quinta-feira, 9 de abril de 2015
O machado da guerra, o anzol da paz e os crápulas transparentes
O machado da guerra, o anzol da paz e os crápulas transparentes
– Venezuela e Colômbia, dois processos associados na estratégia regional
do Império
por Jorge Beinstein [*]
Seria errado subestimar as especificidades dos casos colombiano e
venezuelano, mas também seria grave limitar-nos às tramas nacionais ou
dotá-las de uma autonomia excessiva. Muito já se escreveu acerca da
globalização do capitalismo, por vezes para diluir tudo numa dinâmica
supranacional esmagadora – mas em certos casos com um resultado oposto,
onde o global surge como uma referência abstracta, inapreensível ou então
a operar como uma força exógena misteriosa sobre o aparentemente
"concreto" ou "tangível", o que está ao alcance da mão, tão complicado e
"nacional" que só pode ser entendido pelos que estão submersos nessa
realidade. Então exagera-se o nível de poder real das oligarquias e máfias
locais, de suas supostas fracções "reaccionárias" ou "civilizadas", de
suas contradições em países como a Colômbia onde estão instaladas bases
militares do Império, ou naqueles como a Colômbia e Venezuela onde
proliferam os negócios transnacionalizados financeiros, mediáticos,
narcos, comerciais, etc e onde importantes sectores sociais altos e médios
são do ponto de vista político-cultural simples prolongamentos coloniais
da sociedade estado-unidense.
Os Estados Unidos desenvolvem actualmente uma guerra global cujo fracasso
significaria o fim do Império. A lógica da reprodução do parasitismo
norte-americano leva a super-potência a uma multiplicação de ofensivas à
escala planetária, destinadas a quebrar os obstáculos que travam seu
projecto de super-exploração devastadora dos recursos naturais e humanos
do conjunto da periferia. Os dirigentes do Império consideram que essa
pilhagem desaceleraria a decadência em curso, impediria o colapso do
dólar, baixaria drasticamente os custos de mercadorias e salários
coloniais, engordando os lucros das suas empresas, mantendo seus mercados
internos cada vez mais concentrados.
A América Latina e o Caribe constituem um espaço decisivo do referido
projecto, sua recolonização integral é uma peça chave da uma ofensiva
planetária cuja implementação na região abrange um amplo leque de
operações convergentes. Trata-se de uma mega estratégia flexível que
inclui as desestabilizações de média intensidade no Brasil e Argentina, a
intervenção directa encoberta na Colômbia, os golpes de estado em Honduras
e Paraguai, a tentativa de desestabilização de alta intensidade apontando
para a intervenção militar na Venezuela, o ensaio de "abraço de urso"
procurando desarticular Cuba, a instalação de postos avançados militares
no Peru, etc. O objectivo final é a transformação do pátio traseiro
latino-americano numa região caótica, sem barreiras estatais nem
rebeldias significativas à sua dominação.
A exacerbação das intervenções imperialistas coincide com (e busca
aproveitar a) o declínio dos governos progressistas cujas dificuldades
abrem brechas que facilitam essas investidas. A agudização da crise global
impacta a América Latinas, as altas taxas de crescimento económico ficaram
no passado, as contradições sociais agudizam-se em põem em xeque os
equilíbrios progressistas que demonstram sua fragilidade. Um bom exemplo
disso é o Brasil, onde o governo inflecte para a direita a sua política
económica causando descontentamento popular sem por isso acalmar o apetite
das elites e das classes médias reaccionárias, cada vez mais
reaccionárias, que procuram a revanche rumo à hiper-concentração de
rendimentos e a submissão integral dos pobres.
É dentro desse contexto global-regional que devem ser enquadradas as
operações imperiais em curso sobre a Colômbia e a Venezuela.
O machado da guerra
A Venezuela surge como o objectivo central do capítulo latino-americano
da guerra energética global dos Estados Unidos. A república bolivariana
conta com 20% das reservas mundiais de petróleo convencional, o primeiro
lugar global. A confrontação deste facto com a informação sobre as
reservas limitadas e em declínio a médio prazo do petróleo convencional e
do xisto nos Estados Unidos seria suficiente para medir a urgência do
Império em devorar esse bocado. A propaganda acerca das supostas imensas
reservas norte-americanas de petróleo de xisto acabou por se chocar com a
dura realidade: recentemente a Agência de Energia dos Estados Unidos
informou que antes do fim da presente década a produção norte-americana de
petróleo de xisto chegará ao seu nível máximo, a seguir ao qual começará a
decair. Na realidade a crise desse sector já começou, impulsionada pela
baixa do preço do petróleo que reduziu sensivelmente seus lucros
(tornando-os negativos num número crescente de casos).
Mas não se trata só de petróleo. Apesar da demonização mediática
internacional do processo venezuelano este continua a operar como um
incentivo importante para os movimentos populares da região, para os
comportamentos estatais independentes quanto à dominação estado-unidense.
Apesar do desaparecimento de Chavez, a Venezuela continua a ser uma peça
decisiva de articulações rebeldes diante do poder imperial, como o ALBA e
outras iniciativas regionais em direcção a outros espaços da periferia.
A "Ordem Executiva" de Obama contra a Venezuela, declarando-a uma
"ameaça extraordinária" à segurança nacional dos Estados Unidos [NR] ,
não é um exercício retórico e sim um passo decisivo de uma ofensiva que
procura encurralar o governo e as forças armadas venezuelanas, estimular
a oposição, mobilizando seus grupos conspirativos mais radicais. Com essa
decisão Washington dá um salto qualitativo na deslegitimação do estado
venezuelano perante o Ocidente, abrindo desse modo um capítulo de
intervenções directas e encobertas, de reconhecimentos legais ou de facto
a "representantes da oposição", de apoio a possíveis levantamentos
armados, a uma agressão do exército colombiano, etc, ou seja, a cenários
conhecidos em outros lugares da periferia como a Síria ou a Líbia. Essa é
a linha de acção principal.
Não faltam funcionários de governos progressistas latino-americanos –
inclusive do próprio governo venezuelano – inclinados a ver o lado
moderado da tormenta. Supõem eles que a declaração imperial tende antes a
pressionar a Venezuela a fim de empurrá-la astutamente para a direita,
procurando a instalação de um "governo de unidade nacional" (mistura
pragmática de chavistas razoáveis e opositores conciliadores) amigo ou
menos inimigo dos Estados Unidos. Essa ilusão na realidade também faz
parte da estratégia estado-unidense, golpeando por um lado e oferecendo ao
mesmo tempo uma saída pacífica, tentando assim abrandar o campo inimigo,
criar fissuras e deserções, o jogo faz parte do manual para principiantes
em guerras coloniais.
Washington sabe muito bem que a longo prazo não há alternativa suave para
a Venezuela. Qualquer inflexão para a direita, brutal ou gradual, geraria
uma concentração de rendimentos acompanhada inevitavelmente por revanches
sociais das classes superiores que automaticamente desencadeariam
rebeliões populares. O processo bolivariano não trouxe a transição
socialista prometida, não quebrou a espinha dorsal do capitalismo
(descolagem imprescindível do caminho pós capitalista), afundou-se numa
confusa e interminável "transição" rumo à transição anunciada, enchendo
suas cabeças de esperanças, forjando identidade popular, auto-estima dos
humildes. Isso não pode ser apagado facilmente.
Assim como na Venezuela existe um fascismo maciço nas classes médias e
altas que só se conforma com uma contra-revolução sangrenta, também existe
um chavismo profundo nas classes baixas que aprendeu a odiar o
capitalismo, os Estados Unidos, que sabe combater. O chavismo não esmagou
o país burguês impondo o país popular e socialista, a resultantes da sua
condução desordenada foi a criação de dois países incompatíveis entre si.
Para Washington trata-se de conquistar a Venezuela, nem mais nem menos.
Não para instaurar uma nova ordem colonial e sim para parasitar
livremente sobre o caos, para saquear riquezas navegando no meio da
desarticulação violenta de uma sociedade estrategicamente submetida. Para
visualizar o futuro venezuelano desejado por Washington não é preciso ler
velhos textos acerca da ascensão do fascismo na Itália ou dos neofascismos
militares mais recentes da América Latina – basta dar uma olhadela ao
Iraque ou à Líbia de hoje.
O anzol da paz
Uma peça chave na conquista da Venezuela é o exército colombiano, a força
armada regular com maior experiência de combate da região, com 460 mil
pessoas (incluindo as três armas mais a polícia nacional). Trata-se de
longe do maior aliado militar com que contam os Estados Unidos na América
Latina, útil tanto para a realização de incursões rápidas como para uma
invasão em grande escala e como aparelho de retaguarda no caso de uma
guerra prolongada na Venezuela. A estas forças profissionais é preciso
acrescentar várias dezenas de milhares de paramilitares operacionais no
imediato ou de recrutamento fácil.
Mas essa força agressiva potencial está manietada no território
colombiano por uma insurgência que não pôde ser subjugada depois de meio
século de repressão e que, no caso de uma guerra civil ou de invasão da
Venezuela, poderia converter-se no núcleo principal de uma vasta guerra
popular abrangendo ambos os países – ou pelo menos num aliado estratégico
decisivo dos combatentes venezuelanos. Para os estrategas do Império,
retirar essa insurgência da cena regional é um objectivo prioritário. Não
conseguiram fazê-lo pela via militar, tentam agora alcançá-lo através de
uma complexa operação que envolve pressões directas e indirectas e ofertas
tentadoras combinadas com a ameaça (e a prática) permanente do garrote
bélico. Tentam converter a crescente debilidade (e decrescente
legitimidade) do regime colombiano numa espécie de armadilha letal
colocada aos pés da insurgência, "permitindo" sua extensão (que tende à
sobre-extensão) política mais ou menos legal com a finalidade de criar-lhe
ataduras sistémicas de todo tipo (institucionais, políticas, ideológicas,
sociais, etc) que a impeçam de sair da rota do apaziguamento. Ao
enquadramento local acrescenta-se um não menos embrulhado jogo de pressões
regionais e extra-regionais mais ou menos "amistosas" para completar o
cerco psicológico. Apaziguar, deslocar, adormecer, penetrar esse factor
perturbador extremamente perigoso constitui a obsessão desses
manipuladores de alto nível. A estratégia tem algo de ciência e algo de
pôker porque se baseia principalmente na capacidade (difícil de medir) de
absorção (de degradação politiqueira) do regime colombiano cuja evolução
articula-se cada vez mais em torno de duas dinâmicas inter-relacionadas
que podem ser maquilhadas, ornamentadas com garantias democráticas
ilusórias mas não eliminadas uma vez que constituem o núcleo duro,
sobredeterminante da reprodução do sistema, da sua inserção no capitalismo
global.
Em primeiro lugar o aparelho militar, cujo sobredimensionamento em
relação à sociedade colombiana corresponde à longa guerra interna que
protagoniza assim como à sua vinculação-dependência ao aparelho militar
norte-americano e às suas estratégias coloniais. Atravessado por negócios
mafiosos próprios e laços directos com o império, o aparelho militar
dispõe de margens de autonomia significativas em relação às camarilhas
burguesas locais com as quais compartilha interesses. Não é segredo para
ninguém que os Estados Unidos contam com as forças armadas da Colômbia
para suas futuras operações militares regionais e extra-regionais. Só
algum progressista iludido pode acreditar que o Império e seus lacaios
locais possam alguma vez aceitar pacificamente a democratização e redução
significativa dessa estrutura criminosa.
