quinta-feira, 8 de agosto de 2019

O último Império ocidental?







The Saker, /Unz Review/

"Veem as árvores, mas não veem a floresta" é boa metáfora para muitos
dos comentários que circulam sobre os últimos vinte e poucos anos pelo
planeta. E o período é notável pelo número genuinamente *tectônico *de
mudanças pelas quais passou o sistema internacional.




Tudo começou durante o que chamo de a "/Kristallnacht/
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Noite_dos_Cristais> [Noite dos Cristais]
da lei internacional", dia 30 de agosto-setembro de 1995, quando o
Império atacou os sérvios-bósnios, em direta e total violação dos mais
fundamentais princípios do Direito Internacional. Depois foi o 11/9, que
deu aos neoconservadores, segundo eles, o "direito" de ameaçar, atacar,
bombardear, matar, violar, sequestrar, assassinar, torturar, chantagear
e todas as demais práticas para fazer o mal a qualquer pessoa, grupo ou
país em todo o planeta, 'porque' "/somos a nação indispensável/" e "/ou
você está conosco ou está com os terroristas".

/Durante esses mesmos anos, vimos a Europa tornar-se colônia de 3ª
classe dos EUA, incapaz de defender sequer os interesses geopolíticos
europeus mais fundamentais, ao mesmo tempo em que os EUA tornou-se
colônia de 3ª classe de Israel e igualmente incapaz de defender sequer
os interesses geopolíticos mais fundamentais dos EUA.

Ainda mais interessante, se se observa esse passado próximo, ao mesmo
tempo em que EUA e União Europeia colapsavam sob o peso dos próprios
erros, Rússia e China estavam em clara ascensão. Rússia, principalmente
em termos militares (ver aqui
<http://blogdoalok.blogspot.com/2018/03/the-saker-as-armas-da-russia.html> e aqui
<http://blogdoalok.blogspot.com/2018/03/implicacoes-dos-novos-sistemas-de-armas.html>),
e China principalmente em termos econômicos.

Mais crucialmente importante, Rússia e China gradualmente concordaram em
se tornar corpos simbiontes
<http://redecastorphoto.blogspot.com/2014/12/documento-dupla-helice-china-russia.html>,
processo pelo qual, na minha avaliação, tornaram-se ambos ainda mais
fortes e mais significativos do que se os dois países se unissem
mediante algum tipo de aliança formal: alianças podem ser partidas
(especialmente quando esteja envolvida uma nação ocidental), mas
relacionamentos de simbiose de modo geral duram para sempre (sim, sim,
nada dura para sempre, é claro, mas quando o tempo de vida mede-se em
décadas, uma relação simbiótica é o equivalente funcional de "para
sempre", pelo menos em termos de análise estratégica). */Os chineses
desenvolveram recentemente uma expressão oficial, especial e única para
caracterizar esse relacionamento com a Rússia. Falam de uma "Parceria
estratégica abrangente de coordenação para a nova era."/*

É o pior pesadelo dos anglo-sionistas, e a respectiva mídia sionista faz
de tudo para ocultar o fato de que Rússia e China são, sim, para todas
as finalidades práticas, aliadas estratégicas. Tentam até,
empenhadamente, convencer o povo russo de que a China seria ameaça à
Rússia (usam os argumentos mais ridículos, mas nada disso é importante).
A coisa não funcionará, mesmo que alguns russos tenham alguns medos
relacionados à China, porque o Kremlin sabe dos fatos e da verdade
desses assuntos e continuará a aprofundar cada vez mais o relacionamento
simbiótico da Rússia com a China. E não só isso.

Hoje já parece que o Irã está sendo admitido gradualmente nessa aliança.
Já temos disso a confirmação mais oficial possível, em palavras do
general Patrushev enunciadas em Israel
<http://oempastelador.blogspot.com/2019/07/para-derrubar-boatos-russia-nao-esta.html?q=saker+derrubar+boatos> depois
de se reunir com funcionários dos EUA e de Israel: "/O Irã sempre foi e
continua a ser nosso aliado e parceiro/."

Poderia estender muito a lista dos vários sinais do colapso do Império
Anglo-sionista, e dos sinais de que uma nova ordem paralela
internacional mundial está em processo de construção bem aí, diante de
nossos olhos. Já fiz isso muitas vezes e não repetirei aqui (os
interessados podem clicar aqui
<http://www.unz.com/tsaker/mr-maga-and-the-end-of-western-civilization/> e aqui
<http://www.orientemidia.org/como-o-oriente-pode-salvar-o-ocidente/>).
Direi então que os anglo-sionistas chegaram a um estágio terminal de
degeneração no qual o "se" da pergunta é substituído por "quando?". Mas
ainda mais interessante seria examinar o "quê?": o que realmente
significa o colapso do Império Anglo-sionista?

Raramente vejo essa questão ser discutida; e quando é, a discussão só
visa a repetir e repetir, para 'garantir' que o Império não, de modo
algum, jamais colapsará; que é poderoso demais, rico demais e grande
demais para desandar, e que as atuais crises políticas nos EUA e Europa
resultarão em mera transformação reativa do Império, tão logo os
problemas específicos que o atingem tenham sido devidamente resolvidos.
Esse tipo de irracionalidade delirante absolutamente nada tem a ver com
a realidade. E a realidade do que tem lugar agora, aí, diante de nossos
olhos é muito, muito, muito mais dramática e seminal do que alguns
poucos problemas simples, que ganhem remendos aqui e ali, e tudo possa
continuar alegremente como sempre foi.

Um dos fatores que nos induzem a uma espécie de relaxamento complacente
é que já vimos tantos outros impérios colapsar ao longo da história
para, em seguida, serem substituídos bem rapidamente por outro império,
que não conseguimos nem imaginar que o que acontece hoje é fenômeno
muito mais dramático: estamos vivendo o trânsito gradual rumo à
irrelevância, de uma civilização inteira!

Mas comecemos por definir nossos termos. Diferente do que ensinam
escolas ocidentais obcecadas com engrandecer o 'ocidente', a civilização
ocidental não tem raízes em Roma nem, e menos ainda, na Grécia antiga.
Fato é que a civilização ocidental nasceu da Idade Média em geral e,
muito especialmente, do século 11, o qual, coincidentemente assistiu à
seguinte sequência de passos empreendidos pelo Papado:


1054: Roma separa-se do resto do mundo cristão, no chamado Grande Cisma
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Cisma>;

1075: Roma adota os chamados Decretos Papais
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Dictatus_Papae>; e

1095: Roma lança a Primeira Cruzada
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Cruzada>.


Esses três eventos tão intimamente relacionados entre eles têm
importância absolutamente decisiva para a história do ocidente. O
primeiro passo que o ocidente tinha de dar era libertar-se da influência
do restante do mundo cristão. Tão logo foram quebrados os laços entre
Roma e o mundo cristão, foi fácil e lógico que Roma decretasse que o
Papa passava a ter os mais incríveis superpoderes, maiores que tudo que
qualquer bispo até então se atrevera a imaginar. E por fim, a nova
autonomia e a ânsia de controle absoluto sobre todo o planeta resultou
no que bem se pode definir como "a primeira guerra europeia
imperialista": a Primeira Cruzada.

Dito sucintamente: *os francos do século 11 foram os verdadeiros pais da
moderna Europa "ocidental"; e o século 11 marcou a primeira "guerra
estrangeira"* (para usar termo moderno) *imperialista.* Ao longo dos
séculos mudou o nome do Império dos Francos, mas não a natureza, a
essência ou o propósito. Hoje, os verdadeiros herdeiros dos francos são
os anglo-sionistas (para discussão realmente *soberba* do papel dos
francos na destruição da verdadeira, antiga civilização cristã romana do
ocidente, ver aqui
<https://thesaker.is/putin-the-pope-the-schism-franks-and-romans/>).

Ao longo dos mais de 900 anos seguintes, muitos diferentes impérios
substituíram o Papado dos Francos, e muitos países europeus viveram
"momentos de glória" com colônias no além-mar e alguma espécie de
ideologia que, por definição e axioma se autodeclarava o único bem (ou
mesmo "o único cristão"), com o resto do planeta vivendo em condições
não civilizadas e de modo geral terríveis, as quais só poderiam ser
mitigadas pelos que *sempre* acreditaram que /eles/, a religião /deles/,
a cultura /deles/ ou a nação /deles/ teriam algum tipo de papel
messiânico na história (chamem de "destino manifesto" ou de "a carga que
o homem branco tem de suportar às costas", ou de/Kulturträger/
<https://en.wiktionary.org/wiki/Kulturtr%C3%A4ger> [al. no orig.,
"portador de cultura"]), todos /eles/ sempre em busca de um /Lebensraum/
<https://en.m.wikipedia.org/wiki/Lebensraum> [al. no orig.,
aprox. "espaço vivo" <https://en.m.wikipedia.org/wiki/Lebensraum>,
"habitat"] muito perfeitamente merecido; "eles" aí, são os europeus
ocidentais.

Parece que a maioria das nações europeias tentaram a sorte na empreitada
de converter-se em império e em guerras imperialistas. Mesmo miniestados
modernos como Holanda, Portugal ou Áustria já tiveram seus dias como
temidas potências imperiais. E cada vez que caiu um Império Europeu, lá
estava outro para assumir aquele lugar.

Mas... e hoje?

Quem, imaginam vocês, poderia criar império suficientemente poderoso
para preencher o vazio resultante do colapso do Império Anglo-sionista?

A resposta canônica é "China." Para mim, não faz sentido, é nonsense.

Impérios não podem ser exclusivamente comerciais. O comércio, só ele,
não basta para manter viável um império. Impérios também precisam ter
força militar, mas o tipo de força militar que torna fútil qualquer
resistência. A verdade é que NENHUM país moderno está sequer próximo de
ter as capacidades necessárias para tomar o papel dos EUA na função de
Hegemon Mundial: nem se se somassem as forças militares russas e
chinesas se chegaria àquele resultado, porque esses dois países não têm:


1) suficiente rede mundial de bases (que os EUA têm, entre 700 e 1.000
bases, dependendo de como você conte);

2) capacidade importante para projetar poder estratégico por ar e por mar; e

3) suficiente rede dos chamados "aliados" (na verdade, fantoches
coloniais) que sempre ajudarão em qualquer deslocamento de força militar.


/Mas ainda mais crucialmente importante que isso:* China e Rússia não
têm desejo algum de voltar a ser império. *Esses dois países /finalmente
compreenderam a verdade eterna segundo a qual impérios são como
parasitas que se alimentam do corpo que os hospeda.

Sim, não apenas */todos/* os impérios
são *sempre* e *inerentemente* maus, como tampouco seria difícil
demonstrar que */as primeiras vítimas do imperialismo são sempre as
nações que "hospedam o império", /*por assim dizer.

Ah, sim, claro, chineses e russos desejam que o próprio país seja
realmente livre, poderoso e soberano; e compreendem que isso só é
possível quando o país conta com forças armadas realmente capazes de
conter um ataque, mas nem China nem Rússia tem qualquer interesse em
policiar o planeta ou em impor mudança de regime a outros países. A
única coisa que China e Rússia realmente querem é salvarem-se, os
próprios países, da agressão norte-americana. É isso.

Essa nova realidade é especialmente visível no Oriente Médio, onde
países como EUA, Israel ou Arábia Saudita (o chamado "Eixo da
Gentileza") só tem capacidade militar para massacrar civis ou destruir a
infraestrutura dos países, mas não tem suficiente capacidade militar
para lançar-se contra as duas reais potências regionais - Irã e Turquia
-,*porque essas potências regionais têm poder militar moderno e efetivo*.

Mas o teste crucial e mais revelador foi a tentativa dos EUA para
subjugar a Venezuela e forçá-la de volta à submissão. Apesar de todas as
ameaças fedendo a enxofre feitas por Washington, todo(s) o(s) "plano(s)
(?) de Bolton" para a Venezuela resultaram em muito embaraçoso fracasso.

Se a Única "Hiperpotência" do planeta não consegue subjugar nem um país
tremendamente enfraquecido e bem ali, no seu quintal, e país que
enfrenta crise gravíssima... fica provado que as Forças Armadas dos EUA
estão obrigadas a se conformar com só invadir pequenos países como
Mônaco, Micronésia e talvez o Vaticano (supondo que a Guarda Suíça
resista à tentação de dar uns tiros no traseiro dos representantes da
"nação indispensável").

Fato é que um número crescente de países de tamanho médio estão hoje
adquirindo gradualmente os meios para resistir a um ataque dos EUA.

A pergunta é: em que pé estamos, se já se lê escrito pelos muros que se
esgota o tempo do Império Anglo-sionista, e não se vê país à vista para
substituir os EUA como hegemon imperial mundial?

