se a pouco e pouco para fora da esfera de domínio imperialista dos EUA.
O estado imperial e as suas empresas multinacionais, profundamente
influenciadas pelo seu “êxito” nos anos 90, responderam ao declínio de
influência continuando por “tentativa e erro” em face dos constrangimentos
negativos do séc. XXI. Os estrategas políticos apoiados pelas empresas
multinacionais do estado imperial continuaram a apoiar os regimes neoliberais em
colapso, perdendo toda a credibilidade na América Latina. O estado imperial
falhou na adaptação às mudanças, agudizando a oposição de regimes populares e de
centro-esquerda aos “livre mercados” e à desregulação dos bancos. Não foi
preparado qualquer programa de ajuda económica de grande escala para vencer o
centro-esquerda que fosse comparável ao esforço do presidente Kennedy para
contrariar a atracção revolucionária da revolução cubana pela promoção de
reformas sociais através da “Aliança para o Progresso”, provavelmente devido a
restrições orçamentais resultantes das dispendiosas guerras noutros pontos.
A queda dos regimes neoliberais, cola que mantinha unidas as diversas facções
do estado imperial, levou a propostas rivais sobre como recuperar o domínio. A
“facção militarista” virou-se para e reviveu a fórmula do golpe militar para a
restauração desse domínio: foram organizados golpes na Venezuela, no Equador, na
Bolívia, nas Honduras e no Paraguai… todos derrotados com excepção dos dois
últimos. A derrota dos procuradores dos EUA levou à consolidação dos regimes de
centro-esquerda independentes e anti-imperialistas. Mesmo o “êxito” do golpe
americano nas Honduras resultou numa grande derrota diplomática, visto que todos
os governos o condenaram e ao papel dos EUA, isolando ainda mais Washington na
região.
A derrota da estratégia militarista deu força à facção político-diplomática do
estado imperial. Com aberturas positivas a regimes ostensivamente
“centro-esquerda”, esta facção ganhou peso diplomático, manteve as ligações
militares e aprofundou a expansão das empresas multinacionais no Uruguai, no
Brasil, no Chile e no Peru. Com os dois últimos países, a facção imperialista
económica do estado imperial garantiu acordos bilaterais de comércio livre.
Uma terceira facção multinacionais-militar, sobrepondo-se às outras duas,
combinou arranjos político-diplomáticos com Cuba com uma estratégia agressiva de
desestabilização política visando a “mudança de regime” (golpe) na Venezuela.
A heterogeneidade das facções do estado imperial e das suas orientações rivais
reflecte a complexidade de interesses envolvidos no crescimento do império na
América Latina e resulta em políticas aparentemente contraditórias, fenómeno
menos evidente no Médio-Oriente onde a configuração de poder
militarista-sionista domina a decisão política imperial.
Por exemplo, a promoção de bases militares e de operações de contra-revolução
na Colômbia (prioridade da facção militarista) é acompanhada por acordos
bilaterais de livre comércio e negociações de paz entre o regime de Santos e a
revolução armada das FARC (prioridade da facção multinacionais).
A recuperação do domínio imperial na Argentina envolve (1) promover as
possibilidades eleitorais do governador neoliberal de Buenos Aires, Macri, (2)
apoiar o conglomerado de meios de comunicação pró-imperiais Clarin a resistir à
legislação que acaba com o seu monopólio, (3) explorar a morte do procurador e
colaborador da CIA-Mossad Alberto Nisman, para desacreditar o regime
Kirchner-Fernandez, e (4) apoiar o fundo de investimento (abutre) dos
especuladores de New York que tenta extrair pagamentos de juros exorbitantes e,
com a ajuda de duvidosa doutrina jurídica, bloquear o acesso da Argentina aos
mercados financeiros.
Tanto a facção militarista, como a das multinacionais do estado imperial
convergem no apoio à estratégia de múltiplo efeito eleitoral-golpista, que
procura restaurar no poder regimes neoliberais controlados pelos EUA.
As contingências que evitaram a recuperação do poder imperial na década passada
estão agora a actuar ao contrário. A baixa nos preços das mercadorias
enfraqueceu os regimes pós-neoliberais na Venezuela, na Argentina e no Equador.
O retrocesso dos movimentos anti-imperialistas resultante da táctica de
co-optação do centro-esquerda fortaleceu os movimentos e manifestantes de rua de
direita apoiados pelo estado imperial. O declínio do crescimento chinês
enfraqueceu as estratégias latino-americanas de diversificação de mercados. A
balança interna das forças de classe inclinou-se para a direita, para os
clientes políticos apoiados pelos EUA no Brasil, na Argentina, no Peru e no
Paraguai.
Reflexões Teóricas sobre o Crescimento do Império na América Latina
O crescimento do império americano na América Latina é um processo cíclico,
reflectindo as mudanças no poder político e a reestruturação da economia mundial
– forças e factores que “ultrapassam” o estado imperial e a tendência do capital
para a acumulação. A acumulação e a expansão do capital não dependem
simplesmente das forças impessoais “do mercado”, porque as relações sociais sob
as quais o “mercado” funciona operam segundo as condições da luta de classes.
A peça central das actividades do estado imperial, designadamente as guerras
territoriais prolongadas no Médio-Oriente, está ausente da América Latina. A
força motriz da política do estado imperial dos EUA é a procura de recursos
(agrominerais), força de trabalho (autotrabalhadores de baixo salário) e
mercados (dimensão e poder de compra de 600 milhões de consumidores). Os
interesses económicos das empresas multinacionais são a razão da expansão
imperial.
Ainda que, de um ponto de vista da vantagem geostratégica, as Caraíbas, a
América Central e também a América do Sul estejam localizadas bastante próximo
dos EUA, são os objectivos económicos e não militares os que predominam.
Contudo, a facção militar-sionista do estado imperial ignora estas razões
económicas tradicionais e escolhe deliberadamente actuar segundo outras
prioridades – controle das regiões produtoras de petróleo, destruição de países
ou movimentos islâmicos, ou simplesmente eliminação de adversários
anti-imperialistas. A facção militar-sionista conta os “benefícios” para Israel
e a supremacia militar no Médio-Oriente mais importantes do que garantir a
supremacia económica dos EUA na América Latina. É este claramente o caso, se
medirmos as prioridades imperiais pelos recursos estatais despendidos na
prossecução de objectivos políticos.
Mesmo considerando o objectivo da “segurança nacional”, interpretada no seu
sentido mais vasto de garantir a segurança do território nacional do império, o
assalto militar americano aos países islâmicos impulsionado pela correspondente
ideologia islamofóbica, as resultantes matanças em massa e a deslocação de
milhões nos povos islâmicos levaram a um efeito de resposta: o terrorismo
recíproco. As “guerras totais” americanas contra civis provocaram assaltos
islâmicos contra cidadãos ocidentais.
Os países da América Latina visados pelo imperialismo económico são menos
beligerantes do que os países do Médio-Oriente visados pelos militaristas dos
EUA. Uma análise custo/benefício demonstraria a natureza totalmente “irracional”
da estratégia militarista. Contudo, se tivermos em consideração a composição
específica e os interesses que motivam particularmente os estrategas políticos
do estado imperial, há uma espécie de “racionalidade” perversa. Os militaristas
defendem a “racionalidade” das dispendiosas e infindáveis guerras referindo as
vantagens da apropriação das “portas do petróleo” e os sionistas referem o seu
êxito no aumento do poder regional de Israel.
Enquanto a América Latina foi durante mais de um século uma região prioritária
para a conquista económica do império, no século XXI perdeu a sua primazia para
o Médio-Oriente.
O Desaparecimento da URSS e a conversão da China ao Capitalismo
O maior impulso para o êxito da expansão imperial americana não teve lugar
através de guerras por procuração ou invasões militares. Em vez disso, o império
dos EUA atingiu o seu maior crescimento e conquistas com a ajuda de líderes
políticos clientes e de organizações e estados vassalos ao longo da ex-URSS, da
Europa ocidental, dos estados bálticos, dos Balcãs e do Cáucaso. A penetração
política a longo prazo e em larga escala dos EUA e da UE junto com financiamento
conseguiram derrubar os regimes colectivistas hegemónicos na Rússia e na URSS e
instalar estados-vassalos. Iriam rapidamente servir a NATO e ser incorporados na
União Europeia. Bonn anexou a Alemanha Oriental e dominou os mercados da
Polónia, República Checa e outros estados centro-europeus. Os banqueiros dos EUA
e de Londres colaboraram com os oligarcas-gangsters russo-israelitas em
parcerias pilhadoras de recursos, de indústrias, de propriedades e de fundos de
pensão. A União Europeia explorou dezenas de milhões de cientistas, técnicos e
operários altamente qualificados, importando-os e privando-os das suas
protecções e direitos laborais e explorando-os como reserva barata de força de
trabalho no seu próprio país.
O “convidado imperialismo”, recebido pelo regime vassalo de Ieltsin,
apropriou-se facilmente da riqueza russa. As forças militares do ex-Pacto de
Varsóvia foram incorporadas numa legião estrangeira para guerras imperiais
americanas no Afeganistão, no Iraque e na Síria. As instalações militares foram
convertidas em bases militares e bases de mísseis cercando a Rússia.
A conquista imperial do Leste criou um “mundo unipolar” no qual os decisores e
os estrategas de Washington, como poder mundial supremo, acreditaram poder
intervir em qualquer região impunemente.
O alcance e profundidade do império mundial dos EUA foi ampliado pela adopção
do capitalismo pela China e pelo convite dos seus dirigentes às empresas
multinacionais dos EUA e da UE para entrarem e explorarem o trabalho barato dos
chineses. A expansão global do império americano conduziu a um poder sem limites
encorajando os seus dirigentes para exercerem poder contra qualquer adversário
ou competidor.
Entre 1990 e 2000, os EUA expandiram as suas bases militares até às fronteiras
da Rússia. As empresas multinacionais americanas expandiram-se para a China e
Indochina. Os regimes apoiados pelos americanos na América Latina desmantelaram
as economias nacionais, privatizando e desnacionalizando mais de cinco mil
empresas estratégicas lucrativas. Todos os sectores foram afectados: recursos
naturais, transportes, telecomunicações e finança.
Os EUA continuaram ao longo dos anos 90 a expandir-se através de penetração
política e força militar. O presidente George H.W. Bush desencadeou uma guerra
contra o Iraque. Clinton bombardeou a Jugoslávia e a Alemanha e a UE juntaram-se
aos EUA na divisão da Jugoslávia em “mini-estados”.
