segunda-feira, 12 de novembro de 2018
O sujeito oculto: ao vencedor as batatas
Por Mauro Luis Iasi.
Blog da Boitempo
Uma pergunta assombra os cérebros inquietos que procuram compreender o cenário
que se abre com a eleição de Bolsonaro: como isso foi possível? É compreensível,
uma vez que essas pessoas se pautam pela razão e o bom senso e imaginam que os
acontecimentos se definem por uma certa razoabilidade. Infelizmente, o que a
história nos comprova é que na luta de classes, como na guerra, a primeira
vítima é a razão.
Em um importante documentário de 2003, dirigido por Errol Morris, chamado Sob a
névoa da guerra, o ex-Secretário de Defesa dos EUA, McNamara, afirma exatamente
isso: “a racionalidade não nos salvará”. É evidente que qualquer pessoa sensata,
diante das alternativas apresentadas, não escolheria alguém que revelasse o
despreparo, a barbárie explícita e a evidente idiotia do candidato em questão.
Mas não se trata de escolhas movidas pela razão e, por mais que doa constatar,
não se trata de pessoas sensatas.
Neste ponto, a busca por respostas se refugia na noção de manipulação. Isto é,
estaríamos diante de pessoas sensatas, mas que estariam sendo manipuladas por
uma eficiente enxurrada de mentiras, eufemisticamente denominadas fake news.
Ciro Gomes parece apontar na direção dessa interpretação ao afirmar em
entrevista recente que não pode acreditar que quase 60% o eleitorado seja
fascista. Tendo a concordar, mas a pergunta persiste: então porque foram
receptivos à proposta do fascismo?
Outros procuram consolo em um raciocínio matemático pouco convincente. O
eleitorado estaria dividido em três partes: a primeira votou no candidato da
extrema direita (39% ou 57 milhões), a segunda em Haddad (32% ou 47 milhões) e
uma terceira formada pelas abstenções, votos brancos e nulos (29% ou 42
milhões). Por este raciocínio, a maioria não teria votado em Bolsonaro, isto é,
61% ou 89 milhões), querendo com isso acreditar que a maioria não o apoia.
Creio que esse argumento é falho por alguns motivos. Primeiro porque insiste que
a maioria sempre tende ao bom senso, o que não é verdade de forma alguma.
Rousseau acreditava nisso, mas ninguém leva muito a sério essa esperança.
Segundo porque esse argumento agrupa coisas de substâncias distintas
(abstenções, brancos e nulos) como se fossem votos contrários à extrema direita,
e não creio que seja verdade.
São expressões de quem não votou e só isso. Pessoas não votam por muitos e
diferentes motivos, desde ao possível erro de cadastramento, casualidades
fortuitas até o desencanto com as eleições e críticas variadas ao sistema. Caso
desprezemos os acidentes, ainda assim esse desencanto é combustível para a
posição política expressa na candidatura de Bolsonaro e para aqueles que ainda
defendem alternativas à esquerda. Estatisticamente é mais provável que esses
não-votos se distribuíssem na mesma proporção dos votos. Isto é, algo em torno
de 39% para o candidato eleito e 32% para seu opositor.
Acredito que esse deslocamento de uma maioria eleitoral para a direita e para a
extrema direita tem outra explicação. Defenderei aqui que uma pista para
compreender as determinações mais profundas desse processo remete nossa análise
para um “sujeito oculto”. Mas comecemos pelos sujeitos visíveis. Claramente o
espectro político brasileiro se dividiu em segmentos de direita e extrema
direta, de centro esquerda, de centro, de esquerda e de extrema esquerda. Esses
segmentos ganham suas personificações em indivíduos: Alckmin, Meirelles e Amoedo
(direita), Bolsonaro (extrema direita), Haddad e Ciro (centro esquerda), Marina
(centro ou centro direita, com ela a gente nunca sabe), Boulos (esquerda), Vera
(extrema esquerda) e assim por diante. Não me peçam para localizar um
ex-bombeiro, grevista, crente, deputado raivoso contra o risco do comunismo na
América Latina e contra os poderosos, porque francamente essa tarefa foge à
minha área de especialidade.
A questão de importância decisiva do ponto de vista eleitoral é determinar a
capacidade dessas expressões políticas mobilizarem massas eleitorais
significativas. Sigamos por eliminação. Por motivos diferentes, a direita, o
centro e a esquerda não tinham como mobilizar contingentes significativos. De um
lado pelo desgaste do governo Temer, a visível piora das condições de vida e a
insegurança; de outro o prolongado período de conciliação de classes e sabotagem
da capacidade de resistência e autonomia dos trabalhadores que limita a
possibilidade de um discurso de esquerda. Restam, num quadro de acirramento da
crise, a polaridade entre a extrema direita e o centro esquerda, materializada
nas três candidaturas que despontaram à frente no primeiro turno. Com métodos
eficientes, ainda que não muito louváveis, a centro esquerda pendeu para o
candidato petista e a polarização encontrou seu termo: antipetismo e petismo.
Como a direita e a extrema direita se uniram taticamente contra o petismo e,
desde o golpe parlamentar, midiático e institucional de 2016, operaram para
eliminar a maior chance de vitória da centro esquerda (Lula), o jogo se
desequilibrou a favor dos conservadores e depois, diante da falência da
alternativa Alckmin, para os reacionários.
