domingo, 8 de dezembro de 2024

A emancipação e a desemancipação ao longo da história (1)

 


– Esta entrevista é de dez anos atrás, no entanto mantém plena atualidade. As palavras então proferidas por Losurdo continuam válidas para os dias de hoje, o que comprova a sua clarividência. Como foi publicada na revista brasileira Novos Temas, pouco conhecida em Portugal, justifica-se plenamente a sua republicação.

Domenico Losurdo [*]
entrevistado por Victor Neves

Domenico Losurdo.
No dia 25 de julho de 2014, o professor e filósofo marxista Domenico Losurdo recebeu-me amigavelmente em sua casa em Urbino, na Itália, para conversar sobre certos assuntos ligados a temas caros a nós, comunistas. A entrevista, que durou cerca de três horas, girou em torno de três eixos, que se interpenetraram e se aproximaram do mesmo modo como os problemas fundamentais se entrecruzam na própria luta socialista. O primeiro deles foi a relação entre democracia e luta pela emancipação humana. O segundo, a relação entre essa luta e experiências concretas de construção do socialismo. E o terceiro, a abordagem de certos aspetos teóricos da luta pela emancipação no plano da “batalha das ideias”.
O pensador italiano, por sua profundidade e originalidade no tratamento de temas relevantes, especialmente nas áreas da teoria política e da historiografia – materializada na publicação de dezenas de livros e inúmeros artigos traduzidos em diversos idiomas – já se tornou, há anos, uma das figuras vivas mais influentes no campo do debate marxista. Abordando muitas vezes temas delicados como o problema do “totalitarismo”, o papel histórico de Stalin, o lugar da China na luta socialista hoje, entre outros, suas posições provocam a polémica e, através dela, o bom debate ao qual nós, comunistas, devemos recorrer no sentido de aprimorar a nossa capacidade crítica. Essa é, como sabemos, nossa principal arma no plano teórico para desvelar as determinações fundamentais do real e incidir sobre ele, dirigindo-o no sentido de nosso projeto de emancipação humana na sociedade comunista. Foi, portanto, no sentido de estimular a reflexão e o aprimoramento de nossas próprias posições através do debate aberto e franco – com posições por vezes bastante divergentes, como podem ser as do filósofo de Urbino – que ofereci a presente entrevista à publicação pela revista Novos Temas, um dos mais importantes veículos de estímulo ao debate teórico de que dispõem os comunistas hoje no Brasil.
V.N.

Novos Temas: No livro Democracia ou Bonapartismo, o senhor trabalha a partir da oposição entre as “lutas pela emancipação” e o processo de “desemancipação” que estaria ocorrendo no mundo com o neocolonialismo e o neoliberalismo. O que o senhor compreende exatamente quando afirma a possibilidade de uma “emancipação humana”? Esse projeto mantém sua atualidade?

Domenico Losurdo: Penso que sim. A luta entre a emancipação e a desemancipação é uma constante na história universal. Posso dar alguns exemplos que ajudam a demonstrar isso.

Em primeiro lugar, em consequência da Guerra de Secessão nos Estados Unidos na segunda metade do século XIX, houve a abolição da escravidão negra. Trata-se, sem dúvida, de urna grande emancipação. Seguiu-se por certo período, imediatamente após a conclusão daquela guerra (1865), uma democracia multirracial e multiétnica nos Estados Unidos, mesmo no Sul. O Norte havia conquistado a vitória, mas, para administrar o Sul, os brancos do Norte precisavam do apoio dos negros do Sul. Esse é um período feliz da história dos afro-americanos, porque nesse caso eles desempenhavam mesmo um papel político importante nos Estados do Sul.

Entretanto, esse período encerra-se com um compromisso entre os brancos do Norte e os do Sul, a partir do momento em que estes últimos aceitam a vitória e a direção nacional do Norte em troca da seguinte concessão: eles poderiam administrar livremente o Sul. A consequência foi o regime de “supremacia branca” (“White supremacy”) no Sul, com efeitos catastróficos para os negros, provocados por um regime racista, de terror branco dirigido contra os negros, linchamentos etc.

Ou seja: após a grande emancipação que representou a abolição da escravidão negra, vemos um processo de desemancipação porque, mesmo que a escravidão não tenha sido restabelecida no plano formal, na realidade os negros perderam cada uma das liberdades que haviam conquistado. Trata-se de um claro processo de desemancipação.

Outro exemplo é aquele que se passou com a queda do socialismo na Europa do Leste – e aqui eu sublinho, na Europa do Leste, não no mundo. De um lado, podemos dizer que aqueles povos conquistaram certos direitos políticos que eles não tinham. Mas, de outro lado, devemos notar o claro processo de desemancipação. Com isso quero dizer o seguinte: a revolução anticolonial, que havia conhecido sua grande decolagem com a Revolução de Outubro, foi desacreditada com a queda do socialismo na Europa Oriental. Depois desse processo, houve mesmo uma reabilitação formal do colonialismo. Há hoje muitos intelectuais, como Popper, que sustentam que “nós libertámos os povos coloniais cedo demais”. É a velha tradição colonial que retorna!

Também quando o Ocidente se sente à vontade para declarar guerras de maneira soberana sem a autorização do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, é claro que isso mostra a reapresentação de uma posição neocolonial. Há mesmo uma partilha do Oriente Médio entre os países do Ocidente, que pretendem exercer sua soberania sobre o resto do mundo.

Agora, por que isso se passa? Qual é a relação entre esse retorno e a queda do socialismo na Europa do Leste?

Entre as definições de imperialismo que encontramos em Lenin, há uma que me parece particularmente interessante. Ele diz que o imperialismo é a pretensão de algumas nações por assim dizer “eleitas” de se reservar o direito de constituir Estados nacionais independentes, direito esse que é negado aos outros povos. Essa atitude imperialista tornou-se muito evidente após a queda do socialismo na Europa do Leste.