Em segundo lugar a crescente hegemonia económica na Colômbia do complexo
agro-mineral exportador (agricultura quase sem camponeses e mineração
ultra-extractivista) expulsor de população e destruidor do meio ambiente.
Este modelo vai-se impondo na América Latina, tanto em países com governos
neoliberais como progressistas, e responde à lógica global do
capitalismo, dos seus pólos imperialistas (decadentes mas poderosos)
decididos a saquear os recursos naturais da periferia.
A eliminação ou subordinação democrática desse núcleo duro equivaleria em
termos concretos à quebra da espinha dorsal do capitalismo colombiano.
Custa a crer que os donos do sistema se resignem a perdê-lo enquanto o
Império exacerba sua guerra planetária.
Os crápulas transparentes
Os Estados Unidos expandem seu desdobramento militar pela América Latina,
secundados pelos seus aliados da NATO.
Vejamos algumas notícias recentes. No Paraguai acaba de desembarcar um
contingente de peritos britânicos em inteligência militar, segundo foi
informado pelo governo desse país, os quais assim se somam a um número
desconhecido de "assessores"norte-americanos formais e de mercenários de
diferentes origens [1] . Em Honduras, os Estados Unidos decidiram instalar
(na base de Palmerola) uma denominada "Força-Tarefa de Finalidade
Especial Ar-Terra de Fuzileiros Navais – Sul" que, dotada da mais alta
tecnologia, estará em condições de operar rapidamente em qualquer zona da
região considerada "em situação de crise" [2] . No Peru, em 2015, estão a
chegar 3200 fuzileiros navais (marines) norte-americanos, prolongando as
tarefas de apoio que já realizavam destinadas, segundo a informação
oficial, "a combater as ameaças insurgentes" [3] .
Em relação à dupla Colômbia-Venezuela, as notícias não podem ser mais
claras. Em princípios deste ano foi anunciada a instalação no departamento
de La Guajira, fronteiriço com a Venezuela (próximo de Maracaibo) de uma
unidade blindada capaz de deslocar-se rapidamente chamada "Força-Tarefa de
Armas Combinadas Medianas" (FUTAM). A nova unidade militar disporá de
blindados da última geração. Segundo a publicação especializada
"defensa.com" , no acto oficial de entrega dos mesmos o ministro da
Defesa da Colômbia, Juan Carlos Pinzón, "referindo-se a um cenário futuro
de pós conflito perante a possibilidade de chegar à paz com a guerrilha
das FARC, ressaltou que as Forças Armadas da Colômbia 'têm hoje capacidade
de inter-operar com outras do mundo, especialmente com as de outros países
com padrões internacionais e com missões que busquem garantir a paz
global'...". Os "outros países" são em primeiro lugar os Estados Unidos e
seus sócios da NATO & Co. que "garantem a paz" (?) com suas guerras na
Líbia, Iraque, Afeganistão, Iémen, Síria, Palestina, Ucrânia...
Isto coincide com o que se verificou na "mesa de peritos" convocada pelo
ministro Pinzon acerca do tema do futuro das forças armadas colombianas.
Ali, Mary Beth Long, ex-subsecretária da Defesa dos Estados Unidos,
assinalou que "os militares (colombianos) estão estudando outras ameaças
na região que podem representar seus vizinhos como a Venezuela,
preparar-se para essas eventualidades e os felicito por isso porque há
outros desafios no horizonte, e sua força pública, sua liderança e sua
polícia já se estão a preparar para isso" [4] .
Mas o departamento de La Guajira não é apenas o lugar de uma base
operativa destinada a agredir a Venezuela. Há poucos dias a agência de
notícias ADITAL informava: "Desde que o principal rio da região foi
represado e a sua água privatizada pela indústria agrícola e pela maior
exploração da mina de carvão a céu aberto do mundo, a maior comunidade
indígena da Colômbia, constituída pelos povo Wayúu, morre de fome e de
sede. Situada no extremo norte do país, na península desértica de La
Guajira, a população sofre devido à desnutrição, subindo a pelo menos 37
mil as crianças indígenas desnutridas. Há dados a assinalar que cerca de
14 mil meninos e meninas já morreram de inanição".
(1) "Expertos británicos proveen asistencia de inteligencia en Paraguay"
, HISPANTV, 19 de marzo de 2015
(2) "EEUU creará fuerza especial para América Latina con sede en
Honduras" , ANNCOL, 3 de Abril de 2015
(3) "Arribó al Perú el segundo contingente de soldados de EEUU" ,
defensa.com, 19 de febrero de 2015
(4] "Exsubsecretaria de Defensa dice que Colombia se prepara para
eventuales conflictos con Venezuela" , noticias-uno, 28 de marzo de 2015
(5) Marcela Belchior, "Privatización de río provoca 14 mil muertes de
indígenas por inanición" , ADITAL, 5 de Abril de 2015
[NR] Mas em 08 de Abril um subordinado de Obama desmentiu a "Ordem
executiva" do seu chefe. Ver:
Venezuela: Ahora el gobierno de EEUU dice que no dijo lo que dijo su
Presidente
[*] Doutorado em economia e professor catedrático das universidades de
Buenos Aires e Córdoba, na Argentina, e de Havana, em Cuba. É autor de
Capitalismo senil: a grande crise da economia global, publicado no
Brasil pela editora Record (2001). Dirige o Instituto de Pesquisa
Científica da Universidade da Bacia do Prata e publica regularmente em
Le Monde Diplomatique (em castelhano).
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
http://www.resistir.info/beinstein/venez_colom_07abr15.html
9/4/2015
terça-feira, 7 de abril de 2015
Greve dos professores de SP vai muito além do reajuste
Escrito por Raphael Sanz
Em meio às manifestações dos últimos dias 13 e 15 de março,
que ganharam destaque na dita “grande” imprensa, houve um
levante dos professores estaduais de São Paulo completamente
ignorado pelos mesmos meios de comunicação e tratado de forma
dissimulada pelo governo do estado. A greve, que já conta com
aproximadamente 60% da categoria – e se coloca contra as
políticas públicas estaduais na educação –, só teve sua
existência reconhecida depois de atingir este expressivo
índice de mobilização e colocar mais de 70 mil professores nas
ruas, na última sexta-feira, 27 de março.
Em meio a uma crise generalizada, com uma inflação que bate os
7,7% - a partir de uma perspectiva “otimista” –, o governo do
estado entrou em 2015 com o pé direito, falando para quem
quisesse ouvir que não haveria qualquer reajuste salarial para
os professores da rede pública estadual. Mais de 3400 salas de
aula foram fechadas e 132 mil professores cruzaram os braços,
reivindicando melhores condições de trabalho, reajuste
salarial e mudanças na lei 1093, de 2009, que segundo eles é
um dispositivo de precarização do trabalho e fere o princípio
da isonomia salarial.
A lei 1093 prevê a contratação de um extenso corpo de
professores temporários, que lecionariam durante um ano letivo
inteiro, para depois ficarem em uma espécie de geladeira por
mais um ano letivo, ao invés de serem contratados com todos os
direitos garantidos pela categoria. Daí vem o jargão
“duzentena,” que veremos a seguir e que se refere a este ano
letivo em que o professor temporário não trabalha. E também
não recebe. O ano letivo conta com 200 dias de aula, daí o
apelido.
Para esclarecer os pontos principais dessa greve, seus
desdobramentos e seu projeto, o Correio da Cidadania conversou
com a professora de História Silvana Soares de Assis, que já
leciona há 28 anos, desde o dia 27 de fevereiro de 1987, na
rede pública estadual e participa do comando de greve.
Extremamente calma e didática, a professora explicou as
reivindicações da categoria, os modelos de educação em disputa
e comentou uma série de outros temas pertinentes à questão.
A entrevista pode ser lida na íntegra abaixo.
Correio da Cidadania: Quais são as razões primordiais da atual
greve dos professores estaduais paulistas e qual a abrangência
da greve dentro da classe?
Silvana Soares de Assis: Em primeiro lugar, o ano começou com
o governador Geraldo Alckmin e o secretário de Educação
(Herman Voorwald) afirmando que não teríamos qualquer reajuste
salarial. E, bom, temos uma inflação prevista para esse ano,
sendo otimista, de 7,7%, beirando os 8%. Nosso dissídio é em
março e, nas primeiras negociações, foi dito que não haveria
nenhum reajuste para 2015. Em segundo lugar, há a lei 1093:
com ela, temos mais de 26 mil professores desempregados e sem
condições de adentrar a rede estadual de ensino por conta da
danada da “duzentena”. A contradição é que isso gerou mais de
3400 salas de aula fechadas. Vemos uma política obviamente
desastrosa que causa dois fenômenos resultantes do fechamento
de salas: a superlotação das salas remanescentes e o
desemprego de uma grande parte dos professores.
Entre as principais demandas está o reajuste salarial de
75,33%, pois não adianta simplesmente reajustar sob uma cifra
qualquer. Se você não tiver um gatilho que promova um impacto
imediato em relação à inflação, um reajuste seco qualquer não
significa nada a longo prazo, por isso os 75,33%. Grosso modo,
as questões estruturais se mantêm, como, por exemplo, as salas
de aula precárias.
Mas, no imediato, o que queremos é o reajuste salarial, a
reabertura das salas que foram fechadas e o fim da lei 1093,
que é uma excrescência. Graças a essa lei, o professor
trabalha na sala ao lado da sua e ele não tem os mesmos
direitos que um professor efetivo na rede: tem menor número de
horas abonadas, não pode faltar mais que duas vezes por ano,
não tem direito ao serviço público estadual para poder se
tratar. Assim, ele faz o mesmo trabalho e tem direitos
absurdamente desiguais. E é a lei 1093 que prevê tal
desigualdade.
Correio da Cidadania: Houve um ato na manhã da última
segunda-feira, 30 de março. Fale um pouco dos seus
desdobramentos.
Silvana Soares de Assis: Do ponto de vista da nossa pauta, não
se avançou em nada. Tudo o que prometeram, e de forma bem
vaga, foi rever a “duzentena” na lei 1093. Acontece que a
“duzentena” é apenas um dispositivo da lei que trata da
contratação de professores de forma precarizada. Há um
professor denominado “categoria O”, que designa esse professor
absurdamente precarizado. Portanto, a duzentena é apenas um
dispositivo que ele pode tirar da lei, mas, para nós, ainda é
pouco, pois, mesmo sem tal dispositivo, ainda se consegue
manter os outros dispositivos de precarização.
O ato convocado para a capital e grande São Paulo estava
bastante representativo por regiões. O acampamento se mantém e
a greve continua até que o governo traga uma proposta
minimamente aceitável para a categoria. Vale lembrar que esse
ato foi tirado em assembleia da sexta-feira, dia 27.
Correio da Cidadania: Para além do reajuste salarial e da
reabertura de salas de aula, de que forma essas reivindicações
estão atreladas a um modelo de educação em disputa? E quais
são, na sua opinião, os modelos em disputa?