O combustível principal da extrema direita sempre foi o antipetismo. Estou
convencido de que a maioria daqueles que se dispuseram a votar num fanfarrão
autoritário e despreparado foi a clara convicção de que era necessário evitar
que o PT voltasse a governar. Todos nossos alertas sobre o risco de medidas
fascistas, da violência, do retrocesso democrático, das propostas tresloucadas
na área econômica, da flagrante prepotência amoral e cínica, do preconceito
machista, homofóbico e racista, não faziam diferença diante da prioridade de se
livrar do PT.
Para dar um toque de perversidade ao já trágico cenário, muitos dos que se
beneficiaram das limitadíssimas políticas compensatórias na área social e das
condições de inserção via consumo, votaram contra o PT.
É evidente que há um componente de manipulação. Isso tudo não teria a
intensidade que teve não fora o massivo ataque dos meios de comunicação, a ação
judicial que priorizou o ataque aos petistas envolvidos nos esquemas de
corrupção, à insistente vinculação da pregação moral de um certo fundamentalismo
religioso às posturas minimamente progressistas no campo dos costumes como
depravação e uma ameaça à família e aos bons costumes. Da mesma forma, ficou
comprovado um poderoso e milionário esquema de organizações que difundem uma
espécie de liberalismo raivoso de extrema direita na criação de movimentos e
personalidades para agir na propaganda e contra informação como armas de guerra
e de desestabilização, como as iniciativas dos bilionários irmãos Charles e
David Koch, da ultradireitista John Birch Society, da organização Students for
Liberty, além de recursos vindos de partidos (PSDB, DEM, etc.) e empresários.
Se somarmos a isso a doutrinação sistemática operada por um conjunto de
segmentos ditos religiosos, mais precisamente envolvidos em empresas altamente
lucrativas de exploração da fé e do obscurantismo, temos uma boa explicação da
imensa capacidade de manipulação de massa operada.
Caso o petismo dependesse de si mesmo teria sido derrotado de forma ainda mais
fragorosa. Para muitos, isso é um mistério. As pessoas deviam reconhecer o que
foi afirmado como o melhor governo de nossa história, a atenção aos que se
encontram abaixo da miséria absoluta, o Bolsa Família, o acesso à universidade,
a valorização do salário mínimo, as oportunidades de consumo e crédito, e tudo
isso fazendo com que os empresários, o agronegócio e os bancos ganhassem muito
dinheiro, como o ex-presidente adora lembrar.
O pragmatismo petista, é verdade, colheu os frutos de seus governos. Estes
foram, comparativamente, governos “bons” – foram gestores bons e responsáveis,
aceitaram e trabalharam dentro das regras e das posturas vigentes (o que inclui,
ainda que alguns finjam não saber, praticas declaradas de corrupção direta e
indireta). A surpresa é compreensível: por que uma experiência de governo que
abre mão de qualquer perspectiva revolucionária e aceita se ater aos limites da
institucionalidade burguesa foi vítima de tanto ódio, preconceito e violência?
Uma parte do reconhecimento aos seus feitos deu uma sobrevida ao PT, em grande
parte pelo contraste com a catástrofe do desgoverno Temer, em parte pela
liderança carismática de seu principal líder. Isso, somado a algumas manobras,
colocou seu candidato no segundo turno, mas não foi suficiente para equilibrar
ou pretender virar o jogo contra a extrema direita. A balança eleitoral só se
equilibrou porque para o PT confluiu o antifascismo, o que é uma conformação
para lá de heterogênea – vai desde a esquerda (interessante notar, toda ela, o
que inclui a extrema esquerda), passando por segmentos médios progressistas mas
que tinham se desiludido com o PT, e até segmentos do centro direita e da
direita, como é o caso da Marina e de determinadas figuras e setores do próprio
PSDB.
Até aqui, trabalhamos apenas no descritor do movimento dos segmentos e sua
polarização entre a extrema direita e o centro esquerda. Uma questão segue sem
resposta: por que a classe trabalhadora não saiu em defesa, primeiro do governo
do PT e depois da democracia contra o fascismo? Ou pelo menos, por que não o fez
na dimensão e força que poderia?
Eis que aparece nosso sujeito oculto: a classe trabalhadora. Lembram dela?
Aquela que teria deixado de existir em tempos agora “pós-industriais”, numa
sociedade do “fim do trabalho”; aquela cuja identidade de classe a
multiplicidade de identidades secundarizou e cuja centralidade na luta política
se diluiu em “novos sujeitos” e “novas formas de luta”… Pois então, este sujeito
que ninguém mais via, que havia deixado de existir e ter importância nas
disputas políticas, este sujeito decidiu a eleição a favor do fascismo.
Há bastante tempo, algumas vozes destoantes insistem que a classe trabalhadora
passou por um processo de mudança de forma graças a uma nova configuração do
mundo do trabalho. Ela teria assumido uma nova morfologia, mas não somente
continuaria existindo como mantém uma centralidade na configuração contemporânea
do modo de produção capitalista. Não quero ser injusto esquecendo contribuições
essenciais nesta direção, mas bastaria citar a consistente obra de Ricardo
Antunes, as contribuições valorosas de Ruy Braga, Giovanni Alves, Edvânia
Lourenço, Maria Orlanda Pinassi, Marilda Iamamoto, só para citar algumas das
pessoas que ficaram na linha de frente desta resistência contra a ideologia do
“fim do mundo do trabalho”.
Queria, aqui, somar minha modesta contribuição no que diz respeito à
configuração de classe e da consciência de classe. Já faz tempo que temos
alertado para o fato de que a mudança da morfologia da classe trabalhadora,
apesar de não alterar (concordando com os autores acima citados) a sua
centralidade na ordem capitalista contemporânea, não deixar de produzir
importantes alterações no que diz respeito à consciência de classe.
