domingo, 15 de junho de 2025

“Dilma foi derrubada pelos donos do PIB"

 

Leonardo Loureiro Nunes

Economista afirma que um dos principais objetivos do golpe de 2016 foi elevar as margens de lucro de setores cartelizados da economia


Redação Brasil 247 avatar
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247 – Em entrevista ao jornalista Leonardo Attuch na TV 247, o economista e administrador Leonardo Loureiro Nunes apresentou os principais argumentos de seu recém-lançado livro Dilma contra os donos do PIB (Editora Contracorrente, com prefácio de Luiz Gonzaga Belluzzo), que investiga o papel dos grandes grupos econômicos no golpe parlamentar que resultou no impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016.

Nunes sustenta que a ruptura institucional não se deu por colapso econômico, mas sim pela insatisfação da elite empresarial com políticas públicas que reduziram suas margens de lucro. "Houve uma queda generalizada da taxa de lucro da economia, e é isso que explica a rejeição ao governo Dilma", afirmou. Segundo ele, Dilma foi “derrubada pelos donos do PIB” — os setores oligopolizados da economia que, ao verem seus lucros comprimidos, se aliaram para romper a institucionalidade democrática.A tese central: lucros sob ataque

De acordo com o autor, a explicação para o impeachment deve ser buscada menos nas narrativas de crise ou corrupção, e mais na perda de rentabilidade de setores estratégicos da economia. “O que causou a insatisfação foi a queda nas taxas de lucro. Dilma tentou controlar preços estratégicos — como energia, combustíveis, juros e tarifas de concessões — e isso desagradou profundamente os grandes grupos econômicos”, explica.

Nunes argumenta que esses grupos, que ele chama de “donos do PIB”, não se confundem com a base industrial tradicional representada por federações como a Fiesp. São conglomerados atuando em setores como energia, logística, mineração e bancos, com forte interpenetração entre capital produtivo, rentista e internacional. “Hoje não há mais distinção entre capital nacional e internacional. Tudo está entrelaçado.”

Políticas que desagradam o topo

Entre as iniciativas que teriam despertado a ira do mercado financeiro, Nunes lista:

  • MP do Setor Elétrico, que visava baixar os preços da energia renovando concessões amortizadas com tarifas menores. “Muitos fundos de investimento têm posição em empresas de energia. Isso afetou diretamente sua rentabilidade.”
  • Redução dos spreads bancários, por meio do Banco do Brasil e da Caixa, pressionando a margem de lucro do setor financeiro.
  • Política de modicidade tarifária em concessões de infraestrutura, como no PIL (Programa de Investimento em Logística), estabelecendo que vencia o leilão quem oferecesse a menor tarifa.
  • Controle nos preços dos combustíveis e desonerações fiscais, que foram capturadas pelas empresas sem se traduzirem em aumento de investimento ou produção.

Todas essas medidas, segundo o economista, foram tentativas de elevar a competitividade da indústria brasileira, mas acabaram minando o apoio da elite empresarial.

Um projeto burguês sem a burguesia

Para Nunes, há um equívoco histórico recorrente na esquerda brasileira: a crença na existência de uma burguesia nacional desenvolvimentista. “Sou cético em relação à existência de uma burguesia nacional. O Brasil é um país periférico e essa classe empresarial olha apenas para seus interesses imediatos”, afirmou. “O PT tentou fazer um projeto reformista burguês à revelia da burguesia.”

Essa crítica remete à tradição de intelectuais como Florestan Fernandes e Celso Furtado, que analisaram a formação das classes médias e das elites brasileiras como profundamente conservadoras e avessas à mobilidade social ascendente das classes populares.

A classe média e o ressentimento social

Nunes também oferece uma explicação sociológica para o papel da classe média no processo de desestabilização do governo Dilma. “A classe média baixa foi uma das grandes bases do bolsonarismo. O andar de baixo subiu, e ela ficou estagnada. As pessoas são comparativas. E isso gerou ressentimento”, disse. “Programas sociais como o Bolsa Família criaram incômodos em setores que não se viam contemplados por políticas específicas.”

Essa frustração, combinada com o discurso anticorrupção promovido pela mídia e pelo Judiciário, criou um terreno fértil para manifestações e adesão a um projeto autoritário de ruptura institucional.

O legado do golpe e o desafio de Lula

Segundo o autor, o governo de Michel Temer — que sucedeu Dilma após o impeachment — recompôs as taxas de lucro da elite empresarial com medidas regressivas, como a reforma trabalhista, previdenciária e privatizações. “Mesmo com uma economia menos dinâmica, o governo Temer ampliou as margens de lucro.”

Já o presidente Lula, no terceiro mandato, enfrenta restrições herdadas desse processo. “Muito do que foi feito no pós-Dilma foi bem amarrado e impõe limites. A política de preços da Petrobras, por exemplo, engessou a capacidade do governo de atuar”, aponta.

Além disso, Nunes lembra que o Brasil de hoje é outro: polarizado, com instituições abaladas e sob a constante ameaça da extrema direita. “Não dá para esperar os mesmos índices de aprovação de 2010. O governo tenta normalizar a democracia após uma tentativa de golpe de Estado.”

Socialismo na periferia: limites e dilemas

Ao ser questionado sobre uma eventual ruptura socialista, Nunes expressou ceticismo quanto à viabilidade de experiências radicais nos países periféricos. “Não acredito em soluções de ruptura pela periferia do capitalismo. O centro — EUA e Europa — é que teria condições de promover mudanças estruturais.”