Quanto a esse ponto, devemos lembrar-nos de que, antes da Revolução de Outubro, o mundo inteiro era propriedade de um punhado de países imperialistas: a África estava partilhada, a índia ainda era uma colónia da Grã-Bretanha, a China era uma semicolónia, a América Latina também, com a Doutrina Monroe. Com a Revolução de Outubro, assistiu-se então ao despertar da revolta anticolonialista em nível planetário; e, com a queda do socialismo na Europa de Leste, assistimos agora à tentativa dos grandes países capitalistas de estabelecer um tipo de neocolonialismo.

As guerras contra o Iraque, a Líbia e a Iugoslávia são guerras neocoloniais que nos mostram claramente esse aspeto da desemancipação. Mas há também outro aspeto que deve ser levado em conta.

Mesmo autores burgueses são obrigados a reconhecer que a Revolução de Outubro tornou mais fácil o estabelecimento do Estado Social na Europa ocidental. Posso citar, nesse contexto, Hayek, o grande mestre do neoliberalismo que recebeu o Prémio Nobel nos anos de 1970. Polemizando ferozmente com os direitos económicos e sociais reconhecidos pela ONU, ele afirmava claramente que esses direitos seriam uma invenção ruinosa da “revolução marxista russa”. Essa é uma citação, e mesmo que eu evidentemente não compartilhe o seu julgamento sobre esses direitos, ele tem toda a razão ao associá-los à Revolução Russa!

Temos assim que, se a Revolução de Outubro contribuiu evidentemente para o desenvolvimento dos direitos sociais mesmo nos países europeus do Oeste, não é de modo algum uma coincidência que, após a desaparição socialismo na Europa Oriental, estejamos assistindo a esse ataque contra direitos sociais na Europa Ocidental.

Um último exemplo pode ser o da luta pela emancipação das mulheres nos países do Oriente Médio.Com a revolução anticolonial, conhecemos ali uma certa emancipação da mulher. Depois da guerra neocolonial contra a Líbia, assistimos agora à reintrodução da poligamia, quer dizer, da escravidão doméstica da mulher. Trata-se evidentemente de urna contrarrevolução contra os direitos das mulheres – ou seja, uma desemancipação para as mulheres.

Esse quadro mostra-nos, ao que me parece, uma característica geral do processo histórico, e eu gostaria de acrescentar uma última observação a esse respeito para concluir esta resposta. É que a visão que tenho do processo histórico não é unilinear. A história não caminha de uma conquista ou de um progresso a outro. De jeito nenhum. O que se passa na realidade é que há uma luta entre emancipação e desemancipação, e essa luta chama-se luta de classes.

Ela pode assumir formas diferentes e, por vezes, é a desemancipação que ganha batalha. Sobre isso, discorro mais aprofundadamente no meu último livro, A luta de classes.

NT: Aproveitemos então para prosseguir um pouco por esse tema. Como o senhor vê as formas atuais da luta de classes? Quais seriam, hoje, os sujeitos sociais capazes de conduzir essas lutas pela emancipação?

Domenico Losurdo: No plano histórico, há três formas de “luta de classes”. O Manifesto do Partido Comunista fala de Klassenkampfe, e deve-se notar que o termo alemão está no plural. Isso aponta para o fato de que há diferentes formas de luta de classes, dentre as quais a mais conhecida é a forma de luta do proletariado, da classe operária, para abolir aquilo a que Marx e Engels chamaram “escravidão assalariada”. Essa é uma forma fundamental de luta de classes, mas de modo algum a única.

Como ela é a mais conhecida entre os marxistas, não vou falar muito a respeito, preferindo mostrar que Marx e Engels falam também de outras formas da luta de classes. Marx, em particular, quando fala da Irlanda – que naquele tempo era urna colónia da Grã-Bretanha, segundo Marx uma versão da Índia na Europa – afirma que ali “a questão social se apresenta[va] como questão nacional”. Trata-se aqui de urna citação literal, que aponta para que a exploração terrível do povo irlandês se manifestava deste modo: os irlandeses eram expropriados de suas terras, expulsos, por vezes mesmo dizimados. Sofrendo essa exploração opressão terrível estava o povo irlandês enquanto tal, não apenas as classes subalternas. O povo irlandês enquanto nação sofria com isso e, nesse caso, a questão social, segundo Marx, apresentava-se como questão nacional – o que significa que a luta de classes se tornava ali uma luta nacional, sem desaparecer, mas apresentando-se sob essa forma.

Há ainda uma terceira forma da luta de classes. Engels escreveu que as lutas das mulheres contra a opressão sofrida por elas constituíam a primeira forma da luta de classes. Isso porque elas, na situação da família patriarcal, estavam condenadas à escravidão doméstica, formando o “proletariado da família”. Sendo assim, a sua luta pela emancipação deve ser compreendida como uma terceira forma da luta de classes.

A grandeza de Marx, de Engels e do movimento que se inspirou neles residiu na capacidade de unificar essas três formas de lutas de classes no mesmo gigantesco movimento de luta pela emancipação em seu conjunto. Temos de partir dessa constatação para compreender o que se passa hoje. Já falei da luta de classe do proletariado nos países capitalistas, sobretudo nos mais desenvolvidos, com a crise terrível que se manifestou, sobretudo depois de 2008. Sabemos que as condições de vida das classes subalternas foram baixadas com o triunfo do neoliberalismo, que significa a desemancipação no que concerne à colocação em questão do Estado Social e mesmo à sua destruição.

Mas não devemos limitar nosso olhar ao aspeto económico das lutas das classes subalternas nas metrópoles capitalistas. Devemos ter em conta, sobretudo, os aspetos políticos. Já no meu livro Democracia ou bonapartismo, falei de países, como os Estados Unidos ou a Grã-Bretanha, como aqueles onde reina um regime político de “monopartidarismo competitivo”. Isso significa que a classe social que domina é uma só, mesmo se há elites concorrentes no interior da mesma classe. Hoje, muita gente – inclusive autores burgueses – fala do poder absoluto da riqueza sobre a vida política e, a propósito dos Estados Unidos, fala-se de uma “plutocracia”, expressão que remete ao “poder da riqueza”. Devemos então lembrar que esse processo de desemancipação não é apenas uma colocação em questão do Estado Social, mas, de modo mais geral, é a colocação em questão dos direitos sociais e políticos das classes subalternas. Nos países como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, mas mesmo na Itália e em certos outros países, as classes subalternas não possuem mais representação política. Nesse contexto, deve-se mesmo acrescentar que, com o neoliberalismo, a questão social se torna mais e mais um caso de polícia – uma questão que aparece como objeto de intervenção e solução pela polícia.

