terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O processo de impeachment em nada favorece os trabalhadores, seja qual for o resultado: A nossa luta é contra o capitalismo!





Nota Política do PCB

A abertura do processo de impeachment contra a Presidente da República é
expressão do auge de uma profunda crise que conjuga a falência do modelo
político excludente de dominação burguesa e do modelo econômico baseado nos
fundamentos neoliberais, consolidados nos governos FHC e continuados nos
governos petistas, a partir do compromisso assumido por Lula, nas eleições de
2002, em um documento dirigido aos banqueiros, sob o título disfarçado de Carta
aos Brasileiros.

Agravam esse quadro o esgotamento do papel do PT como partido reformista
funcional ao capital, o rebaixamento da corrupção ao nível do fundo do poço, a
destruição do meio ambiente provocada pelo agronegócio e a mineração, o aumento
da repressão às lutas populares e da violência policial contra as comunidades
pobres e os efeitos da crise mundial sistêmica do capitalismo, com a queda dos
preços das commodities, o desemprego, a perda de direitos e de perspectivas para
a juventude, as camadas médias e o proletariado.

As manifestações de massa de 2013, o aumento do número de greves de várias
categorias e, mais recentemente, as vigorosas e vitoriosas lutas dos professores
do Paraná e dos estudantes secundaristas do ensino público em São Paulo são
sintomas da crise e da capacidade de mobilização dos movimentos populares.
Abre-se um horizonte fértil para o acirramento da luta de classes, que pode se
potencializar quando entrarem em cena a classe operária e os trabalhadores dos
setores estratégicos do capitalismo brasileiro.

Como a estabilidade dos governos petistas reside na boa administração do
capitalismo e no apassivamento dos movimentos de massa, o aprofundamento dos
reflexos no Brasil da crise mundial do capitalismo constitui o principal fator
de desestabilização do governo Dilma e, consequentemente, da atual crise
política.

Apesar de os governos petistas terem cedido a muitas exigências do capital e
promoverem os chamados ajustes e cortes de direitos para satisfazê-lo ainda
mais, setores de direita derrotados nas eleições de 2014 e da própria “base
aliada” tramam para encurralar o governo e arrancar ainda mais vantagens.

É nesse quadro que se abre o processo de impeachment. Não porque o presidente da
Câmara dos Deputados resolveu retaliar o governo, mas porque se esgota o tempo
em que era vantajosa para a burguesia a terceirização política que concedeu ao
PT, já que este partido não oferece mais a vantagem de administrar bem o
capitalismo e, ao mesmo tempo, desmobilizar os trabalhadores. Como o
indefectível Eduardo Cunha compromete a legitimidade do processo, basta a
oposição se juntar nesse caso à situação para trocar essa peça gasta e
desmoralizada, que já cumpriu seu papel, quiçá retribuindo-o com a salvação de
seu mandato de deputado.

Pelo que já se observa nesses poucos dias seguintes à abertura do processo de
impeachment, é consensual nas classes dominantes o desejo de descartar o governo
do PT, que para elas não serve para mais nada. Dependendo dos seus interesses e
cálculos, divergem apenas em relação ao momento. Há os que acham que devem
interromper seu mandato no curto prazo e aqueles que preferem fazê-lo em 2018.

O governo do PT cavou a sua própria sepultura. Como não fará um giro radical em
sua linha política de conciliação, só falta sabermos a data do enterro. Mas é
certo que entre os coveiros estarão muitos daqueles que se locupletaram em seus
espaços de poder na “base de sustentação”.

Tudo leva a crer que, para qualquer dessas hipóteses, costura-se um governo de
“união nacional” (na realidade de união burguesa) a partir de um novo eixo de
poder mais neoliberal, baseado na aliança PMDB/PSDB, que já se prenunciou no
programa apresentado pela cúpula do PMDB, significativamente chamado de “Ponte
para o futuro”, em que o partido se aproxima do ideário do PSDB e se oferece ao
capital para cumprir integralmente suas metas de mais ajuste, mais cortes de
direitos e, o que não está escrito, mais repressão e restrições às liberdades
democráticas.

Com essa leitura, o PCB considera que, para os trabalhadores e os setores
populares, foi negativa a instauração do processo de impeachment. A tendência é
que qualquer resultado nos seja desfavorável. Para se manter no governo, o PT,
como sempre, não deverá romper com sua aliança de centro direita, condição para
que pudesse garantir uma governabilidade popular com um novo programa de
mudanças, a favor dos trabalhadores. Mas, ao contrário, o governo deverá ceder
cada vez mais às chantagens e aos interesses do capital.

Consumando-se o impeachment, emergirá um governo de transição até 2018, em uma
coalizão mais conservadora para fazer o que os porta-vozes do “mercado” chamam
de dever de casa: mais cortes profundos nos gastos públicos, mais retirada de
direitos sociais, políticos e trabalhistas, privatização selvagem do que resta
de patrimônio público, tudo para garantir a manutenção das taxas de lucros, o
aumento da mais valia, o pagamento dos rentistas e o fortalecimento dos
monopólios.

Assim, o PCB repudia as ações das forças reacionárias pelo impeachment, mas não
participará de nenhum movimento com o objetivo de legitimar o governo perante o
povo e os movimentos sociais apenas para melhor negociar a continuidade, agora
mais rebaixada, de seu governo de pacto social com a burguesia.

Não podemos cair na cilada de nos pautarmos pela batalha política institucional
entre forças que disputam a administração da ordem burguesa pois, enquanto isso,
os trabalhadores pagarão mais ainda pela crise: o capital se valerá do processo
do impeachment para avançar a pauta conservadora e neoliberal. Por outro lado,
consideramos que são fruto de ilusões de classe propostas que circulam entre
forças de esquerda, como eleições gerais antecipadas ou convocação de assembleia
constituinte que, nesta correlação de forças, favoreceriam os setores de direita
e os legitimariam no poder.

Não vamos também participar da defesa de uma democracia formal, de fachada, em
que as regras do jogo não permitem às forças populares igualdade de condições
para a disputa. Privilegiamos a luta direta das massas, sem subestimar alguns
espaços políticos institucionais e a defesa das liberdades democráticas e dos
direitos civis. Mas não acreditamos que a democracia burguesa seja um valor
universal, pois a ditadura de estado do capital só respeita a ordem
institucional enquanto lhe interessa, estando sempre disposta a lançar mão de
qualquer expediente, seja através da violência estatal ou de manobras legais.

A única alternativa que temos, os trabalhadores, os setores populares e as
organizações políticas e sociais anticapitalistas e com independência de classe
é a luta em defesa dos nossos direitos. O PCB participará de todas as
manifestações e protestos sempre que estiverem em jogo os direitos e interesses
da classe trabalhadora e dos setores populares, com sua identidade própria, sua
autonomia política, sua pauta e suas bandeiras, procurando sempre forjar a
unidade de ação com as forças com as quais se identifica na luta contra o
reformismo e pelo socialismo, na perspectiva de uma frente de luta de massas.

Lutar, criar, Poder Popular!

(6 de dezembro de 2015)

Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB)

In
www.pcb.org.br
http://pcb.org.br/portal2/10017
6/12/2015

Venezuela: derrota eleitoral revolucionária, por agora!






por Carlos Morais

Nom por prevista é menos dolorosa. A derrota eleitoral de ontem na
Venezuela polas forças revolucionárias e de esquerda articuladas no Gran
Polo Patriótico Simón Bolívar [GPPSB], é umha má notícia para o povo
trabalhador venezuelano, mas também para o conjunto dos povos
latino-americanos e caribenhos, e do resto do mundo, como o galego.

O resultado das eleiçons legislativas venezuelanas tem umha dimensom
geo-estratégica polo rol que cumpre o processo revolucionário – tanto a
escala continental como no ámbito global – como um dos mais destacados
referentes anti-imperialistas. Eis a importáncia concedida antes e depois
polos meios de [des]informaçom maciça; primeiro, a gerarem um estado de
opiniom hostil com a Revoluçom – que identificam com umha dessas ditaduras
que os seus proprietários tam bem conhecem, ao questionarem o seu sistema
eleitoral e apresentarem Maduro como um ditador – e agora a avalizarem com
mal dissimulado entusiasmo o resultado e a exigirem celeridade na
aplicaçom do "mandado popular" para iniciar a "Transiçom", de maneira que
se identifique as legislativas de ontem com um plebiscito sobre Maduro e a
continuidade da Revoluçom Bolivariana.

Um conjunto de fatores permitem compreendermos este novo cenário

Sem lugar a dúvidas, a guerra económica que o País padeceu nos últimos
anos, traduzida na sabotagem económica e elétrica que tem provocado um
enorme desabastecimento de produtos básicos e no aumento da inflaçom,
minárom o apoio popular à Revoluçom Bolivariana.

Mas nom só podemos agarrar-nos a este fator para explicarmos a
contundente vitória eleitoral da contrarrevoluçom na Venezuela.

Um processo revolucionário que nom avança inevitavelmente retrocede. O
processo revolucionário chavista e bolivariano nos últimos dous anos tem
estado submetido a um profundo debate entre o setor que hegemoniza o poder
institucional e a base auto-organizada nos partidos, coletivos e
movimentos sociais revolucionários inseridos no PSUV ou com projetos
claramente autónomos como o representando polo Partido Comunista da
Venezuela.

Este debate até agora sempre se saldou com a vitória ideológica do
primeiro, visado na defesa de um modelo nacional de capitalismo de estado,
contrário a avançar no horizonte socialista, mais preocupado por perpetuar
e blindar os privilégios atingidos pola que se denomina corretamente como
boliburguesia, que por implementar um programa e um conjunto de medidas
de choque para solucionar o desabastecimento que desgasta a moral do povo,
e por desenvolver o "Programa da Pátria [2013-2019]" elaborado por Chávez.

A morte prematura de Hugo Chávez em março de 2013 acelerou as
contradiçons internas no movimento bolivariano e a presidência de Nicolás
Maduro nom foi quem nem de atalhar a corruçom, nem a insegurança emanada
da delinquência [ malandros ] e o paramilitarismo com vínculos diretos
com os partidos e dirigentes da contrarevoluçom.

As luitas intestinas, cada vez mais públicas e sonoras, no seio do PSUV e
as ambiçons de Diosdado Cabello por ocupar o Palácio de Miraflores
contribuírom a desenhar um cenário onde o resultado de ontem era mais que
previsível.

Para a casta que ocupa o poder no seio do Estado e do PSUV, e que mantivo
enorme passividade à hora de combater a corrupçom e agiu com enorme
prepotência e petuláncia, o Socialismo nom passa de ser umha palavra de
ordem vazia de conteúdo. O comandante Hugo Chávez foi transformado num
fetiche desprovido do seu projeto genuinamente revolucionário, mas útil
para ganhar eleiçons pola profunda devoçom e legitimidade com que conta
nas entranhas da Venezuela pobre e popular.