A resposta é que */1.000 anos de imperialismo europeu estão chegando ao
fim!/*

Dessa vez, nem Espanha nem Reino Unido nem Áustria tomarão o lugar dos
EUA nem tentarão tornar-se hegemon planetário. De fato, não há nenhuma
nação europeia que tenha capacidade militar sequer remotamente capaz de
promover ações do tipo "pacificação colonial", indispensáveis para
manter colônias em estado de permanente desespero e terror. Os franceses
emitiram o último vagido na Argélia; o Reino Unido, nas Falklands; a
Espanha não consegue nem recuperar Gibraltar; e a Holanda nem tem
Marinha de verdade, da qual valha a pena falar. Quanto a países da
Europa central, estão muito ocupados lambendo botas do império
agonizante e não lhes resta tempo para cuidar de se converterem em
império (ok, talvez com exceção da Polônia, que sonha com algum tipo de
Império Polonês entre o Báltico e o Mar Negro. Que sonhem; sonham com
isso há séculos, e continuarão a sonhar com isso ainda por muitos outros
séculos...).

Agora compare as forças armadas europeias e o tipo de forças armadas que
os EUA podem encontrar na América Latina ou na Ásia. Há uma suposição
tão irrefletida de superioridade na maioria dos anglos, que sequer veem
completamente que países de médio e pequeno porte podem desenvolver
forças armadas suficientes para tornar impossível uma invasão dos EUA;
ou, pelo menos, para tornar qualquer ocupação proibitivamente cara em
termos de vidas humanas e dinheiro (ver aqui
<http://www.unz.com/tsaker/debunking-the-flagwaving-myths-about-an-attack-on-north-korea/>, aqui
<http://www.unz.com/tsaker/debunking-popular-cliches-about-modern-warfare/> e aqui
<http://www.unz.com/tsaker/u-s-against-iran-a-war-of-apples-vs-oranges/>).
Essa nova realidade também torna quase completamente inútil a típica
campanha de mísseis e ataques aéreos dos EUA: destruirão muitos prédios
e pontes, converterão as estações de TV locais ("pontos de propaganda",
na terminologia imperial) em pilhas gigantes de escombros fumegantes e
cadáveres, matam muitos inocentes, mas nem assim obterão algum tipo de
mudança de regime.

O fato a observar é que se aceitarmos que a guerra seja a continuação da
política por outros meios, também temos que admitir, que sob essa
definição, as forças armadas dos EUA são totalmente inúteis, pois não
conseguem ajudar os EUA a alcançar quaisquer objetivos políticos
significativos.

Verdade é que, em termos militares e econômicos, o "ocidente" já está
derrotado. E não faz qualquer diferença que quem compreende isso não
diga, e que os que falam sobre isso (só para negar, é claro) nada
compreendam do que está realmente acontecendo.

Em teoria, poderíamos imaginar que algum tipo de líder forte chegaria ao
poder nos EUA (os outros países ocidentais são totalmente irrelevantes),
esmagaria neoconservadores, como Putin esmagou os neoconservadores na
Rússia, e evitaria o colapso brutal e repentino do Império. Mas não vai
acontecer. Se há coisa que as últimas duas décadas provaram para além de
qualquer dúvida razoável é que o sistema imperial é totalmente incapaz
de se autorreformar, apesar de gente como Ralph Nader, Dennis Kucinich,
Ross Perrot, Ron Paul, Mike Gravel ou, mesmo ,Obama e Trump - todos
esses homens que prometeram mudança significativa e que foram realmente
impedidos pelo sistema de alcançar qualquer resultado significativo.

Implica dizer que o sistema ainda é 100% eficaz, pelo menos dentro dos
EUA: os neoconservadores precisaram de menos de 30 dias para esmagar
Trump e todas as suas promessas de mudança. E já conseguiu, até agora,
que Tulsi Gabbard se curvasse e cedesse à ortodoxia e aos mitos
políticos absolutamente obrigatórios dos neoconservadores.

Assim sendo, o que acontecerá a seguir?

Simplificando: *a Ásia substituirá o Mundo Ocidental. Mas - e isso é
crucial - desta vez nenhum império aparecerá para substituir o Império
Anglo-sionista*. Em vez disso, uma coalizão fluida e informal de países
principalmente asiáticos oferecerá um modelo econômico e civilizacional
alternativo e imensamente atraente para o resto do planeta.

Quanto ao Império, ele se dissolverá muito efetivamente; e lentamente se
tornará irrelevante. Tanto os americanos como os europeus terão, pela
primeira vez na história, de se comportar como pessoas civilizadas.
Significa que o seu tal tradicional "modelo de desenvolvimento" (saquear
todo o planeta e roubar tudo de todos) terá de ser substituído por outra
coisa, alguma espécie de arranjo pelo qual norte-americanos e europeus
terão de trabalhar como todos os outros, para acumular riqueza. Essa
ideia horrorizará absolutamente as atuais elites dominantes imperiais,
mas aposto que será bem recebida pela maioria dos povos, especialmente
quando este "novo" modelo (para eles) provar que gera mais paz e
prosperidade do que o anterior!

De fato, se os neocons não explodirem o planeta num holocausto nuclear,
EUA e Europa sobreviverão, mas somente depois de um doloroso período de
transição, que pode durar uma década ou mais. Um dos fatores que
complicarão imensamente a transição do Império para a situação de país
"normal" é profunda influência que tiveram sobre as culturas ocidentais
os 1.000 anos de imperialismo, especialmente sobre os EUA já
completamente megalomaníacos (a série de conferências do Professor John
Marciano, "Empire as a way of life" [Império como modo de vida
<https://thesaker.is/a-most-interesting-series-of-lectures-and-a-real-treat-for-all/>] discute
magnificamente esse tópico - recomendo vivamente!). Um milênio de
lavagem cerebral não é coisa que se supere facilmente, especialmente
quando já penetrou no nível subconsciente.

Finalmente, a reação bastante desagradável que se vê contra o
multiculturalismo imposto pelas elites dominantes ocidentais, não é
menos patológica, para começar, este o próprio multiculturalismo
corrosivo. Refiro-me às novas teorias que "revisitam" a Segunda Guerra
Mundial e encontram inspiração em tudo que tenha a ver com o
Terceiro/Reich/, incluindo um renascimento das teorias
racistas/racialistas.

É especialmente ridículo (e ofensivo) quando vem de gente que tenta
fazer-se passar cristãos, mas cujos lábios, em vez de orações, só
bobagens semelhantes às de 1488. Essas pessoas representam precisamente
o tipo de "oposição" que os neoconservadores amam ter pela frente, e que
os neoconservadores sempre (e quando digo "sempre" é *sempre* mesmo)
acabam derrotando. Esta oposição (que se faz de oposição; de fato, são
idiotas úteis) permanecerá forte enquanto permanecer bem financiada (o
que ela hoje é). Mas assim que a atual megalomania ("/Nós somos a Raça
Branca! Nós construímos Atenas e Roma! Nós somos Evropa!!!/") cair de
cara inevitavelmente no chão, as pessoas recuperação a sanidade e
perceberão que o atual estado do ocidente não é coisa que se possa
atribuir a algum bode expiatório externo. A triste verdade é que o
ocidente fez tudo isso a si mesmo (principalmente por orgulho e
arrogância!).

As atuais ondas de imigrantes nada são além de 1.000 anos de carma de
sofrimento e dor sendo devolvidos para onde tudo começou. Não quero
sugerir que as pessoas no Ocidente seriam individualmente responsáveis
pelo que está acontecendo agora. O que digo é que todas as pessoas no
Ocidente vivem hoje com as consequências de 1.000 anos do mais
desenfreado imperialismo.

Será difícil, muito difícil, mudar de rumo, mas uma vez que essa é
também a única saída viável, é o que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde.

Mas ainda assim, há esperança. *Se* os neoconservadores não explodirem o
planeta, e *se* a humanidade tiver tempo suficiente para estudar a
própria história e entender onde enveredou pela trilha errada, então
talvez, apenas /talvez/, haja esperança.

Acho que todos podemos encontrar consolo no fato de que por pior, mais
feio, estúpido e maligno seja ainda o Império Anglo-sionista, é o
último. E não haverá outro império para substituí-lo.

Em outras palavras, se sobrevivermos ao império atual (o que
absolutamente não é garantido!), então, pelo menos, poderemos afinal,
olhar para um planeta sem impérios, feito só de países soberanos.

Entendo que esse é futuro pelo qual vale a pena lutar.

[assina] The Saker


In
PORT.PRAVDA.RU
http://port.pravda.ru/mundo/09-08-2019/48329-ultimo_imperio-0/#
1/8/2019

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A Operação Lava Jato e os objetivos dos Estados Unidos para a América Latina e o Brasil



 
Embaixador
 Samuel Pinheiro Guimarães


Colunista Samuel Pinheiro Guimarães afirma que a campanha dos EUA para
derrubar um governo contrário aos seus interesses ocorre em um processo
"autoritário", "perseguidor de inimigos políticos", "opressor da
população" e "violador da liberdade de imprensa"; segundo ele, a Lava
Jato teve papel decisivo para ajudar os norte-americanos com uma
condução processual no Brasil "altamente heterodoxa e ilegal"


1. Os objetivos estratégicos dos Estados Unidos para a América Latina e,
em especial para o Brasil, são importantes para compreender a política
externa e interna**brasileira, inclusive a Operação Lava Jato.

*** *** ***

2. A América Latina foi declarada zona de influência exclusiva de fato
americana pela Doutrina Monroe, em mensagem do Presidente dos Estados
Unidos ao Congresso americano, em 02/12/ 1823.

3. Esta Doutrina corresponde a uma visão e convicção histórica, nos
Estados Unidos, de direito ao exercício de uma hegemonia natural sobre a
América Latina, como o Corolário Roosevelt, de 1904, viria a explicitar.

4. A partir da Guerra de Independência (1775-1783) e depois da formação
da União em 1787-1789 os Estados Unidos passam a procurar excluir as
potências europeias de seu território continental (Louisiana - 1803,
Florida - 1819, Oregon - 1845, Alaska -1867) e a absorver esses
territórios na União Americana.

5. A expulsão pelos americanos dos povos indígenas de seus territórios
originais se realiza com intensidade após a revogação da Proclamation
Line de 1763, em decorrência do Tratado de Paz de Paris (1783) entre a
Grã-Bretanha e a Confederação, que separava o território das Treze
Colônias das terras indígenas além dos Apalaches, até o Mississipi.

6. A influência econômica, política e militar americana sobre a América
Central e os países do Caribe foi e é avassaladora, com intervenções e
ocupações militares, por vezes longas, e o patrocínio de ditaduras,
sanguinárias.

7. A Guerra contra o México (1848) levou à anexação de metade do
território mexicano e, com a chegada ao Pacífico, permitiu a
consolidação do território continental dos Estados Unidos do Atlântico
ao Pacífico.

8. A Guerra contra a Espanha (1898) levou à ocupação de Cuba, à anexação
de Porto Rico, das Filipinas e de Guam e afirmou os Estados Unidos como
potência asiática.

9. A “criação” do Estado do Panamá e da Zona do Canal, que foi
território americano até 2000, permitiu a ligação marítima rápida entre
a Costa Leste e a região do Golfo com a Costa Oeste da América do Norte,
tanto comercial como militar, através do Canal concluído em 1914, e
administrado soberanamente pelos EUA.

10. Pelas características de sua localização geográfica, a zona
estratégica mais importante para os Estados Unidos é o Caribe, a América
Central e o norte da América do Sul.

*** *** ***

11. Os objetivos estratégicos permanentes dos Estados Unidos para a
América Latina são:

/1./ /impedir que Estado ou aliança de Estados possa reduzir a
influência americana na região;/

/2./ /ampliar sua influência cultural/ideológica sobre os sistemas de
comunicação de cada Estado;/

/3./ /incorporar todas as economias da região à economia americana;/

/4./ /desarmar os Estados da região;/

/5./ /manter o sistema regional de coordenação e alinhamento político;/

/6./ /impedir a presença, em especial militar, de Potências Adversárias
na região;/

/7./ /punir os Estados que contrariam os princípios da liderança
hegemônica americana;/

/8./ /impedir o desenvolvimento de indústrias autônomas em áreas avançadas;/

/9./ /enfraquecer os Estados da região;/

/10./ /eleger lideres políticos favoráveis aos objetivos americanos./

*** *** ***

12. O principal Estado da região pelas dimensões de território, de
recursos naturais, de população, de localização geográfica é, sem
dúvida, o Brasil. Principal também pelos desafios que apresenta devido à
possibilidade de graves turbulências futuras, sociais, econômicas e
políticas.

13. Devido a este caráter principal, os objetivos dos Estados Unidos são
objetivos para a América Latina em geral, porém se aplicam em especial
ao Brasil.

14. O primeiro objetivo estratégico americano é impedir a emergência e
fortalecimento de qualquer Estado ou aliança de Estados que possam se
opor à presença ou afetar a influência política, econômica e militar
americana na região.

15. Para alcançar este objetivo tratam os Estados Unidos de aguçar e
reacender eventuais rivalidades (históricas ou recentes) entre os
maiores Estados da região, isto é, entre o Brasil e a Argentina, não
estimular o conhecimento de suas histórias e culturas, estimuladas as
rivalidades através da ação de lideranças locais que buscam obter
tratamento privilegiado para seus países junto aos Estados Unidos
(Carlos Menem e Jair Bolsonaro são exemplos desse comportamento).

