domingo, 17 de março de 2019
No dia de hoje… 16 de março de 1973
Nesse dia, o estudante de Geologia da Universidade de São Paulo (USP),
Alexandre Vannuchi Leme, o Minhoca, assim apelidado por seus amigos, foi
preso e levado para as dependências do DOI-CODI/SP.
Por
Jornal GGN
Em 16 de março de 1973, as forças repressivas da ditadura militar
sequestraram e encarceraram um dos protagonistas do movimento estudantil
brasileiro. Nesse dia, o estudante de Geologia da Universidade de São
Paulo (USP), Alexandre Vannuchi Leme, o Minhoca, assim apelidado por
seus amigos, foi preso e levado para as dependências do DOI-CODI/SP.
No cárcere, Alexandre foi torturado por cerca de dez agentes, que se se
revezaram por dois dias e, conforme testemunharam outros militantes
presos no mesmo período, já no dia 17 de março, Alexandre foi morto em
razão das longas sessões de tortura. As celas vizinhas à que se
encontrava foram evacuadas e seu corpo arrastado pelos corredores do
DOI-CODI/SP.
Os policiais tentaram ludibriar os demais militantes presos anunciando
que Vannuchi haveria se suicidado utilizando uma lâmina de barbear
furtada da enfermaria.
A certeza da impunidade e o controle sobre as informações, permitiu aos
agentes, dias depois, se orgulharem de exibir aos presos uma manchete de
jornal que noticiava a morte de Alexandre como vítima de atropelamento
por um caminhão durante uma tentativa de fuga durante um suposto
encontro com companheiros. Segundo relatado por testemunhas detidas, um
dos torturadores responsáveis pelo assassinato de Alexandre Vannuchi,
regozijava-se ao afirmar: “Nós damos a versão que queremos! Nesta joça
mandamos nós!”.
A falta de informações e as versões falsas da morte de Alexandre
tornaram a dor da família Vannuchi Leme, fundamentalmente de seus pais,
Egle e José, um martírio. Em 20 de março, a família soube por meio de um
telefonema anônimo da prisão do estudante, o que fez seu pai ir até São
Paulo buscar informações sobre o paradeiro de Alexandre. Os agentes de
segurança, mesmo sabendo que Alexandre já estava morto, passavam
informações desencontradas ao senhor José, de forma que o pai não
conseguiu encontrar o local e nem mesmo confirmar a suposta prisão de
Alexandre. Em meio à angústia que viviam por não terem informações sobre
o paradeiro do filho, no dia 23 de março, leram no jornal a notícia que
não gostariam de receber: Alexandre Vannuchi Leme havia morrido em
decorrência das feridas causadas por atropelamento de um caminhão, um
dia após a sua prisão.
Recebida a trágica notícia, a família procurou o IML/SP a fim de fazer o
reconhecimento e então sepultar seu ente querido. A arbitrariedade e a
crueldade das estruturas do Estado para com a família repetiu-se, pois
foi informado que não tinham mais o corpo; que Alexandre já havia sido
enterrado como indigente no cemitério Dom Bosco em Perus, São Paulo/SP.
Grupos de estudantes e a Igreja Católica se mobilizaram e protestaram em
virtude do assassinato de Alexandre, das mentiras apresentadas pelo
Estado e do sofrimento da família por não conseguir realizar o
sepultamento de seu filho.
Apenas após dez anos da morte de Alexandre, é que a família obteve o
direito de transladar os remanescentes ósseos para Sorocaba, sua cidade
natal, e respeitado o direito de realizar o sepultamento digno.
A coragem de Alexandre Vannuchi Leme contra o terrorismo do Estado
brasileiro jamais será esquecida, assim como a força e grandeza de seus
pais e familiares que batalharam contra a mentira e a omissão das forças
de segurança responsáveis pelo assassinato de seu filho. Egle e José,
apesar da dor e da revolta, transformaram o luto em LUTA. Eles são um
dos exemplos das milhares de famílias brasileiras que seguem firmes pelo
direito à memória, à verdade e justiça pelos seus entes queridos.
“Para que não se esqueça, para que não se repita.”
Fonte: Relatório CNV e Livro DMV.
In
JORNAL GGN
https://jornalggn.com.br/direitos-humanos/no-dia-de-hoje-16-de-marco-de-1973/
17/3/2019
sábado, 16 de março de 2019
Os campos de concentração franquistas: “reeducação”, escravatura e morte
El País
Um dos trunfos do actual ressurgimento do fascismo são os muitos anos de
ocultação e branqueamento dos crimes dos regimes fascistas, nomeadamente
os perpetrados na Europa dos anos 30 e 40. É por isso útil e necessário
rememorar todos aspectos concretos desse cortejo de horrores, como é o
caso dos campos de concentração do franquismo.
A imagem da bandeira franquista ondeando do outro lado da fronteira
causou-lhe profunda preocupação. Nunca antes a contemplara tão de perto.
Após dois anos e meio combatendo nas fileiras do Exército Republicano,
da pesada derrota e de sete meses de exílio na França, Luis Ortiz
(falecido esta quinta-feira 7 de Março, aos 102 anos) estava determinado
a voltar para casa naquele ano de 1939. A sua mãe havia sondado em
Bilbao pessoas próximas do novo regime. Todos lhe asseguraram que se o
filho voltasse ninguém o incomodaria, já que não havia qualquer acusação
contra ele. O relatório materno gerou mais confiança nele do que as
promessas feitas pelas autoridades espanholas e francesas. Luis nunca
tinha acreditado inteiramente na mensagem repetida pelo sistema sonoro
dos campos de concentração gauleses de Septfonds e de Gurs, em que tinha
compartilhado o cativeiro com milhares de compatriotas: “Voltai ao vosso
país. Ninguém tem que temer na Espanha de Franco, desde que não tenha as
mãos manchadas de sangue”.
Já não era hora de recuar. Luis foi em frente e atravessou
tranquilamente a ponte de Hendaia. “Irún estava cheio de guardas civis e
falangistas. Não demoraram nem um minuto a prender-me.” Momentos depois,
entrava como prisioneiro no campo de concentração próximo, instalado na
fábrica de chocolates Elgorriaga. Começou aí um périplo que o levaria a
passar por outros dois campos de concentração e por um batalhão de
trabalhadores escravos. Luis Ortiz foi mais um dos quase um milhão de
espanhóis vítimas de um sistema que começou a organizar-se após a
sublevação contra a Segunda República.
Os generais golpistas demoraram 24 horas para abrir o primeiro campo de
concentração oficial do franquismo. O local escolhido foi uma velha
fortaleza do século XVII no coração do protectorado espanhol em
Marrocos. Entre 18 e 19 de Julho de 1936, dezenas de militares que
tinham permanecido leais à ordem constitucional, membros de organizações
republicanas, funcionários públicos, jornalistas e professores começaram
a ser confinados na cidadela de Zeluan. Todos eles eram, de certa forma,
afortunados. Apenas na primeira noite da sublevação os golpistas tinham
fuzilado 189 pessoas em Ceuta, Melila e no território do protectorado.
Um dia depois, Franco oficializou essa prática repressiva. Através de
uma ordem, pediu aos seus companheiros de rebelião que organizassem
“campos de concentração com os elementos perturbadores” os quais
deveriam de empregar “em obras públicas, separados da população”.
Antes do final de Julho abriram as suas portas os campos de El Mogote, a
10 quilômetros de Tetouan, e La Isleta, em Las Palmas de Gran Canaria.
Em Malhorca, o comandante militar publicou na imprensa uma nota oficial:
“Firme, humanitária e severa, a Espanha resgatada em defesa dos seus
filhos leais, não poderá ter com os traidores outra atitude senão
encerrá-los em campos de concentração. Não será cruel porque será
cristã, mas também não será estúpida porque deixou de acreditar no
parlamentarismo liberalóide. Saibam-no todos e especialmente os
senhoritos comunistas de cabaré: há vagas em campos de concentração e
picaretas, pás e enxadas disponíveis nas suas arrecadações”. Seguiram os
passos das Baleares todos e cada um dos territórios em que o golpe de
Estado ganhou rapidamente: Galiza, Navarra, zonas de Castela Velha e
Andaluzia … “Criaremos campos de concentração para vagabundos e
delinquentes políticos; para maçons e judeus; para os inimigos da
Pátria, do Pão e da Justiça,” anunciava ameaçadoramente a Falange de
Cádis na capa do seu jornal Águilas.
Metodicamente, as áreas conquistadas pelos exércitos franquistas foram
semeadas com campos de concentração. Os seus inquilinos eram
maioritariamente prisioneiros de guerra capturados na frente. Também
passaram por eles todo o tipo de presos políticos: altos responsáveis da
Administração, militantes de partidos políticos e sindicatos, até
mulheres cujo único crime era ser esposa, mãe ou filha de um combatente
republicano. A Andaluzia foi a região que albergou um maior número de
recintos, 51. Seguiram-se a Comunidade Valenciana, com 41; Castilla-La
Mancha, com 38, e Castilla y León, com 24. Houve um total de 286 campos
de concentração oficiais abertos entre 1936 e 1939 que pudemos
documentar. Alguns, como a praça de touros de Valência ou o campo de
futebol do velho Chamartín, em Madrid, embora reunissem milhares de
prisioneiros, funcionaram apenas durante alguns dias. A maioria operou
durante anos, como o de Miranda de Ebro (Burgos), o de mais longa
duração do franquismo, que fechou as suas portas em 1947.
