quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Ucrânialevanta-se contra a NATO, os neoliberais e os oligarcas
por Boris Kagarlitsky [*]
entrevistado por Feyzi Ismail
Quais são as origens da crise na Ucrânia e porque o conflito irrompeu nos
últimos meses?
As origens da crise na Ucrânia são triplas. A primeira coisa é que a
Ucrânia foi concebida pelos estrategas de Moscovo como um elemento numa
complexa economia planificada. Os territórios que formam a Ucrânia foram
agrupados, não por quaisquer razões históricas, culturais ou étnicas, mas
para organizar um planeamento complexo – queriam ligar as áreas
industriais do leste com os portos do sul, como Odessa e a Crimeia, ao
ocidente agrícola. Era essa a lógica. Quando essa lógica foi destruída com
o fim da União Soviética, este território enquanto unidade integrada
começou a desintegrar-se e perdeu a sua razão de ser.
O fim da União Soviética também permitiu que florescessem divisões
culturais, o que é a segunda causa da crise. As diferenças na língua, por
exemplo, tornaram-se muito mais importantes do que anteriormente. Mas as
políticas nacionalistas para impor uma única língua ucraniana foram
absurdas porque há muito mais ucranianos a falar russo do que ucraniano –
cerca de um terço são de etnia russa e outro terço identifica-se como
ucranianos de língua russa.
Há muita gente que fala as duas línguas, mas o russo está muito mais
difundido do que o ucraniano, e até estava em ascensão no período
pós-independência. Isto porque o mercado mundial favorece a língua
dominante, a língua dos negócios, do comércio e da produção. O sistema de
mercado reforçou as contradições existentes no interior da sociedade e
criou as condições prévias para mais conflitos culturais. Mas os media
liberais apresentam esses conflitos como puramente culturais embora, na
verdade, as razões subjacentes estejam relacionadas com a economia e as
instituições.
O terceiro aspeto da crise tem a ver com a economia ucraniana. No período
pós-soviético, a Ucrânia tornou-se numa oligarquia, tal como a Rússia, mas
com menos recursos. A quantidade de recursos que a Rússia possuía permitiu
a Putin criar um sistema de compromisso permanente e auto-reprodutor. O
governo de Putin baseia-se numa permanente construção de consenso entre as
elites. Depois de haver o consenso das elites, faz-se uma tentativa para
garantir que esse consenso é aceite pelo resto da população através de
medidas de bem-estar, etc.
A ideia é concentrar-se no consumo – como compensação para a falta de
atividade política – e fica toda a gente mais ou menos feliz. Mas a
oligarquia ucraniana nunca teve recursos financeiros e materiais
suficientes para facilitar esse compromisso.
Contrariamente ao petróleo russo, o aço ucraniano é muito mais vulnerável
no mercado mundial. Isso tem levado a um conflito permanente entre
diversos clãs oligárquicos pelo controlo dos recursos públicos existentes,
que foi a base da alegada democracia ucraniana. Nesse sentido, a Ucrânia é
uma república oligárquica típica, recusando o acesso à política das
pessoas vulgares mas, ao mesmo tempo, gerando um pluralismo real para a
oligarquia. Este sistema teve as suas crises mas, depois de cada crise,
conseguiu-se instituir um ou outro compromisso e isso nunca foi fatal para
a estabilidade política. Ou seja, até à crise económica global de 2008.
Esta crise não só desgastou a capacidade da elite ucraniana em conseguir
um compromisso, mas também deu entrada a novos atores, como a UE, os EUA e
a NATO. Dado o nível da crise no Ocidente, o fator importante para
estabilizar o sistema passou a ser a sua expansão. A UE está com grandes
problemas, especialmente no sul. A capacidade dessas sociedades em
reproduzir-se está tão corrompida pelas políticas neoliberais que
dificilmente se poderá dizer como manter essas sociedades em funcionamento
sem se afastarem do neoliberalismo. [NT] Mas é precisamente isso o que as
elites neoliberais não vão permitir. A única hipótese de fugir ou de
resolver estas contradições é alargar o sistema e introduzir mais recursos
no mesmo.
Que interesses é que a UE e os EUA têm na Ucrânia?
Em recessões globais anteriores, os EUA foram a locomotiva que puxou os
outros países para fora da crise. Mas agora a economia americana está tão
débil que, em vez de puxar os outros países para fora da crise, a
recuperação americana baseia-se em mergulhar os outros países na crise
ainda mais. O outro lado da equação americana é a expansão da capacidade
militar, em especial, da expansão da NATO.
As potências ocidentais começaram a ficar mais interessadas na Ucrânia
enquanto local de acesso a recursos baratos, incluindo uma força de
trabalho barata, disciplinada e relativamente instruída, que pode ser
utilizada no Ocidente e, em especial, na UE, para desgastar os estados
providência no Ocidente. Mais 10 mil desempregados ucranianos, que podem
ser transferidos para o ocidente, como trabalhadores flexíveis, são úteis
ao capital ocidental.
A Ucrânia pode desempenhar o mesmo papel na UE que a Ásia Central
desempenha na economia russa – fornecendo montes de trabalhadores sem
garantias, sem direitos laborais, sem cidadania, sem proteção e que estão
totalmente dependentes dos patrões. Os ucranianos estão numa posição em
que podem ser transformados neste exército permanente de trabalho
migrante.
Se lerem o Acordo de Associação da UE com a Ucrânia, o seu objetivo
central é fechar a maior parte da indústria ucraniana. O acordo diz que a
UE fornecerá algum apoio financeiro para resolver os problemas financeiros
do estado, mas para isso é preciso fechar a maior parte das indústrias.
Em comparação com anteriores acordos de comércio livre, este é
definitivamente o pior Acordo de Associação jamais preparado pela UE.
Claro que um outro aspeto é que a Ucrânia tem que ser integrada nas
estruturas políticas e militares ocidentais, tem que se tornar num
verdadeiro membro da NATO. Sejamos claros.
O governo ucraniano gostaria de vir a ser um membro oficial da NATO, mas
tornar-se num membro oficial significa alterar a constituição ucraniana.
Entretanto, a NATO está relutante em aceitar a Ucrânia como membro formal
mas, por outro lado, está ansiosa por envolver a Ucrânia em todas as
guerras e alianças estratégicas possíveis.
Por exemplo, vejam a Crimeia. Mesmo no tempo de Yanukovych, já havia
discussões sobre correr com os russos e deixar entrar os americanos. A
NATO já tinha anunciado a intenção de construir a sua sede em Sebastopol,
substituindo ali a frota russa do Mar Negro. Mas, no último momento,
alguns setores da elite ucraniana ficaram preocupados, porque perceberam
que iam perder a sua indústria. Foi uma apressada viragem de 180 graus –
em Setembro de 2013 – quando Yanukovych decidiu não assinar o Acordo de
Associação.
O que é que incendiou os protestos na Praça Maidan em Novembro passado?
Na Ucrânia ocidental, as pessoas estavam a ficar desempregadas em massa e
marginalizadas, enquanto na Ucrânia oriental a indústria continuava a
funcionar. Foi precisamente sobre os recursos de leste que se travou a
luta. O ocidente não produzia muito e só consumia recursos, mas só a um
nível muito baixo, porque preferiam não investir recursos em benefícios
sociais.
O centro, que é Kiev, estava a explorar o leste e desenvolvia uma economia
muito parasitária, tentando evoluir para uma verdadeira capital europeia,
enquanto fazia pobres investimentos no ocidente do país e o mantinha mais
ou menos sob controlo. Percebe-se portanto porque é que Kiev está em
conflito com o resto da Ucrânia. Em grande parte, é esta economia
parasitária de Kiev que está a gerar o apoio ao novo governo atual, e é
Kiev que precisa de manter o país unido, para poder continuar a explorar o
leste.
Os oligarcas que possuem empresas na Ucrânia de leste vivem nos seus
luxuosos palácios de Kiev, com exércitos de criados, incluindo lacaios
ideológicos. Enquanto no leste temos uma população operária que vive com
salários muito baixos, que se sentem muito frustrados e irritados e que
são de língua russa, o que significa que fizeram com que eles se sintam
humilhados em termos económicos, sociais e culturais. A Ucrânia de leste é
a parte mais produtiva do país, produzindo cerca de 80 por cento do PIB,
mas recebem menos do que qualquer outra região.
Esta situação pôde continuar enquanto Yanukovych e a sua gente, que também
era do leste, conseguiu manter o controlo da população, através de redes
paternalistas e clientelistas. A situação geral foi-se deteriorando mas,
pelo menos, sempre se ia dando qualquer coisa aos patrões dos sindicatos
e, por vezes, até aos trabalhadores, mesmo que não passassem de promessas.
As pessoas do leste continuaram a ter esperança de que, enquanto
Yanukovych estivesse no poder, não seriam totalmente esquecidas. Mas,
quando a extrema-direita alinhou com as elites neoliberais de Kiev, as
coisas ficaram fora de controlo.
Os protestos foram provocados pela atitude repentina de Yanukovych de não
assinar o Acordo de Associação, mas passaram muito para além disso.
Juntaram-se multidões na Praça Maidan em Novembro de 2013. Não estavam
muito preocupados com ideologias, foi política pura. Os grupos
oligárquicos queriam sobrepor-se uns aos outros. O importante para
perceber o golpe de estado que ocorreu em Fevereiro passado, é que a
economia da Ucrânia ocidental ficou arruinado por causa das políticas do
mercado livre. A produção industrial que ali foi montada a fim de se
encaixar no sistema planeado pan-ucraniano foi destruída depois de 1990 e
a maior parte das pessoas ficou no desemprego. Há toda uma geração de
jovens que nunca trabalhou e nunca conseguiu arranjar trabalho. Quando
muito, arranjavam trabalhos precários. Portanto, tornaram-se alvos muito
fáceis para a extrema-direita, que começou a dar-lhes algum sentido à
vida, organizando-os e pagando-os para formarem grupos nazis.
Cerca de 10 a 15 mil jovens desempregados do ocidente foram levados para
Kiev e pagos para ali viverem, durante meses, a fim de protestar na Praça
Maidan. O que é preciso perceber é que, para aquela gente, era o único
trabalho que jamais haviam tido em toda a vida. Muitos deles não queriam
ir-se embora e alguns deles ainda ali vivem, porque não têm para onde ir.
Por fim, agarraram em armas. A violência, inicialmente, não fazia parte do
plano dos neoliberais. Há muitas razões para pensar que ela aconteceu
espontaneamente.
As potências ocidentais fizeram tudo para apoiar este golpe de estado, sem
ter uma estratégia clara do que fazer a seguir. Na altura em que
Yanukovych percebeu que o Ocidente queria que ele saísse, fugiu. Foi neste
vazio do poder que se instalou o grupo rival.
Mas os EUA também haviam apoiado Yanukovych anteriormente. Foi exatamente
por isso que Yanukovych ficou tão fraco. Estava à espera de ter um apoio
ocidental sustentado e, de repente, percebeu que o Ocidente tinha deixado
de o apoiar e começara a apoiar os seus adversários; ficou com os nervos
num feixe, por isso fugiu para a Rússia. Quando Yanukovych fugiu, os seus
clientes políticos foram ao ar, o que teve um efeito tremendo na classe
operária ucraniana. Porque, depois de este sistema ter desabado, milhões
de pessoas ficaram sem controlo; não apenas milhares de mercenários, mas
milhões de trabalhadores. É uma coisa muito diferente. Houve comícios em
toda a Ucrânia de leste.
Curiosamente, um dos slogans da Praça Maidan era “o sudeste tem que se
erguer”, i.e., o sudeste tem que se erguer e apoiar a rebelião contra
Yanukovych. Claro que o fizeram! Quando isso aconteceu, Kiev enviou
tanques, aviões e artilharia contra eles. Inicialmente, foi um
levantamento pacífico por todo o lado, com manifestações, comícios,
formação de conselhos, e com representantes locais a votar contra a
confiança no governo de Kiev.
O problema também foi que, nessa altura, o novo governo de Poroshenko –
formado pelos que ganharam o golpe de estado – também foi mal calculado,
porque subestimaram a capacidade de o leste se revoltar. A primeira coisa
que fizeram foi votar para cancelar a legislação que garantia os direitos
da língua às pessoas de língua não ucraniana. Não é a mesma coisa do que
proibir a língua russa ou outra qualquer, porque anteriormente havia
garantias legais que foram assim abolidas. Aplica-se não apenas aos
russos, mas aos húngaros, polacos, romenos – a qualquer língua não
ucraniana.
A ironia é que ninguém no governo ucraniano fala ucraniano, a não ser
talvez o líder do partido fascista. Muitos nacionalistas ucranianos mal
conseguem proferir meia dúzia de palavras em ucraniano. As pessoas riam-se
com os folhetos do Setor da Direita, que é uma coligação de grupos da
extrema-direita, porque esses folhetos apelavam para que o ucraniano fosse
a única língua no país, mas tinham tantos erros e uma gramática tão pobre
que eram os de língua russa que corrigiam esses folhetos. Esta aprovação
provocou protestos enormes.
Qual foi a natureza do levantamento na Ucrânia de leste? Quem são os
opolchénios?