Silvana Soares de Assis: Eu penso que há vários modelos em
disputa, mas, principalmente, o que está implementado de cima
para baixo, de um lado, e o que o conjunto da categoria e, em
particular, o setor que pensa a educação propõe, por outro
lado. Estamos vivendo aqui um modelo que pressupõe uma
educação por resultados, haja vista as diversas avaliações
externas, que, na realidade, tentam indicar um método de
padronização, ou seja, os alunos são máquinas das quais serão
extraídos resultados positivos ou negativos. As avaliações por
resultados expressam muito a forma como o governo entende a
educação, ou seja, não faz qualquer mediação em relação às
variáveis nas quais estão inseridos os alunos. E para nós que
pensamos a educação – e acredito que a maioria dos professores
pensa dessa forma –, os sujeitos envolvidos no processo são
determinantes para que nós possamos obter resultados positivos
ou negativos.
Quando a gente fala que quer a redução da jornada de trabalho
e a diminuição de alunos nas salas de aula, estamos dizendo
que queremos olhar para aquele aluno para além do número, para
além da variável educacional, ou seja, ele é um ser humano que
tem objetividades e subjetividades e o processo educacional
não é feito só de objetividade, ou seja, do conteúdo, mas é a
forma como se desenvolve tal conteúdo. E se eu não tenho 20 ou
25 alunos em sala de aula, eu não consigo fazer isso, tenho
que padronizar tudo. O filme The Wall é muito interessante
para ilustrar isso, uma vez que expressa, de uma forma
metafórica, a maneira como o governo avalia os seus alunos. Ou
seja, uma massa amorfa que precisa obter alguns resultados
para serem apresentados às agências multilaterais e justificar
uma aplicação de verbas na educação.
A primeira avaliação externa em São Paulo vem de 1996. Já
levamos 19 anos de políticas de resultados. E o que temos
hoje? Temos alunos chegando ao ensino médio semianalfabetos.
Isso não significa defender uma política de reprovação como a
da década de 70 ou uma educação conteudista. Nós queremos uma
educação que possibilite ler o aluno como uma variável
objetiva, porque é um ser humano, mas com múltiplas
contradições de sua subjetividade. Para isso, não tem outro
jeito senão diminuir o número de alunos por sala de aula,
diminuir a jornada de trabalho, garantir a liberdade de
cátedra e dar ao professor o poder de escolher seus
referenciais teóricos.
Ao contrário, há um sistema de cartilhas distribuídas nas
escolas públicas. Distribui-se material didático para toda a
rede com o mesmo conteúdo, tanto para o Capão Redondo quanto
para Santa Cecília. Pega-se a avaliação externa, que é
aplicada em cima daquele material padronizado. É uma educação
estandartizada. O aluno é visto como um número, não como um
ser humano. O ser humano só aprende no processo de interação.
Se há 40, 50 alunos em sala de aula, não se possibilita o
processo de interação entre professor e aluno, entre
objetividade e subjetividade, entre conteúdo e método.
Para nós, a educação é sempre uma relação processual. É entre
meu aluno e eu. Eu aprendo com ele e ele aprende comigo. Mas
ele só vai interagir se houver condições para isso. A relação
entre professor e aluno é uma relação muito especial, mas que
fica impossibilitada de ser desenvolvida sob as condições em
que estamos inseridos, tanto professores quanto alunos.
Correio da Cidadania: Nessa disputa por um projeto e também,
pontualmente, dentro do movimento grevista, como tem sido a
dinâmica, tanto nas manifestações de rua como no dia-a-dia das
escolas e na sala de aula?
Silvana Soares de Assis: Na realidade, o governo primeiro
optou por desconhecer a greve. Quis ignorar a existência dos
professores grevistas. Esse foi seu primeiro movimento. Tentou
fingir que nada estava acontecendo, só que não deu para fingir
por muito tempo, porque há mais de 100 mil professores
paralisados em São Paulo. Ao tentar aplacar esse impacto no
dia-a-dia das escolas, o que o governo fez? Chamou professores
substitutos para cobrir professores grevistas. E mais:
redistribuiu alunos nas salas para fingir que a ausência de
professores não estava impactando aquela escola.
Assim, foi juntando alunos de professores grevistas em outras
salas e, se você for lá fotografar, a sala está com 30, 35
alunos, mas na realidade há alunos de diferentes turmas
reagrupados em enormes turmas. Foi orientado o reagrupamento
desses alunos de cima para baixo. E mais: há uma orientação
aos diretores para ameaçar os professores grevistas com
quebras de contrato por número de faltas, de modo que muitos
diretores assediam os professores dizendo que, se entrarem em
greve, vão perder o contrato. Mas, por lei, temos direito à
greve. Também ameaçam professores que estão em estágio
probatório.
Em outras palavras, essa disputa de como ter uma educação de
qualidade em São Paulo se reflete em nossas reivindicações e
no atendimento às nossas demandas. E o governo tem agido de
forma bastante truculenta. Infelizmente, existem dois cargos
auxiliares que são fundamentais nessa truculência: os
supervisores de ensino e os diretores. Ambos têm recebido
gratificações por parte do Estado. Agora, inclusive, estão
para receber gratificações de mil reais no auge da nossa luta,
sob a argumentação de “melhoria da gestão”.
Correio da Cidadania: E a relação dos professores em greve com
a dita “grande” imprensa? A Folha de S. Paulo publicou semana
passada um editorial criticando o movimento grevista, sob o
argumento de a categoria ter incorporado recentemente vultosos
bônus aos seus salários e de se tratar de reivindicações
irrealistas em momento de forte crise econômica. Como lidam
com isso? Que tipo de resposta vocês pretendem dar?
Silvana Soares de Assis: A grande imprensa, na mesma linha do
governo, primeiro se calou. Depois assentiu à existência da
greve. Posteriormente, houve um “aceitar que a greve existe”
com os argumentos negativos, com uma caracterização negativa
do nosso movimento. A maioria das reportagens utiliza os
mesmos argumentos do governador para nos atacar. Por exemplo:
política de bonificação não é política salarial. Apesar de o
cofre ser o mesmo, do orçamento do estado, não significa que
seja política salarial, pois essa é incorporada no salário da
classe. Além disso, aposentado não recebe bonificação. Isso
fere a isonomia salarial.
Segundo: o governo tem aprofundado há pelo menos seis anos
aquilo que chamamos de política meritocrática. Isso não é algo
tão irreal, visto que a sociedade em que vivemos,
infelizmente, é meritocrática. O próprio concurso para o cargo
é um exemplo: passa quem sabe mais, ou seja, aquela ideia de
valorizar os dons e os méritos do sujeito. O governo instituiu
uma prova a cada três anos e nessa prova, se aprovado o
professor, tem-se um aumento salarial de 10,5%. Afinal de
contas, o professor fez a prova e passou. É muito perverso
porque atende a uma parcela da categoria – eu nunca fiz essa
prova e espero me aposentar sem fazê-la, não porque eu não
acredite no meu potencial, não tem a ver com a análise da
competência individual, mas porque acho a prova vergonhosa.
Essa prova transforma iguais em desiguais. Ou seja, um outro
professor de História que dá aula na mesma escola que eu vai
receber 10,5% a mais ou a menos que eu, dando aula no mesmo
lugar, enfrentando os mesmos problemas, as mesmas
quintas-séries, os mesmos terceiros colegiais, novamente
ferindo o princípio da isonomia salarial, que para nós é um
princípio básico da nossa categoria.
Também defendemos que o professor possa estudar em
universidade pública e, no nosso plano de carreira, ainda tem
a possibilidade de afastamento para que o professor possa
fazer um mestrado ou doutorado. Temos esse direito com os
proventos, afinal de contas, estamos tentando nos aperfeiçoar
para exercer a profissão com mais qualidade. Só que há muitos
anos o governo não aprova o afastamento dos professores da
rede pública estadual com proventos. Portanto, se você quiser
estudar, fazer um mestrado ou doutorado, é obrigado a abrir
mão do seu salário para que autorizem o seu afastamento. Foi o
meu caso. Abri mão do salário e fiz mestrado e doutorado, ou
seja, passei todo o período, três anos de mestrado e quatro de
doutorado, tendo de me virar com o dinheiro de bolsa. Só que
eu não sou uma jovenzinha, já tinha filhos naquela época e
foram tempos bem difíceis.
Assim, como o governo quer qualidade de ensino se não permite
que os seus trabalhadores possam se aperfeiçoar? Como ele quer
qualidade de ensino se não facilita que o professor possa ter
uma educação processual? Com o salário que a gente ganha, é
muito difícil, por exemplo, pagar pelos livros que giram em
torno de 60, 80 reais. O governador aumentou seu próprio
salário, os salários dos seus secretários, os deputados
aumentaram os seus em 26%, e é o mesmo orçamento de estado.
Aumentaram também os salários dos diretores e supervisores e
só nós não tivemos reajuste salarial.
Correio da Cidadania: Parte dos alunos aderiu à greve. Como
você vê isso? É uma fatia considerável de estudantes
envolvidos com o movimento?
Silvana Soares de Assis: Sendo bastante sincera, a greve é dos
professores. Os alunos podem apoiar o movimento dos
professores indo às manifestações e dialogando com os
professores que estão furando a greve. Agora, eu, como
professora e sindicalista, não organizaria uma greve de
alunos. Eles são apoio. Se resolverem por si mesmos organizar
uma greve de apoio, porque acham imoral e indecente os colegas
que estão furando greve, eles têm autonomia política para tal.
Mas eu não entraria em uma escola para solicitar uma greve dos
alunos. Se eu não conseguir convencer a minha categoria, não
vou terceirizar a luta. Os alunos podem ser apoio, mas não são
a figura central. Porque, ao enfrentar o Estado, se perde
alguma coisa. Na greve, a gente ganha muito e perde muito,
principalmente financeiramente, né?
Correio da Cidadania: Muitos professores têm tecido duras
críticas à direção do sindicato. Como você avalia a dinâmica
desse órgão de representação e as disputas internas da
categoria?
Silvana Soares de Assis: A APEOESP surgiu em 1945 e era mais
uma caixa de assistência do que um sindicato. Foi fundada como
uma associação e só pôde atuar oficialmente como sindicato a
partir de 1988. Mas a APEOESP, diferentemente de muitos
sindicatos do setor público, já inicia uma atividade sindical
muito forte na década de 70. Na época, era uma moçada do então
novo sindicalismo. Uma moçada que ia fazendo o enfrentamento
com a burocracia que aqui estava instalada. Este mesmo povo da
década de 70, que tomou o sindicato da pelegada antiga, é o
que se mantém até hoje.
Assim, de fato, o sindicato tem uma cara muito burocratizada.
As instâncias da APEOESP foram muito mais democráticas na
década de 80 e mesmo na década de 90. E a categoria a vê com
muita desconfiança. Temos dois problemas para enfrentar e
precisávamos atuar mais colados à base em períodos de mais
normalidade. A categoria, por desconfiar de sua direção
política, tende a resistir à mobilização, mas, mesmo contra
todos esses prognósticos, a situação é de uma barbárie tão
grande que a categoria responde. A projeção é de mais de 132
mil professores em greve, isso significa mais da metade da
categoria parada, ou, tranquilamente, mais de 60% da categoria
paralisada. Temos um refluxo, uns saem da greve, mas outros
entram.