16. O segundo objetivo americano é manter e ampliar sua presença
cultural/ideológica nos sistemas de comunicação de cada Estado da região
como instrumento para sua maior influência política, econômica, militar
e cultural.

17. Essa presença aumenta sua capacidade de obter melhores condições
legais (fiscais e regulatórias) para a ação de suas megaempresas
(petroleiras, por exemplo); para obter contratos de venda de
equipamentos militares; para lograr alinhamento e apoio às iniciativas
americanas em nível mundial; para promover a “simpatia” pelos Estados
Unidos na sociedade local; para obter o apoio da sociedade e dos
governos para seus objetivos estratégicos.

18. Este objetivo tem como instrumentos a defesa da mais ampla liberdade
de imprensa e de Internet e para a livre ação das ONGS “internacionais”
e “altruístas”; dos programas de formação de pessoal, desde os
institutos de língua aos intercâmbios; às bolsas de estudo; ao
recrutamento de talentos; à aquisição de editoras para publicaçãos de
livros americanos; a hegemonia na programação de cinema e de TV; os
programas de formação de oficiais militares e lideranças políticas; e
recentemente a aquisição de instituições de ensino, em todos os níveis.

19. O terceiro objetivo dos Estados Unidos é incorporar todas as
economias dos Estados da região à economia norte-americana, de forma
neocolonial, no papel de exportadores de matérias primas e importadores
de produtos industriais.

20. Após o fracasso do projeto regional “multilateral” da ALCA, lançado
em 1994 e encerrado em 2005 na reunião em Mar del Plata, os Estados
Unidos passaram a promover a negociação de acordos bilaterais com cada
Estado latino-americano com dispositivos semelhantes aos da ALCA e até
aos EUA mais favoráveis. Verdade seja dita que o acordo de livre
comércio com o Chile fora assinado em 1994 e com o México e o Canadá em
1994.

21. O instrumento para alcançar este objetivo são os acordos bilaterais
de livre comércio que levam à eliminação das tarifas aduaneiras e à
abertura dos mercados dos Estados subdesenvolvidos nas áreas de
investimentos; de compras governamentais; de propriedade intelectual; de
serviços; de crédito e, às vezes, incluem cláusulas investidor-Estado.

22. Por sua vez, os Estados subdesenvolvidos da América Latina que
atingiram certo grau de industrialização não ganham acesso adicional aos
mercados de produtos industriais, pois as tarifas americanas são baixas,
existe a escalada tarifária e as medidas de defesa comercial, e o acesso
a mercados agrícolas é restringido pela legislação agrícola, americana
de subsídios e de proteção.

23. O acordo Mercosul/União Europeia será instrumental para a abertura
de mercados para os Estados Unidos sem ônus político pois, após sua
entrada em vigor, estarão criadas as condições para os Estados Unidos
reivindicarem ao Brasil e ao Mercosul igualdade de tratamento. Outros
países altamente industrializados como o Japão, a Coréia do Sul, o
Canadá e a China farão o mesmo e o Brasil não terá mais a tarifa como
instrumento de política industrial. O Mercosul desaparecerá.

24. O quarto objetivo estratégico dos Estados Unidos é desarmar os
Estados da região.

25. Os instrumentos para atingir este objetivo são a promoção da
assinatura do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e de outros
tratados na área química e biológica, e mesmo sobre armas convencionais;
a venda de equipamentos militares defasados a preços mais baixos e o
“estrangulamento” de eventuais indústrias bélicas locais; os acordos de
associação à OTAN; a transformação das Forças Armadas nacionais em
forças de caráter policial, voltadas para o combate ao narcotráfico e a
crimes transnacionais e, portanto, necessitando apenas de equipamento leve.

26. O quinto objetivo estratégico americano é manter o sistema de
segurança regional, a Organização dos Estados Americanos, reconhecido
pela Carta da ONU, onde tradicionalmente os Estados Unidos podem exercer
sua influência, contam com o auxílio do Canadá e de países da América
Central e assim podem tratar das questões regionais sem ir ao Conselho
de Segurança das Nações Unidas.

27. Outro instrumento para alcançar este objetivo é promover a
dissolução da UNASUL, como foro de solução de controvérsias concorrente
da OEA e como organização de cooperação em defesa, da qual os Estados
Unidos não participam.

28. O sexto objetivo dos Estados Unidos na América do Sul consiste em
impedir a presença de Estados adversários de sua hegemonia, e como tal
nomeados pelos próprios EUA, quais sejam a Rússia e a China, na região
latino-americana, em uma versão atual da Doutrina Monroe.

29. Segundo documentos oficiais americanos recentes a “China é um poder
revisionista” e a Rússia é um “Ator Maligno Revitalizado” (Indo-Pacific
Strategic Report, do Pentágono).

30. A presença russa e chinesa é especialmente temida na área militar,
inclusive por ameaçar a Costa Sul do território americano e os acessos
ao Canal do Panamá, via comercial e militar estratégica.

31. Um sétimo objetivo americano, importante para demonstrar sua
determinação de exercício de hegemonia na América Latina, é**punir,
dentro ou fora do sistema da OEA, com ou sem o apoio de outros Estados
da região, aqueles governos que contrariarem, em maior ou menor medida,
os princípios da liderança mundial americana:

· /ter economia capitalista, aberta ao capital estrangeiro, com
intervenção mínima do Estado;/

· /dar tratamento igual às empresas de capital nacional e estrangeiro;/

· /não exercer controle sobre os meios de comunicação de massa (TV etc);/

· /ter regime político de pluralidade partidária e eleições periódicas;/

· /não celebrar acordos militares com os Estados Adversários, quais
sejam a Rússia e a China;/

· /apoiar as iniciativas dos Estados Unidos./

32. A campanha política/econômica/midiática para promover a mudança de
regime (regime change) de um Estado da região, isto é, para promover um
golpe de Estado para derrubar um Governo que os Estados Unidos
consideram hostil, inclusive com o financiamento de grupos de oposição,
se desenvolve em várias etapas (que depois se superpõem) de denúncia do
Governo “hostil” pela grande mídia regional e pela mídia mundial, com o
auxílio da Academia, como sendo:

· /autoritário;/

· /corrupto;/

· /traficante ou leniente com o tráfico de drogas;/

· /perseguidor de inimigos políticos;/

· /violador da liberdade de imprensa;/

· /ineficiente;/

· /opressor da população;/

· /ameaça aos vizinhos;/

· /ameaça à segurança americana./

33. Um oitavo objetivo estratégico americano é impedir o desenvolvimento
de indústrias autônomas nas áreas nuclear, espacial e de tecnologia de
informação avançada na América Latina, e em especial no Brasil, país com
as melhores condições para desenvolver tais indústrias.

34. Um nono objetivo estratégico americano é enfraquecer politica e
economicamente os Estados da região.

35. Os instrumentos são estimular direta ou indiretamente (pela mídia) a
redução do poder regulatório em defesa dos consumidores, da população em
geral e dos trabalhadores, dos organismos do Estado, em especial aqueles
que limitam ou disciplinam a ação das megacorporações multinacionais,
entre as quais prevalecem as americanas.

36. Outro instrumento para alcançar este objetivo é a campanha contra o
Estado central como ineficiente e mais corrupto e autoritário, e a
defesa da descentralização regulatória e de auto regulação dos setores
pelas próprias empresas privadas.

37. Um objetivo americano importante é enfraquecer o único organismo do
Estado (brasileiro) que enfrenta, todos os dias, os interesses dos
demais Estados nacionais, em especial os interesses dos Estados Unidos,
de seus adversários, Rússia e China, e das chamadas Grandes Potências,
como Inglaterra, França, Alemanha e Japão, nas negociações para aprovar
normas internacionais que atendam seus interesses (e lucros).

38. Os instrumentos para atingir este fim são denunciar a ineficiência;
o corporativismo; o exclusivismo; o “globalismo”; a partidarização; a
visão ideológica “esquerdista” da Chancelaria.

39. O décimo objetivo estratégico dos Estados Unidos da América, e
talvez o principal objetivo, é impedir a eleição de líderes políticos em
cada Estado que manifestem restrições a seus objetivos estratégicos e
promover a eleição de líderes que a eles sejam favoráveis.

40. E aí entra o papel da Operação Lava Jato na defesa direta ou
indireta dos interesses americanos.

*** *** ***

41. A partir da eleição, em 2003, do Presidente Lula a política interna
e externa brasileira, se contrapôs, ainda que não de forma sistemática,
desafiadora ou revolucionária, a alguns dos objetivos estratégicos
americanos:

/a./ /ao não apoiar a invasão do Iraque de 2003;/

/b./ /ao estabelecer/ /o entendimento político e econômico estreito com
a Argentina;/

/c./ /ao promover a coordenação com a Argentina, a Venezuela, o Uruguai,
o Equador, a Bolívia e o Paraguai para a formação da UNASUL, em
substituição à OEA./

/d./ /ao resistir à ALCA e ao fortalecer o Mercosul;/

/e./ /ao fortalecer os instrumentos financeiros do Estado, como o BNDES,
e ao utilizá-los na politica externa;/

/f./ /ao fortalecer o programa nuclear;/

/g./ /ao exercer operações de aproximação autônoma com os países
africanos e árabes;/

/h./ /ao promover a criação do BRICS, com a China e a Rússia;/

/i./ /ao fortalecer a Petrobrás e ao estabelecer o regime de parceria
para exploração do pré-sal;/

/j./ /ao estabelecer a política de “conteúdo nacional” na indústria;/

/k./ /ao promover a indústria de defesa brasileira;/

/l./ /ao defender a regulamentação da mídia;/

/m./ /ao negociar, com a Turquia, um acordo nuclear com o Irã;/

/n./ /ao exercer o equilíbrio em suas relações com Israel e Palestina./

42. A partir dessa nova situação nas relações Brasil - Estados Unidos e
da crescente popularidade do Presidente Lula, que terminaria em 2010 seu
mandato com 87% de aprovação, a estratégia americana foi:

· /mobilizar os meios de comunicação de massa no Brasil contra as
políticas do Governo, e condenar sua ação através do Instituto
Millenium, fundado em 2005, para dar amplo apoio à Operação Mensalão,
que não conseguiu atingir o Presidente Lula,/ /mas/ /que veio a atingir
José Dirceu, chefe da Casa Civil, e provável sucessor de Lula;/

· /a partir do acordo de cooperação judiciária Brasil-Estados Unidos,
iniciar a Operação Lava Jato que viria a facilitar o alcance dos
objetivos estratégicos americanos em especial 2, 8, 9 e 10, listados no
parágrafo 11 acima;/

· /iniciar o processo político de preparação do impeachment da
Presidenta Dilma Rousseff;/

· /financiar direta e indiretamente a formação dos grupos MBL e Vem pra
Rua./

43. O principal objetivo da Operação Lava Jato não era a luta contra a
corrupção, mas sim impedir a eleição do Presidente Lula em 2018. Sua
ação partia das seguintes premissas:

· /a grande maioria da população, devido a sua precária situação
econômica e cultural, está sujeita a ser manipulada por indivíduos
populistas, socialistas, comunistas etc. que fazem aos eleitores
promessas irrealizáveis para conquistar e explorar o poder;/

· /a sociedade brasileira é intrinsecamente corrupta; /

· /todos os políticos e partidos são corruptos;/

· /os governos se sustentam através da corrupção e da compra de votos;/

· /a violação de direitos constitucionais e legais por membros do
Judiciário e do Ministério Público se justifica para/ /combater a
corrupção./

44. O juiz Sérgio Fernando Moro descreveu em seu artigo intitulado Mani
Pulite, publicado em 2004 na Revista CEJ – Justiça Federal N°26, a sua
decisão de violar a lei para combater a corrupção, em uma interpretação
de que “os fins justificam os meios”.

45. A “corrupção” foi enfrentada pela Operação Lava Jato, comandada por
Sérgio Moro, Juiz de primeira instância que contou com a conivência e
mesmo a cooperação de membros dos Tribunais Superiores e da grande
imprensa, para uma condução processual altamente heterodoxa e ilegal.

46. A divulgação quotidiana e seletiva de ações da Lava Jato através da
imprensa, em especial da televisão, foram essenciais para criar a
convicção de que a Lava Jato teria “revelado” que o partido que teria
promovido e se beneficiado da corrupção no sistema político teria sido o
PT, conduzido por Luiz Inácio Lula da Silva.

47. Formou-se um amplo movimento anti-petista e anti-Lula, e tornou-se,
assim, um objetivo não só político, mas ético e moral, para combater a
corrupção, apresentada como o principal mal da sociedade brasileira,
impedir por todos os meios que o ex-Presidente Lula pudesse se
candidatar e, iludindo o povo ingênuo, ser eleito e reimplantar os
mecanismos de corrupção.