O Ano-charneira de 2000: Auge e Declínio do Império
A expansão imperial muito rápida e extensa entre 1989-1999, as fáceis
conquistas e as correspondentes pilhagens, criaram as condições para o declínio
do império americano.
O saque e empobrecimento da Rússia levou à ascensão de uma nova liderança com a
vontade do presidente Putin de reconstruir o Estado e a economia e acabar com a
vassalagem.
A liderança chinesa transformou a sua dependência do Ocidente em investimentos
de capital e tecnologia em instrumentos de criação de uma poderosa economia
exportadora e crescimento de um dinâmico complexo produtivo público-privado
nacional. Os centros imperiais da finança que floresceram sob uma regulação
laxista faliram. As fundações nacionais do império foram severamente abaladas. A
máquina de guerra imperial rivalizou com o sector financeiro para os subsídios e
despesas orçamentais federais.
O fácil crescimento do império levou à sua sobre-extensão. Múltiplas áreas de
conflito, reflectiram um ressentimento e uma hostilidade globais perante a
destruição trazida pelos bombardeamentos e pelas invasões. Os clientes políticos
e colaboradores do império enfraqueceram. O império mundial excedeu a capacidade
dos EUA policiarem com êxito os seus novos estados-vassalos. Os entrepostos
coloniais exigiram novas incorporações de tropas, armas e fundos numa altura em
que pressões internas contrárias pediam a redução de gastos e a retirada.
Todas as conquistas recentes fora da Europa foram dispendiosas. O sentimento de
invencibilidade e impunidade levaram os planificadores imperiais a sobrestimar a
sua capacidade de expansão, manutenção, controle e contenção da inevitável
resistência anti-imperialista.
As crises e o colapso dos estados-vassalos neoliberais na América Latina
aceleraram. Levantamentos anti-imperialistas espalharam-se da Venezuela (1999),
para a Argentina (2001), Equador (2000-2005) e Bolívia (2003-2005). Regimes de
centro-esquerda emergiram no Brasil, Uruguai e Honduras. Movimentos de massas em
regiões rurais entre comunidades índias e mineiras ganharam impulso. Os planos
imperiais formulados para garantir a integração com base nos EUA foram
rejeitados. Em vez disso, proliferaram os pactos regionais com exclusão dos EUA
– ALBA, UNASUR, CELAC. A rebelião interna da América Latina coincidiu com a
ascensão económica da China. O surto prolongado de mercadorias enfraqueceu
seriamente a supremacia imperial dos EUA. Os EUA tinham poucos aliados locais na
América Latina e compromissos super ambiciosos para o controle do Médio-Oriente,
do sul da Ásia e do norte de África.
Washington perdeu a maioria automática na América Latina: o seu apoio a golpes
nas Honduras e no Paraguai, a sua intervenção na Venezuela (2002) e o bloqueio a
Cuba foram repudiados por todos os regimes, mesmo pelos aliados conservadores.
Tendo estabelecido facilmente um império global, Washington deu-se conta de que
não era tão fácil defendê-lo. Os estrategas globais em Washington encararam as
guerras do Médio-Oriente através do prisma das prioridades militares israelitas,
ignorando os interesses económicos globais das empresas multinacionais.
Os estrategas militares imperiais sobrestimaram a capacidade militar dos
vassalos e clientes, mal preparados por Washington para governarem países com
crescentes movimentos de resistência nacional armada. Guerras, invasões e
ocupações militares foram iniciadas em múltiplos sítios. Iémen, Somália, Líbia e
Paquistão juntaram-se ao Afeganistão e ao Iraque. As despesas do estado imperial
dos EUA ultrapassaram de longe toda a transferência de riqueza a partir dos
países ocupados.
Uma vasta burocracia civil-militar-mercenária pilhou centenas de milhares de
milhões de dólares do Tesouro americano.
A prevalência das guerras de conquista destruiu as fundações da infra-estrutura
económica necessária para a entrada e para o lucro das empresas multinacionais.
Uma vez entrincheirada nas concepções militares estratégicas do império, a
liderança político-militar do estado imperial preparou uma ideologia global para
justificar e motivar uma política de guerra múltipla e permanente. A doutrina da
“guerra ao terrorismo” justificou a guerra em todo e qualquer lado. A doutrina
era “elástica” – adaptada a qualquer região de conflito e convidando a novos
envolvimentos militares: o Afeganistão, a Líbia, o Irão e o Líbano foram todos
designados como zonas de guerra. A “doutrina do terrorismo”, de alcance global,
forneceu uma justificação para múltiplas guerras e para a destruição massiva (e
não a exploração) de sociedades e recursos económicos. Acima de tudo, a “guerra
ao terrorismo” justificou tortura (Abu Ghraib), campos de concentração
(Guantánamo) e alvos civis em todo o lado (via drones). Foram retiradas e depois
reenviadas tropas para o Afeganistão e Iraque quando a resistência nacionalista
avançou. Milhares de Forças Especiais estiveram activas em inúmeros países,
espalhando a morte e o caos.
Além disso, a deslocação violenta, a degradação e a estigmatização de povos
islâmicos inteiros levaram à difusão da violência nos centros imperiais de
Paris, Nova Iorque, Londres, Madrid e Copenhaga. A globalização do terror do
estado imperial conduziu ao terror individual.
O terror imperial suscitou o terror interno: o primeiro à escala das massas
sustentadamente abrangendo civilizações inteiras e conduzido e justificado por
funcionários políticos eleitos e autoridades militares, o último através de um
entrecruzar de “internacionalistas” que se identificam directamente com as
vítimas do terror do estado imperial.
O Imperialismo Contemporâneo: Perspectivas Atuais e Futuras
Para perceber o futuro do imperialismo americano, é importante recapitular e
avaliar a experiência e as políticas do passado quarto de século.
Se compararmos o crescimento do império americano entre 1990 e 2015, é evidente
o seu declínio económico, político e mesmo militar na maior parte das regiões do
mundo, embora o processo de declínio não seja linear, nem provavelmente
irreversível.
Apesar das palavras em Washington sobre a reconfiguração das prioridades
imperiais de forma a ter em conta os interesses económicos das multinacionais,
pouco foi conseguido… O chamado “pivot da Ásia” de Obama resultou em novos
acordos sobre bases militares à volta da China com o Japão, a Austrália e as
Filipinas e reflecte uma inabilidade para realizar acordos de comércio livre que
excluem a China. Entretanto, os EUA recomeçaram militarmente a guerra e
reentraram no Iraque e no Afeganistão, além de lançarem novas guerras na Síria e
na Ucrânia. É evidente que a primazia da facção militar é ainda o factor
determinante no desenho das políticas do estado imperial.
A deriva militar imperial é mais evidente na intervenção dos EUA em apoio ao
golpe da Ucrânia e no subsequente financiamento e armamento da junta de Kiev. A
tomada imperial da Ucrânia e os planos para a sua incorporação na UE e na NATO
representam agressão militar na sua forma mais descarada. A expansão das bases
militares americanas, as manobras militares nas fronteiras da Rússia e as
sanções económicas iniciadas pelos EUA prejudicaram seriamente o comércio e o
investimento da UE na Rússia. O crescimento do império americano continua a dar
prioridade à expansão militar mesmo à custa dos interesses económicos imperiais
do Ocidente na Europa.
Os bombardeamentos da Líbia pelos EUA e UE destruíram os florescentes acordos
de comércio e investimento entre as multinacionais imperiais do petróleo e do
gás e o governo de Khadafi… Os assaltos aéreos da NATO destruíram a economia, a
sociedade e o ordenamento político, convertendo a Líbia num território dominado
por clãs guerreiros, gangues, terroristas e criminosos armados.
No meio século que passou, a liderança e as estratégias políticas do estado
imperial mudaram completamente. Durante o período entre 1975-1990, as empresas
multinacionais desempenharam um papel central na definição da direcção da
política do estado imperial: alavancando mercados na Ásia, negociando aberturas
de mercados com a China, promovendo e apoiando regimes militares e civis
neoliberais na América Latina, instalando e financiando regimes pró-capitalistas
na Rússia, na Europa de Leste, no Báltico e nos Balcãs. Mesmo nos casos em que o
estado imperial recorria à intervenção militar, como na Jugoslávia e Iraque, os
bombardeamentos levaram a oportunidades favoráveis economicamente para as
empresas multinacionais americanas. O regime de Bush Sr promoveu os interesses
americanos no petróleo através de um acordo de comida por petróleo com Saddam
Hussein no Iraque.
Clinton promoveu regimes de livre mercado nos mini-estados resultantes do
desmembramento da Jugoslávia socialista.
Contudo, a liderança e as políticas do estado imperial mudaram dramaticamente
durante os últimos anos 90 para a frente. O estado imperial do presidente
Clinton era composto por representantes de longa data das empresas
multinacionais, banqueiros da Wall Street e funcionários sionistas militaristas
em recente ascensão.
O resultado foi uma política híbrida na qual o estado imperial promoveu
activamente oportunidades para as empresas multinacionais em regimes neoliberais
nos países ex-comunistas da Europa e na América Latina e expandiu as ligações
dessas empresas com a China e o Vietnam, enquanto lançou intervenções militares
destrutivas na Somália, na Jugoslávia e no Iraque.
O “balanço de forças” dentro do estado imperialista mudou dramaticamente a
favor da facção militarista-sionista com o ataque terrorista do 11 de Setembro
de duvidosa origem e as demolições de falsa bandeira em Nova Iorque e Washington
serviram para firmar os militaristas no controle de um aparelho de estado
imperial vastamente expandido. Como consequência do 11 de Setembro, a facção
militarista-sionista do estado imperial subordinou os interesses das empresas
multinacionais à sua estratégia de guerras totais. Isto, por sua vez, levou à
invasão, ocupação e destruição das infra-estruturas civilizacionais no Iraque e
no Afeganistão (em vez de a ligar à expansão das empresas multinacionais). O
regime colonial dos EUA desmantelou o estado iraquiano (em vez de o reordenar ao
serviço das empresas multinacionais). O assassinato e emigração forçada de
milhões de profissionais especializados, gestores e oficiais da polícia e do
exército inviabilizou qualquer recuperação económica (em vez de os incorporar ao
serviço do estado colonial e das empresas multinacionais).
A ascendência militarista-sionista no estado imperial introduziu alterações
importantes na política, na orientação, nas prioridades e no modus operandi do
imperialismo americano. A ideologia da “guerra global ao terrorismo” substituiu
a doutrina de promoção da “globalização económica” das multinacionais.