Tivemos um ato belíssimo na Paulista sexta-feira passada,
fazia muito tempo que não víamos tanta gente na rua. Fechamos
a Consolação inteira, era um mar de gente. Portanto, a
categoria respondeu, apesar da desconfiança. A situação
objetiva falou mais alto do que a desconfiança, mas, de fato,
há um índice de rejeição muito grande, sobretudo em relação à
presidente do sindicato. Na verdade, ela é um epifenômeno
burocrático: altamente personalista, altamente centralizadora.
E a categoria fica desconfiada, já que não vê na sua principal
figura de liderança algo que identifique como sua direção.
Inclusive, nas assembleias, é triste ver o tamanho do “fora
Bebel”. Triste pela situação, pois é uma categoria que
precisava se sustentar e acaba se fragilizando devido às
circunstâncias.
Correio da Cidadania: Para finalizar, fale um pouco sobre a
importância desse movimento em um ano que vivemos uma profunda
crise política, institucional, econômica, hídrica, elétrica
etc.? Levando em conta as manifestações dos dias 13 e 15 de
março, uma de governistas e outra de oposicionistas (mais à
direita), onde você enxerga uma categoria como a dos
professores nessa conjuntura?
Silvana Soares de Assis: A nossa maior responsabilidade é
tentar não colar nem com um e nem com o outro: nem com 13 e
nem com 15. Não é uma tarefa fácil porque o sindicato aqui é
governado por petistas dilmistas, que tentaram, na nossa
primeira assembleia, no dia 13, usar a nossa categoria como
massa de manobra do governo federal. Um setor da oposição, de
forma responsável, tirou a categoria do MASP e puxou uma
passeata até a Praça da República. Nessa tentativa, e não foi
de um só setor, a maioria dos setores de oposição dirigiu uma
passeata para a Praça da República.
A nossa responsabilidade nesse momento de polarização é fugir
da própria polarização. E a categoria enxergou tal
necessidade. No primeiro dia, desconfiou, obviamente, mas a
nossa passeata foi fundamental para poder dizer que não
estamos nem do lado de lá e nem do lado de cá; estamos
reivindicando os nossos direitos. Independentemente de quem
está no governo federal ou estadual, estaríamos fazendo o
mesmo enfrentamento.
Eu acho que essa greve se assemelha muito à greve de 2000,
quando derrotamos a reforma do ensino médio. Nós fizemos um
movimento importante em 2000 que ficou meio letárgico nesses
últimos anos, mas ganhou peso. Você vai nas escolas e vê
acontecendo. O cara que está furando a greve tem vergonha de
fazê-lo.
Nesta quinta-feira teremos uma nova assembleia no MASP, às
14h, e tenho certeza que vamos colocar muita gente na rua e o
governo vai ter de negociar e apresentar uma proposta
razoável.
In
Correio da cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10641:manchete010415&catid=34:manchete
1/4/2015
segunda-feira, 6 de abril de 2015
A guerra termonuclear como possibilidade real
– A Rússia deve esperar um ataque dos EUA
por Paul Craig Roberts
Já há muito queria entrevistar Paul Craig Roberts. Durante muitos anos
acompanhei seus escritos e entrevistas e sempre que o lia esperava ter um
dia o privilégio de entrevista-lo acerca da natureza do estado profundo
dos EUA e do Império. Recentemente, enviei-lhe um email e pedi-lhe uma
entrevista e, muito gentilmente, ele concordou. Fico-lhe muito grato por
esta oportunidade.
The Saker
The Saker: Tem-se tornado bastante óbvio para muita gente, se não para a
maioria, que os EUA não são uma democracia ou uma república, mas antes
uma plutocracia dirigida por uma pequena elite à qual alguns chamam "os
1%". Outros falam do "estado profundo". Assim, minha primeira pergunta é a
seguinte: Podia por favor gastar algum tempo para avaliar a influência e
pode de cada uma das seguintes entidades, uma por uma? Em particular, pode
especificar para cada uma se tem uma posição "top" na tomada de decisão,
ou uma posição "média" na implementação da decisão na estrutura real do
poder (lista sem qualquer ordem específica):
Federal Reserve
Grande banca
Bilderberg
Council on Foreign Relations
Skull & Bones
CIA
Goldman Sachs e bancos de topo
“100 famílias do topo” (Rothschild, Rockefeller, Dutch Royal Family,
British Royal Family, etc.)
Israel Lobby
Maçons e suas lojas
Big Business: Big Oil, Complexo militar-industrial, etc.
Outras pessoas ou organizações não listadas acima?
Quem, qual grupo, que entidade consideraria que está realmente no cimo do
poder na actual política dos EUA?
Paul Craig Roberts: Os EUA são dirigidos por grupos de interesses
privados e pela ideologia neoconservadora que sustenta ter sido escolhido
pela História como o país "excepcional e indispensável" com o direito e a
responsabilidade de impor sua vontade ao mundo.
Na minha opinião os grupos de interesses privados mais poderosos são:
O Complexo militar/segurança
Os quatro ou cinco bancos de mega dimensão "demasiado grandes para
falirem" e a Wall Street
O agronegócio
As indústrias extractivas (petróleo, mineração, madeira).
Os interesses destes grupos coincidem com aqueles dos neoconservadores. A
ideologia neoconservadora apoia o imperialismo ou a hegemonia financeira e
político-militar americana.
Não há imprensa ou TV independente americana. Nos últimos anos do regime
Clinton, 90% dos media impressos e da TV estavam concentrados em seis mega
companhias. Durante o regime Bush, a National Public Radio perdeu sua
independência. Assim, os media funcionam como um Ministério da
Propaganda.
Ambos os partidos políticos, republicanos e democratas, estão dependentes
dos mesmos grupos de interesses privados para fundos de campanha, assim
ambos os partidos dançam para os mesmos mestres. A deslocalização de
empregos destruiu os sindicatos manufactureiros e industriais e privou os
democratas das contribuições políticas de sindicatos trabalhistas.
Naqueles dias, os democratas representavam o povo trabalhador e os
republicanos representavam os negócios.
O Federal Reserve está ali para os bancos, principalmente os grandes. O
Federal Reserve foi criado como prestamista de último recurso para
impedir bancos de falirem devido a corridas bancárias ou retirada de
depósitos. O Fed de Nova York, o qual conduz as intervenções financeiras,
tem uma directoria que consiste nos executivos dos grandes bancos. Os
últimos três presidentes do Federal Reserve foram judeus e o actual
vice-presidente é o antigo governador do banco central israelense. Judeus
são proeminentes no sector financeiro, no Goldman Sachs por exemplo. Nos
últimos anos, os secretários do Tesouro dos EUA e dirigentes das agências
regulatórias financeiras foram principalmente os executivos da banca
responsáveis pela fraude e pela alavancagem excessiva de dívida que
lançaram a última crise financeira.
No século XXI, o Federal Reserve e o Tesouro serviram apenas os
interesses dos grandes bancos. Isto tem sido a expensas da economia e da
população. Exemplo: pessoas reformadas não tiveram o rendimento de juros
durante oito anos a fim de que as instituições financeiras pudessem tomar
emprestado a custo zero e ganhar dinheiro.
Não importa quão ricas sejam algumas famílias, elas não podem competir
com poderosos grupos de interesses tais como o complexo militar/segurança
ou a Wall Street e os bancos. A riqueza estabelecida há muito pode cuidar
dos seus interesses e alguns, tais como os Rockfellers, têm fundações
activistas que na maior parte trabalham provavelmente em estreita
colaboração com o National Endowment for Democracy para financiar e
encorajar várias organizações não governamentais (ONGs) pró americanas em
países que os EUA querem influenciar ou subverter, tal como se verificou
na Ucrânia. As ONGs são essencialmente Quintas Colunas dos EUA e operam
sob nomes como "direitos humanos", "democracia", etc. Um professor chinês
contou-me que a Fundação Rockfeller criou uma universidade americana na
China e que ela é utilizada para organizar diversos chineses anti-regime.
No passado, e talvez ainda hoje, havia na Rússia centenas de ONGs com
financiamento estado-unidense e alemão, possivelmente até 1000.
Não sei se os bilderbergs fazem o mesmo. Possivelmente são apenas pessoas
muito ricas e têm seus protegidos em governos que tentam proteger seus
interesses. Nunca vi quaisquer sinais de bilderbergrs ou maçons ou
Rothchilds a afectarem decisões do Congresso ou do ramo executivo.
Por outro lado, o Council for Foreign Relations é influente. O conselho é
composto de antigos responsáveis da política governamental e académicos
envolvidos em política externa e relações internacionais. A publicação do
conselho, Foreign Affairs, é o principal fórum de política externa.
Alguns jornalistas também são membros. Quando fui proposto como membro na
década de 1980, fui vetado.
A Skull & Bones é uma fraternidade secreta da Universidade de Yale.
Algumas universidades têm tais fraternidades. A Universidade de Virgínia,
por exemplo, tem uma e a da Georgia também. Estas fraternidades não têm
tramas governamentais secretas ou poderes de domínio. Sua influência seria
limitada à influência pessoal dos membros, os quais tendem a ser filhos de
famílias da elite. Na minha opinião, estas fraternidades existem para dar
status de elite aos membros. Elas não têm funções operacionais.
The Saker: E quanto a indivíduos? Quem são, na sua opinião, as pessoas
mais poderosas nos EUA de hoje? Quem toma a decisão estratégica final, em
alto nível?
Paul Craig Roberts: Não há realmente pessoas poderosas por si próprias.
Pessoas poderosas são aquelas que têm por trás grupos de interesses
poderosos. Desde que o secretário da Defesa William Perry privatizou
grande parte das funções militares em 1991, o complexo militar/segurança
tem sido extremamente poderoso e o seu poder é ainda mais ampliado pela
sua capacidade para financiar campanhas políticas e pelo facto de que é
uma fonte de emprego em muitos estados. Essencialmente as despesas do
Pentágono são controladas pelos fornecedores da defesa.
The Saker: Sempre acreditei que em termos internacionais, organizações
tais como a NATO, a UE e todas as outras são apenas uma frente e que a
aliança real que controla o planeta são os países ECHELON: EUA, Reino
Unido, Canada, Austrália e Nova Zelândia, também conhecidos como
"AUSCANNZUKUS" (também são mencionados como a "anglo-esfera" ou os "Cinco
olhos"), sendo os EUA e Reino Unido parceiros sénior e os outros três
parceiros júnior. Será correcto este modelo?
Paul Craig Roberts: A NATO foi uma criação estado-unidense, alegadamente
para proteger a Europa de uma invasão soviética. Seu propósito expirou em
1991. Hoje a NATO proporciona cobertura à agressão dos EUA, bem como
forças mercenárias para o Império Americano. A Grã-Bretanha, Canada,
Austrália são simplesmente estados vassalos dos EUA assim como a Alemanha,
França, Itália, Japão e o resto. Não há parceiros, apenas vassalos. É o
império de Washington, nada mais.
The Saker: Diz-se frequentemente que Israel controla os EUA. Chomsky e
outros dizem que são os EUA que controlam Israel. Como caracterizaria o
relacionamento entre Israel e os EUA – é o cão que abana a cauda ou é a
cauda que abana o cão? Diria que o lobby de Israel está no controle total
dos EUA ou ainda há outras forças capazes de dizer "não" ao lobby
israelense e impor a sua própria agenda?