48. Assim, foi Lula condenado, sem provas, em primeira instância por
Sérgio Moro e em segunda instância por uma turma de três Desembargadores
do TRF-4 (não pelo Tribunal pleno), Desembargadores que gozam de grande
familiaridade e amizade com Sérgio Moro, que condenaram Lula à prisão em
regime fechado, para não poder exercer qualquer atividade política, e
assim não poder nem competir nem influir nas eleições de 2018.

49. A decisão arbitrária do TRF-4 correspondeu à cassação dos direitos
políticos de Lula e do povo brasileiro que não pôde votar em Lula, o
candidato à frente em todas as pesquisas de opinião.

50. A nomeação do juiz Sérgio Moro como Ministro da Justiça por Jair
Bolsonaro e a declaração de Bolsonaro de que devia muito de sua eleição
a Moro indicam o alto grau de ilegalidade do comportamento de Sérgio
Moro e de Jair Bolsonaro e sua ação política.

*** *** ***

51. A primeira etapa para atingir o Objetivo estratégico 10 era promover
o impedimento da Presidente Dilma Rousseff, o que foi conseguido em
16/04/2016. O Vice Presidente Michel Temer assumiu com um programa
econômico intitulado “Ponte para o Futuro”, elaborado por economistas
liberais e perfeitamente compatível com os objetivos estratégicos dos
EUA, e que vem sendo aplicado de forma ainda mais radical por Paulo Guedes.

*** *** ***

52. A publicação pela grande imprensa dos diálogos entre Sérgio Moro, o
Procurador Deltan Dallagnol e entre os procuradores e três, até agora,
Ministros do Supremo Tribunal Federal: Luiz Fux, Edison Fachin e Luiz
Eduardo Barroso, podem acarretar a nulidade de todos os processos da
Operação Lava Jato devido a demonstrar:

· /a parcialidade e a íntima cooperação do juiz Sérgio Moro com os
procuradores, isto é, com a acusação;/

· /as delações extraídas sob pressão;/

· /as conduções coercitivas ilegais;/

· /a escuta ilegal de comunicações;/

· /a divulgação seletiva de trechos de delações à imprensa para obter
efeitos no processo eleitoral em 2018;/

· /a violação de direitos individuais, enumerados no Artigo 5° da
Constituição:/

/III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou
degradante;/

/X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem
das pessoas (...);/

/XII - é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações
telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas (...);/

/XXXIII - todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de
seu interesse particular (...); /

/e, em especial, /

/LVII - ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de
sentença penal condenatória./

*** *** ***

53. Os Estados Unidos da América atingiram seu principal objetivo
estratégico aquele de número 10 do parágrafo 11 acima:

eleger lideres políticos favoráveis aos objetivos americanos.

E com o Governo Temer e agora com o Governo de Jair Bolsonaro estão
alcançando todos os demais objetivos listados no parágrafo onze acima.

In
BRASIL247
https://www.brasil247.com/blog/a-operacao-lava-jato-e-os-objetivos-dos-estados-unidos-para-a-america-latina-e-o-brasil
2/8/2019

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Guerra económica dos EUA e prováveis defesas externas


por Michael Hudson
O mundo de hoje está em guerra em múltiplas frentes. As regras do direito internacional e da ordem posta em prática no fim da II Guerra Mundial estão a ser rompidas pela política externa dos EUA de escalar sua confrontação com os países que se abstêm de dar às suas empresas o controle dos seus excedentes económicos. Países que não dão aos Estados Unidos o controle dos seus sectores petrolíferos e financeiros ou não privatizam seus sectores chave estão a ser isolados pelos EUA através da imposição de sanções comerciais e de tarifas unilaterais que dão vantagens especiais a produtores estado-unidenses, em violação de acordos de livre comércio com países europeus, asiáticos e outros.

Esta fractura global tem uma componente cada vez mais militar. Autoridades estado-unidenses justificam tarifas e quotas de importação, ilegais de acordo com as regras da OMC, em termos de "segurança nacional", alegando que os Estados Unidos podem fazer o que quiserem como a nação "excepcional" do mundo. Autoridades dos EUA explicam que a sua nação não é obrigada a aderir a acordos internacionais ou mesmo aos seus próprios tratados e promessas. Este alegado direito soberano de ignorar seus acordos internacionais foi explicitado depois de Bill Clinton e sua secretária de Estado, Madeline Albright, terem quebrado a promessa do presidente George Bush e do secretário de Estado James Baker de que a NATO não se expandiria para o leste depois de 1991. ("Você não tem isto por escrito", foi a resposta dos EUA aos acordos verbais efectuados).

Da mesma forma, a administração Trump repudiou o acordo multilateral iraniano assinado pela administração Obama e está a escalar a guerra com seus exércitos por procuração (proxy) no Oriente Próximo. Políticos dos EUA estão a travar uma Nova Guerra Fria contra a Rússia, China, Irão e países exportadores de petróleo que os Estados Unidos procuram isolar se não puderem controlar seus governos, banco central e diplomacia externa.

O quadro internacional que originalmente parecia equitativo era a favor dos EUA desde o princípio. Em 1945 isto foi encarado como um resultado natural do facto de a economia dos EUA ter sido a menos prejudicada pela guerra e de possuir de longe a maior parte do ouro monetário global. Ainda assim, a estrutura comercial e financeira do pós-guerra era ostensivamente baseada em princípios internacionais razoáveis e equitativos. Esperava-se que outros países se recuperassem e crescessem, criando paridade diplomática, financeira e comercial entre si.

Mas na última década a diplomacia americana tornou-se unilateral ao transformar o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, o sistema de compensação bancária SWIFT [NR 1] e o comércio mundial num sistema de exploração assimétrico. Este conjunto de instituições centrado unilateralmente nos EUA está a ser amplamente encarado não só como injusto mas também como força de bloqueio do progresso de outros países cujo crescimento e prosperidade são encarados pela política externa dos EUA como ameaça à sua hegemonia unilateral. O que começou como uma ordem internacional ostensivamente para promover a prosperidade pacífica tornou-se cada vez mais uma extensão do nacionalismo estado-unidense, da extracção predatória de renda e de um confronto militar mais perigoso.

A deterioração da diplomacia internacional numa agressão financeira, comercial e militar mais claramente explícita em favor dos EUA estava implícita no modo como a diplomacia económica foi moldada no momento em que as Nações Unidas, o FMI e o Banco Mundial foram constituídos, sobretudo pelos estrategas económicos estado-unidenses. Sua beligerância económica está a levar países a retirarem-se da ordem financeira e comercial global, a qual foi transformada no veículo de uma Nova Guerra Fria para impor a hegemonia unilateral dos EUA. Reacções nacionalistas estão a consolidar-se em novas alianças económicas e políticas, desde a Europa até à Ásia.

Ainda estamos atolados na Guerra do Petróleo que escalou em 2003 com a invasão do Iraque e que rapidamente se propagou à Líbia e à Síria. Em grande medida, a política externa americana baseia-se desde há muito no controle do petróleo. Isto levou os Estados Unidos a oporem-se aos acordos de Paris para deter o aquecimento global [NR 2] . Seu objectivo é dar aos responsáveis dos EUA o poder de impor sanções energéticas que forcem outros países a "congelarem-se no escuro" se não seguirem a liderança estado-unidense.

Para expandir o seu monopólio petrolífero a América está a pressionar a Europa a opor-se ao gasoduto Nordstream II da Rússia, afirmando que isto tornaria a Alemanha e outros países dependentes da Rússia, em contraposição à dependência do gás natural liquefeito (GNL) dos EUA. Da mesma forma, a diplomacia petrolífera americana impôs sanções unilaterais contra exportações do Irão, até uma mudança de regime abrir as reservas de petróleo daquele país às grandes petrolíferas estado-unidenses, francesas, britânicas e outras aliadas.

O controle americano do dinheiro e do crédito dolarizados é crítico para esta hegemonia. Como disse o congressista Brad Sherman, de Los Angeles, na audiência de 9/Maio/2019 do Comité de Serviços Financeiros da Câmara:   "Grande parte do nosso poder internacional decorre do facto de o dólar americano ser a unidade padrão das transacções e finanças internacionais. Compensar através do Fed de Nova York é crítico para grandes transacções de petróleo e outras. É propósito anunciado dos defensores de criptomoedas retirar-nos este poder, a fim de nos colocar numa posição em que a maior parte das sanções mais significativas que aplicamos contra o Irão, por exemplo, se tornem irrelevantes". [1]

O objectivo dos EUA é manter o dólar como a divisa das transacções para o comércio mundial, poupanças, reservas de bancos centrais e empréstimos internacionais. Este status de monopólio permite aos Departamentos do Tesouro e de Estado dos EUA perturbarem o sistema financeiro de pagamentos e o comércio daqueles países com os quais os Estados Unidos estão em guerra económica ou abertamente em guerra militar.

O presidente russo Vladimir Putin respondeu rapidamente ao descrever como "a degeneração do modelo de globalização universalista [está] a transformar-se numa paródia, numa caricatura de si próprio, em que as regras comuns internacionais são substituídas por leis... de um país". [2] Esta é a trajectória que agora se verifica com a deterioração do antigo comércio aberto internacional. Ela tem-se agravado desde há uma década. Em 5/Junho/2009 o então presidente russo Dmitry Medvedev mencionou esta mesma dinâmica destruidora em funcionamento na sequência da crise de hipotecas lixo e fraudes bancárias nos EUA.

Aqueles cujo trabalho era prever acontecimentos... não estavam preparados para a profundidade da crise e revelaram-se demasiado rígidos, desajeitados e lentos na sua resposta. As organizações financeiras internacionais – e penso que precisamos declarar isto frontalmente e não tentar esconder – não estiveram à altura das suas responsabilidade, como tem sido dito bastante inequivocamente num certo número de grandes eventos internacionais tais como as duas recentes cimeiras do G20 das maiores economias mundiais.

Além disso, tivemos confirmação de que a nossa análise anterior à crise das tendências económicas globais e do sistema económico global estava correcta. O sistema unipolar mantido artificialmente e a preservação de monopólios em sectores económicos globais chave são causas raízes da crise. Um grande centro de consumo, financiado por um défice crescente, e portanto com dívidas crescentes, uma divisa de reserva outrora forte e um sistema dominante de avaliação de activos e riscos – estes são os conjuntos de factores que levam a uma queda geral na qualidade da regulação e da justificação económica das avaliações efectuadas, incluindo avaliações de política macroeconómica. Em consequência, não havia como evitar uma crise global. [3]

Esta crise é o que agora provoca a presente ruptura do comércio e pagamentos globais.

Guerra em muitas frentes, com a desdolarização sendo a arena principal

A dissolução da União Soviética em 1991 não trouxe o desarmamento que era amplamente esperado. A liderança estado-unidense celebrou a morte soviética como um sinal para o fim da oposição estrangeira ao neoliberalismo patrocinado pelos EUA e mesmo como o Fim da História. A NATO expandiu-se para cercar a Rússia e patrocinou "revoluções coloridas" desde a Geórgia até a Ucrânia, enquanto estilhaçava a antiga Jugoslávia em pequenos estadozecos. A diplomacia americana criou uma legião estrangeira de fundamentalistas wahabistas desde o Afeganistão até o Irão, o Iraque, a Síria e a Líbia para apoiar o extremismo da Arábia Saudita e o expansionismo israelense.

Os Estados Unidos estão a travar uma guerra contra a Venezuela pelo controle do petróleo, onde um golpe militar fracassou há poucos anos, tal como a façanha de 2018-19 de reconhecer um regime fantoche não eleito e pró americano. O golpe hondurenho sob o presidente Obama teve mais êxito pois conseguiu derrubar um presidente eleito que advogava a reforma agrária, continuando a tradição que remontava a 1954 quando a CIA derrubou o governo Arbenz na Guatemala.

Responsáveis dos EUA têm um ódio especial a países que eles injuriaram, o que vai desde a Guatemala em 1954 ao Irão, cujo regime foi derrubado para instalar o Xá como ditador militar. Afirmando promover a "democracia", a diplomacia dos EUA redefiniu a palavra para significar pró americano e oposição à reforma agrária, propriedade nacional de matérias-primas e subsídios públicos à agricultura ou indústria como um ataque "não democrático" a "mercados livres", o que significa mercados controlados pelos interesses financeiros estado-unidenses e proprietários absenteístas da terra, dos recursos naturais e dos bancos.

Um importante subproduto da guerra tem sido sempre os refugiados e a onda actual que foge do ISIS, Al Qaeda e outros apaniguados dos EUA no Oriente Próximo está a inundar a Europa. Uma onda semelhante está a fugir dos regimes ditatoriais, apoiados pelos Estados Unidos, das Honduras, Equador, Colômbia e países vizinhos. A crise de refugiados tornou-se um factor primordial para o ressurgimento de partidos nacionalistas por toda a Europa e para o nacionalismo branco de Donald Trump nos Estados Unidos.

