sábado, 14 de junho de 2014

Cooperativas en unas catacumbas, un ejemplo contra la mafia en Nápoles


Agencia EFE

Un barrio deprimido, un patrimonio histórico …Nápoles, 14 jun (EFE).- Un barrio deprimido,
un patrimonio histórico ignorado y unas catacumbas semiabandonadas se han
convertido en una nueva atracción de Nápoles, gracias a un grupo de jóvenes cuya
acción se presenta como una alternativa a la mafia.
Este grupo de jóvenes culminará su proyecto el próximo mes de septiembre con la
creación de la Fundación San Jenaro.
Del desempleo al cooperativismo, de la elección entre mafia o emigración a la
autogestión y la creación de puestos de trabajo, esta es la obra de un grupo de
jóvenes del barrio napolitano de Sanidad, que se encargan hoy de gestionar las
imponentes catacumbas de San Jenaro y de San Gaudioso, semicerradas hasta su
llegada.
"Antes, las catacumbas eran gestionadas, o no gestionadas, por el ayuntamiento
de Nápoles. Cada año, llegaba el político de turno y las inauguraba, las abrían
un mes y luego las volvían a cerrar", explicó a Efe, Enzo Porcio, guía y socio
de la cooperativa "La Paranza", actual gestora.
Este joven, de 28 años, y su grupo de amigos, todos desempleados, se solían
reunir por las tardes alrededor de la Basílica de Santa María de la Sanidad,
"una de las más bellas de Nápoles" hasta que un buen día decidieron pasar a la
acción.
"Decidimos que ya habíamos tenido bastante. Se habían invertido 1.200.000 euros
en abrir ese mes las catacumbas para cerrarlas otra vez. No entendíamos cómo
podíamos estar desperdiciando este increíble patrimonio y a nosotros mismos",
argumentó.
Por ello, con la ayuda del párroco, decidieron presentar un proyecto para
recuperar y relanzar las catacumbas.
"El objetivo era crear empleo a través de la valorización del patrimonio
histórico-artístico. Hasta entonces Sanidad era sólo conocido por la crónica
negra, teniendo cosas tan bellas", recordó.
Pero no sólo actuaron para impulsar las catacumbas, sino todo el patrimonio del
distrito, incluyendo el famoso Cementerio de las Fontanelle, que ocuparon para
exigir su total apertura.
"Fue el 26 de mayo de 2010, éramos un centenar, dormimos allí dos noches e
hicimos visitas guiadas durante cuatro meses. Hoy, permanece abierto", rememoró
orgulloso.
A partir de la primera cooperativa, "La Paranza", que hoy cuenta con 20 socios y
se encarga de las visitas guiadas a las catacumbas, se fueron formando otros
entes auxiliares: para las estructuras de acceso, la electricidad, el
mantenimiento...Hasta conformar en la actualidad un total de once cooperativas y
asociaciones.
"Hemos dado un ejemplo concreto de desarrollo, cuyos ingredientes son: la
inversión en el patrimonio, los jóvenes y la ayuda de los fondos privados. Y
hemos demostrado que da resultado", aseguró.
De hecho, según sus datos, las catacumbas cuentan con unos 40.000 visitantes al
año y en este periodo de 2014 estos se incrementaron un 20 por ciento con
respecto al del año anterior.
"Estudiamos cada día cómo mejorar para ayudar al desarrollo del barrio y al
empleo y formación de más jóvenes. En nuestra pequeña historia nos hemos
encontrado con tantas buenas personas que creen en nuestro sueño", relató
satisfecho.
Un sueño que se concretará y afianzará con el proyecto hecho realidad de la
Fundación San Jenaro, que se presentará el próximo 19 de septiembre y que
gestionará los fondos para las catacumbas.
"Parece que a los periodistas sólo les gusta las historias trágicas pero debemos
contar otras historias que son bonitas, limpiar la imagen de la ciudad y mostrar
la belleza de Nápoles", manifestó.
Las catacumbas de San Jenaro, de dos pisos, y San Gaudioso, a la que se accede a
través de la basílica de Santa María de la Sanidad, conservan una particular
arquitectura paleocristiana, frescos bizantinos y restos óseos de épocas más
recientes.
El distrito de Sanidad, a pesar de su ingente patrimonio histórico, es uno de
los más deprimidos de Nápoles, con un alto nivel de desempleo, y ha sido
señalado como uno de los semilleros históricos de la camorra napolitana.

IN:
https://es.finance.yahoo.com/noticias/cooperativas-catacumbas-mafia-n%C3%A1poles-101630188.html
15/6/2014

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Venezuela: para que haja paz, poder ao povo


Fernando Vicente Prieto (*)


Há um ano, diferentes ações impulsionadas por amplos setores do povo e
acompanhadas por Maduro vêm a confirmar o rumo estratégico assumido pela
Revolução Bolivariana. No marco de uma conjuntura complexa – caracterizada pela
intenção golpista da ultradireita –, milhões de pessoas se propõem a continuar o
legado de Chávez, em um momento chave para a América Latina e o Caribe. É Comuna
ou nada.

Não apenas a Venezuela está pendente quanto às circunstâncias enfrentadas
abertamente pelos dois projetos em disputa: o de construção do socialismo
bolivariano, baseado na democracia participativa e incentivadora do
protagonismo; ou o de restauração de um capitalismo completamente subordinado às
transnacionais, que implica ao mesmo tempo a volta ao poder dos setores
dominantes durante o Pacto de Punto Fijo. E o resultado desse jogo terá impacto
em todo o continente.

Um triunfo do chavismo empurrará com mais força a integração entre os povos. Os
Estados Unidos, pelo contrário, tentam garantir as maiores reservas de petróleo
do mundo, mas terminam com o mal exemplo para um povo que se organiza e percebe
que há crescentes cotas de poder político na sociedade. Paradoxalmente, esse é
um dos elementos mais desconhecidos fora do país, embora leve maior radicalidade
ao processo venezuelano.

Um ouvido junto ao povo, para entender o processo

Acostumados a olhar exclusivamente para cima, a direita ou esquerda fazem
análises da situação na Venezuela em que o grande ausente é o protagonista,
aquele que “cresce nas dificuldades”, como mostra a história recente do país –
ao menos desde o contragolpe popular em abril de 2002.

Apesar desse menosprezo internacional, é aí que está a causa da resistência
prolongada diante de uma ofensiva que inclui ataques de todo tipo, desde o uso
de franco atiradores como “apoio” a manifestantes identificados com a etiqueta
de estudantes pacíficos – que, no entanto, assassinam pessoas com arames e
incendiam ônibus e universidades – até a agressiva diplomacia do Departamento de
Estado. Tudo suficientemente coberto pelas matrizes dos meios hegemônicos,
capazes de penetrar em escala planetária na maioria das consciências, inclusive
na de pessoas que acreditam estar informadas porque leem as capas dos grandes
jornais. Nesse contexto, não é por acaso que a construção das Comunas não entre
“na agenda”, que condiciona o que pode ser dito sobre a Revolução Bolivariana.

Por isso, o tema tampouco é assumido por meios progressistas ou de esquerda, que
na maioria dos casos reduzem o processo revolucionário ao que ocorre no nível do
governo, sem observar a profundidade de algumas propostas que envolvem o Estado,
mas em interação dialética com as organizações de base.

Esse processo funde suas raízes no programa de governo vigente (o Plano da
Pátria 2013-2019) e no Golpe de Timão de Chávez, que estabelece a necessidade de
avançar em direção ao Estado comunal, com o objetivo de superar o Estado liberal
burguês.

Nos últimos doze meses, mais de 630 comunas foram registradas pelo Estado em
transição. Muitas outras se encontram em construção, com o horizonte de
consolidar 3 mil nos próximos seis anos. Essa nova forma jurídico-política traz
a teimosa aspiração do povo de avançar para o autogoverno vinculado com
organismos do governo central, e não poucas vezes com indiferença – ou com surda
oposição – em relação aos níveis médios, governos ou prefeituras, inclusive as
chavistas.

Dessa forma, em meio às “guarimbas”, que tanta atenção da mídia conseguiram em
nível internacional, distintos acontecimentos indicam que, desde baixo, cresce o
poder popular. Por isso, esse é um dado inevitável para compreender o que está
acontecendo. E também para projetar a serventia de os povos que a heterodoxa
experiência bolivariana continuarem resistindo.

Organizar-se para ser livres

Em março, enquanto o governo impulsionada Conferências de Paz com distintos
setores, cerca de 300 delegadas e delegados das comunas se reuniram em Las
Casitas, estado de Zulia, para debater um plano de ação a fim de aprofundar a
organização popular.

Dois meses depois, em 17 de maio, cerca de 20 mil pessoas encheram o Poliedro de
Caracas para se encontrar com o ministro das Comunas, Reinaldo iturriza, e com o
presidente Nicolás Maduro. Ali apresentaram os acordos de Las Casitas, que
incluíram propostas sobre temas políticos, econômicos e comunicacionais quanto à
paz e a convivência.

A jornada levou o nome de “Comunas produtivas para a ofensiva econômica, pela
paz e pela vida” e insistiu no aporte que a organização comunal pode fazer para
a superação do modelo rentista petroleiro. Um modelo caracterizado por importar
a maioria dos bens básicos – entre eles, os alimentos – e, portanto, débil
diante da guerra econômica. É a arma mais importante dos setores interessados em
derrubar o governo.

Os moradores e moradoras das comunas destacaram o trabalho realizado pelo
ministro Iturriza e se propuseram a “avançar o encadeamento produtivo mediante a
construção de redes sócio-produtivas a partir da unidade nacional das comunas”.