Venceu a direita pro-imperialista, a oligarquia que mantivo a Venezuela
como umha neocolónia ianque e o povo na miséria absoluta até 1999, e todo
indica que tentará reverter as conquistas sociais atingidas, desmontar a
arquitetura institucional da Revoluçom Bolivariana e mudar a política
internacional de integraçom Latino-americana e caribenha, a da Pátria
Grande frente o imperialismo ianque. A vitória de Macri na Argentina e a
tentativa de impeachment a Dilma fazem parte desta estratégia de
ofensiva imperialista em que devemos enquadrar a normalizaçom das
relaçons diplomáticas com Cuba e o apoio ao processo de paz na Colômbia.

Situaçom inquietante

Quando escrevo estas reflexons de urgência ainda faltam por assignar 22
representantes ["curules"] da Assembleia Nacional. Atualmente o GPPSB
logrou 46, frente aos 99 do MUD. Se a contrarevoluçom atingir 2 mais,
poderá censurar membros do governo; e se chegar aos 110, poderá promover
referendos, reformas constitucionais, promulgar leis orgánicas que
desmontem a arquitetura institucional bolivariana e mesmo iniciar um
processo para umha nova Assembleia Constituinte.

A contrarevoluçom vai apresentar esta vitória como um plebiscito que
deslegitime a presidência de Nicolás Maduro. Sem lugar a dúvidas, a
instabilidade política e social que vive a Venezuela vai continuar, agora
com umha correlaçom de forças institucional alterada. Nom esqueçamos que a
direita, por primeira vez, já nom questiona os resultados nem a
legitimidade do Conselho Nacional eleitoral, já nem montou guarimbas nos
bairros ricos, nem protestou. Agora a sua estratégia vai centrar-se na
erosom a Maduro, mesmo tentará forçar a convocatória de um referendo para
revogar a Presidéncia da República.

Desafios do chavismo

O chavismo tem dous grandes reptos: recuperar o apoio popular perdido,
ativar esse importante setor da base social chavista desencantada que
ontem votou tapando-se literalmente o nariz, como condiçom indispensável
para gerar as condiçons subjetivas que permitam dirigir e capitalizar umha
contraofensiva contra a reaçom que tentará liquidar as conquistas sociais
mediante privatizaçons e retirada do apoio às Missons.

Mas, simultaneamente, deve promover sem limitaçons um profundo debate
político-ideológico que culmine com a substituiçom e cessamento da
burocracia parasita corresponsável desta derrota. Porém, as resistências
vam ser mui grandes, pois os interesses em jogo som imensos. É mesmo
possível que um setor desta fraçom burocrática procure umha saída
negociada com a contrarevoluçom, umha "transiçom" para assegurar os seus
privilégios em troques de voltar para um modelo de democracia burguesa do
agrado de Washington e o FMI.

Mas afortunadamente nestes 17 anos de Revoluçom Bolivariana um setor mui
importante do povo venezuelano tem atingido um grau importante de
politizaçom e auto-organizaçom, disposto a defender por todos os meios a
sua [a nossa] Revoluçom.

Há que desenvolver o socialismo comunal e bolivariano, dar poderes ao
povo auto-organizado como permite a Constituiçom Bolivariana, ocupar as
ruas e, dos bairros e dos centros e trabalho, fazer frente aos planos da
camarilha da MUD teledirigida polos Estados Unidos.

Nicolás Maduro terá que recorrer novamente a umha Lei Habilitante que lhe
conceda poderes especiais, que lhe permita governar por decreto e ganhar
tempo [seis meses], para recompor o chavismo com o debate pendente que
reclamarom durante anos as correntes revolucionárias no seio do PSUV e as
forças aliadas, e preparar-se para um novo cenário em que a Assembleia
Nacional vai responder às diretrizes da embaixada dos Estados Unidos e nom
aos interesses do povo trabalhador venezuelano.

Vam ser tempos duros. Tem razom Nicolás Maduro quando afirma no seu
discurso reconhecendo a derrota eleitoral que tem de vir "umha nova etapa
da Revoluçom Bolivariana". Sem umha profunda correçom da linha
social-democrata e pactista até hoje hegemónica, sem umha profunda
democratizaçom do PSUV, nom será factível aproveitar esta derrota tática
para a converter num revulsivo que facilite o tam desejado e reclamado
avanço estratégico.
Galiza, 7 de dezembro de 2015

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


In
RESISTIR.INFO
http://resistir.info/venezuela/derrota_eleitoral_dez15.html
8/12/2015

sábado, 5 de dezembro de 2015



Educação no movimento social: a luta contra a precarização do ensino público

Candido Giraldez VIEITEZ
Neusa Maria DAL RI


Introdução
O sistema escolar capitalista começa a formar-se nos países metropolitanos a partir de meados do século XIX e tardiamente nos países periféricos (BOWLES; GINTIS, 1976). No Brasil, políticas públicas visando constituir o sistema moderno de educação começam a ser aplicadas com a educação republicana (SOUZA, 1998).
Entretanto, lutas sociais na área da educação tornaram-se significativas apenas a partir dos anos de 1950 (SILVER, 2005). Isso ocorre porque nessa década a educação escolar capitalista já tinha adquirido uma escala de massas nos países centrais, e nos países periféricos o fenômeno encontrava-se em andamento.
No Brasil, nas décadas de 1950 e 1960, no bojo do Movimento pela Revolução Brasileira (MRB), a participação dos atores da educação esteve representada praticamente pelo movimento estudantil (ME), notadamente das universidades públicas.
Os estudantes defendiam as consignas do MRB sintetizadas na idéia de reformas de base, ou seja, reforma agrária, política, urbana e educacional. Particularmente, estavam interessados nas liberdades democráticas e na reforma universitária, que deveria contemplar a ampliação de vagas e a expansão do ensino público.
Com a instauração da ditadura militar em 1964, o movimento social (MS) foi duramente reprimido e permaneceu praticamente na clandestinidade até o segundo lustro dos anos 1970, à exceção do ME que continuou atuando publicamente até o decreto 477, promulgado em 1969, que levou o Ato Institucional n. 5 (AI-5) para o interior das universidades.
No final dos anos de 1970 e até 1985 uma nova vaga de conflituosidade emergiu no país. Esta onda de conflitos, engendrada inicialmente pelos operários, buscou conter a exploração econômica, liquidar a ditadura e restaurar a república democrática.
Na área da educação, além dos estudantes, incorporam-se à luta os docentes e funcionários das escolas e universidades.
A entrada em cena dos professores e funcionários, coordenados por suas entidades recém constituídas , proporcionou uma dimensão nova à atuação política dos movimentos e especialmente dos atores da educação. A questão básica residia nas características adversas que a organização da educação e o mercado de trabalho estavam assumindo pela ação da ditadura. Porém, enquanto que a questão do mercado de trabalho para os estudantes apresentava-se como uma projeção a respeito de seu futuro profissional, para os trabalhadores da educação apresentava-se como um problema imediato. Deste modo, professores e funcionários entraram em greve por melhores salários, mas, logo em seguida, engrossaram a luta contra a ditadura e pela volta ao estado de direito. Além disso, defenderam o ensino público e gratuito e, também, apresentaram uma propositura insólita e inovadora: a gestão democrática na escola.
O ímpeto do MS que gerou novas organizações e levou ao fim da ditadura militar, suscitou entre as suas lideranças a expectativa de que a classe trabalhadora se mantivesse politicamente atuante. Contudo, não foi isso o que ocorreu e, depois de 1985, com exceção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o movimento em geral entrou em refluxo.
O refluxo do Movimento no país encontrou-se em consonância com o refluxo dos MS no mundo todo, tendência que se precipitara depois da II Guerra Mundial (SILVER, 2005).
No entanto, a partir do final dos anos de 1990, verificamos em vários países da América Latina uma revivescência dos movimentos sociais, principalmente na Venezuela, Bolívia, Argentina e Equador. E, atualmente, extraordinárias mobilizações estão ocorrendo em países europeus contra as reformas neoliberais e o ônus da crise econômica que recai sobre os trabalhadores (BROWN, 2010; LLOPIS, 2010). Portanto, há razões objetivas para crermos que o movimento social em geral se revigorará proximamente e que isto ocorrerá também no Brasil.
No Brasil, a partir de 1990, importantes mudanças vêm ocorrendo na área educacional, tais como, a quase-universalização do acesso à escola, com conseqüente crescimento das categorias docente e estudantil, a implantação de reformas neoliberais e, seguindo uma tendência geral das sociedades industrializadas, a expansão do trabalho intelectual no mundo da produção.
O sistema escolar, que passou por um longo processo de amadurecimento, apresenta-se agora plenamente configurado como uma estrutura do capitalismo e, portanto, transfixada por contradições específicas ou gerais inerentes a esta formação econômico-social. Com base na análise das determinações e contradições atuais desse sistema é que sustentamos neste trabalho que a área educacional tende a se converter proximamente em um dos focos mais importantes de conflituosidade social.