Cito Stiglitz, norte-americano que ganhou há alguns anos o Prêmio Nobel de Economia: ele mostra, por exemplo, que os Estados Unidos têm cerca de 5% da população mundial total, mas ao mesmo tempo 20% da população carcerária do mundo. Ou seja: o país clássico do neoliberalismo, onde a questão social foi sempre tratada como se fosse uma mera “questão privada”, é o mesmo em que a taxa de encarceramento da população é particularmente elevada.

Mas essa é apenas urna das formas da luta de classes. Devemos agora nos colocar outra questão, referente à diferença de formas da luta de classes que exemplifiquei anteriormente: a luta anticolonialista, uma das lutas de classes que desempenhou papel decisivo no século XX, continua ou não a desempenhar um papel importante?

Em primeiro lugar, deve-se ter em mente que a luta anticolonialista foi talvez a forma mais importante de luta de classes no século XX. Não apenas no sentido da independência das colónias tradicionais, mas também devido ao significado do nazismo, do III Reich, que não devemos esquecer jamais. No meu livro sobre a luta de classes cito Hitler e, sobretudo, seu colaborador Himmler, que em um de seus discursos dirigidos ao partido nazista dizia que “Nós estamos entre nós, e entre nós posso falar com clareza: precisamos de escravos no sentido mais estrito do termo. E nossos escravos serão os eslavos”.

Hoje há vasta bibliografia que demonstra muito claramente que a guerra do III Reich contra a União Soviética foi a maior guerra colonial da história mundial. Devo acrescentar: não somente uma guerra colonial, mas uma guerra escravista. Pois bem: a batalha de Stalingrado foi um dos momentos mais importantes da luta de classes do século XX e isso continua válido mesmo no nível da história universal. Os eslavos deviam se tornar escravos da “raça dos senhores”, ou deviam permanecer livres? Isso é grande luta de classes.

E podemos dizer a mesma coisa com relação à China contra o Império Japonês. Nessa situação, Mao Zedong exprimiu o estado de coisas reinante em uma fórmula magnífica, afirmando que naquela situação concreta (e sublinho, naquela situação concreta, e não em geral) havia uma “identidade entre luta de classes e luta nacional”. Mao havia compreendido muito bem: foi como consequência dessa luta de classes gigantesca que vimos o arruinamento do sistema colonialista mundial.

Qual é então a grande questão hoje? É esta: desde que não há mais sistema colonial clássico, teria a luta anticolonial como forma da luta de classes desaparecido? Trata-se de uma questão complicada. Em primeiro lugar, há ao menos urna situação concreta hoje, na qual a luta anticolonial se apresenta da forma clássica. É a situação da Palestina. Nesse caso, vemos a forma clássica do colonialismo. Afinal, o que fazem os sionistas? O que fazem os colonos israelenses judeus? Eles procedem à expropriação do povo palestino sem distinção e ao terror contra esse povo no seu conjunto. Nesse caso, a luta anticolonialista do povo palestino se manifesta na forma clássica, da luta pela terra. Lenin já explicou, no início do século XX, a diferença entre o colonialismo e o neocolonialismo:   se o colonialismo é a “anexação política”, o neocolonialismo é a “anexação econômica”. No caso da Palestina, vemos que se trata de anexação política, já que a terra dos palestinos está submetida ao poder direto, explícito, formal, de Israel.

Em segundo lugar, há uma luta anticolonial que é muito presente. Segundo o raciocínio de Lenin, a luta contra a anexação económica é ela própria uma luta anticolonial e, portanto, ela também é luta de classes. Para explicar isso, parece-me útil citar a posição de personalidades bastante diferentes sobre o assunto. Uma é Mao Zedong. Às vésperas da conquista do poder, ele afirmou aproximadamente o seguinte:   “Os Estados Unidos desejam que a China continue a depender do trigo e da farinha americanos. Nesse caso, a independência política da China será um facto apenas formal, sem significação concreta”. Mao afirmou isso em 1949. A outra é Frantz Fanon, um dos grandes teóricos da revolução anticolonial argelina, que escreveu o célebre Os condenados da terra. Nesse livro, afirmou que, quando um país colonialista e imperialista é obrigado a conceder a independência a um povo que não pode mais controlar, a antiga potência colonial busca pôr a questão ao povo revoltado nos seguintes termos:   “Querem a independência? Tudo bem, tomem, mas agora danem-se”.

Estas duas personalidades muito diferentes, Mao e Fanon, compreenderam muito bem o mesmo problema:   que após a luta pela independência política tem de vir a luta pela independência econômica, e que a agressão imperialista pode-se manifestar tanto no plano político e militar evidente quanto no plano económico. A história de Cuba fornece um claro exemplo desse problema. Todo o mundo sabe que no ano de 1961 os Estados Unidos tentaram conquistar Cuba, invadindo a Baía dos Porcos, e que esta tentativa foi rechaçada pelo povo cubano. Os Estados Unidos foram obrigados a renunciar à agressão militar, mas nem por isso renunciaram a submeter Cuba:   passaram da agressão militar à agressão económica, como constatou com toda a razão Che Guevara.

O embargo é mesmo uma forma de guerra no plano económico. Com esses elementos postos, posso agora trazer à luz uma segunda tese:   a luta de classes que consiste na luta de libertação nacional, que desempenhou papel tão importante no século XX, mantém sua importância hoje. Só que essa luta anticolonial passou da fase, sobretudo político-militar à fase, sobretudo político-económica. Por exemplo, se tomamos um país como o Egito hoje, como vocês sabem, o Egito silencia sobre o massacre a Gaza. É claro: um país que depende do trigo americano e do dinheiro saudita não está em condições de se exprimir de modo politicamente independente.