Paul Craig Roberts : Nunca vi qualquer evidência de que os EUA controlam
Israel. Toda a evidência é de que Israel controla os EUA, mas só na sua
política do Médio Oriente. Nos últimos anos Israel, ou o lobby
israelense, foi capa de controlar ou impedir nomeações académicas nos EUA
e a estabilidade no emprego (tenure) para professores considerados
críticos de Israel. Israel tem tido êxito tanto em universidades católicas
como nas estaduais em travar estabilidades e nomeações. Israel pode também
bloquear algumas nomeações presidenciais e tem uma influência vasta sobre
os media impressos e da TV. O lobby israelense também tem abundância de
dinheiro para financiar campanhas políticas e nunca falha em remover
deputados e senadores dos EUA considerados críticos de Israel. O lobby
israelense foi capaz de penetrar no distrito negro do Congresso de Cynthia
McKinney, uma mulher negra, e derrotá-la na sua reeleição. Como disse o
almirante Tom Moorer, Chefe de Operações Navais e Chefe do Estado-Maior
das Forças Armadas: "Nenhum presidente americano pode enfrentar Israel". O
almirante Moore não pôde sequer conseguir uma investigação oficial ao
ataque mortífero de Israel ao USS Liberty em 1967.
Qualquer um que critique políticas israelenses, mesmo num espírito
colaborativo, é etiquetado como "anti-semita". Na política, nos media e
nas universidades americanas, isto é uma sentença de morte. Você pode ser
atingido por um míssil infernal.
The Saker: Qual das 12 entidades de poder que listei acima tem, na sua
opinião, desempenhado um papel chave no planeamento e execução da operação
"falsa bandeira" do 11/Set? Afinal de contas, é difícil imaginar que isto
foi planeado e preparado entre a posse de GW Bush e o 11 de Setembro –
deve ter sido preparado durante os anos da administração Clinton. Não é
verdade que a bomba de Oklahoma City foi um ensaio para o 11/Set?
Paul Craig Roberts: Na minha opinião o 11/Set foi o produto dos
neoconservadores, muitos dos quais são judeus aliados a Israel, Dick
Cheney, e Israel. Seu objectivo foi proporcionar "o novo Pearl Harbor" que
os neoconservadores disseram ser necessário para lançar suas guerras de
conquista no Médio Oriente. Não sei durante quanto tempo antes foi
planeado, mas Silverstein obviamente fez parte disto e ele não teve o
World Trade Center durante muito tempo antes do 11/Set.
Quanto ao bombardeamento do Murrah Federal Building na cidade de
Oklahoma, o general Partin, da Força Aérea, seu perito em munições,
preparou um relatório técnico provando para além de qualquer dúvida que o
edifício explodiu a partir de dentro, para fora, e que o camião com a
bomba foi encobrimento. O Congresso e os media ignoraram este relatório. O
bode expiatório, McVeigh, já estava definido e isso foi a única estória
permitida.
The Saker: Pensa que as pessoas que dirigem os EUA hoje percebem que
estão numa rota de colisão com a Rússia a qual poderia levar à guerra
termonuclear? Em caso afirmativo, por que é que eles assumiriam tamanho
risco? Será que eles realmente acreditam que no último momento os russos
"piscarão" e recuarão, ou acreditam realmente que podem vencer uma guerra
nuclear? Não terão medo de que numa conflagração nuclear com a Rússia
perderão tudo o que têm, incluindo seu poder e mesmo suas vidas?
Paul Craig Roberts: Estou tão perplexo quanto você. Penso que Washington
está perdida no excesso de confiança e na arrogância e está mais ou menos
insana. Também há a crença de que os EUA podem vencer uma guerra nuclear
com a Rússia. Houve um artigo na Foreign Affairs cerca de 2005 ou 2006
na qual se apresentava esta conclusão. A crença na "vencibilidade" da
guerra nuclear tem sido promovida pela fé nas defesas ABM (Anti-Ballistic
Missile). O argumento é que os EUA podem atingir a Rússia tão duramente
num primeiro ataque antecipativo (preemptive) que a Rússia não
retaliaria por medo de um segundo ataque.
The Saker: Como avalia o actual estado de saúde do Império? Durante
muito anos temos visto sinais claros de declínio, mas ainda não há colapso
visível. Acredita que um tal colapso é inevitável e, se não, como poderia
isto ser impedido? Será que veremos o dia em que o US Dólar subitamente se
tornará sem valor ou será que algum outro mecanismo precipitará o colapso
deste Império?
Paul Craig Roberts: A economia dos EUA está esvaziada. Não tem havido
qualquer crescimento do rendimento real mediano das famílias durante
décadas. Alan Greenspan, como presidente do Fed, utilizava uma expansão
do crédito ao consumidor para substituir o crescimento em falta no
rendimento do mesmo, mas a população está agora demasiado endividada para
contrair mais crédito. Assim, não há nada para conduzir a economia.
Tamanha quantidade de empregos na manufactura e em serviços profissionais
transaccionáveis, como engenharia de software, foram removidos para o
exterior que a classe média sofreu uma contracção. Licenciados em
universidades não podem obter empregos que permitam uma existência
independente. De modo que não podem constituir famílias, comprar casas,
electrodomésticos e mobílias para o lar. O governo produz baixas
mensurações de inflação ao não medir a inflação e baixas taxas de
desemprego ao não medir o desemprego. Os mercados financeiros são
manipulados (rigged) e o ouro deitado abaixo apesar do crescimento da
procura através de vendas shorts a descoberto no mercado de futuros. É
um castelo de cartas que tem aguentado mais tempo do que eu pensava
possível. Aparentemente, o castelo de cartas pode suster-se até que o
resto do mundo cesse de manter o US dólar como reservas.
Possivelmente o império impôs demasiada tensão à Europa ao envolvê-la num
conflito com a Rússia. Se a Alemanha, por exemplo, abandonasse a NATO, o
império entraria em colapso, ou se a Rússia pudesse encontrar engenho
(wits) para financiar a Grécia, a Itália e a Espanha em troca de
abandonarem o Euro e a UE, o império sofreria o golpe fatal.
Alternativamente, a Rússia pode dizer à Europa que não tem nenhuma
alternativa excepto alvejar capitais europeias com armas nucleares uma vez
que a Europa se juntou aos EUA na guerra contra a Rússia.
The Saker: A Rússia e a China fizeram algo único na história e foram
para além do modelo tradicional de constituir uma aliança: concordaram
em tornar-se interdependentes – poder-se-ia dizer que concordaram em ter
um relacionamento simbiótico. Acredita que aqueles que são responsáveis
pelo Império tenham compreendido a mudança tectónica que acaba de
acontecer ou estão simplesmente a cair numa negação profunda porque a
realidade os assusta demasiado?
Paul Craig Roberts: Stephen Cohen diz que simplesmente não há discussão
de política externa. Não há debate. Penso que o império pensa que pode
desestabilizar a Rússia e a China e que isto é uma das razões porque
Washington tem revoluções coloridas a actuarem na Arménia, Quirguistão e
Uzbequistão. Como Washington está determinada a impedir a ascensão de
outras potências e está perdida no excesso de confiança e arrogância, ela
provavelmente acredita que terá êxito. Afinal de contas, a História
escolheu Washington.
The Saker: Na sua opinião, será que eleições presidenciais ainda
importam e, em caso afirmativo, o que é a sua melhor esperança para 2016?
Pessoalmente tenho muito medo de Hillary Clinton a quem considero como uma
pessoa excepcionalmente perigosa e absolutamente perversa, mas com a
actual influência neocon entre os republicanos, podemos realmente esperar
que um candidato não neocon obtenha a nomeação do Partido Republicano?
Paul Craig Roberts: O único meio pelo qual uma eleição presidencial
poderia importar seria se o presidente eleito tivesse por trás um
movimento forte. Sem um movimento, o presidente não tem poder independente
e ninguém para nomear quem fará a sua parte. Os presidentes estão cativos.
Reagan tinha algo de um movimento, apenas o suficiente, com o que fomos
capazes de curar a estagflação apesar da oposição da Wall Street e fomos
capazes de acabar com a guerra-fria apesar da oposição da CIA e do
complexo militar/segurança. Reagan era idoso e vinha de um outro tempo.
Ele assumiu que o gabinete do presidente era poderoso e actuou dessa
forma.
The Saker: O que diz acerca das forças armadas? Pode imaginar um Chefe
do Estado-Maior das Forças Armadas a dizer "não, Sr. Presidente, isso é
louco, não faremos isto" ou espera que os generais obedeçam a qualquer
ordem, incluindo uma para começar uma guerra nuclear contra a Rússia? Tem
alguma esperança de que os militares dos EUA pudessem interferir e travar
os "loucos" actualmente no poder na Casa Branca e no Congresso?
Paul Craig Roberts: Os militares dos EUA são criaturas das indústrias de
armamentos. O objectivo completo de se fazer general é qualificar-se para
ser um consultor na indústria da "defesa", ou tornar-se um executivo ou ir
para a direcção de um empreiteiro da "defesa". Os militares servem como
fonte para carreiras de aposentação quando então os generais ganham o
dinheiro grosso. Os militares dos EUA estão totalmente corruptos. Leia o
livro de Andrew Cockburn, Kill Chain .
The Saker: Se os EUA estão realmente e deliberadamente descendo o
caminho rumo à guerra com a Rússia – o que deveria a Rússia fazer? Deveria
recuar e aceitar ser subjugada como uma opção preferível à guerra
termonuclear, ou deveria resistir e portanto aceitar a possibilidade de
uma guerra termonuclear? Acredita que uma deliberada e muito poderosa
demonstração de força por parte da Rússia poderia deter um ataque dos EUA?
Paul Craig Roberts: Tenho muitas vezes desejado saber acerca disto. Não
posso dizer que sei. Penso que Putin é bastante humano para capitular ao
invés de provocar a destruição do mundo, mas Putin tem de responder a
outros dentro da Rússia e duvido que nacionalistas apoiassem a
capitulação.
Na minha opinião, penso que Putin deveria centrar-se na Europa e torná-la
consciente de que a Rússia espera um ataque americano e não terá qualquer
opção excepto exterminar a Europa como resposta. Putin deveria encorajar a
Europa a desligar-se da NATO a fim de impedir a 3ª Guerra Mundial.
Putin também deveria assegurar-se de que a China entende que representa a
mesma ameaça para os EUA, tanto quanto a Rússia, e que ambos os países têm
de se manter unidos. Talvez se a Rússia e a China mantivessem suas forças
num alerta nuclear, não o alerta máximo, mas um alerta elevado que
transmitisse o reconhecimento da ameaça americana e transmitisse esta
ameaça ao mundo, os EUA pudessem ser isolados.
Talvez se a imprensa indiana, japonesa, francesa, alemã, britânica,
chinesa e russa começassem a informar que a Rússia e a China perguntam se
receberão um ataque nuclear antecipativo (pre-emptive) de Washington o
resultado fosse impedir esse ataque.
Tanto quanto posso dizer a partir das minhas muitas entrevistas com os
media russos, não há consciência russa da Doutrina Wolfowitz . Os russos
pensam que há alguma espécie de mal entendido acerca das intenções russas.