Também pediram a Maduro para que continue apostando nas comunas e celebraram a
resistência diante dos protestos violentos, que são inexistentes nos bairros
populares. “Esse povo das comunas se faz respeitar com organização, ética e
alegria”, disseram, para falar da ofensiva midiática contra a Revolução
Bolivariana. “As empresas privadas de comunicação se encarregaram de
potencializar uma matriz alheia à nossa realidade (…) Meios de comunicação:
venham a nossas comunidades e digam a verdade”.

Seguindo Chávez, lembraram que “para que haja paz, deve-se dar poder ao povo.
Nem nessa Pátria nem em uma outra haverá paz se o sistema capitalista se
mantiver”.

Potencializar a unidade comunal

Além da anunciar a transferência de recursos para a economia comunitária, Maduro
aumentou a aposta e propôs criar um Conselho de Governo Comunal que agrupe os
organismos de autogoverno em nível nacional e tenha interlocução direta com a
Presidência.

“Vocês me fazem propostas, eu as articulo com as políticas e me fazem chegar as
críticas das falhas que o Governo Bolivariano tem. Viva a crítica popular!
Aprendamos a nos alimentar da crítica. Não tenhamos medo da verdade, esse é o
método de Hugo Chávez”, disse o presidente entre muitos aplausos.

Entre este mês que se inicia – e que se anuncia como se suma importância diante
de outros cenários de estabilização –, novos encontros serão realizados. Um
deles será “A festa dos saberes comunais”, que está sendo desenvolvida por estes
dias em Caracas para promover intercâmbios e mostrar o conhecimento presente na
organização social. De acordo com o que foi expressado pelo ministro Iturriza, o
desafio é “criar as condições para que não dependamos em nenhum momento do ciclo
produtivo do capitalismo”. Um grande desafio. É aí que estão os debates do povo
venezuelano – à espreita, mas insistindo na construção do socialismo.


(*) Fernando Vicente Prieto, de Caracas – @FVicentePrieto

IN:
Carta Maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Venezuela-para-que-haja-paz-poder-ao-povo/6/31139
12/6/2014

domingo, 8 de junho de 2014

Gestão associada e democrática nas escolas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra





Neusa Maria DAL RI
Candido Giraldez VIEITEZ


Introdução

A reivindicação pela gestão democrática na escola emanou do movimento da educação no bojo das lutas travadas, nos anos de 1970 e 1980, contra a ditadura militar e pelo Estado de Direito. Essa proposição foi conduzida e articulada, principalmente, pelo Fórum Nacional em Defesa da Educação Pública (FNDEP) integrado por organizações representativas dos segmentos escolares de professores, funcionários e estudantes, além de outras entidades. Desse modo, tudo indica que o movimento democrático foi uma das forças ativas mais importantes que se encontra presente na origem dos eventos que levaram à emergência do preceito da gestão democrática na escola no Brasil.
O princípio da gestão democrática (GD) na escola pública figurou na Constituição promulgada em 1988, que foi o ato legal que consolidou a flexão histórica realizada com a passagem da ditadura para o regime democrático republicano. Anos depois o preceito foi reafirmado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) sancionada em 1996, na qual estão previstas as participações dos profissionais da educação na elaboração do projeto político pedagógico da escola e das comunidades escolar e local em conselhos escolares e equivalentes (art. 14º).
No entanto, as leis são sínteses de processos de embates políticos e resultados de lutas entre forças em geral opostas. Desse modo, a presença na lei de quaisquer medidas não significa a sua efetivação. O que a realidade em geral demonstra é que são outros os fatores, e não apenas a existência de uma lei, que determinam uma prática social. No caso da GD, embora conste em lei desde 1988, as pesquisas acadêmicas vêm demonstrando que ela não tem sido efetivamente implantada e/ou vivenciada nos sistemas escolares públicos, a não ser em alguns poucos casos e experiências diferenciadas. A gestão escolar nas redes de ensino público, em geral, apresenta um padrão, qual seja, as decisões são centralizadas pelos diretores/as e os conselhos de escola, órgão representativo das comunidades interna e externa, são pouco atuantes, além de terem seus membros indicados pelas direções das escolas, e não eleitos por seus pares, como determinam as Leis, art. 95 do Estatuto do Magistério, Lei Complementar n. 444/85, de 1985, e a LDB de 1996. Em decorrência dessas características, e outras que serão apontadas no decorrer do texto, denominamos o padrão de gestão escolar presente hoje nas escolas públicas brasileiras de gestão alienada.
Dentre as experiências diferenciadas a que nos referimos, apontamos as formuladas e estruturadas por alguns movimentos sociais, dentre os quais se destaca o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
O MST é um movimento que tem uma forma de organização democrática distinta da liberal, ou seja, distinta daquela comumente encontrada na sociedade capitalista. E a estrutura, funcionamento e categorias organizadoras da vida democrática do Movimento encontram-se também presentes no ensino e trabalho realizados em suas escolas, algumas criadas logo depois de sua fundação em 1984, antes, portanto, da promulgação da CF/88 e do princípio da GD constar em lei.
Desse modo, o principal objetivo deste texto é expor aos leitores o princípio organizativo das escolas do MST, destacando a sua estrutura e o seu processo democrático, dos quais fazem parte organismos de base, comissões, assembléias gerais e participação direta. O estudo desse fenômeno é importante porque o MST conseguiu, até certo ponto, des(alienar) a gestão escolar por meio da cooperação e do autogoverno do trabalhador coletivo.
As análises procedidas aqui estão embasadas em várias pesquisas empíricas realizadas por nós nos últimos dez anos, acrescidas de resultados parciais de novas reflexões acerca da questão do trabalhador coletivo relativamente des(alienado) do MST.


1. O MST e sua base social

O MST surgiu em 1984 como um movimento organizado com programa, estrutura e normas de funcionamento. No início o MST congregava pessoas interessadas em obter terra como meio de trabalho, tais como ex-pequenos proprietários, assalariados rurais e urbanos, posseiros e vários outros trabalhadores da terra destituídos de propriedade. Na atualidade, o MST continua organizando esses tipos de trabalhadores, porém, a eles somam-se agora os que obtiveram a terra por meio da luta, ou seja, os assentados.
O programa do MST apresenta como principal objetivo do movimento a luta pela reforma agrária popular, o que foi reiterado em seu último Congresso Nacional realizado em junho de 2007 .
Os acampamentos formados, em geral, quando se ocupa a terra, e os assentamentos derivados da reforma agrária são as organizações básicas do MST. Neles as famílias estão organizadas por meio dos núcleos de base, coordenações eleitas e assembléias gerais. De cinco em cinco anos ocorre o Congresso Nacional, a instância superior de decisão do MST, que discute e aprova o programa e as linhas políticas para o próximo qüinqüênio, e a cada dois anos são realizados os Encontros Nacionais para discussão de tarefas mais específicas. As várias instâncias do Movimento têm autonomia para realizarem as discussões e tomadas de decisões de acordo com as problemáticas regionais e/ou locais.
Na base social do MST há três categorias de trabalhadores: os acampados que estão lutando pela conquista de um lote de terra; os assentados em pequenas propriedades de exploração familiar; e os assentados organizados em cooperativas de produção agropecuária (CPA). O estatuto jurídico da CPA é o de propriedade privada, mas apresenta a peculiaridade de pertencer a um coletivo de trabalhadores.
A ocupação de terras e os assentamentos geraram um fenômeno diferenciado no MST que podemos designar de territorialização . A partir de seu território o Movimento pode criar e desenvolver o que metaforicamente denominamos de economia política do MST.
A economia política tem uma posição estratégica na reprodução do Movimento. Além de ser a base de subsistência dos assentados ela possibilitou a construção dos sistemas educacional e cooperativista do MST, dentre outras ações.
É importante ressaltarmos a natureza dos trabalhadores que formam a base do MST. Mesmo depois de conquistarem a propriedade, os membros do MST continuam sendo trabalhadores porque vivem do próprio trabalho pessoal ou familiar, sejam proprietários individuais ou associados. A conquista da propriedade mesmo que pequena e precária possibilita-lhes, em geral, subsistência relativamente autônoma. Isso os diferencia dos trabalhadores rurais assalariados, que na qualidade de traficantes de sua força de trabalho ou cidadãos são livres, mas enquanto produtores encontram-se emersos em relações servis (PASUKANIS, 1976).
Como veremos no decorrer do texto, a condição de trabalho autônomo, não assalariado, foi e continua sendo um dos fatores determinante na configuração sui generis da gestão das escolas do MST. O outro fator importante é o próprio Movimento com seu programa, ideologia e luta política.

2. Cooperação como princípio organizativo da escola

A sociedade capitalista se constitui a partir da criação de uma nova forma histórica de organização do trabalho. Essa nova forma de organização, segundo Marx (1982, p. 370), tem por base certo tipo de cooperação.
[...] a produção capitalista só começa realmente quando um mesmo capital particular ocupa, de uma só vez, número considerável de trabalhadores, quando o processo de trabalho amplia sua escala e fornece produtos em maior quantidade. A atuação simultânea de grande número de trabalhadores, no mesmo local, ou, se se quiser, no mesmo campo de atividade, para produzir a mesma espécie de mercadoria sob o comando do mesmo capitalista constitui, histórica e logicamente, o ponto de partida da produção capitalista.