1. O movimento da educação na Revolução Brasileira (1950-1960)

Nos anos de 1950 e 1960, o movimento social atuou sob a perspectiva da Revolução Brasileira (RIDENTI, 2005).
O MRB abrigava um complexo heterogêneo de forças sociais. Havia diversas organizações que se reivindicavam socialistas e que disputavam espaço político. Dentre as organizações de esquerda, o Partido Comunista era possivelmente a que tinha mais incidência no movimento operário-popular (MOP). Apesar de os comunistas terem como objetivo principal a revolução socialista, eles acreditavam que antes do socialismo seria necessário realizar as reformas democrático-populares, ou seja, elevar as condições de vida dos trabalhadores, fazer a reforma agrária, consolidar a república burguesa e libertar-se do jugo imperialista.
A revolução brasileira assim entendida constituiu o caudal principal dos MS desse período. O movimento que incluía, além dos partidos, as Ligas Camponesas, trabalhadores rurais assalariados, sindicatos, conselhos sindicais, movimento estudantil, dentre outros atores e organizações, intensificou as mobilizações à medida que adentravam os anos de 1960, o que conduziu a uma atmosfera política de clímax.
Nesse período, os atores da educação que participaram do movimento foram os estudantes, principalmente os universitários do setor estatal, como assinalado.
Os estudantes tinham tradição de luta pelas liberdades democráticas e apoiavam as reformas de base, em especial a reforma universitária. As principais reivindicações dos estudantes eram: o aumento de vagas no ensino superior; o co-governo nas faculdades e universidades; e o ensino público e gratuito.
Em 1962, a União Nacional dos Estudantes (UNE) decreta a greve nacional, numa tentativa de forçar as instituições de ensino superior a aceitarem sua demanda de 1/3 de representação estudantil nos órgãos colegiados.
Como nesta época as universidades eram majoritariamente públicas, a sua expansão aparecia como estratégica para o setor estudantil integrante de estratos sociais médios, que via na educação uma forma de ascensão social ou um meio para a reprodução de sua classe.
A história da categoria docente encontra-se pontuada, desde a República, por manifestações, greves e reivindicações circunstanciais e localizadas. Porém, nos anos de 1950 e 1960 os professores ainda não haviam se organizado como categoria para a luta social e, portanto, não participaram significativamente do movimento.
Os professores são trabalhadores assalariados e, desse modo, necessitam vender sua força de trabalho como qualquer outro trabalhador. Contudo, por suas funções nas relações de produção pedagógicas, rendimentos, status social e condições de trabalho, diferenciam-se dos demais trabalhadores, o que era mais evidente nos anos de 1950-60. Os docentes eram uma das poucas categorias de assalariados que conservava um controle significativo sobre o processo de trabalho, condição completamente atípica depois da introdução do taylorismo nas indústrias no início do sec. XX.
Além disso, os professores do setor público tinham uma carreira estruturada e estável. Os seus proventos eram, em geral, muito diferenciados segundo os níveis de ensino. Porém, mesmo nos níveis básicos, os salários não eram aviltantes. Esse fato combinado com a estabilidade na função e alguns outros direitos faziam dos docentes um segmento social que gozava de condições profissionais e de vida diferenciadas.
O relativo controle sobre o processo de trabalho era vital na determinação desse perfil profissional. A escola capitalista desempenha várias funções sociais. Uma das mais conspícuas é a transmissão da concepção burguesa de mundo aos alunos . Por um lado, a transmissão ideológica decorre de modo imanente da estrutura da escola e da práxis escolar que essa suscita. De outro lado, porém, a reprodução da concepção de mundo oficial, num regime de trabalho em que os docentes ainda controlavam uma parte significativa do processo, dependia de que eles aceitassem o papel de funcionários do sistema escolar na condição de intelectuais da ordem social . Em outras palavras, porque os professores tinham o controle sobre o processo de trabalho e porque a burguesia necessitava de que eles estivessem bem integrados à ordem social, realizando a contento a tarefa que lhe fora designada, esses profissionais foram contemplados com uma situação social relativamente privilegiada das classes médias em termos de rendimento e status social.
Funções profissionais positivamente diferenciadas e situação sócio-econômica favorável foram as razões mais importantes que mantiveram os docentes fora da grande vaga de agitações sociais dos anos 1950/1960. Eles não viviam como os chamados trabalhadores, não se sentiam como eles e não pretendiam agir como eles . Entretanto, mais adiante mostraremos como a partir dos anos de 1970, essa situação começaria a mudar.
O programa do MRB, ao menos em sua vertente principal, situava-se dentro da ordem. Contudo, esse programa não era compatível com os interesses das classes dominantes nacionais e/ou externas. A reforma agrária, uma das reivindicações, era impensável para a burguesia agrária da época, como é impensável ainda hoje, e o antiimperialismo era inadmissível para o império americano, recém constituído como hegemônico, que considerava (considera) a América Latina como subalterna e sua área de exploração.
Além disso, estava em curso a chamada guerra fria. A URSS, em particular, se tornara uma antagonista real no campo da geopolítica e da luta de classes em âmbito mundial, e as classes proprietárias temiam que o movimento de massas pudesse ser contagiado pelo comunismo. Ainda, havia a tradição política brasileira. Todas as grandes mudanças ocorridas no Brasil, tais como a independência, a instauração oficial do capitalismo com a abolição da escravatura, a proclamação da República, o Estado Novo e a Segunda República foram instauradas pelo alto, com pouco ou nenhum concurso dos trabalhadores. No MRB, contudo, os trabalhadores entraram em cena como protagonistas, e isto por si só era uma situação execrável para a classe dominante habituada com o exercício monolítico do poder.
Portanto, no intercruzamento dos poderes dominantes nacionais e imperiais, a salvação das classes dominantes foi encontrada no big stick, como diziam os americanos, isto é, o golpe de estado e a reconversão da guerra fria em guerra civil contra os trabalhadores do país.

2. Atores da educação na luta pela instauração da república democrática (1970/1980)

A reação inicial da classe operária ao golpe militar foi débil. Os focos de resistência proeminentes praticamente limitaram-se às movimentações dos trabalhadores de Contagem, em Minas Gerais, e de Osasco, em São Paulo.
Ativistas advindos dos partidos de esquerda iniciaram a organização da luta armada que não prosperou. Mas, a oposição franca continuou no ME. Em 1968, reverberando também a grande rebelião operária e estudantil na França, o movimento dos estudantes exacerbou-se, porém, acabou dominado. Assim, durante onze anos, o MOP, comprimido pela repressão da ditadura desapareceu da cena pública e teve que se limitar à atuação nos interstícios da sociedade.
Entretanto, em 1978, quando a ditadura parecia deter o completo controle do MOP, o conflito estourou a partir da paralisação de uma fábrica em São Bernardo do Campo. Após esse fato, outras agitações emergiram no ABC Paulista e, subsequentemente, disseminaram-se pelo país, atingiram outras categorias, como as dos funcionários públicos e bancários e, finalmente, impregnaram o segmento político e a sociedade civil com uma onda de manifestações operárias e populares que culminou com o fim da ditadura e a reinstalação da república democrática (SADER, 1988).
Esta onda de conflituosidade teve uma natureza diferente daquela que a antecedeu. As primeiras greves foram por melhorias salariais (tradeunionistas), mas na medida em que o movimento confrontou-se diretamente com a repressão, agregou um elemento político expresso na consigna abaixo a ditadura. Nesse momento, tornou-se observável a nova ideia sintagmática do movimento, lideranças e organizações existentes. A ideia podia ser expressa numa palavra: democracia.
O mesmo influxo democratizante, que no universo sindical expressou-se por meio do novo sindicalismo, levou setores do MOP à construção de uma nova organização sindical que se corporificaria na Central Única de Trabalhadores (CUT), e de um novo partido sintomaticamente intitulado Partido dos Trabalhadores (PT), criado em 1980.
O novo partido, em especial, que acabou dando expressão política ao eixo desse grande movimento social, constituiu-se essencialmente como um partido da república democrática , malgrado a presença de certo flerte com o termo socialismo que aparece em seus documentos e da presença de socialistas em suas fileiras.
É consabido o papel no movimento das novas classes médias que se formaram com a industrialização, particularmente os seus segmentos urbanos e educados. Como parte dos estratos médios, o setor da educação, diferentemente do que ocorrera nos anos 1950/1960, aderiu ao movimento com todos os seus segmentos - professores, funcionários e estudantes – de todos os níveis de ensino. E, seguramente, a adesão de professores e funcionário à luta social, somando-se aos estudantes, constitui um ponto de inflexão na trajetória da educação brasileira.
O que ocasionou a entrada desses segmentos na luta social?
As políticas do neoliberalismo começaram a ser implementadas no Brasil a partir dos anos de 1990. Porém, antes disso, em conúbio com o imperialismo, a ditadura militar antecipou no plano trabalhista, educacional e social algumas das políticas neoliberais.
As escolas privadas superiores receberam diversos tipos de incentivos públicos e tornaram-se amplamente majoritárias.
As redes de ensino primário e ginasial foram expandidas, porém, em condições que engendraram uma trajetória de descendência da qualidade do ensino público no país.
Os proventos dos professores em geral foram erodidos ou estavam em processo de corrosão.
Iniciou-se um processo de desestruturação das carreiras docentes e de rebaixamento das condições de trabalho. Instaurou-se a prática de contratações provisórias em tempo parcial obrigando os professores a lecionarem em mais de um estabelecimento.
Nesse período, ainda, foram realizadas as primeiras experiências com novas tecnologias educacionais, como, por exemplo, o ensino programado, métodos de avaliação, entre outras, cujo objetivo último era o controle do processo de trabalho pedagógico-didático por parte do Estado ou empresariado.
Em suma, teve início sob o regime militar o fenômeno que na atualidade, sob as políticas capitalistas neoliberais, denominamos de precarização educacional e do mercado de trabalho docente. Voltaremos a esse assunto posteriormente.
Em decorrências dessas políticas, embora não sem dificuldades, os docentes começaram a reconhecerem-se como trabalhadores, ou como sendo parte da classe trabalhadora . A percepção de pertencimento à classe trabalhadora começou a manifestar-se objetivamente no fato de que a categoria docente foi criando seus sindicatos, ou seja, os professores passaram a se socorrer do tipo de organização que os operários de há muito utilizavam e que no longo tempo da história aparece como fenômeno indissociável da luta social.
Sob o efeito das mesmas políticas, o ME que já vinha se mobilizando nos anos anteriores, em 1979 deu início à reconstrução de suas entidades representativas solapadas pela ditadura, como a UNE e as Uniões Estaduais de Estudantes, entre outras.
Como observado, os atores da educação e suas organizações aderiram às bandeiras gerais de luta. Porém, apresentaram, também, reivindicações específicas sintetizadas nas seguintes demandas: a) aumento salarial e plano de carreira; b) ensino público, gratuito e de qualidade; c) democratização da gestão escolar.
A reivindicação referente à gestão tomou duas formas. Na universidade a reivindicação era pela democratização dos órgãos colegiados e na educação básica pela gestão democrática na escola.
A partir destes eventos, a educação passou a ter uma importância e uma visibilidade maiores nos MS e na sociedade e, dessa forma, passou a ter também maior presença na pauta política de partidos, sindicatos e outras organizações.
Reexaminemos em perspectiva esse período em que se liberaram consideráveis energias políticas. A ditadura tratara de desmontar o MRB e em continuidade tentou impedir que fosse restabelecido o vínculo entre as massas populares e a perigosa idéia de revolução, a qual independentemente de seu viés mais concreto estava referida à tradição socialista. O regime militar foi bem sucedido nessa empreitada. Assim, a maior parte da classe trabalhadora, no momento em que foi capaz de reerguer suas organizações e movimento, colocou-se em marcha como um contingente predominantemente adventício, que em boa parte perdera os elos com a perspectiva socialista e passara a dar prioridade à questão democrática. O movimento da educação, inclusive os estudantes, que no passado estiveram ligados ao MRB, integrou essa nova vertente majoritária.
Porém, cabe destacar que nesse processo de retomada da luta pelos MS ocorreu uma bifurcação político-ideológica produzida, em especial, pela formação em 1984 do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O MST, ao reerguer a bandeira da reforma agrária radical, retomou a antecedente idéia de reforma estrutural da sociedade com vistas ao socialismo e, ao mesmo tempo, erigiu-se como a mais inovadora das organizações que se formou nessa torrente, seja por seus métodos de luta e organização, seja por sua notável atividade educacional (DAL RI; VIEITEZ, 2008).

