segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

*UM ANO DE ATAQUES CONTRA AS UNIVERSIDADES PÚBLICAS BRASILEIRAS*




 6 de dezembro de 2017 - 20h04

Há quase um ano, no dia 9 de dezembro de 2016, a polícia federal irrompeu na UFRGS, em vista de uma suspeita de fraude em um programa de extensão. A polícia federal batizou todo o movimento de “Operação PhD”.

Pouco tempo depois, em 13 de fevereiro de 2017, algo similar aconteceu na nossa universidade: numa operação (batizada de “Research”), foram envolvidos mais de 180 agentes federais, cumprindo vários mandados de prisão e oito conduções coercitivas.

Mas o pior estava por vir: no dia 14 de setembro de 2017, numa operação batizada de “Ouvidos moucos” (em alusão direta à suposta falta de respostas da Universidade aos órgãos de controle), a polícia chega na UFSC para cumprir sete mandados de prisão temporária e cinco de condução coercitiva. Mais de 115 policiais foram envolvidos na operação – que vieram inclusive de outros estados. Nesse caso, porém, houve um fato grave adicional: o próprio Reitor da UFSC – Luiz Cancellier de Olivo – foi preso “por obstruir investigações”. Os supostos desvios (ainda em fase de investigação e apuração) teriam ocorrido na gestão anterior a dele. Levado a um presídio, algemado, submetido à revista íntima e solto logo depois, mas impedido por ordem judicial de colocar os pés na universidade que o elegeu, Cancellier cometeu suicídio no dia 02 de outubro de 2017.

Para quem imaginava que esta tragédia serviria para que a escalada contra as universidades fosse objeto de reflexão e cuidado, hoje, dia 6 de dezembro de 2017, vem outro grande choque: o alvo foi a UFMG. Outra operação policial, com 84 policiais federais, 15 auditores da CGU e dois do TCU cumpriu oito mandados de condução coercitiva e onze de busca e apreensão. A operação – não sem certo mal gosto irônico – foi intitulada “Esperança equilibrista” (numa referência direta a uma canção símbolo da época da redemocratização brasileira, “O bêbado e o equilibrista”). Foram conduzidos coercitivamente os atuais reitor e vice-reitora da UFMG (Jaime Ramirez e Sandra Almeida), além de servidores e dirigentes das gestões anteriores.

Como se viu, em pouco menos de um ano, 4 das maiores universidades federais do Brasil (UFMG, UFRGS, UFSC e UFPR), sofreram impactantes operações policiais, com quantidade de agentes (geralmente também acompanhados de auditores de órgão de controle) suficientes para um conflito armado. Todas com imensa e desmedida repercussão midiática. Em alguns desses casos, com prisão ou condução coercitiva das autoridades máximas – no planos administrativo e simbólico – das instituições universitárias. Nunca se viu um cenário desses antes.

As universidades, seus professores, servidores técnicos e pesquisadores teriam se pervertido tanto assim em um ano? Teriam se transformado de repente em ninhos de bandidos? E se perceba: se está falando de instituições tradicionais – a nossa UFPR é centenária – que durante décadas foram vistas como celeiros do conhecimento brasileiro e da formação de gerações. As universidades não são perfeitas, como nenhuma instituição pública ou privada o é, mas seguramente não são esse antro de corrupção, descontrole e ineficiência que as ações policiais sugerem e que a mídia propaga.

Se é assim, é melhor olhar com certa frieza para o que há de comum nesse triste contexto. Primeiro, operações policiais e órgãos de controle têm elegido as universidades públicas como principais focos de sua atenção. Não são os ministérios, autarquias ou os demais órgãos federais – seguramente nenhum deles berços infalíveis de virtudes infinitas; agora os olhos do controle e da repressão se voltam para as universidades públicas.

Segundo: de repente – mais do que em qualquer outro tempo – a imprensa se concentra no que acontece nas Universidades. Mas não para falar sobre os milagres cotidianos que operamos (na formação das pessoas, na ciência, na tecnologia, na inovação ou na inclusão social), mas naquilo que, aos seus olhos, lhe parece suspeito, mesmo que ainda não haja investigação ou decisão definitiva sobre o que se noticia.

Terceiro: todas essas confusões – todas – são feitas sem que haja um juízo condenatório definitivo: o escarcéu repressivo e midiático acontece antes e a apuração de responsabilidades vem depois.

Quarto: parece que houve uma suspensão de alguns direitos no Brasil, como a presunção de inocência, o devido processo legal e a dignidade da pessoa humana. O clima policialesco e a mentalidade inquisitória parecem ter definitivamente suplantado uma cultura de direitos que valorizava a liberdade. Em nome de um certo moralismo administrativo e de uma sanha punitivista, garantias e direitos individuais são colocados como detalhes incômodos e inconvenientes.

Quinto: o princípio da autonomia universitária (prevista no art. 207 da Constituição), por todas as razões antes já mencionadas, hoje foi reduzido a pó e a letra morta.

O momento é de fato grave: enquanto deputados ou senadores filmados em flagrante delito por graves desvios são soltos pelos seus pares, reitores têm sua liberdade cassada. A sociedade deve, com muita premência, pensar que tipo de mundo pretende construir quando instituições como as universidades públicas (responsáveis por cerca de 90% da ciência e tecnologia do Brasil) são demonizadas, expostas, desrespeitadas e quando seus dirigentes são imolados publicamente.

O Brasil precisa pensar em que tipo de futuro quer apostar. E para mim a resposta só pode ser essa: é momento de resistir e defender a Universidade Pública. Viva a UFRGS! Viva a UFSC! Viva a UFMG! Viva a UFPR!