Hoje temos também grandes expressões da luta de classes cujos protagonistas são os países de independência recente, ou os países da América Latina que lutam para se libertar da Doutrina Monroe. Talvez o país mais importante no tocante a essa forma da luta de classes seja, hoje, a China. Como Cuba, ela sofreu um embargo terrível durante muito tempo, mas hoje se desenvolve e quebra o monopólio ocidental da alta tecnologia – que transforma a correlação de forças em nível internacional de modo radical. Mais uma vez:   a tarefa daqueles que querem lutar pesa emancipação é unificar as três formas da luta de classes, e isso passa por ter em conta corretamente o papel da luta anticolonial hoje.

(continua)

2º sem. 2014

Losurdo em resistir.info:
  • Stalin, História e crítica de uma lenda negra, Miguel Urbano Rodrigues
  • Losurdo e a atualidade da luta de classes, Miguel Urbano Rodrigues
  • A não-violência: o mito e as realidades, Domenico Losurdo
  • O ruir do "campo socialista" Implosão ou terceira guerra mundial?, Domenico Losurdo
  • As raízes norte-americanas do nazismo, Domenico Losurdo
  • [*] Filósofo (1941-2018). Ver Wikipedia e domenicolosurdoinfobrasil.blogspot.com

    O original encontra-se na revista Novos Temas, nº 11, publicada em S. Paulo pelo Instituto Caio Prado Jr.

    Em

    RESISTIR.INFO

    https://resistir.info/losurdo/emancipacao_1.html

     2º semestre 2014




    segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

    A conspiração de Trotsky na Comintern

     


    02.12.24

    Palestra na ICSS de Oakland 20 de outubro de 2024 

    (Parte I/II) 

    Grover Furr 

     

    Em 2005-2007, investiguei e escrevi Khrushchev Lied [Khrushchev mentiu] . Nele eu mostro que todas as acusações de crimes que Khrushchev fez naquele "Discurso Secreto" contra Stalin e Lavrentii Beria são falsos. 

     

     

     

    Gostaria de agradecer aos organizadores do ICSS por me convidarem para falar sobre o nosso - meu e de Vladimir L. Bobrov - último livro, Conspiração de Trotsky na Comintern – o caso de Osip Pyatnitsky. 

    Primeiro, gostaria de dar algum contexto que ajudará a explicar a sua importância. 

    O campo académico da história soviética é corrupto. Existe principalmente para espalhar mentiras anticomunistas, e especialmente mentiras anti-Stalin, ao mesmo tempo em que dá a essas mentiras uma aparência de respeitabilidade. Existe boa investigação sobre tópicos específicos. Mas os resultados dessa investigação são sempre encaixados  numa estrutura anti-Stalin. Publiquei dois estudos completos de livros influentes que não fazem nada além de transmitir como verdade falsidades anti-Stalin – Mentiras de Sangue (2014) e Stalin Esperando pela ...  Verdade (2019). 

    Leon Trotsky era um fascista 

    Todos os escritos trotskistas, incluindo o que eles chamam "investigação", sobre o período Stalin da história soviética também é completamente corrupto. Os trotskistas são um verdadeiro culto, como o culto em torno de Jesus Cristo. Aceitam todas as mentiras de Trotsky como verdade. O trotskismo é parasitário da falsidade anticomunista dominante, que eles repetem acriticamente. Eu tenho discutido isto com muitos detalhes em quatro dos meus livros. 

    É vital que todos na esquerda reconheçam isto: Leon Trotsky era um fascista. Trotsky começou como socialista e tornou-se comunista quando se juntou ao partido bolchevique no verão de 1917. 

    Depois de 1929, Trotsky liderou uma conspiração clandestina a partir do exílio. Através dos seus seguidores na União Soviética, Trotsky colaborou com os  exércitos nazi e japonês. Os trotskistas fizeram espionagem para os nazis e japoneses; conspiraram para assassinar líderes soviéticos; organizaram a sabotagem da economia que matou vários trabalhadores soviéticos; planearam um golpe de estado com outros oposicionistas; planearam uma revolta em Leninegrado com a ajuda do Alto Comando Alemão; e conspiraram com o marechal Mikhail Tukhachevsky e outros líderes militares de alto escalão para abrir a frente aos exércitos nazi e japonês em caso da guerra. 

    Nos seus escritos na década de 1930, Trotsky mentiu sobre Stalin e sobre a sua própria atividade - mentiu numa extensão quase inacreditável! Eu escrevi acerca das suas mentiras prováveis em quatro dos meus livros e num capítulo de A Fraude do 'Testamento de Lenin'. 

    Não devemos esquivar-nos a perceber que Trotsky era um fascista. Se alguém mais fizesse o mesmo, não hesitaríamos em aplicar-lhe esse termo. 

    Desde o "Discurso Secreto" de Nikita Khrushchev no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética em 25 de fevereiro de 1956, alegações de crimes contra Joseph Stalin sem nenhumas provas dominaram a historiografia académica. 

    Comecei a descobrir isto há quase 50 anos, quando decidi verificar as acusações contra Stalin no famoso livro de Robert Conquest, O Grande Terror – As Purgas de Stalin dos Anos Trinta. Em meados da década de 1970, fui muitas vezes à Biblioteca Pública de Nova York, onde verifiquei todas as notas de rodapé no livro de Conquest. Descobri que Conquest não tinha nenhuma prova para apoiar as acusações que ele fez contra Stalin. Conquest apenas citou outros livros que faziam as mesmas acusações. 

    Em 1999, Vladimir L. Bobrov, um historiador a trabalhar em Moscovo, entrou em contacto comigo sobre um artigo meu na minha página da web. De Vladimir aprendi que, desde o fim da União Soviética, muitos documentos estavam a ser libertados de arquivos soviéticos anteriormente fechados. Com a ajuda dele, comecei a localizá-los, a obtê-los e a estudá-los. Logo percebi que  incluíam provas de fontes primárias que refutavam muitas acusações contra Stalin. 

    Em 2005-2007, investiguei e escrevi Khrushchev Lied [Khrushchev mentiu] . Nele eu mostro que todas as acusações de crimes que Khrushchev fez naquele "Discurso Secreto" contra Stalin e Lavrentii Beria são falsos. Muito bem traduzido em russo por Vladimir, Khrushchev Lied foi publicado em Moscovo em dezembro 2007 e em inglês em fevereiro de 2011. 