Para ele, o desafio da esquerda é formular respostas concretas aos problemas do trabalho, da renda e da desigualdade, sem cair nas armadilhas retóricas da extrema direita, que aponta inimigos fictícios (como imigrantes ou programas sociais), enquanto protege o capital.

Uma obra fundamental

Dilma contra os donos do PIB é resultado de uma tese de doutorado defendida na Universidade Paris 1 – Panthéon-Sorbonne. O livro reúne entrevistas com nomes como Nelson Barbosa, Esther Dweck, Arno Augustin, Luciano Coutinho e outros formuladores da política econômica dos governos do PT. Nunes também ouviu empresários e dirigentes da Fiesp, alguns sob anonimato, que revelaram perplexidade com as consequências políticas do golpe de 2016.

A obra é um marco na análise econômica e política do impeachment, conectando os interesses do topo da pirâmide econômica com a erosão da democracia brasileira. Como disse o próprio autor: “O vice-presidente transformou o impeachment numa eleição indireta para presidente. Se isso não é golpe, não sei o que é.”

Disponível pela Editora Contracorrente, o livro se impõe como leitura essencial para compreender o passado recente e os desafios presentes da democracia no Brasil

Em

BRASIL 247

https://www.brasil247.com/entrevistas/dilma-foi-derrubada-pelos-donos-do-pib-diz-leonardo-loureiro-nunes

13/6/2025 

sexta-feira, 13 de junho de 2025

O Código do Capital: a arquitetura invisível da dominação algorítmica global

  por Reynaldo Aragon

Artigo revela como o capitalismo do século XXI se esconde por trás de interfaces suaves — e como planeja dominar o futuro sem que se perceba.

O Código do Capital: a arquitetura invisível da dominação algorítmica global

por Reynaldo Aragon

Por trás do discurso da inovação e das promessas da inteligência artificial, um pequeno grupo de gestoras financeiras decide silenciosamente o destino das plataformas, dos algoritmos, da política e da própria democracia. Este artigo revela como o capitalismo do século XXI se esconde por trás de interfaces suaves — e como ele planeja dominar o futuro sem que você perceba.

A política das sombras.

No centro do debate contemporâneo sobre o poder das plataformas digitais, os holofotes se voltam quase sempre para nomes como Elon Musk, Mark Zuckerberg ou Sundar Pichai. Mas o que permanece nas sombras — e justamente por isso mais poderoso — é a arquitetura invisível que os sustenta. A pergunta que deveria guiar qualquer análise séria sobre o presente não é apenas quem comanda as Big Techs?, mas sim: quem financia, dirige e condiciona estruturalmente o que elas podem ou não fazer?

As respostas conduzem a um núcleo silencioso, transnacional, discreto e tecnicamente preciso: as grandes gestoras de ativos financeiros. Empresas como BlackRock, Vanguard, State Street, Fidelity e Amundi não apenas detêm participações significativas nas maiores plataformas tecnológicas do planeta. Elas impõem diretrizes, definem limites e orientam o desenvolvimento técnico, cultural e político de uma nova ordem mundial gerida por algoritmos e guiada por interesses financeiros.

Essa elite atua por meio do que Peter Phillips chamou de “Titãs do Capital”: um grupo de 117 diretores executivos que controlam mais de 50 trilhões de dólares em ativos globais, distribuídos em todos os setores estratégicos da economia, do armamento à vigilância digital, da indústria petrolífera à infraestrutura de inteligência artificial. Eles são, no sentido mais concreto da palavra, os donos do mundo. Mas não ocupam palácios nem cargos de governo. Preferem as salas de conselho, os comitês de auditoria, os fóruns técnicos internacionais e os canais silenciosos do lobbying financeiro.

Este artigo parte de uma premissa simples e radical: o atual estágio do capitalismo não é apenas uma fase avançada da financeirização, mas uma mutação estrutural do poder global. Trata-se de um tecnocapitalismo algorítmico, no qual os códigos que regem o comportamento das plataformas são subordinados à lógica dos ativos financeiros, e não à ética pública, ao interesse coletivo ou à soberania dos povos. O algoritmo, neste novo regime, não é apenas uma ferramenta: é um operador político a serviço do capital.

A seguir, desvendaremos como as gestoras de ativos se infiltraram no núcleo estratégico das Big Techs e como moldam, desde a base, os rumos do mundo digital. Vamos demonstrar como operam na técnica, na política, na cultura e na ideologia. E, por fim, defenderemos que qualquer projeto progressista do século XXI precisa enfrentar esse poder difuso, opaco e quase invisível, sob pena de lutar contra um inimigo que já modulou até os termos da resistência.

Quem são os “Titãs do Capital”?

Por trás da fachada pública das grandes corporações digitais, existe uma camada subterrânea de poder cuja existência ainda é ignorada pela maioria da população, e muitas vezes, até por analistas experientes. Peter Phillips, no livro Titans of Capital, nomeia esse poder: 117 executivos de elite que comandam as 10 maiores empresas de gestão de ativos do planeta. Eles são o centro da engrenagem do capitalismo global contemporâneo, os curadores invisíveis do presente e arquitetos do futuro.

Essas gestoras (BlackRock, Vanguard, State Street, Fidelity, JPMorgan, Capital Group, UBS, Amundi, Allianz e PIMCO) operam como concentradoras de capital pulverizado, reunindo bilhões de dólares de fundos de pensão, governos, bancos, fundos soberanos e indivíduos, e canalizando esses recursos para os setores que definem os rumos da humanidade. Elas não produzem chips, não desenvolvem redes sociais, não criam ferramentas de IA. Mas decidem quem fará isso, como fará e sob quais condições.