Ricardo Marcelo Fonseca

Reitor da UFPR


domingo, 10 de dezembro de 2017

Na barriga da miséria extrema


José Martins

O Brasil é, possivelmente, o país mais miserável do mundo. Principalmente se a flagrante pauperização da sua população for relacionada com o tamanho do território, da população e da economia do pais. O Brasil é tão grande quanto sua galopante miséria.
Não acredita nisso? Recomenda-se, então, a leitura dos números do recente relatório “Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNAD Contínua 2016” do IBGE, divulgado nesta semana.
Começando com um número mais do que importante para o entendimento do processo: a metade dos trabalhadores residentes no Brasil recebe 747 reais mensais. Muito menos que o salário mínimo oficial (880 reais) em 2016, ano em que foi realizada a pesquisa. Pauperização absoluta em alta ebulição.
No outro prato da balança, observa-se que 10% da população com maiores rendimentos (classes improdutivas) concentra quase metade da renda nacional. E 1% deste mesmo segmento recebe em média R$ 27.500, mensalmente, ou 36,3 vezes mais que aquela metade com os menores rendimentos.
Não se trata de uma balança qualquer. Por trás destes segmentos estatísticos de cidadãos pobres e ricos escondem-se as classes sociais. É por isso que, além da aparência retratada pelo IBGE, não se observa apenas um problema de desigualdade entre cidadãos livres e iguais, mas de exploração de classes proprietárias de meios de produção e de circulação sobre a classe proletária sem nenhuma propriedade e desprovida de qualquer reserva.
Os ideólogos do sistema e seus primos ruminantes populistas de diferentes cores e plumagens focam o problema da miséria nesta injusta desigualdade de rendimentos. Em uma imprecisa diferenciação da capacidade individual de demanda. Transformam assim o modo de produção capitalista em um abstrato modo de distribuição da riqueza e da renda.
A desigualdade e a concentração da renda como um constrangimento moral que poderia ser resolvido por políticas públicas, pressões tributárias sobre os mais ricos, educação acelerada, leis dos pobres, bolsas-família e outras formas de caridade social incentivadas pelo Banco Mundial, ONU, Vaticano e… Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia em 1998.
É por isso que quando as grandes metrópoles do imperialismo acordam cercadas por favelas e bolsões de miséria típicos da periferia do sistema, ameaçando a “segurança pública” e a governabilidade burguesa. Os economistas liberais resolvem revelar ao mundo a grande “descoberta”: mesmo no coração do sistema existe forte desigualdade de rendimentos entre os cidadãos e que em todo lugar “a taxa de concentração da renda cresce mais rapidamente que a taxa de crescimento da economia”.
Para quem tem tempo de sobra pode conferir essa incrível “descoberta” – e, claro, a costumeira leviandade do moralismo econômico para a solução do problema – no festejado best-seller “O Capital no Século XXI”, de Thomas Piketty.
Entretanto, todo mundo minimamente informado sabe que a economia política dos trabalhadores (Marx) certamente não foi a primeira, mas certamente já tem conhecimento de que, há pelo menos duzentos anos, existe essa concentração do capital em um polo e da miséria da população no outro. Afinal, isso faz parte da natureza deste regime de exploração.
Sabe também do fato que a exploração da classe proletária pela classe capitalista e demais parasitas do sistema – materializada na produtividade da força de trabalho, na produção de mais-valia e de lucro – é o principal determinante da dinâmica econômica mundial. Muito mais que um mero problema de repartição do produto.
Isso tem que ser levado em conta na análise da dinâmica da demanda especificamente capitalista e na confusão que romanticamente se faz com o papel do subconsumo assalariado no ciclo econômico e nas tentativas de explicação das modernas crises periódicas de superprodução de capital.
O trabalhador assalariado não foi inventado pelo capital para consumir, servir de demanda para a realização do capital, mas para ser consumido como simples mercadoria nas linhas de produção do capital. Não será um romântico aumento do consumo do proletariado que vai evitar a crise do capital.
Neste sentido, a exploração da classe proletária nas linhas de produção é totalmente distinta desse desequilíbrio abstrato entre diversas modalidades de rendimentos de cidadãos livres e iguais circulando aleatoriamente pelo mercado.
Como é demonstrado pelo caso brasileiro, a ideia da troca de equivalentes (salário justo ou mínimo de salário Smith) falha praticamente e de maneira mais flagrante em economias nacionais onde predomina a mais-valia absoluta – caracterizada pelo pagamento do salário abaixo do valor da força de trabalho e pelo prolongamento sistemático da jornada de trabalho, moderno trabalho escravo, trabalho de crianças e outras formas democráticas de produção.
Essas coisas se apresentam praticamente no Brasil, país continental que tem uma das maiores economias do mundo (em tamanho, não em qualidade) e onde essa realidade da predominância da produção de mais-valia absoluta se revela de maneira mais do que evidente nos números do IBGE.
Se, em 2016, a mediana do “rendimento médio mensal domiciliar per capita do trabalho” era de R$747, como medido pelo IBGE, no mesmo ano o salário mínimo oficial era de R$880. E a média anual do salário DIEESE – que corresponde à atualização do salário definido e estabelecido oficialmente em 1945, na Constituição da República – era de R$ 3875 em 2016. Foi estabelecido conceitualmente na origem como o salário necessário para a reprodução de uma família de dois adultos e duas crianças.
O salario do DIEESE é atualizado mensalmente e é correntemente considerado como uma referência brasileira bastante próxima do salário natural de Smith e Ricardo e do salário relativo de Marx. Quando esses três economistas falam de salário em suas obras, a não ser com menção em contrário, estão falando do salário relativo.
Nota bene: Existem diferentes modalidades de salário. O salário relativo é uma expressão monetária do valor da força de trabalho. Já o salário real corresponde à quantidade de mercadorias (ou bens-salário) que o salário nominal permite adquirir no mercado. Este salário nominal é aquela quantidade de moeda que o trabalhador recebe do patrão (contracheque de hollerith) depois de completada uma determinada jornada de trabalho. O salário real e o salário nominal são categorias da circulação. Já o salário relativo é uma categoria da produção e é determinado pela taxa de mais-valia ou produtividade. É inversamente proporcional à produtividade da força de trabalho. Nas economias dominantes o salário real é mais elevado e o salário relativo é mais baixo que nas economias dominadas. Nas economias dominantes a exploração é maior e a miséria é menor que nas economias dominadas. Essa é a base do desenvolvimento desigual e combinado entre as nações no mercado mundial. Em qualquer caso, entretanto, a classe operária sempre produz seu salário (e o lucro do capitalista) antes de recebê-lo. Ela concede, assim, um crédito ao capitalista para comprar a mercadoria força de trabalho e só pagar depois de consumi-la na linha de produção