Essa forma peculiar de cooperação , também denominada por Marx (1982) de trabalhador combinado ou coletivo, instaura, ao mesmo tempo, novas relações sociais de produção e uma nova força produtiva. Esta força produtiva que apresenta um caráter social ou de massas, eleva a potência das unidades de trabalho a um patamar inaudito.
Uma característica fundamental deste tipo de cooperação é que a unidade de trabalho organizada sob seus princípios funciona como uma totalidade orgânica que necessita de uma coordenação unitária. Essa coordenação no sistema produtivo dominante é exercida pelo capital. O trabalhador coletivo formou-se nas unidades de trabalho diretamente valorizadoras do capital, e se mantém caracteristicamente nessa esfera. Entretanto, essa forma de organização tornou-se um paradigma organizacional para a exploração e controle do trabalhador assalariado e generalizou-se por toda a sociedade, variando segundo as especificidades das distintas instâncias sociais.
Apesar de a escola possuir características específicas, dada a sua função social educativa, organiza-se também de acordo com o paradigma dominante, constituindo-se, portanto, como trabalhador coletivo alienado . No entanto, o modo como a alienação se processa no sistema escolar difere quando se trata da escola empresa ou da estatal pública. Na escola privada a força de trabalho valoriza imediatamente o capital, já na escola estatal a força de trabalho aparece como custo, embora cumpra uma função essencial para a reprodução da sociabilidade capitalista.
O sistema escolar do MST possui basicamente três tipos de escolas: a) as que ele cria; b) as estatais públicas controladas e frequentadas majoritariamente por membros do Movimento; c) as escolas estatais nas quais o Movimento tem influência e luta pela sua hegemonia. Para efeitos de análise examinamos os dois primeiros tipos.
Na escola do MST também se constitui o sistema de cooperação que conforma o trabalhador coletivo. Mas, o sistema de cooperação nas escolas do MST encontra-se substancialmente modificado, em especial a natureza das relações sociais. Iniciamos a exposição sobre esse tema com a análise da situação de classe e a condição profissional dos professores, alunos e funcionários das escolas.
Nas escolas do MST há basicamente dois tipos de relações de trabalho estabelecidos com os professores: os voluntários ou colaboradores e os que percebem uma contrapartida econômica pelo trabalho. Em geral, o professor voluntário é aquele que ministra uma ou duas disciplinas durante um período determinado sem remuneração. Entre os professores remunerados há algumas variantes, tanto no que diz respeito à remuneração quanto ao regime de trabalho. Há professores remunerados, direta ou indiretamente pelo MST, independente de serem ou não militantes do Movimento. Nas escolas públicas geridas pelo MST os professores são formal e legalmente contratados e remunerados pelo Estado, porém, a relação com o Movimento se sobrepõe à dimensão formal-legal.
Excetuando-se os voluntários que não recebem remuneração, as demais categorias de professores são assalariadas, de um modo ou de outro. Há assim uma identidade formal entre estas relações de trabalho e aquelas vigentes nas unidades escolares regidas pelo capital, no entanto, a substância dessas relações é distinta.
O assalariamento capitalista é uma relação fundamentalmente econômica de compra e venda regulada pelo mercado de trabalho e regida juridicamente por um contrato. Nesta relação o trabalhador aliena a sua força de trabalho para o empregador.
A relação estabelecida entre os professores e as escolas do Movimento, embora contenha também uma dimensão econômica, é primordialmente uma relação de trabalho associado. Ou seja, é uma relação entre parceiros determinada política e ideologicamente. Nessa relação a cooperação do trabalhador coletivo, da qual os professores são parte, não se encontra simplesmente alienada, uma vez que tanto o processo dessa cooperação quanto o seu produto pedagógico encontram-se significativamente determinados pelos próprios produtores.
Há poucos funcionários nas escolas do MST. Isto ocorre porque a maior parte dos trabalhos de apoio às atividades pedagógicas é realizada pelos próprios alunos e também pelos professores. As atividades administrativas, de gestão e de produção material integram os currículos e fazem parte do processo pedagógico. O pessoal de apoio às atividades pedagógicas integra o trabalhador coletivo participando plenamente das decisões tomadas na escola.
A condição dos alunos nas escolas do Movimento é muito diversa da existente nas escolas oficiais e apontamos aqui as principais diferenças.
O educando do MST é um estudante-trabalhador. Essa condição do aluno é decorrente, em primeiro lugar, de sua situação de trabalhador ou filho de trabalhador do campo e, principalmente, da proposta pedagógica que alia ensino e trabalho sob o pressuposto de que o trabalho concreto é um agente educativo fundamental. (DAL RI; VIEITEZ, 2009). Desse modo, os alunos trabalham na escola, nos assentamentos e acampamentos , como, por exemplo, nas atividades de gestão, atividades meio e nos trabalhos de produção agrícola e agroindustrial.
Outra característica diferenciadora é que a escola do MST não prepara os alunos para o mercado de trabalho assalariado, mas sim para a economia e para a ação política do Movimento, lembrando que a economia política do MST é constituída de produtores proprietários autônomos reais ou potenciais. Dessa forma, os educandos não são assalariados virtuais como os alunos da escola oficial, pois já são membros de famílias e comunidades constituídas por trabalhadores autônomos ou proprietários.
Finalmente destacamos que os alunos são membros de um trabalhador coletivo escolar cuja cooperação é significativamente autodeterminada, em parte porque se encontra livre do controle direto do Estado ou do capital.

3. Gestão associada e democrática nas escolas do MST: estrutura e processos

Devido à heterogeneidade da economia política, bem como à natureza administrativa não centralizada do MST, as formas de organização de suas escolas é diversificada. Esta diversidade decorre também do tamanho, da complexidade e da finalidade educacional das unidades escolares. Uma escola de ensino fundamental I com duas salas de aula não pode ter a mesma estrutura que uma de ensino médio, com várias disciplinas e centenas de alunos. A variação é formal e às vezes também substantiva. O Movimento não tem um modelo rígido para compor a administração escolar. A referência é a organização do próprio Movimento e de algumas escolas prestigiosas. Em cada unidade escolar a inventiva local é praticamente uma constante, tanto na criação da escola quanto na sua gestão. Em conseqüência disso a estrutura de tomada de decisões também é variável.
Nesta seção indicamos mais concretamente as instâncias e o processo de tomada de decisões nas escolas. Esta morfologia, no entanto, é um esquema conceitual com o qual nos limitamos a tentar captar o que é básico e mais ou menos recorrente, ou seja, indicativo da tendência organizacional. Neste trabalho, portanto, não nos propomos a mapear a realidade empírica do sistema de escolas, o que se realizado, provavelmente, conduziria à enunciação de alguns modelos ou formas de gestão associada e democrática.
Em geral, são quatro as instâncias principais de tomada de decisões nas escolas: a) os organismos de base; b) a coordenação geral; c) a assembleia geral; d) o conselho político. Vamos considerá-las uma a uma ponderando que, embora em muitas escolas essas instâncias apresentem-se visíveis e diferenciadas, em outras não estão formalizadas, embora as funções que lhe são pertinentes estejam contempladas de algum modo. Vejamos um exemplo. Na escola de ensino fundamental I Construindo o Caminho, situada em um assentamento coletivo organizado por meio de uma CPA, não encontramos o conselho político sob a formatação explícita existente em outras unidades escolares. Contudo, as funções usualmente atribuídas a esse Conselho também estão presentes nessa unidade escolar por intermédio da Comissão de Educação constituída pelas educadoras e por pais indicados pela Assembléia Geral.

3.1. A organização de base

A organização da base é a pedra angular do arranjo político do MST. Na escola a organização de base apresenta duas formas: a auto-organização dos alunos e os organismos mistos compostos por alunos, professores e funcionários. Os alunos-trabalhadores são majoritários, já a presença dos professores pode ser lábil, pois uma parte é voluntária e/ou temporária e os funcionários são poucos. No entanto, os funcionários , embora muitas vezes também sejam realocados, aparentemente é a parte mais estável do trabalhador coletivo, o que em geral inclui algumas lideranças do Movimento.
A auto-organização dos alunos ocupa-se das questões políticas do Movimento, da manutenção da escola e dos assuntos pedagógicos, aqueles que dizem respeito mais imediatamente ao que usualmente se entende por atividade acadêmica.
Os órgãos mistos também se referem aos assuntos necessários à produção pedagógica, direta ou indiretamente. Há nas escolas uma repartição das tarefas aglutinadas em setores, tais como: manutenção e conservação da escola; orçamento; gestão; comunicações; ciranda etc. Relembramos que o trabalho nas escolas do MST não é laboratorial, mas real. Os alunos também são responsáveis pelas atividades meio. As atividades meio implicam arcar com o custeio da unidade escolar, o que se consegue em parte com a produção agrícola ou agroindustrial (pequenas plantas) ou até mesmo com a prestação de serviços externos à escola.
A organização de base é a instância primária de organização do trabalho em geral, mas é também a instância primária de organização do trabalho político. Portanto, é uma estrutura que visa atender tanto à dimensão técnica do trabalho, coordenação, especialização, etc., quanto à dimensão democrática.
Cada organismo de base elege coordenadores que funcionam como delegados e, em casos, como por exemplo, do Instituto Josué de Castro, situado na cidade de Veranópolis, Rio Grande do Sul, e da Escola Construindo o Caminho, compõem a coordenação geral das escolas que funcionam como cooperativas. Nos dois casos os coordenadores eleitos ficam no cargo por pouco tempo, em geral em torno de três meses. Terminado esse período são eleitos outros membros dos organismos de base como coordenadores. O rodízio nos cargos é um elemento importante da organização democrática, pois ao mesmo tempo em que coloca a oportunidade de todos poderem ter a experiência de coordenação, coíbe aquela situação até comum encontrada nas entidades: a de presidentes e coordenadores eternos.
Assinalamos para efeitos heurísticos que o arranjo político nestes moldes é antitético ao sistema de tipo parlamentar ou liberal, razão pela qual este tipo de organização não está contemplado na gestão democrática da escola estatal.