As guerras perpétuas (os “terroristas” não ficaram confinados a determinado
lugar ou época) substituíram as guerras ou intervenções limitadas dirigidas para
a abertura de mercados ou a mudança de regimes que pusessem em prática políticas
neoliberais favoráveis às empresas multinacionais.
O locus da actividade do estado imperial mudou da exploração de oportunidades
económicas na Ásia, na América Latina e nos países ex-comunistas da Europa de
Leste para as guerras no Médio-Oriente, no sul da Ásia e no norte de África,
visando países muçulmanos que se opõem à expansão colonial de Israel na
Palestina, na Síria, no Líbano e noutras zonas.
A nova concepção da configuração do crescimento do império do poder militarista
requer vastas despesas de milhões de milhões de dólares, sem atender ou pensar
no retorno de capital privado. Em contraste, sob a hegemonia das multinacionais,
o estado imperial intervinha para assegurar as concessões de petróleo, gás e
minerais na América Latina e no Médio-Oriente. Os custos da conquista militar
eram mais do que compensados pelo retorno para as empresas multinacionais. A
configuração militarista do estado imperial pilhou o Tesouro dos EUA para
financiar as ocupações, o vasto exército de colaboradores coloniais corruptos,
os “empreiteiros militares” de mercenários privados e, rapidamente milionários,
os funcionários do aprovisionamento (sic) militar americano.
Anteriormente, a exploração ultramarina dirigida para as empresas
multinacionais conduzia a elevado retorno para o Tesouro dos EUA, tanto em
termos de pagamento de taxas directas, como no rendimento gerado no comércio e
processamento de matérias-primas.
Na passada década e meia, os maiores e mais estáveis retornos para as empresas
multinacionais tiveram lugar em regiões e países onde o estado imperial
militarizado esteve menos envolvido – China, América Latina e Europa. As
multinacionais tiveram menos lucros e perderam mais em áreas de maior
envolvimento do estado imperial.
As “zonas de guerra” que se estenderam pela Líbia, Somália, Líbano, Síria,
Iraque, Ucrânia, Irão e Afeganistão e Paquistão são as regiões onde as empresas
multinacionais imperiais sofreram maior declínio e abandono.
Os principais “beneficiários” das actuais políticas do estado imperial são os
empreiteiros de guerra e o complexo segurança-militar-industrial nos EUA. No
estrangeiro, beneficiários estatais incluem Israel e a Arábia Saudita… Além
desses, os governantes-clientes da Jordânia, Egipto, Iraque, Afeganistão e
Paquistão encaixaram dezenas de milhares de milhões em contas bancárias privadas
em paraísos fiscais.
Os beneficiários “não-estatais” incluem mercenários e exércitos de procuração.
Na Síria, no Iraque, na Líbia, na Somália e na Ucrânia, dezenas de milhares de
colaboradores das organizações “não-governamentais” também se aproveitaram.
O Cálculo Custo-Benefício ou o Crescimento do Império sob a Égide do Estado
Imperial Militarista-Sionista
Passou já tempo suficiente sobre a última década e meia de domínio
militarista-sionista do estado imperial para que possa ser feita a avaliação do
seu desempenho
Os EUA e seus aliados ocidentais, em especial a Alemanha, expandiram com êxito
o seu império na Europa de Leste, nos Balcãs e no Báltico sem dispararem um
tiro. Estes países foram convertidos em estados vassalos da UE. Os seus mercados
foram dominados e as suas indústrias desnacionalizadas. As forças armadas foram
recrutadas como mercenárias da NATO. A Alemanha Ocidental anexou a Alemanha
Oriental. Força de trabalho qualificada e barata fez, como imigrante e força de
reserva, aumentar os lucros das multinacionais da UE e dos EUA. A Rússia ficou
temporariamente reduzida a estado vassalo entre 1991-2001. O seu nível de vida
afundou-se e os programas sociais foram reduzidos. As desigualdades entre
classes aprofundaram-se. Milionários e multimilionários apanharam os recursos
públicos e juntaram-se às multinacionais imperiais pilhando a economia. Os
dirigentes e partidos socialistas e comunistas foram reprimidos ou cooptados. Em
contraste, a expansão imperial militar do séc. XXI foi um falhanço ruinoso. A
“guerra no Afeganistão” foi dispendiosa em vidas e bens e levou a uma retirada
ignominiosa. O que ficou foi um frágil regime-fantoche e um corpo militar
mercenário pouco fiável. A guerra EUA-Afeganistão foi a mais longa guerra da
história dos EUA e um dos seus maiores falhanços. No final, os movimentos de
resistência nacionalista islâmicos, os chamados talibã e os grupos aliados de
resistência nacionalista anti-imperialista e etno-religiosos, dominam o campo,
penetram repetidamente e atacam centros urbanos e preparam-se para tomar o
poder.
A guerra do Iraque e a invasão e ocupação de uma década pelo estado imperial
dizimaram a economia. A ocupação fomentou a guerra etno-religiosa. Os
funcionários civis do Bath e os militares profissionais juntaram-se aos
islamitas nacionalistas e formaram depois um poderoso movimento de resistência
(ISIS) que derrotou o exército mercenário Shia apoiado pelo império durante a
segunda década da guerra. O estado imperial foi forçado a regressar e a
envolver-se directamente numa guerra prolongada. O custo da guerra disparou para
mais de 1 milhão de milhões de dólares. A exploração do petróleo tornou-se mais
difícil e o Tesouro dos EUA despejou dezenas de milhares de milhões para manter
uma “guerra sem fim”.
O estado imperial americano e a UE, junto com a Arábia Saudita e a Turquia
financiaram milícias armadas mercenárias islâmicas para invadirem a Síria e
destruírem o regime secular, nacionalista e anti-sionista de Bashar Assad. A
guerra imperial abriu as portas à expansão do Estado Islâmico / forças do Bath /
ISIS na Síria. Os curdos e outros grupos armados apoderaram-se do território,
fragmentando o país. Após cerca de 5 anos de guerra e custos militares
crescentes, as multinacionais dos EUA e da UE foram expulsas do mercado sírio.
O apoio dos EUA à agressão de Israel contra o Líbano levou ao aumento de poder
da resistência armada anti-imperialista do Hezbollah. O Líbano, a Síria e o Irão
representam agora uma alternativa séria ao eixo EUA, EU, Arábia Saudita, Israel.
A política americana de sanções contra o Irão não conseguiu minar o regime
nacionalista e comprometeu totalmente as oportunidades económicas de todas as
principais empresas multinacionais do petróleo e gás dos EUA e UE, assim como
dos exportadores industriais americanos. Foram substituídas pela China.
A invasão da Líbia pelos EUA e UE levou à destruição da economia e à perda de
milhares de milhões de investimentos das multinacionais e ao fim das
exportações.
A tomada do poder pelo estado imperial dos EUA através de um golpe por
procuração em Kiev, provocou uma poderosa revolta anti-imperialista conduzida
pela milícia armada no Leste (Donetsk e Luhansk) e ao dizimar da economia da
Ucrânia.
Em resumo, a tomada de poder militar-sionista do estado imperial levou a
guerras prolongadas e onerosas que não se podem vencer e que minaram os mercados
e os locais de investimento para as empresas multinacionais americanas. O
militarismo imperial minou a presença económica imperial e provocou movimentos
crescentes de resistência anti-imperialista de longo prazo, assim como países
inviáveis, caóticos e instáveis fora do controle imperial.
O imperialismo económico continuou a aproveitar-se em parte da Europa, da Ásia,
da América Latina e de África, apesar das guerras imperiais e das sanções
económicas prosseguidas pelo altamente militarizado estado imperial noutros
sítios.
No entanto, a tomada do poder na Ucrânia pelos militaristas americanos e as
sanções contra a Rússia corroeram o lucrativo mercado e os investimentos da
União Europeia na Rússia. A Ucrânia tutelada pelo FMI, UE e EUA tornou-se uma
economia endividada e quebrada conduzida por cleptocratas totalmente dependentes
de empréstimos estrangeiros e da intervenção militar.
O estado imperial militarizado, ao dar prioridade ao conflito e às sanções à
Rússia, Irão e Síria, perdeu no aprofundamento e expansão dos laços económicos
com a Ásia, a América Latina e África. A conquista política e económica da
Europa de Leste e partes da URSS perdeu significado. As guerras perpétuas e
perdidas no Médio-Oriente, norte de África e Cáucaso enfraqueceram a capacidade
do estado imperial para o crescimento do império na Ásia e na América Latina.
O esbanjar de riqueza e o custo das guerras perpétuas erodiram as fundações
eleitorais do crescimento do império. Só uma alteração fundamental na composição
do estado imperial e uma reorientação de prioridades no sentido de se centrar na
expansão económica pode alterar o actual declínio do império. O perigo é que, à
medida que o estado imperial militarista sionista continue a perder guerras,
possa entrar em escalada, aumente a parada e se decida a uma grande confrontação
nuclear: um império no meio de cinzas nucleares!
Tradução: Jorge Vasconcelos
In
O Diário.info
http://www.odiario.info/?p=3618
16/4/2015
quarta-feira, 15 de abril de 2015
"Os EUA combaterão pelo Donbass até ao último ucraniano"
"Os EUA combaterão pelo Donbass até ao último ucraniano"
por Leonid Reshetnikov [*]
Na periferia a Norte de Moscovo, sob a protecção confiável das tropas do
interior, esconde-se o antigamente secreto Instituto do Serviço de
Inteligência Estrangeira. Agora, as letras douradas "Instituto Russo de
Estudos Estratégicos" estão afixadas à entrada. Mas o nome pacífico não
confunde aqueles que estão a par – mais de 200 funcionários forjam aqui o
escudo analítico da Mãe Pátria. Haverá uma nova guerra no Sudeste da
Ucrânia? Quem está por trás do presidente dos EUA? Por que tantos entre os
nossos responsáveis podem ser chamados de agentes ideológicos de
influência? Estas e outras perguntas de "AN" foram respondidas pelo
director do RISS, o tenente-general na reserva Leonid Reshetnikov.
Rivais do mesmo campo
– Você já teve um "tecto" sério, o SVR . Por que é que eles subitamente o
desclassificaram?