Juntas, essas dez entidades controlam mais de US$ 50 trilhões em ativos, o equivalente a quase metade do PIB mundial. Isso lhes confere o poder de decidir o destino de empresas inteiras, de vetar fusões, forçar mudanças em conselhos, reorientar investimentos e bloquear iniciativas que ameacem sua rentabilidade. O controle não é exercido por decreto, mas por “governança corporativa”: o voto por procuração em assembleias, a imposição de diretrizes ESG adaptadas ao capital, a pressão por maximização de dividendos, a seleção de executivos alinhados aos interesses dos fundos.

O mais impressionante é a conexão cruzada entre esses executivos. Eles se sentam simultaneamente em conselhos de grandes corporações, bancos, universidades, think tanks e instituições estatais, formando uma rede global de influência silenciosa e extremamente eficaz. Estão no Council on Foreign Relations, no Fórum Econômico Mundial, no Trilateral Commission, nos comitês de política monetária e nos bastidores da regulamentação internacional. São o “Estado-maior” do capital, não eleitos por ninguém, mas com poder para fazer ou desfazer governos inteiros, como se viu no colapso da Grécia, no impeachment de Dilma Rousseff ou nas políticas fiscais da América Latina nos anos 2000 e 2010.

Importa compreender que essas gestoras não são neutras nem passivas. Elas agem, deliberadamente, para preservar uma ordem de acumulação baseada na financeirização, na desregulação dos fluxos de capital e na naturalização de um mundo governado por algoritmos e plataformas corporativas. A cada voto emitido em nome de milhares de acionistas pulverizados, reforçam sua legitimidade técnica enquanto perpetuam a subordinação estrutural dos povos ao rentismo global. Esses são os Titãs do Capital. Não precisam dar entrevistas nem vencer eleições. Eles já venceram quando ninguém percebeu que eles existiam.

A captura das Big Techs pelas gestoras.

Se o século XX foi marcado por guerras geopolíticas travadas entre Estados-nação, o século XXI assiste à consolidação de outro tipo de guerra silenciosa, invisível e profundamente eficaz: a captura privada das infraestruturas digitais que organizam a vida social, econômica, política e afetiva do planeta. No centro desse processo estão as gestoras de ativos que, longe de serem meras investidoras, se tornaram operadoras centrais do novo regime de governança algorítmica global.

A dinâmica é simples e brutal: as gestoras adquirem participações acionárias significativas nas maiores empresas de tecnologia do planeta, Google (Alphabet), Microsoft, Apple, Amazon, Meta, Nvidia, Oracle, Palantir, entre outras. Não se trata de pequenas fatias especulativas. Em 2024, por exemplo, a BlackRock era o maior ou segundo maior acionista das cinco maiores Big Techs do mundo. Juntas, BlackRock, Vanguard e State Street controlavam cerca de 20% a 30% das ações em circulação das empresas do S&P 500, o que lhes conferia poder efetivo de veto, influência estratégica em conselhos e capacidade de definir prioridades internas.

Isso significa que, ainda que Mark Zuckerberg ou Elon Musk sejam as faces públicas de suas plataformas, as decisões centrais sobre algoritmos, moderação de conteúdo, inovação tecnológica e investimentos em inteligência artificial passam, em última instância, pelo crivo dessas gestoras. São elas que decidem se a IA da Microsoft deve priorizar aplicações civis ou militares, se a Meta deve continuar investindo em realidades imersivas, ou se a Alphabet deve seguir adquirindo startups de biotecnologia e automação da linguagem.

Um exemplo ilustrativo é o da aliança estratégica entre a Microsoft e a OpenAI, cujo financiamento inicial e reestruturações foram aprovados com o beneplácito dos fundos institucionais que participam do board corporativo da Microsoft, entre eles, Vanguard e BlackRock. As decisões sobre o rumo da IA generativa, os modelos de linguagem como o ChatGPT, a forma como eles são treinados, auditados (ou não) e implementados, estão subordinadas ao cálculo de retorno sobre investimento definido por essas entidades.

A captura vai além da posse acionária. As gestoras exercem governança ativa, o que significa que:

  • participam das assembleias com poder de voto relevante;
  • pressionam publicamente por mudanças de estratégia quando os lucros estão em risco;
  • impõem critérios de compliance “aceitáveis ao mercado”, mesmo quando isso entra em choque com valores éticos ou direitos fundamentais.

Elas se posicionam inclusive em temas sensíveis como moderação de discurso de ódio, políticas de desinformação, contratos com agências de defesa e uso de dados pessoais. Sua lógica não é a da transparência democrática ou do interesse público — mas sim a da maximização de valor para os acionistas institucionais. Assim, a infraestrutura algorítmica da sociedade passa a ser moldada não pela cidadania, mas pela engenharia financeira.

As Big Techs, nesse contexto, são mais do que empresas: são plataformas-operadoras de um projeto de dominação técnica, cognitiva e econômica, cujo back-end de comando está em Nova York, Londres e Frankfurt, não em Brasília, Buenos Aires ou Johannesburgo.

A governança da vida digital, portanto, não é um produto do Estado de Direito. É uma extensão da vontade do capital sob forma algorítmica, cujo núcleo decisório atende pelo nome de “asset under management”.

O lobby das gestoras contra a regulação.

Se as grandes gestoras de ativos já ocupam os conselhos de administração das maiores empresas de tecnologia do mundo, é no plano da política pública que elas revelam sua estratégia mais refinada: impedir que qualquer forma de regulação democrática ameace seus interesses estruturais. O lobby não é feito apenas por CEOs de Big Techs ou por associações empresariais do setor digital. Ele é articulado por uma elite financeira global que atua nos bastidores da política institucional, moldando marcos legais, vetando legislações e promovendo um arcabouço normativo funcional ao capital.