Primeiro, houve um levantamento armado, que foi reprimido militarmente, em
Abril. Havia um acampamento em Odessa, organizado pelos que exigiam uma
Ucrânia federal, mas o acampamento foi atacado pela extrema-direita. As
pessoas foram forçadas a fugir para os edifícios dos sindicatos junto ao
acampamento, mas o edifício foi incendiado. As pessoas tentaram fugir mas
os que conseguiram foram mortos na rua. A estimativa oficial dos mortos
foi de 46, mas a estimativa não oficial foi de cem ou mais. Os que
escaparam foram detidos e metidos na prisão, enquanto os que fizeram a
matança foram considerados uns heróis.
Depois disso, Donetsk e Lugansk criaram uma força de autodefesa, ocupando
edifícios e depósitos de armas. O local está cheio de armas desde os
tempos soviéticos porque é um dos centros de produção e fabrico militar.
Os combatentes são operários, camponeses, mineiros e agora há um número
cada vez maior de intelectuais a juntar-se-lhes, na sua maioria vindos da
Rússia e de outras partes da Ucrânia. Inicialmente, lutavam por uma
autonomia maior, mas as duas repúblicas populares, Donetsk e Lugansk,
declararam a independência em Abril passado .
A princípio estavam dispostos a negociar a aceitação de qualquer tipo de
acordo federal com a Ucrânia. Mas, depois, as tropas ucranianas
bombardearam e lançaram o caos nesses territórios. Na última vez que nos
encontrámos com representantes de Donetsk e Lugansk, eles disseram que
"depois do que a Ucrânia nos fez, é óbvio que não nos consideram como seus
concidadãos. Eles não encaram estes territórios como seus. E nós não
queremos continuar neste país, a não ser – a não ser – que este governo
seja dissolvido".
Portanto, houve dois pontos de viragem. O primeiro foi a 2 de Maio, quando
as pessoas foram forçadas a pegar em armas. Em certo sentido, isso foi um
êxito para o novo governo em Kiev, porque localizaram a rebelião.
Inicialmente era uma rebelião pacífica, não armada, de toda a Ucrânia de
leste e, por fim, conseguiram concentrar a rebelião em duas regiões. O
segundo ponto de viragem foram as eleições organizadas (ou seja,
compradas) por um dos oligarcas, Poroshenko, de alcunha o "rei do
chocolate" porque possui uma grande indústria de confeitaria. Poroshenko
também nomeou vários outros oligarcas para determinadas províncias. Cada
oligarca ficou com a província onde possui mais ativos.
Isto é um caso extremo de domínio oligárquico, como num país feudal.
Poroshenko ganhou a maioria nas eleições porque aqueles que se opuseram ao
golpe foram impedidos de se candidatar. Também gastou o triplo do dinheiro
de todos os outros em conjunto e, segundo consta, também subornou as
comissões eleitorais. Por fim, parecia ser o mais moderado dos candidatos
que puderam concorrer.
Poroshenko tem estado no poder desde junho, data depois da qual tem havido
um ataque militar maciço ao leste, comparável a uma operação da II Guerra
Mundial, com centenas de tanques, aviação, bombardeamentos, artilharia
maciça, etc. Não é uma guerra de guerrilha, é uma guerra a sério. Mas as
opolchenie – milícias é a tradução correta – criaram uma força de combate
formidável. Claro que há muitos voluntários russos e alguns deles têm uma
grande experiência militar.
O governo russo, obviamente, permite que munições e alimentos atravessem a
fronteira, e também deixa passar os voluntários. Há organizações militares
russas a cooperar abertamente com as opolchenie e há tropas russas que
entraram em Donetsk e Lugansk e estão posicionadas ao longo da fronteira
para controlar os dois lados, mas não estão a tomar parte no combate
ativo. Por outro lado, não é verdade que o governo russo esteja a dirigir
essas operações das opolchenie.
Há um conflito permanente entre as elites russas, em especial depois da
primeira vaga de sanções contra a Ucrânia. Secções da elite russa
começaram a entrar em pânico e também detestam estas repúblicas populares
porque são muito ameaçadoras para o estado russo, provocando debates sobre
nacionalizações, derrube da oligarquia, etc.
A indústria russa também está a fornecer sobressalentes para as forças
armadas ucranianas e Poroshenko teve que reconhecer que, sem o fluxo
regular de sobressalentes e técnicos da Rússia, não teria sido possível
que o exército ucraniano continuasse a combater.
Qual é a natureza das repúblicas populares de Donetsk e Lugansk e quais
são as relações da Rússia com elas?
Pouco depois de Donetsk, e a seguir Lugansk, se terem declarado
repúblicas, surgiu uma grande discussão sobre o seu futuro. Por um lado,
elas surgiram dado o apoio maciço dos operários mas, por outro lado, não
podem sobreviver sem a cooperação de Moscovo e do governo russo. As elites
russas estão a usar todas as oportunidades para influenciar, manipular e
subverter essas forças.
No interior das repúblicas, também há tendências contraditórias. A
exigência geral é para o bem-estar, a instituição duma república popular
social – não uma república socialista, mas social – o que significa que um
estado social deve ser incorporado nas estruturas institucionais do
sistema. Há muitas exigências de nacionalizações e, por exemplo, foram
suspensas as "reformas" na saúde com vista à sua comercialização
(privatização).
São estas as reivindicações dos combatentes no terreno. Simultaneamente,
as repúblicas são instáveis e ineficazes e a sua legitimidade também é
questionada (pelo poder oligárquico a nível mundial, no seio das elites
russas e no Ocidente, claro). Portanto, há um conflito político permanente
dentro dessas repúblicas.
Embora haja exigências progressivas, por um lado, por parte das bases,
também há elementos burgueses no seio dos líderes republicanos e uma
pressão permanente de Moscovo para não se avançar numa direção mais
progressista, usando a sua capacidade de controlar a fronteira e de
fornecer ou não mantimentos e munições para chantagear as repúblicas. Por
exemplo, tentaram a todo o custo, infelizmente com algum sucesso, bloquear
os programas de nacionalizações que foram anunciados nos dois países. Se
avançassem, Moscovo cortar-lhes-ia os abastecimentos. Portanto, há uma
luta permanente. Mas também há uma luta permanente, e é um movimento
crescente, para apoiar essas mesmas exigências. Portanto, é uma luta que
vai continuar dos dois lados da fronteira.
O problema para os que estão a tentar controlar Donetsk e Lugansk a partir
de Moscovo é que a opolchenie está a ficar mais radicalizada e é
alimentada por voluntários que são muito radicais e da ala esquerda, na
sua maioria. Claro que são nacionalistas, mas mesmo os que são
nacionalistas, apoiam basicamente as exigências sociais.
Portanto, em sentido político, Moscovo está a travar uma batalha difícil.
Mas ainda têm instrumentos muito importantes. Se fecharem a fronteira, as
repúblicas serão derrotadas. Por isso é que até agora tem havido uma
situação de empate. Mesmo as medidas progressistas que foram declaradas
não foram implementadas. Em parte por causa do estado de guerra, porque é
preciso concentrarem-se na parte militar; mas o facto de a opolchenie se
estar a radicalizar é muito importante.
Uma das figuras mais populares na opolchenie foi Igor Strelkov, que não
era nada de esquerda – na verdade, ele afirma ser monárquico, adora o
império russo e é um romântico em relação aos czares russos, etc – mas,
enquanto comandante da opolchenie em Donetsk, arregimentou todo o tipo de
radicais da esquerda. Também conseguiu afastar da opolchenie muitos
nacionalistas e gente de direita – mas, por razões técnicas: disse que
eram maus combatentes, não obedeciam a ordens, não respeitavam o comando
da república popular, etc.
A certa altura, começou a tornar-se visível que Strelkov estava a ficar
muito mais popular na Rússia do que Putin. A popularidade de Strelkov ia
aumentando à medida que a popularidade de Putin diminuía, porque este não
tomava uma posição firme contra o Ocidente.
O conflito tornou-se evidente no início de julho, quando Strelkov retirou
de Sloviansk, quando as suas tropas foram cercadas pelas tropas ucranianas
e se esperava que ele fosse morto. Ele saiu de Sloviansk, organizou a
defesa de Donetsk e dominou uma conspiração para entregar Donetsk às
tropas ucranianas, uma conspiração que foi ali organizada por figuras
pró-Kremlin.
Tornou-se óbvio assim que eles iam entregar Donetsk, provavelmente de
acordo com Poroshenko, em troca da garantia de que a Crimeia ficaria a são
e salvo nas mãos da Rússia. Esta conspiração foi derrotada e toda essa
gente pró-Kremlin foi corrida de Donetsk. Não prenderam ninguém, só lhes
pediram delicadamente que saíssem da cidade e, em resultado, Strelkov
passou a ser inimigo do Kremlin. Por fim, conseguiram ver-se livres dele,
cortando-lhe os abastecimentos e, quando ele ficou sem munições e sem
mantimentos, foi forçado a ir a Moscovo. Nessa altura, parece que ficou
detido e depois apresentou a sua carta de demissão. Se a assinou ou foi
forçado a assiná-la, ninguém sabe mas depois desapareceu e ninguém conhece
o seu paradeiro.
Foi há cerca de um mês. Surgiram muitas lendas, incluindo um vídeo falso
que o mostra em Ferguson . Isto dá-nos uma ideia de quão intensa é a luta
em torno destas repúblicas e de como a luta ainda está no início.
Como devemos analisar o futuro das repúblicas em relação ao resto da
Ucrânia? A luta das repúblicas ainda é pela autonomia?
Vai haver uma real necessidade de formar líderes políticos
representativos. O povo que está a lutar considera muito mais a Nova
Rússia do que estas duas repúblicas. Porque a Nova Rússia também é
Kharkov, Odessa e todo o sudeste.
Mas, quando Putin apela a um cessar-fogo, a questão é se a opolchenie vai
deixar de lutar. Especialmente porque estão a ganhar. Conseguiram ganhar
contra um exército que provavelmente tem 60 vezes mais tanques, etc, em
parte por causa das suas táticas de guerrilha. Mas também porque a moral
das tropas ucranianas é muito baixa, desertam e não querem ir para a
guerra. Por vezes desertam com armas e tudo e passam-se para a opolchenie,
enquanto outros apenas fogem. Já desertaram milhares. Centenas passaram-se
para o lado da opolchenie e agora estão a formar batalhões de desertores
ucranianos. Querem formar um regimento. Portanto, há gente suficiente para
formar um regimento e provavelmente ainda mais.
Por outro lado, a forma como os generais ucranianos se comportam é
terrível porque estão a enviar gente como carne para canhão. As baixas são
incríveis, semelhantes às baixas durante a II Guerra Mundial. A opolchenie
é sobretudo formada por voluntários e por gente que teve formação militar,
muitos dos quais lutaram na Chechénia ou no Afeganistão. São combatentes
que são mais ou menos competentes para o combate. Enquanto do lado da
Ucrânia estão a enviar recrutas que ainda não tiveram um treino adequado.
Portanto, as baixas são muito altas e isso também deita abaixo o moral das
tropas ucranianas e origina muito descontentamento.
Agora os generais ucranianos por trás das linhas da frente têm que usar
coletes à prova de bala para não serem alvejados pelos seus próprios
soldados. Penso que é por isso que o movimento se vai espalhar ao resto da
Ucrânia.
A luta já não é pela autonomia, porque agora estão a exigir a
independência. Acho que se a Nova Rússia passasse a ser um novo país na
Europa, seria uma coisa boa. O terreno em comum que têm com o resto da
Ucrânia é que querem ver-se livres do governo de Kiev.
Uma vez derrotado o governo de Poroshenko, eles vão negociar. E terão que
decidir se querem uma federação ou um país independente – ou talvez a
Ucrânia se desintegre em vários países. Neste caso, talvez o ocidente se
divida e talvez a Hungria apanhe uma região qualquer. Mas o terreno comum
entre os povos do sudeste e os movimentos é que, primeiro, precisam de se
livrar do governo de Kiev e, depois, têm que arranjar forma de negociar
pacificamente e numa base democrática.
Se conseguirem livrar-se do atual governo, então a possibilidade de a
Ucrânia se manter unida é maior. Poroshenko vai tentar manter-se, mas está
a perder terreno e a extrema-direita está cada vez mais contra ele. O
exército da Nova Rússia está a ganhar, o seu exército é cada vez menos
leal e ele está dependente apenas dos serviços secretos e dos serviços de
segurança. Mas dificilmente nos podemos manter no poder apenas com os
serviços de segurança a apoiar-nos. Portanto, a base do poder dele está a
diminuir muito rapidamente. O seu trunfo é que ele tem o apoio dos EUA e
da UE. Mas isso não será suficiente se ele não tiver qualquer tipo de
apoio interno.
Quais foram os avanços militares da opolchenie nas últimas semanas? É um
ponto de viragem?
Penso que é um ponto de viragem. As tropas ucranianas têm estado em fuga
aberta e a opolchenie avança em toda a linha da frente. Há muitas tropas
ucranianas cercadas. A posição da opolchenie tem sido desarmar os
combatentes ucranianos e depois deixá-los ir embora. Não mantêm muitos
prisioneiros em parte porque não têm comida suficiente. Mas também pensam
que é uma boa propaganda para eles. Por vezes mantêm-nos durante algumas
semanas, e depois pedem aos pais para irem buscar os recrutas. Quando os
pais chegam, voltam para casa com os filhos. Portanto, temos todas essas
imagens de tropas ucranianas a ir-se embora, desarmadas. Ou partem para a
Rússia mas, claro, a Rússia manda-os de volta para a Ucrânia. Mas o que
também acontece é que, depois de passar algum tempo com a opolchenie,
muitos deles preferem ali ficar e lutar do outro lado.