3.2. A coordenação geral

Nas escolas estatais e nas universidades a coordenação geral das instituições é exercida pelos diretores e reitores, são eles que exercem o poder executivo na gestão democrática oficial.
Nas escolas do MST a coordenação geral é uma espécie de comitê executivo da assembleia geral. No entanto, não é um poder executivo típico, pois, diversamente da concepção oficial, nesta estrutura não existe uma divisão de poderes.
A coordenação geral pode ter tamanho, funções e composição variáveis, mas em geral é composta principalmente pelos coordenadores dos organismos de base. É um órgão que se situa entre a base, por um lado, e a assembleia geral, por outro. Embora não tenha a autonomia de um poder executivo é um órgão estratégico, uma vez que é ele que administra o dia a dia da escola, articulando e coordenando os diversos organismos e instâncias, além de condensar propriedades operacionais de tipo demiúrgico. Em virtude de ocupar este lugar estratégico na gestão é comum que este órgão conte em sua composição com lideranças e quadros da comunidade acadêmica e/ou do Movimento.

3.3. A assembleia geral

A assembleia geral (AG) é composta por todos os sujeitos escolares: professores, alunos e funcionários. A AG é a instância decisória máxima do trabalhador coletivo escolar.
A AG como todos os demais organismos da gestão associada e democrática em suas respectivas jurisdições é ao mesmo tempo deliberativa, executiva e normativa. As suas decisões, que abrangem todo e qualquer tema da gestão escolar, têm aplicação e eficácia imediatas. Há resoluções, porém, que não são passíveis de serem aplicadas automaticamente pelo trabalhador coletivo, requerendo gestão recorrente num tempo alongado. Neste caso, a AG tem seu braço executivo na coordenação geral que, como já assinalamos, é um executivo superior, sem ser um poder executivo.
Embora a AG seja uma técnica social consagrada e amplamente utilizada pelo Movimento, nas escolas nem sempre se encontra suficientemente formalizada. No Instituto Josué de Castro, por exemplo, a AG reúne-se mensalmente para reproduzir a gestão integral da escola. Já na escola de agroecologia Milton Santos, localizada na cidade de Maringá, Paraná, a AG reúne-se quando há necessidade.
A assembléia geral é um dentre outros organismos criados pelo Movimento Operário Popular (MOP) antitético à lógica das categorias de dominação liberal. A AG também está presente na escola oficial. Mas, sintomaticamente, está presente apenas nos órgãos classistas e autônomos de alunos, professores e funcionários, convocadas por centros ou diretórios acadêmicos estudantis e por sindicatos de professores e funcionário, porém não faz parte da estrutura da gestão democrática oficial . No entanto, quando comparadas é notável que a natureza das assembleias realizadas nas escolas do Movimento e aquelas realizadas pelas entidades representativas dos segmentos das escolas oficiais é significativamente diferente. Na escola oficial são reuniões organizadas segundo um princípio voluntarista. Nas escolas do Movimento, a AG em sua qualidade de instância coordenadora máxima do trabalhador coletivo é orgânica, é uma dimensão iniludível do trabalho em geral, do trabalho de gestão e do trabalho político. Essas assembleias se diferenciam também num outro ponto. As assembleias na escola oficial deliberam segundo o princípio da maioria, que é um critério típico do parlamentarismo. Já as assembleias da gestão associada e democrática, dado seu caráter de autogoverno, buscam o consenso antes de tudo (LOJKINE, 1990), ainda que em situações de impasse tenham também que lançar mão do princípio de maioria.

3.4. O conselho político

Em algumas escolas do Movimento, como, por exemplo, na Escola de Agroecologia Milton Santos, além dos organismos já mencionados, há também o denominado conselho político (CP), em geral, constituído por delegados de assentamentos (brigadas) ligados à escola, por delegados do trabalhador coletivo e por membros da direção do MST, muitas vezes de nível estadual e designados para essa tarefa.
O CP não é um organismo propriamente administrativo e nem tampouco de supervisão. A sua função é política, ou seja, a de ajudar a encaminhar assuntos que transcendem as possibilidades da comunidade escolar, observando as diretrizes congressuais do Movimento.

3.5. Representação e delegação

A representação é uma categoria chave da democracia liberal, ou seja, é o núcleo do sistema representativo parlamentar. Na gestão associada e democrática também há representação, mas de um tipo diferente e que denominamos de representação delegada ou por delegação. Este tipo de representação tem um antecedente remoto ilustre na Comuna de Paris (BOITO JUNIOR, 2001).
Na metodologia liberal - vigente não apenas no sistema parlamentar, mas em várias outras instâncias, como na gestão democrática da escola pública e nas universidades-, o representante eleito é livre para tomar decisões, de sorte que pode fazer o inverso do que enunciou em seu programa, supondo que exista um, ou do que foi decidido em uma reunião geral. Por outro lado, os eleitores constituem uma massa de pessoas dissociadas, impotentes para fiscalizarem ou cobrarem de seus representantes coerência com o programa enunciado ou ações em acordo com os interesses dos representados. E a tese de que a cobrança pode ser feita pelo eleitorado na ronda eleitoral, como a experiência nos mostra à saciedade é em grande parte uma abstração.
A dissociação das pessoas na sociedade e seus efeitos não são estranhos aos membros do MST, ao contrário. Os sem-terra antes de serem associados ao MST são cidadãos da sociedade burguesa, na qual a dissociação se manifesta como atávico individualismo. Ademais, a exploração agrária familiar é particularista e paroquial, e a cooperativa de trabalho associado é contraditória porque se, de um lado, é democrática e socializante, de outro, permanece ainda no campo da propriedade privada.
A escola do MST tem como um de seus objetivos contra atacar essa tendência, o que é realizado, em parte, justamente pela organização que a gestão associada e democrática apresenta. A AG é um órgão de autogoverno. Participando dela o sujeito escolar manifesta-se individualmente, segundo o princípio de uma pessoa um voto. Entretanto, o sujeito escolar não está na assembleia como simples indivíduo. Por trás dele encontra-se a organização de base com a qual tem compromisso iniludível, que discutiu e se posicionou a respeito dos temas presentes na assembleia. Além da organização de base, o sujeito escolar encontra-se inserto na frente de trabalho, na equipe de trabalho ou outro organismo conexo, os quais também estão estruturalmente articulados. A decorrência desse tipo de organização é que se cria um entrelaçamento orgânico que vai da base para o topo, passando pelos órgãos de coordenação intermediários, e do topo para a base num processo circular.
O resultado desse entrelaçamento é uma variante do que denominamos de representação delegada ou por delegação. Este tipo de representação não tem a propriedade de criar uma comunidade idílica entre os sujeitos da escola. Porém, rompe com o sistema burguês no qual a base política - o corpo eleitoral - aliena no representante sua capacidade política de tomar decisões (ROUSSEAU, 1995). Na gestão associada e democrática as relações do representante, coordenador ou tomador de decisões com a base são inescapáveis.
Este elemento educativo propiciado pela gestão associada e democrática constitui um dos tópicos mais importantes do currículo nas escolas do MST. Para a burguesia é vital a manutenção da classe trabalhadora como classe em si, com as pessoas dissociadas, sujeitas à condição de mônadas (MARX, 1969) individuais competindo no mercado como traficantes da força de trabalho ou de produtos do trabalho, e como consumidores. Para o MST ocorre o inverso, ou seja, apenas a associação da classe trabalhadora pode levá-la à luta e ao fortalecimento de sua organização de classe, e disso decorre o seu empenho na organização de uma educação democrática e socializante.

3.6. Relações com a comunidade

Vamos considerar apenas e brevemente as relações da escola com a comunidade do MST, os assentamentos e acampamentos.
As escolas do MST de níveis diferentes das de educação básica, de matrícula universal por princípio, não fazem seleção de tipo meritocrático, observados os preceitos legais de proficiência. São as comunidades ligadas ao MST e/ou à determinada escola, como, por exemplo, as brigadas que agregam em torno de cinqüenta famílias ou os assentamentos que indicam os jovens que irão para a escola. Nesse caso, o que determina a formação dos jovens nesse ou naquele curso são, prioritariamente, as necessidades das comunidades de contar com técnicos ou profissionais em determinadas áreas.
Os assentamentos e brigadas contribuem com a economia da escola de diversas maneiras. A contribuição mais frequente parece ser a doação de artigos de consumo derivados do campo ou da agroindústria para as escolas. Porém, há vários outros modos de contribuição, sobretudo, na forma de valores de uso, em trabalho ou em espécie.