de capital. Isso não podia ser feito no regime escravagista, por exemplo. No regime assalariado o trabalhador cria ex ante a “poupança” que vai ser convertida ex post em “investimento” pelo capitalista. Este último não tem, portanto, que se “abster” de nada, de nenhum consumo, de nenhum “prazer”, pois ele não “gasta” do seu bolso nenhum tostão quando, na circulação do capital, ele compra meios de produção e força de trabalho para acumular mais capacidade produtiva (propriedade privada especificamente capitalista), embolsar determinada taxa de lucro e reproduzir sua condição de classe capitalista. Outra particularidade relacionada: na fase de submissão real do trabalho ao capital, o capitalista desaparece fisicamente do processo de trabalho. O capital se despersonaliza. Administradores assalariados cumprem a antiga função técnica do capitalista no processo de trabalho. Este último torna-se um mero carimbador de bônus, títulos e ações. Um ser absolutamente improdutivo. Totalmente desnecessário para a produção social. Para esconder-se dessa inutilidade e do sentido pejorativo da palavra capitalista, muda de nome, depois de Shumpeter, para “empresário”, “empreendedor” ou, finalmente, “investidor”. Para ver com clareza esse processo básico do regime capitalista deve-se observar corretamente a
relação orgânica entre a produção e a circulação do capital; não se guiar cegamente pela simples circulação das mercadorias, como o faz a economia vulgar neoclássica e keynesiana. Uma boa leitura do livro 1 de O Capital já é suficiente.
Voltando aos números. Do mesmo modo que as diferentes modalidades de salários, os diferentes e desiguais “extratos de rendimentos” do IBGE também podem e devem ser relacionados com a dinâmica geral do exército industrial de reserva, que configura a lei da população característica do modo de produção capitalista.
O exército industrial de reserva formaliza-se em uma dimensão absolutamente diferente e muito mais ampla do que o conhecido “mercado de trabalho” da economia vulgar. Além dos locais de trabalho (fábricas, minas e fazendas) ele se espalha por todo o espaço do território nacional e mundial como uma classe especial e majoritária da população em geral. Por isso só pode ser observado na dimensão territorial da economia. No Brasil, ele aparece recenseado através das diferentes médias (medianas, para ser mais preciso) salariais em diferentes regiões do país.
Região Norte: R$ 560 Região Nordeste R$ 485 Região Sudeste R$ 909 Região Sul R$ 949 Região Centro Oeste R$ 886 Brasil R$ 747
Esses números enfileirados acima são os que representam melhor a formação da taxa de salários e do salário real médio da economia brasileira. O salário do DIEESE de R$ 3875, que exprime grosseiramente o salário relativo, ou valor da força de trabalho nacional, pode ser
considerado também a linha abaixo da qual se situa os diversos patamares de pobreza real do exército industrial de reserva, como registram os números acima
Nestas condições, observa-se que nas regiões Norte e Nordeste, mais atingidas pelos desequilíbrios regionais do desenvolvimento econômico nacional, os salários reais são os menores da amostra e, portanto, a pauperização é maior que nas demais regiões (Sudeste, Centro Oeste e Sul).
Tratamos em recente boletim da natureza e do papel destes desequilíbrios regionais para o aprofundamento continuo do subdesenvolvimento econômico e a miséria extrema que não para de aumentar no país.
O que dizer, agora, de um pais de dimensões continentais com elevado salário relativo (valor da força de trabalho) e mediana dos salários reais abaixo do salário mínimo oficial, que não passa ele mesmo de uma perversa ficção de reprodução da força de trabalho?
Países que não diminuem o salário relativo (mais-valia relativa) como necessidade para um efetivo desenvolvimento econômico nacional só podem reproduzir o exército industrial de reserva na mais abjeta miséria, como se presencia no Brasil
As desigualdades e a concentração da renda nos níveis inimagináveis que ocorrem no Brasil são resultados deste imutável padrão do desenvolvimento desigual e combinado de economias dominantes e dominadas na ordem imperialista mundial.
Enquanto a elevação da taxa de produtividade da força de trabalho (taxa de exploração ou de mais-valia) na economia brasileira for executada necessariamente com a redução do salário real e o prolongamento da jornada ocorrerá, como dizíamos em 2013, em um de muitos boletins tratando desse “padrão de acumulação”: “Difícil de esconder: de que vale um Produto Interno Bruto (PIB) muito grande e uma pobreza maior ainda? Um grande mistério da globalização do capital nos últimos anos nas grandes “economias emergentes”: quanto maior o PIB, maior a pobreza da população. E as tensões sociais aumentam junto. (A Economia do Crioulo Doido. 2ª semana Fevereiro 2013.)
Quase cinco anos depois, existem coisas novas neste promíscuo regime burguês de acumulação e miséria. A primeira consequência: o aumento da miséria a níveis inimagináveis desde os primeiros sinais de desaceleração econômica e desmantelamento acelerado da Seguridade Social: saúde, moradia, educação, previdência social, etc. Nos últimos cinco anos, principalmente. Isso aumenta a ingovernabilidade política nacional a níveis incontroláveis.
Outra consequência importante: se em 2013 ainda se podia falar de “um Produto Interno Bruto (PIB) muito grande e uma pobreza maior ainda”, agora tem que se atualizar também a primeira perna da equação. Coloque no lugar “um PIB insignificante que insiste em ficar estagnado e uma pobreza muito maior do que antes”.
No 3º trimestre deste ano o PIB brasileiro cresceu a “enormidade” de 0.1%. Como é que fica a situação do emprego? A indústria patina, a construção civil não sai do lugar. O único aumento de contratação é dos chamados empregos informais. A reforma trabalhista já se apresenta à luz do dia. Envolta em trevas.
Os economistas do mercado estão prevendo um crescimento de 0.7% para todo o ano de 2017. E acredite se quizer: estão festejando o resultado. Vejam o que dizem o ministro da Fazenda e o presidente da República: “O ministro da Fazenda comemorou os resultados em uma rede social. O presidente Michel Temer, que também festejou o PIB, disse que a reforma da Previdência é essencial para economia. “Falta agora a reforma da Previdência, fundamental para garantir a continuidade desse crescimento que já está aí”, afirmou o presidente”. (O Globo, 1 dezembro 2017)
Que beleza de burguesia! Mas ela se defronta atualmente com uma sinuca de bico. Acontece que o padrão tradicional que funcionou até 2014, de reduzir o salário real, aumentar a miséria e se contentar com efêmeros crescimentos do PIB, agora não funciona mais.
Aumenta-se com muito mais velocidade a miséria do proletariado e o PIB não sai do lugar. Esse travamento econômico, como temos analisado há um bom tempo em inúmeros outros boletins, tem a ver com as novas condições internacionais de valorização e de concorrência do capital no mercado mundial. E que nem a carnificina social ora em marcha forçada no Brasil será capaz de destravar.
https://pcb.org.br/portal2/17653/%EF%BB%BFna-barriga-da-miseria-extrema
Publicado originalmente no site Critica da Economia.