Ao contrário do meticuloso sistema dos nazis, o sistema espanhol foi
pouco homogéneo. Embora em Julho de 1937 Franco tenha criado a Inspecção
dos Campos de Concentração de Prisioneiros (ICCP) para centralizar o
controlo desses recintos, a improvisação, o caos organizativo e as
disputas entre generais causaram enormes diferenças. As condições de
vida variavam dependendo da província, do comandante militar encarregado
da região ou do oficial designado para o dirigir. As possibilidades de
sobrevivência aumentavam se o chefe impedia a entrada de falangistas que
iam à caça ao homem e desciam se era um corrupto e desviava para o seu
bolso parte do dinheiro que devia gastar com a alimentação. Apesar das
diferenças, todos cumpriram uma missão principal: selecionar os cativos.
O Generalíssimo não queria que um único fosse libertado sem ter sido
investigado e depurado. Longe de respeitar os seus direitos como
prisioneiros de guerra, a Espanha “nacional” não os considerava membros
de um exército mas, como o verbalizou o próprio ICCP, “uma horda de
assassinos e foragidos”.
Para determinar o seu suposto grau de criminalidade, os cativos foram
submetidos a complexos processos de classificação nos quais solicitaram
relatórios aos alcaides, guardas civis e sacerdotes das suas localidades
de origem. Sofreram duríssimos interrogatórios que em muitas ocasiões
terminaram com a morte. Luis Ortiz testemunhou esse tipo de prática no
campo de concentração da Universidade de Deusto, em Bilbao: “Como sabia
escrever à máquina, fui designado para os escritórios. Tomava nota do
que os prisioneiros declaravam. Quando não gostavam das respostas,
davam-lhes com um pau nos rins. Uma e outra vez. Os interrogatórios eram
extremamente duros”.
Depois de reunir todas as informações, as comissões dividiam-nos
basicamente em três grupos: Inimigos considerados irrecuperáveis, que
eram submetidos a julgamentos sumários onde foram condenados à morte ou
a longas penas de prisão em cárceres imundos; os que, apesar de
contrários ao novo regime, se estimava que poderia ser “reeducados” e,
finalmente, os considerados “afectos”, que eram incorporados no exército
franquista ou postos em uma liberdade que seria sempre condicional, sob
a eterna vigilância das autoridades civis e militares.
Os campos serviram também como local de extermínio e de “reeducação”: os
cativos pereceriam de fome, de frio e de doenças causadas pelas
deploráveis condições higiénicas e quase total ausência de assistência
sanitária; centenas de homens foram levados à força por grupos de
falangistas, guardas civis ou comandos paramilitares que, com a
cumplicidade dos comandantes militares, os assassinaram em qualquer
vala. À medida que a guerra avançava, esses “passeios” seriam
substituídos ou complementados pelos assassínios “legais”: execuções
levadas a cabo após conselhos de guerra que mal duravam uma hora e que
em muitas ocasiões eram realizados nos próprios campos. No campo
instalado no convento de Camposancos, em A Guarda (Pontevedra), os
acusados eram julgados em grupos de até 30 pessoas. Os seus advogados
eram militares franquistas que costumavam limitar-se a confirmar a
gravidade das acusações.
Para Franco era claro que aqueles que sobrevivessem aos campos deveriam
sair deles “reformados”. Os prisioneiros de San Marcos, em León,
receberam um pequeno livro no qual tentavam doutrina-los sobre religião,
política e conceitos morais. Nele dizia-se: “Nós aspiramos a que alguns
de vós saiam (…) espiritual e patrioticamente mudados; outros, com estes
sentimentos reactivados, e todos, vendo que cuidámos de mostrar-lhes o
bem e a verdade “. Esse “bem” e essa “verdade” foram inculcados através
de um cruel processo de desumanização. Os cativos foram despojados de
seus pertences, tosquiados à máquina zero e incorporados num grupo
humano impessoal que se movia ao toque da corneta e a golpes de moca. Na
maioria dos campos havia também duas palestras diárias de doutrinação
sobre temas com títulos eloquentes: “Erros do marxismo”. Criminalidade
prevalecente antes de 18 de Julho. Os objectivos do judaísmo, da
maçonaria e do marxismo. Porque assume o exército a tarefa de salvar a
pátria. O conceito da Espanha imperial “.
A Igreja desempenhou um papel fundamental na “reeducação”. A assistência
à missa era obrigatória, e a comunhão, conveniente para agradar aos
guardiões. Os chefes dos campos consideraram o maior sucesso conseguir a
conversão dos presos. Tal como redigiu o tenente-coronel Cagigao,
responsável militar do campo de concentração de El Burgo de Osma
(Soria), num relatório apresentado a Franco: “Magnífico espetáculo!
Imagem impressionante de uma majestade [sic] e grandeza que só pode ser
visto na Espanha do Caudillo, o de 3.082 prisioneiros ajoelhados com as
mãos cruzadas e deslocando-se no meio deles 10 sacerdotes distribuindo a
sagrada comunhão”.
Os campos de concentração também nasceram com o objetivo de aproveitar
os prisioneiros como mão-de-obra escrava. Nas Ilhas Baleares, nas Ilhas
Canárias e no protectorado de Marrocos, estes recintos foram, durante o
conflito, centros de trabalhos forçados para a construção de
infraestruturas e fortificações. Em Maiorca, os detidos dos campos de
Pollensa, San Juan de Campos, Manacor e Sóller construíram mais de 100
quilómetros de estradas. Na Península a situação foi menos homogénea. No
início da guerra, os cativos eram usados arbitrariamente. Generais,
oficiais, alcaides, falangistas e particulares afectos aos golpistas
empregavam-nos em todos os tipos de tarefas: escavar trincheiras,
reconstruir pontes, reabilitar aldeias destruídas. Em 1937, com o
nascimento do ICCP, o trabalho escravo começou a ser sistematizado.
Franco regulamentou naquele ano por decreto o que ele definiu como o
“direito-obrigação” ao trabalho dos seus cativos. E, passo a passo, foi
surgindo o sistema de exploração laboral dos prisioneiros e presos
políticos.
Nos chamados batalhões de trabalhadores chegaram a ser explorados,
simultaneamente, entre 90.000 e 100.000 pessoas em mais de uma centena
de empresas dispersas pela geografia nacional. Funcionaram até 1940. A
partir desse momento, o trabalho escravo foi garantido forçando os
homens em idade militar que não haviam lutado nas fileiras franquistas a
fazer a mal chamada “mili de Franco”. Destes, aqueles que eram
reconhecidos como afectos ao Movimento ingressavam no exército regular.
O resto ia parar aos chamados Batalhões Disciplinares de Soldados
Trabalhadores, que assumiram o trabalho dos batalhões de trabalhadores,
ou foram destinados a realizar fortificações nos Pirenéus, no Campo de
Gibraltar e nas costas espanhola face a uma possível entrada do país na
Segunda Guerra Mundial. Entre 1940 e 1942, 47.000 homens trabalharam
anualmente nesses batalhões. Continuaram operacionais até 1948 algumas
dessas unidades, formadas por republicanos que iam saindo da prisão após
serem indultados ou a cumprirem integralmente as suas sentenças.
A perpetuação do modelo de prisioneiros escravos foi realizada através
do Patrocínio de Redenção de Penas pelo Trabalho, organismo controlado
pelo Ministério da Justiça e exterior ao sistema dos campos de
concentração. Nas suas unidades integraram-se presos políticos e comuns
que viam reduzida a sua pena e recebiam um salário até 30 vezes inferior
ao de um operário livre. O patronato geriu desde 1938 até 1970 meia
dúzia de agrupamentos de colónias penais militarizadas e centenas de
destacamentos penais, como os que trabalharam na secagem de pântanos e
na construção de monumentos como o Vale dos Caídos.
Os prisioneiros que conseguiram sobreviver nunca obtiveram total
liberdade. Durante anos tiveram de apresentar-se periodicamente ao
quartel da Guarda Civil e estiveram sujeitos a um regime de vigilância.