3.6. Autonomias do trabalhador coletivo escolar na gestão

Na escola oficial ou privada o trabalhador coletivo aliena sua cooperação enquanto produtor para o capital. Se considerarmos o lugar desse sistema de cooperação na sociedade, constataremos a existência de outro paradoxo. A produção pedagógica é realizada no conjunto das unidades escolares pela classe trabalhadora. Porém, não como educação para a classe trabalhadora, mas como educação do capital destinada à classe trabalhadora, como educação reprodutora da alienação do trabalho.
Examinemos agora esquematicamente a situação do produtor pedagógico no MST. O faremos segundo uma interpretação que remontando a Rousseau (1995) e passando por Robespierre e o jacobinismo (MATHIEZ, 2013) chega a Marx e Engels e ao socialismo (TEXIER, 2005). Em poucas palavras, essa visão sustenta que não pode haver democracia se esta estiver adstrita apenas à esfera política. A deriva metodológica desse postulado é que a análise da democracia demanda uma abordagem socialmente inclusiva, que é o que buscamos fazer nestas linhas.
Examinando a gestão associada e democrática nas escolas do MST sob o ângulo societário, observamos que ela tem em comum com a GD na escola oficial o fato de ser promotora de uma educação de classe. Sobrevém, todavia, uma grande diferença. Enquanto que na escola oficial os trabalhadores produzem educação para o capital e do ponto de vista do capital, na escola do MST os trabalhadores produzem uma educação para a própria classe.
Essa condição pedagógica é incomum, mas não inaudita. O controle da educação pelos próprios trabalhadores foi no passado aspiração da classe trabalhadora, como bem o ilustra o movimento cartista em meados dos séculos XIX (LOVETT; COLLINS, 1840). Muito antes, portanto, de que o movimento operário e popular (MOP) viesse paradoxalmente a assumir bastante acriticamente a bandeira da escola pública estatal.
A apropriação da atividade educacional pela classe é o fato mais relevante do trabalhador coletivo escolar no MST. No entanto, essa apropriação é relativa e problemática. Afinal, o Movimento opera no âmbito do capitalismo dominante, com sua economia, seu Estado, leis e cultura, e não há como esquivar totalmente as determinantes daí decorrentes.
A propriedade ou o controle político possibilita ao trabalhador coletivo promover mudanças importantes na organização da produção pedagógica, dentre as quais a própria gestão associada e democrática é um exemplo. No entanto, as escolas têm que emitir certificação regular e para tanto têm que observar a legislação oficial, o que em si mesmo significa uma limitação à sua liberdade. Aqui nos restringimos a indicar este ponto fundamental, embora outras limitações incidam sobre a produção pedagógica decorrentes da inserção conflituosa das escolas do Movimento na sociedade. Portanto, a conclusão inevitável é que o Estado capitalista continua presente nas escolas do Movimento como um legislador e controlador fundamental. E com sua presença fatalmente reproduzem-se fenômenos de alienação da política e do trabalho.
Afora as restrições impostas pelo Estado à ação do trabalhador coletivo escolar, a gestão associada e democrática encontra-se delimitada pela base social do MST e pelo próprio Movimento enquanto programa e maquinaria política.
Não obstante, a democracia e a capacidade demiúrgica do trabalhador coletivo na escola do MST são reais e ponderáveis segundo os seguintes cânones: a) há uma distribuição equitativa do poder entre os vários segmentos escolares no processo de tomada de decisões; b) o trabalhador coletivo - embora limitado em sua ação pela presença do Estado e delimitado pelos interesses da economia política do MST e do próprio Movimento enquanto organização - é o demiurgo primário, democraticamente organizado, da vida da escola nas suas várias dimensões; c) há uma ascendência maior ou menor das lideranças ou quadros do Movimento sobre os membros do coletivo de trabalhadores. No entanto, salvo exceções, a ascendência dessas lideranças não vai ao ponto de transformar a gestão associada democrática numa formalidade, ao contrário. O que se pode observar reiteradamente é que o funcionamento da escola, no presente e no futuro, encontra-se basicamente na dependência do engenho e arte do trabalhador coletivo.

Conclusão

Vários fatores possibilitaram ao MST chegar às relações pedagógicas que construiu. O primeiro encontra-se no próprio Movimento, uma organização popular estruturada segundo princípios democráticos que foram criados no século XVIII pelos trabalhadores (THOMPSON, 2004). Um segundo fator diz respeito à luta social, o que possibilitou a obtenção da propriedade da terra para milhares de seus membros, dando origem à economia política do MST. Um último fator diz respeito ao fato de que o MST, diferentemente da maioria dos movimentos sociais, busca direcionar seus membros para a associação política e para o trabalho associado.
As escolas do MST são administradas pelo que denominamos de gestão associativa democrática. Este é um regime democrático substantivo e socializante, promotor do trabalho coletivo e da igualdade social. Esse regime, em si mesmo, enquanto atividade prática tem a propriedade de contribuir para a formação de valores e visões democráticas, inclusive socialistas, nos alunos. A esta formação prática, decorrente da estrutura democrática da escola, sobrepõe-se a pedagogia explícita do MST, o ensino das várias disciplinas acadêmicas e outras atividades que apresentam um mesmo vetor educacional.
Entretanto, essas características prático-pedagógicas das escolas não estão em total harmonia com as bases sociais do MST. Com efeito, a pequena propriedade agrária, não obstante a luta pela conquista e conservação da terra é por tendência imanente individualista e paroquial. A cooperativa de trabalho associado apresenta uma dimensão democrática e socializante em suas relações de trabalho. Porém, como unidade produtiva mantém-se no âmbito da propriedade privada, da produção de mercadorias e do mercado quase como a exploração familiar. Quanto às demais formas de cooperação praticadas pelo Movimento, em geral de segunda ordem, como a comercialização, compra de insumos, etc. encontram-se seguramente aquém das potencialidades democráticas das cooperativas de produção.
Destarte, o caráter democrático socializante das escolas leva-nos à suposição de que esta ação educativa constitui uma das atividades politicamente mais arrojadas do MST. Mais arrojada no sentido de que parece conter uma impostação educacional, política e ideológica que tem em seu horizonte a emancipação geral dos trabalhadores ou, dito de outro modo, a liquidação da sociedade de classes.
As escolas do MST geram uma relativa (des) alienação da produção pedagógica no âmbito do trabalhador coletivo escolar e de um segmento da classe trabalhadora – a classe trabalhadora proprietária. No entanto, essa atividade ocupa um lugar excêntrico, claramente excepcional, no conjunto da sociedade capitalista. Esta situação de excentricidade, inclusive em relação ao conjunto da classe trabalhadora, problematiza suas possibilidades de generalização ou, até mesmo, de sua reprodução se supusermos que o capitalismo no campo, o agronegócio, prosseguirá em sua expansão avassaladora.
Na senda da emancipação do trabalho, a educação escolar no Movimento encontra-se bem à frente do que nos permitiria supor quando considerada a sua base social. Esse fato sugere três possibilidades: a) que essa atividade é influenciada pelos setores politicamente mais radicais do movimento; b) que se reveste desse caráter politicamente mais radical pelo fato de tratar-se de uma atividade simbólica, mais mediada em relação à base e mais susceptível de ser influenciada pelo universo intelectual ideológico; c) ou a conjugação desses dois fatores.
Em última análise, porém, a educação no MST encontra-se vigorosamente demarcada pela luta em prol de uma grande reforma agrária democrática. Uma reforma dessa natureza no campo, supondo que seja plausível, e como o indicam os assentamentos quando os tomamos no seu todo, não engendrará por si própria, de modo imanente, o tipo de produção pedagógica relativamente (des) alienante que o MST procura implementar. A razão para isso decorre do fato de que, se por um lado, a transformação de uma parte dos camponeses em proprietários pode oferecer uma base, ainda que contraditória, para a prática de uma produção pedagógica (des)alienante, por outro lado, essa não é uma condição suficiente. Portanto, para que isso possa ocorrer, e como a própria realidade do MST nos indica, é necessária a presença de uma teleologia pedagógica cujos fundamentos ontológicos remetam mais para a propriedade social do que para a pequena propriedade particular. No entanto, a propriedade social, frente ao atual programa do MST, pode ser interpretada como uma antípoda. Este é um paradoxo que além de denotar certos limites da ação pedagógica do Movimento, é também indicativo de que a práxis da organização é mais complexa do que se pode inferir por seu programa democrático de reforma agrária.


Referências
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988.
BRASIL. Lei n. 9394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, n. 248, 1996.
BOITO JUNIOR, A. A Comuna de Paris na história. São Paulo: Xamã, 2001.
DAL RI, N. M.; VIEITEZ, C. G. Educação democrática e trabalho associado no movimento dos trabalhadores rurais sem terra e nas fábricas de autogestão. São Paulo: Ícone: FAPESP, 2008.
DAL RI, N. M., VIEITEZ, C. G. Trabalho como princípio educativo e práxis político-pedagógica. In: MENDONÇA, S. G. L.; SILVA, V. P.; MILLER, S. (Org.). Marx, Gramsci e Vigotski: aproximações. Araraquara: Junqueira & Marin; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. p. 253-305.
ENTERRÍA, E. G. Revolución francesa y administración contemporánea. Madrid: Taurus, 1984.
FERNANDES, B. M. A Formação do MST no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2000.
LOJKINE, Jean. A classe operária em mutações. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1990.
LOVETT, W.; COLLINS, J. Chartism: a new organization of the people, education and improvement of the people politically and socially. London, 1840.
MARX, K. A questão judaica. Rio de Janeiro: Laemmert, 1969.
MARX, K O capital. Crítica da economia política. São Paulo: Difel, 1982. v. I,
MATHIEZ, A. ¿Por qué somos robespierristas? Rebelión. Madrid. 2013. Disponível em: http://rebelion.org/noticia.php?id=162848. Acesso em: 27 jan. 2013.
MÉZÁROS, I. A teoria da alienação em Marx. São Paulo: Boitempo, 2006. (Col. Mundo do Trabalho).
MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA. Site oficial. Brasília. 2013. Disponível em: http://www.mst.org.br/especiais/10. Acesso em: 10 jan. 2013.
PASUKANIS, E. B. Teoría general del derecho y marxismo. Barcelona: Labor, 1976.
ROUSSEAU, J. J. Discurso sobre a economia política e do contrato social. Petrópolis: Vozes, 1995.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Estatuto do Magistério Paulista: Legislação Regulamentadora e Suplementar. 3. ed. São Paulo: SE/CENP, 1998.
TEXIER, J. Revolução e democracia. Rio de Janeiro: UFSM, 2005.
THERBORN, G. ?Cómo domina la clase dominante? Madrid: Siglo XXI de España, 1979.
THOMPSON, E. P. A formação da classe operária: a árvore da liberdade. 4. ed. Rio de janeiro: Paz e Terra, 2004. v. 1
VIEITEZ, C. G.; DAL RI, N. M. Trabalho associado. Cooperativas e empresas de autogestão. Rio de Janeiro: DP&A, FINEP, 2001
ZIBECHI, R. El territorio como espacio emancipatorio. Rebelión. Madrid. 27 jan. 2013. Disponível em: http://rebelion.org/noticia.php?id=162888. Acesso em: 27 jan. 2013.