– Na verdade, éramos um instituto fechado de inteligência estrangeira, o
qual era especializado sobretudo em analisar a informação disponível no
exterior próximo e remoto. Ou seja, a informação que não só é necessária
ao serviço de inteligência como também às estruturas que determinam a
política externa do país. Por incrível que pareça, não havia centros
analíticos semelhantes na administração presidencial (AP) russa. Muito
embora houvesse grande quantidade de "instituições" nas quais há apenas o
director, a secretária e a esposa do director que trabalha como analista.
À AP faltava especialistas sérios e assim o serviço de inteligência tinha
de ser compartilhado.
Hoje o nosso fundador é o presidente da Rússia e todos os pedidos de
investigação do governo são assinados pelo chefe da administração, Sergey
Ivanov.
– Quantos pedem as vossas análises? Pois somos um país do papel: toda a
gente escreve, escreve um bocado – mas será que isso influencia o
resultado final?
– Por vezes vemos acções que reflectem nossos documentos analíticos.
Algumas vezes é impressionante quando se avançam certas ideias e elas se
transformam numa tendência da opinião pública russa. É claro que nessa
altura muitas orientações estão maduras para serem prosseguidas.
– Algo semelhante é feito nos EUA pelo centro analítico Stratfor e pelo
centro de investigação estratégica Rand Corporation. Qual deles é o
melhor?
– Quando, após a transição para a AP, em Abril de 2009, elaborámos o novo
estatuto do Instituto, sugeriram-nos que utilizássemos o seu exemplo.
Pensei então: "se nos financiarem como o Stratfor ou a Rand Corporation
são financiados, então bateremos todas estas companhias analíticas
estrangeiras". Porque os analistas russos são os mais fortes do mundo.
Especialmente especialistas regionais, os quais têm cérebros mais
"frescos", não contaminados. Posso falar acerca disto confidencialmente,
ao cabo de 33 anos de experiência de trabalho analítico. A princípio no
Primeiro Directório Principal do KGB da URSS e depois no Serviço de
Inteligência Estrangeira (SVR).
ONGs, ONGs, onde nos levam
– É bem sabido que a Rand Corporation desenvolveu para a Ucrânia o plano
Anti-Terrorist Operation (ATO) no Sudeste do país. O seu Instituto
informou acerca da Ucrânia e, em particular, acerca da Crimeia?
– Naturalmente. A princípio, apenas dois institutos estavam dedicados à
Ucrânia: o IRSS e o Instituto dos Países CIS de Konstantin Zatulin. Desde
o início do nosso trabalho escrevemos documentos analíticos sobre o
crescimento do sentimento anti-russo na Ucrânia e sobre o fortalecimento
do sentimento pró-russo na Crimeia. Analisámos as acções das autoridades
ucranianas. Mas sem informação alarmista de que tudo estava perdido, ao
invés chamámos a atenção para o crescimento do problema.
Propusemos intensificar significativamente o trabalho de organizações não
governamentais (ONGs) pró-russas, intensificar, como eles dizem agora, a
pressão através da política do "soft power".
– Com um embaixador como Zurabov não precisamos de quaisquer inimigos!
– O trabalho de qualquer embaixada e de qualquer embaixador está sujeito a
um certo número de limitações. Um passo para o lado – e há um escândalo.
Mais, há um enorme problema com pessoal profissional no país. E não apenas
no campo da diplomacia. De certo modo esgotamos os stocks – muito poucas
pessoas com um foco forte permanecem ao serviço do governo.
É difícil super-estimar o papel das ONGs. As revoluções coloridas são um
exemplo claro e elas são acalentadas primariamente pelas organizações
americanas. Isto aconteceu também na Ucrânia. Infelizmente, não foi de
facto dada atenção à criação e ao apoio de tais organizações que actuariam
conforme os nossos interesses. E se elas funcionassem, então poderiam
substituir dez embaixadas e dez embaixadores, mesmo aqueles muito
talentosos. Agora a situação começou a mudar, a seguir a uma ordem
directa do presidente. Esperemos que os subordinados não enfraqueçam este
desenvolvimento.
Se haverá guerra amanhã
– Como pensa que os acontecimentos na Novorússia se desenvolverão na
Primavera e Verão próximos? Será que haverá uma nova campanha militar?
– Infelizmente, a probabilidade é muito alta. Apenas há um ano atrás, a
ideia de federalizar a Ucrânia podia funcionar. Mas agora Kiev só precisa
da guerra. Só um estado unitário. Por várias razões. A principal é que o
país é agora dirigido por pessoas ideologicamente anti-russas, as quais
não são simplesmente subordinadas a Washington, mas realmente estão
compradas e são pagas por aquelas forças que se ocultam por trás do
governo dos EUA.
– E o que é que este notório "governo mundial" precisa?
– É mais fácil dizer o que eles não precisam: eles não precisam de uma
Ucrânia federal, pois tal território seria difícil de controlar. Será
impossível instalar ali suas bases militares, um novo escalão ABM . E
tais planos existem. A partir de Lugansk e Kharkov, mísseis tácticos de
cruzeiro podem alcançar até atrás dos Urais, onde estão localizadas nossas
principais forças de dissuasão nuclear. E eles podem atingir mísseis
baseados em silos e em veículos rodoviários durante a trajectória de
ascensão com uma probabilidade de 100%. Actualmente esta área não é
atingível por eles nem a partir da Polónia nem da Turquia nem do Sudeste
da Ásia. Isto é o objectivo principal. Assim, os EUA combaterão pelo
Donbass até ao último ucraniano.
– Então o que está em causa não são as reservas de gás de xisto que foram
descobertas neste território?
– O seu objectivo estratégico principal é uma Ucrânia unitária sob seu
pleno controle para combater a Rússia. E o gás de xisto ou terras aráveis
são apenas um bónus agradável. Ganho colateral. Mais um grave ataque ao
nosso complexo industrial e militar (CIM) devido ao corte das ligações
entre o CIM da Ucrânia e o da Rússia. Isto já foi cumprido.
– Fomos ultrapassados: o "filho da puta" do Yanukovich teve de ser
evacuado com a ajuda dos Spetsnaz e Washington instalou os seus próprios
"filhos da puta"?
– Do ponto de vista estratégico-militar, fomos certamente ultrapassados. A
Rússia obteve uma "compensação" – a Crimeia. Há outra "compensação" – a
resistência dos residentes no Sudeste da Ucrânia. Mas o inimigo já obteve
um enorme território, o qual era parte da União Soviética e do Império
Russo.
– O que é que vamos ver na Ucrânia este ano?
– O processo de semi-desintegração ou mesmo absoluta desintegração. Muitos
ainda estão silenciosos face ao genuíno nazismo. Mas as pessoas que
entendem que a Ucrânia e a Rússia estão fortemente conectadas ainda não
disseram a última palavra. Nem em Odessa, nem em Kharkov, nem em
Zaporozhye e nem em Chernigov. Este silêncio não é eterno. E a tampa deste
caldeirão inevitavelmente explodirá (blown away).
– E como se desenvolverão as relações entre a Novorússia e o resto da
Ucrânia?
– A Transnítria é um cenário de baixa probabilidade. Mas não acredito
nisto – o território da República Popular de Donetsk (RPD) e República
Popular de Lugansk (RPL) é muito maior, milhões de pessoas já foram
sugadas para dentro desta guerra. Por agora a Rússia ainda pode convencer
os líderes da milícia a empenharem-se numa pausa e trégua temporária. Mas
exactamente isso – temporária. Não há que falar mais acerca do retorno da
Novorússia para dentro da Ucrânia. O povo do Sudeste não quer ser
ucraniano.
– Então, se o nosso país acabou isolado globalmente devido à reunificação
com a Crimeia, porque não avançarmos com tudo para o Sudeste? Quanta
hipocrisia pode haver aí?
– Penso que ainda é demasiado cedo para avançarmos com tudo. Subestimámos
o grau de consciência do nosso presidente, o qual sabe que há certos
processos na Europa que não são claramente visíveis para observadores
externos. Estes processos dão esperança de que seremos capazes de proteger
nossos interesses utilizando diferentes métodos e meios.
Uma frente sem uma linha de frente
– No fluxo de informação associado à Ucrânia esquecemos o crescimento
explosivo do extremismo religioso na Ásia Central...
– Isto é uma tendência extremamente perigosa para o nosso país. A situação
no Tajiquistão é muito difícil. A situação no Quirguistão é instável. Mas
o Turquemenistão pode-se tornar a direcção do primeiro ataque, tal como
escreveu "AN". De certo modo esquecemos um pouco acerca disto, porque
Ashkhabad posiciona-se um tanto solitária. Mas esta "mansão" pode entrar
em colapso em primeiro lugar. Será que eles têm força suficiente para se
defenderem? Ou será que interviremos num pais que está a grande distância
de nós? Assim, isto é uma decisão difícil.
E não só devido aos militantes do "Estado Islâmico" a penetrarem na
região. De acordo com os últimos dados, os EUA e a NATO não estão a
abandonar o Afeganistão e vão manter as suas bases ali. Do ponto de vista
militar, cinco ou dez mil soldados que lá permaneçam podem ser
desdobrados num grupo de 50 a 100 mil dentro de um mês.
Isto faz parte do plano geral de cercar e pressionar a Rússia, o qual é
implementado pelos EUA com o objectivo de depor o presidente Vladimir
Putin e dividir o país. Um típico leigo pode, naturalmente, não acreditar
nisto. Mas pessoas com acesso a um grande volume de informação sabem disto
muito bem.
– Quais os limites que tentarão fracturar?
– Primeiro eles planeiam simplesmente arrancar o que é "fácil". Não lhes
importa o que se separará: Calinigrado, o Cáucaso Norte ou o Extremo
Oriente. Isto servirá como o detonador de um processo que se pode
intensificar. Isto não é um fantasma propagandístico – é uma ideia real.
Tal pressão do Ocidente (Ucrânia) e do Sul (Ásia Central) só crescerá.
Eles estão a tentar penetrar através dos portões ocidentais, mas também
experimentarão os do Sul.
– Qual a direcção estratégica mais perigosa para nós?
– A direcção Sul é muito perigosa. Mas por agora os estados tampão
(buffer states), as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central, ainda
funcionam. E no Ocidente a guerra já está na fronteira. Efectivamente, no
nosso território.
O que vem aí não é o banho de sangue de ucranianos e russos, mas antes
uma guerra de sistemas globais. Alguns pensam que estão no fim da Europa,
outros que estão na Rússia. Porque o nosso país não é apenas um
território. É uma enorme civilização separada, a qual tem a sua própria
visão da ordem global no mundo todo. Primariamente, naturalmente, há o
Império Russo como exemplo da civilização ortodoxa oriental. Os
bolcheviques destruíram-na, mas eles avançaram com uma nova ideia
civilizacional. Uma terceira está agora muito próxima. E veremos isso
dentro de cinco a seis anos.