Estamos a assistir a centenas de tropas a recuar, desarmadas e é uma
derrota moral esmagadora – seria uma total derrota moral para qualquer
exército.
As fronteiras entre as repúblicas e a Rússia estão nas mãos dos
revoltosos, o que significa que haverá um fluxo de material – alimentos e
munições para as repúblicas – e também se torna muito mais difícil o
controlo do governo russo porque, enquanto controlarem toda a fronteira,
haverá sempre incursões. O alvo seguinte foi Mariupol, que é um grande
porto e que já está cercado, mas a opolchenie não quer tomar a cidade,
porque infligiria uma pesada destruição e baixas entre a população civil,
o que a opolchenie está a tentar evitar.
Em abril passado, havia um apoio maciço a Donetsk em Mariupol, mas agora
está a aumentar o ceticismo entre as pessoas por causa da liderança
caótica em Donetsk. Apesar disso, os revoltosos estão a tentar convencer
as tropas ucranianas a sair da cidade. Depois de assegurar Mariupol – ou
mesmo antes disso – avançarão para Berdyansk, outra importante cidade, que
já fica fora da área das repúblicas Donetsk e Lugansk. Tanto quanto sei do
serviço de notícias Coronel Cassad , a tendência é que eles pensem que
Moscovo, mais cedo ou mais tarde, os forçará a parar.
A 6 de setembro já havia um acordo de cessar-fogo imposto à opolchenie por
Moscovo. Mas não é minimamente garantido que vá durar. Os revoltosos estão
a tentar avançar o mais possível para desgastar o regime de Poroshenko e
impedir as hipóteses de Moscovo e de Kiev de fazer um acordo nas suas
costas.
Quais são as perspetivas para o movimento conseguir uma mudança social? E
quem lidera este movimento?
O que está a acontecer na Nova Rússia é um movimento revolucionário,
embora ainda não seja uma revolução em termos de mudança social. Mas é
preciso ganhar a guerra. Se a guerra for ganha, ainda é preciso ganhar na
frente política. Mas isso é só uma possibilidade. Nunca desde há muitos
anos – talvez desde a revolução espanhola – assistimos a milhares, ou
mesmo centenas de milhares, de operários mobilizados.
Há milhares de operários em armas. E, claro, os oligarcas de Moscovo estão
com medo que isso se espalhe à Rússia. Há muita gente a falar de
socialismo. Outros falam duma versão comprometida duma república social, o
que significa um estado social, prioridades sociais e uma certa
socialização de propriedade, incluindo fábricas, minas e
caminhos-de-ferro. A atual liderança da república de Donetsk estava
relutante em implementar as mudanças que eles mesmos declararam
necessárias. Por exemplo, em vez de nacionalizar a propriedade dos
oligarcas, colocaram cartazes em Donetsk dizendo que a república combaterá
os oligarcas.
É normal que haja uma liderança burguesa dum movimento que, na sua
composição e ímpeto, embora não seja necessariamente proletária, é
plebeia, é um movimento popular. Estas lideranças burguesas fazem o
possível para minimizar o potencial para mudanças sociais, e limitar a
expansão do movimento. Mas pode acontecer que estas lideranças acabem por
ser substituídas, como aconteceu na Revolução Francesa e na Revolução
Russa que começaram com líderes muito moderados. O importante para a
esquerda é criar a força política e o enquadramento político para levar
por diante a próxima fase da revolução.
Isto não é a teoria estalinista das fases; o que significa é que é preciso
radicalizar a revolução e avançar. Embora haja uma presença muito forte de
forças progressistas, não significa que toda a gente seja de esquerda – há
todo o tipo de elementos conservadores dentro do movimento. Por exemplo,
tivemos aquele projeto com ativistas políticos em Belgorod durante quase
três meses e descobrimos que, em geral, essas pessoas são muito
progressistas em termos sociais, defendem o estado social, os direitos
sociais, o poder popular, etc. mas, ao mesmo tempo, são muito
conservadoras culturalmente. Dão valor aos valores da família, são
positivos em relação ao cristianismo como sistema nuclear de valores –
embora nem sempre pratiquem a religião – e a maior parte deles são
homofóbicos, etc.
Mas, simultaneamente, isto é uma coisa que pode ser remediada. Que mais se
pode esperar duma sociedade que foi inundada de propaganda reacionária e
que sobreviveu a uma terrível derrota do socialismo ao estilo soviético? É
muito natural que as pessoas tenham todas essas ilusões e contradições e
problemas. Temos que trabalhar com eles e contribuir para as suas lutas,
porque esses problemas podem ser ultrapassados com a prática.
Recordo o que o subcomandante Marcos disse sobre todos esses esquerdistas
que foram para a selva e tentaram educar os índios; descobriram que havia
muitas coisas que tinham a aprender com os índios. Não vejo porque é que
os intelectuais não devam aprender com os operários e camponeses e com as
pessoas da classe média em Donetsk ou Kharkov ou Odessa. Isto é uma luta
para durar. Mas não podemos lutar e ganhar a luta se não exprimirmos uma
solidariedade básica com a causa. Porque o que alguma esquerda está a
fazer é dizer que o movimento não é homogéneo e têm que provar que o
movimento é genuinamente progressista.
Porque é que têm que provar o que quer que seja a um punhado de
intelectuais em Moscovo ou em Paris? É exatamente o contrário. A esquerda
tem que provar aos operários e mineiros e camponeses e ao povo trabalhador
que merece a atenção deles.
O que é que a esquerda no Ocidente deve fazer e como podemos desenvolver
movimentos de solidariedade?
Temos que montar campanhas de solidariedade mas estas têm que estar
ligadas a outras campanhas de solidariedade para alargar a luta. Penso que
seria bom se desfraldássemos a bandeira da Nova Rússia juntamente com a
bandeira da Palestina, por exemplo. As campanhas de solidariedade não
devem estar isoladas umas das outras, têm que estar integradas. Estão a
aparecer tarefas não militares, e são necessários médicos, engenheiros,
trabalhadores solidários e programas humanitários, como noutros lugares.
As pessoas têm que ir para a região para ver quantos danos têm sido
causados pela guerra; e tem que haver ajuda material, formação e educação,
etc. Nós na Rússia podemos facilitar isso. Já há voluntários de França e
de Espanha, mas penso que não são precisos mais combatentes; pelo
contrário, são precisos trabalhadores solidários, pessoas que ajudem na
reconstrução, em especial à medida que as tropas governamentais vão
recuando e vão sendo libertadas áreas.
Penso que a opolchenie tem que registar mais vitórias e a sociedade russa
tem que desenvolver mais movimentos de solidariedade juntamente com as
sociedades ocidentais, que também têm que fazer o mesmo. Penso que temos
que olhar para estes acontecimentos da mesma forma que olhamos para a
Palestina, por exemplo. Há todo o tipo de contradições no seio do
movimento, tal como na Palestina – não é um movimento homogéneo. Nem todos
os elementos do movimento são progressistas.
O mesmo se passa na Nova Rússia. Não é um movimento homogéneo,
progressista, revolucionário. É uma coligação, que envolve diferentes
elementos. O movimento começou com pessoas a proteger as estátuas de
Lenine, alguns deles desfraldaram bandeiras vermelhas, etc., mas há
elementos de nacionalismo russo e também há elementos mais conservadores
que querem que a Nova Rússia seja como a Ucrânia antes da crise.
Temos que apoiar a esquerda no seio da Nova Rússia e no seio da
opolchenie. Estão a ficar mais fortes mas precisam do nosso apoio e
solidariedade. E temos também que importar este movimento revolucionário
ucraniano para a Rússia, o que estamos a fazer com algum êxito – porque
cada vez há mais gente envolvida no movimento solidário, o que está a
tornar-se numa força por si mesma e já está a começar a influenciar a
política russa e a opinião pública russa.
Isto significa que temos que instituir a solidariedade para lá das
fronteiras e temos que ligar estes movimentos de solidariedade na Rússia
com os movimentos antiguerra, anti NATO e anti-imperialista no Ocidente.
28/Setembro/2014
[NT] "Neoliberalismo" é um rótulo usado na Rússia e noutros sítios,
incluindo os EUA, para um agressivo capitalismo de mercado livre.
[*] Boris Yulyevich Kagarlitsky: teórico marxista e sociólogo russo. É
coordenador do projeto Crise Global Transnational Institute e diretor do
Institute of Globalization and Social Movements (IGSO) em Moscovo.
Kagarlitsky ganhou o Prémio Deutscher Memorial pelo seu livro The Thinking
Reed: Intellectuals and the Soviet State (Verso, 1988).
O original encontra-se em: www.counterfire.org/... . Tradução de Margarida
Ferreira.
Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
15/Out/14
terça-feira, 14 de outubro de 2014
“El papel de las mujeres ha sido fundamental a la hora de poner en pie, y mantener en funcionamiento, numerosos proyectos de solidaridad”
Entrevista a Antonio Cuesta Marín sobre “Solidaridad y autogestión en Grecia”
(II)
“El papel de las mujeres ha sido fundamental a la hora de poner en pie, y
mantener en funcionamiento, numerosos proyectos de solidaridad”
Salvador López Arnal
Rebelión
Entre muchas más cosas, Antonio Cuesta es periodista, corresponsal en Grecia de
la agencia Prensa Latina, colaborador del periódico Rebelion.org y coordinador
de la editorial Dyskolo (www.dyskolo.cc), un proyecto sin ánimo de lucro por la
cultura libre. Además de autor del libro "Solidaridad y autogestión en Grecia.
La hora de las alternativas" (1). La primera parte de la entrevista se encuentra
aquí.
***
Estamos en la segunda parte de tu libro. “Buscando alternativas” es el título
del apartado. ¿Cuándo una alternativa es realmente una alternativa?
En mi opinión un proyecto alternativo es aquel cuyos objetivos buscan superar el
actual modelo socioeconómico, planteándose modelos social, económica y
medioambientalmente más igualitarios, y su funcionamiento y organización son
acordes a esos fines.
¿Quiénes, qué sectores sociales están buscando esas alternativas?
Bueno, básicamente las personas de a pie. Creando estructuras y organizaciones
que son de nuevo cuño y para lo que solo han contado con el apoyo de sus
conciudadanos, y en algunos casos el tímido apoyo de los ayuntamientos.
Lógicamente, entre esta amplia base popular hay profesionales, técnicos,
intelectuales, académicos... que han aportado sus capacidades y participado de
igual a igual con el resto de los integrantes en cada proyecto.
Comienzas con una cita de Vassilis, un trabajador griego supongo de unos 30
años. “Somos parte de la solución a los problemas. No importa el problema social
o financiero si trabajamos juntos para mejorar nuestra conciencia y actuar en
consecuencia”. ¿No importa realmente? ¿No hay demasiada complejidad en los
asuntos político-económicos para que, aun trabajando juntos, consigamos
soluciones adecuadas?
Aunque parezca sorprendente, no. Hay mucha inteligencia colectiva puesta al
servicio de cada iniciativa de manera que, pese a la indudable complejidad de la
situación en Grecia, en líneas generales se han fortalecido y desarrollado por
encima de sus expectativas. Si miramos, por ejemplo, a las cooperativas de
carácter asambleario surgidas desde 2011 veremos que han tenido un enorme
crecimiento y no solo han conseguido mantenerse pese a la grave situación de
crisis, sino que en muchos casos han mejorado sus previsiones.
La segunda cita que añades: “La cooperación ha predominado en el curso de la
evolución porque sus ventajas son superiores a los costes que supone. Se ha
visto favorecida al proporcionar a los individuos una mejor adaptación a las
imposiciones del medio que las estrategias individuales”. ¿Esto no es biologismo
social? ¿Y si se probara o argumentara con fuerza que no es la cooperación sino
la despiadada lucha por la existencia lo que ha predominado en el curso de la
evolución? ¿Estarían entonces justificados el capitalismo y la competitividad
desalmada?
El intento de legitimar lo que llamas “la despiadada lucha por la existencia”
para justificar la imposición del libre mercado es uno de los argumentos más
manidos, y fraudulentos, por los ideólogos neoliberales. Como explico en la
tercera parte de mi libro, existen muchas evidencias que demuestran la falsedad
del mito capitalista que pretende hacer creer que en el pasado el espíritu
emprendedor del comerciante individual le condujo de los mercados locales al
incremento de la producción y la acumulación de capital -mediante la división
del trabajo-, y de ahí a dar el salto al intercambio con el exterior, lo que hoy
llamamos la economía globalizada. La realidad es bien distinta. Los mercados han
sido, tradicionalmente, lugares de encuentro del comercio a larga distancia,
funcionando en los márgenes de la sociedad y no en el interior de una economía
local con la que no guarda relación. Como recuerda la investigadora Claude
Mossé, todas las sociedades anteriores a la economía de mercado desarrollada en
Europa occidental, estuvieron organizadas bajo los principios de reciprocidad,
redistribución o de administración doméstica, o de una combinación de los tres
¿Por qué fue tan importante el alzamiento zapatista de 1994? ¿Qué han
conseguido? México, en su conjunto, sigue en las mismas manos.
Al margen de los resultados logrados por los zapatistas en México, lo cierto es
que en Grecia una parte muy importante del movimiento libertario y
antiautoritario extrajo valiosos conceptos que le sirvió para armarse
teóricamente y construir numerosas experiencias sociales y económicas,
alcanzando un nivel de funcionamiento muy notable.