Ao sair dos campos, descobriram que haviam perdido os seus empregos,
seus negócios e, em muitos casos, todos os seus bens. A depuração
ideológica nos setores público e privado foi sistemática. Luis Ortiz
sofreu na sua própria carne: “Fui libertado em 1943. A minha esposa
trabalhava numa fábrica de baterias e ganhava uma miséria. Vivíamos num
apartamento dos que hoje chamamos apartamentos jangada. As empresas
precisavam de pessoas, mas apenas contratavam aqueles que se tinham
destacado no exército franquista. Antes de começar a trabalhar numa
empresa era necessário apresentar um formulário de aceitação carimbado
pelo sindicato vertical. Ias à sede do sindicato, eles olhavam para os
antecedentes, diziam que eras desafecto e não o selavam ”. Luis só
conseguiu o selo depois de subornar um dos chefes do sindicato: “Tive
que pagar-lhe 5.000 pesetas. 5.000 pesetas do ano de 1943! Mobilizei
metade de Bilbao para pedir dinheiro emprestado”.
Como muitos dos homens e mulheres que passaram pelos campos de
concentração de Franco, Luis Ortiz enfrentou sua nova vida em
semiliberdade, entre o medo e o silêncio. Trabalhou durante 34 anos na
empresa Uralita, onde se aposentou em 1977, o mesmo ano em que votou nas
primeiras eleições livres realizadas em Espanha desde 1936. Só muitos
anos após a morte do ditador decidiu contar a sua história. Nesta
quinta-feira, 7 de março, faleceu com 102 anos num hospital em Bilbao.
Dias antes partilhou o seu testemunho: “Durante muito tempo só era
conhecido o que o franquismo quis contar sobre nós. O importante agora é
que se saiba a verdade. Eu estive calado mais de 40 anos, mas agora
estou embalado. Conheces aquele personagem famoso que queria morrer com
as botas calçadas? Pois é assim que quero morrer. É assim que vou morrer “.
/Fonte: https://elpais.com/elpais/2019/03/04/eps/1551726594_395569.html/
In
O DIARIO.INFO
https://www.odiario.info/os-campos-de-concentracao-franquistas-reeducacao/
16/3/2019
terça-feira, 12 de março de 2019
Coletes amarelos: "odiosos", "depredadores", "anti-semitas"... o que mais ainda?
por Rémy Herrera
A princípio, no início de Novembro de 2018, quando os primeiros "coletes
amarelos" protestaram nas redes sociais contra o aumento do imposto sobre
combustíveis decidido pelo governo de Édouard Philippe, os media
dominantes – todos eles de propriedade dos poderes do dinheiro –
censuraram-nos por se oporem à defesa do meio ambiente. Inicialmente,
portanto, os coletes amarelos eram apresentados pelos seus críticos como
rurais arcaicos – mas conectados à Internet! – ferozmente "apegados ao seu
automóvel" e obtusamente indiferentes à causa ecológica. Como se os poucos
centavos de euro cobrados sobre esses impostos e destinados à "transição
ecológica" fossem suficientes para nos fazer esquecer que a França,
aureolado pelo prestígio da COP21 de Paris, ainda não tem uma política
crível em matéria ambiental.
Então, muito rapidamente, na verdade desde a primeira mobilização dos
coletes amarelos em 17 de Novembro, os ataques dos media subiram de tom e
acusaram-nos de serem "racistas" de extrema-direita. Das centenas de
milhares de coletes amarelos que se manifestam por todo o país, houve um
ou dois que foram filmados ou gravados em vias de intimidar pessoas
"tipificadas" ou de origem estrangeira. Dizem que eles são "misóginos"
porque um outro da mesma farinha fez comentários impróprios a respeito de
uma dama. Três idiotas, em suma, foram dotados com o poder de transformar
300 mil manifestantes em xenófobos machistas! No processo, seus
adversários viram os coletes amarelos tornarem-se "odiosos", sob o
pretexto de acções colectivas utilizando a força para bloquear estradas e
rotundas e por reivindicações formuladas com ardor e veemência.
Não demorou muito para que os peritos em segurança arrebanhados pelos
media fizessem o amalgama entre coletes amarelos e "depredadores". Este
foi o novo leitmotif de canais de (des)informação em contínuo em todos
os sábados de mobilização. Isso, até que o presidente Emmanuel Macron
acabasse por declarar que aquelas e aqueles que atendem aos apelos a
manifestar dos coletes amarelos tornam-se ipso facto "cúmplices" das
eventuais violências que poderiam ocorrer. Era como tomar os coletes
amarelos por imbecis. E foi isso que fizeram os serviçais mediáticos da
macronie que, ao entrevistarem coletes amarelos, se deleitavam com os seus
desajeitamentos de linguagem e a sua inexperiência na arte da oratória.
Não restava senão classificar todos como "refractários" às reformas,
ingratos à generosidade do Estado, incoerentes na expressão de seus
desejos.
Veio a seguir o momento em que o eixo principal da argumentação mediática
hostil aos coletes amarelos era insistir sobre as suas "divisões". Aquilo
que representa o movimento social francês mais vigoroso e unificador das
últimas décadas, apoiado por uma grande maioria de seus concidadãos (que,
sem vestir um colete amarelo, trazem-no no coração), tornava-se de repente
heteróclito, contraditório, brigão, "dividido". E finalmente dizem que
"anti-semitas" quando um coletes amarelo quando um deles, reaccionário,
lançou, no virar de uma rua, insultos contra o intelectual Alain
Finkielkraut, também ele reaccionário (não passa um dia sem que ele
declare que os palestinos de Gaza eram "homens em excesso"?). Dois tipos
inaceitáveis, cara a cara. O loop está completo: "os coletes amarelos
são a extrema-direita!
Em 28 de fevereiro, Roselyne Febvre, chefe do departamento político do
canal de televisão público France 24, resumiu a opinião burguesa: "No
final, persiste apenas uma cólera bruta (...), da qual emergiu uma gosto
pela violência, anti-semitismo, racismo, conspiração, enfim, tudo que há
de pior no homem. Será que se tornou [a mobilização de coletes amarelos]
uma espécie de estábulo de indivíduos vulgares (branquignols) ? (...)
Quando os ouvimos hoje, não é muito racional". Tudo isso é claro: os
coletes amarelos encarnam "o pior do Homem" e as elites a razão. O Código
deontológico dos jornalistas diz, no entanto: "O tratamento profissional
da informação requer respeito pelos princípios de integridade e
imparcialidade. Comunique os factos de maneira honesta, proibir-se de toda
mentira, aproximação, preconceito ou manipulação".
Eis como, permanentemente e de mil maneiras, os media da burguesia em
guerra contra todo um povo insultam os coletes amarelos. Como são
desacreditados, caluniados, rebaixados. Estes coletes amarelos que se
levantaram por nossa dignidade, para não mais suportar o insuportável. De
agora em diante, dizem que eles são "extremamente pouco numerosos". Quando
não se conta senão um cada dez, e quando a simpatia generalizada de muitos
franceses os acompanha e os encoraja. A hora do golpe chegará em breve? O
que não compreendem estes cavalheiros-damas dos media, do poder e da
finanças, no entanto, é que a cólera dos coletes amarelos não
desaparecerá tão cedo porque as razões profundas desta cólera não
desapareceram. Os limites do movimento podem ser visíveis. Mas o espírito
colete amarelo recolocou um povo sobre os seus pés.
In
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/franca/remy_11mar19.html
11/3/2019
sábado, 9 de março de 2019
A Recolonização da América Latina e a Guerra na Venezuela.
James Petras
“O Hemisfério Ocidental é a nossa região”, disse Michael Pompeo, secretário de
Estado dos EUA.
Introdução
Desde que os EUA declararam que a Doutrina Monroe proclama sua supremacia
imperial sobre a América Latina, há quase 200 anos, um regime da Casa Branca
afirmou abertamente sua missão de recolonizar a América Latina.
A segunda década do século XXI testemunhou, em palavras e ações, a mais completa
e bem-sucedida recolonização dos EUA na América Latina, e seu papel ativo e
declarado como sipaios coloniais de uma potência imperial.
Neste artigo, examinaremos o processo de recolonização e as táticas e metas
estratégicas que são as forças motrizes da construção de colônias. Concluiremos
discutindo a durabilidade, a estabilidade e a capacidade de Washington de manter
a propriedade do Hemisfério.
Uma Breve História da Colonização e Descolonização do Século XX
A colonização norte-americana da América Latina foi baseada em intervenções
militares, econômicas, culturais e políticas diretas dos EUA, com ênfase
especial na América Central, na América do Norte (México) e no Caribe.
Washington recorreu a invasões militares, para impor vantagens favoráveis ao
comércio e ao investimento e designou e treinou forças militares locais para
defender o domínio colonial e garantir a submissão à supremacia regional e
global dos EUA.
Invasão ‘silenciosa’ dos EUA na América Latina. Clique na imagem para ampliar.
[res. 3300 x 1619]
Os EUA desafiaram as potências coloniais européias rivais – em particular a
Inglaterra e a Alemanha, e eventualmente as reduziram ao status marginal,
através de pressões e ameaças militares e econômicas.
O processo de recolonização sofreu sérios retrocessos em algumas regiões e
nações com o início da Grande Depressão, que minou a presença militar e
econômica dos EUA e facilitou o surgimento de regimes e movimentos nacionalistas
poderosos, em particular na Argentina, Brasil, Chile, Nicarágua e Cuba.