A desdolarização como o veículo para o nacionalismo estado-unidense

O Padrão Dólar – dívida do Tesouro dos EUA a estrangeiros mantida pelos bancos centrais do mundo – substituiu o padrão divisas-ouro (gold-exchange standard) nas reservas dos bancos centrais do mundo para a liquidação de desequilíbrios de pagamentos entre si próprios. Isto permitiu aos Estados Unidos a [posição] única de incorrer em défices da balança de pagamentos durante aproximadamente setenta anos, apesar do facto de estes títulos do Tesouro (Treasury IOUs) terem pouca probabilidade visível de serem reembolsados – a não ser sob acordos em que os EUA buscam uma renda monopolista e um tributo financeiro directo de outros que lhes permita liquidar sua dívida externa oficial.

Os Estados Unidos são o único país que pode incorrer em défices constantes da balança de pagamentos sem terem de vender barato os seus activos ou elevarem taxas de juro para captar empréstimos em moeda estrangeira. Nenhuma outra economia nacional no mundo poderia permitir-se despesas militares no exterior em grande escala sem perder seu valor de troca. Sem as Letras do Tesouro (Treasury-bill) padrão, os Estados Unidos estariam na mesma posição dos demais países. Eis porque a Rússia, China e outras potências que os estrategas dos EUA consideram serem rivais estratégicos e inimigos procuram restaurar o papel do ouro como o activo preferencial para liquidar desequilíbrios de pagamentos.

A resposta dos EUA é impor mudanças de regime a países que preferem ouro ou outras divisas estrangeiras ao invés de dólares nas suas reservas cambiais. Um bom exemplo é o derrube de Omar Kaddafi, da Líbia, depois de ele ter procurado basear no ouro as reservas internacionais do seu país [NR 3] . A sua liquidação representa uma advertência militar a outros países.

Graças ao facto de que economias com excedentes de pagamentos investem suas entradas de dólares em títulos do US Treasury, os défices da balança de pagamentos dos EUA financiam seu défice orçamental interno. Esta reciclagem por bancos centrais estrangeiros de gastos militares dos EUA no exterior mediante compras de títulos do Tesouro dos EUA dá aos Estados Unidos um almoço gratuito (free ride), financiando seu orçamento – que também é sobretudo de carácter militar – de modo a que possa tributar seus próprios cidadãos.

Trump está a forçar outros países a criarem uma alternativa ao Padrão Dólar

O facto de as políticas económicas de Donald Trump estarem a demonstrar-se ineficazes para a restauração da manufactura americana está a criar uma pressão nacionalista para explorar os estrangeiros através de tarifas arbitrárias sem consideração pelo direito internacional e pela imposição de sanções comerciais e intromissões diplomáticas para desestabilizar regimes que sigam políticas não apreciadas pelos diplomatas dos EUA.

Aqui há um paralelo com Roma no fim do século I AC. Ela despojou suas províncias a fim de pagar o seu défice militar, o subsídio (dole) de cereais e a redistribuição de terra às expensas de cidades italianas e da Ásia Menor. Isto criou oposição estrangeira para expulsar Roma. A economia dos EUA é semelhante à de Roma:   mais extractivista do que produtiva, baseada principalmente em rendas da terra e juros monetários. Como o mercado interno está empobrecido, os políticos dos EUA tentam tirar do exterior o que não está mais a ser produzido em casa.

O que é extremamente irónico – e muito auto-derrotante para o almoço gratuito global da América – é o objectivo simplista de Trump de reduzir a taxa de câmbio do dólar para tornar as exportações norte-americanas mais competitivas em preço. Ele imagina que o comércio de commodities seja a balança de pagamentos inteira, como se não houvesse gastos militares, sem mencionar empréstimos e investimentos. Para reduzir a taxa de câmbio do dólar, ele está a exigir que o banco central da China e de outros países parem de apoiar o dólar reciclando os dólares que recebem pelas suas exportações através da compra de títulos do Tesouro dos EUA.

Esta visão em túnel deixa de lado o facto de que a balança comercial não é simplesmente uma matéria de níveis comparativos de preços internacionais. Os Estados Unidos dissiparam sua capacidade de fabricação de sobressalentes e de fornecedores locais de peças e materiais, enquanto grande parte da sua engenharia industrial e mão-de-obra qualificada aposentou-se. Um imenso défice deve ser preenchido por novos investimentos de capital, educação e infra-estrutura pública, cujos encargos são muito superiores aos de outras economias.

A ideologia da infraestrutura de Trump é uma Parceria Público-Privada caracterizada pelo alto custo financeiro exigido pelas altas rendas de monopólio a fim de cobrir seus encargos com juros, dividendos de acções e custos de gestão. Esta política neoliberal eleva o custo de vida para a força de trabalho dos EUA, tornando-a não competitiva. Os Estados Unidos são incapazes de produzir mais a qualquer preço que seja, porque passaram o último meio século a desmantelar sua infraestrutura, encerrando seus fornecedores e terciarizando sua tecnologia industrial.

Os Estados Unidos privatizaram e financiaram infraestrutura e serviços básicos tais como saúde pública e cuidados médicos, educação e transporte que outros países mantiveram no seu domínio público a fim de tornar suas economias mais eficientes em termos de custo ao proporcionar serviços essenciais a preços subsidiados ou gratuitamente. Os Estados Unidos também lideraram a prática da pirâmide de dívidas, desde a habitação até as finanças corporativas. Esta engenharia financeira e de criação de riqueza pelo enchimento de bolhas imobiliárias e do mercado de acções financiadas por dívida tornaram os Estados Unidos uma economia de alto custo que não pode competir com êxito com economias mistas bem administradas.

Incapaz de recuperar a dominância no sector manufactureiro, os Estados Unidos estão a concentrar-se nos sectores de extracção de renda que esperam monopolizar, encabeçados pela tecnologia da informação e pela produção militar. Na frente industrial, isto ameaça perturbar a China e outras economias mistas com a imposição de sanções comerciais e financeiras.

A grande aposta é se esses outros países irão defender-se juntando-se em alianças que lhes permitam contornar (bypass) a economia dos EUA. Estrategas americanos imaginam seu país como a economia essencial do mundo, sem cujo mercado outros países devem sofrer depressão. A administração Trump pensa que não há alternativa (There Is No Alternative, TINA) para outros países, excepto os seus próprios sistemas financeiros dependerem do crédito em US dólares.

Para se protegerem de sanções estado-unidenses, os países teriam de evitar utilizar o dólar e, portanto, bancos dos EUA. Isto exigiria a criação de um sistema financeiro não dolarizado para usarem entre si próprios, incluindo a sua própria alternativa do sistema de compensação bancária SWIFT. A tabela 1 mostra algumas possíveis defesas contra a diplomacia nacionalista dos EUA.

Como observado acima, o que também é irónico na acusação do presidente Trump de que a China e outros países manipulam artificialmente sua taxa de câmbio em relação ao dólar (ao reciclarem seus superávites comerciais e de pagamentos em títulos do Tesouro para conterem a valorização da sua divisa frente ao dólar) envolve o desmantelamento do padrão Letras do Tesouro. O principal modo pelo qual economias estrangeiras estabilizaram sua taxa de câmbio desde 1971 tem sido na verdade a reciclagem das suas entradas de dólares em títulos do Tesouro dos EUA. Deixar o valor da sua moeda subir ameaçaria a competitividade das suas exportações frente aos seus rivais, embora isso não beneficiasse necessariamente os Estados Unidos.

Acabar com esta prática deixa aos países como caminho principal para protegerem suas divisas da ascensão frente ao dólar a redução das entradas de dólares, através do bloqueio da concessão de empréstimos dos EUA aos seus tomadores internos. Eles podem cobrar tarifas flutuantes proporcionais ao valor em declínio do dólar. Os EUA têm uma longa história, desde a década de 1920, de elevação das suas tarifas contra moedas que estão a depreciar-se: o sistema American Selling Price (ASP). Outros países podem impor suas próprias tarifas flutuantes contra produtos norte-americanos.

A dependência comercial como um objectivo do Banco Mundial, do FMI e da USAID

O mundo enfrenta hoje um problema muito parecido com o enfrentado nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. Tal como a Alemanha então, agora os Estados Unidos representam a principal ameaça de guerra e destrutivos regimes económicos neoliberais impõem austeridade, retracção económica e despovoamento. Diplomatas americanos ameaçam destruir regimes e economias inteiras que procuram manter-se independentes daquele sistema, através de sanções comerciais e financeiras apoiadas por força militar directa.

A desdolarização exigirá a criação de alternativas multilaterais para as instituições "de primeira linha" dos EUA, como o Banco Mundial, o FMI e outras agências sobre as quais os Estados Unidos têm poder de veto para bloquear quaisquer políticas alternativas que supostamente não os deixem "ganhar". As agências de ajuda externa do Banco Mundial e dos EUA visam promover a dependência das exportações de bens alimentares dos EUA e de outros bens essenciais, enquanto contratam empresas de engenharia dos EUA para construir infraestruturas de exportação, subsidiando as suas empresas e investidores em recursos naturais. [4]

O financiamento é principalmente em dólares, fornecendo títulos sem risco para os EUA e instituições financeiras. A "interdependência" comercial e financeira resultante levou a uma situação em que uma interrupção repentina daquela oferta prejudicaria as economias estrangeiras, causando uma quebra na cadeia de pagamentos e produção. O efeito é trancar os países clientes na dependência da economia dos EUA e da sua diplomacia, qualificados com o eufemismo de "promoção de crescimento e desenvolvimento".

A política neoliberal dos EUA através do FMI impõe austeridade e opõe-se a reduções significativas da dívida. O seu modelo económico finge que os países devedores podem pagar qualquer volume de dívida em dólares simplesmente pela redução de salários para extrair mais rendimento da força de trabalho a fim de pagar credores estrangeiros. Isto ignora o facto de que resolver o "problema orçamental" interno, tributando a receita local, ainda enfrenta o "problema da transferência" na conversão em dólares ou outras moedas fortes, nas quais a maior parte das dívidas internacionais são denominadas. O resultado é que os programas de "estabilização" do FMI na verdade desestabilizam e empobrecem os países forçados a seguirem seus conselhos.

Empréstimos do FMI apoiam regimes pró EUA, como a Ucrânia, e subsidiam a fuga de capitais ao apoiarem as moedas locais durante o tempo suficiente para permitir que as oligarquias locais clientes dos EUA se desfaçam das suas moedas nacionais a uma taxa de câmbio pré-desvalorização em relação ao dólar. Quando a moeda local for finalmente autorizada a entrar em colapso, os países devedores são aconselhados a impor a austeridade anti-trabalhadores. Isso globaliza a guerra de classes do capital contra o trabalho enquanto mantém os países devedores sob uma curta trela financeira dos EUA.

A diplomacia dos EUA resume-se a impor sanções comerciais para perturbar economias que se afastem dos objectivos dos EUA. As sanções são uma forma de sabotagem económica, tão letal quanto uma guerra militar directa no estabelecimento do controle americano sobre as economias estrangeiras. A ameaça é empobrecer populações civis, na crença de que isso as levará a substituir os seus governos por regimes pró-americanos que prometem restaurar a prosperidade vendendo as suas infraestruturas internas aos EUA e outros investidores transnacionais.
Guerra dos EUA em muitas frentes
Defesa da desdolarização
Guerra militar (Oriente Próximo, Ásia) NATO e tratados bilaterais (saudita, ISIS, Al Qaida), revoluções coloridas e guerras por procuração Organização de Cooperação de Shangai e pressão para a Europa retirar-se da NATO a menos que os EUA aliviem suas ameaças de Nova Guerra Fria
Dolarização é guerra monetária. O padrão dos US Treasury-bill financia principalmente o défice da balança de pagamentos militar dos EUA. O SWIFT ameaça isolar o Irão e a Rússia. A desdolarização refreará bancos centrais estrangeiros de financiarem gastos militares além-mar dos EUA pela manutenção das suas poupanças em dólares. Criação de sistemas alternativos de câmaras de compensação de pagamentos.
O FMI financia regimes clientes dos EUA e procura isolar aqueles que não seguem a política estado-unidense. Organização de uma alternativa financeira global, tal como o INSTEX da Europa para contornar as sanções contra o Irão, bem como a alternativa ao SWIFT russo-chinesa.
Política do credor impondo austeridade a economias devedoras, forçando-as a privatizar e vender barato o seu domínio público para pagar dívidas. Um tribunal internacional com poderes para cancelar parcialmente (write down) em função da capacidade de pagar, com base nos princípio originais que guiaram a constituição do Bank of International Settlements (BIS) em 1931.
O Banco Mundial financia a dependência comercial às exportações alimentares dos EUA e opõe-se à auto-suficiência alimentar nacional. Uma organização de desenvolvimento alternativa baseada na auto-suficiência alimentar. Anulação da dívida ao Banco Mundial e FMI como "dívida odiosa".
Guerra comercial unilateral dos EUA baseada na cobrança de tarifas proteccionistas, quotas e sanções. Sanções compensatórias e criação de uma alternativa à OMC ou uma organização fortalecida liberta do controle dos EUA.
Ciber Guerra, spycraft via plataformas Internet dos EUA e sabotagem Stuxnet. Trabalhar com a Huawei e outras alternativas a opções de Internet dos EUA.
Guerra de classe: programa de austeridade para o trabalho Moderna Teoria Monetária (MMT, na sigla em inglês), tributação do rendimento do rentista e dos ganhos do capital.
Doutrina monetarista neoliberal da privatização e das regras orientadas para o credor. Promoção de uma economia mista com infraestrutura pública como um factor de produção.
Política de patentes dos EUA busca rendas de monopólio. Não reconhecimento de patentes monopolistas predatórias.
Controle de investimento. Desprivatização e buyouts de activos dos EUA no exterior
Lei internacional e diplomacia Os EUA como a "nação excepcional" do mundo não sujeita a leis internacionais ou mesmo aos próprios tratados que acordou.