– O que será?
– Penso que será uma simbiose decente das anteriores. E nossos "colegas
jurados" entendem isto perfeitamente. Eis porque começou o ataque de todos
os lados.
– Ou seja, o combate conjunto russo-americano contra o terror, em
particular contra o ISIS, é uma ficção?
– Naturalmente. A América cria terroristas, alimenta-os, treina-os e então
dá uma ordem a toda a matilha: "apanhem". Talvez eles possam abater um
"cão raivoso" na matilha, mas os outros cães serão incitados ainda mais
activamente.
O diabo dirige o baile
– Leonid Petrovich, você pensa que os EUA e os presidentes americanos são
apenas um instrumento. Então quem é que determina a sua política?
– Há comunidades de pessoas que são de facto desconhecidas do público, as
quais não só determinam os presidentes americanos como também determinam
as regras para a totalidade do "grande jogo". Em particular, são as
corporações financeiras transnacionais. Mas não apenas elas.
Actualmente há um processo em andamento de reformatação do sistema
financeiro e económico do mundo. Claramente, há uma tentativa de repensar
a estrutura total do capitalismo sem rejeitá-lo. A política externa está
sujeita a mudança rápida. Os EUA subitamente abandonaram de facto Israel –
seu principal aliado no Médio Oriente – a bem das boas relações com o
Irão. Será isto porque agora Teerão é mais valiosa e mais importante do
que Tel Aviv? É porque está entre os países em torno da Rússia. Estas
forças encobertas estabeleceram o objectivo de liquidar nosso país como
actor sério na cena global. Porque a Rússia é uma alternativa
civilizacional para todo o Ocidente.
Além disso, há um crescimento explosivo de sentimento anti-americano no
mundo. A Hungria, onde há forças conservadoras de direita no poder, e a
Grécia, onde há as de esquerda, forças opostas, estão de facto unidas e
protestam contra os ditames dos EUA na Europa. Há também os que podem
protestar na Itália, Áustria, França e assim por diante. Se a Rússia agora
mantiver seu terreno, então processos que não são benéficos para as forças
que pretendem a dominação global começarão na Europa. E estas forças
entendem isto perfeitamente.
– Alguns líderes europeus já lamuriam que os EUA de facto lhes impuseram
sanções. A Europa pode escapar ao "amistoso" abraço americano?
– Nunca. A América segura-a firmemente com várias cadeias: as impressoras
do Federal Reserve, a ameaça de revoluções coloridas e a da eliminação
física de políticos indesejados.
– Não está a exagerar na menção à eliminação física?
– De modo nenhum. A Central Intelligence Agency dos EUA, nos termos das
suas funções, não é sequer um serviço de inteligência. A KGB ou o SVR da
Federação Russa são serviços de inteligência clássicos: reúnem informação
e relatam-na para a liderança do país. Na CIA, estas características
tradicionais de um serviço de inteligência estão no fim da lista das suas
tarefas. Os principais objectivos são: eliminações, as quais incluem
eliminação física, de políticos e a organização de golpes. E eles fazem
isso em tempo real.
Após a perda do submarino "Kursk" , o director da CIA, George Tenet,
visitou-nos. Pediram-me que o fosse receber no aeroporto. Tenet demorou
para sair do avião, mas o aparelho estava aberto de modo que pude dar uma
olhadela para dentro do seu "Hercules". Aquilo era um posto de comando
voador, um centro computacional operativo, estava cheio de equipamentos e
sistemas de comunicações que podem rastrear e modelar a situação no mundo
todo. A delegação acompanhante era de 20 pessoas. Quanto a nós, voamos em
voos regulares, em equipes de 2-5 pessoas. Você pode sentir a diferença,
por assim dizer.
– A propósito, acerca de inteligência. Há outra vez conversas acerca da
ideia de restaurar o serviço de inteligência russo unindo o SVR e o FSB. O
que pensa acerca disto?
– Considero muito negativo. Se combinarmos os dois serviços especiais – o
de inteligência externa e o de contra-inteligência – então criaremos um
único para a mais alta liderança do país. Então, a pessoa que tem assento
nesta "origem da informação" torna-se um monopolista. E pode manipulá-la
para alcançar algum objectivo. No KGB da URSS tais manipulações
informacionais eram óbvias mesmo para o capitão Reshetnikov. Para um
presidente, um czar, um primeiro-ministro – não importa como se chame o
mais alto responsável – é vantajoso ter várias fontes de inteligência
independentes. Do contrário ele se torna refém de um líder específico da
estrutura ou da própria estrutura. Isso é muito perigoso.
Os autores desta ideia pensam que nos tornaremos mais fortes após esta
união. Ao invés disso estaremos a criar ameaças para nós próprios.
Onde estão os redis?
– E agora vamos das teorias da conspiração global para os nossos assuntos
locais. Como se pode distinguir entre um responsável que não sabe o que
faz e um agente de influência que sabe o que está a fazer?
– Não há tantos agentes de influência de nível sério no mundo como se
possa pensar. Transmitir ou não transmitir decisões estratégicas sérias
contra os interesses do seu próprio país começa tipicamente por, por assim
dizer, agentes ideológicos. Estes são aqueles entre os nossos responsáveis
que acabam por ocupar uma posição interna de alto escalão mas têm a alma
no Ocidente. Para estas pessoas tudo o que é feito "lá" é a mais alta
façanha da civilização. E o que é feito aqui é a Rússia deslavada. Eles
não associam o futuro dos seus filhos, aos quais enviam para o
estrangeiro, ao país. E isto é um indicador mais grave do que contas em
bancos estrangeiros. Tais "camaradas" não gostam sinceramente da Rússia,
cujo "desenvolvimento" eles supervisionam.
– Acaba de desenhar um retrato de alguns dos nossos ministros muito
precisamente. Como vamos atravessar 2015 com eles?
– Este ano, com eles ou sem eles, será difícil. Mais provavelmente, o ano
seguinte também não será fácil. Mas depois disso a nova Rússia estará
confiantemente em marcha.
08/Abril/2015
[*] Licenciado pela Faculdade de História da Universidade Estatal de
Kharkov e pós-graduado da Universidade de Sofia (Bulgária). De 1974 a
1976, trabalhou no Instituto de Economia do Sistema Socialista Mundial, da
Academia de Ciências da URSS. De Abril de 1976 a Abril de 2009 nas
unidades de análise de inteligência estrangeira. Seu últimos postos foram
Chefe do Departamento de Relações Exteriores russo e no Serviço de
Inteligência, membro do conselho de administração da SVR,
tenente-general. Em abril de 2009 foi transferido para a reserva por
limite de idade para o serviço militar. É membro do Conselho Científico
do Conselho de Segurança da Rússia.
O original encontra-se em kanchukov-sa.livejournal.com/4660225.html e em
argumenti.ru/toptheme/n481/394395 (em russo), A versão em inglês
encontra-se em cassad-eng.livejournal.com/153079.html
Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
http://www.resistir.info/russia/reshetnikov_08abr15.html#asterisco
15/4/2015
terça-feira, 14 de abril de 2015
A forecast of the development of the main processes that will influence the situation in Russia in 2015
A forecast of the development of the main processes that will influence the
situation in Russia in 2015
source: http://worldcrisis.ru/crisis/1844366
Mikhail Khazin
Translated from the Russian by Gideon
I have not written a forecast for Russia for years. Mainly, because there was
not much point – nothing had changed, the basic trends were simply continuing
and there were no changes to describe. Today, the situation is changing. This
requires a new forecast.
There will be no analysis of previous forecasts as too much time has passed.
This projection starts from scratch (as opposed to the forecast of the world
economy). I will, however, reference certain aspects of previous forecasts as it
is now difficult to lay hands on these older sources.
We begin with a description of the Russian elite. The Russian elites emerged
during the process of disintegration of the late-period socialist society and
represented the resolution of two basic tasks, which were set by fairly powerful
groups of the population, from organized crime to the lower and middle-ranked
Soviet elite. These tasks were 1) to achieve the complete elimination of the
state’s responsibility to society and 2) to ensure the dynastic transfer of
their status and wealth. The second task was achieved by the introduction of
private property and the first – by eliminating all more or less functioning
institutions of the state.
From the late 90s, when it became clear that the state could not exist without
institutions (which raises the problem of the maintenance of wealth obtained in
the process of privatization), the policy elite underwent change. In particular,
certain general rules were adopted (for example there was agreement not to
appeal to the public in dealing with intra-elite disputes). In order to adopt
these rules it was necessary to find an arbiter, who could not only resolve
problems between the different members of the elite, but would explain how the
elites’ assets could be managed in their own collective interest, and prevent
those assets are being managed against those interests.
The search for this arbiter took some time, which, however, was effectively
utilised – The process of introducing the security forces into the elite was
initiated. This not only stabilized the structure of the elite, but the security
forces “silovki” also became a tool allowing the tracking and implementation of
arbitration. Finally, an arbiter was chosen, one who had already solved similar
problems in the criminal capital of Russia ’90s – the city of St. Petersburg.
He did not simply take up the reins of power. He brought to it the concept of
Russia’s place in the world with which he grew up. This concept is located in
history, around the end of the 50s, if not earlier. This concept is likely to
have been introduced into the Soviet leadership by Otto Kuusinen and in the main
articulates a concept of ‘convergence’. The convergence of the elites of the
West and the Soviet Union. Before Putin came to power the Russian elite did not
consider the fate of Russia – to the most best charitable reading, they saw
themselves in the position of Gauleiters for the West- the focus was to steal
more, spirit those stolen assets to the West for safe keeping and repeat the
process for as long as possible. The current elite of Ukraine epitomise this.
Putin changed this (in Russia).
It should be noted that the disappearance of certain members of the elite
Berezovsky, Gusinsky and Khodorkovsky was not Putin’s personal decision – it was
an elite consensus. Those who flatly refused to accept any rules were expelled
from the elite. In general this refers to those who, having eliminated the
oppression of the state, categorically refused to subordinate themselves to new
codes, which were albeit voluntary and had a very restricted ambit. The other
elite members actively disliked this insubordination, especially those without
such significant means of self-defense, as the three (troika) listed above. Thus
elite consensus was achieved.