Resumidamente, sabemos que não há uma correspondência mecânica entre o ser da
classe e sua consciência, de forma que os trabalhadores, pela posição que ocupam
nas relações sociais, possam adquirir uma consciência correspondente. Os
trabalhadores, na forma imediata de sua manifestação, são apenas indivíduos
inseridos na divisão social do trabalho e na concorrência, se apresentando
portanto como adversários imediatos uns dos outros. Nesta forma imediata,
configuram aquilo que Sartre chama de “serialidade”. Isto é: estão no mesmo
espaço, fazendo a mesma coisa, mas não se conformam como um grupo ou uma forma
mais orgânica de unidade política. É no enfrentamento contra as contradições da
ordem capitalista, primeiro de forma isolada e casual, depois de maneira mais
sistemática, que esses indivíduos encontram pontos de fusão que podem levá-los à
condição de classe, primeiramente como mera oposição aos capitalistas (como
classe em si), depois, em certas condições, como possibilidade de se constituir
como sujeitos de um projeto histórico contra e para além do capital (classe para
si).
Como vemos, para a teoria marxista, a classe e a consciência de classe se
inserem em um movimento de continua constituição e desconstrução, determinado
pela luta de classes, como bem captou E. P. Thompson. Ora, quando analisamos o
movimento objeto da classe trabalhadora desde a crise da autocracia burguesa nos
anos 1970 até hoje, vemos claramente um processo no interior do qual se tornou
possível a fusão de classe e a passagem para uma classe em si nos anos 1980,
seguida de uma interrupção nesse caminho e sua desconstrução como classe que
culmina no período de conciliação de classes dos governos petistas e sua
reversão à serialidade no período recente.
Caso agreguemos a isso as transformações no mundo do trabalho, compreenderemos a
base material que, somada aos desvios políticos, leva a uma configuração da
classe em novo e brutal momento de serialidade. O que nos interessa neste
momento é entender como isso se manifesta em um particular comportamento
político. Para tanto, temos que remeter nossa análise para uma passagem do
famoso O 18 de brumário de Luís Bonaparte em que Marx trata dos camponeses,
naquela oportunidade procurando responder qual seria a base de massa para a
aventura golpista de Luís Bonaparte.
Em síntese, Marx afirma que os camponeses, pela posição que ocupavam nas
relações sociais e diante das formas de propriedade, formavam um certo
agrupamento de classe mas no entanto não constituíam uma classe propriamente
dita. Por viverem do mesmo modo, partilharem de uma determinada cultura e
manifestarem certos interesses, formavam uma classe; mas, não formavam uma
comunidade mais ampla do que aquela dos interesses e situações mais imediatas,
não formavam qualquer união nacional, não podiam se representar, tinham que ser
representados, por isso, não eram ainda uma classe. Seriam, na metáfora do
autor, como “batatas que somadas, constituem um saco de batatas”.
Muita gente considera que isso não passava de um preconceito de Marx em relação
aos camponeses. Mas na minha avaliação essa observação não vale apenas para as
condições objetivas do campesinato na França daquela época, e pode servir para
qualquer classe em seu processo de formação – inclusive para o proletariado
urbano e, mais do que isso, cabe perfeitamente para a condição se serialidade
que estamos descrevendo.
Os trabalhadores se fragmentaram: romperam-se os laços que os uniam, eles se
dispersaram geograficamente, foram derrotados politicamente (em parte, traídos),
serializaram-se. Mas, uma vez fragmentados, invisíveis e desprezados, ainda
existem e em seu conjunto são os responsáveis pela produção e distribuição de
tudo que é necessário à existência, desde produtos, serviços, manutenção e tudo
que faz a materialidade da economia girar em favor do capital. Uma vez quebrados
em sua unidade política de classe, voltam-se a outras formas de pertencimento e
grupalização, na qual expressam seus interesses imediatos e os elementos
constitutivos de sua cultura.
No caso presente, o que os uniu foi o ódio. Vejam, não é um ódio ao PT, é um
profundo descontentamento com a vida, com a violência diária vinda da
criminalidade, das condições de moradia, um ódio diante de uma sociedade
hipócrita que valoriza a meritocracia e retira as condições para que se
desenvolvam suas potencialidades, um ódio contra uma corja de sangue sugas que
controlam as instituições de governo para saquear os recursos e enriquecer
ilicitamente, um ódio contra uma democracia representativa que não representa
ninguém além daqueles que dela se apropriaram como instrumento de garantia de
privilégios, com juízes que se colocam sob a capa da lei para ser injustos,
contra a desigualdade gritante, contra a opulência de poucos que são sempre os
maus… Enfim, ressentimento e ódio contra um mundo que os despreza.
A centro esquerda viu nesse ódio, por vezes, apenas um recurso eleitoral, como
quando tentou se valer dele no segundo turno de Dilma contra Aécio em 2014, para
depois das eleições voltar ao discurso pragmático da governabilidade aliando-se
aos seus algozes. O fato é que essa força foi desprezada no sentido de dar forma
a uma consciência de classe, anticapitalista e socialista.
Coube à direita dar forma a esse ódio, colando nele a máscara de seu adversário.