In
O DIARIO.INFO
https://www.odiario.info/na-barriga-da-miseria-extrema/
9/12/2017

sábado, 9 de dezembro de 2017

Os meus meninos de Gaza


por João Carlos Lopes Pereira [*]
Os meus meninos de Gaza não existem.

Não existem.
Não existem.

Não têm sangue, nem pernas,
nem carrinhos de bebé.
nem olhos, riso ou sandálias. Nem orelhas.
Nem brinquedos. Nem calções,
nem jardins, nem casas onde dormir,
nem pais, avós ou irmãos.
Nem chão, nem água, nem flores,
nem língua, lábios, nariz, mamilos, berço ou lençóis.
Nem têm lápis de cor. Nem manhãs. Nem amanhãs.
Como não tiveram ontens.
Não têm coisa nenhuma porque, afinal, não existem.

Os meus meninos de Gaza
já foram solucionados pelos homens do Sião.
E nem foi preciso gás. Nem fornos de cremação.

[*] Jornalista.

Este poema encontra-se em 
http://resistir.info/palestina/meninos_de_gaza.html

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Entenda como o Brasil dará perdão fiscal de R$ 576,75 bilhões às petroleiras estrangeiras



Apenas nos próximos três anos, o Governo Federal poderá deixar de arrecadar R$
576,75 bilhões caso o Senado confirme a decisão da Câmara e aprove a Medida
Provisória 795 - que estabelece regras de tributação especiais para as
petroleiras estrangeiras.

A MP foi editada por Michel Temer (PMDB) sob a justificativa que era necessária
para tornar os leilões de campos do pré-sal mais atrativos. Com os benefícios
fiscais, o leilão teria mais interessados.
Toda essa movimentação aconteceu de maneira relativamente despercebida — até o
jornal The Guardian publicar que o Governo britânico fez lobby em favor de suas
petroleiras.
A Sputnik explica quatro pontos-chave para entender a MP 795.
Como funciona a exploração de petróleo no Brasil?
Por mais de quatro décadas, o petróleo brasileiro foi uma exclusividade da
Petrobrás. O monopólio começou em 1953, quando o então presidente Getúlio Vargas
criou a empresa, e foi até 1997, quando Fernando Henrique Cardoso assinou a Lei
do Petróleo.
A legislação abriu o mercado nacional de pesquisa, exploração, produção e refino
de petróleo e gás natural para empresas estrangeiras.
Entre indas e vindas legislativas, existem dois modelos de exploração de
petróleo de maneira privada no Brasil hoje:

Governo quer privatizar a Petrobras, diz ex-diretor da ANP
Concessão: o petróleo é explorado por uma empresa que assume os riscos de
pesquisa e de investimentos. Essa empresa passa a ser a proprietária do petróleo
que extrai. Em contrapartida, o Estado recebe pagamentos na forma de royalties.
Partilha: o petróleo é dividido entre Petrobrás e as outras empresas envolvidas
na iniciativa — que ficam com uma porcentagem da produção determinada por
contrato. Até o final de 2016, a Petrobrás era obrigada a ser a operadora dos
campos de pré-sal e ter um mínimo de 30% de participação em todas as operações.
Mas essa situação foi alterada por uma lei aprovada pelo Congresso Nacional.
O modelo de partilha foi utilizado no leilão de oito áreas do pré-sal realizado
no final de novembro. Foram arrematadas seis delas, o que rendeu um bônus de
assinatura de R$ 6,15 bilhões — uma quantia essencial para garantir a manutenção
da meta fiscal.
A participação da Petrobras neste campos varia entre nenhuma até 80%.
Como foi lobby das petroleiras estrangeiras?
A preocupação das petroleiras britânicas com os impostos e as regras de
utilização de material nacional foi transmitida pelo ministro de comércio do
Reino Unido, Greg Hands, em três reuniões em março de 2017 com o
secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Paulo Pedrosa.

Arábia Saudita pede para Brasil diminuir produção de petróleo
Pedrosa garantiu que as preocupações britânicas estavam sendo transmitidas ao
Governo brasileiro. Temer editou a MP 795 em agosto.
O teor das reuniões entre Hands e Pedrosa foi descoberta por meio de uma
correspondência diplomática obtida pela ONG Greenpeace através da lei de
transparência britânica.
Após a publicação do relato, Pedrosa afirmou à imprensa nacional que a conversa
com Hands foi uma "discussão normal entre representantes de dois países".
O que é um benefício fiscal?
Benefício fiscal é regime de impostos diferenciado, com descontos, utilizado
para fomentar algum setor da economia que o Estado deseja incentivar. Trata-se
de uma ferramenta utilizada por vários países do mundo.
O professor do Instituto de Economia da Unicamp Francisco Lopreato esclarece que
o uso de benefícios fiscais não é uma novidade no Brasil, já que a prática é
utilizada desde os governos da ditadura civil-militar (1964-1985) para
incentivar a indústria nacional. Lopreato, entretanto, esclarece que a MP de
Temer é diferente:
"O uso desses incentivos fiscais com o setor petroleiro não tem nada a ver com a
indústria nacional. Não tem nada a ver com uma proposta de alavancagem do setor
industrial como uma forma de expandir o crescimento industrial e do país. Pelo
contrário, os incentivos fiscais vão reduzir a atividade do setor industrial
brasileiro porque favorecem a importação de vários produtos, não só os
sofisticados como também os mais simples", afirmou Lopreato em entrevista
exclusiva à Sputnik Brasil.
Como fica a indústria nacional?
Outro ponto alterado por Temer é a suspensão de impostos para importação de
equipamentos utilizados pelas petroleiras para a exploração de petróleo em solo
nacional.
As empresas estrangeiras vão deixar de pagar imposto de importação, IPI,
PIS-importação e COFINS-importação para os equipamentos utilizados na exploração
de petróleo. Caso eles não sejam utilizados dentro de quatro anos, a cobrança
será feita com juros.
Até mesmo produtos de baixo valor agregado, como materiais de embalagem, terão
isenção de impostos.

Recusando vender petróleo por dólares, Venezuela enfraquece EUA e reforça China
A medida recebeu críticas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e
Equipamentos (Abimaq):
"O setor já está praticamente sem serviço, devido à falta de encomendas e à
redução dos investimentos da Petrobras. Então, a tendência é que sucumba caso
equipamentos que têm similar nacional possam ser importados sem impostos",
afirmou o presidente da ABIMAQ, José Velloso, em entrevista à Folha de
Pernambuco.
Luiz Pinguelli Rosa, professor de planejamento energético da UFRJ, também não
concorda com a isenção de impostos. Para ele, a isenção deveria atingir
equipamentos específicos e não ser ampla da maneira como está desenhada
atualmente.
"[A nova regra] impede que os recursos de produção de recursos sejam
internalizados, novamente atendendo aos interesses das empresas estrangeiras.
São atividades industriais que não vão ser mais feitas no Brasil, mas sim em
outros países. É uma atuação totalmente contrária aos interesses brasileiros",
afirmou o professor da UFRJ em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil.
Já o professor do Instituto de Economia da Unicamp Francisco Lopreato acredita
que Temer desempenha uma "não política industrial".
  