    Desde então, escrevi mais de uma dúzia de livros em que examino as acusações contra Stalin à luz das provas das fontes primárias de antigos arquivos soviéticos. Em mais de 20 anos de estudo ainda me falta identificar uma única acusação de um crime de Stalin que possa ser apoiada por provas! 

    Continuam a ser publicados documentos de antigos arquivos soviéticos. Um exemplo recente é uma carta de I.N. Smirnov  para a sua filha Olga, após o recurso de Smirnov da sentença de morte proferida contra ele  num julgamento em agosto de 1936. Smirnov era o líder da clandestinidade trotskista na União Soviética. Ele ainda é considerado um "mártir" pelos trotskistas e anticomunistas. 

    Smirnov escreveu à filha o seguinte: 

    Na minha última palavra, eu disse isto a todos os trotskistas vacilantes. Nós devemos desarmar-nos de forma decisiva e rápida ... Tenham em mente que os homens da Gestapo que estiveram no julgamento não eram testas-de-ferro, mas reais, fascistas inteligentes. Quer Trotsky queira ou não, as suas linhas entrelaçam-se com a Gestapo. 

    Aqui Smirnov diz à filha que ele não foi "incriminado" por Stalin e que o movimento de Trotsky estava ligado à Gestapo nazi – algo que todos os anticomunistas e, claro, todos os trotskistas – sempre negaram. 

    Começamos a Conspiração de Trotsky na Comintern  estudando a afirmação do filho de Osip Pyatnitsky, Vladimir, de que o seu pai era "incriminado" por Stalin por se opor a ele. Demonstramos, com provas, que isso é completamente falso. Pyatnitsky não foi incriminado. Ele era culpado - tão culpado como o próprio Trotsky! 

    Nos dois primeiros capítulos, examinamos criticamente o relato do destino de Pyatnitsky pelo historiador Boris Starkov. Provamos que é totalmente fraudulento. Isto é significativo porque o relato de Starkov foi publicado em 1994 em Estudos Europa-Ásia, o principal jornal de história soviética no mundo. Este prestigioso jornal deveria ter visto que o artigo de Starkov era uma fraude. Mas eles estavam cegos pelo seu preconceito anti-Stalin ou viram e publicaram-no à mesma. 

    Estudamos a conspiração na Comintern, na qual Pyatnitsky desempenhou um papel de liderança dentro da União Soviética em conluio com Leon Trotsky, que chefiou a conspiração do exílio. Os conspiradores planearam assassinatos de líderes soviéticos, sabotagem da economia soviética, uma revolta contra o governo em caso de invasão por um poder fascista, desvio da Comintern de fundos para Trotsky e colaboração e espionagem para a Alemanha nazi. 

    Examinamos as provas dos arquivos de investigação do NKVD1 de vários líderes da Comintern, incluindo Bela Kun, Lajos Magyar, Wilhelm Knorin, Heinz Neumann, Nikolai Bukharin e o próprio Pyatnitsky. Os capítulos finais traduzem e examinam a acusação, o julgamento, a sentença de morte e a falsa"reabilitação" de Pyatnitsky pelos homens de Khrushchev. 

    O nosso livro termina com uma tradução para o inglês de todas as declarações de confissão de Pyatnitsky. 

    * * * * * 

    As nossas provas são baseadas em documentos meticulosamente copiados por Vladimir do arquivo anteriormente secreto do NKVD em Moscovo. 

    * Essas provas refutam a alegação de que Osip Pyatnitsky desafiou Stalin no Plenário do Comité Central de junho de 1937. 

    * Denunciamos como fraudulenta a "reabilitação" de Pyatnitsky na era Khrushchev, um dos muitos relatórios de "reabilitação" sobre pessoas condenadas durante a década de 1930. Essas condenações ainda são rotineiramente consideradas como resultado da paranoia ou brutalidade de Stalin. Mostramos que é completamente falso. 

    * Refutamos a alegação - praticamente unânime entre historiadores – de que o partido soviético, ou seja, Stalin, "controlava" a Comintern. 

    * Discutimos algumas das volumosas provas de que Leon Trotsky e seus seguidores clandestinos dentro da União Soviética colaboraram com os nazis, sabotaram a economia e conspiraram para assassinar líderes soviéticos. 

    * * * * * 

    No seu livro de referência de 1999 sobre o Partido Bolchevique durante a década de 1930, Arch Getty e Oleg V. Naumov escreveram: 

    ... ali, aparentemente havia pouca diferença entre os pensamentos privados dos líderes estalinistas e as suas posições públicas. Parece que eles realmente acreditavam na existência de uma conspiração vinda de fora. (455) 

    Em 1999, era quase inédito para um estudioso do campo da história soviética afirmar que Stalin, longe de "incriminar" pessoas inocentes , acreditava sinceramente que as conspirações eram genuínas. 

    Mas Getty não deu o passo lógico seguinte. Ele não perguntou:  Quais são as provas da alegada conspiração? Existe alguma prova de que era fictícia, uma invenção talvez de Nikolai Yezhov e dos seus lacaios no NKVD? Ou há provas de que a conspiração era genuína e que os condenados por participar dela eram culpados? 

    Uma dúzia de anos depois, V.N. Khaustov, outro historiador anticomunista "mainstream" do período de Stalin, concluiu que Stalin acreditou nos relatórios que o NKVD lhe enviou.   

    O mais assustador é que Stalin tomou as suas decisões na base de confissões que foram o resultado das invenções de certos funcionários dos órgãos de segurança do Estado. A reação de Stalin [a esses confissões] é testemunho de que ele tomou essas confissões completamente a sério. 

    Tal como Getty e Naumov, Khaustov conclui que Stalin acreditou nas informações sobre as conspirações que lhe foram dadas por Yezhov, chefe (Comissário) do NKVD. Todos concordam que Stalin não "incriminou" ninguém. Mas Khaustov também não estava disposto a admitir nem mesmo a possibilidade de que essa conspiração fosse real. 