3. O movimento em refluxo: democracia e socialismo (1990/2000)

Em 1984 o MS no Brasil apresentou-se num pico elevado, sobretudo com as manifestações pelas Diretas Já que levaram, na cidade de São Paulo, 1,5 milhões de pessoas às ruas. O movimento manteve-se relativamente atuante até 1988, em especial nas universidades públicas. Dos anos de 1990 para frente, os MS no Brasil adentraram em um dos patamares mais baixos de conflituosidade, seguindo a tendência mundial.
A partir de meados de 1990, vários movimentos importantes começam a eclodir em países da América Latina, com destaque para os Zapatistas no México (1994), e movimentos na Venezuela, Bolívia, Argentina e Equador (VIEITEZ; DAL RI, 2009).
No Brasil, entretanto, excetuando-se o MST, o recuo dos movimentos sociais mantém-se até os dias atuais. Há fatores econômicos e políticos que incidiram e incidem sobre esse fenômeno.
No plano econômico houve uma depressão do mercado de trabalho provocada principalmente pelas seguintes determinantes: a) o baixo crescimento econômico e a concomitante estagnação do crescimento da renda per capita; b) aumento da taxa de desemprego; c) deslocamento da produção; d) proliferação de empregos lixo; e) desenvolvimento tecnológico.
Nos anos de 1980, houve um decrescimento econômico. Esse fato repercutiu na renda per capita do país que, segundo Weisbrot (2010), foi de menos de 4% de 1980 a 2000. Além disso, a taxa de desemprego acentuou-se a partir do governo Collor, com a implantação das políticas neoliberais e conseqüente abertura do mercado nacional.
Nessa fase, um dos fatores importantes, que incidiu negativamente sobre o mercado de trabalho, foi a política de deslocamento das empresas. No Brasil, o capital começou a deslocar unidades de produção dos locais onde o trabalho estava organizado para outros nos quais a força de trabalho era disponível e não organizada. Em âmbito mundial, o capitalismo neoliberal expandiu o mercado de trabalho, instalando-se em setores ainda não explorados, com força de trabalho barata e não organizada, inclusive na China e em outros países do antigo socialismo histórico. Esse movimento foi nefasto para o trabalho porque permitiu derrubar os salários no Ocidente, aumentar a competição entre os trabalhadores e enfraquecer significativamente sua capacidade de luta.
O desenvolvimento tecnológico poupador de força de trabalho tem sido, historicamente, uma forma de controle do mercado de trabalho pelo capital. Nos anos de 1990, o avanço da robótica e outras tecnologias de automação contribuíram para a extinção de muitos postos de trabalho. No ABC Paulista, por exemplo, plantas fabris que empregavam até 30 mil trabalhadores tiveram o seu plantel reduzido a um terço.
Uma relativa recuperação econômica apenas ocorreria a partir de 2002, no primeiro mandato do governo Lula.
Embora os fatores relativos às relações de produção sejam, em geral, os elementos fundamentais na determinação dos níveis de conflituosidade social e laboral, as características e a atuação das organizações do MOP criam ou não potencialidades para o movimento. Portanto, é fundamental que levemos em consideração o feitio que tomaram as correntes que preponderaram no MOP.
No plano político, desde os anos de 1980, o PT foi convertendo-se na força política ideológica preponderante no campo da esquerda. Em parte isso ocorreu porque ele atraiu segmentos da militância católica popular, da teologia da libertação, alguns partidos socialistas, militâncias sindicais de oposição e vários MS. No entanto, desde o início, a fração dominante do partido foi a democrática. Com o passar do tempo, o partido que surgira com fortes vínculos com as bases populares, passou a priorizar a política eleitoral/parlamentarista e um welfarism populista. Quando o PT ascende ao governo federal coopta várias organizações importantes, como a UNE e, particularmente, a CUT que passa a adotar uma política tradeunionista branda.
O republicanismo democrático foi também a corrente majoritária presente no movimento da educação, como assinalado anteriormente. Organizações importantes para o movimento como, por exemplo, o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN) fundado em 1981, e o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP) fundado em 1945, embora nos anos de 1980 ainda fossem Associações, atuaram desenvolvendo funções sindicais e sob a dominância dessa corrente.
Mais tarde, porém, muitas das organizações ou militantes que atuavam ao abrigo da corrente republicana tornaram-se divergentes, esse é o caso, por exemplo, do ANDES. Com isso, a bifurcação empreendida pelo MST em 1984 começou a ampliar-se tendo como divisor de águas a questão anticapitalista ou socialista.
É exatamente em torno a essa questão que a partir dos anos de 1990, inicia-se a reorganização da agenda dos MS no Brasil. O esforço de reorientação do vetor político-ideológico dos movimentos se expressa, sobretudo, na formação ou rearranjo de organizações orientadas para o socialismo . As organizações desse tipo que têm certa visibilidade são o Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), Coordenação de Lutas (CONLUTAS) e MST, dentre outras.
O PCB é um dos partidos de esquerda brasileiro mais antigo e que na atualidade está procurando reorganizar-se a partir de um Programa expressamente socialista. O PSOL foi formado em 2004 a partir de ativistas e tendências da esquerda que atuavam no PT. O PSTU - seção no Brasil da Liga Internacional dos Trabalhadores, Quarta Internacional - formou-se em 1994 e também atuava no PT. A CONLUTAS foi criada em 2006 com o objetivo de organizar uma alternativa de atuação para os trabalhadores brasileiros, com independência de classe e socialista e os partidos e movimento citados a integram.
Muitas das organizações ou militantes que estão descolando-se da influência do PT/CUT o fazem explicitamente em função da orientação para o socialismo. Outras organizações, entretanto, que não têm uma perspectiva programática tão clara, movem-se inspiradas pelo desejo de estabelecerem ou restabelecerem relações orgânicas com os trabalhadores, segundo a perspectiva de que é necessário superar o campo eleitoral/parlamentar republicano liberal.

4. A educação em perspectiva

Até este ponto, mostramos que o MOP no Brasil, nos anos de 1980, reviveu na luta contra a ditadura. Ao mesmo tempo enfatizamos a adesão de docentes e funcionários ao movimento, somando-se aos estudantes que já tinham tradição de luta. Mostramos, também, que as expectativas quanto à pujança e recorrência desse movimento não se realizaram, o MOP entrou em refluxo e não retomou seu impulso, nem mesmo quando grandes conflitos atingiram vários dos países latino-americanos.
Em seguida, reafirmamos a nossa hipótese de que as políticas neoliberais e a crise econômica estão engendrando condições objetivas que resultarão no relançamento do MOP, inclusive em nosso país. Nesta assertiva não nos encontramos solitários, pois há uma corrente de análises nessa direção. Stédile (2010), por exemplo, experiente dirigente do MST, declara o seguinte:
Estamos em um período de resistência, de acúmulo de forças, para que num próximo período histórico, que espero seja em breve, a classe consiga retomar a iniciativa de lutas de massa, acumular forças e partir para a ofensiva política. Nesse novo período de retomada das lutas, surgem novas formas de luta, novos instrumentos e novas lideranças. A luta de classes acontece na forma de o¬ndas históricas, alternando períodos de ascenso do movimento de massas (com disputas de projetos, que podem resultar em situações pré-revolucionárias) e períodos de derrota, [nos quais] se formam descensos e depois períodos de resistência, para acumular para reascenso.

No entanto, não é esse aspecto que desejamos explorar, mas sim as principais razões pelas quais acreditamos que a área da educação se converterá proximamente em um dos setores de conflituosidade trabalhista-estudantil mais importante, à semelhança do que foram no passado as áreas têxtil e metal-mecânica.


4.1. Aprofundamento e amplificação da precarização do mercado de trabalho docente
A precarização do mercado de trabalho docente significa um retrocesso nas condições de trabalho e vida dos professores, bem como a perda de direitos legais. Entretanto, por suas implicações políticas é importante distinguir entre o que denominamos de condições gerais e condições específicas de precarização. As específicas abarcam a liquidação do controle relativo do processo de trabalho pedagógico-didático, que os docentes conservavam até a década de 1980.

4.1.1. A precarização em geral
O aparecimento de organizações que buscam a transcendência da ordem social, em antítese com o republicanismo estabelecido e ainda preponderante no MOP, é fator auspicioso. Contudo, as forças mobilizadas não conseguiram sustar e muito menos inverter o avanço das políticas neoliberais implementadas inclusive pelo PT, ainda que este possa ter contribuído para suscitar alguma moderação .
O resultado é que o neoliberalismo está amplificando e aprofundando as políticas de precarização que tiveram início com o regime da ditadura militar.
Os salários continuaram a ser erodidos. No ensino superior público, lutas reiteradas, em geral com greves, conseguiram, em parte, resistir a esse processo.
Na educação básica, entretanto, os salários encontram-se agora totalmente aviltados. Os professores apenas conseguem preservar algumas poucas prerrogativas de seu antigo status de classe média recorrendo a três jornadas de trabalho, quase sempre em estabelecimentos diferentes, às quais se somam habitualmente os trabalhos realizados fora das instituições, envolvendo correções de provas, preparação de aulas e outros afazeres conexos. Em março de 2010, os professores do Estado de São Paulo realizaram mais uma greve. Um dos documentos publicado pelo movimento afirma:
A situação dos profissionais da educação em São Paulo se tornou insuportável. Os salários, congelados há mais de dez anos, não permitem uma vida digna, muito menos possibilitam aos professores investirem na sua formação. [...] O governo destrói os planos de carreira, dividindo a categoria em regimes de trabalho diferenciados e cada vez mais precários [...]. (UNIDADE CLASSISTA – TRABALHADORES DA EDUCAÇÃO, 2010).

Benefícios tradicionais constantes no serviço público, como qüinqüênios, sexta parte, ano sabático ou assemelhados foram estigmatizados como coisas de marajás e subtraídos.
A modificação da lei que propiciava relativa estabilidade no emprego aos operários e outros trabalhadores fora, no passado, uma das primeiras medidas antitrabalhista executada pelo governo militar. Essa medida, que na época não fora aplicada ao serviço público, começou a atingir também os docentes por vias transversas. Finalmente, sob os governos liberais de Fernando Henrique e Lula da Silva, o direito à demissão no serviço público foi legalizado mediante uma contrarreforma da administração pública e em nome da racionalidade e flexibilidade das relações de trabalho.
Ainda sob os governos de Fernando Henrique e Lula da Silva, a contrarreforma da previdência acabou com a aposentadoria integral e proporcional às contribuições realizadas durantes a vida ativa dos trabalhadores, fixando para os servidores públicos um teto fixo, de fato, um teto de pobreza e ainda sujeito à degradação pela inflação não reposta.
Em suma, os trabalhadores docentes e os funcionários públicos, como os demais trabalhadores, foram e encontram-se submetidos ao que podemos denominar de uma radicalização dos princípios operatórios do capitalismo aplicados ao mercado de trabalho. Este fenômeno pôde aparecer durante algum tempo como políticas implementadas pelo capitalismo periférico. No entanto, pelo que observamos hoje nos países centrais, nos Estados Unidos e na Europa do welfarism, o fenômeno dissemina-se no capitalismo global.