Insisto en este punto. El movimiento zapatista, afirmas, había inspirado año
atrás a una importante corriente del pensamiento libertario griego. ¿Hay rasgos
libertarios en el movimiento zapatista? ¿No parece inconsistente que las
prácticas y reflexiones de un subcomandante y amigos puedan inspirar a un
movimiento libertario?
No, el pensamiento zapatista y el movimiento libertario en Grecia no son
incompatibles. Antes que nada el movimiento libertario es antiautoritario y
comparte la idea de que lo fundamental no es la toma del poder sino la de crear
estructuras horizontales, abiertas y participativas, que comiencen a cambiar la
realidad desde la base. Un movimiento sin líderes ni dirigentes que pretende que
todas las personas, en pie de igualdad, vean reflejadas y reconocidas sus
aspiraciones.
Durante años, afirmas, el sistema productivo del sector privado en Grecia se
sustentó en el trabajo autónomo y las pequeñas empresas principalmente. ¿Y qué
papel jugaron entonces las grandes empresas, las corporaciones multinacionales?
Pienso en Siemens por ejemplo.
Las empresas multinacionales solo juegan un papel de lobby, como elemento de
presión contra el gobierno para que acabe con todos los derechos laborales y
convierta a la clase trabajadora griega en la más inerme y barata de Europa. No
con el fin de facilitar la llegada de otras empresas extranjeras, sino
únicamente para aumentar los beneficios en tiempos de crisis y esclavizar a los
trabajadores al no tener otra forma de subsistencia. Para hacernos una idea, las
pequeñas empresas en Grecia constituyen el 99,6%, pero durante la crisis han
sido las más duramente castigadas. Se calcula que unas 200.000 han cerrado
dejando en la calle a cerca de la mitad de los desempleados que hoy engordan las
filas del paro. En contraposición, las grandes corporaciones aumentaron sus
beneficios en un 26% durante 2013 después de haberlo hecho en un 44,3% en 2012.
¿Cuándo irrumpe entonces el cooperativismo social en Grecia? ¿En qué sectores
principalmente? ¿Qué papel jugó aquí Sporos?
Tradicionalmente el cooperativismo en Grecia no ha desempeñado un papel
demasiado importante en la economía nacional. Y se encontraba prácticamente
circunscrito a las cooperativas agropecuarias en las que los pequeños
agricultores juntaban su producción para comercializarla conjuntamente. La
introducción del concepto de “economía social” en la legislación se dio a
finales de 2011, con la nueva ley sobre cooperativas. Y gracias a ella adoptaron
forma jurídica numerosas iniciativas de autoempleo, muchas de ellas procedentes
de Sporos, que buscaban un modelo en el que estuviera reconocida la opción de la
gestión colectiva y asamblearia por parte de todos los integrantes de la
cooperativa.
La mayoría de estos proyectos se sitúan en el sector servicios: cafés,
restaurantes, tiendas de comercio justo... pero también en otros sectores de la
economía.
¿Por qué crees que fue tan brutal la agresión neoliberal contra el pueblo
Grecia? ¿También ellos vivieron “muy por encima de sus posibilidades”?
Esa es una frase realmente deleznable, un insulto para los trabajadores que han
debido pagar muy caro un modelo que les obligó a endeudarse, aunque en el caso
griego fue el Estado el que con más alegría e irresponsabilidad aceptó el juego.
La agresión por parte de las instituciones financieras se debió en gran parte a
la facilidad con que sus gobernantes aceptaron préstamo tras préstamo, y al
hecho de que era el eslabón más débil de los países del sur, dentro de la
eurozona. Grecia apenas contaba con industria, el sector primario no cubría ni
de lejos la demanda interna del país y había un gran número de empresas públicas
que debían ser privatizadas. Se mirara por donde se mirara Grecia ofrecía muchos
atractivos para ser intervenida por los tiburones neoliberales.
¿Nos puedes dar algún ejemplo, para las personas que desconocemos lo sucedido,
de lo que fueron aquellos embates contra los servicios públicos y las conquistas
sociales y obreras en general?
Grecia contaba, entre otras cosas, con unos derechos laborales que garantizaban
conquistas muy valiosas para los trabajadores, una sanidad pública que con todas
sus imperfecciones no tenía rival en la medicina privada y unas coberturas
sociales dignas para los sectores más desfavorecidos. Todo eso ha sido demolido.
Hoy no existen convenios colectivos, los fondos de pensiones estatales están en
quiebra, el salario mínimo se encuentra por debajo del umbral de la pobreza,
esta afecta a una cuarta parte de la población y un porcentaje similar de
ciudadanos no tienen ningún tipo de cobertura sanitaria. Se podría profundizar
aún más en lo que han supuesto las políticas de austeridad impuestas por la
troika, con el beneplácito de los distintos gobiernos, pero creo que con lo
dicho podemos tener una imagen de la debacle.
¿Qué importancia tiene que Grecia, como tú comentas, haya “liberalizado” 285
profesiones, la mayoría de las exigidas en un memorando de un préstamo?
El eufemismo de la liberalización no es capaz de esconder los fines que se
persiguen. Estas 285 profesiones, de las 345 previstas y exigidas en el
memorando de préstamo, corresponden a profesiones "reguladas" que representan un
tercio del empleo privado. Es decir, que la legislación ofrecía garantías frente
al intrusismo y al dominio de grandes grupos empresariales. El objetivo de esta
“liberalización” no era buscar el beneficio para la ciudadanía, ni siquiera para
los consumidores, sino despojar a los trabajadores autónomos y a los
profesionales de las protecciones legales que impedían a las corporaciones
adueñarse, ya sin restricciones, de las materias primas, los recursos naturales,
la mano de obra y los mercados. Estamos hablando de cuestiones que afectan a
todos los órdenes de la vida social y económica, desde los taxistas a las
farmacias, pasando por los abogados, los productores agrícolas, la elaboración
de productos alimentarios de primera necesidad y un largo etcétera de
profesiones u oficios.
Citas a Michael Hudson: las finanzas se han convertido en la nueva forma de la
guerra. ¿Por qué? ¿No exageras un pelín?
No lo creo. Las instituciones financieras internacionales y los acreedores,
propietarios de la deuda griega, controlan en todo momento la política económica
de Grecia, imponiendo unas transformaciones salvajes contra la clase obrera y
los ciudadanos en general. Existen muchos indicadores que muestran de manera
directa el aumento de las muertes y el empeoramiento hasta límites inimaginables
del nivel de vida en Grecia. Estoy hablando del incremento exponencial de
suicidios, del aumento de la mortalidad infantil, de los miles de niños que no
pueden ser vacunados, con problemas de desnutrición, del abandono a su suerte de
personas sin recursos con enfermedades graves o incurables, de la desaparición
de tratamientos públicos para drogodependientes o seropositivos, del aumento de
las enfermedades mentales como consecuencia de la crisis y el cierre de los
hospitales psiquiátricos... La lista es larga.
Apoyándote en el Movimiento de Mujeres contra la Deuda y la Austeridad, hablas
de que los efectos de las políticas neoliberales afectan especialmente a las
mujeres en todos los aspectos de sus vidas. ¿Por qué? ¿No les afecta cómo a los
hombres trabajadores más o menos?
El papel de las mujeres ha sido fundamental a la hora de poner en pie, y
mantener en funcionamiento, numerosos proyectos de solidaridad. Y ello debido a
que además de trabajadoras son las responsables, dentro del seno familiar, del
cuidado de los niños, los enfermos, los ancianos, los discapacitados e, incluso,
de los jóvenes desempleados que se encuentran en el hogar. La eliminación de los
servicios sociales ha incrementado esta carga, y las ha movido a organizarse
para tratar de dar respuestas colectivas a la práctica desaparición del llamado
estado del bienestar.
¿Qué destacarías como más esencial de las iniciativas políticas griegas que han
surgido tras la crisis-estafa?
Aun en una fase todavía incipiente, las iniciativas políticas cuentan a mi modo
de ver con una visión bastante amplia de los problemas a los que se enfrenta el
país y elaboran propuestas que tratan de superar el marco tradicional en el que
se han movido los partidos políticos, incluidos los de izquierda.
Citas también a Kazakis: “Otra Europa es de hecho factible. Una Europa cuyos
pueblos serán libres, soberanos y dueños de sus países, para decidir su presente
y su futuro.” ¿Tú también lo crees? ¿No estamos muy pero que muy lejos de todo
ello?
Bueno, ese es al menos un objetivo loable. Lo que desde luego no significa que
este cerca de lograrse, ni claro el modo en que se puede alcanzar. Sin embargo,
creo que la experiencia organizativa del movimiento social abre la esperanza
para que también en el campo de la política puedan surgir o desarrollarse
propuestas alternativas que superen el actual sistema de dominio capitalista.
Hablas con mucho respeto de KEERFA. ¿Qué movimiento, qué grupo es ese?
El Movimiento Contra el Racismo y la Amenaza Fascista (KEERFA) ha sido una de
las iniciativas políticas que más fulgurante ascenso ha experimentado. No solo
debido a la aparición en la escena política institucional del partido fascista
Amanecer Dorado, sino también motivado por las políticas racistas y xenófobas
del propio gobierno griego. Lo cierto es que en poco tiempo se ha puesto en
funcionamiento una organización con una estructura descentralizada y
tremendamente operativa, a partir de asambleas de barrio en las que participan
una heterogénea muestra de activistas de diferentes procedencias y vecinos, y
donde las agrupaciones de inmigrantes tienen un papel destacado. Sus
convocatorias son seguidas por miles de personas y sus denuncias públicas y
judiciales tienen un impacto innegable sobre el gobierno. Así sucedió tras el
asesinato del rapero y militante de izquierda Pavlos Fyssas en septiembre de
2013. La presión social fue tan intensa -y cabe atribuirla a las decenas de
movilizaciones convocadas por el KEERFA desde las primeras horas- que incluso
desde Europa se forzó al gobierno de Atenas para que pusiera fin a la impunidad
del partido fascista, de la que hacía gala hasta entonces. A día de hoy, el
KEERFA tiene una autoridad innegable entre la población
¿Qué es ese colectivo de Solidaridad para Todos?
Solidaridad para Todos es una coordinadora de grupos e iniciativas sociales, una
red de solidaridad a través de la que circulan la información y los recursos de
unas a otras, y sirve también para coordinar campañas que de manera autónoma
estos proyectos no podrían llevar a cabo. No es la única plataforma de este
tipo, pero es sin duda la más fuerte y aglutina a cerca de 150 grupos.
¿Qué prácticas de desobediencia civil practicada te parecen más interesantes?
Sin duda la más conocida es “No pago”, que tuvo su réplica incluso en Barcelona.
Pero personalmente me admira la valentía de esos voluntarios y trabajadores de
la Empresa Pública de Energía (DEI) que, arriesgándose a penas de cárcel, se han
dedicado de forma clandestina a restablecer el suministro eléctrico en los
hogares en los que había sido cortada la luz por impago. Solo durante el pasado
año más de 350.000 propietarios o inquilinos se vieron en esa situación, y un
10% de ellos se reconectaron ilegalmente gracias a la ayuda de estos activistas
anónimos.
En toda esta situación, ¿cómo se han manifestado los intelectuales griegos?
Numerosos artistas e intelectuales se han manifestado abiertamente en contra de
las políticas de austeridad. Pero a la vez, muchos de ellos se han implicado de
manera anónima en el trabajo cotidiano de diferentes iniciativas de solidaridad.
Y eso es sin duda muy importante.
Un punto muy destacable en mi opinión, lo cuentas magníficamente al final del
capítulo, es la irrupción de movimientos ecologistas en una situación tan
difícil. ¿Nos das un ejemplo relevante?
Por su trayectoria y su dimensión citaría a los Comités de lucha contra la
minería en la región de Calcídica, en el norte del país. Su pelea no tiene que
ver con la crisis, aunque se ha endurecido con esta, pero su capacidad de
resistencia es ejemplar teniendo en cuenta que enfrente tienen a poderosas
compañías internacionales y al estado griego. Estos comités están constituidos
por los vecinos de los pueblos afectados, las organizaciones sociales y los
cargos electos de la región, y representan de forma asamblearia y democrática a
la mayoría de sus habitantes. La lucha contra la explotación minera,
fundamentalmente de oro, se desarrolla entre denuncias y vigorosas acciones de
protesta contra lo que sería un brutal desastre ecológico en un área de elevado
valor, el fin de la economía tradicional en las localidades y todo ello
salpicado de prácticas mafiosas y violentas por parte de las empresas
concesionarias, y de una corrupción desbocada entre los políticos responsables.
Su fuerza reside en una ejemplar unidad popular y en el importante apoyo que
reciben tanto a nivel nacional como internacional, con el respaldo de
intelectuales de primerísima fila como Noam Chomsky, Naomi Klein o David Harvey.
Citas a Rousseau en un paso de esta segunda parte: las leyes debe adecuarse para
lograr una igualdad tal que ningún ciudadano “sea lo suficientemente opulento
como para comprar a otro, ni ninguno tan pobre como para verse obligado a
venderse.” ¿Y esa aspiración se ha conseguido en algún país capitalista? ¿Las
leyes se ajustan en algún país a esa noble aspiración rousseauniana?