    Porquê? Porque aceitar a possibilidade de que as conspirações fossem genuínas desmantelariam a historiografia sobre o período estalinista que foi construída desde Khrushchev e, de facto, desde os escritos de Trotsky da década de 1930. Isso minaria a falsa representação de Stalin como um ditador assassino que matou milhares de comunistas leais. Isso contradiria o trabalho de gerações de historiadores que abraçaram a versão da história de Khrushchev / Gorbachev / Trotsky   sobre Stalin e a história soviética. 

    O paradigma anti-Stalin 

    Chamei esse fenómeno "paradigma anti-Stalin " No estudo profissional da história soviética, há uma regra não escrita de que Stalin deve ser considerado culpado de muitos assassinatos e outros crimes. 

    Além disso, uma vez que Stalin foi acusado de um crime, é considerado de mau gosto, se não mesmo um "tabu", investigar as provas e concluir que Stalin era de facto inocente. A culpa de Stalin é assumida de antemão, apesar da falta de provas. 

    Qualquer historiador que se atreva a concluir que na realidade existiam conspirações com as quais Stalin e a liderança soviética estavam a lidar, ameaças mortais genuínas ao Estado soviético, simplesmente não serão divulgadas em publicações históricas convencionais ou por editores academicamente respeitáveis. E que o historiador perderia o emprego, porque a publicação é essencial para a propriedade intelectual e a divulgação. 

    A verdade - óbvia para qualquer um que estude as fontes primárias num espírito de objetividade - é que essas graves conspirações foram reais. Há uma enorme quantidade de provas de antigos arquivos soviéticos para provar isso. Estudámos e analisámos muitas dessas provas em livros anteriores. 

    Osip Pyatnitsky e a Conspiração na Comintern 

    Em 1955, Pyatnitsky foi declarado "reabilitado" e considerado vítima de uma maquinação de Stalin. Logo depois, a conspiração trotskista de direita dentro da Comintern foi declarada como invenção. Desde então, todos os condenados em todos os três julgamentos públicos de Moscovo foram "reabilitados". 

    No  nosso livro, examinamos o  relatório de "reabilitação" de Pyatnitsky de 1955 e sobre o próprio conceito de "reabilitação". Notamos que todas as "reabilitações" de pessoas da era Khrushchev e Gorbachev condenadas por participação em conspirações antissoviéticas - todas, isto é, aquelas a que temos acesso hoje - são fraudulentas. Nenhuma delas contém qualquer prova de que a pessoa condenada era de facto inocente. 

    Apresentamos o texto de alguns dos relatórios enviados para Stalin que incluem a referência a Pyatnitsky . Tal como Getty / Naumov e Khaustov concordam, Stalin aceitou esses relatórios como genuínos. Stalin acreditava que estava a tomar medidas decisivas contra conspirações antissoviéticas que de facto representavam uma séria ameaça à segurança da URSS. As provas disponíveis para nós, hoje, provam que Stalin estava correto. 

    Confissões como prova 

    Muitas pessoas, incluindo historiadores que deveriam saber melhor, assumem que as confissões são duvidosas ou mesmo inválidas como prova porque elas podem ter sido obtidas por violência ou ameaças contra o prisioneiro ou os seus familiares. Essas pessoas descartam as provas contidas nas confissões. O raciocínio deles é mais ou menos assim: 

    Como muitas vezes não há provas "materiais" – por exemplo, documentos onde os conspiradores descrevem a sua conspiração, talvez até mesmo com  a caligrafia dos conspiradores, encontradas nas suas casas, contendo as suas assinaturas, etc. – isso significa que não há provas contra o acusado exceto para confissões do acusado ou acusações nas confissões de outros prisioneiros. Mas as confissões podem ser falsificadas, e nós sabemos que muitas foram falsificados pelo NKVD. Consequentemente, o acusado deve ser considerado inocente e o julgamento uma farsa. 

    De facto, os anticomunistas frequentemente usam a palavra "farsa" para rejeitar, por exemplo, os três julgamentos de Moscovo de 1936, 1937 e 1938. Aqueles que usam a palavra "farsa" evidentemente não sabem que estão a admitir, talvez inconscientemente, que não têm provas de que o julgamentos eram invenções. Eles apenas assumem que eram. 

    Esse raciocínio é, obviamente, defeituoso. Todas as provas - documentos, objetos materiais, como livros e fotografias, testemunhos de qualquer tipo - podem ser falsificadas. É pelo menos tão difícil - talvez até mais difícil - convencer revolucionários experientes a confessar falsamente do que fabricar documentos, completos, com caligrafia e assinaturas falsificadas, ou criar  fotografias falsas. Qualquer estado moderno, tanto na década de 1930 como hoje, possui os meios técnicos para criar qualquer tipo de prova falsa que só possa ser denunciada como falsa - se for o caso - apenas através de exames destrutivos, que nunca são autorizados. 

    As confissões não estão mais ou menos sujeitas a falsificação do que qualquer outro tipo de prova. O que o historiador deve fazer no caso de confissões, como acontece com qualquer tipo de prova, é estudá-lo cuidadosamente e compará-las com as outras provas existentes, a fim de procurar semelhanças e diferenças, contradições e consistências. 

    O ministério público soviético forneceu provas "materiais" no Segundo e Terceiro Julgamentos de Moscovo. Mas anticomunistas e trotskistas ignoram-nas simplesmente. Eles sabem que muito poucas pessoas lerão as 600 e 800 páginas das transcrições desses julgamentos e descobrir que, sim, de facto houve "provas materiais" contra os réus 

    Então, como podemos saber se um réu foi falsamente condenado? A resposta é: precisamos de localizar e estudar a PROVA que o ministério público soviético teve no julgamento do réu. 

    Obtivemos e estudámos muitos relatórios de "reabilitação" da era Khrushchev e    Gorbachev. Nunca encontrámos um único que tivesse fornecido provas. No entanto, eles são tomados como "prova de inocência" pelos anticomunistas e pelos trotskistas. 