O processo de “descolonização” levou à nacionalização dos setores de petróleo,
açúcar e mineração dos EUA; uma mudança na política externa para uma
independência relativamente maior; e leis trabalhistas que aumentaram os
direitos dos trabalhadores e a sindicalização de esquerda.
A vitória dos EUA na Segunda Guerra Mundial e sua supremacia econômica levaram
Washington a reafirmar seu domínio colonial no Hemisfério Ocidental. Os regimes
latino-americanos se alinharam com Washington nas guerras do frio e do calor,
apoiando as guerras dos EUA contra a China, a Coréia, o Vietnã e o confronto
contra a URSS e a Europa Oriental.
Para Washington, trabalhando através de seus regimes ditatoriais colonizados,
invadiu todos os setores da economia, especialmente os agro-minerais; passou a
dominar os mercados e procurou impor sindicatos colonizados dirigidos pela
AFL-CIO, de centro imperial.
No início da década de 1960, uma onda de movimentos sociais populares
nacionalistas e socialistas desafiou a ordem colonial, liderada pela revolução
cubana e acompanhada por governos nacionalistas em todo o continente, incluindo
Argentina, Bolívia, Venezuela, Peru, Equador e República Dominicana. As empresas
multinacionais norte-americanas foram forçadas a se engajar em joint ventures ou
foram nacionalizadas, assim como os setores de petróleo, minerais e energia.
Os nacionalistas passaram a substituir os produtos locais por importações, como
estratégia de desenvolvimento. Um processo de descolonização estava em
andamento!
Os EUA reagiram lançando uma guerra para recolonizar a América Latina através de
golpes militares, invasões e eleições manipuladas. A América Latina mais uma vez
se alinhou com os EUA em apoio ao seu boicote econômico a Cuba e à repressão de
governos nacionalistas. Os EUA reverteram as políticas nacionalistas e
desnacionalizaram suas economias sob a direção das chamadas organizações
financeiras internacionais controladas pelos Estados Unidos – como o Fundo
Monetário Internacional (FMI) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BAN)
Banco Mundial (BM).
O processo de recolonização avançou, ao longo das décadas de 1970 e 1980, sob os
auspícios de regimes militares recém-impostos e da nova doutrina de “livre
mercado” neoliberal.
Mais uma vez, a recolonização levou a sociedades altamente polarizadas, nas
quais as elites colonizadas domésticas eram uma minoria distinta. Além disso, a
doutrina econômica colonial permitiu que os bancos e investidores dos EUA
saqueassem os países latinos, impusessem cargas de dívida fora do controle,
desindustrialização das economias, aumentos severos no desemprego e um declínio
abrupto nos padrões de vida.
Nos primeiros anos do século XXI, o aprofundamento da colonização levou a uma
crise econômica e ao ressurgimento de movimentos de massa e novas ondas de
movimentos nacionalistas populares que buscavam reverter – pelo menos em parte –
as relações e estruturas coloniais.
As dívidas coloniais foram renegociadas ou baixadas; algumas firmas estrangeiras
foram nacionalizadas; aumentaram os impostos sobre os exportadores agrícolas;
aumentos nos gastos com previdência pública reduziram a pobreza; o investimento
público aumentou os salários e os salários. Um processo de descolonização
avançou, auxiliado por um boom de peças de commodities.
A descolonização do século XXI foi parcial e afetou apenas um setor limitado da
economia; Aumentou principalmente o consumo popular, em vez de mudanças
estruturais na propriedade e poder financeiro.
A descolonização coexistiu com as elites do poder colonial. As principais
mudanças significativas ocorreram em relação às políticas regionais. A
descolonização das elites estabeleceu uma aliança regional que excluía ou
minimizava a presença dos EUA.
O poder regional mudou para a Argentina e o Brasil no Mercosul; Venezuela na
América Central e no Caribe; Equador e Bolívia na região andina.
Mas, como a história demonstrou, o poder imperial pode sofrer reveses e perder
colaboradores, mas enquanto os EUA mantêm suas alavancas militares e econômicas
de poder, ele pode usar todos os instrumentos de poder para recolonizar a
região, numa abordagem passo a passo, incorporando regiões em sua busca pela
supremacia do hemisfério.
A Recolonização da América Latina: o Brasil, a Argentina e o Pacto de Lima
contra a Venezuela
À medida que a primeira década do século XXI se desenrolava, numerosos governos
e movimentos latino-americanos iniciaram o processo de descolonização,
deslocando os regimes dos clientes dos EUA, assumindo a liderança em
organizações regionais, diversificando seus mercados e parceiros comerciais.
No entanto, os líderes e partidos eram incapazes e não queriam romper com as
elites locais ligadas ao projeto de colonização dos EUA.
Vulneráveis a movimentos descendentes nos preços das commodities, compostos
por alianças políticas heterogêneas e incapazes de criar ou aprofundar a cultura
anticolonial, os Estados Unidos começaram a reconstruir seu projeto colonial.
Os EUA atacaram primeiro o “elo mais fraco” do processo de descolonização. Os
EUA apoiaram golpes em Honduras e no Paraguai. Então Washington voltou-se para
converter o judiciário e o congresso como degraus para lançar um ataque político
aos regimes estratégicos na Argentina e no Brasil e transformar os regimes
secundários no Equador, Chile, Peru e El Salvador na órbita dos EUA.
Com o avanço do processo de recolonização, os EUA recuperaram seu domínio em
organizações regionais e internacionais. Os regimes colonizados privatizaram
suas economias e Washington garantiu regimes dispostos a assumir dívidas
onerosas, anteriormente repudiadas.
Os avanços dos EUA na recolonização visavam a focalizar o governo anticolonial
rico em petróleo, dinâmico e formidável na Venezuela.
A Venezuela foi alvo de várias razões estratégicas.
Primeiro, a Venezuela sob o presidente Chávez se opôs às ambições coloniais
regionais e globais dos EUA.
Em segundo lugar, Caracas forneceu recursos financeiros para reforçar e promover
regimes anti-coloniais em toda a América Latina, especialmente no Caribe e na
América Central.
Em terceiro lugar, a Venezuela investiu e implementou uma agenda social estadual
profunda e abrangente, construindo escolas e hospitais com educação e cuidados
de saúde gratuitos, alimentação subsidiada e moradia. A Venezuela democrática
socialista contrastava com o abismal desmantelamento do estado de bem-estar dos
Estados Unidos entre os estados coloniais reconstruídos.
Em quarto lugar, o controle nacional da Venezuela sobre os recursos naturais,
especialmente o petróleo, era um alvo estratégico na agenda imperial de
Washington.
Embora os EUA reduzissem ou eliminassem com sucesso os aliados da Venezuela no
resto da América Latina, seus repetidos esforços para subjugar a Venezuela
fracassaram.
Um golpe abortado foi derrotado; como foi um referendo para destituir o
presidente Chávez.
Boicotes dos EUA e o financiamento de eleições não derrubaram o governo
venezuelano
Washington foi incapaz de pressionar e garantir o apoio da massa da população ou
dos militares.
Técnicas de golpe, bem sucedidas na imposição de regimes coloniais em outros
lugares, falharam.
Os EUA voltaram-se para uma guerra militar, política, econômica e cultural em
vários continentes, ampla, coberta e encoberta.
A Casa Branca nomeou Juan Guaido, um virtual desconhecido, como “presidente
interino”. Guaido foi eleito para o Congresso com 25% dos votos em seu distrito
natal. Washington gastou milhões de dólares na promoção de Guaido e no
financiamento de ONGs e organizações de direitos humanos para caluniar o governo
venezuelano e lançar ataques violentos contra as forças de segurança.
A Casa Branca reuniu seus regimes recolonizados na região para reconhecer Guaido
como o “presidente legítimo”.
Washington recrutou vários países líderes da União Européia, especialmente o
Reino Unido, a França e a Alemanha, para isolar a Venezuela.
Os EUA procuraram penetrar e subverter a população venezuelana através da
chamada ajuda humanitária, recusando-se a trabalhar através da Cruz Vermelha e
outras organizações independentes.
A Casa Branca fixou o fim de semana de 23 a 24 de fevereiro como o momento para
derrubar o presidente Maduro. Foi um fracasso total e absoluto, colocando a
mentira em todas as invenções de Washington.
Os EUA alegaram que as Forças Armadas desertariam e se uniriam à oposição
financiada pelos EUA – apenas uma centena ou mais, de 260.000 o fizeram. Os
militares permaneceram fiéis ao povo venezuelano, ao governo e à constituição,
apesar de subornos e promessas.
Washington afirmou que “o povo” na Venezuela lançaria uma insurreição e centenas
de milhares atravessariam a fronteira. Além de algumas dúzias de bandidos de
rua, jogando coquetéis Molotov, não houve revolta e menos de algumas centenas
tentaram atravessar a fronteira.