Como te decía anteriormente las aspiraciones loables no dejan de serlo porque
estén lejos de lograrse o porque no exista un ejemplo práctico en el que
fijarse. En todo caso parece claro que ese enunciado tan digno no puede darse en
un sistema como el capitalista, radicalmente opuesto a la igualdad y a la
redistribución de la riqueza, y solo puede lograrse en un modelo socialista en
el que prime el interés de las personas sobre el de las empresas. En ese sentido
creo que Latinoamérica puede servirnos de guía en esta larga noche neoliberal.
Pasamos a la tercera parte del libro, ¿te parece?
Sí, a la que he denominado de la teoría a la práctica.
Mejor título imposible.
Nota:
(1) Puedes descargar el libro desde aquí:
http://www.mrafundazioa.org/es/centro-de-documentacion/documentos/alternativas-y-autogestion-en-grecia
http://www.dyskolo.cc/cat007.html
Rebelión ha publicado este artículo con el permiso del autor mediante una
licencia de Creative Commons, respetando su libertad para publicarlo en otras
fuentes.
In
Rebelión
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=190736
13/10/2014
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Cómo piensa la clase dominante
Raúl Zibechi
La crisis sigue develando todo aquello que permanecía oculto en los periodos de
normalidad. Esto incluye los proyectos estratégicos de la clase dominante, su
forma de ver el mundo, la apuesta principal que hacen para seguir siendo clase
dominante. Este es, a grandes rasgos, su objetivo central, al que subordinan
todo lo demás, incluyendo los modos capitalistas de reproducción de la economía.
Puede pensarse que la crisis es apenas un paréntesis luego del cual todo
seguiría, más o menos, como funcionaba antes. No es así. La crisis no es sólo un
revelador, sino el modo en que los de arriba están remodelando el mundo. Porque
la crisis es, en gran medida, provocada por ellos para mover de lugar o hacer
desaparecer lo que limita sus poderes. Básicamente, los sectores populares,
indígenas, negros y mestizos en nuestro continente.
Por otro lado, una crisis de esta envergadura (se trata de un conjunto de crisis
que incluyen crisis/caos climático, ambiental, sanitario y, lo que atraviesa
todo, crisis de la civilización occidental) significa mutaciones más o menos
profundas de las sociedades, de las relaciones de fuerzas y de los polos de
poder en el mundo, en cada una de las regiones y países. Me parece necesario
abordar tres aspectos, que no agotan todas las novedades que aporta la crisis
pero son, a mi modo de ver, los que más pueden influir en las estrategias de los
movimientos antisistémicos.
En primer lugar, lo que llamamos economía ha sufrido cambios de fondo. Un cuadro
elaborado por la economista Pavlina Tcherneva, con base en los estudios sobre la
desigualdad de Thomas Piketty, revela cómo está funcionando el sistema desde la
década de 1970, agravado por la crisis de 2008
(www.vox.com/xpress/2014/9/25/6843509/income-distribution-recoveries-pavlina-tcherneva
).
El cuadro abarca 60 años de la economía estadunidense, desde 1949 hasta la
actualidad. Describe qué parte del crecimiento de los ingresos es apropiada por
el 10 por ciento más rico, y cuánto le corresponde al 90 por ciento restante. En
la década de 1950, por ejemplo, el 10 por ciento rico se apropiaba de entre el
20 y el 25 por ciento de los nuevos ingresos anuales. Así funciona una economía
capitalista normal, que consiste en una apropiación mayor por los empresarios
del fruto del trabajo humano, que Marx denominó plusvalor. Es la acumulación de
capital por reproducción ampliada.
A partir de 1970 se produce un cambio importante que es bien visible en la
década de 1980: el 10 por ciento rico empieza a apropiarse del 80 por ciento de
la riqueza y el 90 por ciento se queda apenas con 20 por ciento de lo que se
genera cada año. Este periodo corresponde a la hegemonía del capital financiero,
lo que David Harvey ha llamado acumulación por desposesión o despojo.
Pero algo extraordinario se produce desde 2001. Los ricos se quedan con todos
los nuevos ingresos y, desde 2008, arrebañan además una parte de lo que tenía el
90 por ciento, como ahorros o bienes. ¿Cómo denominamos a este modo de
acumulación? Es un sistema que ya no es capaz de reproducir las relaciones
capitalistas porque consiste en el robo. El capitalismo extrae plusvalor y
acumula riqueza (aún por desposesión), pero expandiendo las relaciones
capitalistas, por eso se asienta en el trabajo asalariado y no en el trabajo
esclavo (debo estas reflexiones a Gustavo Esteva, quien las formuló en los días
de la escuelita zapatista y en posteriores intercambios).Es probable que estemos
ingresando en un sistema peor aún que el capitalismo, una suerte de economía de
robo, más parecida a la forma como funcionan las mafias del narcotráfico que a
los modos empresariales que conocimos en la mayor parte del siglo XX. Es
probable, también, que esto no haya sido planificado por la clase dominante,
sino sea el fruto de la búsqueda desmesurada de lucros en el periodo financiero
y de acumulación por desposesión, que ha engendrado una generación de
buitres/lobos incapaces de producir otra cosa que no sea destrucción y muerte a
su alrededor.
En segundo lugar, que el sistema funcione de este modo implica que los de arriba
han decidido salvarse a costa de la entera humanidad. En algún momento hicieron
una ruptura afectiva con los demás seres humanos y están dispuestos a producir
una hecatombe demográfica, como sugiere el cuadro mencionado. Lo quieren todo.
Por lo mismo, el modo en que está funcionando el sistema es más apropiado
denominarlo cuarta guerra mundial (como el subcomandante insurgente Marcos) que
acumulación por desposesión, porque el objetivo es la humanidad entera. Parece
que la clase dominante decidió que con el actual grado de desarrollo tecnológico
puede prescindir del trabajo asalariado que genera riquezas, y ya no depende de
consumidores pobres para sus productos. Más allá de que esto sea un delirio
inducido por la soberbia, parece evidente que los de arriba no pretenden ordenar
el mundo según sus viejos intereses, sino generar regiones enteras (y a veces
continentes) donde reine el caos absoluto (como tiende a suceder en Medio
Oriente) y otras de seguridad absoluta (como partes de Estados Unidos y Europa,
y los barrios ricos de cada país).
En suma, han renunciado a la idea de una sociedad, idea que es sustituida por la
imagen del campo de concentración.
En tercer lugar, esto tiene enormes repercusiones para la política de los de
abajo. La democracia es apenas un arma arrojadiza contra los enemigos
geopolíticos (empezando por Rusia y China), que no se aplica a los regímenes
amigos (Arabia Saudita), pero ya no es aquel sistema al que alguna vez otorgaron
alguna credibilidad. Lo mismo debe decirse del Estado-nación, apenas un
obstáculo a superar como lo demuestran los ataques en Siria violando la
soberanía nacional.
No nos cabe otro camino que organizar nuestro mundo, en nuestros
espacios/territorios, con nuestra salud, nuestra educación y nuestra autonomía
alimentaria. Con nuestros poderes para tomar decisiones y hacerlas cumplir. O
sea, con nuestras propias instituciones de autodefensa. Sin depender de las
instituciones estatales.
In:
La Jornada
http://www.jornada.unam.mx/2014/10/03/index.php?section=opinion&article=026a2pol
3/10/2014
La crisis sigue develando todo aquello que permanecía oculto en los periodos de
normalidad. Esto incluye los proyectos estratégicos de la clase dominante, su
forma de ver el mundo, la apuesta principal que hacen para seguir siendo clase
dominante. Este es, a grandes rasgos, su objetivo central, al que subordinan
todo lo demás, incluyendo los modos capitalistas de reproducción de la economía.
Puede pensarse que la crisis es apenas un paréntesis luego del cual todo
seguiría, más o menos, como funcionaba antes. No es así. La crisis no es sólo un
revelador, sino el modo en que los de arriba están remodelando el mundo. Porque
la crisis es, en gran medida, provocada por ellos para mover de lugar o hacer
desaparecer lo que limita sus poderes. Básicamente, los sectores populares,
indígenas, negros y mestizos en nuestro continente.
Por otro lado, una crisis de esta envergadura (se trata de un conjunto de crisis
que incluyen crisis/caos climático, ambiental, sanitario y, lo que atraviesa
todo, crisis de la civilización occidental) significa mutaciones más o menos
profundas de las sociedades, de las relaciones de fuerzas y de los polos de
poder en el mundo, en cada una de las regiones y países. Me parece necesario
abordar tres aspectos, que no agotan todas las novedades que aporta la crisis
pero son, a mi modo de ver, los que más pueden influir en las estrategias de los
movimientos antisistémicos.
En primer lugar, lo que llamamos economía ha sufrido cambios de fondo. Un cuadro
elaborado por la economista Pavlina Tcherneva, con base en los estudios sobre la
desigualdad de Thomas Piketty, revela cómo está funcionando el sistema desde la
década de 1970, agravado por la crisis de 2008
(www.vox.com/xpress/2014/9/25/6843509/income-distribution-recoveries-pavlina-tcherneva
).
El cuadro abarca 60 años de la economía estadunidense, desde 1949 hasta la
actualidad. Describe qué parte del crecimiento de los ingresos es apropiada por
el 10 por ciento más rico, y cuánto le corresponde al 90 por ciento restante. En
la década de 1950, por ejemplo, el 10 por ciento rico se apropiaba de entre el
20 y el 25 por ciento de los nuevos ingresos anuales. Así funciona una economía
capitalista normal, que consiste en una apropiación mayor por los empresarios
del fruto del trabajo humano, que Marx denominó plusvalor. Es la acumulación de
capital por reproducción ampliada.
A partir de 1970 se produce un cambio importante que es bien visible en la
década de 1980: el 10 por ciento rico empieza a apropiarse del 80 por ciento de
la riqueza y el 90 por ciento se queda apenas con 20 por ciento de lo que se
genera cada año. Este periodo corresponde a la hegemonía del capital financiero,
lo que David Harvey ha llamado acumulación por desposesión o despojo.
Pero algo extraordinario se produce desde 2001. Los ricos se quedan con todos
los nuevos ingresos y, desde 2008, arrebañan además una parte de lo que tenía el
90 por ciento, como ahorros o bienes. ¿Cómo denominamos a este modo de
acumulación? Es un sistema que ya no es capaz de reproducir las relaciones
capitalistas porque consiste en el robo. El capitalismo extrae plusvalor y
acumula riqueza (aún por desposesión), pero expandiendo las relaciones
capitalistas, por eso se asienta en el trabajo asalariado y no en el trabajo
esclavo (debo estas reflexiones a Gustavo Esteva, quien las formuló en los días
de la escuelita zapatista y en posteriores intercambios).Es probable que estemos
ingresando en un sistema peor aún que el capitalismo, una suerte de economía de
robo, más parecida a la forma como funcionan las mafias del narcotráfico que a
los modos empresariales que conocimos en la mayor parte del siglo XX. Es
probable, también, que esto no haya sido planificado por la clase dominante,
sino sea el fruto de la búsqueda desmesurada de lucros en el periodo financiero
y de acumulación por desposesión, que ha engendrado una generación de
buitres/lobos incapaces de producir otra cosa que no sea destrucción y muerte a
su alrededor.
En segundo lugar, que el sistema funcione de este modo implica que los de arriba
han decidido salvarse a costa de la entera humanidad. En algún momento hicieron
una ruptura afectiva con los demás seres humanos y están dispuestos a producir
una hecatombe demográfica, como sugiere el cuadro mencionado. Lo quieren todo.
Por lo mismo, el modo en que está funcionando el sistema es más apropiado
denominarlo cuarta guerra mundial (como el subcomandante insurgente Marcos) que
acumulación por desposesión, porque el objetivo es la humanidad entera. Parece
que la clase dominante decidió que con el actual grado de desarrollo tecnológico
puede prescindir del trabajo asalariado que genera riquezas, y ya no depende de
consumidores pobres para sus productos. Más allá de que esto sea un delirio
inducido por la soberbia, parece evidente que los de arriba no pretenden ordenar
el mundo según sus viejos intereses, sino generar regiones enteras (y a veces
continentes) donde reine el caos absoluto (como tiende a suceder en Medio
Oriente) y otras de seguridad absoluta (como partes de Estados Unidos y Europa,
y los barrios ricos de cada país).
En suma, han renunciado a la idea de una sociedad, idea que es sustituida por la
imagen del campo de concentración.
En tercer lugar, esto tiene enormes repercusiones para la política de los de
abajo. La democracia es apenas un arma arrojadiza contra los enemigos
geopolíticos (empezando por Rusia y China), que no se aplica a los regímenes
amigos (Arabia Saudita), pero ya no es aquel sistema al que alguna vez otorgaron
alguna credibilidad. Lo mismo debe decirse del Estado-nación, apenas un
obstáculo a superar como lo demuestran los ataques en Siria violando la
soberanía nacional.
No nos cabe otro camino que organizar nuestro mundo, en nuestros
espacios/territorios, con nuestra salud, nuestra educación y nuestra autonomía
alimentaria. Con nuestros poderes para tomar decisiones y hacerlas cumplir. O
sea, con nuestras propias instituciones de autodefensa. Sin depender de las
instituciones estatales.