Os media russos não entendem que a Rússia é inaceitável porque a Rússia
não é um vassalo dos EUA. Os russos acreditam em toda asneirada ocidental
acerca de "liberdade e democracia" e acreditam que têm pouco disso mas
estão a fazer progressos. Por outras palavras, os russos não têm ideia de
que são visados para a destruição.
The Saker: Quais são, na sua opinião, as raízes do ódio de tantos
membros das elites estado-unidenses para com a Rússia? Será isso apenas um
resto da Guerra-fria ou haverá uma outra razão para a russofobia quase
universal entre as elites dos EUA? Mesmo durante a Guerra-fria, não estava
claro se os EUA eram anti-comunistas ou anti-russos. Haverá algo na
cultura, nação ou civilização russa que dispare essa hostilidade e, em
caso afirmativo, o que é?
Paul Craig Roberts: A hostilidade para com a Rússia remonta à Doutrina
Wolfowitz:
"Nosso primeiro objectivo é impedir a re-emergência de um novo rival,
tanto no território da antiga União Soviética como alhures, que coloque
uma ameaça da ordem daquela colocada anteriormente pela União Soviética.
Isto é uma consideração dominante subjacente à nova estratégia de defesa
regional e requer que nos empenhemos para impedir qualquer potência hostil
de dominar uma região cujos recursos, sob controle consolidado, seriam
suficientes para gerar poder global".
Enquanto os EUA estavam centrados nas suas guerras no Médio Oriente, Putin
restaurou a Rússia e travou a invasão da Síria planeada por Washington e o
bombardeamento do Irão. O "primeiro objectivo" da doutrina neocon foi
rompido. A Rússia tinha de ser posta em linha. Essa é a origem do ataque de
Washington à Rússia. Os media dependentes e cativos dos EUA e da Europa
simplesmente repetem "a ameaça russa" para o público, o qual está
despreocupado e além disso desinformado.
A ofensa da cultura russa também está aqui – éticas cristãs, respeito à lei
e à humanidade, diplomacia ao invés de coerção, costumes sociais
tradicionais – mas isto é o pano de fundo. A Rússia é odiada porque ela (e a
China) é uma restrição ao poder uno e unilateral de Washington. Esta
restrição é o que levará à guerra.
Se os russos e os chineses não esperarem um ataque nuclear antecipativo por
parte de Washington serão destruídos.
24/Março/2015
O original encontra-se em
thesaker.is/the-saker-interviews-paul-craig-roberts/
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
http://www.resistir.info/crise/roberts_entrev_24mar15.html
6/4/2015
domingo, 5 de abril de 2015
E DEPOIS DO ADEUS
E DEPOIS DO ADEUS
por César Príncipe
Cineasta difícil
Mais criativo do que recreativo
Mais entregue à reflexão do que à sensação
Realizador de lab(oratório)
Histórico
Social
Psicológico
Natural
Mítico
Rebelde centenário
Felizmente não se vergou ao nacional-basismo
Todos os meus filmes foram mal acolhidos
O primeiro foi tão vaiado e pateado
Que Luigi Pirandello
Perguntou-me
Se em Portugal era hábito aplaudir com os pés
(Sábado /Set. 2006)
E foram dezenas as obras aplaudidas com os pés
Fora de moda
Fora de circuito
O velório confirmou a clivagem
Português de Vanguarda
Portugal de Retaguarda
Compareceram alguns entendedores da Arte Manoelina
Apareceram os do costume
Ignaras figuras de Estado
Anónimos pasmados
Carpideiras mediáticas
Manoel
Recusa o Panteão
Ressuscita
Não os deixes viver em paz
Este memorial encontra-se em http:/Resistir.info
http://www.resistir.info/c_principe/e_depois_do_adeus.html
4/4/2015
sexta-feira, 3 de abril de 2015
China, ¿imperio del centro o imperio de los extremos?
Por Laure Deprez y Frank Vandamme
Dos jóvenes marxistas visitaron China durante tres semanas. Durante el viaje, se
recorrieron 9000 kilómetros en tren, atravesando ciudades y campo. De la capital
Beijing hasta Boketu, la ciudad más al norte justo debajo de la frontera rusa.
Desde Boketu a Jiayuguan, en el oeste, allá donde la Muralla desaparece en las
montañas. Se han encontrado con decenas de personas y han hablado con ellas de
la economía china, la política, el progreso social, la enseñanza, la cultura y
la religión. El texto siguiente es un resumen de lo que han podido vivir y
constatar durante su estancia en China. De las experiencias y constataciones que
han confrontado con sus propias ideas preconcebidas.
Observaciones en el terreno económico
China, ¿país en vías de desarrollo que se desarrolla más rápido que los demás?
Eso está muy por debajo de la realidad. China está hoy mucho más desarrollada de
lo que creíamos. Nuestro objetivo era hacer un viaje equilibrado entre la ciudad
y el campo. Pero cada vez que pensábamos llegar a un pueblo pequeño, estábamos
sorprendidos por el tamaño y la modernidad de la ciudad donde llegábamos:
rascacielos a pérdida de vista, ciudades que se extienden a ojos vista, centros
de ciudad enteramente nuevos o renovados, plazas grandiosas, presencia masiva de
grandes firmas bancarias en el paisaje urbano (ICBC, China Construction Bank,
Bank of China, Bank of Beijing, Postal Saving Bank, Cooperative Bank,
Agricultural Development Bank, Communications Bank, China Merchants Bank, etc).
Una cantidad enorme de edificios en construcción, ¡nunca habíamos visto algo
parecido!
Los hoteles y carteles publicitarios de lujo hacen ver que una cierta capa de la
población tiene un muy elevado poder adquisitivo. Los Maserati, los Jaguar y los
Porsche Cayenne que uno ve regularmente lo confirman. Pero no es tanto la capa
de super-ricos lo que llama la atención. Al igual que en Occidente, no es más
que una parte de la población que uno se encuentra en una acera o en un
restaurante del rincón.
No, lo que más nos llamó la atención del desarrollo chino, es el ostensible
poder adquisitivo de una parte importante de la población. Esto salta a los ojos
desde el primer viaje en metro: los smartphones tipo IPhone y Samsung son
omnipresentes. Una rápida ojeada a las tiendas nos indica que tienen el mismo
precio que en Bélgica. Lo mismo ocurre con los electrodomésticos y los parques
automovilísticos. Las calles están inundadas de coches con marcas europeas,
japonesas y americanas. Los precios de las marcas occidentales son idénticos a
los que hay en Bélgica. Incluso en las tiendas de ropa, hemos estado
sorprendidos. Aunque existan tiendas de ropa barata, en las calles comerciales
se encuentran sobre todo tiendas que tienen los mismos precios que en Bélgica.
Aunque haya descuentos para los estudiantes, estos precios indican la presencia
de una clase media pujante.
El desarrollo
El desarrollo no parece estar por tanto reservado para los “cuellos blancos”,
para quienes la liberalización de la economía ha ido de la mano con un
enriquecimiento fulgurante. La impresionante red de transporte ilustra las
inversiones masivas que se han hecho en beneficio de una amplia parte de la
población. El metro de Beijing ya nos ilustra mucho en este sentido. Los trenes
y las estaciones están recién construidas. La información es irreprochable:
nombres transcritos al alfabeto « normal », señales luminosas en el interior de
los trenes indicando donde nos encontramos en la línea, trasbordos entre líneas
impecables. La seguridad es elevada (cortinas de vidrio permanentes a lo largo
de los andenes en numerosas estaciones). Precio del viaje: 2 RMB, es decir el
equivalente de 25 céntimos.
Pasemos a la red ferroviaria. Hemos recorrido 9000 kilómetros, integralmente en
tren. El transporte ferroviario es gestionado por una empresa pública, China
Rail, que emplea a 2,13 millones de trabajadores, por lo tanto es una de las
mayores empresas del mundo. El número de pasajeros occidentales que nos
encontramos a bordo de estos 9000 kilómetros recorridos fue… cero. Son más bien
chinos los pasajeros los que utilizan este servicio, entre los cuales hay
numerosos turistas. Al haber precios baratos, los asientos se venden como
panecillos. Hay cuatro categorías de billetes, según se compre un asiento o una
litera, una primera clase o una segunda clase. La puntualidad es notable. A lo
largo de los 9000 kilómetros, hemos tenido una vez 7 minutos de retraso a la
llegada y otra vez 60 minutos a la ida. Aquel retraso estuvo bien anunciado y no
sufrió variaciones. Además de los aseos, los vagones están todos equipados con
lavabos y agua ardiente (el ingrediente esencial para beber té y comer
tallarines). La comida y las bebidas vendidas a bordo están casi al mismo precio
que en las tiendas. A bordo de cada vagón, un miembro del personal está allí
para responder a las preguntas y hacer la limpieza durante el viaje. En los
vagones-cama, el personal también se ocupa de despertar a los pasajeros una hora
antes de su llegada. Sin falta.
La ciudad más pequeña a la que hemos ido en tren tenía alrededor de 5000
habitantes. Eso nos da una idea de la extensión de la red, que se extiende cada
día. Desde la crisis occidental, las inversiones para sostener la actividad
económica se han incrementado: 9500 kilómetros de vías férreas han sido
construidos. Y esto no sólo es válido para el ferrocarril. 25 redes de metro, 30
aeropuertos, más de 40.000 kilómetros de carreteras, los tres mayores puertos
del mundo: todo ello ha sido construido en… cinco años. En Bélgica, aún estamos
esperando a que llegue el cercanías…
Estas inversiones son impresionantes, particularmente en lo que respecta a la
vivienda. Hemos visto muchísimos nuevos edificios y un gran número de edificios
en construcción, y también muchos nuevos edificios abandonados. En una pequeña
ciudad nueva de 300.000 habitantes potenciales (ya han llegado 70.000), los
precios eran hace 5 o 10 años de entre 6000 y 12.000 RMB. Hoy oscilan en torno a
3000 RMB. ¿Existe una burbuja inmobiliaria? No está tan claro. En este tipo de
sector, el papel del mercado está más limitado que en Bélgica. El riesgo de un
crack financiero está menos claro que en Occidente debido a que los consumidores
chinos compran mucho menos a crédito, en comparación con los Estados Unidos por
ejemplo.
Las reacciones eran positivas cuando decíamos que estábamos impresionados por el
desarrollo económico. La gente que nos hemos encontrado estaba orgullosa de las
nuevas construcciones, muchas veces a medio terminar.
El desarrollo es palpable en algunas regiones rurales que hemos visitado (en el
noreste y en Mongolia interior). Las casas están todas hechas de piedra, las
numerosas carreteras están en buen estado, se encuentran cámaras de control de
velocidad en pleno campo, hay electricidad y agua corriente en todos los lugares
donde hemos estado, se ven numerosos coches de gama media, smartphones e
internet.
Con toda certeza, ya no se puede decir que a China le falte capital nacional ni
que tenga aún un retraso tecnológico. Tampoco le faltan materias primas. En
definitiva, ya no tiene sentido hablar de China como un país en vías de
desarrollo. Pero el desarrollo se hace casi esencialmente sobre una base
capitalista, mediante el mercado, y en el marco de un plan indicativo. Las
consecuencias negativas, como el caos y la superproducción, ya son visibles.
Observaciones en el plano social
De toda la información bruta, recogida en discusiones con numerosas personas con
las que nos hemos encontrado, se extrae una imagen a la vez concreta y muy
específica del paisaje social. Sabiendo que sólo se trata de la realidad propia
de las personas que hemos conocido, esta imagen no pretende ser representativa
ni exhaustiva.