O PT é o culpado da crise, das filas no atendimento na saúde, da precariedade da
educação, da corrupção, da desagregação das famílias, da explosão de uma
sexualidade aberrante que ameaça, de mulheres que levantam a voz e colocam o
dedo na cara de quem as oprime, de índios (meu deus, ainda tinham índios neste
país) querendo as terras tão bem ocupadas por mineradoras, madeireiras e o
agronegócio. A mensagem da extrema direita encontra o ódio de uma boa parte dos
trabalhadores e os representa: essa democracia é uma farsa (pode fechar o
Congresso e o STF), este Estado é um cabide de emprego, privatiza tudo, manda a
polícia atirar para matar, tirem os doutrinadores das escolas, matem viados,
negros, índios, feministas, petistas, comunistas…
Esse ódio e esse enorme ressentimento não nasce dos trabalhadores, como é
possível perceber. Ele vem de fora, contrabandeando coisas que os trabalhadores
não teriam porque temer. Por que um trabalhador deveria se preocupar com uma
maior ou menor presença do Estado na economia, ou defender privatizações, ou
destruir sua possibilidade de se aposentar um dia? Esse ressentimento nasce dos
setores médios, que vêm acumulando ódio há anos. A extrema direita, que como
sempre nasce dos segmentos médios e pequeno-burgueses, logrou colar seu ódio e
ressentimento no ódio dos trabalhadores e, assim, ganhar base de massas para seu
projeto reacionário.
A chave do enigma está em uma frase do Marx que citamos acima: não podem se
representar, tem que ser representados. A impossibilidade de se conformar como
uma classe encontra a unidade fora de si, em tempos de crise e acirramento da
luta de classes, numa figura salvadora, aparentemente acima dos interesses em
luta, que se sobrepõe à imagem abstrata de Nação e Ordem e as personifica: Luís
Bonaparte na França do Segundo Império, Getúlio Vargas na década de 1930, Perón
na Argentina, ou em outras situações mais agudas em que se somam outras
determinações, Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha… Mais recentemente, Tump
nos EUA, e agora Bolsonaro no Brasil.
A guerra, assim como a luta de classes, não é racional. Como dizia Weber,
trata-se da manipulação de paixões irracionais para fins racionalmente
calculados. Machado de Assis, em seu magistral Quincas Borba, dizia que era como
uma disputa de duas tribos por um campo de batatas que não podia ser dividido,
pois se isso fizessem os dois lados morreriam de inanição. Por isso, conclui o
literato, é compreensível que pessoas sensatas festejem um vitória que custou o
assassinato de seus adversários, “pelo motivo real de que o homem só comemora e
ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma
pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou
compaixão; ao vencedor, as batatas”.
No nosso triste cenário, não creio em compaixão. Quem ganhou as eleições foram
as batatas.
In
PCB
https://pcb.org.br/portal2/21313/o-sujeito-oculto-ao-vencedor-as-batatas/
5/11/2018
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
A arma silenciosa de Washington para guerras pouco silenciosas. Uma crise económica global para 2019
F. William Engdahl
O diário.info tem publicado vários textos que abordam o esforço que várias
importantes economias vêm fazendo no sentido de se libertarem da dolarização
EUA. Este artigo acrescenta outros dados a essa reflexão, apontando que a
hegemonia do dólar está muito longe de ser abalada. E que, pelo contrário, o
dólar tem ainda condições para constituir uma autêntica arma de guerra contra
economias e povos que os EUA pretendam atacar.
Nos dias de hoje a mais mortífera arma de destruição maciça do arsenal de
Washington não reside no Pentágono nem nas suas máquinas de matar tradicionais.
É na realidade uma arma silenciosa: a capacidade que Washington possui de
controlar a provisão global de dinheiro, através dos actos da Reserva Federal
(Fed) de propriedade privada em coordenação com o Tesouro dos EUA e grupos
escolhidos de Wall Street. Desenvolvida ao longo de décadas desde que Nixon
suspendeu em Agosto de 1971 a paridade entre dólar e ouro, o dólar é, hoje em
dia, uma arma financeira que poucos – se é que alguns – dos países rivais estão
preparados para defrontar, pelo menos por agora.
Há dez anos, em Setembro de 2008, o Secretário do Tesouro dos EUA, o antes
banqueiro de Wall Street Henry Paulson, provocou deliberadamente o colapso do
sistema global do dólar ao permitir que se afundasse um banco de investimento de
média dimensão de Wall Street, o Lehman Brothers. Nesse momento, e com a ajuda
dos infinitos recursos da Fed para criar dinheiro conhecidos como Quantitative
Easing (Alívio Quantitativo), a meia-dúzia dos maiores bancos de Wall Street -
incluindo o Goldman Sachs do próprio Paulson – foram salvos do colapso que a sua
exótica política de securitização financeira tinha criado. O Fed agiu também no
sentido de atribuir um volume sem precedentes de centenas de milhares de milhões
de linhas de crédito em dólares EUA a bancos centrais da UE para prevenir uma
insuficiência de dólares que teria claramente feito ruir toda a arquitectura
financeira global. Seis bancos da eurozona tinham na altura disponibilidades em
dólares que excediam os 100% do PIB dos seus países.
Um mundo cheio de dólares
Desde essa altura de há uma década o fornecimento de dólares baratos ao sistema
financeiro global subiu a níveis sem precedentes. O Instituto para a Finança
Internacional (IIF) em Washington estima que a dívida das famílias, governos,
empresas e do sector financeiro nos 30 maiores mercados emergentes subiu para
211% do PIB conjunto no início do corrente ano. Estava em 143% em 2008.
Dados adicionais do IIF de Washington indicam a escala de uma armadilha de
dívida cuja detonação está ainda a iniciar-se nas economias menos desenvolvidas,
desde a América Latina até à Turquia.