4.1.2. A precarização como expropriação da liberdade de cátedra.

A extinção praticamente consumada do que classicamente se conhece por liberdade de cátedra constitui uma das dimensões de maior impacto potencial das políticas capitalistas de precarização, tanto para o mercado de trabalho docente, quanto para a educação escolar como atividade.
A liberdade de cátedra é um conceito que exprimi o controle relativo, porém não destituído de significado real, que o docente pode ter sobre seu processo de trabalho, ou seja, sobre o processo de ensino-aprendizagem.
A manutenção desse controle no sistema escolar até a chegada do neoliberalismo, não deixa de ser surpreendente, embora não seja original, uma vez que fenômeno semelhante esteve vigorosamente presente no mercado de trabalho industrial, até o início do século XX, sob a designação de controle operário (DINTENFASS, 1994; MONTGOMERY, 1985).
Observamos que se o capitalismo tem início no século XVI com dois fenômenos interdependentes e inextricáveis, a produção manufatureira e a produção da classe assalariada, o capital apenas se apossa do processo concreto de fazer as coisas com o advento do taylorismo/fordismo já no século XX . Isso significa que, mesmo sob a revolução industrial, eram os artesãos industriais, na maior parte das atividades, que detinham os saberes e o controle do processo de trabalho concreto, embora como assalariados fossem subordinados ao capital em praticamente tudo o que realmente contava para suas vidas.
Na educação, no entanto, a situação de controle relativo do processo de trabalho docente foi preservada no sistema escolar até recentemente. No cotidiano escolar essa realidade era traduzida por meio de várias expressões. Na universidade era mais comum o uso do termo de liberdade de cátedra . Na educação básica, porém, a realidade do controle estava mais presente na usual percepção do docente de que ao menos na sala de aula quem mandava era ele.
Na escola, desde sua origem, regras foram adotadas para o seu funcionamento. Entretanto, a hierarquia tinha conhecimento de que a categoria docente era, num certo sentido, tão incorrigível quanto os estudantes. O professor tinha autoridade para aplicar uma disciplina rígida ou laxa; regular o ritmo de suas aulas, cumprindo ou não o programa; aplicar provas; aprovar ou reprovar alunos com arbitrariedade; indicar bibliografias e outros materiais didáticos; registrar os temas do programa em seu diário de classe e tratar de outros assuntos; e até mesmo de realizar um ensino crítico ou transformador.
Embora como assalariados os professores já fossem dependentes e subordinados ao capital, pela mediação do Estado, a autoridade e o espaço para trabalhar, que lembram a atividade dos antigos artesãos, eram reais e tinham significado para a vida laboral dos docentes. Essa dimensão artesanal ou manufatureira do trabalho docente foi observada por Alves (2001), que se acercou com propriedade da organização da escola capitalista, embora sua análise, que apregoa certa nostalgia do mestre artesão na pedagogia moderna, acabe seguindo por uma direção bastante distinta daquela que propomos.
Não se tratava apenas da liberdade de cátedra ou do artesanato do processo de ensino-aprendizagem. De fato, essas liberdades, as funções desempenhadas pelo Estado na época de ouro, as características do mercado docente e outras determinantes, propiciavam ao sistema escolar estatal público um modus operandi bastante sui generis comparativamente a outras organizações da sociedade. Um exemplo desta especificidade é a sobrevivência no meio escolar de órgãos colegiais, como as congregações e os conselhos, que originariamente foram aparatos de gestão do Antigo Regime.
Esse modus operandi específico da escola, que tinha como núcleo a relativa autonomia dos docentes no processo de trabalho pedagógico, foi a matriz objetiva de formulações influentes na área de educação, como as teses de que a escola não é em si mesma capitalista e que é possível utilizar a cátedra para desenvolver-se um ensino crítico e orientado para os interesses da classe trabalhadora.
A presença deste tipo de escola ainda em fins do século XX suscita uma indagação. Por que a classe dominante permitiu essa relativa autonomia da escola e dos trabalhadores da educação, quando a maior parte dos demais trabalhadores já tinha sido expropriada desse controle?
Limitamo-nos aqui a mencionar a determinante que remanesceu como principal impeditivo para controlar totalmente o trabalho docente. Este impeditivo era a limitação das tecnologias existentes, o universo das máquinas-ferramentas disponíveis, que não se adequava satisfatoriamente à natureza do trabalho pedagógico-científico.
Essa dificuldade técnica desapareceu. Assim como o desenvolvimento da tecnologia possibilitou ao taylorismo, muito antes de Taylor, desde fins do século XIX, o desenvolvimento de uma nova geração de máquinas-ferramentas, na atualidade a informática e a eletrônica estão propiciando condições técnicas e econômicas de renovação das tecnologias de controle, engendrando um neotaylorismo. O neotaylorismo, que não descarta a burocracia tradicional e a supervisão hierárquica imediata, opera preferencialmente com a capacidade das novas tecnologias para captar, armazenar, processar e editar uma imensa quantidade de informações cognitiva ou simbólica, o que pode ser aplicado no universo acadêmico com reconhecido sucesso, inclusive ensejando o ensino à distância.
O resultado da ação centralizadora do Estado é que a autonomia docente e da própria escola ou já desapareceu ou está em via de extinção.
Manifestando a aflição docente com esse fenômeno, em julho de 2009, a CONLUTAS publicou um documento de repúdio ao governo do Estado.
Reafirmamos que o governo de São Paulo age de forma a acabar com a Liberdade de Cátedra nas escolas estaduais e que os profissionais do ensino recebem todo e qualquer material pronto. Professores, pais e estudantes não opinam sobre o material didático que o governo manda para casa e sala de aula [...].

O material didático pronto, contudo, que pode tomar formas diversas e que adéqua o professor a uma rota pedagógica precisa e pré-determinada pela hierarquia, não é o único componente do controle manejado pelo Estado. Com o mesmo objetivo de controle centralizado, o Estado criou um arsenal de tecnologias perfeitamente orientado e aplicado, tais como, as avaliações exógenas e endógenas dos alunos, dos docentes, dos programas e das unidades de ensino; a ampla utilização dos denominados sistemas de qualis, com notáveis repercussões sobre a estrutura do sistema científico, envolvendo a pesquisa, as editoras e os periódicos científicos; os bônus para a produtividade pedagógica e científica que impulsionam a concorrência entre docentes e unidades escolares, dentre outras.
Enfim, desenvolveu-se um controle centralizado do sistema educacional e de pesquisa, que abrange desde as estruturas e organizações de nível macro, até o trabalho pedagógico-didático molecular de docentes e discentes em sala de aula.
Quanto à concepção do mundo involucrada nessa nova práxis pedagógica, observamos que ela não tem mais afinidade com a concepção de serviço público que vigorou nos períodos anteriores e propiciou um desenvolvimento para o sistema público. Atuando contra a concepção de serviço público, apresentam-se agora categorias, tais como, individualismo ou particularismo exacerbado, produtividade desenfreada, concorrência, competitividade, mercantilismo, precarização do mercado de trabalho e privatização da escola pública, sob diversas formas mais ou menos explícitas.
Com essas mudanças, a situação do professor também mudou. A sua situação sócio-econômica se deteriorou, bem como o status social e profissional. O professor segue sendo um funcionário do sistema e um pequeno intelectual da ordem. Porém, tanto suas funções administrativas, enquanto quadro do sistema, quanto suas funções intelectuais no processo pedagógico foram transformadas pela perda de sua autonomia. Como dirigente ele perdeu boa parte do seu poder, seja para a hierarquia imediata na unidade de trabalho, seja para a hierarquia mediata via a parafernália logística de controle posta em movimento pelo Estado. E como intelectual da pedagogia perdeu a liberdade de articular com seus alunos uma práxis própria, tendo sua função pedagógico-intelectual reduzida à de um transmissor de fórmulas elaboradas por outros.
A centralização e concentração do poder pedagógico nas mãos do Estado se precipitaram em toda a linha de atividades pedagógicas. Este acontecimento foi plausível pelo uso extensivo das novas tecnologias informáticas que possibilitam o controle centralizado. Neste sentido, o sistema educacional, do qual se podia dizer que cultivava uma espécie de nostalgia do mestre artesão, industrializou-se. Porém, se industrializou no sentido de que completou a expropriação dos saberes dos trabalhadores da educação e o capital pode, finalmente, dominar molecularmente o processo de trabalho pedagógico, tanto quanto já dominava os demais fatores inerentes à produção pedagógica.