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DAL RI, N.M.; VIEITEZ, C.G. Gestão associada e democrática nas escolas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. IN: RODRIGUES, F.C.; NOVAES, H.T.; BATISTA, E.L. Movimentos sociais, trabalho associado e educação para além do capital. São Paulo: Outras Expressões, 2013, pp. 241-263.

sábado, 7 de junho de 2014

O modelo unipolar da ordem mundial fracassou

Pepe Escobar*


Tudo o que Washington conseguiu no Médio-Oriente em troca de uma década de
guerras, intimidação incessante, péssimas sanções e biliões (milhões e milhões)
de dólares desperdiçados foi perder terreno no plano económico. Os factos falam
por si. A China está a comprar pelo menos metade da produção de petróleo do
Iraque — e investe fortemente na sua infra-estrutura energética. A China
investiu muito na indústria de mineração do Afeganistão — especialmente em lítio
e cobalto. E obviamente tanto a China como a Rússia continuam a fazer negócios
no Irão.


(Vladimir Putin, São Petersburgo, Maio 22)De maneiras diversas anunciou-se na
semana passada o nascimento de um século euro-asiático. Na realidade, o convénio
do gás Rússia-China por 400 mil milhões de dólares foi assinado apenas no último
minuto, em Xangai, na quarta-feira (um complemento do convénio de petróleo de
Junho de 2013, por 25 anos e 270 mil milhões de dólares entre Rosnefit e CNPC da
China).
Já na quinta-feira, a maioria dos principais protagonistas esteve no Fórum
Económico Internacional de São Petersburgo — a resposta russa a Davos. E na
sexta-feira, o presidente russo Vladimir Putin, recém-chegado do seu triunfo em
Xangai dirigiu-se aos participantes e a casa quase veio abaixo com os aplausos.É
preciso algum tempo para apreciar o torvelinho da semana passada em todas as
suas implicações complexas. Houve menos directores executivos ocidentais em São
Petersburgo porque o governo de Obama os pressionou — como parte da política de
«isolamento da Rússia»? Goldman Sachs e Morgan Stanley poderão tê-lo desdenhado
mas os europeus que realmente importam participaram, vieram, falaram e
comprometeram-se a continuar a fazer negócios.E sobretudo, os asiáticos
estiveram omnipresentes. Há que considerar isso como mais outro capítulo no
contragolpe da China à viagem asiática do presidente Barack Obama em Abril, que
foi amplamente descrita como «viagem de contenção da China» (1)No primeiro dia
do Fórum de São Petersburgo, assisti à sessão crucial sobre a cooperação
económica estratégica russo-chinesa. Temos de prestar atenção pois constitui
todo o mapa. Como descreve o vice-presidente da China Li Yuanchao: «Planificamos
combinar o programa para o desenvolvimento do Extremo Oriente russo e a
estratégia para o desenvolvimento do Noroeste da China num conceito
integrado».Foi apenas em exemplo da coalizão cada vez mais rápida na Eurásia que
os excepcionalistas «indispensáveis» vão pôr em causa até à medula. Comparações
com o pacto sino-soviético são infantis. O golpe na Ucrânia — parte do plano de
Washington para «conter» a Rússia — apenas serviu para acelerar a viragem da
Rússia para a Ásia, que cedo ou tarde seria inevitável.Em São Petersburgo, de
sessão em sessão e em conversações seleccionadas, o que vi foram alguns marcos
cruciais da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda chinesa, cujo objectivo em última
instância é unir, através do comércio e do intercâmbio de bens, nada menos que a
China, Rússia e Alemanha.Para Washington, isto é um anátema completo. A reacção
foi oferecer um par de tratados que, em tese, irão garantir o monopólio
norte-americano de dois terços do comércio global: o Acordo de Associação
Transpacífico (TPP) — que foi essencialmente recusado por países-chave como o
Japão e a Malásia durante a viagem de Obama — e a ainda mais problemática
Associação Trans-Atlântica com a UE, abominada pelo europeu médio (veja-se
Fracasso no Sul da NATO, Ásia Times Online, 15 de Abril de 2014). Os dois
acordos estão a ser negociados em segredo e são essencialmente benéficos para
corporações multinacionais americanas.Para a Ásia a China propõe em seu lugar
uma Área de Livre Comércio na Ásia do Pacífico; já é aliás o maior sócio
comercial da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) de 10 membros.E
para a Europa, Pequim propõe uma extensão de caminhos-de-ferro que une em apenas
12 dias Cheng, capital de Sichuan, com Lódz na Polónia, cruzando o Cazaquistão,
a Rússia e a Bielorrússia. O acordo total é a rede Chongqing-Xinjiang-Europa,
que termina em Duisburg, Alemanha. Não é admirar que seja a rota comercial mais
importante do mundo (2)Mas há mais. Uns dias antes do acordo Rússia-China do
gás, o presidente Xi Jinping apelou a nada menos que uma nova arquitectura de
cooperação asiática de segurança, incluindo supostamente a Rússia e o Irão e
excluindo os Estados Unidos (3). De certo modo fazendo coro com Putin, Xi
descreveu a OTAN, como uma relíquia da Guerra-fria.E adivinhem quem estava no
anúncio em Xangai além dos principais da Ásia Central, o primeiro ministro do
Iraque Nouri-al-Maliki, o presidente afegão Hamid Karzai e o mais importante, o
presidente do Irão Hassan Rohani.Os factos no terreno falam por si. A China está
a comprar pelo menos metade da produção de petróleo do Iraque — e investe
fortemente na sua infra-estrutura energética. A China investiu muito na
indústria de mineração do Afeganistão — especialmente em lítio e cobalto. E
obviamente tanto a China como a Rússia continuam a fazer negócios no Irão.Assim,
isto é tudo o que Washington conseguiu em troca de uma década de guerras,
intimidação incessante, péssimas sanções e biliões (milhões e milhões) de
dólares desperdiçados.Não é de admirar que a sessão mais fascinante a que
assisti em São Petersburgo tenha sido sobre as possibilidades comerciais e
económicas em torno da Organização pela Cooperação de Xangai (SCO), cujo hóspede
de honra foi nada menos que Li Yuanchao. Pode dizer-se que fui o único ocidental
na sala, rodeado por um mar de chineses e centro-asiáticos.A SCO prepara-se para
se tornar em algo mais que uma contrapartida para a OTAN, concentrando-se
sobretudo no terrorismo e no combate ao narcotráfico. Quer dedicar-se a
actividades importantes. Irão, Índia, Paquistão, Afeganistão e Mongólia são
observadores e mais cedo ou mais tarde serão aceites como membros plenos.Mais
uma vez trata-se da integração euro-asiática em acção. A expansão das Novas
Rotas da Seda é inevitável e isso significa, na prática, uma maior integração
com o Afeganistão (minérios) e Irão (energias).São Petersburgo também deixou
claro que a China quer financiar uma série de projectos na Crimeia, cujas águas,
que têm imensas riquezas energéticas, ainda não exploradas, são agora
propriedade russa. Os projectos incluem uma ponte crucial atravessando o
estreito de Kerch para ligar a Crimeia à Rússia continental, a expansão de
portos da Crimeia, fábricas de energia solar; e até zonas de manufacturação
económicas especiais (SEZs). Moscovo não pode deixar de interpretar isso como
apoio da China à anexação da Crimeia.Quanto à Ucrânia, é melhor, como Putin
declarou em São Petersburgo, que pague as suas contas (5). E quanto à União
Europeia, o presidente cessante José Manuel Barroso pelo menos entendeu que
antagonizar a Rússia não é exactamente uma estratégia acertada.Dmitry Trénin,
director do Centro Carnegie de Moscovo, foi um dos poucos informados que em vão
avisaram o Ocidente: «É provável que a China e a Rússia se tornem ainda mais
cooperantes. Tal resultado beneficiaria a China, mas oferece
à Rússia uma possibilidade de resistir à pressão geopolítica dos Estados Unidos,
compensar a próxima reorientação energética da UE, desenvolver a Sibéria e o
Extremo Oriente e ligar-se à região Ásia-Pacífico (6).De novo na rota (da seda)A
actual aliança estratégica simbiótica China-Rússia — com a possibilidade de a
ampliar até ao Irão — é o principal peão no tabuleiro nos inícios do Século XXI.
Alargar-se-á às nações do BRIC, à Organização do Tratado de Segurança Colectiva
e ao Movimento dos Não-Alinhados.Claro que os cúmplices habituais continuarão a
apregoar que o único futuro possível será o dirigido por um império «benigno»
(8). Como se milhares de milhões de pessoas no mundo real — mesmo os atlantistas
informados — fossem suficientemente ingénuos para o aceitar. Apesar de a
unipolaridade estar morta, mas o mundo, infelizmente, está preso no seu cadáver.
O cadáver, segundo a nova doutrina de Obama, agora está a «angariar
sócios».Parafraseando Bob Dylan («Abandonei Roma e aterrei em Bruxelas»), deixei
São Petersburgo e aterrei em Roma, para seguir mais um episódio da lenta agonia
da Europa — as eleições parlamentares. Mas antes disso, tive a sorte de viver
uma iluminação estética. Visitei o Instituto de Manuscritos Orientais da
Academias de Ciências da Rússia, virtualmente deserto, onde dois investigadores
dedicados extremamente entendidos no tema, me permitiram uma visita privada a
alguns exemplares daquela que deverá ser a colecção mais extraordinária do mundo
de manuscritos asiáticos. Como viajante fanático da Rota da Seda, tinha ouvido
falar de muitos desses documentos, mas nunca os havia contemplado. Assim ali
estive nas margens do Neva, um menino numa loja de doces (históricos), imerso em
todas essas maravilhas de Dunhuang à Mongólia, em védico e sânscrito, sonhando
com Rotas da Seda antigas e futuras. Poderia ter lá ficado para sempre.Notas:
(1) A China opõe-se à ‘contenção’ do petróleo vietnamita pelos Estados Unidos
Stanford Forbes, Maio 8, 2014.
(2) O presidente chinês apela à China e à Alemanha para construírem c cintura
económica da Rota da Seda (em francês) Xinhua, Março 30, 2014.
(3) A China apela a uma nova estrutura de segurança asiática. Washington Post,
Maio 21, 2014.
(4) A Rússia pensa construir mais oito reactores nucleares no Irão, Reuters,
Maio 22, 2014.
(5) A dívida do gás à Gazprom é de 4 mil milhões, declarou o comissário da
Energia da União Europeia. Novosty, Maio 28, 2014.
(6 ) veja http://www.conflictsforum.org/2014-forum-weekly-comment-16%E2%80%93-23
de Maio de 2014.
(7) China, Irão e Rússia: reestruturação da ordem global. Al Jazeera, 20 de Maio
de 2014.
(8) Na defesa do Império, O Atlântico, Março 19, 2014.*Pepe Escobar é autor de
Globalisten. Como o Mundo Globalizado se dissolve na Guerra Líquida (Nimble
Books, 2007), Red Zone Blues: um instantâneo de Bagdad durante o ataque (Nimble
Books, 2007) e Obama e Globalistan (Nimble Books, 2009).(copyright 2014 Asia
Times online (Holdings) Ttd. All rights reservedFontes:
http://www.aatimes/Central Asia/ (Cen-01-290514.htmlTradução: Manuela Antunes
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In:
http://www.odiario.info/?p=3298
7/6/2014