Na União Europeia, por exemplo, a tramitação da Digital Markets Act (DMA) e da AI Act foi alvo de intensa pressão por parte de fundos de investimento e conglomerados financeiros. A Associação de Mercados Financeiros da Europa (AFME), financiada por bancos e gestoras, atuou diretamente para suavizar os termos da legislação que buscava limitar o monopólio algorítmico das plataformas. Na prática, as gestoras financiam tanto as Big Techs quanto os lobistas que operam para manter as plataformas sob seu domínio irrestrito.

Nos Estados Unidos, o cenário é ainda mais grave. A SEC (Securities and Exchange Commission), agência reguladora do mercado financeiro, vem sendo constantemente pressionada por representantes de Wall Street, entre eles, BlackRock e Vanguard, para bloquear qualquer medida que exija transparência nos algoritmos de IA utilizados em decisões de crédito, vigilância, ou moderação de conteúdo. Ao mesmo tempo, as mesmas empresas apoiam iniciativas como o Center for AI and Digital Policy, cujo discurso aparente é ético, mas cuja agenda prática é garantir um modelo de autorregulação centrado no interesse das corporações.

Na América Latina, esse processo assume formas ainda mais brutais. As gestoras atuam em consórcios de consultoria e advocacia, pressionando parlamentos e governos para flexibilizar leis de proteção de dados, impedir a criação de instâncias públicas de auditoria algorítmica e influenciar os termos dos projetos de lei sobre regulação de IA, como vem ocorrendo no Brasil. O caso mais visível foi a reação coordenada contra o PL das Fake News, que tentava responsabilizar plataformas por conteúdos nocivos e impulsionamentos ilegais. A campanha contra o PL foi financiada indiretamente por redes de fundações e escritórios com vínculos diretos com fundos de investimento e plataformas digitais.

O modelo de autorregulação que essas gestoras defendem não passa de um eufemismo técnico para a blindagem da sua autoridade privada sobre a arquitetura digital global. Seu discurso é higienizado com palavras como “inovação”, “liberdade de expressão”, “livre mercado” e “eficiência técnica”, mas sua prática é de sabotagem ativa de qualquer tentativa de colocar a IA e os algoritmos sob controle público e democrático.

Essa lógica não opera apenas na política institucional. Ela invade universidades, laboratórios de pesquisa, editorias de jornalismo, redes de think tanks e consultorias estratégicas. Com isso, as gestoras não apenas dominam o capital e a tecnologia — dominam também o discurso sobre o que é aceitável pensar, propor ou implementar. Trata-se de um regime de hegemonia tecnocapitalista, onde o futuro é desenhado por cálculos de rentabilidade, e não por projetos de justiça social, redistribuição ou sustentabilidade real.

Enquanto isso, estados são rebaixados a entes regulados, e as democracias, ao invés de controlar o capital, passam a ser controladas por ele — com o verniz da inovação e a aura da inevitabilidade tecnológica como escudo ideológico.

A nova arquitetura da dominação: técnica, política, cultura e ideologia.

A hegemonia das gestoras de ativos sobre as plataformas digitais não é apenas uma questão de governança empresarial. Ela representa uma mutação estrutural na forma como o poder opera no século XXI. Trata-se da consolidação de uma arquitetura de dominação sistêmica, que atravessa a técnica, a política, a cultura e a ideologia. Não estamos apenas diante de uma disputa por mercados, mas da instauração de um regime de comando algorítmico-financeiro global, onde a dominação se exerce de forma difusa, automatizada e profundamente naturalizada.

Técnica: a codificação do capital

A técnica, outrora campo da emancipação humana e do progresso coletivo, tornou-se instrumento de rentabilização automatizada do mundo. Os algoritmos que organizam os fluxos de informação, consumo, interação e desejo são construídos sob parâmetros definidos pelas gestoras: eficiência, escalabilidade, vigilância preditiva e retorno de investimento. Cada linha de código é, nesse contexto, uma expressão cifrada da lógica do capital.

O que deveria ser infraestrutura pública — como os sistemas de IA, os grandes modelos de linguagem, os buscadores, as redes sociais — tornou-se propriedade privada submetida à lógica dos ativos financeiros. A técnica, hoje, não é neutra nem autônoma. Ela é curada, modelada e distribuída sob os critérios impostos por gestores financeiros que sequer compreendem sua complexidade tecnológica, mas sabem perfeitamente onde ela deve chegar: no lucro trimestral e na manutenção da ordem global vigente.

Política: o rebaixamento do Estado.

A consequência inevitável dessa captura técnica é o rebaixamento do Estado a um agente regulado, e não mais regulador. O poder público, limitado por amarras fiscais, dívidas impagáveis e chantagens de investidores, é progressivamente excluído das decisões sobre o futuro digital de seus próprios cidadãos. Projetos de IA pública, de plataformas soberanas, de educação algorítmica crítica — todos naufragam sob o peso da “responsabilidade fiscal” e do “realismo de mercado”.

As decisões que afetam diretamente a democracia — como o que é permitido circular nas redes, o que será impulsionado, o que será ocultado — passam a ser tomadas por conselhos privados, alinhados com os interesses dos grandes fundos. O poder político, nesse modelo, é substituído por um governamentalismo corporativo descentralizado, onde o algoritmo se torna norma e o compliance se torna Constituição.

  • Cultura: a modulação da subjetividade.