4.2. A fadiga do sistema escolar como progresso profissional e social

Duas funções estratégicas inextricáveis do sistema educacional se encontram, no presente, em processo de fadiga em decorrência da evolução do capitalismo e do próprio sistema escolar: a função da escola como habilitadora geral de força de trabalho; e a sua função ideológica de nutriz do progressismo burguês para consumo de massas.
À medida que o sistema público de ensino foi se desenvolvendo no século XX, a educação escolar de massas foi se articulando cada vez mais com o mercado de trabalho capitalista. O aluno adquire certas habilidades na escola as quais poderá usufruir em nível individual. Porém, esta esfera de usufruto apenas adquire caráter social, se o ex-estudante for capaz de converter as habilidades adquiridas na escola em valor ou dinheiro, o que para a maioria esmagadora dos ex-estudantes significa vender a sua força de trabalho no mercado. Portanto, imediatamente, a escola não produz nenhuma mercadoria. No entanto, ela produz uma das premissas necessária à realização de uma mercadoria especial, a força de trabalho assalariada.
A escola de massas, desde seu início, fornece formação geral e forma profissionais diversos. Neste sentido, ela é uma primeira instância de indexação social e profissional. A segunda instância, muito mais decisiva, são as empresas que contratam os profissionais no mercado de trabalho e que, num sentido concreto, redefinem o produto final liberado pela escola de acordo com seus interesses mutáveis.
Durante a época dourada do capitalismo, nos anos 1950-1960, o mercado de trabalho era segmentado por diferenciações profissionais bem marcantes. O trabalho intelectual era muito menos disseminado do que atualmente, e a tendência do mercado era a de valorizar e remunerar melhor esse tipo de trabalho. O sistema escolar em expansão era consideravelmente menos massivo do que é hoje e, certamente, muito mais restrito quando se exceptua o ensino elementar.
A certificação obtida na escola tendia a apresentar certa correspondência com os postos de trabalho, ao menos em relação às escalas salariais e de status. Um profissional formado no nível médio tinha possibilidade de encontrar empregos e salários razoáveis. E a educação universitária era quase uma garantia de obtenção de uma condição sócio-econômica diferenciada.
Desse modo, a educação formal podia aparecer no imaginário popular como uma das vias mais importantes de ascensão social e, de certa forma, isso de fato ocorria para os indivíduos dotados dos recursos econômicos imprescindíveis para a sua efetivação. Essa possibilidade dizia respeito, sobretudo, às camadas médias em expansão com o industrialismo. Ainda, na época de ouro, com o desenvolvimentismo e taxas de ocupação relativamente altas, mesmo os operários podiam lançar mão da escada escolar, preparando-se num curso profissional ou escola técnica.
Em suma, a escola capitalista não tem a propriedade de alterar a estrutura de classes sociais do sistema produtivo, muito ao contrário. Porém, ela tem a propriedade de promover certa mobilidade social, embora nem sempre para cima. Esta característica a torna vital para os estratos médios e em parte também para a classe trabalhadora.
Contudo, a ideologia de que a escola é capaz de gerar mobilidade social e progresso profissional, dependendo do esforço e do mérito do indivíduo, funcionava melhor na época de ouro. Nessa época, a escola era uma das agências privilegiadas para a promoção ideológica de importante faceta do progressismo burguês para consumo de massas, ou seja, a disseminação da idéia de que a sociedade capitalista assenta-se sobre o mérito, que começa a ser moldado na escola e que se encontra ao alcance de todos que forem abnegados, disciplinados, determinados e laboriosos.
Com o fim da época dourada e do welfarism, a situação da escola alterou-se consideravelmente. Em parte por necessidade dos mercados de trabalho e consumo, em parte devido às demandas da população e dos MS, a escola massificou-se chegando à quase universalização do ensino, de sorte que agora praticamente todos vão à escola.
A massificação do ensino trouxe certos dilemas para o sistema escolar e o perigo de sua descaracterização como habilitador universal da força de trabalho e indexador social e profissional, pois o número de pessoas formalmente educadas foi potenciado. Mas, o fato real é que não há lugar para todos no sistema de privilégios do capitalismo, mesmo porque o sistema está assentado na exploração de uma classe sobre outra. Como fazer para que o sistema escolar exerça a sua função de indexador social e profissional, reproduzindo a situação de classe das diversas camadas de trabalhadoras, porém preservando, ao mesmo tempo, a estratégica função de nutriz ideológica do progressismo burguês? A solução encontrada parece estar na combinação de dois fatores básicos: a configuração de um sistema escolar universal, mas com formato em espiral; e o manejo da qualidade educacional.
A formatação espiralada do sistema escolar instaura uma corrida praticamente sem ponto final. Se na época de ouro, o aluno com o curso médio conseguia reproduzir uma condição de classe ou projetar-se para um patamar um pouco melhor, agora o título de doutor pode não ser suficiente para se obter essas benesses. Até há pouco tempo, o doutorado quase que equivalia a um título nobiliário. Agora, porém, é apenas a premissa para o início da corrida pelas diversas titulações pos-doctor, numa trajetória em que se, por um lado, os títulos se acrescentam, por outro, os proventos profissionais diminuem em termos relativos e até absolutos .
O manejo da qualidade lida com o fato de que as performances escolares que são capazes de realmente produzirem um privilégio, sempre foram apanágios das classes possuidoras ou de estratos médios restritos, e para o capital assim deve continuar. O meio natural para se obter esse resultado é a presente precarização da escola pública, basicamente destinada às camadas trabalhadoras, e a promoção da escola privada, que pode ser paga apenas por quem já conta com uma situação social diferenciada .
No entanto, a massificação do ensino não foi o único fator que requereu da classe dominante providências de reorganização da educação. Com o industrialismo, o avanço das tecnologias e a mundialização, o trabalho intelectual, como previra Marx (1984), avançou impetuosamente, subtraindo espaço ao trabalho físico . Na época de ouro, as funções técnico-burocráticas ou intelectuais eram ainda restritas, bem como o contingente de força de trabalho detentora dos certificados habilitadores. Dessa forma, essas funções eram remuneradas de forma diferenciada e constituíam o sustentáculo material dos estratos médios assalariados.
Atualmente, o panorama é outro. Os mais variados setores da economia moderna utilizam robôs , máquinas quase-robôs e trabalhadores intelectuais de diversos tipos . A burguesia, em âmbito mundial, está derrubando o antigo padrão salarial desses trabalhadores, entre outras razões, devido ao crescimento quase exponencial desse grupo na economia atual. Na Europa, para dar um exemplo emblemático, a disseminação do chamado mileurismo (DRAGO, 2009), salários em torno de mil euros mensais, vai deixando para trás o walfare e as boas remunerações aos trabalhadores com funções intelectuais. Esse fato está gerando grande aflição nas classes médias e coloca um ponto de interrogação quanto ao seu futuro.
Uma vez que as configurações concretas de trabalho ocorrem, em última instância, no mercado de trabalho e não na escola, embora esta seja uma referência de indexação estratégica, a correspondência entre certificação e ocupação real sempre foi problemática. Mas, sob a pressão da crise, do desemprego e das políticas neoliberais a defasagem entre habilitação escolar e a realidade do mercado de trabalho está adquirindo contornos cada vez mais visíveis. Este fenômeno decorre de várias incongruências, porém, podemos sintetizá-las apontando que advém de um movimento inversamente proporcional entre a exigência de qualificação formal - cada dia mais elevada -, e a natureza da qualidade técnica e sócio-econômica do trabalho que se pode obter no mercado com a respectiva certificação – que segue uma linha de precarização.
Em suma, o sistema escolar encontra-se tensionado em suas funções habilitadoras e de promoção social. Os estudantes percebem que o sistema lhes cobra cada vez mais trabalho e permanência na escola, em troca de recompensas futuras incertas e descendentes. Os estudantes atuais dificilmente podem alimentar as ilusões que tiveram no passado quanto às benesses oferecidas pelo sistema escolar. Eles são cônscios de que a realidade escolar é difícil, e que mais difícil ainda é a situação do mercado de trabalho, com desemprego, concorrência e salários em queda.
E, no entanto, o estudantado, ao menos a maioria, é também cônscio de que não tem para onde ir. Mesmo com as diversas dificuldades encontradas na educação escolar, ainda é esta que fornece o passaporte para o ingresso no mercado de trabalho, uma vez que o mercado, ao colocar como premissa para o emprego a certificação escolar, de modo relativamente independente inclusive das habilidades expressas nessa certificação, erigiu o sistema escolar como o habilitador geral da força de trabalho assalariada.
Concomitantemente, o ensino público gratuito, o tipo de ensino que realmente está ao alcance da maioria do estudantado, encontra-se sob o ataque dos poderes dominantes, manifesto nos métodos de controle centralizados; cortes orçamentários drásticos; precarização do mercado de trabalho docente; privatizações sob diversas modalidades; contra-reformas curriculares marcadas por um sestro utilitarista-mercantil; e outras medidas que tendem a imprimir ao setor uma tendência social regressiva.
Na Itália, por exemplo, empenhada em reformas neoliberais como a maioria das nações, o ministro da economia declarou que “A cultura não dá de comer”, enquanto que a ministra da educação não teve prurido em dizer que “Minha reforma, enfim, vai acabar com o igualitarismo de 1968” (BRASIL DE FATO, 2010, p. 10).
No entanto, diante do ataque generalizado ao ensino público, ou ao que resta dele, os atores da educação procuram resistir. Em muitos países, do centro e da periferia, estudantes, professores e pesquisadores começaram a se movimentar contra a grande onda de contra-reforma educacional e precarização do ensino público (STANCHICH, 2010; MCSMITH et. al. 2010; BLISSET, 2010; PCC, 2010).

Conclusão
A educação escolar tornou-se uma das atividades mais importantes e generalizadas da sociedade capitalistas em virtude, por um lado, das necessidades da economia e, por outro, das demandas por educação da classe trabalhadora e dos MS. Nos últimos cinqüenta anos, a educação escolar tornou-se mais importante para a sociedade em decorrência do incremento acelerado do trabalho intelectual em todas as esferas de atividades. A relevância social da educação, entretanto, não está redundando em melhores condições de vida para os professores, os estudantes e os trabalhadores assalariados em geral.
À expansão incontrolável da educação, a classe dominante responde com um ingente esforço para fazer com que o sistema escolar cumpra seu papel como habilitador do trabalho assalariado, condição sine qua non para a reprodução do capitalismo e, ao mesmo tempo, para que o sistema não perca sua capacidade de promover a desigualdade social, sob o manto protetor da densa cortina ideológica do progressismo social supostamente embasado no mérito escolar.
As principais políticas implementadas com esse propósito são a privatização da educação sob diversas formas, o alongamento do perfil do sistema escolar e a precarização do mercado de trabalho docente.
A privatização da educação abre uma vasta área de atividade para a valorização direta do capital, possibilita um controle pedagógico mais eficaz de professores e estudantes e concentra o ensino de melhor qualidade em estabelecimentos pagos, que propiciarão as melhores possibilidades, tanto no sistema escolar de nível superior, quanto no mercado de trabalho.
O alongamento do perfil do sistema escolar coloca o alunado numa busca quase que sem fim. Os alunos devem permanecer mais tempo no sistema escolar (parking), no entanto, isso não significa que de fato venham a mover-se na escala sócio-econômica. Uma vez no mercado de trabalho, é necessário agora apresentar certificações de nível cada vez mais elevado para obter os mesmos benefícios trabalhistas que nos anos dourados se obtinham com uma certificação de escala mais baixa.
O estiramento do sistema escolar também possibilita abastardar o ensino na base da pirâmide educacional, aquele destinado às majoritárias camadas populares, uma vez que a qualidade do ensino necessária para a operação dos setores técnico-burocráticos está garantida pela dualidade do sistema: uma escola para os pobres e outra para os ricos.
A precarização do trabalho docente tem um ponto de inflexão na neotaylorização do processo de trabalho pedagógico. Quando o segmento docente possuía autonomia pedagógica, a classe dominante tinha que comprar sua lealdade possibilitando-lhe o usufruto de uma situação sócio-econômica minimamente confortável e prestigiosa. Porém, com o neotaylorismo o trabalho docente tornou-se barato e facilmente substituível, e a lealdade da categoria deixou de ser para os dirigentes um problema específico.
Essa linha de evolução está acentuando-se no presente, pois o que podemos observar é que os dirigentes, em âmbito mundial, estão respondendo à crise do capitalismo neoliberal com mais neoliberalismo.
Como a evolução da produção, a economia em geral depende cada vez mais das funções intelectuais e, dessa forma, a educação é crescentemente importante. Porém, esta tendência encontra-se em rota de colisão com o papel atribuído pelos poderes determinantes aos atores da educação. Os docentes estão se deparando com a degeneração sócio-econômica e profissional que, segundo tudo indica, em vez de arrefecer, aumentará no futuro imediato. Os estudantes, por seu lado, sofrerão com a renovada elitização do sistema educacional, o parking em expansão, o mercantilismo desbragado, bem como com o autoritarismo pedagógico expandido e intensificado, decorrente do controle centralizado.
Diante deste cenário, enunciador de um porvir educacional e trabalhista ainda mais dificultoso, o que farão docentes, discentes e os funcionários da educação?
A recusa desse destino conduzirá os atores da educação à resistência, a um esforço para impedir mais retrocessos ou para tentar recuperar o terreno perdido, abrindo uma era de conflitos pedagógicos, políticos e sociais reiterados no setor educacional.
Em parte isto já começa a ocorrer. Podemos observar que a luta já está sendo reavivada por estudantes e docentes com várias ações e manifestações ocorridas nos mais diversos países, pois os segmentos estão inconformados com as contra-reformas educacionais que estão precarizando, cada vez mais, os sistemas escolares públicos. Aliás, a defesa da escola pública e gratuita deverá constituir o eixo temático sobre o qual girarão as lutas vindouras na área educacional, uma vez que a sua preservação e o seu desenvolvimento são de interesse de todos os atores educacionais e da maior parte da classe trabalhadora.
Nesse caso, há sempre a possibilidade de que a perspectiva da luta evolua da defesa da escola estatal para a defesa da escola realmente pública, ou seja, uma escola governada pelos seus usuários, os trabalhadores. A menção a esta possibilidade não é inopinada, pois no passado recente, como assinalado, a luta pela institucionalização da gestão democrática na educação, independentemente da clareza de propósitos com que foi formulada ou dos resultados obtidos, estava orientada por essa perspectiva.
Portanto, não é implausível que no futuro, o substrato da proposição de gestão democrática, ou seja, a questão de quem governa ou governará a educação, reapareça sob outra ótica. Neste caso, a luta pelo controle do sistema escolar ou alguma variante conceptiva de trabalho associado na escola, passará a fazer parte do movimento, em substituição à subalternidade de assalariados ou assalariados virtuais (alunos), e poderá povoar o imaginário dos atores escolares. Porém, a plausibilidade desta perspectiva dependerá, também, de que no movimento social geral prospere igualmente no sentido da utopia da transcendência social, anticapitalista ou socialista.