In:
La Jornada
http://www.jornada.unam.mx/2014/10/03/index.php?section=opinion&article=026a2pol
3/10/2014
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Los compañeros de las fábricas recuperadas son un ejemplo a seguir para nosotros
Mario Hernández
Rebelión
Esto decía Laura Ruffolo, una de las trabajadoras de la cadena de hamburguesas
“Nac & Pop”, la empresa nacional y popular propiedad de Alex Gordon, que dejó a
sus trabajadores desocupados y con sueldos atrasados, por lo cual 3 de sus
locales han sido ocupados por sus trabajadores, a pesar de los intentos
policiales de desalojarlos y de las amenazas de Metrogas de retirarles los
medidores.
Son alrededor de 18 locales y unos 10 empleados por local. Serían 170
trabajadores/as en total, de los cuales 30 han tomado la decisión de ocupar 3.
Siguiendo el ejemplo de MadyGraf (ex Donnelley)
El martes pasado los trabajadores de Donnelley marcharon junto a organizaciones
sindicales y políticas al Juzgado Comercial 19. Consiguieron el pago de parte de
sus salarios, unos $ 4.000 por cada uno de sus 400 trabajadores, exigieron al
juez que les dé la locación de la Cooperativa MadyGraf y anunciaron que seguirán
movilizados por el pago total de los trabajos que vienen realizando.
Desde que la multinacional norteamericana cerró ilegalmente siguieron
produciendo bajo control obrero, pero no cobraron un peso porque los síndicos y
el juez retienen los cheques de los trabajos y no autorizan el cobro de más de $
5.000.000. Tampoco liberan los fondos millonarios de Donnelley que a la fecha
del pedido de quiebra tenía $ 22.000.000 en cuentas bancarias y U$S 300.000 en
el Banco Citi de EE. UU.
La Presidenta de la Nación denunció la quiebra como parte de la maniobra de los
fondos buitres contra nuestro país y el Ministerio de Trabajo de la provincia de
Buenos Aires dijo que iba a garantizar los puestos de trabajo, sin embargo, poco
se ha avanzado en una solución definitiva. La semana pasada, después de
movilizarse al Ministerio de Trabajo, lograron el compromiso que a partir del 14
de octubre les paguen el subsidio Repro, que en su momento otorgaron en tiempo
récord a la patronal de Donnelley.
Hernando Charles Mengeon, de la Comisión de Prensa y Difusión, señaló que:
“Mientras peleamos para poder cobrar nuestros trabajos, los trabajadores
planteamos que la salida de fondo para mantener los puestos de trabajo es la
expropiación sin pago de la fábrica y su estatización bajo gestión de los
trabajadores para ponerla al servicio de la comunidad, imprimiendo materiales
escolares accesibles a todos los sectores, especialmente a los más humildes, que
hoy no tienen acceso a la cultura, para que a ningún chico le falte un libro.”
La única lucha que se pierde, es la que se abandona
Luego de dos años de lucha y de cuatro desalojos, el pasado 1º de setiembre los
empleados del restaurante Alé Alé inauguraron un nuevo local en Cabrera 4270.
El 2 de diciembre del 2013 los trabajadores se encontraron frente al cuarto
intento de desalojo del local en el que funcionaba la empresa Alé Alé SRL, la
empleadora que abandonó el comercio y había comenzado un proceso de vaciamiento
en el 2012.
El presidente de la Cooperativa, Andrés Toledo expresó: “Alé Alé es un claro
ejemplo de que los trabajadores organizados podemos salir adelante y que sí se
puede”.
Zanón sigue resistiendo
Las obreras y obreros de Zanon se movilizaron este miércoles, para reclamar el
otorgamiento urgente de un crédito destinado a la renovación tecnológica de la
fábrica. Ocurre que la maquinaria es obsoleta y presenta enormes dificultades
para seguir produciendo.
Los trabajadores de Zanon, durante más de una década, se han montado en sus
hombros lo que la patronal vaciadora y el gobierno han rechazado hacer: mantener
abierta la fábrica y garantizar 400 puestos de trabajo.
Mientras el gobierno nacional y el MPN neuquino pretenden, con la nueva Ley de
Hidrocarburos, concederle a los monopolios petroleros exenciones impositivas y
facilidades para fugar capitales al exterior, las dilaciones para el
otorgamiento del crédito a la cooperativa llevan más de un año y medio.
Ni el boom de la especulación inmobiliaria, como consecuencia del efecto Vaca
Muerta, ha alentado al gobierno a dar un impulso a las fábricas recuperadas, muy
por el contrario son sometidas a un agudo ahogo financiero.
Esta situación condena a los trabajadores a recibir un salario por debajo del
que establece la paritaria de la rama, y a que se pongan en riesgo conquistas
como el aguinaldo o el propio pago de las contribuciones patronales.
Esto, mientras se pretende que los trabajadores carguen con el peso de pagar una
indemnización a la patronal vaciadora, según establece la ley de expropiación.
Es en este escenario que, el planteo de la estatización bajo control obrero de
todas las fábricas ceramistas de Neuquén, se ha puesto a la orden del día.
El Estado es el responsable de garantizar la renovación tecnológica, todas las
conquistas del convenio para los trabajadores y colocar a las fábricas
ceramistas como las proveedoras privilegiadas de la obra pública provincial.
La movilización de los ceramistas por el crédito y la renovación tecnológica, se
realizó cuando se cumplen 13 años de la ocupación y puesta en producción de
Zanon.
La gesta de los ceramistas ha quedado inscripta en la historia de la lucha de
los trabajadores y el pueblo neuquino. Ahora, una vez más, esta lucha reclama
ser rodeada de toda la solidaridad.
También resiste el Bauen
El miércoles 10 de setiembre vencía el plazo impuesto por el Juzgado Comercial
Nº 9 a cargo de la Jueza Dra. Paula Hualde para que los trabajadores de la
Cooperativa B.A.U.E.N desalojaran las instalaciones donde trabajan desde hace 11
años.
Frente a esta nueva orden de desalojo los trabajadores respondieron continuando
con sus actividades y desde la mañana contaron con el apoyo de organizaciones
sociales, diputados nacionales y legisladores porteños.
Federico Tonarelli, vicepresidente del hotel recuperado se mostró confiado en
lograr una “salida política” al conflicto legal que data desde 2007: “Creemos
que avanzará el proyecto de Ley de expropiación que se encuentra en el Congreso
de la Nación”.
La orden dictada por la Jueza pone en peligro el trabajo de más de 130 familias
que mantienen en funcionamiento el hotel en forma ininterrumpida desde el 2003.
El BAUEN fue construido entre 1977/8 con dinero público otorgado por la
dictadura cívico-militar a los empresarios que lo edificaron. Ese dinero nunca
fue devuelto al Estado y en 2001, los mismos empresarios que recibieron esos
fondos, provocaron el cierre del hotel. Se trata de la empresa Mercoteles S. A.
y que en la actualidad son los mismos que reclaman el desalojo.
El 3 y 4 de octubre estas experiencias autogestionadas se dieron cita en la
localidad de Pigüé en la provincia de Buenos Aires. Allí se realizó el Primer
Encuentro Regional Sudamericano. La sede del evento fue una fábrica que fue
recuperada y puesta en funcionamiento como cooperativa de trabajo por los
antiguos trabajadores de la empresa Gatic: la Cooperativa Textiles Pigüé.
Rebelión ha publicado este artículo con el permiso del autor mediante una
licencia de Creative Commons, respetando su libertad para publicarlo en otras
fuentes.
In
http://rebelion.org/noticia.php?id=190461
6/10/2014
sábado, 4 de outubro de 2014
“Era necesario visibilizar el enorme trabajo de solidaridad y de economía social”
Entrevista a Antonio Cuesta, autor de “Solidaridad y autogestión en Grecia” (I)
Salvador López Arnal
Rebelión
Entre muchas más cosas, Antonio Cuesta es periodista, corresponsal en Grecia de
la agencia Prensa Latina, colaborador del periódico Rebelion.org y coordinador
de la editorial Dyskolo (www.dyskolo.cc), un proyecto sin ánimo de lucro por la
cultura libre.
***
Felicidades por tu último libro: Solidaridad y autogestión en Grecia. ¿Por qué,
de dónde tu interés por Grecia?
Bueno, Grecia es -y aún será por unos años- el lugar de acogida donde por
razones profesionales resido. Mi trabajo como corresponsal comenzó en 2011, en
plena efervescencia del movimiento popular y obrero contra las primeras medidas
de austeridad. En tales circunstancias era inevitable que acabara empatizando
con un pueblo que se organizaba para resistir contra unas políticas bárbaras e
inhumanas.
Hablas en el título de “autogestión”. ¿Cómo la definirías?
La autogestión es un concepto que tiene que ver con la democracia, la
participación y la responsabilidad. Tanto a nivel económico como a nivel social.
La autogestión significa que tanto en empresas cooperativas, con una dirección
asamblearia, como en organizaciones populares, sus miembros deciden en pie de
igualdad y de manera colectiva los objetivos que pretenden y de qué forma se va
a trabajar para conseguirlos, así como su relación con el resto del sistema
económico y social, mediante procesos democráticos en los que todos aportan sus
capacidades y, a la vez, son responsables de los resultados. La autogestión
también es, como dice Iñaki Gil de San Vicente, “el proceso por el que
construimos nuestro futuro desde nuestro presente”.
El libro lo has editado en castellano y en euskera. ¿Por qué?
Verás, aunque yo llevaba meses recavando datos, informaciones y entrevistas
sobre distintas iniciativas sociales que se estaban llevando a cabo en Grecia,
no había encontrado una forma adecuada para dar a conocer una buena parte de ese
material. La oportunidad me la dio la fundación Manu Robles-Arangiz Institutua,
un centro de investigaciones laborales, vinculado al sindicato vasco ELA, que me
propuso la edición de un libro cuyo contenido se ajustaba, más o menos, a la
idea que ya tenía y al trabajo iniciado. Ellos publican todos sus trabajos en
edición bilingüe.
Con posterioridad también la editorial Dyskolo lo ha publicado en formato
digital [.pdf .epub .mobi], y además acaba de salir otra edición en papel en
Argentina.
¿Editorial Dyskolo? Perdona mi desconocimiento. ¿Nos das cuenta de esa
editorial?
Dyskolo es un proyecto editorial sin ánimo de lucro, concebido contra quienes
pretenden convertir los libros en mercancía y buscando establecer una nueva
relación entre quienes escriben y cuantas personas disfrutan de la lectura. Los
libros de Dyskolo (solo en formato digital) no tienen un precio marcado, ni
copyright, ni DRM. Pero en contrapartida contribuyen a difundir la cultura y
generan un beneficio social.
La parte I del libro lleva por título: “¿Cómo hemos llegado hasta aquí?”. Me
centro en este primer capítulo.
En este momento, escribes, en 2007, “pocos imaginaban la magnitud de una
catástrofe que iba a empequeñecer las dimensiones del famoso crac del 29”. ¿Por
qué tan pocos? ¿No estaba ante los ojos las dimensiones de aquella estafa
financiera inconmensurable?
Para muchos economistas críticos y de referencia sí que parecía claro el punto
hacia el que se encaminaba la economía mundial. Pero para los grandes medios de
prensa -que son los que conforman en gran medida la corriente mayoritaria de
opinión- ese era un tema que no se debía abordar, hasta que ya fue inevitable
hacerlo. Desde luego en Grecia la cuestión estaba fuera de la agenda, salvo para
una minoría muy concienciada y que tenía claro cuál era el futuro inmediato.
Grecia, afirmas también, despertó de la resaca de las Olimpiadas y del sueño
europeo el 6 de diciembre de 2008. ¿Qué pasó ese día?
Ese día la policía asesinó a sangre fría a Andreas Grigorópulos, un joven de 15
años, tras una protesta estudiantil. Su muerte desencadenó por todo el país los
disturbios más graves de los últimos 25 años. Las fuerzas de izquierda
convocaron una jornada de huelga general y el país despertó de un letargo para
darse cuenta de que el país estaba atravesado por la corrupción de la clase
política y que la crisis había llegado para quedarse.
¿Qué pasó con Siemens en las concesiones multimillonarias que se hicieron
durante el gran negocio que fueron los JJOO?
Los JJOO de 2004 fueron sin duda una de las mayores estafas cometida contra los
ciudadanos de cualquier nación en la historia moderna. Un país como Grecia no
puede asumir la factura de lo que significa un evento de estas características
en la que los intereses empresariales están por encima de cualquier
consideración social, económica e incluso deportiva. El presupuesto inicial se
cuadriplicó oficialmente llegando a los 9.000 millones de euros. Pero a día de
hoy aún se desconoce el importe exacto desembolsado, que muchos sitúan en torno
a los 28.000 millones. De hecho, la deuda externa de Grecia aumentó durante los
años en que se llevaron a cabo las obras -entre 2001 y 2004- en 30.000 millones
de euros, sin que nadie sepa a ciencia cierta dónde fueron a parar el dinero.
Las comisiones y los sobornos pagados por las grandes corporaciones para hacerse
con su parte del pastel debieron de ser astronómicas. Empresas como la alemana
Siemens, que ya había sobornado a varios ministros griegos en otras
licitaciones, lograron concesiones multimillonarias en el gran negocio que
fueron lo JJOO.
¿Cómo es que sólo Syriza fue capaz de oponerse a la celebración de los Juegos?
¿Y las otras fuerzas de izquierda?