Problemas globais causados pela política dos EUA
Resposta à política destrutiva dos EUA
EUA recusam-se a aderir a acordos internacionais para reduzir emissões de carbono, aquecimento global [NR 2] e meteorologia extrema A diplomacia dos EUA está baseada no controle do petróleo para tornar outros países dependentes da dominância energética estado-unidense. Sanções comerciais e fiscais contra exportadores e bancos estado-unidenses. Impostos sobre a evasão fiscal dos EUA pelas "bandeiras de conveniência" da indústria do petróleo (conveniente para evitar impostos). Tributação ou isolamento de exportações dos EUA baseadas na produção com alto teor de carbono.
Tentativa de monopolizar a nova tecnologia G5 da Internet, sancionamento da Huawei, insistência na prioridade dos EUA em alta tecnologia. Rejeição de patentes sobre TI, medicina e outras necessidades humanas básicas.
Leis de patentes em produtos farmacêuticos, etc. Tributação das rendas de monopólio.
Existem alternativas, em muitas frentes

Militarmente, a principal alternativa actual ao expansionismo da NATO é a Organização de Cooperação de Xangai (SCO), juntamente com uma Europa que seguisse o exemplo da França sob Charles de Gaulle e se retirasse da NATO. Afinal, não há ameaça real de invasão militar hoje na Europa. Nenhuma nação pode ocupar outra sem um enorme recrutamento militar e perdas tão pesadas de pessoal que os protestos internos destituiriam o governo que travasse essa guerra. O movimento anti-guerra dos EUA na década de 1960 sinalizou o fim do projecto militar, não apenas nos Estados Unidos, mas em quase todos os países democráticos. (Israel, Suíça, Brasil e Coreia do Norte são excepções).

Os enormes gastos com armamentos para um tipo de guerra improvável não são realmente militares, mas simplesmente para proporcionar lucros ao complexo industrial militar. O armamento não é realmente para ser usado. Ele é simplesmente para ser comprado e, finalmente, transformado em sucata. O perigo, é claro, é que essas armas possam ser usadas, apenas para criar uma necessidade de nova produção lucrativa.

Da mesma forma, títulos financeiros estrangeiros em dólares não devem ser realmente gastos em compras de exportações ou investimentos dos EUA. Eles são como colecções de vinhos caros, para guardar em vez de beber. A alternativa a tais haveres dolarizados é criar um uso mútuo de divisas nacionais e um sistema de pagamentos de compensação bancária alternativo ao SWIFT. A Rússia, a China, o Irão e a Venezuela já estão a desenvolver pagamentos em criptomoeda para contornar as sanções dos EUA e, consequentemente, o seu controlo financeiro.

Na Organização Mundial do Comércio, os Estados Unidos tentaram afirmar que qualquer indústria que beneficie de infraestruturas públicas ou subsídios de crédito merece uma retaliação tarifária nas exportações para forçar a privatização. Em resposta às determinações da OMC de que as tarifas dos EUA são impostas ilegalmente, os Estados Unidos "em protesto bloquearam todas as novas nomeações para o organismo de apelação de sete membros, deixando-o em risco de colapso dado que pode não haver juízes suficientes que lhe permita actuar em novos casos. [5] Na visão dos EUA, apenas o comércio privatizado financiado por bancos privados e não públicos é um comércio "justo".

Uma alternativa à OMC (ou a remoção de privilégio de veto dado ao bloco americano) é necessária para lidar com a ideologia neoliberal dos EUA e, mais recentemente, a farsa dos EUA alegando isenção dos tratados de livre comércio em nome da "segurança nacional", impondo tarifas ao aço e alumínio, e aos países europeus que contornem as sanções ao Irão ou ameacem comprar gás da Rússia através do gasoduto Nordstream II, em vez do gás natural liquefeito, "gás da liberdade", de alto custo dos Estados Unidos.

No campo dos empréstimos para desenvolvimento, o Banco da China, juntamente com a sua iniciativa "Nova rota da seda", é uma alternativa incipiente ao Banco Mundial, cujo principal papel tem sido promover a dependência externa de fornecedores aos EUA. O FMI, por sua vez, funciona como uma extensão do Departamento de Defesa dos EUA para subsidiar regimes clientes como a Ucrânia, enquanto isola financeiramente países que não são subservientes à diplomacia norte-americana.

Para salvar as economias endividadas que sofrem com austeridade ao estilo grego, o mundo precisa substituir a teoria económica neoliberal por uma lógica analítica de redução das dívidas com base na capacidade de pagamento. O princípio orientador da necessária lógica orientada para o desenvolvimento do direito internacional deveria ser que nenhuma nação fosse obrigada a pagar a credores estrangeiros tendo que vender património do domínio público e direitos de extracção de rendas a credores estrangeiros. O carácter definidor da soberania deveria residir no direito de tributar a exploração dos recursos naturais e respectivos retornos financeiros e criar o seu próprio sistema monetário.

Os Estados Unidos recusam-se a aderir ao Tribunal Penal Internacional. Para ser eficaz, ele precisaria [ter] poder de execução dos seus julgamentos e penalidades, culminando com a capacidade de apresentar acusações por crimes de guerra na tradição do tribunal de Nuremberg. Os EUA num tribunal assim poderiam ser julgados, de acordo com o seu crescimento militar que agora ameaça uma Terceira Guerra Mundial. Isto sugere um novo alinhamento de países tal como o movimento das nações não-alinhadas dos anos 50 e 60. Não alinhado, neste caso, significa estar livre do controlo ou de ameaças diplomáticas dos EUA.

Tais instituições necessitam de uma teoria económica e uma filosofia de operações mais realistas para substituir a lógica neoliberal anti-Estado, de privatizações, austeridade anti-trabalhadores e oposição a défices orçamentais e reduções de dívidas. A doutrina neoliberal de hoje conta os ganhos financeiros e o aumento dos preços da habitação como um acréscimo ao "produto real" (PIB), mas considera o investimento público como um peso morto, não como uma contribuição para a produção. O objectivo de tal lógica é convencer governos a pagarem aos credores estrangeiros através da venda das suas infraestruturas públicas e de outros activos do domínio público.

Assim como o princípio de "capacidade para pagar" foi a pedra fundamental do Bank for International Settlements, constituído em 1931, é necessária uma base semelhante para medir a capacidade actual de pagar dívidas e, portanto, cancelar maus empréstimos efectuados sem a correspondente capacidade de pagamento dos devedores. Sem uma tal instituição e corpo de análise, o princípio neoliberal do FMI de impor depressão económica e queda dos padrões de vida para pagar aos EUA e outros credores estrangeiros irá impor a pobreza global.

As propostas acima proporcionam uma alternativa à recusa "excepcionalista" dos EUA de integrarem qualquer organização internacional que tenha uma palavra a dizer sobre os seus assuntos. Outros países devem estar dispostos a virar a mesa e isolar bancos e exportadores dos EUA e a evitar o uso de dólares americanos e encaminhamento de pagamentos através de bancos dos EUA. Proteger a capacidade de criar um poder compensatório (countervailing power) exige um tribunal internacional e sua organização de suporte.

Resumo

O primeiro objectivo existencial é evitar a presente ameaça de guerra pelo atenuação da interferência militar dos EUA em países estrangeiros e a remoção das bases militares dos EUA como relíquias do neocolonialismo. O seu perigo para a paz e prosperidade mundial cria a ameaça de uma reversão para o colonialismo anterior à Segunda Guerra Mundial, dirigido por elites clientes segundo linhas semelhantes às do golpe ucraniano de 2014 por grupos neonazis patrocinados pelo Departamento de Estado dos EUA e pela National Endowment for Democracy. Tal controlo lembra os ditadores que a diplomacia americana estabeleceu em toda a América Latina nos anos 50. O terrorismo étnico de hoje promovido pelos EUA, apoiado pelo islamismo wahabi-saudita lembra o comportamento da Alemanha nazi na década de 1940.

O aquecimento global é a segunda grande ameaça existencial [NR 2] . Bloquear tentativas de reverter isso é um fundamento da política externa americana, porque se baseia no controle do petróleo. Portanto, as ameaças militares, de refugiados e de aquecimento global estão interligadas.

O militarismo dos EUA representa o maior perigo imediato. A guerra actual está fundamentalmente mudada em relação ao que costumava ser. Antes da década de 1970, as nações conquistadoras tinham de invadir os países e ocupá-los com exércitos formados por recrutamento militar. Mas nenhuma democracia no mundo de hoje pode reviver tal proposta sem desencadear a recusa popular generalizada de combater, votando pelo afastamento do governo do poder.

O único meio pelo qual os Estados Unidos – ou outros países – podem combater outras nações é bombardeá-las. E como observado acima, as sanções económicas têm um efeito tão destrutivo sobre as populações civis em países considerados adversários dos EUA quanto a guerra aberta. Os Estados Unidos podem patrocinar golpes políticos (como nas Honduras e no Chile de Pinochet), mas não podem ocupar países, nem têm vontade de reconstrui-los, para não falar em assumir a responsabilidade pelas ondas de refugiados que nossos bombardeamentos e sanções estão a causar desde a América Latina até ao Próximo Oriente.

Os ideólogos dos EUA vêem a expansão militar coerciva de seu país, a subversão política e a política económica neoliberal de privatizações e financeirização como uma vitória irreversível que assinala o "Fim da história". Para o resto do mundo, é uma ameaça à sobrevivência humana.

A promessa americana é que a vitória do neoliberalismo é o "Fim da história", oferecendo prosperidade ao mundo inteiro. Mas, sob a retórica da livre escolha e do livre mercado está a realidade da corrupção, subversão, coerção, servidão pela dívida (debt peonage) e neofeudalismo. A realidade é a criação e subsídio de economias polarizadas, bifurcadas entre uma classe privilegiada rentista com sua clientela e seus devedores e arrendatários. Permite-se aos Estados Unidos monopolizarem o comércio de petróleo e cereais e os monopólios de alta tecnologia extractores de rendas, vivendo às custas da dependência dos seus clientes.

Ao contrário da servidão medieval, as pessoas sujeitas a este cenário de "Fim da história" podem escolher onde querem viver. Mas onde quer que vivam devem endividar-se durante toda a vida a fim de terem acesso a uma casa própria e devem depender do controlo dos EUA sobre as suas necessidades básicas, dinheiro e crédito, aderindo ao planeamento financeiro americano das suas economias. Este cenário distópico confirma o reconhecimento de Rosa Luxemburgo de que a escolha definitiva que as nações enfrentam no mundo de hoje é entre socialismo e barbárie.
[1] Billy Bambrough, "Bitcoin Threatens To 'Take Power' From The U.S. Federal Reserve,"  Forbes , May 15, 2019. www.forbes.com/...
[2] Vladimir Putin, discurso no Economic Forum, June 5-6 2019. Putin prosseguiu para advertir contra "uma política de egoísmo económico completamente ilimitado e um colapso forçado". Esta fragmentação do espaço económico global "é o caminho para conflitos intermináveis, guerras comerciais e talvez não apenas guerras comerciais. Figurativamente, este é o caminho para a derradeira luta de todos contra todos".
[3] Discurso no St Petersburg International Economic Forum's Plenary Session, St Petersburg, Kremlin.ru, June 5, 2009, from Johnson's Russia List, June 8, 2009, #8,
[4] - www.rt.com/business/464013-china-russia-cryptocurrency-dollar-dethrone/ Já no final da década de 1950, o Plano Forgash propôs um Banco Mundial para Aceleração Económica. Concebido por Terence McCarthy e patrocinado pelo senador da Florida, Morris Forgash, o banco teria sido uma instituição mais voltada para o desenvolvimento, orientando o desenvolvimento estrangeiro para criar economias equilibradas e auto-suficientes em alimentos e outros itens essenciais. A proposta teve a oposição dos interesses dos EUA, alegando que os países que buscavam a reforma agrária tendiam a ser antiamericanos. Mais especificamente, eles teriam evitado a dependência comercial e financeira dos fornecedores e dos bancos dos EUA e, portanto, das suas sanções comerciais e financeiras para os impedir de seguirem políticas contrárias às exigências diplomáticas dos EUA.
[5] Don Weinland, "WTO rules against US in tariff dispute with China,"  Financial Times , July 17, 2019. 