No plano da cultura, a dominação não se dá pela repressão, mas pela modulação de afetos, desejos e percepções. As plataformas, sob controle dos fundos, operam como máquinas de curadoria da experiência. Elas organizam o que vemos, como vemos, o que sentimos, com quem nos conectamos, o que lemos, quem ouvimos. As estruturas algorítmicas, formatadas para gerar engajamento e lucro, precarizam o tempo, colonizam a atenção e capturam a linguagem.

O resultado é uma cultura marcada pela ansiedade, pelo imediatismo, pela dopamina da recompensa digital, pela tribalização afetiva e pelo isolamento cognitivo. A nova ideologia não precisa convencer — ela basta. O algoritmo faz o trabalho ideológico sem precisar apelar à coerência. Ele oferece conforto, confirmação e pertencimento, enquanto reforça narrativas compatíveis com os valores do mercado.

  • Ideologia: o escudo moral da financeirização.

Para sustentar essa nova ordem, o sistema constrói um vocabulário de verniz moral: ESG, inovação, empreendedorismo, liberdade de expressão, transformação digital. São expressões que operam como significantes vazios, preenchidos conforme a necessidade do capital. A financeirização se disfarça de modernidade; a captura se apresenta como parceria público-privada; a dominação aparece como liberdade.

A tecnocracia do capital financeiro não se impõe pela violência direta, mas pela naturalização de sua inevitabilidade. Não há alternativas — apenas soluções “técnicas”. A política é substituída pela gestão. A democracia vira uma questão de design institucional. A dominação não precisa mais se justificar: ela se automatiza, se oculta no código, se dissolve na interface.

Com isso, estabelecemos que estamos diante de um novo tipo de poder — não apenas mais concentrado, mas mais opaco, mais inteligente, mais aderente à vida cotidiana. Um poder que atua no nível da infraestrutura, do código, da norma e do afeto. Um poder que não domina apenas corpos e territórios, mas mentes e futuros.

Sociedade 4.0 como campo de experimentação e alienação.

O mundo sob domínio das gestoras de ativos e das Big Techs não é apenas um sistema eficiente de administração de lucros. Ele é, sobretudo, um laboratório global de experimentação sobre a vida humana, onde o social é convertido em dado, o comportamento em métrica, o desejo em padrão previsível — e o sujeito, em consumidor perpétuo. A chamada Sociedade 4.0, que muitos celebram como a era da disrupção tecnológica, é, na prática, o campo de teste do tecnocapitalismo financeiro em sua forma mais avançada.

  • A subjetividade como infraestrutura explorável.

Nas redes sociais, em apps de entrega, em plataformas de streaming, no metaverso e nos modelos de IA generativa, a vida cotidiana é transformada em fluxo contínuo de dados. Tudo é registrado, analisado, interpretado e reconfigurado para retroalimentar os sistemas que, por sua vez, nos modulam de volta. Trata-se de uma alienação de novo tipo: não mais aquela em que o trabalhador se separa do produto de seu trabalho, como no século XIX, mas aquela em que o sujeito se separa de si mesmo — e se vê apenas como estatística, perfil ou KPI.

O trabalhador da economia de plataforma não apenas vende sua força de trabalho. Ele vende sua disponibilidade constante, sua atenção, sua localização, seu tempo morto, sua linguagem e sua imagem. O usuário, por sua vez, ao aceitar os termos de uso, consente com a extração daquilo que tem de mais íntimo: padrões de pensamento, ritmo de sono, preferências inconscientes, conexões emocionais. A subjetividade se torna infraestrutura explorável, e a alienação se torna natural, divertida e interativa.

  • O capitalismo como sistema de captura cognitiva.

Não se trata apenas de controle — trata-se de captura cognitiva e emocional em tempo real. As ferramentas de recomendação, personalização, ranqueamento e predição reorganizam o que podemos pensar, desejar e imaginar. Essa captura não é violenta, mas sedutora. Não é imposta, mas consentida. E não depende mais de ideologia tradicional: ela opera por design, por arquitetura informacional, por UX/UI, por gamificação da vida.

Como resultado, o mundo aparece aos sujeitos não como estrutura histórica, mas como interface — fluida, responsiva, moldável. A crítica se torna ruído, e o conflito se torna bug. A política é substituída por engajamento. O debate vira polêmica. O dissenso vira dissonância cognitiva. A forma social do capitalismo digital é a forma do like.

  • O experimento invisível: corpos, algoritmos e controle.

O que está em curso é um experimento civilizacional conduzido por conglomerados privados, com chancela das gestoras. Não há consentimento informado, nem garantias democráticas. O campo de testes somos nós. Cada scroll, cada clique, cada hesitação é contabilizada. Cada emoção, monitorada. Cada comportamento, modelado.

Em países do Sul Global — como o Brasil — essa experimentação adquire contornos ainda mais perversos. Plataformas são testadas em contextos de desigualdade estrutural, racismo algorítmico, ausência de regulação e hiperprecarização do trabalho. O que se naturaliza aqui vira padrão global amanhã. Somos a zona cinzenta da inovação, o corpo-território da dominação inteligente.

A financeirização das plataformas, nesse cenário, não é apenas um problema econômico. É uma questão de soberania ontológica. O que está em disputa é o que somos, o que podemos ser, o que nos constitui como humanos num mundo de dados, metas e interfaces.

No laboratório do capital algorítmico, a alienação não é a exceção — é o método. A dominação não é percebida — é incorporada. E a resistência, para ser possível, precisará começar com a reconquista da consciência sobre o que está sendo feito conosco, sem que saibamos, enquanto clicamos, deslizamos e reagimos.