In
SPUTNIK BRASIL
https://br.sputniknews.com/sputnik_explica/2017120710017275-perdao-fiscal-temer-petroleiras-estrangeiras-mp-675-lobby-bilionario/
7/12/2017

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Manifesto em defesa do Estado de Direito e da Universidade Pública no Brasil



Nós, intelectuais, professores, estudantes e dirigentes de instituições
acadêmicas, vimos a público manifestar nossa perplexidade e nosso mais veemente
protesto contra as ações judiciais e policiais realizadas contra a universidade
pública que culminaram na invasão do campus da UFMG e na condução coercitiva de
reitores, dirigentes e administradores dessa universidade pela Polícia Federal
no dia 6 de dezembro de 2017.
O Brasil, nos últimos anos, vivencia a construção de elementos de exceção legal
justificados pela necessidade de realizar o combate à corrupção. Prisões
preventivas injustificáveis, conduções coercitivas ao arrepio do código penal
tem se tornado rotina no país.
  ​
Neste momento amplia-se a excepcionalidade das operações policiais no sentido de
negar o devido processo legal em todas as investigações relativas à corrupção
violando-se diversos artigos da Constituição inclusive aquele que garante a
autonomia da universidade.
É inadmissível que a sociedade brasileira continue tolerando a ruptura da
tradição legal construída a duras penas a partir da democratização brasileira em
nome de um moralismo espetacular que busca, via ancoragem midiática, o
julgamento rápido, precário e realizado unicamente no campo da opinião pública.
Nos últimos meses, essas ações passaram a ter como alvo a universidade pública
brasileira. Cabe lembrar aqui que a universidade pública, diferentemente de
muitas das instâncias do sistema político, está submetida ao controle da CGU e
do TCU, respeita todas as normas legais e todos os princípios da contabilidade
pública em suas atividades e procedimentos. Portanto, não existe nenhum motivo
pelo qual devam se estender a ela as ações espetaculares de combate à corrupção.
A universidade pública brasileira tem dado contribuições decisivas para o
desenvolvimento da educação superior, da pós-graduação, da ciência e tecnologia
que colocaram o Brasil no mapa dos países em desenvolvimento. Somente
universidades públicas brasileiras estão entre as 20 melhores instituições de
ensino e pesquisa da América Latina, de acordo com o Times Higher Education
Ranking. A UFMG, sempre bem colocada nesses rankings internacionais, possui
33.000 alunos de graduação, 14.000 alunos de pós-graduação, conta com 75 cursos
de graduação, 77 cursos de mestrado e 63 cursos de doutorado. Além de sua
excelência em educação e pesquisa, a UFMG se destaca por suas ações de
assistência e extensão nas áreas de saúde e educação.
Nesse sentido, intelectuais e membros da comunidade universitária exigem que
seus dirigentes sejam respeitados e tratados com dignidade e que quaisquer
investigações que se mostrarem necessárias com relação a atividades
desenvolvidas na universidade sejam conduzidas de acordo com os princípios da
justiça e da legalidade supostamente em vigência no país e não com o objetivo da
espetacularização de ações policiais de combate à corrupção. Está se
constituindo uma máquina repressiva insidiosa, visando não só coagir, mas
intimidar e calar as vozes divergentes sob o pretexto de combater a corrupção.
Seu verdadeiro alvo, porém, não é corrupção, mas o amordaçamento da sociedade,
especialmente das instituições que, pela própria natureza de seu fazer, sempre
se destacaram por examinar criticamente a vida nacional.
Não por acaso o alvo dessa violência contra a universidade e seus dirigentes foi
exatamente um memorial que tenta recompor os princípios da justiça e do estado
de direito extensamente violados durante o período autoritário que se seguiu ao
golpe militar de 1964. O Memorial da Anistia tem como objetivo explicitar os
abusos autoritários perpetrados nesses anos de exceção porque apenas a sua
divulgação permitirá que as gerações futuras não repitam o mesmo erro.
Nesse sentido, intelectuais, professores e estudantes conclamamos todos os
democratas desse país a repudiarem esse ato de agressão à justiça, à
universidade pública, ao estado de direito e à memória desse país.

Assinam:
Paulo Sérgio Pinheiro (ex ministro da secretaria de estado de direitos humanos)
Boaventura de Sousa Santos (professor catedrático da Universidade de Coimbra)
André Singer (professor titular de ciência política usp e ex-secretário de
imprensa da presidência)
Ennio Candotti    (ex-presidente e presidente de honra da SBPC)
Newton Bignotto (professor do Departamento de Filosofia da UFMG)
Leonardo Avritzer (ex-presidente da Associação Brasileira de Ciência Política)
Fabiano Guilherme dos Santos (presidente da ANPOCS)
Maria Victória Benevides (professora titular da Faculdade de Educação da USP)
Roberto Schwarz (professor titular de Literatura da Unicamp)
Renato Perissinoto (presidente Associação Brasileira de Ciência Política)
Fábio Wanderley Reis. (Professor Emérito da UFMG)
Cícero Araújo (Professor do Departamento de Ciência Política da USP)
Sérgio Cardoso  (Professor do Departamento de Filosofia da USP)
Marilena de Souza Chauí (Professora titular do Departamento de Filosofia da USP)
Fábio Konder Comparato (Professor Emérito da Faculdade de Direito da USP)
Ângela Alonso (professora do Departamento de Sociologia da USP)
Juarez Guimarães (professor do Departamento de Ciência Política da UFMG)
Michel Löwy. (Pesquisador do CNRS, França)
Adauto Novaes (Arte e Pensamento)
Maria Rita Kehl (psicanalista)
Thomás Bustamante (Professor da Faculdade de Direito da UFMG)
Lilia Moritz Schwarcz (Professora do Departamento de Antropologia da USP)
Gabriel Cohn (ex-diretor da Faculdade de Filosofia da USP)
Marcelo Cattoni (professor da Faculdade de Direito da UFMG)
Amélia Cohn (professora do Departamento de  Medicina Preventiva da USP)
Dulce Pandolfi (Historiadores pela Democracia)
Bruno Pinheiro Reis (Vice-diretor e professor do Departamento de Ciência
Política da UFMG)
Oscar Vilhena Vieira (Diretor e professor da Faculdade de Direito da FGV-SP)

In
GGN
https://jornalggn.com.br/noticia/manifesto-em-defesa-do-estado-de-direito-e-da-universidade-publica-no-brasil
7-12-2017