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Estará a Turquia a travar guerra à Rússia também na Crimeia, no Cáucaso e na Ásia Central?

Estará a Turquia a travar guerra à Rússia também na Crimeia, no Cáucaso e na
Ásia Central?



por Ekaterina Blinova

O que se verifica hoje é uma batalha pela dominância global, travada
pelos grandes actores geopolíticos do Ocidente, e o que está em causa aqui
é o futuro do nosso planeta, afirmou à Sputnik um anónimo analista
estado-unidense conhecido como "The Saker". Quanto ao Daesh, ele é
simplesmente uma arma, acrescentou.

Durante a Conferência das Alterações Climáticas em Paris (COP21), o
presidente russo Putin revelou que Moscovo tem provas confirmando que o
bombardeiro russo Su-24 foi derrubado pela Turquia a fim de proteger
entregas de petróleo do Daesh (ISIL/ISIS), acrescentando que o petróleo
dos campos ocupados pelo Daesh tem sido transferido para a Turquia numa
escala industrial.

Mas será possível que a Turquia esteja a vender petróleo roubado sem o
conhecimento de Washington? Estarão os responsáveis turcos pelo petróleo
contrabandeado a actuar sozinhos ou serão apoiados por alguns actores
influentes do mercado petrolífero?

"As agências de inteligência dos EUA sofrem de muitas fraquezas, mas a de
serem incapazes de rastrear movimentos de dinheiro não é uma delas",
afirma The Saker numa entrevista exclusiva à Sputnik.

"Além disso, tanto os EUA como Israel têm uma vasta rede de agentes na
Turquia. Portanto considero extremamente improvável que algum organismo na
Turquia fosse capaz de movimentar grandes quantias de dinheiro sem que os
EUA estivessem plenamente conscientes disso. Considere também que o Daesh
é um objectivo de alta prioridade para agências de inteligência dos EUA e
que suas imensas capacidades de coleccionamento de dados estão também
centradas no lado Daesh da equação", enfatizou.

"Finalmente", acrescentou The Saker, "a venda ilegal de petróleo é um
elemento menor numa batalha muito mais importante entre os EUA e a aliança
Rússia-Irão-Síria e, portanto, os EUA nunca permitiriam que isso
interferisse com os seus objectivos maiores".

O analista sublinhou que a corrupção desde há muito tem sido parte
integral do sistema "imperial" estado-unidense.

"Sendo a corrupção uma característica chave do Império, é normal para o
estado profundo dos EUA permitir que os seus fantoches locais envolvam-se
numa lucrativa especulação com a guerra, mas desde que isto não interfira
com a estratégia global estado-unidense", enfatizou.

Peritos chamam a atenção para o facto de que o derrube do Su-24 poderia
ter sido um "acto de vingança" do presidente turco Erdogan, dado o facto
de que a sua família confirmadamente tem estado envolvida no negócio de
contrabando do petróleo do Daesh. Na sua recente entrevista à Rádio
Sputnik, o analista do Médio Oriente Stanislav Tarasov observou que "a
família de Erdogan está directamente envolvida no incidente" e sugeriu que
"dentro em breve poderíamos ficar a saber que o próprio presidente
Erdogan está directamente ligado ao ISIL".

Mas foi o derrube do bombardeiro Su-24 pelo caça F-16 turco uma operação
"lobo solitário" ou um acção planeada antecipadamente coordenada pela NATO
e por Washington? Se assim for, que objectivo a NATO/Washington tinha em
mente?

"O derrube do SU-24 foi definitivamente uma grande e cuidadosamente
planeada operação de emboscada que envolveu um grande número de F-16
turcos [sendo] constantemente mantidos no ar em posições de alerta. A
noção de que os americanos não sabiam acerca disto tudo é ridícula",
pormenorizou The Saker.

"Isto foi sem dúvida um acto de guerra dos EUA e da NATO, mas executado
de uma tal maneira que proporcionasse aos culpados reais algum grau de
negabilidade plausível. A esperança era que a Rússia super-reagisse e
disparasse uma confrontação directa cuja culpa pudesse ser atribuída a ela
própria. É preciso ter em mente que a força russa na Síria é muito pequena
e que é vulnerável. Mesmo com mais de 60 aviões de combate e S-400s, a
força russa é muito mais pequena do que a força aérea turca, a qual tem
bem mais de 200 F-16s. Os EUA estão agora a utilizar esta vulnerabilidade
para provocar a Rússia", afirmou o analista à Sputnik.

The Saker observou que os próprios turcos têm violado o espaço aéreo
sírio, e especialmente, o grego centenas de vezes "e não apenas por 17
segundos". No rastro do incidente, Ancara sugeriu que a alegada intrusão
do SU-24 russo no espaço aéreo turco havia perdurado uns meros 17
segundos.

"O próprio facto de que eles realmente utilizaram esta desculpa dos '17
segundos' é em si mesmo uma clara provocação, destinada a humilhar a
Rússia e disparar uma super-reacção. Graças a Deus Putin e o Kremlin não
morderam este isco", sublinhou The Saker.

Bastante curiosamente, o incidente no espaço aéreo sírio foi precedido
por um acto de sabotagem na Ucrânia: em 20 de Novembro sabotadores não
identificados explodiram na Ucrânia a principal linha de transporte de
electricidade para a Crimeia; activistas tártaros da Crimeia impediram o
acesso à linha derrubada. Dados os laços estreitos entre Ancara e os
tártaros da Crimeia (o primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu é
confirmadamente, ele próprio, descendente de tártaros da Crimeia),
levanta-se a questão de saber se as duas acções estiveram de alguma forma
conectadas.

"Não tenho informação que mostrem quaisquer ligações, mas o que é claro é
que a Turquia está a travar a sua própria mini-guerra de influência contra
a Rússia, não só na Crimeia mas também no Cáucaso e na Ásia Central",
disse The Saker à Sputnik ao comentar a questão.

"O 'estado profundo' turco parece ser dominado por uma ideologia imperial
revanchista tão lunática e perigosa quando a ideologia wahabista do Daesh
& Co. Erdogan aparentemente quer restabelecer alguma espécie de Grande
Império Otomano versão 2 e, para ele, a Rússia é o maior obstáculo. Eis
porque a Turquia é tão preciosa para os EUA – ela é dirigida por maníacos
iludidos tão perigosos quanto os nazis em Kiev ou as fantasias wahabistas
do Daesh. É com isto que a Rússia está hoje confrontada – uma guerra do
Império Anglo-Sionista travada por meio de vários poderes regionais cheios
de ódio os quais são utilizados pelos EUA para desestabilizar a Rússia e
seus aliados", sublinhou o analista.

Notavelmente, em 2001, o então modesto académico Dr. Ahmet Davutoglu
publicou um livro intitulado "Profundidade estratégica" ("Strategic
Depth"). Nele Davutoglu sugeriu que a Turquia possuía uma "profundidade
estratégica" devido à sua posição histórica e geográfica. Aquele que
viria a ser primeiro-ministro turco argumentava que a Turquia deveria
simultaneamente exercer sua influência no Médio Oriente, na região
balcânica, no Cáucaso e na Ásia Central, bem como nas zonas do Cáspio,
Mediterrâneo de Mar Negro. Segundo Davutoglu, a Turquia deveria
restabelecer seu papel como actor global, não apenas como uma potência
regional. Em certo sentido, Davotoglu encarava o colapso da União
Soviética como uma oportunidade histórica para a Turquia expandir sua
influência na região do Cáucaso e na Ásia Central.

E aqui entra o Daesh...

Dado o facto de que o ISIL foi criado e alimentado por um certo número de
estados e doadores privados, quais os actores geopolíticos que resistem às
tentativas da Rússia para erradicar o terrorismo na região e preservar a
soberania da Síria? Estará a Rússia a confrontar-se com um bando de
terroristas alimentados por xeques sauditas e qataris ou com algumas bem
organizadas organizações multinacionais?

"Quanto ao Daesh, ele é simplesmente uma 'arma' utilizada pelo Império
[estado-unidense] para destruir seus oponentes. Não existe tal coisa como
'terrorismo' por conta própria, ele é sempre uma arma utilizada por um ou
vários estados actores", explicou The Saker.

"Os xeques que mencionou são apenas peões nas mãos do 'estado profundo'
que dirige o Império Anglo-Sionista e eles próprios têm apenas uma
influência local. Portanto, os sauditas ou os qataris são grandes actores
na Síria, mas já ao nível de Médio Oriente eles são muito menos poderosos
do que, digamos, os turcos ou os israelenses. E se bem que possam actuar
como 'doares privados' desta ou daquelas facção do Daesh/al-Qaes, podem
fazê-lo desde que os americanos o tolerem. Alguém poderia dizer que os
xeques locais são fantoches influentes ou mesmo poderosos, mas
fundamentalmente eles ainda permanecem fantoches", afirmou aquele analista
militar a Sputnik.

Entretanto, ele afirma que isto é apenas o topo do iceberg; a situação em
geral é muito mais grave.

"O que se está hoje a verificar é uma guerra mundial. Por um lado, o
chamado "Ocidente" (o Império dos EUA) e por outro o que chamo a
"Resistência", isto é, a Rússia, China, os BRICS, os países do Acordo de
Cooperação de Shangai, a América Latina, etc. O que está em causa aqui é o
futuro do nosso planeta: ou ele será dominado por um único Poder
Hegemónico mundial ou será organizado como um mundo multi-polar. Os
acontecimentos no Médio Oriente são apenas uma "frente" nesta guerra à
escala mundial, e a guerra na Síria apenas uma "batalha" na "frente" do
Médio Oriente", concluiu The Saker.