Excluindo a China, a dívida total dos mercados emergentes, em todas as moedas
incluindo as domésticas, quase duplicou passando 15 milhões de milhões de
dólares em 2007 para 27 milhões de milhões no final de 2017. Segundo o IIF, a
dívida da China passou de 6 milhões de milhões para 36 milhões de milhões de
dólares. Para o conjunto de países de Mercados Emergentes, com as suas dívidas
denominadas em dólares EUA passaram de 2,8 milhões de milhões em 2007 para cerca
de 6,4 milhões de milhões de dólares. Empresas turcas devem agora quase 300
milhões de milhões de dólares em dívida denominada em moeda estrangeira – mais
de metade do seu PIB -, na sua maioria em dólares. Os mercados emergentes
preferiram o dólar por muitas razões.
Enquanto essas economias emergentes cresceram, ganhando dólares de exportação a
uma taxa crescente, a dívida podia ser gerida. Agora tudo isso começa a mudar. O
agente dessa mudança é o mais político dos bancos centrais do mundo, a Reserva
Federal dos EUA cujo presidente, Jerome Powell, foi antes um dos sócios do pouco
recomendável Grupo Carlyle. Argumentando que a economia interna dos EUA está
forte o suficiente para que os juros do dólar EUA possam regressar ao “normal,”
o Fed deu início a uma viragem titânica para a economia mundial. Powell e a Fed
sabem muito bem o que estão a fazer. Estão a atarraxar os parafusos do dólar de
modo a precipitar uma nova crise económica de grandes dimensões em todo o mundo
emergente, em especial em economias chave eurasianas tais como Irão, Turquia,
Rússia e China.
Apesar de todos os esforços de Rússia, China, Irão e outros países para se
afastarem da dependência do dólar para o comércio internacional e a finança, o
dólar permanece incontestado como a moeda de reserva dos bancos centrais, cerca
de 63% de todas as reservas dos bancos centrais. Para além disso, mais de 88%
das transacções internacionais diárias são efectuadas em dólares EUA. A maior
parte do comércio de petróleo, de ouro e de «commmodities» é denominado em
dólares. Desde a crise grega de 2011 que o euro deixou de constituir um sério
rival à sua hegemonia enquanto moeda de reserva. Hoje a sua parcela nas reservas
é de cerca de 20%.
Desde a crise financeira de 2008 o dólar e a importância da Fed expandiram-se a
níveis sem precedentes. Apenas agora começa isso a ser entendido, à medida que o
mundo começa a sentir, pela primeira vez desde 2008, indisponibilidades reais em
dólares que significam um custo muito mais elevado para conseguir o empréstimo
de mais dólares para refinanciar a dívida em dólares. O pico para o total da
dívida dos mercados emergentes deverá suceder em 2019, com dívidas de mais de
1,3 milhões de milhões de dólares a atingir a maturação.
Aqui surge a armadilha. A Fed está não só a sugerir que irá aumentar mais
agressivamente as taxas sobre fundos Fed EUA. Está também a reduzir o nível da
dívida ao Tesouro EUA que comprou após a crise de 2008, chamada Redução
Quantitativa (QT ou Quantitative Tightening).
De QE a QT…
Depois de 2008 a Fed começou aquilo que foi designado como Alívio Quantitativo
(Quantitative Easing, QE). A Fed comprou uma estarrecedora quantidade de títulos
dos bancos até um pico de 4,5 milhões de milhões de dólares, partindo de apenas
900 mil milhões no início da crise. A Fed anuncia agora que planeia reduzir esse
montante em pelo menos um terço nos meses próximos.
O resultado do QE foi que os maiores bancos por detrás da crise financeira de
2008 foram inundados com liquidez pela Fed e as taxas de juro caíram para zero.
A liquidez dos bancos foi por sua vez investida em qualquer lugar do mundo que
oferecesse compensações mais elevadas, uma vez que os títulos EUA pagavam perto
de zero juros. Foi investido em títulos-lixo do sector petroleiro dos xistos,
numa mini bolha habitacional nos EUA. Mais acentuadamente a liquidez em dólares
encaminhou-se para mercados emergentes de risco mais elevado como Turquia,
Brasil, Argentina, Indonésia, Índia. Os dólares inundaram a China onde a
economia florescia. E os dólares choveram sobre a Rússia antes das sanções EUA
do início deste ano começarem a desencorajar investidores estrangeiros.
Agora a Fed deu início à QT (Quantitative Tightening – Restrição Quantitativa),
o inverso da QE. Em finais de 2017 a Fed começou a reduzir as suas carteiras de
títulos, o que reduz a liquidez em dólares do sistema bancário. Nos últimos
meses de 2014 a Fed tinha já cessado a compra de novos títulos do mercado. A
redução da carteira de títulos na Fed, por sua vez, impulsionou uma subida das
taxas de juro. Até este Verão, foi tudo “gentilmente, gentilmente.” Aí o
Presidente dos EUA desencadeou uma ofensiva de guerra comercial apontada
globalmente, criando uma enorme incerteza na China, América Latina, Turquia e
outros lugares, e novas sanções contra a Rússia e o Irão.
Hoje a Fed está a permitir que 40 milhares de milhões de dólares do seu Tesouro
e títulos de empresas atinjam a maturidade sem os substituir, subindo para 50
milhares de milhões de dólares mensalmente para o final deste ano. Isso retira
esses dólares do sistema bancário. Acrescenta-se a isso, para agravar o que está
rapidamente a tornar-se uma insuficiência de dólares em grande escala, a redução
de impostos de Trump está a somar centenas de milhares de milhões de dólares ao
défice, que terá de ser financiado pelo Tesouro dos EUA através da emissão de
novos títulos de dívida pública. Na medida em que a dívida do Tesouro sobe, o
Tesouro ver-se-á forçado a pagar taxas de juro mais altas para vender esses
títulos. Taxas de juro mais elevadas estão já a actuar como um íman que atrai
dólares EUA de toda a parte do mundo.