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A ditadura ataca agora a UFMG


 por Luis Nassif

A notícia, agora de manhã, de que a Polícia Federal invadiu a Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG) levando em condução coercitiva o reitor e a
vice-reitora, em uma operação sintomaticamente denominado de “Esperança
Equilibrista”, comprova o avanço político do estado de exceção.
A operação visa apurar desvios no Memorial da Anistia, construído pela UFMG.
Assim como no caso da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) repete-se a
combinação de PF, Controladoria Geral da União (CGU) e Tribunal de Contas da
União (TCU).
  ​
Há anos o Memorial padece de problemas burocráticos.
Problemas administrativos, que demandam análises administrativas, são
transformados em casos policiais, para que se infunda o terror nas
universidades, último reduto da liberdade de pensamento no país, depois que a
Lava Jato se incumbiu de desmontar o PT e a reforma trabalhista investiu contra
as centrais sindicais.
A história do Memorial é bonita.
Todo o país que passou por ditaduras tem movimentos emblemáticos representando a
luta contra a repressão. O Brasil teve mais de 50 mil pessoas anistiadas,
reconhecidas como perseguidas pela ditadura e não tinha nenhum monumento.
A Comissão de Anistia, quase dez anos atrás, lançou o projeto de Memorial da
Anistia, com verbas do Ministério da Justiça e parceria com UFMG. A ideia seria
reformar o Coleginho e ali fazer uma exposição permanente. E, ao lado, um prédio
para ser o acervo da Comissão de Anistia.
Os problemas ocorreram quando se analisaram as condições do Coleginho, cuja
estrutura, antiga, não suportaria as reformas. Foi planejado, então, a
construção de um prédio ao lado, que abrigaria o acervo e a própria Comissão de
Anistia.
Os valores, de R$ 19 milhões, eram perfeitamente compatíveis com a nova
estrutura proposta. Foram abertas três sindicâncias, no Ministério da Justiça,
do Ministério Público Federal e na própria UFMG apenas para apurar se houve
imperícia no projeto para o Coleginho, que não levou em conta suas condições.
Com o impeachment, não houve sequer nomeação do novo presidente da Comissão de
Anistia, e as obras foram paralisadas.
Este ano, foi realizada uma audiência pública em Belo Horizonte, na qual se
solicitou à UFMG que terminasse o projeto. E foi recusado pela óbvia falta de
verbas que assola as universidades federais.
A invasão da UFMG e a condução coercitiva de oito pessoas mostram três coisas.
A primeira, é que não há um fato apurado e um suspeito preso. Monta-se o velho
circo de prender várias pessoas, infundir terror na comunidade, e obter
confissões sabe-se lá por quais métodos. A segunda é que a morte do reitor da
UFSC não mudou em nada os procedimento.
Têm-se uma PF incapaz de solucionar o caso do helicóptero transportando 500
quilos de cocaína, soltando o piloto e liberando o veículo em prazo recorde e,
agora, a investida política contra a segunda universidade. A terceira, é que o
nome dado à operação – “Esperança Equilibrista” – é claramente uma provocação
aos setores de direitos humanos.
Esse monstro está sendo diretamente alimentado pelo Ministro Luís Roberto
Barroso, do STF, que se transformou no principal inspirador da segunda onda
repressiva dos filhotes da Lava Jato.
Vamos ver quem são as vozes que se levantarão para denunciar mais esse ataque.
A força policial invadiu a sala da vice-reitora. Quando outros professores
chegaram lá, aboletada na cadeira da vice-reitora estava uma corregedora da CGU,
como se fosse a nova dona do pedaço.
Faltou uma foto para documentar a extensão do arbítrio.


In
GGN
https://jornalggn.com.br/noticia/a-ditadura-ataca-agora-a-ufmg-por-luis-nassif
6/12/2017

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

El regreso de Karl Polanyi




 Margaret Somers  Fred Block 

En el primer medio siglo de historia de Dissent, Karl Polanyi apenas hizo
aparición en las páginas de la revista. En cierto sentido, esto resulta
sorprendente, puesto que Polanyi estuvo presente en los círculos socialistas de
la ciudad de Nueva York entre 1947 y mediados de los 50. En otro sentido, no es
de sorprender, pues Polanyi era un pensador heterodoxo, incluso entre sus
compañeros socialistas. Con algunas excepciones significativas, ha sido
necesario que pasaran decenas de años para poder reconocer las extraordinarias
aportaciones teóricas al pensamiento socialista que realizó en su obra maestra,
La Gran Transformación, Los orígenes políticos y sociales de nuestro tiempo
[Fondo de Cultura Económica, México, 2007], publicada por vez primera en 1944.

Parte de esa relativa obscuridad puede remontarse a las opciones por las que se
decantó en su primera juventud en Budapest. A diferencia de sus colegas y
contemporáneos húngaros, Georg Lukács y Karl Mannheim, sobre todo, no se inició
en un periplo académico. Por el contrario, se hizo con una licenciatura en
Derecho y siguió una carrera en la política liberal reformista. De 1915 a 1917,
Polanyi sirvió como oficial en un regimiento de caballeria del ejército
austro-húngaro en el frente ruso. Después de desempeñar el cargo de secretario
general del Partido Radical Ciudadano, dejó Budapest por Viena en el momento de
la República Soviética de Béla Kun. En Viena, Polanyi colaboró en el
Österreichische Volkswirt, destacado diario financiero centroeuropeo, hasta que
se vio obligado a marcharse a Inglaterra en 1933, donde encontró trabajo como
profesor nocturno para adultos en la Asociación Educativa de Trabajadores.
Consiguió luego un puesto de investigador visitante en el Bennington College [en
el estado norteamericano de Vermont] a principios de los 40, subvencionado por
la Fundación Rockefeller. Pero ya había cumplido los sesenta cuando empezó en su
puesto académico más importante, el de profesor visitante de Economía en la
Universidad de Columbia. Polanyi nunca dispuso del punto de apoyo estable en el
mundo académico que hizo posible para algunos otros intelectuales refugiados que
sus ideas tuvieran amplia difusión.  