01/Dezembro/2015
O original encontra-se em sputniknews.com/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

IN
RESISTIR.INFO
http://resistir.info/russia/saker_01dez15.html
2/12/2015

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O MODELO PROGRESSISTA SE ESGOTOU E AS POLÍTICAS CONTRADITÓRIAS DESSES GOVERNOS ACABAM PROVOCANDO A VOLTA DA DIREITA



A análise de James Petras na CX36, segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Transcrevemos esta completa análise que você pode voltar a escutar aqui:

http://www.ivoox.com/columna-james-petras-encx36-23nov15-audios-mp3_rf_9483753_1.html

Efraín Chury Iribarne: A ultra-direita ganhou as eleições na Argentina neste
domingo e anunciou que tentará expulsar a Venezuela do Mercosul, que negociará
com os fundos abutres e voltará ao FMI. Queríamos escutar sua análise sobre
isto.

JP: Primeiro, devemos notar que o modelo de extração de capital agrário-mineral
como base da Economia, já se esgotou há tempos – como já disse aqui. A ideia de
que podem compartilhar as grandes rendas entre capitalistas, financistas,
trabalhadores pensionistas, é um modelo que se esgotou há tempos e é preciso
escolher entre operários, trabalhadores e empregados ou capitalistas.

Nesse sentido, os governos auto-intitulados progressistas não queriam enfrentar
esta realidade e começaram a perder apoio entre os setores populares e,
particularmente, da classe média, como ocorreu no Brasil, Argentina, Uruguai e
atualmente na Venezuela, além de outros países.
Então, ante o fato da deterioração começar a afetar o bolso e a inflação
começar a despertar, podemos dizer que a ideia de que é necessário ir mais
adiante do populismo e do nacionalismo, para o socialismo, estava sobre a
agenda. E quando os governantes desses países não tomaram esse caminho,
prepararam o caminho para a volta da direita, que se aproveita das dificuldades
econômicas que afetam setores populares e – obviamente – com o grande respaldo
do capital nacional e internacional.

Foi isso que aconteceu na Argentina.

Agora, este esgotamento deixou o país polarizado em uma forma indireta.
Claramente (Daniel) Scioli não representava uma alternativa socialista nem
progressista no sentido popular. Porém, o país ficou sumamente polarizado e em
nenhum sentido (Mauricio) Macri tem um mandato para estas medidas extremistas
que está preparando.

Devemos esperar que Macri lance uma ofensiva forte, começando com a nomeação de
seu gabinete. Segundo escutamos em Wall Street, está preparando uma equipe com
(Domingo) Cavallo e os ultra-neoliberais mais agressivos.

Então, esse gabinete será a primeira medida que mostrará a face ultradireitista.
Já os grandes capitais daqui estão esperando as privatizações, a liberalização,
estão preparando as maletas para uma invasão capitalista internacional
imperialista à Argentina. Um imperialismo por convite.

E Macri – não há nenhuma dúvida – vai adotar medidas que rumam para a
desvalorização do peso argentino, o que resultará em uma grande perda do poder
de consumo dos trabalhadores na Argentina, porém favorecerá absurdamente os
setores financeiros.

Em segundo lugar, os cortes fiscais, o que vai provocar uma grande queda no que
recebem os beneficiários das pensões, os funcionários públicos e qualquer outro
setor social que receba alguma transferência pública.

Isso também tem enormes repercussões porque, como dissemos, a sociedade
argentina se polarizou. E uma coisa muito peculiar é que os argentinos de todas
as classes têm a tendência de se queixar de tudo. Queixam-se do futebol,
queixam-se dos governantes, etc. Algumas vezes têm razão, porém outras vezes
perdem de vista as consequências de repudiar algo sem considerar o que vai
surgir.

Neste caso, podemos dizer que um setor popular e, particularmente, a classe
média, decidiu cair na armadilha da “mudança”, sem saber exatamente o que
significa essa mudança.
E mais uma coisa, se os argentinos são queixosos também sabem lutar pelas
coisas que afetam seu bolso. Então, os mesmos que votaram em Macri – ou ao menos
alguns – são os mesmos que sairão às ruas uma vez que o impacto social e
econômico começar a afetar seu bolso, sua renda, seus empregos, as
possibilidades de conseguir algum seguro, etc.

Creio que isto detonará a luta de classes mais feroz que vimos nos últimos
tempos, despertará essa capacidade de greves gerais que somente encontramos na
Argentina e, talvez, no Uruguai. E esse também será um grande obstáculo para
Macri poder realizar suas políticas. Trata-se de continuar apesar dos conflitos,
apesar da resistência, poderia chegar a ser algo muito grave.

Ou seja, a classe trabalhadora mais ou menos adormecida durante o período de
Néstor Kirchner e Cristina Fernández, vai despertar abruptamente e veremos uma
intensificação da luta de classes em todo sentido.

Esse é um prognóstico para os que estão chorando agora pelo esgotamento do
modelo progressista. Era inevitável porque todo modelo progressista não era
progressista. Era uma política econômica muito contraditória e as fundações eram
reacionárias, apesar da política de bem-estar social ser positiva. As fundações
eram bastante reacionárias porque o eixo eram os agrários-mineradores, a grande
mineração, a grande agricultura, os exportadores e os financistas.

E agora, com Macri, a coincidência entre setores reacionários e governo vai
fomentar enormes conflitos. E eu acredito que dentro de seis meses veremos outra
conjuntura. As festas de Macri de hoje vão terminar nas ruas, com outro tipo de
atividade que não é exatamente abrindo champanhe e dançando sobre o palco.

Veremos outro tipo de confrontação, “piqueteros” e outras formas de resistência.

(*) Escute ao vivo, às segundas-feiras, às 11:30 horas (hora local), a audição
de James Petras na CX36, Radio Centenario de Montevidéu (Uruguai) na 1250AM do
dial; e para todo o mundo através de www.radio36.com.uy, que transmite 24 horas
on line.

Fonte: http://radio36.com.uy/entrevistas/2015/11/23/petras.html

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

In
PCB
http://pcb.org.br/portal2/9951
26/11/2015

São Paulo: Estudantes decidem intensificar ocupações. Manifesto



Por Sarah Fernandes


Além da continuidade da mobilização, secundaristas unificam a pauta da luta e
concluem: ‘o importante é que estamos discutindo a escola que queremos’



Assembleia na tarde do dia 29 na escola Caetano de Campos, no centro de São
Paulo, com representantes de escolas ocupadas contra a reorganização do ensino
da pretendida pelo governo de Geraldo Alckmin (PSDB) definiu intensificar o
movimento até que a secretaria de Educação abra um canal de diálogo com a
comunidade escolar sobre o projeto e seus impactos. O evento reuniu estudantes
de cerca de 40 ocupações de escolas da capital e de outras cidades do estado.

Além da continuidade da mobilização, os estudantes tiraram um manifesto que
unifica a pauta da luta e que já passou a circular entre estudantes
secundaristas de todo o estado, via redes sociais.

O manifesto propõe seis pontos fundamentais para a continuidade da resistência
do movimento contra a intransigência do governo estadual, que busca impor
medidas que vão, numa avaliação prévia, fechar ao menos 93 escolas e transferir
automaticamente cerca de 311 mil alunos de suas atuais unidades escolares.

No documento, os estudantes reforçam que estão em luta por educação pública de
qualidade, que em sucessivas manifestações públicas buscaram o diálogo com o
governo Alckmin logo que foi anunciado o projeto de reorganização e que, mantida
a intransigência, as ocupações foram a última alternativa que encontraram.

Afirmam ainda que, quando o secretário Herman Voorwald propôs suspender a
reorganização por 10 dias, em audiência de conciliação no Tribunal de Jusitça de
São Paulo, no dia 19, admitu que não houve discussão sobre projeto e que sua
aplicação seria imposta sem que os estudantes, pais e professores fossem
ouvidos.

A partir daí, o manifesto enumera os princípios fundamentais do movimento:

MANIFESTO

– revogação imediata do projeto de reorganização do ensino em São Paulo;

– nenhuma escola será fechada;

– nenhuma escola será dividida;

– nenhum professsor será demitido;

– não se admite nenhuma sala superlotada;

– nenhum aluno, pai, professor ou cidadão que pariticipe de alguma forma das
ocupações será perseguido.

Nova escola

A assembleia reuniu estudantes de Guarulhos, Santos, Campinas, Sorocaba,
Americana, Itapecerica da Serra, Guarujá, Piracicaba, Praia Grande e Mauá, além
da capital. O encontro alternou momentos de emoção, pela proporção tomada pelo
movimento, e de energia, com palavras de ordem como “Ocupar é resistir”,
“Alckmin veio quente e nós ‘já tá’ fervendo” e “Alckmin, almofadinha, os
estudantes vão te por na linha”, entre outros.

A Ubes anunciou que cerca de 250 escolas em todo o estado estão ocupadas contra
a reorganização do ensino proposta pelo governo paulista. A Apeoesp, sindicato
que representa os professores da rede pública estadual, em balanço divulgado
durante à tarde, aponta 199 escolas ocupadas, 73 delas na capital.

Ao fim da assembleia, participantes manifestaram impressões e expectativas
acerca da mobilização.

Em sua participação, Anderson Ribeiro de Freitas, de Praia Grande definiu o
sentimento geral dos alunos que partiram para a mobilização organizada contra as
medidas propostas pela secretaria de Educação: “o mais importante é que estamos
dicutindo a escola que queremos.”

Mateus Lopes da Silva, da escola Maria José, na região central da capital,
confimou: “a escola não deveria ser essa coisa chata onde você vai, senta e olha
pra cara do professor e muitas vezes não aprende nada. A escola tem que ter
cultura e é isso que tentamos fazer na ocupação. Desde que estamos lá, temos
feito oficinas e convidamos toda a comunidade para participar conosco.”

A estudante Patrícia preferiu não revelar o nome completo, mas deixou claro seus
sentimentos em relação ao projeto pedagógico em vigor nas escolas públicas
paulistas: “eu cansei de ser doutrinada. Na minha escola tem grade nas portas e
nas janelas. Isso já é quase terrorismo. O governador não quer gente inteligente
para bater com ele.”

Rosimeire Gualberto, que dá aulas de sociologia em Santos conclamou que se
amplie e fortaleça o movimento dos estudantes até o atendimento das
reinvindicações: “precisamos do apoio de outros estados e até de países
vizinhos. Proponho que, se for necessário, não iniciemos o ano letivo.”

In
KAOSENLARED
http://kaosenlared.net/sao-paulo-estudantes-decidem-intensificar-ocupacoes-manifesto/
1/12/2015