Juntando-se à redução global, e sob a pressão da dominância da Fed e do dólar,
o Banco do Japão e o Banco Central Europeu foram forçados a anunciar que iriam
deixar de compra títulos das suas respectivas iniciativas QE. Desde Março que o
mundo se encontra de facto numa nova era de QT.
A partir daqui a coisa tende a ser dramática a não ser que a Reserva Federal
faça uma inversão de marcha e reate uma nova operação de liquidez QE a fim de
evitar uma crise sistémica global. Na actual conjuntura isso parece improvável.
Hoje, os bancos centrais em todo o mundo – mais ainda do que em 2008 – dançam a
música que a Reserva Federal toca. Tal como Henry Kissinger alegadamente
constatou nos anos 70 “se controlas o dinheiro, controlas o mundo.”
Uma Nova Crise Global em 2019?
Enquanto até ao momento o impacto da contracção do dólar tem sido gradual, está
em vias de se tornar dramático. O balanço do conjunto dos bancos centrais G-3
mostra um crescimento de uns meros 76 milhares de milhões de dólares na primeira
metade de 2018, comparado com uma subida de 703 milhares de milhões no semestre
anterior – quase metade de um milhão de milhões de dólares desaparecidos da
bolsa de empréstimos global. Bloomberg estima que a compra de activos por parte
dos três maiores bancos centrais cairá para zero no final deste ano, quando nos
finais de 2017 andava perto dos 100 milhares de milhões por mês. Isso traduz-se
anualmente num equivalente de menos 1,2 milhões de milhões de liquidez de dólar
em todo o mundo em 2019.
A lira turca caiu para metade em relação ao dólar EUA desde o início deste ano.
Isso significa que grandes empresas de construção turcas e outras que estavam em
condições de contrair empréstimos em dólares “baratos,” têm agora que dobrar o
total de dólares EUA para o serviço dessas dívidas. A dívida não é na sua
maioria dívida pública turca, mas sim dívida privada. As empresas turcas devem o
que se estima em 300 milhares de milhões de dólares em moeda estrangeira,
dólares na sua maioria, quase metade do PIB total do país. A liquidez em dólares
manteve e economia turca a crescer desde a crise financeira de 2008 dos EUA. E
não apenas a Turquia: países asiáticos desde o Paquistão à Coreia do Sul, com
excepção da China, assumiram empréstimos num valor estimado de 2,1 milhões de
milhões de dólares.
Enquanto o dólar se depreciava em relação a essas moedas e a Fed mantinha
baixas a as taxas de juro – como sucedeu em 2008-2015 – o problema era pequeno.
Agora tudo está a mudar e de forma dramática. O dólar está a apreciar-se
fortemente em relação a todas as outras moedas, 7% este ano. Em combinação com
isto, Washington está a desencadear deliberadamente guerras comerciais,
provocações políticas, a ruptura unilateral do tratado do Irão, novas sanções
contra Rússia, Irão, Coreia do Norte, Venezuela, e provocações sem precedentes
contra a China. Ironicamente, as guerras comerciais de Trump conduziram a uma
“fuga para a segurança” para fora de países emergentes como Turquia ou China e
em direcção aos mercados EUA, com maior relevo para o mercado de títulos.
A Fed está a tornar o dólar EUA numa arma, e as pré-condições são em muitos
aspectos semelhantes às que se verificaram no decurso da crise asiática de 1997.
Tudo o que foi necessário na altura foi um ataque concertado por parte dos EUA
sobre fundos hipotecários sem cobertura nas economias do Tier Asiático, o Thai
Baht cuja queda provocou o colapso em muito do sudoeste asiático e mesmo em Hong
Kong. Hoje o gatilho é Trump e os seus belicosos tweets contra Erdogan.
As guerras comerciais EUA de Trump, as sanções políticas e as nova legislação
sobre impostos, no contexto de uma clara estratégia da Fed de contracção da
disponibilidade de dólares, proporcionam o pano de fundo para o desencadear de
uma guerra do dólar global contra opositores-chave, sem em qualquer caso ter
sido declarada guerra. Tudo o que foi necessário foi uma série de provocações
contra a enorme economia chinesa, provocações políticas contra o governo turco,
novas sanções sem qualquer fundamento contra a Rússia, e bancos desde Paris a
Milão a Francoforte e em qualquer outro lugar com empréstimos em dólares em
mercados emergentes de risco mais elevado começaram a correr em busca de saída.
A Lira entra em colapso em resultado de vendas em situação de quase pânico, a
moeda iraniana entra em crise, a queda do rublo russo. Tudo isto, tal como
também o declínio do Renmibi chinês, reflecte o início de uma quebra na
disponibilidade global do dólar.
Se Washington consegue, a 4 de Novembro, cortar todas as exportações iranianas
de petróleo, os preços (dólar) do petróleo irão subir acima dos 100 dólares,
aumentando dramaticamente a carência de dólares no mundo em desenvolvimento.
Isto é guerra por outros meios. A estratégia da Fed para o dólar actua agora
como uma “arma silenciosa” para guerras não tão silenciosas como isso. Se
prosseguir provocará um sério revés para a crescente independência dos países
eurasiáticos em torno da alternativa ao dólar que a Nova Estrada da Seda de
Rússia e China constitui. O papel do dólar enquanto principal moeda de reserva
global e a capacidade da Reserva Federal em a controlar é uma arma de destruição
maciça e um pilar estratégico do controlo do superpoder norte-americano. Estarão
os países da Eurásia prontos para agir de forma efectiva em relação a ele?