Toneladas de “ajuda” dos EUA permaneceram nos armazéns colombianos. A patrulha
de fronteira brasileira enviou a embalagem de “manifestantes” financiada pelos
EUA para bloquear a passagem livre através da fronteira
Mesmo os provocadores americanos que incineraram dois caminhões que
transportavam “ajuda” foram expostos, os veículos em chamas permaneceram no lado
colombiano da fronteira. Os boicotes patrocinados pelos EUA às exportações
venezuelanas de petróleo são parcialmente bem-sucedidos porque Washington
conquistou ilegalmente as receitas de exportação da Venezuela.
O grupo recolonizado de Lima aprovou resoluções hostis e reintegrou o presidente
de Trump, Guaido, mas poucos eleitores na região levaram seus pronunciamentos a
sério.
Conclusão
Quais são os estados colonizados que devem servir? Por que a Casa Branca não
conseguiu recolonizar a Venezuela como no resto da América Latina?
Os estados recolonizados na América Latina servem para abrir seus mercados aos
investidores dos EUA em condições fáceis, com baixos impostos e custos sociais e
trabalhistas, e estabilidade política e econômica baseada na repressão das lutas
populares e nacionais.
Espera-se que os regimes colonizados apoiem boicotes, golpes e invasões dos EUA
e forneçam tropas militares como ordenado.
Os regimes colonizados tomam o lado dos EUA em conflitos e negociações
internacionais; em organizações regionais, eles votam com os EUA e cumprem os
pagamentos da dívida no prazo e na íntegra.
As nações recolonizadas asseguram resultados favoráveis para Washington
manipulando eleições e decisões judiciais e excluindo candidatos e autoridades
anti-coloniais e prendendo ativistas políticos.
Os regimes colonizados antecipam as necessidades e demandas de Washington e
introduzem resoluções em seu nome nas organizações regionais.
No caso da Venezuela, eles promovem e organizam um bloco regional como o Grupo
Lima para promover a intervenção liderada pelos EUA.
Nota: Sipaio – um soldado indiano servindo sob ordens britânicas ou
outras ordens européias.
Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com
Fonte: Global Research.ca
In
DINÂMICA GLOBAL
https://dinamicaglobal.wordpress.com/2019/03/09/a-recolonizacao-da-america-latina-e-a-guerra-na-venezuela/
9/3/2019
quinta-feira, 7 de março de 2019
“A influência de Bilderberg está a decair porque representa um modelo moribundo”
Daniel Estulin (entrevista ao jornal i, de 2019/02/19 – António Rodrigues)
[NE – Poder-se-á questionar a idoneidade do entrevistado. As suas respostas não
descrevem a realidade total do mundo, nem revelam uma análise científica
materialista e histórica do capitalismo ocidental. Porém, realça factos
conhecidos de muitos mas ignorados pela esmagadora maioria: o papel do grupo de
Bilderberg, a natureza dos governantes e, sobretudo, a natureza supranacional e
o poderio oculto e inconfessável dos interesses do capital imperialista dos dias
de hoje. Além disso, aporta novas informações que podem verosivelmente
corresponder às novas rearrumações ou alterações de poderes, no plano das forças
mais profundas do capital, no quadro da concorrência imperialista entre os
gigantes mundiais. São estas as razões pelas quais se publica este artigo.]
Este antigo oficial dos serviços secretos russos é provavelmente quem mais sabe
sobre aquele que já foi um dos grupos mais poderosos do planeta.
Na sua página da Wikipédia é definido como um teórico da conspiração.
Reconhece-se nesta definição?
A Wikipédia não é uma boa fonte de informação. É uma ferramenta da elite
financeira e banqueira liberal. Sou doutor em Inteligência Conceptual. Sou
também um antigo coronel da contrainteligência militar russa, com 24 anos de
serviço. Sou consultor de dois presidentes e criei um programa de formação para
chefes do Estado-Maior de três países. Fui nomeado para o prémio Nobel da Paz em
2015. Além disso, não sou “lituano”, mas um oficial soviético/russo. Nasci na
República Socialista Soviética da Lituânia. O meu pai é de Leninegrado e a minha
mãe de Minsk, na República Socialista Soviética da Bielorrússia.
Realmente acredita que o Grupo Bilderberg é “o pior mal que o mundo alguma vez
viu”?
Não, não penso. Nunca disse isso. Atribuíram-me afirmações que nunca fiz. Não
sou um teórico da conspiração, mas doutor em Inteligência Conceptual. No mundo
da finança internacional existem aqueles que conduzem e aqueles que reagem aos
acontecimentos. Aqueles que reagem aos acontecimentos são mais conhecidos,
maiores em número, aparecem nas capas das revistas e dão entrevistas à imprensa
mainstream; apesar de aparentemente mais poderosos, o maior poder está nas mãos
daquelas pessoas que conduzem os acontecimentos. No centro do sistema financeiro
global está a oligarquia financeira, hoje representada pelos interesses
supranacionais. O Grupo Bilderberg é uma dessas organizações. Não é o olho
maléfico no topo da pirâmide maçónica, como os teóricos da conspiração
proclamam, mas uma das organizações supranacionais que influenciam o resultado
dos acontecimentos internacionais.
Acha que o Grupo Bilderberg é uma ameaça para a democracia?
O Grupo Bilderberg é um encontro de pessoas que representam uma certa ideologia.
É um meio de juntar instituições financeiras que representam os maiores e mais
predadores interesses financeiros. A ideia por trás de cada um dos encontros de
Bilderberg é criar aquilo a que eles chamam o objetivo da aristocracia entre as
elites europeia e norte-americanas em questões de política, economia e
estratégia. A aliança da NATO foi a sua base fundamental de operações e
subversão porque lhes proporcionou o pano de fundo para os seus planos.
Em que baseia as suas conclusões se os encontros do grupo são secretos e ninguém
pode escrever sobre o que se passa lá dentro?
O KGB soviético e outras organizações semelhantes têm seguido o Grupo Bilderberg
desde a primeira reunião, em 1954. Mais uma vez quero dizer que não sou
jornalista, nunca fui jornalista. Sou um agente dos serviços de informação e ao
longo dos anos fomos tendo acesso a todos os documentos, comunicações pessoais,
emails, cartas, fotografias, arquivos pessoais, conversações gravadas, etc.
Acredita que organizações multilaterais como as Nações Unidas e a União Europeia
fazem parte deste controlo do mundo?
Se analisar os assuntos na agenda dos encontros de Bilderberg desde 1954, aquilo
que se destaca de forma extraordinária é a tentativa de gerir e controlar as
diferenças ideológicas entre as aristocracias europeia e americana no que diz
respeito à forma como esses dois grupos deveriam prosseguir na pilhagem do
mundo. Por exemplo, na página 7 do relatório geral do encontro Bilderberg de
1955 fala-se em “remover mal-entendidos e possíveis suspeitas entre os países da
Europa ocidental e os EUA face aos perigos que assolam o mundo”.
Quem são os cérebros por trás do Grupo Bilderberg?
Foi iniciado por Józef Retinger, um político polaco no exílio que, preocupado
com o crescimento do antiamericanismo na Europa ocidental, propôs uma
conferência internacional onde a elite da Europa ocidental e dos Estados Unidos
se juntaria para promover o atlantismo. Outros membros fundadores europeus foram
o príncipe Bernardo da Holanda, que tinha sido membro do partido nazi nos anos
1930, o antigo primeiro-ministro da Bélgica Paul van Zeeland e o então chefe da
Unilever, Paul Rijkens. Entre os participantes importantes do outro lado do
Atlântico estavam o então chefe da CIA, Walter Bedell Smith, Charles D. Jackson,
conselheiro especial para guerra psicológica do presidente dos EUA e diretor do
Comité para a Europa Livre e da Rádio Europa Livre, George Ball, chefe do Lehman
Brothers, e o banqueiro David Rockefeller.
Quem são as outras figuras importantes deste plano para controlar o mundo?
Temos sido condicionados para pensar que os presidentes e primeiros-ministros
eleitos são realmente quem decide o destino dos nossos países e que, através de
“eleições democráticas”, as pessoas podem mudar o destino das suas nações. Isto
não faz qualquer sentido. Presidentes e primeiros-ministros são “mão-de-obra
contratada” que comanda em nome da elite invisível. Conceptualmente, o mundo é
governado por poderes supranacionais que não respondem aos cidadãos das nações,
mas às estruturas de poder supranacionais das elites. Pode pensar que o
presidente Trump é “o mais poderoso político à face da Terra”, quando, de facto,
Trump é um projeto de um grupo alternativo de interesses supranacionais que nem
sequer é americano. Os EUA são hoje parte de um projeto da elite banqueira
financeira liberal/projeto especulativo com base em Wall Street. Esse projeto
está hoje morto e podemos ver isso pelo colapso que vemos ao nosso redor. O
grupo alternativo, chamado Black International (aristocracia europeia, realeza,
os Rotschild, o Vaticano), conseguiu fazer com que o seu candidato se tornasse
presidente. Em novembro de 2014, disse publicamente que o presidente dos EUA
seguinte seria, muito provavelmente, alguém como Trump.