25/Julho/2019

[NR 1] SWIFT: Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication. É uma entidade que gere os códigos de identificação de um banco, denominados Bank Identifier Code (BIC).   O código IBAN faz parte do sistema SWIFT.
[NR 2] As emissões de carbono são a resultante necessária e inevitável de qualquer processo de combustão de hidrocarbonetos.   Mais especificamente:  as demonizadas emissões de CO2 não são poluentes e este gás até é indispensável à vida no planeta terra.   O tão apregoado aquecimento global de origem antropogénica é uma impostura pseudo-científica .   Hudson, que não é climatologista, deixou-se influenciar pela gigantesca campanha de propaganda "aquecimentista" promovida pelo IPCC/ONU e pela UE.   Este pode ser um dos poucos assuntos em que o governo Trump (que se recusou a assinar o Acordo de Paris) tem razão.
[NR 3] As reservas-ouro do Banco Central da Líbia foram saqueadas pelos EUA após a agressão e derrube do governo líbio.   O mesmo aconteceu às reservas-ouro do Banco Central da Ucrânia , que foram transferidas secretamente para a custódia do Fed após o golpe do Maidan em 2014.


Ver também a entrevista de Michael Hudson:
  • Desdolarizando o império financeiro americano

    [*] Discurso pronunciado no 14th Forum of the World Association for Political Economy, 21/Julho/2019.

    O original encontra-se em thesaker.is/u-s-economic-warfare-and-likely-foreign-defenses/ e em www.unz.com/mhudson/u-s-economic-warfare-and-likely-foreign-defenses/
     
  • In
  • RESISTIR.INFO
  • https://www.resistir.info/m_hudson/hudson_25jul19.html 
  • 2/8/2019

  • 02/Jul/19

    terça-feira, 30 de julho de 2019

    A fraqueza da ilusão democrática: um ensaio político não sentimental




        O golpe de 2016 e a posterior eleição de Bolsonaro impõem um sério e
        profundo reexame da trajetória da esquerda brasileira nas últimas
        décadas. Não é mais possível depois dessa vergonhosa derrota
        política e moral continuar com "mais do mesmo", como, por exemplo,
    ainda manter esperanças no STF ou em votações na Câmara dos Deputados.


    O ano de 2016 foi emblemático na história política brasileira. O Partido
    dos Trabalhadores (PT), organização política surgida no bojo da
    resistência à ditadura empresarial-militar, originalmente com tendências
    pronunciadamente socialistas, foi despojado da Presidência da República.
    O PT tem que viver com a amarga experiência de redescobrir a existência
    da luta de classes, do imperialismo, da não-neutralidade republicana dos
    aparelhos do Estado etc. Marilena Chaui, lamentavelmente, também teve
    que lembrar que o maior mal do mundo não reside na “classe média” paulista.

    Aparentemente, a burguesia brasileira, em suas diversas frações, não
    aprendeu o respeito bobbiano às regras do jogo. Já a esquerda
    pós-comunista, como muitos queriam nos anos 1980 do século XX, aprendeu
    o “valor da democracia”: as principais tendências da esquerda nos
    últimos trinta anos respeitaram religiosamente os limites impostos pela
    democracia burguesa no Brasil e, de tanto respeitarem, como prezam as
    regras explícitas, mas não ditas do jogo, passaram a ser fiéis gerentes
    do sistema.

    As esperanças brasileiras no processo de redemocratização – que optamos
    por chamar de otimismo democrático – foram derrotadas. Aliás, mais que
    isso, esperava-se dos anos 1980 uma oportunidade única para combater o
    “autoritarismo” e a “exclusão social” históricos da formação
    socioeconômica brasileira.

    Inegavelmente, o otimismo tinha uma razão de ser. Afinal não é em toda
    conjuntura histórica que, depois de mais de duas décadas de ditadura,
    emerge um pulsante movimento operário e popular. Tudo podia acontecer.
    E, no que é essencial, nada aconteceu. O sistema político brasileiro
    continuou fundamentado numa democracia restringida e com uso dilatado do
    terrorismo de Estado por meio de uma política sistemática de extermínio
    frente a segmentos da classe trabalhadora – notadamente, a população
    negra das favelas brasileiras.

    No ano do golpe parlamentar, pudemos constatar que o Estado brasileiro
    mata, tortura e viola mais os direitos humanos que na época da ditadura
    empresarial-militar. O extermínio sistemático – enquanto política de
    Estado – segue firme e encontra até uma forma jurídica e constitucional
    para sua reprodução: os autos de resistência (Zaccone, 2014). A
    militarização da vida social não parou de crescer: um soldado do
    Exército Brasileiro passa, em média, cem dias do ano em atividades
    “internas” (policiamento) – ver a coletânea /Até o último homem/
    <https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/ate-o-ultimo-homem-450>,
    organizada por Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira.

    Ironicamente, Orlando Zaccone pergunta “o que resta da ditadura?” E
    responde, ecoando Tales Ab’Saber, tudo, menos a ditadura! A democracia
    burguesa é bem mais parecida com a ditadura militar burguesa do que
    suspeitava o otimismo democrático dos anos 80. Porém, curiosamente, a
    cada nova constatação de que a democracia e o famoso “Estado de Direito”
    estão longe das ideias dos livros e dos discursos, os setores
    hegemônicos da esquerda, ao invés de questionarem a própria ideia de
    democracia abraçada, optam por reforçar suas convicções anteriores
    insistindo que a democracia é pouco democrática e precisa ser
    democratizada^1 <#_ftn1>. Num ciclo de imunidade auto-atribuída, o
    problema da democracia se resolve com mais democracia e cada “regressão
    democrática” deve ser respondida com uma defesa mais enfática da democracia.

    O objetivo dessa reflexão é debater a regressão democrática da
    democracia, abordar o processo de retirada dos direitos democráticos da
    classe trabalhadora no âmbito da democracia burguesa e o consequente
    empobrecimento teórico e político dos setores majoritários da esquerda
    brasileira e mundial na crítica à democracia realmente existente. A
    chave analítica fundamental que guiará nossa análise é a /distinção
    política e teórica/ entre /direitos democráticos/ e /democracia
    burguesa/, buscando demostrar as diferenças e os desencontros entre
    ambos e como a confusão entre as duas produziu nas últimas décadas um
    enfraquecimento significativo na crítica e nas possibilidades
    revolucionárias.


        *Somos todos democratas*

    Na história de organização da classe trabalhadora, desde a gênese do
    capitalismo, sempre houve concepções diferentes do que é democracia. Até
    mesmo nas revoluções burguesas europeias, especialmente francesa e
    inglesa, é possível identificar setores mais radicalizados que
    apresentavam propostas avançadas do que chamaríamos hoje de soberania
    popular e igualdade social – como o caso do jacobinismo, na França.

    A primeira grande expressão da maturidade organizativa e política da
    classe operária europeia, a socialdemocracia, continha um projeto de
    democracia antagônico ao defendido pela classe dominante: o liberalismo,
    expressão ideológica da burguesia, compreendia uma concepção
    jurídico-formal e restritiva de democracia (igualdade jurídica e
    direitos políticos apenas para os homens brancos, proprietários e
    europeus) e descarta qualquer conteúdo “social” na dimensão do regime
    político.

    A socialdemocracia apresentava uma concepção ampla de democracia,
    alargando a esfera dos iguais e dos portadores de direitos políticos e
    exigindo, de forma indispensável, que a democracia tivesse um conteúdo
    social: o fim da propriedade privada e da anarquia na produção,
    compreendidos, à época, como os principais elementos do capitalismo,
    eram determinantes fundamentais da realização da verdadeira democracia.

    Durante boa parte do século XX, por matrizes diferentes, houve um
    confronto entre concepções diferenciadas de democracia. Esse gigantesco
    embate teórico e político foi esvaziado nos anos 1980. De 1917 até a
    década de 1970 – entre grandes derrotas, como a Revolução Alemã e a
    Guerra Civil Espanhola, e grandes vitórias, como as revoluções Russa,
    Chinesa, Cubana e Coreana – o conflito entre capital e trabalho no
    âmbito mundial encontrava-se numa situação de relativo equilíbrio.
    Embora a maioria do mundo fosse capitalista, a distância entre, por um
    lado, as forças do capital e, por outro, as forças dos povos coloniais e
    da classe trabalhadora, não era tão discrepante e existiam ameaças reais
    de superação do capitalismo.

    Com a contrarrevolução neoliberal e neocolonial que avançou ao final dos
    anos 1970, ganhou forças na década seguinte e foi finalmente vitoriosa
    nos anos 90 – indo além dos sonhos mais otimistas da ordem dominante com
    a derrubada da União Soviética e das democracias populares do Leste
    Europeu –, instala-se uma situação social na qual a crítica radical do
    existente, e, portanto, da democracia, não estava na ordem do dia e foi
    banida do debate teórico. A despeito da valentia de intelectuais tomados
    individualmente que se recusaram a capitular e a aceitar “o fim da
    história”, formou-se um “consenso conservador sobre a democracia^2 <#_ftn2>.

    A democracia em sua versão liberal parlamentar, tida apenas como uma
    competição eleitoral regular entre partidos semelhantes, passou a ser o
    sinônimo da única democracia possível e aceitável. O revezamento
    sistemático do poder entre partidos da classe dominante, liberais ou
    conservadores, socialdemocratas ou neoliberais, que executam basicamente
    o mesmo programa e garantem que “não há alternativa”.

    Nesse cenário, os poucos que se atreviam a debater os limites da
    democracia burguesa – agora não mais adjetivada como tal – eram logo
    tachados de autoritários ou totalitários. Três noções são fundamentais
    para a hegemonia do consenso conservador em torno da democracia
    burguesa. A primeira (talvez a que se mantém mais sólida nos dias
    atuais) é que a esquerda revolucionária (sobretudo os comunistas) seria
    antidemocrática, violadora dos direitos humanos e que sacrifica no altar
    da igualdade social as liberdades individuais. Como consequência disso,
    as experiências de transição socialista, chamadas em linguagem
    jornalística de “países” ou “governos” comunistas, se resumiriam a
    regimes autoritários ou totalitários – e a crítica/denúncia do
    “stalinismo” evidentemente desempenha um papel central nessa narrativa^3
    <#_ftn3>.

    Se o principal problema das experiências de transição socialista foi a
    ausência de democracia e o autoritarismo dos Partidos Comunistas, é
    necessário compreender a importância do valor em si da democracia. Aqui
    entramos na segunda noção. Os anos 1980 e 90 marcaram processos muito
    importantes: o fim do apartheid na África do Sul e o término de várias
    guerras de libertação nacional em África, a saída de cena do ciclo de
    ditaduras militares do grande capital na América Latina e a
    legalização/desarmamento de agrupamentos político-militares
    revolucionários na América Central. Nesses processos, já numa correlação
    de forças política e militar em âmbito mundial desfavorável e com a
    hegemonia neoliberal consolidada, vários ex-revolucionários das mais
    diversas matizes, aceitaram que não se tratava de pôr termo à
    dependência, ao subdesenvolvimento e às democracias burguesas, mas
    recuperar ou criar uma democracia liberal burguesa.

    O desenrolar histórico é, por si só, expressivo, e podemos abordar
    rapidamente como exemplo o caso da África do Sul. O regime
    pós-apartheid, dirigido Nelson Mandela e seu partido (Congresso Nacional
    Africano), garantiu a vigência de uma igualdade jurídico-formal, mas a
    segregação étnico-racial nos seus vários determinantes (geográfico,
    econômico, cultural, social e político) não só se manteve, como foi
    ampliada. Em suma, na democracia pós-apartheid na África do Sul,
    mantém-se intacto o Estado racialista^4 <#_ftn4>.

    O complemento necessário desse violento desarme político e teórico é o
    /banimento/ da tematização do imperialismo, do colonialismo e da máquina
    de guerra operante em todos os cantos do planeta, mas em especial na
    periferia do sistema – a terceira noção desse consenso democrático. A
    derrota do movimento comunista no século XX foi acompanhada da derrota
    da revolução anticolonial que marcou a América, a África e a Ásia
    (revolução que politicamente teve várias expressões, como o movimento
    terceiro-mundista, o nacionalismo revolucionário e a fusão entre
    patriotismo e marxismo, como na Revolução Coreana e Chinesa); o
    imperialismo, nos anos 90, retoma uma ofensiva neocolonial de proporções
    assustadoras e, justamente nesse momento, some de cena a reflexão sobre
    o imperialismo, o colonialismo e o complexo industrial-militar^5 <#_ftn5>.