No obstante, en las últimas dos décadas las cosas han cambiado de modo
espectacular. Karl Polanyi ha logrado un tardío reconocimiento en todo el mundo
como uno de los más importantes pensadores del siglo XX. Lo invocan regularmente
tanto eruditos académicos como activistas que ponen en tela de juicio la
globalización sin restricciones del libre mercado, y sus escritos forman parte
cada vez más del canon central de sociólogos, especialistas de ciencias
políticas, historiadores y economistas heterodoxos. En noviembre pasado, la
revista Atlantic mencionaba a Karl Polanyi, no a Karl Marx, como pensador social
más pertinente para el requerimiento moral del Papa Francisco, ampliamente
difundido, sobre los males de la desigualdad social y los límites del mercado no
regulado, sólo una indicación de la reciente fama de Polanyi. En nuestro libro
The Power of Market Fundamentalism: Karl Polanyi’s Critique (Harvard, 2014),
sostenemos que su innovador marco teórico podría ser central para el proyecto de
revitalizar la tradición socialista democrática.

Las ideas de Karl Polanyi tomaron forma en la Viena de los años 20 en directa
oposición a la ortodoxia de libre mercado de Ludwig von Mises, avatar
contemporáneo del fundamentalismo de mercado. Ambos pensadores se vieron
hondamente influidos por el “experimento de Viena”, el periodo posterior a la I
Guerra Mundial de socialismo democrático y municipal impulsado por los
trabajadores. Mientras que Polanyi vio en el experimento lo mejor que podía
ofrecer el socialismo, este dio motivos al esfuerzo de por vida de von Mises de
probar que el socialismo y la “planificación” eran económicamente desastrosos y
moralmente corruptos.

Von Mises tuvo poco éxito a corto plazo y la mayoría de los pensadores de la
izquierda lo despacharon como un apologista reaccionario de la gran empresa.
Pero medio siglo después, su más célebre estudiante —Friedrich von Hayek— se
convirtió en inspirador tanto de Margaret Thatcher como de Ronald Reagan, cuando
el fundamentalismo de mercado y el neoliberalismo se convirtieron en ideas
dominantes de nuestro tiempo. Afortunadamente, Karl Polanyi bien que se tomó en
serio las ideas de von Mises. De hecho, La gran transformación constituye un
análisis de la naturaleza enormemente destructiva y seductora de la visión del
mundo del fundamentalismo de mercado que tan influyente ha sido en los tres
últimos decenios.

Desde el inicio del libro, Polanyi ataca el liberalismo de mercado por lo que él
llama su “severa utopía”. Los conservadores llevaban mucho tiempo blandiendo el
epíteto de “utopismo” para desacreditar a movimientos de la izquierda, pero
Polanyi estaba decidido a darle la vuelta a eso demostrando que la visión del
sistema de mercado global que se autorregula era la verdadera fantasía utópica.
El argumento central de Polanyi consiste en que un sistema económico que se
autorregula constituye una construcción completamente imaginaria; como tal,
resulta completamente imposible de lograr o mantener. Igual que Marx y Engels
habían hablado del “marchitarse del Estado”, así imaginan liberales y
libertarios un mundo en el que mermara drásticamente el reino de la política. Al
mismo tiempo, Polanyi reconoce por qué resulta tan seductora la visión de una
gobernación autónoma del mercado sin Estado. Dado que la política está
mancillada por una historia de coacción, la idea de que la mayoría de las
cuestiones importantes se resolvería por medio del mecanismo presuntamente
imparcial y objetivo de una competencia impulsada por la posibilidad de elegir y
el libre mercado reviste gran atractivo.

La crítica de Polanyi consiste en que ese atractivo carece de base alguna en la
realidad. La acción de gobierno no supone cierta clase de  “interferencia” en la
esfera autónoma de la actividad económica, sencillamente es que no hay economía
sin gobierno. No se trata únicamente de que la sociedad dependa de carreteras,
de escuelas, de un sistema de justicia y de otros bienes públicos que sólo puede
proporcionar el Estado. Es que todoslos aportes (“inputs”) claves de la economía
— tierra, trabajo y dinero — se crean y sostienen solo a través de la continua
acción del gobierno. El sistema de empleo, las disposiciones de compra y venta
de propiedades, y las provisiones de dinero y crédito se construyen y sostienen
socialmente mediante el ejercicio del poder coactivo del Estado.

En este sentido, la retórica del libre mercado constituye una gigantesca
pantalla de humo destinada a ocultar la dependencia de los beneficios
empresariales de las condiciones garantizadas por el gobierno. Así, por ejemplo,
nuestras gigantescas instituciones financieras insisten en que deberían verse
libres de regulaciones entrometidas, mientras que dependen del acceso a crédito
barato — en los buenos tiempos y en los malos — de la Reserva Federal. Nuestras
empresas farmacéuticas se han resistido con éxito a todo límite por parte del
gobierno a su facultad de fijar los precios, a la vez que se atiene a la
concesión de monopolios por medio del sistema de patentes. Y por supuesto, la
conformidad de los empleados con las exigencias de sus gestores se mantiene por
medio de la policía, los jueces y una elaborada estructura de reglas legales.

Polanyi lleva el papel del gobierno y la política al centro del análisis de la
economía de mercado. Y al obrar así, abre posibilidades que quedan a menudo
obscurecidas en otras corrientes del pensamiento de izquierdas. Si son
necesarias las regulaciones para crear mercados, no hay que debatir acerca de
regulación versus desregulación sino de qué género de regulaciones preferimos:
las destinadas a beneficiar a la riqueza y el capital, o las que benefician al
interés público y el bien común? De modo semejante, puesto que los derechos o la
falta de derechos que tienen los empleados en su lugar de trabajo siempre se
definen de acuerdo con el sistema legal, no debemos preguntarnos si la ley
debería organizar el mercado laboral sino más bien qué clase de reglas y
derechos de los que los empleados disponen en el lugar de trabajo se definen
siempre por medio del sistema legal, no debemos preguntarnos si la ley debería
organizar el mercado de trabajo sino, antes bien, qué clase de reglas y derechos
deberían conllevar estas leyes: ¿los que reconocen que son las habilidades y
talentos de los empleados los que hacen productivas a las empresas o los que
amañan el juego en favor de los patronos y el beneficio privado?
De modo implícito, Polanyi ofrece una alternativa a lo que él considera un
análisis del marxismo centrado en la propiedad. La propiedad de los medios de
producción es la forma básica definitoria de un modelo de producción en el marco
marxista; las reglas legales pueden llevar a cabo ciertas modificaciones, pero
sólo en los márgenes. Mientras sean agentes privados los que posean los medios
de producción, toda concesión a la movilización de la clase trabajadora se
retirará cuando las circunstancias requieran que a los patronos se les dé mayor
carta blanca.
Polanyi, por contraposición, insiste en que, puesto que el orden económico se
constituye por medio de decisiones políticas, la política puede en efecto
redefinir el significado de la propiedad. Así, por ejemplo, en el actual sistema
de relaciones industriales de Alemania que combina co-determinación, consejos
laborales y negociación colectiva con sindicatos, el poder relativo de patronos
y empleados es muy distinto del de empresas comparables en los Estados Unidos.
Polanyi reconoce que esas disposiciones legales se verán periódicamente
contestadas cuando algunos empleados anhelen más poder y autonomía. Pero no hay
nada que asegure que esa contestación vaya a tener éxito, el resultado dependerá
de qué lado sea más capaz de movilizarse del modo más eficaz en la escena
política.   