Acredita que estamos a caminhar para uma Idade das Trevas?
Sem dúvida. Bilderberg, Comissão Trilateral, CFR [Council of Foreign Relations],
Pinay Circle, Organização Mundial do Comércio, FMI, Fórum Económico de Davos,
etc., faz tudo parte das instituições financeiras liberais. Não estou a falar de
democratas versus republicanos nem de liberais versus conservadores, mas antes
de um modelo económico capitalista ocidental, Bretton Woods, baseado num
conceito de crescimento infinito. Mas não se pode crescer infinitamente num
planeta finito e a crise económica no mundo ocidental é uma prova de que o
modelo está moribundo.
Alguma vez teve medo pelas coisas que sabe sobre Bildernerg?
Não, não tenho. Não andam por aí a matar antigos agentes do KGB. Isso estabelece
um mau precedente, se é que me faço entender.
Acredita que Bilderberg está por trás do assassinato de Aldo Moro? Porquê? Que
tipo de provas tem?
Aldo Moro era o estadista democrata cristão raptado pelas Brigadas Vermelhas a
18 de março de 1978, no centro de Roma, e mantido em cativeiro por 100 dias até
que o seu corpo crivado de balas foi encontrado na mala de um carro, a poucos
minutos da sede nacional da Democracia Cristã, então no poder.
É inconcebível que o político mais poderoso de Itália pudesse ser raptado em
Roma por um grupo de estudantes terroristas das Brigadas Vermelhas e guardado
durante três meses apesar da maior busca da polícia da história moderna de
Itália e, depois, ser encontrado morto mesmo nas barbas dos investigadores. Duas
importantes publicações italianas, “Unita” e “Il Sabato”, apontaram o dedo a
Henry Kissinger. O primeiro artigo foi escrito por Gianni Cipriani, coautor do
livro “Limited Sovereignity: History of Atlantic Subversion in Italy”. Descreve
o relatório apresentado no comité parlamentar de investigação de massacres e
terrorismo. O relatório foi preparado por um grupo de deputados, incluindo
Francesco Macis, do PDS, e Luigi Granelli, da Democracia Cristã. Nas 41 páginas,
os deputados sublinham que pelas provas e arquivos mais importantes, incluindo
arquivos sobre o caso Moro e as Brigadas Vermelhas, estas, longe de serem uma
organização terrorista independente, eram apenas uma ferramenta. Uns dias antes,
o presidente da comissão, o senador Gualtieri, havia denunciado publicamente a
rede Gladio da NATO como “ilegal”. Gladio, uma organização ultrassecreta criada
depois da II Guerra Mundial, deveria ser uma rede paramilitar para lá das linhas
capaz de desencadear uma guerra irregular em caso de invasão soviética da Europa
ocidental. Mas a organização foi usada, de acordo com muitas fontes, para criar
grupos terroristas, tanto de extrema-direita como de extrema-esquerda,
destinados a desestabilizar países para os manter sob controlo. Aldo Moro, de
acordo com esses relatos, ameaçava estabelecer um governo suficientemente sólido
para ser independente politicamente e, em especial, financeiramente dos
anglo-americanos e de Moscovo. Numa situação diferente, Kennedy representou o
mesmo “perigo”.
O grupo está por trás de outros assassinatos?
Bilderberg é um canal para uma determinada visão dos assuntos mundiais. Como
Davos e muitas outras organizações privadas europeias e americanas, trabalha
para uma ordem financeira bancária mundial. As pessoas que participam nos seus
encontros também participam em encontros de outras organizações com o mesmo
perfil, mas em Bilderberg não se tomam decisões.
É antes o fórum onde algumas das mais importantes políticas do futuro são
discutidas e aperfeiçoadas.
Mas diz que os membros do grupo decidem sobre as guerras, onde vão acontecer,
quando e quanto tempo irão durar.
Deixe-me dar-lhe um exemplo de como funciona este grupo internamente. As
primeiras cinco conferências Bilderberg tiveram um papel decisivo na assinatura
do Tratado de Roma, reconhecido pela própria União Europeia como o acontecimento
formativo em que assentou a sua fundação. Durante esses encontros, o
protecionismo foi subordinado com sucesso à ideia liberal do mercado comum.
Documentos divulgados pela WikiLeaks mostram que existia, na terceira
conferência, em setembro de 1955, um reconhecimento generalizado entre os
Bilderbergers da “necessidade premente de trazer o povo alemão, em conjunto com
outros povos da Europa, para um mercado comum”. “É reconhecido de forma
generalizada que é nossa responsabilidade comum chegar, o mais rapidamente
possível, ao mais alto nível de integração, começando com um mercado comum
europeu”, lê-se no arquivo da WikiLeaks. De acordo com George McGhee, antigo
embaixador dos EUA_na Alemanha Federal e participante nos encontros, “o Tratado
de Roma, que criou o Mercado Comum, foi estimulado em Bilderberg”. Em 1955, no
mesmo ano em que se realizou o encontro Bilderberg mencionado, houve uma
revitalização das políticas europeias que acabaram por levar à assinatura do
Tratado de Roma. Depois da Conferência de Messina, em junho, uma conferência
intergovernamental sob a liderança de Paul-Henri Spaak foi organizada para
ultrapassar os últimos obstáculos no caminho para um mercado comum. Spaak era um
político belga que, tal como Monnet, estava muito ligado a uma estrutura de
poder de elite, tinha sido sempre um apoiante do supranacionalismo económico
europeu. Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo belga no exílio – por
isso, residira no Reino Unido durante a II Guerra Mundial –, esteve na fundação
da união aduaneira do Benelux, presidiu à assembleia comum da Comunidade
Europeia do Carvão e do Aço entre 1952 e 1953 e tornara-se chefe do Movimento
Europeu com a ajuda da CIA, em 1950. Mais tarde seria secretário-geral da NATO e
há informação de que teria assistido pelo menos a um encontro Bilderberg. No
entanto, houve ainda outros de dentro que nos bastidores desempenharam papéis
decisivos no Relatório Spaak, incluindo Jean-Charles Snoy et d’Oppures,
representante do governo belga, Robert Rotschild e Étienne Davignon, um
eurocrata muito conhecido que participou em numerosas conferências Bilderberg e
foi diretor do comité diretivo entre 1998 e 2001.
Existem membros permanentes do grupo? Quem são e como são escolhidos?
Em 2010, graças em grande parte ao meu livro, o Grupo Bilderberg criou um site
oficial onde podem, pelo menos na sua visão, disseminar a sua versão “oficial”
da realidade. O endereço é www.bilderbergmeetings.org. Os membros são escolhidos
por um grupo de 13 antigos e atuais membros muito respeitados, como David
Rockefeller. O atual presidente é Henri de Castries, diretor do Instituto
Montaigne e antigo presidente do conselho de administração da seguradora AXA.
Só os convidados podem participar na conferência. Quem é convidado e porquê?
Não se pode comprar a entrada no Bilderberg. O comité diretivo decide quem
convidar. Procuram um banqueiro liberal entusiasta One World ou um socialista
fabiano que possam fazer avançar a agenda. Por vezes, os seus candidatos acabam
por ocupar posições importantes no palco nacional e internacional, como é o caso
de José Manuel Durão Barroso e do presidente Bill Clinton. Quando um membro
Bilderberg se vê envolvido em escândalos públicos que podem estragar a reputação
do Grupo Bilderberg, esses membros são impedidos para sempre de voltar a
participar nos encontros, como é o caso do príncipe Bernardo da Holanda.
Com que regularidade há encontros Bilderberg e quando é o próximo?
Uma vez por ano, normalmente em maio ou junho. A seleção final de candidatos
realiza-se até final de fevereiro, tal como a localização do encontro.
Desde que escreveu o livro sobre Bilderberg o que se passou com o grupo?
Tornou-se famoso internacionalmente, graças a mim e ao meu livro.
Em que podemos ver a influência de Bilderberg hoje em dia?
A sua influência está a decair porque o modelo que representa está moribundo.
Ainda são muito fortes como se pode ver pela sua luta contra Trump e os Estados
Unidos, mas acabarão por desaparecer, juntamente com o FMI, Banco Mundial,
Organização Mundial de Comércio, Davos, porque todas essas instituições
representam um modelo acabado – Bretton Woods.
Fonte: https://ionline.sapo.pt/647269, publicado e acedido em 2019/02/19.