Fonte:
https://www.globalresearch.ca/washingtons-silent-weapon-for-not-so-quiet-wars-a-world-full-of-dollars/5651266
In
O DIARIO.INFO
https://www.odiario.info/a-arma-silenciosa-de-washington-para/
8/11/2018
quarta-feira, 7 de novembro de 2018
A crise econômica e social profunda do Brasil.
Edu Montesanti
“Nenhum dado suporta tal narrativa enganosa. A oligarquia prefere enterrar
definitivamente o país, do que reconhecer erros”, economista Ladislau Dowbor.
O diálogo ficou preso no Brasil hoje não só pelo ódio, indiscriminadamente
difundido por personagens como Jair Bolsonaro. Inúmeros “mitos” foram criados
recentemente no gigante sul-americano, através dos quais a grande mídia promoveu
os políticos e avançou uma agenda para o establishment social, ou seja, as
elites brasileiras.
A confusão social foi necessária para atingir esse objetivo. Ambos os lados,
totalmente infundados, discutindo um “ponto” que leva a lugar algum – mas mais
divisão -, tem sido a regra no Brasil.
Um “mito” amplamente difundido diz que “gastos” sociais durante os anos do
Partido dos Trabalhadores (PT) geraram a atual crise econômica culpando 30
milhões de brasileiros saídos da pobreza de 2003 a 2016, removendo o Brasil do
Mapa da Fome Mundial da ONU (nunca melhorando o saneamento básico, as condições
habitacionais ou a saúde pública) devido a um aumento real do salário mínimo, um
pleno emprego (nunca melhorando as condições de trabalho nem proporcionando um
acesso justo à justiça em todos os segmentos sociais) e a programas sociais como
Bolsa Família.
“O Bolsa Família, que atingiu cerca de 50 milhões de pessoas pobres, custou
cerca de 30 bilhões de reais [cerca de US$ 8,1 bilhões]. Em 2015, as taxas de
juros da dívida pública custaram R$ 500 bilhões, cerca de 8,5% do Produto
Interno Bruto”, apontou o economista brasileiro Ladislau Dowbor, autor de A
Era do Capital Improdutivo.
Em 2016, 42,04% da produção brasileira foi transferida para o setor financeiro,
4,11% para saúde pública, 3,49% para educação e 1% para Bolsa Família.
“Estamos na era do dinheiro virtual. Extrair dinheiro de milhões tornou-se uma
tarefa simples; pagando por uma compra de cartão de crédito, os brasileiros
pagam aos bancos um pedágio de 5%.
“Comprar bens domésticos no prazo envolve uma participação média de 130%. O
cheque especial está em 320%, o rotativo no cartão está acima de 400%. As
taxas de juros no Brasil, segundo os produtos, variam entre 800% e 1200% em
relação ao que é cobrado, por exemplo, na Europa”, diz Dowbor.
O renomado economista aponta para a Constituição Federal para afirmar que tal
“política” tem sido criminosa no Brasil. “O artigo 192 estabelece um limite de
12%, mais a inflação, como a taxa máxima de juros a ser cobrada no país.” A
lista do Banco Central do Brasil mostra como as taxas de juros – especialmente
durante os anos do PT – violaram a Constituição local. 15% no governo Dilma e
26,32% no governo Lula [ver tabela à esquerda, “Taxa Selic,% aa” (aa = por ano).
Ao mesmo tempo, a evasão fiscal, um problema antigo muito pior do que a
corrupção, mas nunca abordada pelo sistema de justiça local, custou 906 bilhões
de reais (cerca de US$ 245,07 bilhões) ao país.
Embora o salário mínimo tenha aumentado nos anos PT como nunca antes na história
do Brasil, ele tem sido insuficiente, inferior ao salário mínimo paraguaio
proporcionalmente e absolutamente.
Por outro lado, o Brasil nunca viveu, nem nos anos PT, sob um “cogumelo” de
investimento social, uma “Revolução Social” como o partido – e sua mídia
“alternativa” – por algum tempo tem anunciado. Luiz Inácio Lula da Silva nunca
falhou em suas promessas de 2002 para atender os interesses dos grandes bancos,
das classes altas e do Consenso de Washington.
Nem o Brasil viveu uma Revolução Social em nenhum momento da história, nem os
pobres através das “sobras” do PT – como observa Dowbor – durante seus 13 anos
no poder são culpados da atual crise profunda.
Abaixo, a entrevista completa com Ladislau Dowbor, autor e co-autor de mais de
40 livros, ex-consultor de várias agências da ONU e de governos estaduais e
municipais brasileiros. Esta entrevista foi gravada antes das eleições.
Edu Montesanti: Como o Brasil chegou a essa situação econômica? Qual é a origem
da crise atual?
Ladislau Dowbor: Não há muito mistério sobre o que está acontecendo no Brasil. O
que estamos vivendo agora é a boa e velha luta pelo excedente social. A coisa
mais prática para entender a dinâmica é simplesmente seguir a história, contar a
história como ela foi.
O ponto de partida é a Constituição de 1988, que definiu um conjunto de direitos
sociais. Particularmente, o Artigo 192 estabelece um limite de 12%, mais a
inflação, como a taxa máxima de juros a ser cobrada no país.