    Quando se trata de provas históricas, não existe algo como "credibilidade". Todas as provas devem ser submetidas a dúvidas e cuidadosamente estudadas. 

    A necessidade de objetividade e a sua ausência 

    Toda a gente tem preconceitos. Mas todo a gente pode aprender a ser objetivo no estudo de qualquer assunto, seja física ou história. As técnicas são basicamente semelhantes. 

    A objetividade como método científico é uma prática de "desconfiança de si mesmo".   Aprende-se a ser objetivo treinando-nos para estarmos alerta para nós mesmos, articular e, em seguida, questionar os nossos próprios preconceitos. Devemos  suspeitar reflexivamente de provas que tendem a confirmar as nossas próprias ideias preconcebidas, preconceitos e preferências. Devemos aprender a fazer um leitura especialmente generosa de quaisquer provas e argumentos que contradigam as nossas próprias ideias preconcebidas. 

    Isso é simplesmente saber o que qualquer detetive burguês faz em cada história policial. Como disse Sherlock Holmes, em "A study in scarlet": 

    É um erro  capital teorizar antes de ter todos as provas. Isso distorce o julgamento. 

    Resumindo: obtenha-se os factos antes de formular as suas hipóteses. Esteja-se pronto para abandonar uma hipótese que não explique os factos estabelecidos. Especialmente se essa hipótese estiver de acordo com um ideia preconcebida da nossa autoria! 

    Se não começarmos a nossa investigação com uma tentativa muito determinada de sermos objetivos, acompanhada de estratégias definidas para minimizar os nossos próprios preconceitos, então não podemos e não vamos descobrir a verdade. Para colocar a questão sem rodeios: se não começarmos a procurar a verdade, não tropeçaremos nela por acaso e o que  encontrarmos não será a verdade. 

    Este princípio é bem conhecido. Portanto, o real objetivo da maioria das investigações sobre a história soviética não é descobrir o verdade. Em vez disso, é preferir "falsidades convenientes" a "factos desconfortáveis" – chegar a conclusões politicamente aceitáveis e ignorar as provas quando essa prova não alinha com essas conclusões politicamente aceitáveis. 

    Porque é que essa falácia lógica é tão comum na história  Soviética do período de Stalin? Acredito que isso se deva ao poder do "paradigma anti-Stalin". Stalin foi tão difamado, por tantos "especialistas" e por tanto tempo, que muitas pessoas acreditam "onde há fumo, há fogo" - "deve haver alguma coisa com isto." 

    Isto está tudo errado. Não há substituto para a prova. Nos nossos livros, examinamos as provas e tiramos conclusões apenas das provas. Esta é a única maneira racionalmente defensável de proceder em história como em qualquer outro campo de investigação científica.

    Em

    Pelo socialismo

    https://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/a-conspiracao-de-trotsky-na-comintern-333157#cutid1

    2/12/2024

    domingo, 1 de dezembro de 2024

    Definição de socialismo

     


    Prabhat Patnaik [*]

    'O vale de lágrimas', Gustave Doré, 1883.

    Ao ouvir uma petição, em 22 de novembro, para retirar o termo “socialismo” do Preâmbulo da Constituição indiana, o Presidente do Supremo Tribunal da Índia (Chief Justice of India, CIJ) fez duas observações importantes:   em primeiro lugar, o termo “socialismo” no Preâmbulo da Constituição não é utilizado num sentido doutrinário, mas refere-se antes a um Estado social que assegura a igualdade de oportunidades a todos os cidadãos; e, em segundo lugar, o “socialismo”, neste sentido, faz parte da estrutura básica da Constituição; não é apenas um aditamento ao Preâmbulo, mas sim algo que permeia a própria essência do que queremos que seja a república indiana.

    O TJI absteve-se de atribuir ao “socialismo” um carácter institucional. Em todo o mundo, o termo “socialismo” tem sido entendido como a propriedade social dos meios de produção, pelo menos dos principais meios de produção; mas o TJI, ao definir o “socialismo” em termos de resultados e não da instituição da propriedade, sugeriu que a empresa privada não era incompatível com o “socialismo”; o que realmente importava era a criação de um Estado social que garantisse a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos.

    A definição institucional de socialismo, em termos de propriedade dos meios de produção, é utilizada de forma generalizada porque a propriedade social é considerada uma condição necessária para garantir um Estado social com igualdade de oportunidades. No entanto, o TJI sugeriu que este resultado poderia ser obtido mesmo sem a instituição da propriedade social. É certo que o socialismo não se preocupa apenas com a criação de um Estado-providência com igualdade de oportunidades; o seu objetivo é mais abrangente, nomeadamente criar uma nova comunidade, transcendendo o estado de fragmentação em indivíduos atomizados que o capitalismo traz a uma sociedade. Mas a nova comunidade também deve ser caracterizada por um Estado social com igualdade de oportunidades; a questão é saber se esse Estado social com igualdade de oportunidades pode ser alcançado mesmo sem a propriedade social dos meios de produção.

    Acreditamos que não; mas não vamos, para além de citar alguns exemplos óbvios de contradição entre a empresa privada e a igualdade de oportunidades, entrar aqui neste debate. Em vez disso, gostaríamos de instar o Supremo Tribunal a aderir ao compromisso do CJI com a igualdade de oportunidades e a examinar como deve ser uma sociedade caracterizada pela igualdade de oportunidades. Isto torna-se importante porque ninguém pode argumentar que a atual sociedade indiana, com a sua crescente concentração de riqueza, por um lado, e com o aumento do desemprego e da pobreza nutricional, por outro, está a evoluir no sentido de garantir a igualdade de oportunidades; mas então surge a questão:   quais são os marcadores dessa evolução para a igualdade de oportunidades?

    É evidente que não pode haver igualdade de oportunidades num mundo onde existe desemprego, ou aquilo a que Marx chamou um exército de reserva de mão-de-obra. Os rendimentos dos desempregados são muito inferiores aos dos empregados, mesmo que os primeiros recebam um subsídio de desemprego; os filhos dos desempregados sofreriam, portanto, privações de vária ordem que tornariam impossível a igualdade de oportunidades entre eles e os filhos dos outros.