Moreover, Putin even managed to give the “Khodorkovsky Affair” additional
subtext – he was used as a tool to force the 90s oligarchs to pay taxes. In
Ukraine, there was no analogue to the “Khodorkovsky case”. Oligarchs there do
not pay taxes. The results are obvious. But, now we need to digress:
Putin’s rise to power coincided with the arrival in to power in the US of the
hard-line Imperialist Republican Bush Jr. In short order, we then see the crisis
of September 11 2001. From the point of view of the internal American politics
this was the beginning of the economic crisis. (I have stated repeatedly and
warned on September 10, 2001 in http://worldcrisis.ru/crisis/86502 that the US
government was unable to acknowledge the extremely poor economic results of that
summer. They had to identify external reasons to explain the situation) Bush
really needed allies, because he had implemented a policy (the war in Iraq) that
would not be approved by the world community.
If Clinton considered his contemporary Russian elite as ignorant savages who
would accept beads and stones in exchange for signing any treaty. (“Sakhalin-2″
is an example), Bush was ready for a period to grant some rights to Putin and
Russia – He had other priorities. His and Putin’s understanding of the world’s
energy problems were similar. Khodorkovsky and his Chinese intrigues also
irritated Bush. Thus Putin received for a period received “carte blanche” not
only within, but also, relatively speaking, outside Russia. However, his foreign
policy activity was strictly limited – As US Secretary of State Condoleezza Rice
once said: “The interests of Russia end at its borders.”
For two terms, Putin presided over a Russian elite consensus based around the
idea of convergence and then happily resigned from his post. “I worked like a
galley slave” – is not poetic license, but a real understanding of the
situation: the hired manager, who has worked for two terms, has decided to
retire. He held auditions within the elite who chose from the security services
a liberal, Medvedev, who assumed the presidency. Then the problems started.
These problems were related to the economy. The crisis of 2008 turned out to be
extremely unpleasant for the elite. The elite was unable to initially deal with
it (without management responsibility is impossible, and responsibility was
swept aside with an iron hand). Financial flows declined sharply, and
correspondingly, the role of arbitration increased dramatically- Medvedev was
clearly not up to the task. The improvement observed between 2009 and 2011 was,
insufficient and, as a result, the elite appealed to Putin with a request to
return. More precisely, part of the elite.
They were the most zealously collaborationist part (led and coordinated by
Voloshin and Yumashev). Even the idea of convergence seemed too independent
for them and they flatly refused to take any responsibility for anything in the
country. (In particular, they were quite satisfied with the execution of
instructions of the IMF determining the economic policy of the government). They
did not want to return. They arranged the so-called “swamp” process, which aimed
to cast doubt on the results of the presidential elections.
As we know, the “swamp” process was not successful. Putin was not simply
returned to the presidency but was returned with a completely different mandate
from 2000. Then he had a mandate from the elite, of a hired manager unable
fundamentally change the rules. I note here that I say nothing about his
personal desires – only about the possibilities. After 2012, the situation
changed radically – Putin received a mandate from the people and now has the
right to make fundamental changes.
The need for such changes is urgent. I refer to an analysis by Andrei Fursov
published a few years ago. The fact is that Russia in its history has found
itself, several times, in a very difficult situation when an urgent need to
modernize conflicted with a categorical unwillingness of some of the ruling
group to carry out modernization. The Russian state structure inherited from
Roman Empire, the Byzantine Empire (see http://worldcrisis.ru/crisis/1817898),
is one where the head of state acts as protector of the people against the
ruling elite. It follows that a legitimate ruler has to, at any price, implement
modernization. Over the centuries such experience has been accumulated.
The first modernization was in the 16th century. Western Europe has already made
a choice. Lending is legalised which begins the construction of capitalism, the
era of scientific and technological progress. We have the same conservative
oligarchy, who we shall refer to generically here as Rurikites severely limit
any attempts at modernization. This is the cause of Ivan the Terrible and his
purges pressuring on the elite. I note that to the people he remains a
progressive figure. This is in line with the Byzantine standard.
The reforms of Ivan the Terrible were not completed. Boris Godunov almost
completed them (He was, according to many historians, the most outstanding
administrator to lead Russia), His death interrupted reforms and Rurik took
revenge. Incidentally, I do not rule out that the choice of Mikhail Romanov to
the throne was the result of a common position in Russian society after a short
reign of Basil Shumsky: anyone will do, just not Rurikovich.
The reforms of Ivan the Terrible were finally though partially completed by
Peter I. The process itself was delayed and completed in great haste. The
conditions were so severe that the population of Russia decreased. Peter,
himself, entered the national memory as the Antichrist.
The next time problems arose was during the second half of the XIX century.
There again the main opponent of change was the feudal ruling group
(conventional “grand dukes”), which led to the revolutions of February and
October 1917. The revolution was unable to complete modernisation so the issue
reappeared in the early 20s of the last century. Here, the conservative
opposition reforms were “Old Bolsheviks” who wanted to enjoy life and not
sacrifice themselves for the country. Stalin appears here as leader (it is in
the process of reform, that he became one of our outstanding leaders) and his
modernisation was a complete success. I remark here, the same Byzantine style, a
leader with the people against the elite.
In the 80s the problem reappeared. Theoretically, modernisation should have been
carried out according to Byzantine tradition, that is to nominate a leader who,
leaning against the people, would have fought the forces of conservatism and
defeated the nomenklatura and trade mafia. The resources were available, if we
see the experience of Belarus during the last 20 years. Instead there was a
revolution where the nomenklatura came to power. The first secretary of the
union republics agreed on the division of the country and we know the rest.
If the elite “Western” global project was able to implement its plans as they
were written in the 80s – 90s, there would be no issue. Sooner or later Russia
would be subordinated. But the crisis began (the reasons of which is described
according to our theory: http://worldcrisis.ru/crisis/1060229, which you can
read on the website) and as a result we inherit a fairly complex geopolitical
configuration, which is not easy to understand. I’ll start here with the actual
forecast of the main Russian domestic conflict.
The modern Russian elite consists of three main groups. The first group
liberal-family, whose leaders, conventionally, are Voloshin, Yumashev, Chubais
and Kudrin. They constitute the oligarchs of the first generation, reaping the
benefits of privatization, tax evasion, corruption and raiding. They are known
as – “liberals”. Their main problem is that their businesses are lossmaking and
their ability to leverage the state budget to obtain preferential treatment is
decreasing. Alongside this, the scramble for the resources that have remained in
the country is getting tougher and money is constantly getting harder to launder
in the West. They seem to have the following options a) have a conflict with
Putin tp return the situation in the 90s. In this case Russia reverts to a
Western “Gauleiter” project; b) try to “squeeze” alternative groups; c) Abandon
Russia and flee to the West. The probability of the latter option is falling all
the time, as the west has repeatedly explained that the oligarchs cannot be
significant figures in the west. With few exceptions they are incompetent
business men and any emigration will probably end in poverty.
This group is almost completely controls the economic and financial policies of
the country, with its bureaucratic component almost directly “under the pastoral
care” of the world financial elite (through the IMF). I note that the global
financial elite – is only part of the elite of the “Western” global project, but
this part of the last 100 years (after the creation of the Federal Reserve) has
played a dominant role in determining the financial and economic policy.
“Liberals” in Russia are principled opponents of any development (as contrary to
the interests of the elite “West” project and almost certainly lead to the
marginalisation of this group of managerial elite), and have long ceased to have
a political agenda. This is obvious when we look at the next Krasnoyarsk
Economic Forum: http://worldcrisis.ru/crisis/1839439.
The second group – the security services and the oligarchs of the second
generation of the 2000s. They don’t have open leaders, as such, rather, there
seems to be a complex collective leadership. They also have several options.
Firstly, they can pressure the “liberal” oligarchs and businessmen, transforming
them into political refugees, seeking protection in the West. This protection
tends to be limited and dependent on political activity (Khodorkovsky). This
would not be a long-term strategy.
The second variant would be the establishment of a rigid self-sufficiency and
transforming Russia into a totalitarian state. In a way, this is the
intensification of the first version. The idea here is that if the West expects
total crisis, the most important thing must be to survive until it happens. The
“liberals” are quite reasonably suspected of representing the interests of the
West. Thus the liberals need to be removed from power as quickly as possible
because they weaken Russia as the liberals support programs to support the
dollar and IMF hegemony.
This program is progressive insofar as it intercepts financial flows from the
“liberals” (which roughly doubles its resources) as part of group interests and
the intensification of economic modernization under pre-war industrialization.
Where these resources will come from and who will implement appropriate programs
is not clear. However, one thing is clear – The “siloviki” cannot, on their own,
implement the appropriate programs. They need more support. They will have to
create, from scratch, managerial elite of the country at all levels. This was
done in the 30s.
The third group, who should not be underestimated, is the regional elites,
primarily national. They no longer want to implement an 80s style program to
partition of the country (as they see the results of the reforms in the former
Soviet republics), and in this sense are ready to support any strong power in
Moscow. Theoretically, they are more inclined to support the “siloviki” (because
“liberals” threaten to collapse of the country and create instability), but
conversely they will be desperate fight for privileges and access to public
funds. In any case, this is group a serious player of a country undergoing the
process of building a system of checks and balances.
All other forces in Russia (“left”, monarchists, nationalists Russian and so
on.) are strongly marginalized and are unable to strengthen their position. The
only exception are the patriotic forces, which have gained in strength after the
events in Ukraine. They have not yet nominated recognized leaders, but at the
secondary level “siloviki” (and in the youth of the “liberals”) have they have
become much stronger. If the economic situation in the country strongly and
quickly deteriorates, this group could produce a new discourse, which could
influence the political configuration in the country.
The situation is even more complicated in the wider world. The “case of
Strauss-Kahn” split the world’s financial elite and has compromised the whole
fate of the “Western” global project. The fact is that, according to our theory
of capitalist development, resources for development are exhausted. As a result,
“the West” project is no longer supported by a positive political program. This
leads to a sharp rise in anti-American sentiment globally and we see coming to
power, in different countries, a counter-elite explicitly opposed to the US.
Although they are, in theory, not intending to destroy the existing system, as
resources for redistribution of financial flows from the United States are no
longer available, they will find it difficult going, especially given the
acceleration of the economic crisis.