A crítica como ato de soberania.

Diante de um sistema tão sofisticado de dominação — onde o poder financeiro captura a técnica, governa a política, modula a cultura e silencia a ideologia — resta perguntar: como resistir a algo que já pensa por nós, que já fala por nós, que já sonha por nós? A resposta, ainda que árdua, começa com o que Antonio Gramsci chamou de “pessimismo da razão e otimismo da vontade”: é preciso recuperar a crítica como ferramenta de soberania.

A crítica aqui não é um exercício acadêmico ou retórico. Ela é um ato radical de desnaturalização, de desmontagem do discurso técnico que se vende como neutro, do algoritmo que se apresenta como inevitável, da inovação que se mascara como destino. Como ensinou Lukács, a alienação só se desfaz quando o sujeito se reconhece como sujeito histórico, capaz de compreender a totalidade das relações que o constituem.

E nesse esforço, é indispensável politizar a técnica. A IA não é neutra. A arquitetura de uma plataforma não é neutra. Os filtros, os sistemas de recomendação, os parâmetros de moderação, os contratos de trabalho, as APIs, os datasets — tudo é político. Cada decisão técnica carrega uma disputa de classe, uma correlação de forças, uma concepção de mundo.

Por isso, propor uma regulação das plataformas e da IA que seja apenas “ética” ou “responsável” não basta. Precisamos de um projeto político de soberania digital, baseado em:

  • transparência radical dos algoritmos e das cadeias de comando corporativas;
  • auditoria pública, com participação cidadã e supervisão acadêmica;
  • plataformas públicas interoperáveis, sem fins lucrativos;
  • ruptura com a financeirização das infraestruturas informacionais;
  • leis antitruste e tributação real dos conglomerados tecnológicos e fundos de investimento;
  • investimento massivo em educação crítica, ciência pública e infraestrutura estatal de dados e inteligência.

Trata-se, portanto, de recuperar o poder político sobre o que hoje é comandado pelo capital financeiro sem rosto. De reverter o atual quadro onde a democracia é apenas uma casca institucional, enquanto a realidade é governada por interfaces controladas por quem jamais foi eleito — os mesmos que, como bem lembrou Peter Phillips, sentam-se nos conselhos da Amazon, da Raytheon e do Fórum Econômico Mundial ao mesmo tempo.

Romper com a hegemonia das gestoras de ativos sobre a técnica, a linguagem e o desejo não é um detalhe — é a condição para qualquer projeto emancipatório no século XXI.

Não haverá justiça social se não houver justiça algorítmica. Não haverá democracia se os códigos que nos governam forem escritos por e para a rentabilidade dos fundos. Essa crítica é, pois, um ato inaugural de insubmissão. É ela que abre o caminho para a reconstrução do comum. É ela que desafia a crença na inevitabilidade tecnológica. É ela que nos devolve o direito de hesitar — e, com isso, o direito de lutar.

Conclusão – Desmascarar os donos do algoritmo.

Vivemos sob o domínio de um poder sem rosto, que não envia tanques às ruas nem censura jornais, mas comanda o mundo por meio de planilhas, algoritmos, decisões de concelho e relatórios trimestrais. Este poder não veste farda nem ocupa tribunas — ele veste terno, fala em nome da racionalidade dos mercados e opera por trás dos códigos que definem o que é possível ver, dizer, sentir e pensar. Seu nome, muitas vezes ignorado, é gestora de ativos.

Enquanto nos distraímos com os delírios messiânicos de bilionários digitais ou com as batalhas teatrais da política institucional, as gestoras como BlackRock, Vanguard, State Street e seus pares constroem, silenciosamente, as fundações do que será o mundo nos próximos cinquenta anos. E o fazem a partir de um projeto de dominação técnica, política e afetiva que, para além de explorar, busca reorganizar o próprio tecido da realidade em nome da acumulação de capital.

Desmascarar esse poder é o primeiro passo para enfrentá-lo. É preciso nomear os donos do algoritmo, os engenheiros da alienação, os gestores da desigualdade digital. É preciso romper com a fantasia de neutralidade técnica e com a farsa da autorregulação, e reconhecer que a disputa pelo futuro é, antes de tudo, uma disputa pelo comando da técnica e pela soberania do comum.

Num mundo onde a política é hackeada por modelos de linguagem, onde a cultura é modulada por métricas de engajamento, e onde o trabalho é precarizado por plataformas que respondem a fundos de investimento, a resistência começa com a recusa em aceitar o algoritmo como destino.

A democracia que se quer viva no século XXI terá que enfrentar não apenas o autoritarismo tradicional, mas o totalitarismo financeiro codificado, o domínio das infraestruturas por agentes invisíveis, a colonialidade do dado, a engenharia do comportamento e a naturalização da alienação. A tarefa é imensa — mas não há emancipação possível que não a enfrente.

Porque no fim, a liberdade não será um produto da inteligência artificial. Será sempre o resultado da consciência crítica organizada contra a dominação. E para que essa consciência se torne prática histórica, o primeiro passo é esse: revelar quem são, onde estão e como operam os verdadeiros donos do mundo digital.

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

Em

JORNAL GGN

 https://jornalggn.com.br/politica/o-codigo-do-capital-a-arquitetura-invisivel-da-dominacao-algoritmica-global-por-reynaldo-aragon/

13/6/2025 

 

quinta-feira, 12 de junho de 2025

CEE/UE. Um país que não produz não tem futuro

 

Nos 40 anos da assinatura do tratado de adesão à então Comunidade Económica Europeia (CEE), republicamos um artigo onde se mostra que o ataque à produção nacional foi transversal a praticamente todos os sectores de actividade, servindo as privatizações como motor deste devir.