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Bilderberg: Europa e EUA, em reunião secreta, preveem conflito armado


Por Redação

A francesa Christine Lagarde, secretária do FMI, conversa com Osborne (de
costas) e Kerr, (abaixado)
A reunião do Clube Bilderberg, organização que reúne as mais importantes
autoridades da Europa e dos EUA nos campos político, econômico e militar, foi
encerrada no último domingo, na Dinarmarca, sem qualquer declaração pública. A
jornalista Cristina Martín Jiménez, que investiga há uma década esta organização
para o diário espanhol El Confidencial, apontou ao Correio do Brasil com
exclusividade, a existência de forte indícios de que, antes de abdicar, o rei
Juan Carlos de Espanha discutiu o assunto com os integrantes da organização
secreta. Entre outros temas em pauta, no encontro anual cercado de mistério e
segredos, está a previsão de que a Europa tende a mergulhar, no prazo máximo de
um ano, em um grande conflito armado.
Segundo Jiménez, o Bilderberg reuniu figuras militares influentes como o
secretário-geral da Organização do Tratado Atlântico Norte (Otan), Anders
Rasmussen e o ex-diretor da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em
inglês) David Petraeus; o ministro da Fazenda e secretário do Tesouro Britânico,
George Osborne, aliado ao Partido Conservador, e John Olav Kerr, o barão Kerr of
Kinlochard, membro da Casa dos Lordes no Parlamento britânico, diretamente
ligado às esferas de poder na Escócia e integrante do círculo mais fechado do
Clube. Outras presenças ilustres no encontro foram a secretária do Fundo
Monetário Internacional (FMI), a francesa Christine Lagarde, e a ministra sueca
dos Negócios Estrangeiros, Jessica Olausson, que sequer teve o nome revelado na
lista dos participantes.
“Trata-se de um clube de poderosos que tem a pretensão de controlar e dirigir o
mundo. Entre outras catástrofes que causaram, são os responsáveis por submergir
a Europa na pior crise desde a II Guerra Mundial. O efeito mais imediato da
reunião do clube, que acabamos de conhecer, foi a abdicação do rei espanhol. Não
resta mais a menor dúvida de que a renúncia de Juan Carlos foi uma decisão
consensual de Bilderber”, escreveu Cristina Jiménez.
As conversações deste ano, ainda segundo Jiménez, giraram em torno da
possibilidade de conflitos armados na Rússia, China e no Oriente Médio.
“O que foi extraído da reunião deste ano é que daqui a alguns meses, a um ano,
deverá ocorrer uma grande reestruturação militar, econômica e comercial
originado em uma transformação importante na História do mundo: um conflito
bélico de grandes dimensões”, afirmou.
Crise militar
A jornalista Cristina Jiménez não foi a única a perceber que a reunião deste ano
do Clube de Bilderberg tratou de um importante evento militar, previsto para os
próximos meses, em escala global. O jornalista investigativo Daniel Estulin,
autor do livro A Verdadeira História do Clube de Bilderberg, disse também ao CdB
que, na conferência realizada em um hotel cinco estrelas de Copenhagen, as mais
importantes figuras dos campos econômico e militar dos EUA têm realizado um
tremendo esforço para manter separadas a Rússia e a China, que reforçaram,
recentemente, a aliança contra os norte-americanos.
– Há 50 anos, Richard Nixon e Henry Kissinger persuadiram a China a se virar
contra a União Soviética e se aliar aos EUA. A pergunta que se faz agora é
retórica, se a cooperação entre Rússia e China será renovada em uma aliança
contra a América – disse Estulin, lembrando o tratado de US$ 400 bilhões entre
russos e chineses na compra do gás da Gazprom.
A questão energética sobre a distribuição do gás produzido na Rússia para as
nações europeias, passando pela crise na Ucrânia, foi outras das questões
centrais no encontro do Clube de Bilderberg.
Leia Também no Correio do Brasil: Acordo entre Rússia e China altera equilíbrio
econômico mundial
– A administração norte-americana tem forçado os países europeus a impor cada
vez mais sanções à Rússia, enquanto países como a França e a Alemanha entendem
que, ao impor tais sanções, colocam em risco as próprias economias. O que
franceses e alemães querem é saber dos EUA, exatamente, como os Estados europeus
serão abastecidos com o gás que, atualmente, recebem da Rússia. A Alemanha, em
especial, começa a suspeitar que EUA e Rússia têm manipulados os fatos, por
debaixo dos panos, e está tratando de sair de cena, com a desculpa de que a
Ucrânia está fora de controle – afirmou o jornalista investigativo.

O Clube de Bilderberg foi fundado na década de 50Os integrantes europeus do
Clube entendem que a Ucrânia dependerá da Rússia para um possível – ainda que
mau – acordo para sua subsistência; e os integrantes norte-americanos do
Bilderberg têm tentado de tudo para manter russos e ucranianos separados,
prolongando a crise na região. A preocupação dos europeus, no seleto encontro de
Copenhagen, que lhes têm tirado o sono, é o crescimento do Irã e o acordo
sino-russo.
– Hoje, Rússia e China têm acertado suas diferenças e estão em vias de formar a
maior potência regional na Ásia, o que o Clube entende como ameaça direta ao
capitalismo ocidental – afirmou o autor.
O Clube Bilderberg foi fundado em 1954 e, desde então, vem realizando suas
reuniões como forma de promover o diálogo entre a Europa e os EUA. Ao todo,
participam entre 120 a 150 líderes políticos e influentes empresários nas áreas
da indústria, finanças e mídia; além de acadêmicos, dos encontros anuais para
discutir assuntos como política externa, tecnologia, Oriente Médio e África. É
considerado, por especialistas, como o encontro mais secreto do mundo, tamanha é
a segurança e os ritos que seguem a tradição do Clube.

In:
http://correiodobrasil.com.br/destaque-do-dia/bilderberg-lideres-da-europa-e-eua-em-reuniao-secreta-preveem-conflito-armado/708589/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=b20140606
5/6/2014

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Las cooperativas le proporcionan a la gente hambre de democracia**



En Estados Unidos, el creciente movimiento de empresas en manos de los
trabajadores va más allá de fortalecer la economía; son verdaderas escuelas de
construcción de nuevas instituciones.