In reality, the elite of the “Western” project is divided into a few groups,
which are in pretty tough competition with each other, as in the aftermath of
the crisis, a place on the “gravy train” is no longer guaranteed for all. There
are basically three groups. The first group are that part of the elite who
cannot forsake the current financial system, based on money supply. These are
the largest banks and financial institutions, global bureaucracy, both financial
and political, of the national state elites (but not the US). Their situation is
very bad, especially since it proved impossible to place their man (Larry
Summers) at the head of the Federal Reserve. I note that this group controls the
Russian “liberal” management group, all officials of the government, the Central
Bank, expert groups close to the Higher School of Economics, Russian Economic
School and the Gaidar Institute – are representatives of this group. It would
seem that they do not have much heft.
The second group is the one connected to the US national elite. We can say that
they have two positive projects, “the maximalist program” and “minimalist
program”. The maximalist attempts to implement to create a free trade zone
between the United States and the European Union, bringing down the rest of the
world in total chaos. This program (conventionally it can be referred to as “the
city on the hill”). In theory, this will maintain the standard of living of the
“golden” half-billion (US and several countries in Western Europe) and the
domination of the world’s elite “Western” Project.
The main advantage of this scenario – at the expense of the rather wealthy
residents of the EU, the “middle class” in the United States will be maintained,
which in turn maintains the socio-political model of the United States. If that
doesn’t work, there is a fallback.
If this project is not realized (I have my own opinion on this, but this is not
the place to discuss it), the option remains to collapse of the world’s currency
areas, including the dollar, led by the US, and the EURO, including Western
Europe. This will inevitably result in serious technological degradation and
huge drop in living standards. This scenario should be avoided.
The third group is that part of the world financial elite (I reiterate, the
largest and richest part of the elite “Western” global project), which is not
directly related to the United States. Its basis – the financial part of the
former British Empire, which is usually associated with the name Rothschild.
Indirect evidence suggests that the main aim of this group – is simply to
collapse the world into trade blocs, with this group becoming the settlement
system between the. This group does not support the “city on the hill” option,
as its position would be dramatically weakened. It is for this reason that this
group is seeking contacts among the “siloviki” in Russia and actively supporting
actions aimed at the creation of the ruble financial system and Eurasian
integration – that is, the creation of ruble as a reserve currency.
On the basis of the alignment described above we have covered almost all the
trends taking place in Russia. “Liberals” have led the Russian economy into
crisis. The recession really began in late 2012. However, the global financial
system needs resources. (The flow of liquidity from the American bureaucrats has
reduced gradually to a trickle). This is why the Central Bank and the Russian
government (The Finance Ministry, in the first place) continue to actively
encourage the withdrawal of capital, increasing dollar denominated reserves
(despite being aware of the fact that there is a good chance not to get the
money back). However, they are terribly afraid of being ousted from power as
they have no other alternative budgetary and administrative resources. In this
case, they will lose all of their assets in Russia for a year or two, but in the
West, in the absence of support from Russia, they would be marginalised for
several years.
From the point of view the national interests (and the position of the man with
the popular mandate), Putin should have purged the liberals long ago. Their
attitude to the “May” decrees made this clear! However, there is an element
political expediency here in that there are only two active power centres. Thus,
the elimination of the “liberals” automatically makes Putin completely dependent
on the “siloviki”. That, automatically, deprives him of freedom of movement,
which will likely conflict with the fulfilment of his popular mandate.
I think this why Putin has not purged the “liberal” officials for their outright
sabotage. The dismissal of the “liberals” would actually indicate sharp
escalation of the anti-American line, the coming to power of the counter-elite
and open confrontation with the United States. We are clearly not ready for this
– especially economically. There is a real threat of serious sanctions and we
have terrible weaknesses in our economy. We even have no seed grain, no breeding
farms, even no eggs to renew our hatching stocks. In such a situation any sudden
movements can lead to crisis.
For the last few years the situation we have described, where “liberals” and
“siloviki” fought for administrative supremacy, winning minor victories, was in
general, stable. The level of conflict continually escalated, for reasons of
external pressure (Ukraine), and because the size of the communal elite trough
kept reducing. I note that this consensus created in the 90s by in the process
of privatization and the destruction of the Soviet system (including judicial
and military) included only the liberals. However the “siloviki” perfectly fit
into the system and support it. Actually, in this sense, the task of
modernization, in front of society (and perhaps Putin) is not very different at
all from the problems that Ivan the Terrible, Peter I or Stalin had.
Ukraine’s problems last year sharply exacerbated these contradictions – and
transformed the situation from the sluggish process witnessed over the last few
years (which is why I no longer wrote forecasts for Russia). Today, there are a
few scenarios, which would be wise to enumerate.
Firstly, The Ukrainian events have seriously impacted the political position of
the “siloviki”. Previously they adopted no firm position with respect to the
outside world. They, in general, agreed on the discourse of the “liberals”. The
disagreement was only on what positions to negotiate with the elite of the
“West” project. Now we see several different clearly defined “parties”. This
gives rise to the opportunity that instead of a “siloviki”, “liberal” balanced
by the “regionals”, that another system of checks and balances can be
constructed. Within the security forces we can now distinguish the
patriot-monarchists, somewhat less clearly the “new liberals” and finally,
emerging, there is a party of socialist renewal. The last is barely formed
organization, but against the background of the Monarchists who would seriously
attempt to restore the monarchy (and even bring back the Romanovs), Socialist
renewal as a tendency can seriously increase its traction.
As is often the case, consolidation within these against political parties comes
about due to external factors. The “Patriot-monarchists” are guided by the old
elite of continental Western Europe, which is clearly trying to take revenge on
the “West” project for defeat in World Wars I & II. In some places, they even
enjoy local political success (Hungary) and the behaviour of this country
clearly indicates who they see as a strategic ally. At the same time the
“patriot-monarchists,” contemplate a strictly autarkic Russian economic model.
They do not always support strong integration with non-Slavic countries. The
Russian Nationalists play an important role here, which, changes, depending on
who is seen as a partner in Western Europe.
The “new liberals” who whose formation is even more diffuse than the “patriots”
have as their main partner – the very “Rothschilds”, mentioned earlier. Their
policy is extensive Eurasian integration (A full currency union, a
self-contained system of division of labor with a minimum of 500 million
consumers), the creation of a ruble currency zone, working closely with the
leaders of other currency zones, including with the American “isolationists”
which may come to power in the United States in the 2016 elections. We note that
the first and second groups both oppose the “Western” global project of the
“city on the hill.”
There are also important differences between them. The first group support the
role Orthodox religion, limiting (but not ending!) Eurasian integration beyond
the purely Slavic countries and limiting, to a degree, coordination with the
current leaders of the “Western” project with similar limits to interaction with
China. The second group are much more pragmatic, actively cooperating with the
elite part of the “Western” project, and with China as (currently, with greater
profit). They do not “love” the Russian Orthodox Church, seeing it as too
conservative and inflexible, without denying its consolidating role. They
clearly emphasize the role of non-Slavic countries within Eurasian integration
(Turkey, Central Asia). They seriously consider the possibility of working with
a number of Islamic countries.
But both of these groups have a critical problem that in the near future, as
they adapt and the form their political positions, will become fundamental. They
have constructive vision of society to oppose the social model, built in Russia
during the 90s. Society clearly does not accept it, which explains Stalin’s
stratospheric ratings (who is associated with the idea of power being
subordinate to Society) and Putin’s. Moreover, in the latter’s case there have
been a series of serious miscalculations by the West. They constructed the
dichotomy of Khodorkovsky & Navalny as “fathers of Russian democracy” Vs
“bloodstained executioner” Putin, which resulted in 90 percent of the population
fleeing gladly to Putin.
In addition, economic problems are not restricted to Russia but are also present
in other countries that should be included in the “Eurasian zone”. New slogans
are required that can compensate for economic competition implicit in the
integration processes. It seems to me that the key element here could be the
ideas of socialism. Moreover, living standards fall, these ideas will inevitably
manifest themselves more. So far there is virtually no political group which is
capable of articulating such a program.
All that remains now is to complete a general description of those groups that
will interact with each other in 2015. It seems to me that the consolidation of
these groups will be the main factor determining the situation in the country in
the coming year. Here I will cover some of the most important points.
First of all, Putin will not remove the “liberal” government and the Central
Bank leadership as long as the divisions mentioned among the “siloviki” remain
unformed as distinct parties. The first has already been established. if the
Ministry of Defence will be further strengthened, then it will become a focal
point of the group which will include representatives of other law enforcement
agencies. The second group should form as a purely political project. Its
electoral potential should materialise as harsh criticism of privatization and
the corruption of liberal policies. They should seek cooperation with the
notorious “Rothschilds” and the American isolationists. There are serious
grounds that their efforts will be supported by these groups in the global
elite, which, incidentally, could become the basis for lifting the sanctions
against Russia.
Let me repeat: I believe that the ability to remove the “liberal” government
will only appear after a party, the “new liberals” is established and able to
present its economic vision to the country.
As for the socialist course, it must be presented to society by Putin himself. I
believe that to abandon the Byzantine tradition of political between the head of
state and the people would be stupid. (Historically no other tradition has
enjoyed success). Actually, the “May” decrees may have been moving in this
direction. However, having taking the first step, Putin did not make the second.
However, this direction allows him to get real support from society, not in the
surveys, but in the implementation of development programs. Regional elites will
support this course (in some limited way). The main thing here is that only this
direction will allow Russia’s authority in the world, including the Islamic
world to increase. I note that the current processes to improve the credibility
of Russia and Putin personally (which causes wild jubilation in our controlled
media) are viewed the reborn spectre of the USSR as an alternative to “Western”
project of globalisation.
As I wrote earlier, the “Western” project today has no progressive program, but
there is also no progressive program in our country. And without such a program,
the alternative is a banal struggle for resources, in which we have virtually no
chance of success. But there is a narrative of progressive values and positive
policy agenda then they have no chance. The role of resources will falls sharply
… And in this case we have not only a serious but a very serious chance.
I’ll finish here. The forecast turned out rather relative: the key points I
believe are the emergence of a “new liberal” party followed by the elimination
of the “liberal” party in Russia, I do not know when it will happen. There is no
certainty that it will even happen this year. While the “liberals” are in power
the crisis will continue as will the sanctions against us. Besides, is not very
clear when Putin will begin to build abstractions of socialist governance (at
least partially). It seems to me that if he does not do this, his very fragile
consensus will at some point be rapidly destroyed and he will have to leave. In
this case, the prediction is naive enough to say this – the situation will go
racing, potentially out of control.
Generally, I apologise to those who wanted accurate data on budget expenditure,
the ruble, and so on. The degree of uncertainty is too high. One can only talk
about the basic processes and groupings. I have tried to describe these.