A Revolução dos Cravos dava ainda os primeiros passos quando Mário Soares apresentou o pedido de adesão à CEE, decorria o ano de 1977. A iniciativa, peça-chave do processo contra-revolucionário, apresentava-se cheia de virtuosismos, mas o rumo que a opção pela integração na CEE impôs a Portugal não só travou o caminho de progresso e equidade social que o 25 de Abril perspectivou, como aprofundou e acelerou o processo de recuperação capitalista.

Um rumo de alienação da soberania materializado pela entrega do sector produtivo e outros estratégicos ao capital monopolista, primeiro para o nacional e por seu intermédio para o internacional, a troco de fundos (uma «pipa de massa», diria Durão Barroso) que nunca serão capazes de compensar a perda dos recursos nacionais. Recebemos dinheiro para parar as máquinas e manter terrenos aptos para o cultivo sem poder lançar semente à terra.

Mas para que a ideologia da CEE/UE entrasse nas mentes dos portugueses delineou-se uma campanha semântica onde não faltaram promessas de progresso, de modernidade, de coesão e de maior justiça social. Portugal passaria a integrar o «pelotão da frente», prometeram-nos.

O local escolhido para a assinatura do tratado de adesão foi um dos elementos dessa campanha orquestrada a partir da mensagem de que os portugueses iriam viver num país mais livre e mais igual. Isso mesmo evidenciou Mário Soares na cerimónia realizada no Mosteiro dos Jerónimos, evocativo dos Descobrimentos. Deste período grande da história nacional, decorre, no entanto, uma mensagem que em nada coincide com o futuro desastroso que resultou da famigerada assinatura, em 1986. Isso mesmo porque, e como bem alertou então o economista e comunista Carlos Carvalhas, não foi Portugal que entrou na CEE, foi a CEE que entrou em Portugal com os monopólios.

Com a adesão, Portugal – o «bom aluno» de Jacques Delors –, tornou-se mais dependente do exterior, as condições de vida e de trabalho agravaram-se, os trabalhadores perderam direitos, uma boa parte do emprego foi destruída, aumentaram as disparidades sociais e as assimetrias regionais, enquanto o serviço público foi alvo de um acelerado processo de degradação.

Produzimos abaixo das nossas necessidades

O ataque à produção nacional foi transversal a praticamente todos os sectores de actividade, servindo as privatizações como motor deste devir. Começando pelo sector financeiro, passando à agricultura, às pescas, à siderurgia, ao comércio, aos transportes e aos seguros, entre outros, invariavelmente encontramos os efeitos da pilhagem dos nossos recursos.

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) referentes às importações de bens e serviços, entre 1995 e 2014, designadamente produtos da agricultura, silvicultura e pesca, minérios, produtos alimentares ou têxteis, entre outros, comprovam-no. Neste intervalo de tempo, o valor das importações portuguesas aumentou 38 milhões e 410 mil euros. Desta forma, o saldo da balança comercial apresenta défices incomportáveis, com grande parte dos 10 mil milhões anuais (ver gráfico) a serem justificados pelo sector primário e secundário.

Por outro lado, Portugal passou a produzir menos riqueza comparativamente ao período da entrada da moeda única. Entre 2001 e 2011, a produção industrial teve uma redução acumulada de 16%, estando os valores de 2011 ao nível de 1994.

Contrariamente à mensagem que suportou a campanha de adesão à comunidade económica, Portugal – obrigado a produzir menos e a comprar mais ao exterior – não só não chegou ao tal pelotão da frente como recuou vários anos, tendo chegado a uma crise sem precedentes.

Crise económica e social onde a lenga-lenga de que «vivemos acima das nossas possibilidades» foi sendo veiculada por uma boa parte dos governantes. Uma afirmação muitas vezes repetida com o objectivo de escamotear a realidade: produzimos abaixo das nossas necessidades. A continuar assim, os pratos da balança jamais ficarão equilibrados, com a agravante de muito poucos ficarem com boa parte da riqueza.

Privatizações: o primeiro impulso para o empobrecimento nacional

A privatização de sectores estratégicos como a energia, os transportes ou as telecomunicações, não só contribui para a descapitalização do País – com a agravante de as empresas serem vendidas a preço de saldo –, como limita a soberania nacional e degrada o serviço público que Abril criou.

Alguns sectores e empresas absorvidos por concessões estrangeiras ou que foram privatizados a 100%: 

Comunicações –  CTT

Cimenteiras – Cimpor

Energia – EDP, REN

Explosivos industriais –  SPEL

Ferroviário – Sorefame

Indústria química – Quimigal

Indústria naval – Lisnave

Minas – Mina de Neves-Corvo, Mina da Panasqueira

Petroquímica – antiga Companhia Nacional de Petroquímica

Siderurgia – SN Maia e SN Seixal

Telecomunicações – Portugal Telecom

Transportes – ANA

Vidro – Covina, Companhia Vidreira Nacional (hoje St. Gobain Glass Portugal)

O Estado é o primeiro a perder

Com a privatização das empresas públicas ou de capitais públicos, todas elas lucrativas, o Estado fica sem uma boa parte dos dividendos correspondentes à sua participação no capital das empresas entretanto alienadas. Isto porque, apesar de não haver uma imposição legal no período prévio às privatizações, as empresas públicas tinham a prática de entregar ao Estado cerca de 60% dos seus lucros.