Las diferencias entre los salarios son enormes. No existe un salario mínimo para
los trabajadores. Pero está prevista su introducción. Un trabajador manual de 45
años que tiene cierta formación, pero que no ha podido encontrar un “empleo
decente” gana 2000 RMB al mes (es decir alrededor de 250 euros). Un profesor de
lengua inglesa de 35 años gana 3200 RMB al mes. El salario de los profesores
varía y puede alcanzar rápidamente los 4000 RMB al mes (500 euros). La
diferencia se explica por la antigüedad, el nivel de formación y la ley de la
oferta y demanda para el sector en cuestión. Un conductor de tren de 37 años
gana 5000 RMB al mes (600 euros). Un ingeniero de la construcción de 32 años
gana 7000 RMB al mes (875 euros). Un empleado administrativo de 51 años de la
Universidad de Beijing gana 12.500 RMB al mes (1560 euros). Al principio de su
carrera en esta misma universidad, este empleado ganaba 50 RMB al mes.
La enseñanza primaria y la enseñanza secundaria son gratuitas. La enseñanza
superior es muy abordable, y también meritocrática: los estudiantes que obtienen
los mejores resultados tienen acceso a las mejores universidades. Hace falta
aprobar al mínimo el 60% para poder cursar estudios en la enseñanza superior.
Hace falta una mayor investigación para poder hacerse una idea de los (escasos)
derechos a la seguridad social. Al estar éstos de momento ligados al lugar de
nacimiento, está claro, por el contrario, que los migrantes internos tienen muy
pocos derechos. Esto sirve en parte para desanimar a la migración espontánea
hacia las mayores ciudades, dónde la población crece demasiado deprisa. No deja
por ello de ser un problema enorme para los millones de chinos que migran pese a
todo, y está previsto que sea objeto de una reforma en un futuro próximo.
Socialmente, ¿cómo se nos presentan las diferentes clases y capas de la
población china? Hay en China un grupo de super-ricos y una clase media
creciente y claramente visible. Este grupo está compuesto sobre todo de personas
empleadas en el sector administrativo (Estado, universidades, bancos…),
profesores, ingenieros empleados en el sector industrial y la construcción.
También existe un grupo numeroso compuesto de trabajadores con cierto poder
adquisitivo: trabajadores de los ferrocarriles, conductores de taxi, obreros de
fábricas, mineros, obreros de la construcción, empleados de cadenas de comida
rápida chinas u occidentales, empleados de tiendas de ropa, panaderos,
carniceros, algunos agricultores en el medio rural, algunos pequeños
emprendedores en el medio urbano que gestionan un restaurante o un bar familiar.
Este grupo también tiene acceso a las líneas de trenes públicas, algunos tienen
su propio vehículo, un smartphone, ropa decente, una conexión a internet en
casa.
Finalmente, existe un grupo de pobres (que representa el 13% de la población
según la OCDE): en el medio rural algunos agricultores, en el medio urbano
algunos obreros de la construcción (duermen en barracones al lado de los
terrenos de construcción), vendedores ambulantes (duermen en furgonetas en los
parkings), mendigos (muy poco visibles, porque la mendicidad está prohibida).
En el plano social, la intensificación de las diferencias de clase es
manifiesta, no solamente entre los propietarios de los medios de producción (los
super-ricos) y los no propietarios, sino también entre una clase media creciente
y los trabajadores humildes.
Observaciones en el plano político
Google, Facebook, Twitter, Youtube, Dailymotion están bloqueados, pero Yahoo es
accesible y las páginas web de la prensa como La Libre Belgique, L’Écho o la BBC
funcionan. Le Soir, en cambio, era inaccesible. La censura a menudo mencionada
en los medios occidentales parece estar sobre todo ligada a la voluntad de China
de poseer sus propias redes sociales y páginas de información (Baidu.com, QQ,
WeChat…). Las personas que hemos conocido apoyan este objetivo.
La televisión por cable no permite el acceso a las cadenas extranjeras en los
hoteles donde hemos estado. Era chocante en cambio constatar cómo la cadena
pública anglófona CCTV News (una de las 45 cadenas de la China Central
Television, pública) no daba una versión de los acontecimientos en Ucrania y en
Gaza diferente a la que vemos en nuestras propias cadenas.
Los jóvenes con los que hemos discutido dicen no haber leído jamás en el colegio
textos de Mao, ni de Marx, Engels o Lenin. El sistema escolar parece ser muy
exigente, pero no está centrado en una formación marxista de la juventud.
Igualmente, la propaganda socialista o comunista en los espacios públicos era
muy rara, véase inexistente. No hay casi símbolos comunistas.
Sólo hemos visto en algunas ocasiones la hoz y el martillo, símbolo de la
revolución socialista: en dos banderolas y en algunos mostradores en las
estaciones de tren y en el aeropuerto de Beijing.
Aparte de en los billetes de banco, sólo hemos visto el retrato de Mao Zedong en
los lugares siguientes: en el mauseoleo de Mao en la plaza de Tian An Men, una
pequeña estatua en Harbin y en un albergue para jóvenes en Jiayuguan, una
pequeña ciudad en el oeste de China.
Un día nos hemos encontrado dos carteles del gobierno, uno subrayando la
importancia de la igualdad entre todos los ciudadanos (mensaje del presidente Xi
Jinping) y uno sobre la lucha contra la corrupción (mensaje del primer ministro
Li Keqiang). Estos mensajes están ahogados en la inmensidad de mensajes
publicitarios occidentales y chinos anunciados en papel y sobre pantallas
gigantes en las calles y difundidos en los canales de televisión de manera tan
excesiva como en Bélgica.
En Beijing, se encuentran grandes anuncios con el slogan “Beijing Spirit:
Patriotism, Innovation, Inclusiveness & Virtue”.
Lejos de las ideas preconcebidas, los medios y los espacios publicitarios no son
utilizados para apoyar los principios de justicia social, los principios
marxistas sobre los cuales se construyó la República Popular. Por el contrario,
las ideas occidentales están ampliamente difundidas: los jóvenes reconocen todos
su voluntad de formarse lo antes posible, en China o en el extranjero, para
obtener después los salario más elevados posibles. Competencia e individualismo
están en boca de todo el mundo.
Observaciones en el plano de la participación y la democracia
A nivel global, predomina la indiferencia, cosa que es comparable a Bélgica. Un
estudiante de 25 años y un empleado ministerial nos dijeron que jamás habían
ejercido su derecho al voto “porque de todas formas esto no cambiaría nada”.
Visiblemente, no es imposible criticar el funcionamiento del sistema político.
La mayoría de las discusiones han tenido lugares en trenes, en medio de mucha
gente. Nuestros interlocutores se han expresado libremente sin mirar quién
escuchaba. Por ejemplo, una estudiante nos contó en el tren que se convirtió en
miembro del Partido Comunista porque se lo propusieron, pero que no sabía por
qué había dicho que sí, porque no lo apoya.
En nuestros interlocutores, jamás vimos sentimientos de miedo, ni hablando de
política ni de economía. Hablaron de sus salarios, sus proyectos de futuro, de
ciertas opiniones políticas, del acceso a internet, sin muchas reservas. A veces
hace falta romper un poco el hielo para tener discusiones de fondo, pero no de
manera anormal. Esto también es válido para los estudiantes, que son el sector
que en primer lugar “deberían” normalmente ser críticos.
Observaciones en el plano cultural
Hemos visto a menudo actividades diversas en plazas públicas, que parecen
coexistir en armonía: una serie de personas haciendo tai-chi, otras bailando,
niños en go-cars eléctricos, decenas de terrazas con barbacoa… Muchos bares y
restaurantes son baratos. Hay poca incitación al consumo: no es anormal ver a
gente trayendo sus propias botellas de alcohol al restaurante, por ejemplo.
Durante nuestro paso por Mongolia interior, la cuestión de los derechos y la
protección de las minorías fue planteada por un estudiante alemán a nuestro
guía, muy apegado a la defensa de la cultura mongol e inquieto por la
desaparición de ésta frente a la modernización del país.Frente a un grupo de
europeos, el guía perfectamente podría haber confirmado la opinión del alemán de
que los mongoles estaban siendo discriminados. Pero al contrario, sostuvo que no
había discriminación por parte del Estado hacia los mongoles. Según él, el
problema está sobre todo en el seno del pueblo: prejuicios, un cierto racismo
hacia las minorías.
Una estudiante de Gansu, una provincia del oeste, nos confirmó esta tesis. Las
minorías reciben puntos de bonificación cuando participan a los exámenes del
Estado. La política de limitación de los nacimientos, que conceden ventajas en
materia de vivienda a las familias con un sólo hijo, no se aplican para las
minorías.
Conclusiones
The West is the Best? La Unión Europea muestra ambición y optimismo. Pero la
única cosa duradera hoy en Europa es la crisis que impide el crecimiento desde
2008 e incluso desde antes. El sistema político que conocemos sigue dándonos una
visión eurocentrista que carece de apertura hacia el resto del mundo. No hay que
extrañarse, por lo tanto, de que la gente quede sorprendida por el desarrollo
chino cuando viaja a China por primera vez.
Viajar a China nos pone en nuestro lugar. Porque China, primera economía
mundial, ya no es un país en vías de desarrollo. Vista desde allí, Europa bien
merece el apelativo de Viejo Continente. Pero este desarrollo se deja cada vez
más en manos del mercado, pese a una intervención del Estado más fuerte que en
Europa. Economía de mercado dirigida por un partido comunista: ¿por cuánto
tiempo?
En el plano político, las críticas hacia el gobierno, al menos de parte de las
personas que hemos conocido, se dirigen contra la falta de participación activa
en la política. Escasean en cambio las críticas hacia el sistema de partido
único. Las preocupaciones de los jóvenes se centran en el éxito, el nivel de los
salarios que obtendrán. Esto no está siendo, o está siendo muy poco compensado
por las promoción de los principios socialistas. El cimiento de la unidad
nacional parece más bien la construcción de una China fuerte. ¿Se convertirá
este nacionalismo, que ha federado a numerosas naciones del tercer mundo en su
liberación del yugo del imperialismo, en una herramienta de la burguesía china
para retomar el poder?
Etudes Marxistes
In
La República.es
http://www.larepublica.es/2015/04/china-imperio-del-centro-o-imperio-de-los-extremos/
2/4/2015
quarta-feira, 1 de abril de 2015
O conceito de imperialismo
por Prabhat Patnaik [*]
Há uma visão, mesmo em círculos de esquerda nos países capitalistas
avançados, de que o imperialismo como categoria conceptual perdeu sua
relevância na era da globalização. Por um lado, as grandes burguesias em
países do terceiro mundo como a Índia, estão tão profundamente integradas
no projecto da "globalização" que suas contradições com o capital
metropolitano estão muito mais atenuadas hoje do que anteriormente. No
período imediatamente após a descolonização, por exemplo, burguesias do
terceiro mundo isolaram o mercado nacional através de barreiras
proteccionistas contra mercadorias metropolitanas e protegeram suas
economias dos fluxos financeiros internacionais. Mas hoje elas prosseguem
com satisfação políticas neoliberais. Por outro lado, os trabalhadores nos
países capitalistas avançados são agora empurrados para a mesma triste
situação dos trabalhadores nos países do terceiro mundo, onde aumentos na
produtividade do trabalho não são correspondidos por quaisquer aumentos em
salários reais, o que não era o caso anteriormente. Joseph Stiglitz por
exemplo estima que hoje a taxa de salário real do trabalhador americano
médio (homem) não é mais alta do que era em 1968 e possivelmente é um
pouco mais baixa.