En el título de su libro de 2006, Sheri Berman denominaba a Polanyi teórico de
la “primacía de la política”. La política puede imponerse a las prerrogativas de
la propiedad tanto mediante la redefinición del paquete de derechos que ejercen
los tenedores de propiedad como mediante la alteración del poder relativo de
negociación colectiva entre propietarios y no propietarios. Todos conocemos esto
intuitivamente; por ejemplo, hay algunas comunidades en las que resulta casi
imposible que un casero desahucie a un inquilino gracias a la existencia de una
legislación bien dispuesta hacia los inquilinos. Pero Polanyi eleva esta
intuición cotidiana a teoría del cambio histórico al definir el socialismo como
“la tendencia inherente en una sociedad civilizada a transcender el mercado que
se autorregula subordinándolo de modo consciente a una sociedad democrática”.

Tres puntos importantes se siguen de esta definición inusual. En primer lugar,
Polanyi no nos ofrece ningún telos, o final predefinido, para este proceso.
Acaso desaparezca en última instancia la propiedad privada y se vea substituida
por formas diversas de propiedad colectiva, pero es que, sencillamente, no lo
sabemos. En segundo lugar, puesto que no hay final de la historia, no habrá
final para las luchas y conflictos, y no hay garantías de que no se reviertan
los logros democráticos, como sucedió con el triunfo del fascismo europeo. Por
último, el núcleo del proyecto socialista consiste en ampliar y ahondar la
gobernación democrática de la economía; esta es la única manera de que no se
reviertan los logros democráticos.   

Polanyi era inequívoco en su defensa de lo que algunos han ridiculizado como
“democracia burguesa”: un gobierno parlamentario y el paquete anejo de derechos
políticos. Pero también creía obstinadamente que las medidas para ampliar la
democracia por medio de derechos politicos equivaldrían a poco sin igual
fundamento de derechos sociales y económicos. En los años 20, se vio atraído por
la vision de G.D.H. Cole del socialismo gremial, en la que un parlamento electo
compartiría el poder último con representantes de los distintos consejos de
trabajadores que poseerían y dirigirían empresas. Para los años 40, estaba más
en sintonía con las versiones expansivas de la democracia industrial
norteamericana, en la que los empleados  compartirían el poder con los gestores
por medio de un sistema de negociación colectiva que no reconocía la
prerrogativa de los gestores de tomar ciertas decisiones por su cuenta.

Todo esto sugiere que la noción de Berman de que Polanyi favorecía la “primacía
de la política” no es exactamente correcta. La política no es sencillamente su
polo preferido en la dicotomía tradicional entre Estado y mercado. Polanyi, por
ejemplo, defiende de modo consistente la presencia de mercados regulados en una
sociedad justa. Todavía más importante, Polanyi considera la política y el
gobierno como componentes de su concepto más amplio de lo social, que incluye
también la sociedad civil, las relaciones sociales y las prácticas culturales.
Sería por tanto más preciso referirnos a Polanyi como teórico de la  “primacía
de lo social”.

Puesto que el mundo ha cambiado de modo notablemente desde la época de Polanyi,
tenemos que imaginar para nosotros qué forma debería adoptar la democracia
económica en el siglo XXI. Nuestra opinión es que debería consistir en cierta
combinación de democracia en el lugar de trabajo, de reformas que
democratizarían el sector financiero y una expansión de la democracia
participativa a escala local que refuerce las solidaridades sociales necesarias
para tener instituciones robustas en la sociedad civil. Los experimentos
municipales de presupuestos participativos, sobre todo en América Latina,
sugieren que cuando a la gente se le da voz de verdad a la hora de tomar
decisiones clave, aprovechan la oportunidad. El ensanchamiento de la democracia
a escala local podría ser el inicio de un proceso mediante el cual se
revitalicen las democracias parlamentarias, conforme los ciudadanos se vuelven
más efectivos a la hora de exigir cuentas a sus representantes. 
Esta revitalización constituye una tarea apremiante. En nuestro propio país y en
demasiados más, la división entre la clase política y “la gente” aparece cada
vez más como una divisoria infranqueable marcada por la hostilidad y una
profunda desconfianza. Polanyi sabía muy bien que esta clase de divisoria se ve
enormemente exacerbada por las medidas políticas que hoy llamamos
fundamentalismo de mercado. Cuando a lo largo de una generación se le dice a la
gente que el gobierno no debe tomar decisiones que interfieran con la lógica
autónoma del mercado, y cuando los mercados internacionales de bonos pueden
dictar la política de las naciones, resulta inevitable que la gente empiece a
perder la fe en la gobernación democrática y en su capacidad para ayudar a
resolver sus problemas.

Hay demasiado discurso público, hasta en el seno del Partido Demócrata, que
acepta y propaga incluso la propaganda derechista de que una recuperación del
crecimiento económico requiere austeridad y una mayor deferencia hacia las
necesidades empresariales. La realidad es que la austeridad suele tener como
resultado comportamientos de captación de rentas y, consiguientemente, más
estancamiento y crisis en lugar de inversión productiva. Polanyi nos enseña que
los periodos de prosperidad y de crecimiento del nivel de vida fueron, por
contraposición, resultado directo de avances democráticos en la política y en la
sociedad civil. La mayor prosperidad de la que tengamos memoria en Europa y los
Estados Unidos se produjo durante el periodo socialdemócrata — en los años 50 y
60 — cuando las constricciones al sector empresarial eran mayores. En resumen,
más democracia y más justicia económica son los cimientos necesarios del camino
al socialismo y de una economía más dinámica, próspera y sostenible. 

Margaret Somers

profesora de Sociología e Historia en la Universidad de Michigan.

Fred Block

profesor investigador de Sociología en el campus de Davis de la Universidad de
California. El libro de ambos sobre Polanyi lleva por título The Power of Market
Fundamentalism: Karl Polanyi’s Critique (Harvard).
 
Fuente:
Dissent, primavera 2014
Traducción:
Lucas Antón  

In
SIN PERMISO
http://www.sinpermiso.info/textos/el-regreso-de-karl-polanyi
28/11/2017