    Para além da desigualdade económica decorrente do desemprego, há ainda o estigma do desemprego, a perda de autoestima do desempregado, que necessariamente provoca uma infância traumatizada para os filhos dos desempregados. Este trauma só pode ser eliminado, o que é indispensável para a igualdade de oportunidades, se o próprio desemprego for eliminado.

    Uma forma de superar a privação económica resultante do desemprego seria fazer com que os desempregados ganhassem o mesmo salário que os empregados, ou seja, fazer com que o subsídio de desemprego fosse igual ao salário; mas isso não é possível numa economia com empresas privadas. A existência do desemprego funciona como um dispositivo disciplinador dos trabalhadores, não apenas no capitalismo, mas em qualquer economia em que exista um sector privado significativo; por isso, o facto de os desempregados ganharem o mesmo salário que os empregados, ou, por outras palavras, de o subsídio de desemprego ser igual ao salário, seria inaceitável numa economia desse tipo, pois eliminaria esse dispositivo disciplinador. O “despedimento” perderia toda a sua força punitiva, como aconteceria também em caso de pleno emprego efetivo.

    A primeira contradição entre a igualdade de oportunidades, por um lado, e a iniciativa privada, por outro, surge, portanto, na questão do desemprego. Mas, quer o TJI concorde ou não, deve reconhecer, pelo menos, que a existência de desemprego constitui um obstáculo à igualdade de oportunidades.

    O segundo requisito óbvio da igualdade de oportunidades é a eliminação total, ou pelo menos uma redução muito substancial, da possibilidade de herdar riqueza. Não se pode dizer que o filho de um multimilionário e o filho de um trabalhador tenham igualdade de oportunidades se o primeiro herdar os milhares de milhões do pai. De facto, mesmo a economia burguesa, que atribui os lucros dos capitalistas e, portanto, a riqueza, ao facto de terem alguma qualidade especial que os outros não têm, não pode defender a herança, porque vai contra este mesmo argumento da “riqueza devido a alguma qualidade especial”. É por isso que a maior parte dos países capitalistas tributam fortemente as heranças, sendo a taxa no Japão de 55% e noutros países importantes de cerca de 40%. Na Índia, surpreendentemente, não há impostos sobre as heranças, o que é contrário à igualdade de oportunidades.

    O terceiro requisito da igualdade de oportunidades é que, para além de a herança ser proibida, as próprias diferenças de riqueza devem ser minimizadas. A riqueza traz poder, incluindo o poder político e social, e não se pode dizer que uma sociedade onde o poder é distribuído de forma desigual ofereça igualdade de oportunidades a todos. Por conseguinte, para além do facto de não se dever permitir que a riqueza seja transmitida aos filhos, há que evitar os efeitos da riqueza sob a forma de proporcionar uma vantagem indevida aos filhos durante a vida dos pais, pelo que as diferenças de riqueza devem ser minimizadas. O mesmo se aplica às diferenças de rendimento, que também devem ser minimizadas se se quiser garantir a igualdade de oportunidades.

    O quarto requisito óbvio é que a desigualdade económica não deve afetar a qualificação educacional ou o nível de aquisição de competências da descendência. Isto exige, por sua vez, que o acesso à educação e à aquisição de competências seja igual para todos, através de um sistema de ensino público que proporcione uma formação da mais elevada qualidade, gratuita ou a um preço extremamente baixo, acessível a todos. Longe da privatização que tem vindo a ocorrer na esfera da educação no nosso país e noutros lugares sob o neoliberalismo, que ridiculariza a igualdade de oportunidades ao excluir do seu âmbito um grande número de estudantes, deveria haver uma universalização da educação pública de alta qualidade e totalmente acessível. De facto, mesmo quando existe esse sistema de ensino público, enquanto existirem instituições privadas dispendiosas, pode haver um falso prestígio associado a elas que subverte a igualdade de oportunidades ao favorecer o recrutamento nessas instituições; isto tem de ser contrariado garantindo que as instituições privadas, se existirem, não cobram propinas mais elevadas do que as públicas. Em suma, só podem ser instituições de caridade.

    O quinto requisito diz respeito aos cuidados de saúde, onde se aplicam exatamente as mesmas considerações. A prestação de cuidados de saúde universais de elevada qualidade, através de um Serviço Nacional de Saúde sob a égide do governo, que seja totalmente gratuito ou exija um preço nominal acessível a todos, é uma condição essencial para a igualdade de oportunidades.

    Estes são alguns requisitos absolutamente óbvios, mas mínimos, para garantir a igualdade de oportunidades. O facto de a social-democracia do pós-guerra, que criou um Estado-providência nos países capitalistas avançados e utilizou a gestão keynesiana da procura para manter o desemprego num nível mínimo (cerca de 2% na Grã-Bretanha no início da década de 1960), não ter conseguido alcançar uma verdadeira igualdade de oportunidades, nem ter podido provar ser uma conquista duradoura (entrou em colapso devido à crise inflacionista do final da década de 1960 e início da década de 1970), é significativo:   mostra a impossibilidade de alcançar a igualdade de oportunidades numa sociedade que continua a estar dividida segundo linhas de classe.

    A crise inflacionista que consumiu o Estado-Providência foi o resultado da elevada taxa de emprego e também da perda do controlo total sobre os produtores de produtos primários em terras distantes, que tinha sido proporcionado anteriormente à metrópole durante o colonialismo; estes desenvolvimentos intensificaram o conflito de classes e a inflação foi o resultado. Só numa sociedade onde os antagonismos de classe não existam, porque os meios de produção são propriedade social, é que pode haver uma verdadeira igualdade de oportunidades.

    Mas não vamos discutir sobre esta questão. Que o Supremo Tribunal continue empenhado na criação de um Estado-providência com igualdade de oportunidades. Quaisquer passos nessa direção, ainda que aquém do socialismo, devem ser bem-vindos a todos os socialistas.

    01/Dezembro/2024

    [*] Economista, indiano, ver Wikipedia

    O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2024/1201_pd/defining-socialism

    Em

    RESISTIR.INFO

    https://resistir.info/patnaik/patnaik_01dez24.html

    1/12/2024