In
PELO SOCIALISMO
https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/a-influencia-de-bilderberg-esta-a-61113#cutid1
4/3/201913#cutid1
segunda-feira, 4 de março de 2019
sábado, 2 de março de 2019
Maduro 1, Abrams 0: Mas a partida está longe de terminada...
por The Saker
O impasse entre o Império Anglo-Sionista e a Venezuela no último fim de
semana terminou claramente no que só pode ser chamado como uma derrota
total para Elliott Abrams. Apesar de que nunca saberemos o que foi
planeamento inicialmente pelas mentes insanas dos Neocons, o que sabemos
é que nada de crítico aconteceu: nenhuma invasão, nem mesmo qualquer
operação de bandeira falsa. A faceta mais notável do impasse é quão pouco
efeito teve dentro da Venezuela toda a propaganda anglo-sionista. Houve
choques, incluindo alguns especialmente violentos, na fronteira, mas nada
aconteceu no resto do país. Além disso, enquanto alguns responsáveis
superiores e uns poucos soldados cometeram traição e juntaram-se às forças
do inimigo, a esmagadora maioria dos militares venezuelanos permaneceu
leal à Constituição. Finalmente, parece que Maduro e seus ministros
tiveram êxito em conceber uma estratégia combinando bloqueios de estradas,
uma coordenação do lado venezuelano e a utilização mínima mas eficaz da
polícia de choque para manter fechada a fronteira. Ainda mais notável,
não surgiram "atiradores não identificados" a disparar para ambos os lados
(uma táctica favorita do Império para justificar suas intervenções).
Atribuo o crédito disto ao facto de algumas unidades venezuelanas (ou
aliadas) estarem encarregadas de operações contra atirados
(counter-sniper) ao longo da fronteira.
Fora da Venezuela esta primeira confrontação também foi uma derrota para
o Império. Não só a maior parte dos países do mundo não reconheceu o
fantoche anglo-sionista como o nível de protesto e oposição ao que
pareciam ser os preparativos para uma possível invasão (ou, pelo menos,
uma operação militar de alguma espécie) foi notavelmente elevado. Se bem
que os sio-media remanescentes tenham feito o que sempre fazem (que é
sempre o que o Império quer que façam), a Internet e a blogosfera
opuseram-se esmagadoramente a uma intervenção directa dos EUA. Esta
situação também criou uma grande tensão política em vários países
latino-americanos cuja opinião pública continua a opor-se fortemente a
qualquer forma de controle imperial dos EUA sobre a América Latina.
Em relação a isto, a situação com o Brasil é particularmente
interessante. Apesar de o governo brasileira apoiar plenamente a tentativa
de golpe dos EUA, a maior parte dos militares brasileiros estava
inconfortável com isto. Meus contactos no Brasil previram correctamente
que os militares brasileiros se recusariam a atacar a Venezuela e,
finalmente, os brasileiros emitiram mesmo uma declaração nesse sentido .
Infelizmente, ainda há na América Latina muitos regimes fantoches dos EUA
para fazerem sem pensar tudo o que o Tio Shmuel quer que façam (a Colômbia
seria o pior, naturalmente, mas há outros). Mas esse não é o problema
principal.
O problema principal é que os Neocons não podem aceitar a derrota e que
eles provavelmente farão o que sempre fazem, dobrar a aposta e tornarem
uma situação má numa ainda pior. O responsável russo do Conselho de
Segurança, Nikolai Patrushev, advertiu que os EUA posicionaram forças
especiais na Colômbia e em Porto Rico como preparação para uma possível
invasão. De modo não característico, o Ministério dos Negócios
Estrangeiros russo tornou pública informação de inteligência, a qual
descrevia com algum pormenor que espécie de planos tinham o Império e seus
aliados, mesmo antes da confrontação do último fim-de-semana. Veja por si
mesmo:
De facto, os líderes do Império e seus fantoches não estão a guardar
quaisquer segredos acerca da sua determinação de derrubar o governo
constitucional e substituí-lo com a espécie de regime comprador que os
EUA já impuseram na Colômbia. Abrams e Pence têm sido particularmente
histéricos nas suas ameaças, mas todo o "Grupo de Lima" ainda está nisso:
Quanto ao embaixador russo na ONU, ele foi muito claro sobre o que a
Rússia espera que aconteça a seguir:
Os neocons não se contentam apenas em ameaçar a Venezuela. John Bolton não
pôde conter-se e ameaçou publicamente a Nicarágua como o próximo na fila
para uma mudança de regime patrocinada pelos EUA. Ele falou mesmo numa "
Troika da Tirania " que lembra o famoso " Eixo do Mal ".
Isso tudo é dificilmente surpreendente: os políticos dos EUA recorrem
sempre ao tipo de linguagem infantil da banda desenhada quando querem dar
às suas ameaças uma seriedade especial. A seguir, diremos que Maduro é um
"Novo Hitler" e que ele está a fazer "o genocídio do seu próprio povo",
possivelmente com armas químicas ("altamente prováveis", sem dúvida!). Se
não for esse o caso, Maduro estará a distribuir Viagra às suas forças
para ajudá-las a violar mais mulheres . Para aqueles intrigados pelo facto
de que políticos presumivelmente adultos utilizarem esta espécie de
linguagem encontrável na escola primária, só posso dizer que isso apenas
reflecte o estado do discurso político nos EUA, o qual tem sido
estupidificado até um nível incrivelmente baixo. Atenção, contudo, porque
apesar de os políticos dos EUA serem cómicos no seu analfabetismo
infantil, ignorante e, embora tenham um histórico quase perfeito de
falhas embaraçosas, as últimas décadas também mostraram que são bastante
capazes de fúria assassina (só no Iraque a invasão dos EUA resultou em
mais de um milhão de civis iraquianos mortos) ou de destruir até mesmo um
país muito próspero (que sem dúvida era a Líbia sob Muammar Gaddafi).
A seguir, o Império provavelmente revidará
Há uma pequena possibilidade de que Abrams & Co. concluam que a situação
na Venezuela é uma confusão total e que o Império não pode aproveitar-se
disso no curto e médio prazo. Isto é possível, sim, mas é também altamente
improvável.
A verdade é que o Sr. MAGA [1] e seus fantoches-mestres Neocon
fracassaram, pelo menos até agora, em absolutamente tudo o que tentaram. E
se enfrentar a China, a Rússia, o Irão ou mesmo a Síria não é tarefa
fácil, a Venezuela é de longe o país mais frágil daqueles que poderiam ser
chamados como "países de resistência": a Venezuela está longe de seus
aliados (excepto Cuba), cercada por países mais ou menos hostis
(especialmente a Colômbia), sua economia é debilitada pelas sanções e
sabotagem dos EUA e suas forças armadas são pequenas diante do imenso
poder de fogo que o Império tem disponível na região. Acrescente-se a isso
a mentalidade verdadeiramente demoníaca de neoconservadores como Abrams e
o futuro da Venezuela parece negro.
A boa notícia é que os colombianos e o resto dos "amigos da Venezuela" do
Grupo de Lima provavelmente não têm o poder militar para enfrentarem a
Venezuela por si próprios. A opção preferencial para os EUA seria utilizar
os colombianos tal como o KLA foi utilizado no Kosovo ou como a al-Qaeda
(e derivativos) foram utilizados contra a Síria: como botas sobre o
terreno enquanto os EUA providencia poder aéreo, capacidades de guerra
electrónica, inteligência, ataques com bombas e mísseis, etc. Os EUA
também têm enormes capacidades navais as quais poderiam ser utilizadas
para apoiar (e, naturalmente, dirigir) quaisquer operações militares
contra a Venezuela (recomendo muito esta análise do meu amigo Nat South,
que descreve com algum pormenor a capacidades navais e de operações dos
EUA na região).
Meu pressentimento é que esta abordagem não funcionará. Como acontece
frequentemente, os EUA têm toda a espécie de capacidades impressionantes
excepto a principal: uma força militar capaz de providenciar as botas
sobre o terreno (em contraste com as de um procurador não
estado-unidense). O problema para os militares dos EUA não seria tanto
entrar, mas permanecer dentro e conseguir fazer alguma coisa antes de sair
– o que os EUA chamavam uma "saída estratégica". E aqui, não há realmente
boas opções para os EUA.
Portanto é muito mais provável que os EUA venham a utilizar a arma que
realmente dominam melhor do que ninguém no planeta terra: a corrupção.
Há dinheiro em grande, realmente em grande, em torno da crise
venezuelana: não só dinheiro do petróleo, mas também dinheiro da droga. E
há muita gente má e corrupta envolvida nessa luta, a qual utilizará a arma
da corrupção com efeitos devastadores contra o governo constitucionalmente
eleito. E para piorar as coisas, a Venezuela já é devastada pela
corrupção. Ainda assim, há alguns factores que podem salvar a Venezuela
de ser reconquistada pelo Império.
Primeiro, enquanto os neoconservadores norte-americanos são demasiado
arrogantes para se incomodar com a opinião de alguém, excepto a sua
própria, e apesar de as várias agências americanas conversarem
principalmente com os governantes imensamente ricos da Colômbia e do resto
da América Latina, parece que uma forte maioria dos venezuelanos apoia seu
governo eleito. Além disso, os líderes dos EUA simplesmente não entendem o
quanto os ianques são odiados na América Latina (pelo menos entre as
massas, não as elites compradoras ) e quão fantasticamente ofensiva para
a grande maioria das pessoas deste continente é a nomeação de um criminoso
como Elliott Abrams como embaixador para a Venezuela.