La Olimpiadas también llegaron a Grecia merced a una campaña propagandística sin
precedentes mediante la cual se convenció a los ciudadanos de que era el momento
de mostrarse como un país moderno y de vanguardia. El ímpetu nacionalista fue
tan grande que la oposición de Syriza -entonces un minúsculo partido con poco
más del 3% de los votos-, por entender que Grecia no podría asumir ese coste, le
valió para recibir ataques muy duros y ser acusada de antipatriota. Y hay que
conocer lo que significa, y hasta qué extremos llega, el sentimiento nacional en
Grecia para hacerse una idea de lo que supusieron esos ataques.
Desde tu punto de vista: ¿qué significa política, económicamente, históricamente
incluso, el Tratado de Maastricht de 1992?
Hace años solo el preclaro Julio Anguita fue capaz de predecir sin error lo que
significaba Maastricht. Después de 2008 lo sorprendente es que aún haya quien
mantenga que la estructura de la Unión Europea diseñada entonces puede ser
reformada en beneficio de los ciudadanos. La arquitectura europea está al
servicio de las corporaciones alemanas y mientras los habitantes del sur hemos
podido consumir sus productos y endeudarnos a buen ritmo no ha habido mayor
problema. Pero una vez agotado el modelo que se nos había impuesto, la opción
más sensata sería abandonarlo antes de que una nueva crisis arrastre aún más a
los países deficitarios.
¿Cómo se consiguió el apoyo de los países de la periferia europea al euro?
Muchos economistas señalaron la inviabilidad de una más que diversa UE concebida
monetariamente de ese modo.
Digamos que los intereses de las grandes corporaciones no coinciden con las
aspiraciones de los ciudadanos, y por ello la amarga medicina debió de tomar la
apariencia de un dulce jarabe. A los trabajadores del sur se les prometió que la
moneda común evitaría la inflación y, por tanto, garantizaría de forma efectiva
sus aumentos salariales. La realidad fue un tanto distinta. Para mantener la
inflación por debajo del nivel del 3% los salarios fueron tendiendo a la
congelación, por lo que para paliar la pérdida de poder adquisitivo las
autoridades monetarias rebajaron los tipos de interés, aumentaron el crédito, y
así la clase trabajadora se vio forzada a aceptar salarios reales más bajos a
cambio de préstamos personales y tarjetas de crédito, endeudándose cada vez más.
¿Cuándo empezó a tomar Grecia políticas mal llamadas de austeridad? ¿Quiénes
apostaron a su favor?
Las prácticas corruptas y la frivolidad política (como subir las pensiones en
periodo electoral con cargo a un nuevo préstamo con la banca extranjera)
llevaron al país a la bancarrota. Aunque quien abrió la puerta a las crueles
políticas de austeridad fue la socialdemocracia (PASOK), con Yorgos Papandréu al
frente, los conservadores, como demostraron poco tiempo después, tampoco dudaron
en envolverse en la bandera de la salvación nacional para justificar el expolio
al que ha sido sometida la mayor parte de la población. Como no podía ser de
otra forma, la falta de legitimidad y el menguante apoyo popular ha hecho que
finalmente ambos partidos (los únicos que defienden las brutales políticas
neoliberales) hayan formado una coalición en la que no existe fisuras ni
diferencia de matices.
Citas a David Harvey y su concepto de destrucción creativa. ¿Y eso qué es?
No, ese concepto económico no es de Harvey, aunque se sirve de él para explicar
cómo se utilizan los programas neoliberales contra el cuerpo jurídico y social
del Estado. Originariamente la “destrucción creativa” fue un concepto ideado por
el sociólogo alemán Werner Sombart y popularizado por el economista austriaco
Joseph Schumpeter. Con él describía el proceso de innovación que tiene lugar en
una economía de mercado en el que los nuevos productos destruyen las viejas
empresas y los modelos de negocio antiguos. Para Schumpeter “es el hecho
esencial del capitalismo” y la fuerza que hay detrás de un crecimiento económico
sostenido a largo plazo.
Esa misma lógica ha sido aplicada contra los marcos normativos y las
instituciones existentes, como motor de los cambios neoliberales hacia el
progreso sin límites. Harvey alerta ante unos procesos que no solo se llevan por
delante las formas tradicionales de soberanía estatal, sino también todo lo que
tiene que ver con los derechos y la división del trabajo, con las relaciones
sociales, las áreas de protección social, las formas de vida y de pensamiento,
los vínculos con la tierra y, en general, todo lo que ha caracterizado al ser
humano en la historia como persona y como miembro de una sociedad.
¿Qué eso que señalas del abismo entre el sector productivo y el especulativo a
finales de 2013?
Es algo que cualquier persona medianamente sensata puede constatar en su vida
cotidiana. En Grecia el poder adquisitivo de las familias ha caído en los
últimos años cerca de un 40%. El desempleo pasó en cuatro años del 10 al 27%. En
los barrios y en el centro de las ciudades los locales comerciales son más
proclives al cierre que a la apertura con nuevos negocios. La producción
industrial ha descendido un tercio, la construcción un 75%, el volumen de
negocio de las pequeñas empresas (que suponen el 99,6 por ciento del total)
disminuyó igualmente en un 75%. Pero curiosamente, en 2013, las grandes
corporaciones aumentaron sus beneficios en un 26% (y un 44,3% en 2012), y la
Bolsa de Atenas creció un 50% durante el último cuatrimestre del año, mientras
que la producción industrial caía cerca de un 9%. Parece claro que en Grecia hay
dos realidades económicas y que las reformas aplicadas solo buscan dar un mayor
respaldo al capital financiero.
Citas a Friedman: conseguir que “lo políticamente imposible se convierta en
políticamente inevitable”. ¿Es eso lo que estamos viviendo? ¿Todo, menos la
resistencia popular, empuja hacia allí?
Bueno esa es al menos su jugada, la del 1% que gobierna el mundo. Esa elite que
se ha servido de la crisis financiera para dar una patada al tablero y llevar a
cabo unas políticas que, de no ser por los estragos económicos y sociales
vividos a partir de 2008, nunca hubiéramos imaginado posible su aplicación. Pero
en eso se basa la doctrina del shock, como explica Naomi Klein, en programar
decenas de cambios desde múltiples direcciones que impiden a las personas poder
desarrollar respuestas efectivas y acaban por agotarse, hundirse y abandonar.
La capacidad, apuntas al finalizar el capítulo, para “construir estructuras,
prácticas y relaciones diferentes a las hegemónicas actuales, dependerá que la
correlación de fuerzas durante los próximos años sea favorable a las clases
populares, o todo lo contrario” ¿Y cómo ves, en esos momentos, la correlación de
fuerzas en Grecia?
Aún débil para el campo popular. Es cierto que mi libro es un intento de
visibilizar el enorme y meritorio trabajo que se está realizando desde las
iniciativas de solidaridad y desde el terreno de la economía social. Con
importantísimos avances en lo que se refiere a la participación y cooperación,
la democracia directa y la autogestión. Pero a nivel político no existe aún una
conciencia clara de cómo plantear una alternativa desde la base, que gestione
desde las instituciones el discurso que tan claramente se escucha en los barrios
y desde los movimientos sociales.
Pasamos si te parece a la parte 2: “Buscando alternativas”.
Me parece. Cuando quieras.
Rebelión ha publicado este artículo con el permiso del autor mediante una
licencia de Creative Commons, respetando su libertad para publicarlo en otras
fuentes.
In
Rebelión
http://rebelion.org/noticia.php?id=190314
4/10/2014
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Autogestión Nac&Pop |
Lavaca
Dos locales de la popular cadena de comida rápida porteña fueron tomados
por sus trabajadoras y trabajadores en defensa de sus puestos de trabajo.
Sueldos atrasados, vaciamiento de locales y maltrato patronal fueron los
empujones que posibilitaron que hoy estén a punto de conformar cooperativas.
Cómo conspirar
Mostrador, sillas altas, y caricaturas de Soda Stereo, Indio Solari, Virus, La
Renga, Charly García, Diego Capusotto, el Che Guevara, Evita y Arturo Jauretche
custodian las palabras de Laura Rúfolo, 26 años, con un embarazo de 5 meses (va
a ser un varón) y una energía que contagia, que dice a lavaca: “Vamos a aprender
entre todos lo que es ganarse el plato de comida”. Comenzó a trabajar hace siete
meses en la cadena Nac&Pop, pero desde hace tres que no le pagan. “Cuando conté
y certifiqué que estaba embarazada fue justo cuando me dejaron de pagar”.
Laura cuenta que, entre diciembre y enero, cambió la razón social de la firma.
De Pop & Nac, dirigida por el empresario uruguayo Alex Gordon, y la cadena pasó
a manos de Samin S.A.
Jairo Rengifo Arana aclara que a él no lo echaron. Sí le debían tres meses,
aguinaldo, aportes patronales. Es peruano, tiene 24 años, y dice que la razón
por la que desde el lunes 22 de septiembre está las 24 horas en el local de
Congreso haciendo choripanes, hamburguesas, panchos, bondiolas, cobrando, dando
vuelto, sacando cuentas para pagar el gas, la luz, el alquiler, soportando
amenazas, – le dijeron que le iban a pegar un tiro-y durmiendo junto a otros 9
trabajadores y trabajadoras en el fondo del comercio, es una sola: “ no me
gustan las injusticias”.
Según afirma Jairo, la economía de los locales ondulaba, pero era una cuestión
que los ya les habían advertido: “En la entrevista laboral, te decían: ´Mirá,
tenemos atraso en los pagos, quizá te pagamos con un mes de atraso; el sueldo es
de 5 mil, pero puedes ganar un poco más, un poco menos. Mientras aprendas más
rápido, mejor´”, rememora.
Laura subraya que presentían que las cosas no venían bien. Los rumores
comenzaron a correr y organizaron una reunión para organizarse e intercambiar
información. Jairo sintetiza: “En la primera éramos 3, en la segunda éramos 2, a
la cuarta éramos 10, a la quinta éramos 1 de nuevo, hasta que llegamos acá,
estuvimos las personas correctas en el día correcto, fuimos, marchamos, nos
reunimos. Nos sacamos esa bronca. Era lo único que podíamos hacer. Solamente
queríamos salvar el lugar de trabajo. Después, tomamos la decisión”.
El desafío
En los días previos a la toma hicieron una movilización para escrachar a la
responsable de recursos humanos de la firma. Ahí se comenzó a gestar la toma.
“Necesitábamos ponernos a laburar, necesitábamos comer. Necesitábamos resolver
el tema de nuestra dignidad como empleado y como persona”, explica Laura. Dice
Jairo: “Es que era un desafío: sabíamos que íbamos a tener que dormir acá, dejar
algunas cosas. Yo en particular dejé la Universidad. Estudio para traductor de
idiomas en una sede de la UBA . Tuve que dejar porque justo tenía clases los
días en los que estábamos aguantando acá. Y si tenés cuatro faltas, te sacan del
curso”.
El lunes 22 de septiembre a las 7 de la mañana llegaron al local de Congreso,
ubicado en la estratégica zona de Avenida Rivadavia y Callao. Algunos no
trabajaban allí sino en otras sucursales, otros era parte del personal de
rotación que cubre francos y feriados. “Cuando llegamos les pedimos permiso a
los compañeros y les preguntamos si se querían quedar o no”, dice Laura, que
trabajaba en la sucursal de Palermo. Algunos optaron por irse a otros locales,
otros apoyan, pero no de forma abierta. Hoy son 10 personas las que están
autogestionando esa sucursal. . La sucursal de Pellegrini y Perón está en el
mismo estado de asamblea permanente.
Laura aclara: “Estamos recibiendo al que quiera venir con ansias de trabajar y
de luchar: es bienvenido. Y también estamos tratando de ayudar a otros
compañeros para que se vaya haciendo lo mismo en otras sucursales”. La razón :
no cobran sus sueldos desde hace meses y no tienen ninguna noticia sobre los
dueños de Nac&Pop.
Abandonados
Alfredo Lezana Santillán es de Santiago del Estero, tiene 24 años y es el marido
de Laura Rúfolo. Llegó a Buenos Aires hace seis años. Es maestro nacional de
danza folklórica y se conoció con su compañera en una clase. Durante un tiempo
se ganaron la vida haciendo un duo: él tocaba la guitarra y ella vendía comida
en el tren San Martín, que une Retiro y Pilar. Entraron juntos a trabajar en
Nac&Pop. Hoy viven en Caseros, localidad de Tres de Febrero, municipio del oeste
del conurbano bonaerense. “Con mucha bronca vivimos todo lo que pasó, porque uno
se aguantó montones de cosas y de golpe no dan la cara, no responden ante nada,
desaparecen y no te dan respuesta. Nos abandonaron, prácticamente. Tampoco nos
cabe mucho estar acá las 24 horas, pelear por conseguir proveedores, que te
quieran cortar la luz, clausurar, pero tenemos que hacerlo porque hoy en día es
la fuente de trabajo que tenemos para subsistir, más allá de que ahora no
estemos ganando un peso porque arrancamos de cero. Con lo que ganamos por día
estamos comprando el pan, las gaseosas, los productos para cocinar. Hoy fuimos a
pagar el gas. Este local estaba vaciado, no había nada. Mal que mal, lo pusimos
a andar”.
Laura sostiene que ya no es un motivo económico lo que los impulsa a seguir. “Si
fuera eso, no podríamos estar armando todo lo que estamos armando. Cuando es
solamente la guita lo que se pretende, se busca otro laburo. Desde que estamos
acá no sacamos un peso. Por suerte comemos, la yerba y el azúcar lo compramos
entre todos. Todo se está colectivizando. Creo que eso es lo que pasó en este
local, y espero que pase en todos. Es una cuestión de dignidad. Hemos trabajado
días enteros, 16 horas todos los días, o sin franco, no me puedo ir agachando la
cabeza diciendo ‘Sí señor, gracias por haberme maltratado’”.