M.Khazin, January-March 2015, Moscow
source: http://worldcrisis.ru/crisis/1844366
IN
http://thesaker.is/a-forecast-of-the-development-of-the-main-processes-that-will-influence-the-situation-in-russia-in-2015/
18/3/2015
sábado, 11 de abril de 2015
Vuelve la lucha de clases
La clase obrera y la crisis: recuperar la centralidad del tablero
In
Rebelión
http://www.rebelion.org/docs/197469.pdf
11/4/2015
sexta-feira, 10 de abril de 2015
'Lei da terceirização é a maior derrota popular desde o golpe de 64'
por Wanderley Preite Sobrinho
Especialista em sociologia do trabalho, Ruy Braga traça um cenário delicado para
os próximos quatro anos: salários 30% mais baixos para 18 milhões de pessoas.
Até 2020, a arrecadação federal despencaria, afetando o consumo e os programas
de distribuição de renda. De um lado, estaria o desemprego. De outro, lucros
desvinculados do aumento das vendas. Para o professor da Universidade de São
Paulo (USP), a aprovação do texto base do Projeto de Lei 4330/04, que facilita a
terceirização de trabalhadores, completa o desmonte dos direitos trabalhistas
iniciado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na década de 90. “Será a
maior derrota popular desde o golpe de 64”, avalia o professor em entrevista a
CartaCapital.
Embora o projeto não seja do governo, Braga não poupa a presidenta e o PT pelo
cenário político que propiciou sua aprovação. Ele cita as restrições ao Seguro
Desemprego, sancionadas pelo governo no final de 2014, como o combustível usado
pelo PMDB para engatar outras propostas desfavoráveis ao trabalhador, e ironiza:
“Esse projeto sela o fim do governo do PT e o início do governo do PMDB. Dilma
está terceirizando seu mandato”.
Leia a entrevista completa:
CartaCapital: Uma lei para regular o setor é mesmo necessária?
Ruy Braga: Não. A Súmula do TST [Tribunal Superior do Trabalho] pacificou na
Justiça o consenso de que não se pode terceirizar as atividades-fim. O que
acontece é que as empresas não se conformam com esse fato. Não há um problema
legal. Já há regulamentação. O que existe são interesses de empresas que desejam
aumentar seus lucros.
CC: Qual a diferença entre atividade-meio e atividade-fim?
RB: Uma empresa é composta por diferentes grupos de trabalhadores. Alguns cuidam
do produto ou serviço vendido pela companhia, enquanto outros gravitam em torno
dessa finalidade empresarial. Em uma escola, a finalidade é educar. O professor
é um trabalhador-fim. Quem mexe com segurança, limpeza e informática, por
exemplo, trabalha com atividades-meio.
CC: O desemprego cai ou aumenta com as terceirizações?
RB: O desemprego aumenta. Basta dizer que um trabalhador terceirizado trabalha
em média três horas a mais. Isso significa que menos funcionários são
necessários: deve haver redução nas contratações e prováveis demissões.
CC: Quantas pessoas devem perder a estabilidade?
RB: Hoje o mercado formal de trabalho tem 50 milhões de pessoas com carteira
assinada. Dessas, 12 milhões são terceirizadas. Se o projeto for transformado em
lei, esse número deve chegar a 30 milhões em quatro ou cinco anos. Estou
descontando dessa conta a massa de trabalhadores no serviço público, cuja
terceirização é menor, as categorias que de fato obtêm representação sindical
forte, que podem minimizar os efeitos da terceirização, e os trabalhadores
qualificados.
CC: Por que os trabalhadores pouco qualificados correm maior risco?
RB: O mercado de trabalho no Brasil se especializou em mão de obra
semiqualificada, que paga até 1,5 salário mínimo. Quando as empresas
terceirizam, elas começam por esses funcionários. Quando for permitido à
companhia terceirizar todas as suas atividades, quem for pouco qualificado
mudará de status profissional.
CC: Como se saíram os países que facilitaram as terceirizações?
RB: Portugal é um exemplo típico. O Banco de Portugal publicou no final de 2014
um estudo informando que, de cada dez postos criados após a flexibilização, seis
eram voltados para estagiários ou trabalho precário. O resultado é um aumento
exponencial de portugueses imigrando. Ao contrário do que dizem as empresas,
essa medida fecha postos, diminui a remuneração, prejudica a sindicalização de
trabalhadores, bloqueia o acesso a direitos trabalhistas e aumenta o número de
mortes e acidentes no trabalho porque a rigidez da fiscalização também é menor
por empresas subcontratadas.
CC: E não há ganhos?
RB: Há, o das empresas. Não há outro beneficiário. Elas diminuem encargos e
aumentam seus lucros.
CC: A arrecadação de impostos pode ser afetada?
RB: No Brasil, o trabalhador terceirizado recebe 30% menos do que aquele
diretamente contratado. Com o avanço das terceirizações, o Estado naturalmente
arrecadará menos. O recolhimento de PIS, Cofins e do FGTS também vão reduzir
porque as terceirizadas são reconhecidas por recolher do trabalhador mas não
repassar para a União. O Estado também terá mais dificuldade em fiscalizar a
quantidade de empresas que passará a subcontratar empregados. O governo sabe
disso.
CC: Por que a terceirização aumenta a rotatividade de trabalhadores?
RB: As empresas contratam jovens, aproveitam a motivação inicial e aos poucos
aumentam as exigências. Quando a rotina derruba a produtividade, esses
funcionários são demitidos e outros são contratados. Essa prática pressiona a
massa salarial porque a cada demissão alguém é contratado por um salário menor.
A rotatividade vem aumentando ano após ano. Hoje, ela está em torno de 57%, mas
alcança 76% no setor de serviços. O Projeto de Lei 4330 prevê a chamada
"flexibilização global", um incentivo a essa rotatividade.
CC: Qual o perfil do trabalhador que deve ser terceirizado?
RB: Nos últimos 12 anos, o público que entrou no mercado de trabalho é composto
por: mulheres (63%), não brancos (70%) e jovens. Houve um avanço de contratados
com idade entre 18 e 25 anos. Serão esses os maiores afetados. Embora os últimos
anos tenham sido um período de inclusão, a estrutura econômica e social
brasileira não exige qualificações raras. O perfil dos empregos na
agroindústria, comércio e indústria pesada, por exemplo, é menos qualificado e
deve sofrer com a nova lei porque as empresas terceirizam menos seus
trabalhadores qualificados.
CC: O consumo alavancou a economia nos últimos anos. Ele não pode ser afetado?
RB: Essa mudança é danosa para o consumo, o que inevitavelmente afetará a
economia e a arrecadação. Com menos impostos é provável que o dinheiro para
transferência de renda também diminua.
CC: Qual a responsabilidade do PT e do governo Dilma por essa derrota na Câmara?
RB: O governo inaugurou essa nova fase de restrição aos direitos trabalhistas.
No final de 2014, o governo editou as medidas provisórias 664 e 665, que
endureceram o acesso ao Seguro Desemprego, por exemplo. Evidentemente que a base
governista - com PMDB e PP - iria se sentir mais à vontade em avançar sobre mais
direitos. Foi então que [o presidente da Câmara] Eduardo Cunha resgatou o PL
4330 do Sandro Mabel, que nem é mais deputado.
CC: Para um partido de esquerda, essa derrota na Câmara pode ser considerada a
maior que o PT já sofreu?
RB: Eu diria que, se esse projeto se tornar lei, será a maior derrota popular
desde o golpe de 64 e o maior retrocesso em leis trabalhistas desde que o FGTS
foi criado, em 1966. Essa é a grande derrota dos trabalhadores nos últimos anos.
Ela sela o fim do governo do PT e marca o início do governo do PMDB. A Dilma
está terceirizando seu mandato.
CC: A pressão do mercado era mesmo incontornável?
RB: Dilma deixou de ser neodesenvolvimentista a partir do segundo ano de seu
primeiro mandato. Seu governo privatizou portos, aeroportos, intensificou a
liberação de crédito para projetos duvidosos e agora está fazendo de tudo para
desonerar o custo do trabalho. O governo se voltou contra interesses históricos
dos trabalhadores. O que eu vejo é a intensificação de um processo e não uma
mudança de rota. Se havia alguma dúvida, as pessoas agora se dão conta de que o
governo está rendido ao mercado financeiro.
CC: A terceirização era um dos assuntos preferidos nos anos 90, mas não passou.
Não é contraditório que isso aconteça agora?
RB: O Fernando Henrique tentou acabar com a CLT [Consolidação das Leis do
Trabalho] por meio de uma reforma trabalhista que não foi totalmente aprovada.
Ele conseguiu passar a reforma previdenciária do setor privado e a
regulamentação de contratos por tempo determinado. O governo Lula aprovou a
reforma previdenciária do setor público e agora, com anos de atraso, o segundo
governo Dilma conclui a reforma iniciada por FHC.
CC: Mas a CLT não protege também o trabalhador terceirizado?
RB: A proteção da CLT é formal, mas não acontece no mundo real. Quem é
terceirizado, além de receber menos, tem dificuldade em se organizar
sindicalmente porque 98% dos sindicatos que representam essa classe protegem as
empresas em prejuízo dos trabalhadores. Um simples dado exemplifica: segundo o
Ministério Público do Trabalho, das 36 principais libertações de trabalhadores
em situação análoga a de escravos em 2014, 35 eram funcionários terceirizados.
CC: A bancada patronal tem 221 parlamentares, segundo o Diap (Departamento
Intersindical de Assessoria Parlamentar). Existe alguma relação entre o tão
falado fim do financiamento privado de campanha e a aprovação desse projeto?
RB: Não há a menor dúvida. Hoje em dia é muito simples perceber o que acontece
no País. Para eleger um vereador em São Paulo paga-se 4 milhões de reais. Para
se eleger deputado estadual, são 10 milhões. Quem banca? Quem financia cobra
seus interesses, e essa hora chegou. Enquanto o presidente da Fiesp [Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo], Paulo Skaf, ficou circulando no
Congresso durante os últimos dois dias, dando entrevista, conversando com
deputados e defendendo o projeto, sindicalistas levavam borrachada da polícia.
Esse é o retrato do Congresso brasileiro hoje: conservador, feito de
empresários, evangélicos radicais e bancada da bala.
In
Carta Capital
http://www.cartacapital.com.br/economia/lei-da-terceirizacao-e-a-maior-derrota-popular-desde-o-golpe-de-64-2867.html
10/4/2015
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