Clayton Conn

Suponemos que vivimos en una democracia, pero es realmente
lamentable que la mayoría de la gente tiene que dejarla en la puerta del lugar
donde pasan la mayor parte de sus horas”, afirma John Duda, coordinador de
comunicación del grupo de defensa de cooperativas Democracy Collaborative.
Desde el año 2000, Democracy Collaborative formula estrategias para promover la
expansión de la democracia en el trabajo y para “horizontalizar” la riqueza y el
capital dentro de los Estados Unidos. Mientras la mayoría de los estadounidenses
siguen padeciendo la crisis económica latente, golpeados por los constantes
ciclos de auge y caída del capitalismo, muchos recurren a las cooperativas –y a
ser trabajador propietario del trabajo- como un modelo económico más viable,
equitativo y democrático que mejorará su vida cotidiana.
El concepto general de la cooperativa es que se trata de una empresa donde los
poderes de propiedad y toma de decisiones son compartidos democráticamente. Esto
se traduce en mantener el poder y el capital en manos de la comunidad, en lugar
de las de una élite minoritaria que goza de estos poderes y privilegios
desterritorializados.
En los Estados Unidos hay muchos tipos de cooperativas, que suman más de 29 mil
284 empresas, incluyendo de crédito, vivienda y alimentos, con 223 como
cooperativas de trabajadores específicamente, donde los empleados/propietarios
tienen una voz igual en el proceso de toma de decisiones e igualdad de
participación en la propiedad de la empresa. Aunque esta última cifra
corresponde a cerca del 1 por ciento de las empresas cooperativas
estadunidenses, de acuerdo con Duda “hay razones para creer en un crecimiento
significativo en el horizonte”. Afirma que esta predicción se basa en dos
razones principales, una basada en una mayor organización y una estrategia
liderada por activistas de cooperativismo y el otro debido a una tendencia
creciente de las “conversiones” de negocios.
“Han pasado sólo diez años desde la formación de una red nacional de
cooperativas de trabajo”, explica el experto. Esta relativamente joven red,
conocida como la Federación de Estados Unidos de Cooperativas de Trabajo
(USFWC), “puede proporcionar asistencia técnica, asesoría financiera, conexión
de las personas con las mejores prácticas, etcétera. Lo que se ve con este tipo
de federaciones en otros lugares es que son claves para el crecimiento del
sector de cooperativas de trabajo”, continúa.
Debido a los efectos dolorosos del reciente colapso económico, la USFWC y otros
activistas y defensores de cooperativismo duplicaron su trabajo para canalizar
la creación de capacidades, los recursos y la financiación en este creciente y
popular modelo de las cooperativas de trabajo.
La otra cuestión que apoya la predicción de Duda es el creciente número de
“conversiones de negocios”, que es cuando los propietarios venden la empresa a
los empleados, quienes se estructuran y funcionan como una cooperativa de
trabajo, explica Melissa Hoover, directora ejecutiva de USFWC en una entrevista
publicada por el Democracy Collaborative. Muchas de estas conversiones pueden
tomar muchas formas y, a menudo se llaman “compras” o “transiciones de negocio”.
En los próximos años y décadas, hombres y mujeres de la generación de “baby-
boomers”, que son los dueños de negocios, se jubilarán. Para Hoover y otros
activistas del cooperativismo, esto abre muchas posibilidades y es una “gran
oportunidad para salvar empresas y puestos de trabajo que de otro modo, se
perderán si el dueño cierra las puertas o vende el negocio”. Utilizando leyes de
impuestos y otros incentivos, muchos de estos activistas de cooperativismo
tienen éxito en “convertir” las empresas que se consideran pilares y el capital
de anclaje de la comunidad, en cooperativas de trabajadores.
Un ejemplo destacado de una conversión de negocios fue la muy publicitada
ocupación de la fábrica Republic Windows and Doors por sus trabajadores, y su
compra eventual por ellos mismos para formar la cooperativa de trabajo New Era.
La cooperativa, ubicada en Chicago, es propiedad de los trabajadores, en su
mayoría de la gente de color (latinos y afroamericanos), que son marginados
socialmente y que representan el perfil del movimiento cooperativista en
expansión.
De acuerdo con Duda, el USFWC prioriza sus esfuerzos en estas poblaciones, que
son también las más marginadas económicamente. “Si hay gente a quien afecta peor
el capitalismo, es ella la que en última instancia va a beneficiarse de las
cooperativas de trabajo”.
Estos esfuerzos están dando resultados, ya que muchas de las cooperativas nuevas
y más exitosas están en los sectores de atención domiciliaria y de servicios,
que ocupan principalmente a mujeres de color e inmigrantes. Duda explica que
esto “rompe el estereotipo de una cooperativa formada básicamente por personas
relativamente privilegiadas”, que a menudo son dueños de empresas pequeñas e
independientes del sector de los alimentos o son minoristas.
Este paso de lo aparentemente novedoso y de privilegio al desafía al sistema
planteado por los de más abajo se refleja en otro ejemplo dado por Duda. Chokwe
Lumumba, ex alcalde de Jackson, Mississippi, y recientemente fallecido, fue un
activista de los derechos civiles “que no escondió su política revolucionaria”,
de acuerdo con Duda. Puso en marcha un plan de desarrollo económico radical de
la ciudad para tratar de resolver las diferencias económicas extremas.
Conocida como “economía solidaria”, la propuesta de Lumumba fue capaz de
convencer a la comunidad empresarial de la ciudad de abrazar a las cooperativas
de trabajo como un medio pragmático para asegurar que el capital se mantuviera
dentro de la ciudad. Esto se debe a que “las ciudades a menudo llevan la peor
parte de la austeridad”, explica Duda, y por lo tanto, buscan a las subvenciones
mediante la atracción de empresas o la inversión en el fortalecimiento de la
economía local.
Aunque parece un medio práctico para que el sector empresarial se mantenga
solvente y con ganancias, los efectos económicos y sociales a largo plazo se
sentirán profundamente, afirma el activista. “Una vez que las personas ya están
trabajando y emocionadas dentro de un contexto en el que no sólo tienen voz y
voto, sino que en realidad son los dueños, es difícil volver atrás. Este tipo de
estructuras le dan a la gente un apetito por más democracia”, dice Duda.
A pesar de que el movimiento de cooperativas de trabajo en Estados Unidos sigue
siendo pequeño en el contexto más amplio de la economía, y del hecho de que se
enfrenta retos fundamentales como ser una empresa anticapitalista que opera
dentro del paradigma del capitalismo global, su crecimiento producirá efectos
mucho más allá de una economía con eficiencia. Como refiere Duda, las
cooperativas de trabajadores “entrenan a la gente para organizarse sobre la
línea de la construcción de instituciones a largo plazo”, lo que puede resultar
en cambios sistémicos fundamentales que arraigan un nuevo conjunto de reglas más
participativas para la democracia.

In:
http://desinformemonos.org/2014/05/las-cooperativas-le-proporcionan-a-la-gente-hambre-de-democracia/
---
**
As cooperativas de trabalho associado são valiosas para os trabalhadores. Elas têm a propriedade de demonstrar, contra o mantra estabelecido, o caráter ocioso dos capitalistas ou seus "managers". Possibilitam aos trbalhadores meios de vida em situações que em que estes não etão presentes no mercado devido ao desemprego, à generalização do trabalho "lixo" ou a outros fatores. Podem ser, dependendo do arranjo político endógeno, um fator de aprendizado democrático, assim como instigador da consciência de classe. Em certos casos, como no Movimento dos Trabalhadores Sem Terra no Brasil, são organizações estratégicas no auxílio ao Movimento, bem como à presevação da economia política por ele engendrada. No entanto, a sua sobrevivência e desenvolvimento sob a hegemonia do capital é problemática. E em última análise, a sua sobrevivência e evolução, não prescinde de que o capitalismo seja transcendido.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Estamos listos para empezar a producir


Ignacio Soto (AGENCIA WALSH)

Hace tres meses que los obreros de la fábrica de aberturas Natale, del barrio
Belgrano de Morón sur, recibieron una carta documento en la cual los dueños les
comunicaban la situación de suspenso. La patronal argumentó que venderían la
histórica fábrica. Sin embargo, lo que realmente escondían era un abandono y
vaciamiento de la misma. Hasta que los obreros, avisados por los vecinos,
decidieron tomar la fábrica y las máquinas.

“En el momento que se dé vamos a empezar a producir, vamos a hacer lo que
siempre hicimos, pero sin patrones”, comenta Hugo Argañaraz, delegado de fábrica
Natale.

Hugo Bussi, trabaja desde hace seis años en esta fábrica. Para él la experiencia
en la empresa es buena, los más “antiguos” lo ayudaron a pulirse en el oficio.
Él se dedica a la carpintería fina de puertas y ventanas.

El conflicto se remonta a tres meses para atrás. Empezaron con una carta de
suspensión de 30 días. Los trabajadores decidieron acompañar a la empresa, sólo
fueron al ministerio de Trabajo para resolver el tema del cobro. Cumplidos los
30 días recibieron otra suspensión de 45 días.

Para Hugo la situación se le hace difícil, tiene un hijo de tres años. Por ahora
trabaja de remisero desde las 6 de la tarde hasta las 6 de la mañana. Cuando
termina su jornada se va a dormir a la fábrica unas horas.

Para él la fábrica tiene un valor sentimental, su padre trabajo en ella 50 años,
nada más y nada menos que medio siglo. Entro a trabajar cuando tenía tan sólo 14
años.

- Desde la Agencia Walsh, le preguntamos si se imagina manejando la fábrica,
como los obreros de la ex cerámica Zanón en Neuquén, hoy FASINPAT - Fábrica sin
Patrón-

- Hugo: Ser dueños no, ser cooperativa sí. Manejarla nosotros, administrarla
nosotros, como siempre lo hicimos. Lo único que sabían hacer ellos era facturar.

- ¿No te sentís incapaz para hacerlo?

- Hugo: No, no. Teniendo 25 años, con seis que estoy adentro sé hacer de todo.

La toma se hace con la ayuda del barrio que le acerca comida a los trabajadores
y le hicieron el aguante en el último festival del pasado sábado 17 de mayo en
la plaza del barrio, en el cual vendieron choripanes y empanadas.

Tito Argañaraz es el delegado de la fábrica. Hace 30 años que está trabajando en
Natale y además es tesorero del sindicato de la Madera. También nos marca que no
hay quiebra sino abandono empresarial. “Después de la suspensión, cometimos el
error de ir todos al ministerio de trabajo y ellos aprovechaban para sacar
puertas y algunas máquinas, hasta que nos avisaron los vecinos y tomamos la
fábrica.” Un claro vaciamiento contra los trabajadores.

“Los dueños nos habían dicho que la fábrica la iban a tomar inversores de otro
rubro, pero era todo mentira”.

Hace tres meses que no cobran

“La propuesta era de indemnizarnos por artículo 47-por fuerza mayor-. Y es la
mitad que nos corresponde” pero remarca que los dueños nunca hicieron una
presentación al ministerio de Trabajo.

Con esta propuesta de indemnización cobrarían el 20 ó 30 %, pero esa sumas no
les sirven para nada. Su NO es taxativo.

“Esta gente no es confiables para nada”, nos comenta Tito. Los dueños que
abandonaron la fábrica son Ernesto Nicolino y Fernando Santos.

El aguante

En estos momentos el aguante se lo están haciendo el barrio Belgrano, los
gremios y desde municipalidad de Morón. “Apoyo moral, espiritual y mercadería”,
cuenta Tito Argarañaz y agrega: “Acá, con el trabajo de esta fábrica crié a
cinco de mis hijos, ya son hombres. Soy conocido por todo el barrio:
políticamente, gremial mente,” yo quiero que esto sea carpintería Natale”.

Magnitud

La fábrica Natale llegó a producir entre 600 y 700 puertas por día cuando estaba
a full.

La instalación ocupa media manzana. Cuando llegaban los camiones con los
paquetes crudos de madera, no duraban un día. En la actualidad son 20 obreros,
en su esplendor hubo 70 personas trabajando.

In:

Argenpress
http://www.argenpress.info/2014/05/estamos-listos-para-empezar-producir.html
27/5/2014