Laura apunta que hay personas que, a pesar de reconocer el maltrato que sufren,
lo toleran. Ella no puede. Dice que no le puede enseñar eso a su hijo.
Deudas, amigos y policías
El menú de Nac&Pop es verdaderamente nac & pop. Incluso los precios bajaron con
la autogestión del local. Desde el clásico choripán hasta el especial Choripunk
(viene con doble queso), pasando por los platos La Cumbiera, La Callejera y La
Cheta, hasta llegar a El Indio o un Luca (una genial bondiola con morrón y
muzzarella). El clásico es el lomito Coca Sarli.
Jairo cuenta que hace unas noches una 4×4 paró en la puerta del local. Un hombre
abrió la guantera, sacó algo (“no llegué a ver qué”, dice) y se lo guardó en el
cinturón, con el clásico gesto de alguien que se enfunda un arma. Según
interpreta, no pasó nada porque había muchas personas a esa hora de la madrugada
como parte de la guardia de la toma. Un detalle: no pueden cerrar el local
porque no tienen rejas, ya que fueron pensados para que estén abiertos las 24
horas. Laura señala que su compañero ya había sufrido una amenaza en ese local.
“A vos y a todos los giles que están rompiendo las pelotas les vamos a pegar un
tiro”, les dijeron.
Los trabajadores señalan que algunos de los locales quedaron en manos de
efectivos de la Policía Federal. Ornella Nociti, su abogada, lo confirma. Y
señala tres sucursales: Santa Fe y Humboldt; avenida Córdoba y Salguero;
Corrientes y Uriburu. La abogada también cuenta que se contactó con ella un
acreedor de la cadena, de nombre Miguel Sbaglia, y le contó que le habían
propuesta saldar la deuda entregándole sucursales. La persona que le ofreció
realizar este negocio fue el abogado de Gordon, Osvaldo Bernardi. “Es el
artífice del vaciamiento que está haciendo Gordon, y explota el local de
Montevideo y Corrientes”, denuncia la abogada. Nociti también representó a los
trabajadores de Alé Alé, otro restaurante recuperado, cuando tomaron el local.
Por su parte, Semin S.A, la sociedad que se hizo cargo de los locales a
principio de año, está a punto de quebrar.
En camino
El local de Congreso tiene algunas frases en las paredes que decoran junto a las
caricaturas. “No corras más. Tu tiempo es hoy”, dice una, citando al eterno Luis
Alberto Spinetta en “Muchacha ojos de papel”. Otra: “El mundo será de los
pueblos”. La autora: Evita. Las trabajadores y los trabajadores de Nac&Pop no
quieren quedarse atrás: su deseo es conformar una cooperativa. La toma empezó
hace poco, aún están brindando algunas batallas relativas al local, pero dicen
que dentro de poco comenzarán a tramitar la matrícula. “La autogestión es el
camino”, considera Laura. “Hay compañeros que se unen, no hay egos. Es todo
mucha voluntad y mucho amor”.
¿De dónde sacás fuerzas?
-Yo creo que de acá -dice, y se toca la panza-.
In
Lavaca
http://www.lavaca.org/notas/autogestion-nacpop/
28/9/2014
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Os 150 anos da Internacional
Marcello Musto
Em 28 de setembro de 1864, a sala do St. Martin's Hall, um edifício situado no
coração de Londres, estava lotado. Estavam reunidos cerca de dois mil
trabalhadores e trabalhadores para participar de um comício de sindicalistas
ingleses e colegas parisienses. Graças a esta iniciativa, nascia o ponto de
referência do conjunto das principais organizações do movimento operário: a
Associação Internacional de Trabalhadores.
Em poucos anos, a Internacional despertou paixões por toda a Europa. Graças a
ela, o movimento operário pode compreender mais claramente os mecanismos de
funcionamento do modo de produção capitalista, adquiriu maior consciência de sua
própria força e inventou novas formas de luta. De forma contrária, nas classes
dominantes, causou terror a notícia da formação da Internacional. A ideia de
trabalhadores reclamarem maiores direitos e um papel ativo na história suscitou
repulsa nas classes acomodadas e foram muitos os governos que a perseguiram com
todos os meios a seu alcance.
As organizações que fundaram a Internacional eram muitos diferentes entre si.
Seu centro motor inicial foram os sindicatos ingleses, que passaram a
considerá-la o instrumento mais idôneo para lutar contra a importação de mão de
obra de fora durante as greves. Outro importante ramo da associação foi a dos
mutualistas, a componente moderada fiel à Teoria de Proudhon, predominante na
França à época, enquanto o terceiro grupo, por ordem de importância, foram os
comunistas, reunidos em torno da figura de Marx.
Inicialmente, fizeram parte também da Internacional grupos de trabalhadores que
reivindicavam teorias utópicas, núcleos de exilados inspirados por concepções
vagamente democráticas e defensoras de ideias interclassistas, como alguns
seguidores de Mazzini. O empenho em fazer com que convivessem todas estas almas
na mesma organização foi indiscutivelmente obra de Marx. Seus dotes políticos
lhe permitiram conciliar o que não parecia conciliável, assegurando um futuro à
Internacional. Foi Marx quem outorgou à Associação a clara finalidade de
realizar um programa político não excludente, apesar de ser fortemente de
classe, como garantia de um movimento que aspirava ser de massas e não sectário.
Foi sempre Marx, alma política do Conselho Geral de Londres, que redigiu quase
todas as resoluções principais da Internacional. Entretanto, diferentemente do
que foi propagado pela liturgia soviética, a Internacional foi muito mais do que
apenas Marx.
Desde o final de 1866, intensificaram-se as greves em muitos países europeus, o
coração vibrante de uma época de luta significativa. A primeira grande batalha
vencida graças ao apoio da Internacional foi a dos bronzistas de Paris no
inverno de 1867. Neste período, tiveram também o vitorioso desenlace nas greves
dos trabalhadores das fábricas de Marchienne, as dos operários das bacias
mineiras de Provenza, dos mineiros de carvão de Charleroi e dos pedreiros de
Genebra. Em cada um destes acontecimentos, repetiu-se de modo idêntico a pauta:
arrecadação de dinheiro em apoio aos grevistas, graças aos chamamentos redigidos
e traduzidos pelo Conselho Geral e depois enviados aos trabalhadores de outros
países, e à compreensão de que estes últimos não fizessem ações fura greve.
Todo isso obrigou os patrões a buscar um compromisso e a aceitar muitas das
demandas dos operários. Iniciou-se uma época de progresso social, durante a qual
os movimentos dos trabalhadores conseguiu maiores direitos para aqueles que
ainda não gozavam deles, como prescreviam as receitas liberais da direita.
Depois do êxito de todas estas lutas, centenas aderiram à Internacional em todas
as cidades em que foram registradas greves.
Apesar das complicações derivadas da heterogeneidade das línguas, culturas
políticas e países implicados, a Internacional conseguiu reunir e coordenar mais
organizações e numerosas lutas nascidas espontaneamente. Seu maior mérito foi o
de ter sabido indicar a absoluta necessidade da solidariedade de classe e da
cooperação transnacional. Objetivos e estratégias do movimento operário mudaram
de maneira irreversível e são atuais ainda hoje, 150 anos depois.
A proliferação de greves mudou também os equilíbrios no interior da organização.
O Congresso de Bruxelas de 1868 votou a resolução sobre a socialização dos meios
de produção. Tal ação representou um passo decisivo no decorrer da definição das
bases econômicas do socialismo e, pela primeira vez, um dos baluartes
reivindicativos do movimento operário ficou integrado ao programa político de
uma grande organização. Entretanto, depois de ter derrotado os partidários de
Proudhon, Marx teve que enfrentar seu novo rival interno, o russo Bakunin, que
se somou à Internacional em 1869.
O período compreendido entre o final dos anos 60 e o início dos anos 70 foi rico
em conflitos sociais. Muitos dos trabalhadores que fizeram parte dos protestos
neste intervalo de tempo receberam apoio da Internacional, cuja fama ia sendo
difundida cada vez mais. Da Bélgica à Alemanha e da Suíça à Espanha, a
Associação aumentou seu número de militante e desenvolveu uma eficiente
estrutura organizativa em quase todo o continente. Foi também para além do
oceano, graças à iniciativa dos imigrantes reunidos nos Estados Unidos.
O momento mais significativo da história da Internacional coincidiu com a Comuna
de Paris. Em março de 1871, após o fim da guerra franco-prussiana, os operários
expulsaram o governo Thiers e tomaram o poder. Este foi o acontecimento político
mais importante da história do movimento operário do século XIX. Desde aquele
momento, a Internacional esteve no olho do furacão e adquiriu grande
notoriedade. Na boca da burguesia, o nome da organização se tornou sinônimo de
ameaça à ordem constituída, enquanto na dos trabalhadores se tornou a esperança
de um mundo sem exploração e injustiças. A Comuna de Paris deu vitalidade ao
movimento operário e levou-o a tomar posições mais radicais. Uma vez mais, a
França mostrou que a revolução era possível, que o objetivo podia e devia ser a
construção de uma sociedade radicalmente diferente da capitalista, mas também
que, para alcançá-lo, os trabalhadores teriam que criar formas de associação
política estáveis e bem organizadas.
Por esta razão, durante a Conferência de Londres de 1871, Marx propôs uma
resolução sobre a necessidade de a classe trabalhadora se dedicar à batalha
política e construir onde fosse possível um novo instrumento de luta considerado
indispensável para a revolução: o partido (utilizado até então apenas pelos
operários da Confederação Germânica). Muitos, entretanto, opuseram-se a esta
decisão. Para além do grupo de Bakunin, contrário a qualquer política que não
fosse a da destruição imediata do Estado, várias federações se uniram em sua
impaciência e rebeldia em relação {a proposta do Conselho Geral, ao considerar
que a eleição de Londres era uma ingerência na autonomia das federações locais.
O adversário principal da campanha iniciada por Marx foi uma atmosfera ainda
resistente em aceitar o salto qualitativo proposto. Desenvolveu-se assim um
enfrentamento que fez da direção da organização algo ainda mais problemático,
enquanto ela se estendia na Itália e se ramificava na Holanda, Dinamarca,
Portugal e Irlanda.
Em 1872, a Internacional era muito diferente do que havia sido no momento de sua
fundação. Os componentes democratico-radicais tinham abandonado a Associação,
depois de terem sido encurralados. Os mutualistas haviam sido derrotados e suas
forças drasticamente reduzidas. Os reformistas já não constituíam a parte
predominante da organização (salvo na Inglaterra) e o anticapitalismo tinha se
transformado na linha política de toda a Internacional, também das novas
tendências – como a anarquista, dirigida por Mijail Bakunin, e a blanquista –
que haviam se somado no decorrer dos anos. O cenário, por outro lado, havia
mudado radicalmente também fora da Associação. A unificação da Alemanha em 1871
sancionou o inicio de uma nova era em que o Estado nacional se afirmou
definitivamente como forma de identidade política, jurídica e territorial.
O novo contexto tornava pouco plausível a continuidade de um organismo
supranacional em que as organizações de vários países, apesar de dotadas de
independência, deviam ceder uma parte considerável da direção política.
A configuração inicial da Internacional estava superada e sua missão original
era concluída. Não se tratava de preparar e coordenar iniciativas de
solidariedade em escala europeia, em apoio a greves, nem de convocar congressos
para discutir acerca da utilidade da luta sindical ou da necessidade de
socializar a terra e os meios de produção. Estes temas haviam se transformado em
patrimônio coletivo de todos os componentes da organização. Depois da Comuna de
Paris, o verdadeiro desafio do movimento operário era a revolução, ou seja, como
se organizar para colocar fim ao modo de produção capitalista e derrocar as
instituições do mundo burgues.
Durante sucessivas décadas, o movimento operário adotou um programa socialista
que se estendeu primeiro por toda a Europa e depois por todos os rincões do
mundo, construindo novas formas de coordenação supranacional que reivindicavam o
nome e o ensino da Internacional. Esta imprimiu na consciência dos trabalhadores
a convicção de que a libertação do trabalho do jugo do capital não podia ser
obtida dentro das fronteiras de um país apenas, mas era, pelo contrário, uma
questão global. E igualmente, graças à Internacional, os operários compreenderam
que sua emancipação poderia ser conquistada somente por eles mesmos mediante sua
capacidade de organização, uma conquista que não poderia ser delegada a outros.
Em suma, a Internacional difundiu entre os trabalhadores a consciência de que
sua escravidão terminaria somente com a superação do modo de produção
capitalista e do trabalho assalariado, posto que as melhoras no interior do
sistema vigente não transformariam sua condição estrutural.
Em uma época em que o mundo do trabalho se encontra acuado, também na Europa,
sofrendo com condições de exploração e legislações semelhantes às do século XIX
e em que velhos e novos conservadores tratam, uma vez mais, de separar o que
trabalha do desempregado, precário ou migrante, a herança política da
organização fundada em Londres recobra uma extraordinária relevância. Em todos
os casos em que se comete uma injustiça social relativa ao trabalho, cada vez
que se pisa em um direito germina a semente da nova Internacional.
Tradução: Daniella Cambaúva
In
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Os-150-anos-da-Internacional/6/31893
29/9/2014
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