Em consequência, a divisão do mundo em dois segmentos geográficos
diferentes, um dos quais domina o outro, frustrando mesmo as ambições da
burguesia deste último, e cuja população trabalhadora também experimenta
melhoria de padrões de vida em contraste com a do outro, não mais se
sustém. Uma vez que, de acordo com esta visão, uma tal divisão é
característica do fenómeno do imperialismo, o seu desaparecimento torna o
próprio conceito obsoleto.
Há naturalmente muita diversidade teórica entre aqueles que questionam o
pleno significado do conceito de imperialismo. Enquanto alguns confinariam
o termo imperialismo apenas à fase da pré descolonização, quando esta
divisão do mundo em dois segmentos diferentes e desiguais, com um a
dominar o outro, era palpável, outros aceitariam sua relevância mesmo na
fase da pós descolonização, isto é, mesmo na fase do dirigismo do terceiro
mundo. Na verdade, o controle político chegara a um fim com a
descolonização, mas eles reconheceriam nas tentativas da principal
potência capitalista da época, os Estados Unidos, de "reverter" o
dirigismo do terceiro mundo (adoptando o termo utilizado por John Foster
Dulles num contexto diferente mas semelhante) e recusar tentativas do
terceiro mundo de ganhar controle sobre seus mercados e recursos naturais,
um claro projecto imperialista.
Toda a série de tentativas de derrubar governos progressistas do terceiro
mundo que chegaram ao poder no período da descolonização, desde Cheddi
Jagan da Guiana a Mossadegh do Irão, de Arbens na Guatemala e Sukarno da
Indonésia e a Allende do Chile, sem mencionar as horrendas guerras
impostas a países como a Coreia e o Vietname que estavam a iniciar-se num
trajectória socialista de desenvolvimento, testemunharia para eles a
realidade do imperialismo.
Mas agora, argumentariam, o mundo tornou-se totalmente diferente. Não há
dúvida de que ainda há guerras horrendas, as quais foram impostas no
período mais recente a um certo número de países pela principal potência
capitalista, os Estados Unidos, dentre as quais as guerras no Afeganistão
e no Iraque são exemplos óbvios; mas estas diferem das guerras anteriores
uma vez que foram travadas contra forças fundamentalistas ou contra
regimes ditatoriais, em grande media por razões políticas que supostamente
não estão directamente relacionadas com cálculos económicos; e tais guerra
muitas vezes obtiveram algum apoio local do povo pertencente aos próprios
teatros da guerra.
E como regimes económicos em grande parte do terceiro mundo que estão a
seguir políticas neoliberais estão a assim fazer não como "fantoches do
imperialismo", e sim habitualmente sob a égide de governos eleitos pelo
voto popular, e conseguiram mesmo em muitos casos taxas de crescimento
substanciais, ultrapassando mesmo as dos próprios países capitalistas
principais, ligar tais regimes e suas políticas a "imperialismo" é
claramente injustificável. A época actual, por outras palavras, em
contraste não só com a do período colonial mas mesmo com a do período
dirigista pós colonial, não pode ser considerada como estando a cair
dentro da era do imperialismo.
PERCEPÇÃO ERRADA
O problema básico com toda esta argumentação, contudo, é que a sua
percepção de imperialismo está errada. O termo "imperialismo" não está
ligado nem ao comportamento da burguesia do terceiro mundo nem à condição
da classe trabalhadora nas metrópoles. De facto, na década de 1920 havia
uma visão avançada por muitos teóricos importantes da Internacional
Comunista de que o imperialismo começava a "acomodar" a burguesia do
terceiro mundo. Esta visão foi chamada a tese da "descolonização", a qual
naturalmente não significava o fim do colonialismo ou do imperialismo, mas
apenas uma mudança na posição da burguesia terceiro-mundista em relação ao
imperialismo. O ponto a destacar aqui não é se a tese da "descolonização"
era ou não válida; o ponto é simplesmente que uma mudança na posição da
burguesia não implica, e nunca se pensou que implicasse, num fim do
imperialismo.
Além disso, a ideia de que o imperialismo está associado a fortunas
divergentes das classes trabalhadoras nas metrópoles e na periferia não
constitui uma característica definidora do imperialismo. Esta percepção é
mantida pelos teóricos da "troca desigual", mas não por Lenine que via
apenas um fino estrato de "aristocracia do trabalho" a beneficiar-se do
imperialismo mas não a classe trabalhadora da metrópole como um todo.
Portanto, num sentido essencial, o conceito de imperialismo nunca foi
associado nem com quaisquer divergências nas fortunas da classe
trabalhadora nem com qualquer "exclusão" das burguesias do terceiro mundo.
O argumento de que a estagnação dos salários reais no primeiro mundo ou a
integração da burguesia do terceiro mundo no corpo do capital financeiro
internacional nega o conceito de imperialismo, é portanto destituído de
base.
Dito de modo diferente, imperialismo implica a opressão, a opressão
necessária, dos povos do terceiro mundo, das massas trabalhadoras, através
da operação do capitalismo metropolitano. Como as burguesias do terceiro
mundo se saem no processo, e como as fortunas dos trabalhadores do
primeiro mundo se alteram sob o imperialismo, não são pertinentes para a
definição de imperialismo.
Esta opressão dos trabalhadores do terceiro mundo pelo capital
metropolitano não é alguma conspiração clandestina; é uma parte do
próprio modus operandi do capitalismo. É errado portanto identificar
imperialismo só com casos em que são engendrados golpes militares, ou em
que é executadas intervenção militar por países capitalistas avançados ou
pelo seu líder, os EUA. O imperialismo, muito embora possa, em certas
ocasiões, dar origem a tais intervenções, ou à "diplomacia da canhoneira",
não é idêntico à "diplomacia da canhoneira". Assim, o facto de nenhuns
coup d'etats à ordem de algumas corporações multinacionais como a Union
Minière (que era activa no Congo) ou a United Fruit Company (que era
activa na Guatemal) ou a ITT (que era activa no Chile) possam ser citados
em tempos mais recentes a acompanhar as acções destrutivas de tais
corporações nos anos 50 e 60, não é um argumento contra o conceito de
imperialismo. Imperialismo não é alguma ânsia por encenar golpes; é o
próprio modo de existência do capitalismo.
CONTEXTO CONTEMPORÂNEO
No contexto contemporâneo ele abrange todo o conjunto de disposições que
asseguram a operação desembaraçada e incontestada do capital financeiro
internacional. Tal operação, é óbvio, inclui entre outras coisas a
apropriação dos recursos de todo o mundo pelo capital financeiro
internacional, mas também significa muito mais do que isto. Mesmo se o
capital internacional controlasse todos os minerais e os outros recursos
naturais do mundo, se houvesse um aumento substancial do poder de compra
do povo trabalhador, especialmente no terceiro mundo, então suas procuras
sobre estes recursos aumentariam, resultando numa ascensão nos preços de
tais recursos. Uma tal ascensão de preços, entretanto, poria em risco o
sistema financeiro do mundo capitalista.
Portanto não basta que recursos estejam nas mãos do capital
internacional; além disso deve verificar-se que os povos trabalhadores
dos países do terceiro mundo sejam impedidos de fazerem quaisquer
reivindicações sobre eles. Isto é assegurado pelo neoliberalismo através
da precipitação de desemprego e de cortes de salários reais entre os
trabalhadores do terceiro mundo, o que força cortes no rendimento real dos
camponeses e micro produtores do terceiro mundo. Dessa forma impõe-se o
conservadorismo orçamental e a "austeridade" a nações-Estado de modo a que
elas não estejam em posição de fazer "transferência de pagamentos" a favor
da população trabalhadora, mas ao contrário devem provocar um aumento nos
preços de um conjunto de serviços essenciais incluindo saúde e educação.
Intrínseco portanto ao neoliberalismo, o qual é uma característica chave
do imperialismo contemporâneo, está um empobrecimento do povo trabalhador
do terceiro mundo. É irónico ouvir em debates públicos na Índia a
afirmação de que a busca do neoliberalismo, ao provocar uma aceleração na
taxa de crescimento da economia, ajudará no alívio da pobreza: o
neoliberalismo é suas políticas associadas são um instrumento nas mãos do
capital financeiro internacional para manter baixos os rendimentos e o
poder de compra do povo trabalhador. A "austeridade", como observou Noam
Chomsky, é uma guerra de classe sem peias. Esperar que o neoliberalismo
melhore as condições do povo trabalhador quando o seu objectivo é fazer
exactamente o oposto é extraordinariamente ingénuo.
A ira do imperialismo contra os regimes dirigistas pós descolonização é
explicável não apenas pelo facto de que eles estavam a tentar assegurar
controle "nacional" sobre seus minérios e outros recursos, mas também
porque, dadas as suas origens na luta anti-colonial e os compromissos
assumidos para com o povo durante aquela luta, eles estavam, não importa
em quão pequena medida, procurando efectuar alguma melhoria nas condições
de vida do povo. E a arma básica do imperialismo contra tais regimes,
além da intervenção militar sem rodeios, foi o desencadeamento de
fundamentalismos religiosos, conflitos étnicos e outros meios igualmente
reprováveis para dividir o povo. Mesmo enquanto encenava um golpe militar
contra Mossadegh no Irão, ele utilizou a ajuda do Ayatollah Kashani; mais
recentemente no Iraque utilizou o fundamentalismo xiíta para estimular o
apoio ao derrube de Saddam Hussein. No Afeganistão ele utilizou uma
coligação fundamentalista islâmica contra o governo PDPA e a União
Soviética.
E quando algumas destas forças fundamentalistas, como o monstro de
Frankenstein, começa a criar problemas para o próprio imperialismo, sua
resposta invariavelmente é procurar novas forças fundamentalistas. O IS,
acerca do qual muito se fala nestes dias, foi ele próprio encorajado pela
secretária de Estado estado-unidense Condoleezza Rice como meio de se
contrapor ao fundamentalismo xiíta, o qual fora igualmente encorajado pela
mesma administração americana.
O imperialismo, em suma, fareja todas as linhas de fractura de uma
sociedade do terceiro mundo e deliberadamente divide o povo de acordo com
aquelas linhas. Esta é uma táctica a qual o imperialismo britânico
recorreu amplamente durante o seu auge, incluindo na Malásia (como
aconteceu) derrotar o levantamento revolucionário do pós-guerra através da
promoção e exploração de contradições étnicas entre os malaios e os
chineses. E o imperialismo americano está a utilizar a mesma táctica
agora.
Em consequência, o imperialismo contemporâneo causa ao terceiro mundo não
só uma pauperização (immiserisation) da população trabalhadora como
também um processo de desintegração social.
29/Março/2015
[*] Economista, indiano, ver Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2015/0329_pd/concept-imperialism
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
In
Resistir.info
http://www.resistir.info/patnaik/imperialismo_29mar15.html
31/3/2015
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