Entre 1989 e 1996, o Estado perdeu 2248 milhões de euros em dividendos. Um dado que contraria a ideia de «benefício» sempre associada às privatizações, como demonstrou mais recentemente o Tribunal de Contas (TC) a propósito dos «processos de reprivatização do sector eléctrico», ocorridos entre 2011 e 2013, por imposição da troika.

Numa auditoria realizada pelo TC, cujos resultados foram divulgados em Junho de 2015, concluiu-se que os dividendos anuais da EDP e da REN podiam dar mais dinheiro ao Estado português do que a privatização das empresas levada a cabo pelo governo de Passos e de Portas. Segundo contas feitas pelos juízes, a participação de 21% na EDP vendida por 2,2 mil milhões de euros rendeu ao Estado, em 2012, 144 milhões de euros em dividendos. Porém, o valor estimado de perda para o Estado é de cerca de 1,6 mil milhões de euros, tendo em conta os custos da dívida pública e depois de avaliado o potencial de rendimento – uma «renda perpétua», de cerca de 3,8 mil milhões de euros.

A conclusão no caso da REN é semelhante e a perda de valor para o Estado ronda os 400 milhões de euros.

PAC: A política das multinacionais

A Política Agrícola Comum (PAC) foi o instrumento encontrado pelo grupo dos seis países que assinaram o Tratado de Roma para mais facilmente promoverem o mercado único europeu. A PAC passou a regular toda a actividade agrícola na UE, substituindo-se às políticas de cada Estado-membro.

«Livre comércio», «segurança alimentar» e «bem-estar animal» fazem parte do léxico da política agrícola comum mas o que na prática observamos distancia-se destes pressupostos. Voltada para o fomento do grande agronegócio e da intensificação da agricultura, a política agrícola da UE viola a soberania alimentar dos estados e esmaga a agricultura familiar.

150 000

Número de explorações agrícolas que desapareceram desde a entrada no euro

Gradualmente assistimos a uma subserviência e limitação da capacidade de intervenção no mercado por parte de cada estado, com prejuízos para estes e em favor dos grandes interesses económicos, a par da destruição do aparelho produtivo. Recordemos o sector do leite em Portugal que, desde que se iniciou o processo de desmantelamento das quotas leiteiras, já viu desaparecer milhares de explorações. Segundo dados do INE, entre 1999 e 2009, o país perdeu 25% das explorações agrícolas e 110 mil agricultores.

A produção agrícola nacional regista uma evolução positiva até 1991. Desde então, assistimos à estagnação do crescimento quer em valor, quer em volume.

A agricultura desempenha um papel cada vez mais residual na economia do País, passando de 11% em 1980 para 1,6% no final da década de 2000.

A PAC introduz os subsídios ou ajudas ao rendimento que não serviram, porém, para compensar a baixa de preços na produção e aumentar o rendimento da actividade agrícola.

Criados com o propósito de compensar os agricultores face às consequências do mercado aberto, em Portugal estes apoios não são distribuídos de forma equitativa. Na realidade, pouco mais de 300 beneficiários recebem mais do que 120 000 agricultores juntos. Por outro lado, a modernização do sector não tem tido reflexo na melhoria dos rendimentos da agricultura familiar, apesar das vantagens que este modelo aporta, designadamente a produção sustentada de alimentos de qualidade, a preservação do ambiente e a fixação das populações.

Política Comum de Pescas

O sector das pescas tem sido fustigado pela política implementada ao longo das últimas décadas, com a Política Comum de Pescas (PCP) a desempenhar um papel central na destruição deste sector, quando Portugal é o país da UE com maior zona económica exclusiva.

Desta forma, a diminuição da população empregada no sector, aliada à redução da frota, empurram o país para uma situação em que, não só não exportamos, como temos de importar parte do peixe que consumimos.

As medidas que se introduziram na PCP, nomeadamente depois da revisão de 2012, desprezam a dimensão deste sector, na sua vertente ambiental, mas também económica, laboral e social, estando subordinadas a uma lógica pura e dura, em que é o «mercado» a determinar o seu funcionamento e, entre outros aspectos, a definir a frota a abater.

Desprezam ainda as especificidades que existem entre os diferentes países, procurando reduzir tudo a uma questão mercantil, com direitos transferíveis que tornam os recursos pesqueiros públicos, em objecto de negócio para os privados. Assim, também nas pescas, a afirmação de uma política soberana é parte indissociável da defesa do futuro dos trabalhadores e de garantia de desenvolvimento do País.

A desindustrialização que se agrava com a crise

Com a entrada de Portugal na CEE/UE, a liberalização da circulação dos capitais e do comércio internacional, a que se junta o domínio cada vez mais forte dos grandes grupos económicos e financeiros transnacionais, a desindustrialização tornou-se um cenário incontornável.

Perderam-se algumas das mais relevantes e características marcas que alavancavam o desenvolvimento do País e geravam emprego. A Lisnave (Estaleiro da Margueira, em Cacilhas), a Sorefame, a Cometna, a Equimetal e a Empordef são alguns exemplos do empobrecimento do nosso perfil produtivo.

Para que se inverta esta situação de perda de soberania e destruição do tecido produtivo e social, urge estabelecer um comércio internacional cooperativo regulamentado onde, contrariamente ao modelo actual, não haja um domínio das multinacionais e dos seus lucros.

Cabe a Portugal recuperar as alavancas que perdeu com a integração na CEE/UE, designadamente as políticas aduaneira, cambial, orçamental e monetária, e voltar a controlar sectores estratégicos da economia, instrumentos determinantes para o desenvolvimento do País e factor indispensável para o cumprimento do preceito constitucional de subordinação do poder económico ao poder político.