Segundo, Hugo Chávez e Nicolás Maduro fortaleceram, pela primeira vez, as
massas do povo venezuelano, especialmente aqueles que viviam em extrema
pobreza quando a Venezuela ainda era uma colónia dos EUA. Essas pessoas
não têm ilusões sobre o que um regime de Guaido significaria para elas. E
apesar de a maioria dos partidários de Chávez e Maduro não serem
influentes ou ricos, há muitos deles e provavelmente lutarão para impedir
uma reversão completa de todas as conquistas da revolução bolivariana.
Terceiro, a América Latina pode estar a mudar, assim como o Médio
Oriente. Lembra-se como, durante anos, os israelenses podiam atacar seus
vizinhos com quase total impunidade e quão mal os exércitos árabes se
comportavam? Isso mudou de repente quando o Hezbollah provou a toda a
região e até mesmo ao mundo que o "Eixo da Bondade" (EUA, Israel, Reino da
Arábia Saudita) poderia ser derrotado com êxito, mesmo com uma resistência
comparativamente pequena sem força aérea, sem marinha e muito poucos
blindados. Como nunca deixo de repetir – guerras não são conquistadas pelo
poder de fogo, mas pelo poder da vontade. É claro que o poder de fogo
ajuda, especialmente quando se pode disparar de longe sem risco para si
próprio e a sua vítima não pode revidar, mas quando o grande poder de fogo
depara-se com o grande poder da vontade, o primeiro fracassa rapidamente.
Existe uma possibilidade muito real de que a Venezuela possa fazer para a
América Latina o que a Ucrânia fez para a Rússia: agir como uma "vacina"
surpreendentemente eficaz contra a propaganda anglo-sionista. Um líder
indígena como Evo Morales, que declarou seu total apoio ao governo eleito
de Maduro, é uma inspiração para o povo da América Latina que vai muito
além das fronteiras da Bolívia. O embaixador russo na ONU estava certo:
já existem outros líderes depois de Maduro que os anglo-zionistas querem
eliminar e substituir por um boneco flexível à la Guaido ou Duque
Márquez. No final das contas, este é um típico problema dialéctico: quanto
mais brutal e evidente for a agressão dos EUA contra a América Latina, os
golpes mais bem-sucedidos ou mesmo as invasões que os EUA organizam, mais
fortes serão os sentimentos anti-ianque gerados entre o povo do
continente. Pense deste modo: os EUA já alienaram incuravelmente o povo da
China, da Rússia e do Irão, juntamente com a maior parte do mundo árabe e
muçulmano, e graças a essa alienação, os líderes da China, Rússia e Irão
desfrutaram do apoio dos seus povos na sua luta contra o Império
anglo-sionista. Poderia algo muito semelhante não estar já a acontecer na
América Latina?
Conclusão: foco sobre a questão correcta
Para derrotar os planos do Império para a Venezuela é crucial que nos
mantenhamos a martelar repetidamente: a opção não é entre Maduro ou
Guaidó, a opção é não é entre pobreza sob os chavistas e prosperidade sob
os anglo-sionistas. Isto é como os agentes do Império (sejam pagos ou
simplesmente estúpidos) querem por as discussões. Aqui a questão real em
causa é a regra da lei. A regra da lei dentro da Venezuela, naturalmente,
e a regra da lei internacionalmente.
Muitas vezes ensinam aos estudantes de direito do primeiro ano que a
finalidade da lei não é a "justiça" em si, mas sim proporcionar um
mecanismo para resolver disputas. Esse mecanismo é, reconhecidamente,
altamente imperfeito, mas é entendido por pessoas civilizadas como sendo
preferível à alternativa. A alternativa, a propósito, é o que acontece
todas as vezes em que é lançada uma chamada "intervenção humanitária": um
desastre humanitário.
Contudo, este é o típico modus operandi dos neocons (e na verdade de
todos os imperialistas). Primeiro, escolhem um país para desestabilizar, a
seguir utilizam o seu controle dos mercados financeiros e comerciais
internacionais para desencadear uma crise económica; depois enviam seus
diabos e agentes de influência de "promoção da democracia" para fomentarem
protestos ou, ainda melhor, desordens violentas; o passo seguinte é enviar
alguns "atiradores de elite (snipers) não identificados" se o governo
legítimo não utilizar violência suficiente para suprimir os protestos e
então denunciam o líder que se quer substituir como "monstro", "animal" ou
mesmo "novo Hitler" e ameaçam derrubá-lo. Depois de tudo isto, declaram
urbi et orbi que é "altamente provável" que o "novo Hitler" irá
massacrar o seu próprio povo, fazem uma operação de falsa bandeira se
necessário, e então declaram uma "coligação da vontade" composta por
"amigos" do país que se quer ocupar os quais entrarão em acção devido à
"ineficácia dos EUA", descartando quaisquer pensamentos acerca do direito
internacional e falarão apenas de "ordem com base em regras". Verifique
como o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Lavrov, explica o
significado desta substituição:
Quando se ouve os apoiantes de Guaidó ouve-se sempre que falam acerca de
quão terrível é Maduro, de quão horrível a situação económica da
Venezuela realmente está, de quão corruptos são os membros do regime, etc,
etc, etc. Isto é uma cortina de fumaça. Mesmo as acusações de que as
últimas eleições foram roubadas por Maduro são apenas outra cortina de
fumaças. Por que? Porque mesmo se Maduro roubasse a eleição, Guaidó não
tem o direito de declara-se presidente, Trump não tem o direito de
reconhecê-lo como tal e o Império não tinha de ameaçar uma intervenção
militar ou mesmo uma violação da fronteira soberana da Venezuela sob o
pretexto ridículo de trazer ajuda humanitária enquanto, ao mesmo tempo,
mantém o país sob sanções draconianas (e totalmente ilegais). A solução
para uma crise provocada pela violação da lei não pode ser um abandono
maciço dos próprios princípios nucleares da lei, mas uma solução só pode
ser [alcançada] através da restauração da lei e da ordem por meios legais.
É um tanto óbvio, mas tanto parecem esquecer isto que vale a pena repetir.
E aqui, mais uma vez, mostrarei um gráfico que realmente diz tudo:
As mais poderosas ferramentas no arsenal do Império não são suas forças
nucleares ou suas inchadas, ainda geralmente ineficazes, forças armadas. A
mais poderosa ferramenta no arsenal do Império é sua capacidade para
moldar (to frame) a discussão, definir o que é focado e o que é ofuscado.
O legado do Império corporativo sio-media até dita que palavras devem ou
não deveriam ser utilizadas numa discussão (exemplo: nunca fale em
"agressão ilegal", mas sim em "intervenção humanitária").
Esta é a razão porque devemos falar de "verdadeira soberania" , de
"direito internacional" , de "procedimentos constitucionais" e de
"agressão" e "ameaça de agressão" como crimes de guerra. Precisamos
continuar a exigir que princípios básicos fundamentais de sociedades
civilizadas (tais como o princípio do "inocente até prova de culpa")
sejam sustentados pelos governos e pelos media. Precisamos negar aos
dominadores do Império o direito de declarar que eles têm o direito de
ignorar completamente os mais sagrados princípios da ordem internacional
pós II Guerra Mundial. Precisamos continuar a insistir em que uma ordem
internacional justa só pode ser uma ordem multi-polar ; que uma única
Hegemonia Mundial nunca poderá proporcionar justiça e que não haverá paz
se não houver justiça. Finalmente, precisamos incessantemente exigir que
cada país e cada país viva de acordo com suas próprias tradições e crenças
e rejeitar a noção de que um único modelo político deva, ou mesmo possa,
ser aplicado universalmente.
Todos estes são princípios que os neocons odeiam e que gostariam de
enfeixar juntos sob um único conceito abrangente, como o "crime de
pensamento" de George Orwell. Os neocons gostam sobretudo de utilizar o
"anti-semita" e "anti-semitismo" para afastar estes princípios e, quando
isto falha, então "terrorista" está sempre disponível para utilização.
Não os deixem fazer isso: cada vez que tentam esse truque, denunciá-lo
imediatamente por aquilo que é e continuar a focar o que realmente
importa. Se pudermos forçar os neocons a lidar com essas questões,
venceremos. É realmente simples.
É-me impossível imaginar como este conflito irá desenrolar-se. Será que a
arrogância descarada dos "ianques" será suficiente para que o povo da
Venezuela e o resto da América Latina tomem seriamente a pílula vermelha
[2] ? Talvez. Minha esperança e minha intuição é que isso pode acontecer.
01/Março/2019
[1] Sr. MAGA: slogan "Make America Great Again" ("Faça a América grande
outra vez")
[2] "Pílula vermelha": frase popular na cibercultura significando uma
atitude de livre-pensador e um despertar da vida "normal" de preguiça e
ignorância. Os que tomam pílulas vermelha preferem a verdade, não importa
quão árida e penosa possa ser.
O original encontra-se em
www.unz.com/tsaker/maduro-1-abrams-0-but-this-match-is-far-from-over/
In
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/venezuela/saker_01mar19.html
2/3/2019
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