    Enquanto o neocolonialismo vivia seu melhor momento desde a ascensão do
    nazifascismo, as modas acadêmicas do momento falam em micropoder,
    disciplina, poder simbólico, fim do Estado Nacional e dominação burguesa
    especialmente por meio da ideologia. Poucas vezes na história foi
    possível achar um momento em que reflexões que se pretendiam críticas ao
    /establishment/ (em aspectos totais ou parciais) se descolaram tanto da
    realidade^6 <#_ftn6>. Como ciclos que se completam, a negação de
    qualquer “aspecto positivo” nas experiências de transição socialista se
    combina com a canonização “crítica” ou acrítica da democracia (burguesa)
    e se fundem com o banimento de qualquer reflexão a respeito do
    imperialismo, do militarismo e do colonialismo. Surge o melhor dos
    mundos: um mundo em que não haveria mais espaço para ditaduras, golpes
    militares ou o fascismo e todos serão beneficiados pela globalização. O
    grande problema da ideologia dominante é que a realidade teima em
    contradizê-la.


        *A regressão democrática da democracia*

    Domenico Losurdo, no seu livro /Contra-história do liberalismo/,
    demostra que o pensamento liberal, desde o seu surgimento, foi uma
    ideologia que buscou compreender a liberdade como um direito da
    comunidade dos livres: homens brancos, proprietários e europeus (dos
    países centrais da Europa). Os trabalhadores eram considerados
    não-humanos, como máquinas falantes, os escravos e os povos coloniais
    apareciam como essência da inumanidade, e as mulheres recebiam a
    qualificação de seres inferiores.

    Nunca houve dúvidas para a burguesia de que era necessário construir um
    sistema político que tivesse como objetivo primeiro a defesa da
    propriedade privada e da riqueza fruto da exploração: o mecanismo de
    câmaras legislativas para os lordes, o voto censitário, a proibição da
    montagem de partidos operários e sindicatos, a negação de votos para
    analfabetos e mulheres, a perseguição à imprensa operária, o terrorismo
    estatal etc. exemplificam esse momento histórico.

    Portanto, a burguesia nunca confundiu a democracia política (isto é,
    liberdade de organização partidária, imprensa, reunião, manifestação,
    etc.) para a classe trabalhadora (ou seja, a imensa maioria da
    população), com seu regime constitucional-parlamentar. A primeira é
    criação /da classe trabalhadora nos seus enfrentamentos contra o
    capital/, enquanto o último é criação da burguesia sob o liberalismo. A
    relação entre regime burguês e democracia política em tempo algum foi
    harmoniosa. Ao aceitar pela força a participação da classe operária no
    “jogo” democrático-burguês, a classe dominante nunca deixou de buscar
    mecanismos de exclusivismo no exercício do poder: a lógica é permitir a
    participação política da classe trabalhadora negando sua incidência nos
    centros de controle do poder político.

    Não é nosso objetivo nesta coluna detalhar os mecanismos mobilizados
    pela classe dominante a fim de esvaziar qualquer possibilidade mínima de
    incidência da classe trabalhadora no poder por meio da participação
    política institucional. O fato importante é o seguinte: para a ordem do
    capital sempre foi clara a distinção entre os direitos democráticos e
    seu regime constitucional.

    Contudo, há que se considerar um fenômeno importante já brevemente
    pontuado: durante a fase de ascensão das lutas proletárias e dos povos
    coloniais, a tensão entre regime burguês e direitos democráticos chegou
    a tal ponto que condicionou várias rupturas democráticas, ensejando
    soluções fascistas, ditaduras militares e/ou invasões militares
    neocoloniais. /Houve, efetivamente, momentos em que a burguesia não
    suportou a sua democracia burguesia/, porém, ao mesmo tempo em que a
    democracia política sob o Estado burguês era um impedimento temporário
    para seguir num padrão de acumulação de capital desejável, era um
    limitador da ação das classes subalternas contra a ordem do capital;
    exemplo significativo é o Chile da Unidade Popular^7 <#_ftn7>.

    Durante a contrarrevolução neoliberal e neocolonial, ganhou força um
    fenômeno novo em sua proporção: /a gigantesca regressão dos direitos
    democráticos da classe trabalhadora sem precisar de rupturas
    institucionais./ Um dos exemplos mais significativos desse processo é a
    chamada “onda punitiva” e a formatação do Estado penal nos países
    centrais do capitalismo (ver as obras do sociólogo francês Loïc
    Wacquant, em especial /As duas faces do gueto /
    <https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/as-duas-faces-do-gueto-171>e
    /As prisões da miséria/).

    Todo esse processo de regressão democrática dos direitos da classe
    aconteceu com uma inestimável contribuição dos aparelhos de repressão e
    espionagem do Estado burguês. A narrativa de uma “sociedade ocidental”
    na qual a repressão cede lugar progressivamente à luta pelo consenso na
    dominação burguesa, perde de vista que, frente ao aumento da densidade
    da rede associativa das classes em luta na disputa ideológica, a classe
    dominante respondeu com a criação de aparelhos de
    repressão/controle/vigilância herméticos a qualquer controle popular ou
    público. Esses aparelhos atuam numa permanente “guerra suja” contra os
    movimentos e organizações das classes subalternas: sequestros,
    assassinatos, infiltrações, roubos, sabotagens, apoio a golpes de
    Estado, falsificação de eleições, promoção de determinadas vertentes
    culturais e guerra econômica estão entre algumas atividades promovidas
    pela CIA e o FBI – paradigmas maiores desse tipo de aparelho estatal
    burguês, que se generalizou e profissionalizou nos países centrais do
    capitalismo no pós Segunda Guerra^8 <#_ftn8>.

    O avanço da classe dominante em seus objetivos de fazer regredir os
    direitos democráticos dentro da democracia burguesa é sempre facilitado
    pela própria posição de classe das personificações do capital.
    /Democracia política não é a mesma coisa que dominação burguesa, mas,
    sob o Estado burguês, toda democracia política é uma forma de dominação
    burguesa./

    Isso ocorre porque: a) Os centros decisórios estratégicos do Estado
    estarão sempre subordinados ao interesse geral de acumulação do capital
    (o que não se confunde com o interesse de um capitalista ou um de grupo
    deles tomado como exemplo “empírico”); b) são tomados como fato dado,
    natural de um ponto de visto ideológico, político e jurídico, a
    propriedade privada dos meios de produção, a apropriação privada da
    riqueza e a mercantilização da força de trabalho; c) por ter o poder
    econômico concentrado, a burguesia em suas diversas frações está
    estruturalmente em vantagem na disputa pelo controle dos diversos
    aparelhos do Estado e, quando perde aparelhos centrais, como um Governo
    Federal, dispõe de uma rede de aparelhos de hegemonia privados que
    conseguem com relativa facilidade paralisar ou destruir a ação incômoda
    do aparelho estatal que se tornou disfuncional.

    Dito de maneira mais simples: /sobre a base capitalista, toda democracia
    é burguesa, embora os direitos democráticos sejam conquistas da classe
    trabalhadora/. Cabe, portanto, a pergunta: qual é o fator determinante
    que permite em determinadas conjunturas a classe trabalhadora impor
    conquistas democráticas ou tornar disfuncional a democracia burguesa?
    Resposta: a ação de classe com radicalidade na defesa não da democracia
    em si, mas dos direitos democráticos da classe^9 <#_ftn9>. Em todos os
    momentos históricos em que a classe trabalhadora avançou em conquistas
    democráticas se deu em um horizonte onde se pretendia muito mais que
    melhorar o Estado burguês. Isto é, foi criticando agudamente os limites
    da democracia burguesia e buscando radicalmente superá-la que foi
    possível impor uma relativa democratização do Estado burguês.

    No caso brasileiro, o Partido dos Trabalhadores, em sua origem advoga a
    conquista do poder político. O PT dizia, numa formulação de clara
    inspiração leninista clássica, que não existe exemplo de transição
    socialista iniciada sem os trabalhadores tomarem o poder do Estado (ver
    as obras de Mauro Iasi, em especial, /As metamorfose da consciência de
    classe/ e /Estado, política e ideologia na atual trama conjuntural/).

    A não aliança com partidos da ordem, independência financeira e
    política, o foco na luta de massas e não na disputa institucional e o
    programa político radical foi o principal vetor de resistência à
    transição conservadora da ditatura empresarial-militar à democracia
    burguesa. Por uma série de determinantes históricos que não cabe
    aprofundar nesse momento, o PT progressivamente suavizou a radicalidade
    do programa, abrandou a independência de classe financeira e política,
    centrou-se na luta institucional e passou a defender como sinônimo de
    “caminho democrático ao socialismo” a atuação nos marcos da democracia
    (burguesa) brasileira.

    A consequência é o esvaziamento da ação de classe dos subalternos como
    vetor de resistência ao fortalecimento da autocracia burguesa, e a
    conversão do PT em operador político do sistema, deixando “legados”
    perfeitos à dominação de classe, como a lei antiterrorismo, as Unidades
    de Polícia Pacificadora (UPPs) e o apassivamento dos explorados. Nas
    palavras de Mauro Iasi:

    “As mudanças que se verificam não se operam aleatoriamente, mas no
    sentido de recolocar a consciência que se emancipava de volta nos
    trilhos da ideologia. Não é, em absoluto, certas palavras-chaves vão
    substituindo, pouco a pouco, alguns dos termos centrais das formulações:
    ruptura revolucionária por rupturas, depois por democratização radical,
    depois por democratização e finalmente chegamos aos “alargamento das
    esferas de consenso”; socialismo por socialismo democrático, depois por
    democracia sem socialismo; socialização dos meios de produção por um
    controle social do mercado; classe trabalhadora, por trabalhadores, por
    povo, por cidadãos; e eis que palavras como revolução, socialismo,
    capitalismo, classes, vão dando lugar cada vez mais marcante para
    democracia, liberdade, igualdade, justiça, cidadania, desenvolvimento
    com distribuição de renda”.

    ^Mauri Luis Iasi, Mauro Luis Iasi, /As metamorfose da consciência de
    classe: o PT entre a negação e o consentimento/ (São Paulo: Expressão
    Popular, 2006), p. 435.

    Em resumo, o consenso conservador em torno da democracia é o norte de
    uma época histórica de brutal regressão da democracia política, e as
    respostas hegemonicamente formuladas pela esquerda (a perspectiva de
    democratizar a democracia) não estão conseguindo fazer frente a esse
    fenômeno. O desarme teórico está imbricado com a derrota política num
    processo de retroalimentação.


        *Conclusão*

    O adversário de classe não está retrocedendo na democracia. Esta
    conclusão não impõe posturas esquerdistas e mecanicistas que não
    conseguem apreender, para as classes dominadas, a diferença entre lutar
    sob uma democracia burguesia ou sob uma ditadura fascista. A mudança de
    rota que deve ser operada pelas forças de esquerda empenhadas em
    derrubar a ordem capitalista tem como prisma primeiro encarar a
    democracia burguesa como ela realmente é: na democracia realmente
    existente, a violência, o terrorismo estatal, a negação de direitos
    básicos (como liberdade de imprensa e organização sindical), os
    massacres no campo, os autos de resistência e a história de milhares na
    mesma situação de Rafael Braga não constituem um desvio, uma perversão,
    do ideal do Estado democrático de Direito – são o seu funcionamento
    concreto, são a sua essência de classe em movimento.

    O confronto da democracia realmente existente deve andar casado com a
    defesa intransigente, estratégica, dos direitos democráticos da classe
    trabalhadora. A democracia política sempre carregou altíssimo potencial
    de contradição com a ordem burguesa. A novidade, contudo, é que nesse
    momento de crise estrutural do capital e ofensiva neocolonial, tal
    contradição é aguçada. O golpe parlamentar de 2016 e a posterior eleição
    de Jair Bolsonaro, enquanto particularidades da conjuntura brasileira,
    impõem, igualmente, um sério e profundo reexame da trajetória da
    esquerda brasileira nas últimas décadas.

    Não é mais possível depois dessa vergonhosa derrota política e moral
    continuar com “mais do mesmo”, como, por exemplo, ainda manter
    esperanças no STF ou em votações na Câmara dos Deputados.

    A conclusão que se impõe, portanto, é/máximo combate à democracia
    burguesa e máxima defesa dos direitos democráticos da classe
    trabalhadora/. Dentro desta perspectiva temos um norte de atuação para
    uma retomada crítica da luta política no âmbito da “questão
    democrática”. Democratizar a democracia é a forma política do reformismo
    burguês. Tal como as ideologias do crescimento econômico com a
    distribuição de renda
    <https://blogdaboitempo.com.br/2019/06/27/chegou-a-hora-da-revolucao-brasileira-critica-a-ideologia-da-industrializacao-e-do-crescimento-economico/>,
    democratizar o Estado burguês retira do horizonte a luta pelo poder
    popular, isto é, pela derrubada do Estado burguês e a construção de uma
    verdadeira democracia fundada na propriedade social com economia
    planificada e democracia operária. Não há futuro fora da luta pelo poder
    popular.


    In
    BLOGO DA BOITEMPO
    https://blogdaboitempo.com.br/2019/07/17/a-fraqueza-da-ilusao-democratica-um-ensaio-politico-nao-sentimental/
    17/9/2019