O segundo momento chave é o colapso da hiperinflação em 1994. Na época, havia 44
países sob hiperinflação. Você não poderia participar do sistema financeiro
global em expansão, como uma moeda que mudava de tamanho todos os dias. Com o
retorno da democracia, uma constituição moderna e baixa inflação, o Brasil
voltou à modernidade.
A desconstrução começou logo em seguida: em 1995, o governo aprovou duas leis
fundamentais, uma que concedia remuneração muito elevada a títulos da dívida
pública (taxa Selic) e outra que eliminava o imposto sobre lucros e dividendos
distribuídos.
Na época, os banqueiros conseguiam aplicar o dinheiro dos clientes em títulos
públicos, pagando em média 25%, cerca de 20% reais.
Com isso, grande parte dos recursos públicos foi desviada para o pagamento das
taxas de juros da dívida pública. E aqueles que ganhavam com esse agiota estavam
isentos de impostos. Isso dura até hoje.
Até 2018, devemos transferir para o sistema especulativo privado, apenas com
esse mecanismo, cerca de 6% do PIB.
O desmantelamento da Constituição foi agravado pela lei de 1997, que tornava
legal o financiamento de campanhas de corporações de até 2% do capital do ano
anterior.
Essa legalização da apropriação corporativa do sistema político, em particular,
permitiu que o Congresso se convertesse em bancos do agronegócio, bancos e
outros conglomerados.
O Supremo Tribunal Federal levou 18 anos para perceber, no final de 2015, que o
Artigo 1 da Constituição, “todo poder emanado do povo”, havia sido violado.
Foi um Congresso inconstitucional, que viria a votar o impeachment da então
presidente Dilma Rousseff, e o conjunto de leis que fizeram o Brasil retroceder
décadas.
Em 1999, a Proposta de Emenda Constitucional pretendia alterar o artigo 192,
eliminando os limites de juros a serem cobrados. Transformado em uma Emenda
Constitucional em 2003, encerrou este estágio de desconstrução da Constituição,
tornando legal o país tirar hipotecas.
Edu Montesanti: Como o governo Lula e Dilma lidaram com essa situação?
Ladislau Dowbor: O candidato Lula, em junho de 2002, leu publicamente a Carta
aos brasileiros, dirigida essencialmente aos banqueiros, na qual ele se
comprometeu a respeitar o sistema assim criado. Ele deixou claro na época que
teria prazer em fornecer à população três refeições por dia. Ele trabalharia com
as sobras, sem perturbar a corrente principal dos intermediários financeiros.
As sobras tornaram possível fazer um milagre. Para se ter uma idéia, o Bolsa
Família, que chegou a 50 milhões de pessoas pobres, custou cerca de 30 bilhões
de reais. Em comparação, em 2015, o pagamento de juros da dívida pública foi de
500 bilhões de reais.
O Banco Mundial avaliou o período de 2003 a 2013 como a década de ouro, a década
de ouro da economia brasileira. O mecanismo é simples: aumentar a demanda
reprimida da base populacional, com mais de uma centena de programas de
inclusão, como Luz para Todos, Milhões de Cisternas, aumento do salário mínimo e
outras medidas, ampliou o mercado interno para produtos básicos de consumo
popular.
O desemprego caiu de 12% em 2002 para 4,8% em 2013, o que aumentou ainda mais a
demanda. Como a máquina produtiva do Brasil trabalha com grande capacidade
ociosa, não houve impacto inflacionário.
Em dez anos, o país mudou de rumo, em particular porque o aumento da renda na
base da população foi acompanhado pela expansão do consumo coletivo de bens
públicos como saúde, educação, o chamado “salário indireto”.
Edu Montesanti: Mesmo considerando alguns avanços sociais, nem o governo Lula
nem Dilma mudaram a estrutura altamente financeirizada do Brasil, não é o
professor Dowbor?
Ladislau Dowbor: Estamos na era do dinheiro virtual, sinal magnético imaterial.
Tirar dinheiro individualmente dos bolsos dos pobres, um a um, em tempo de
papel-moeda, só era viável através da inflação.
Nesse novo sistema, onde todos têm um cartão de crédito no bolso, a extração de
dinheiro de milhões tornou-se simples e os intermediários financeiros aprenderam
rapidamente. Para se ter uma idéia, no pagamento de uma compra com cartão de
crédito, o brasileiro paga aos bancos um pedágio de 5%.
Comprar bens de consumo no prazo envolve uma participação média de 130%. O
cheque especial está em 320%, o rotativo no cartão está acima de 400%. As taxas
de juros no Brasil, segundo os produtos, variam entre 800% e 1200% em relação ao
que é cobrado, por exemplo, na Europa.
O nó estava apertando. Em março de 2005, a família média brasileira tinha uma
dívida que correspondia a 18% de sua renda. Em março de 2013, a dívida chegou a
43%, não muito alta em termos comparativos, mas ao pagar juros astronômicos
reprimiu o poder de compra das famílias. Este sistema ainda está de pé. Em junho
de 2018 tivemos 63,3 milhões de adultos endividados, ou seja, sem possibilidade
de recorrer a crédito, por não poderem pagar dívidas anteriores. Se
acrescentarmos a esse número as famílias, estamos falando de metade da população
brasileira [212 milhões de pessoas].
O resto é um mecanismo previsível. O colapso do consumo das famílias, que é
sentido com força a partir de 2012, reduz naturalmente a atividade empresarial.
As empresas – não as grandes que levam o dinheiro para o exterior ou negociam no
BNDES -, mas os 9 milhões de pequenas e médias empresas, não só enfrentaram uma
queda na demanda, como também interesse nos bancos, como 29% sobre o capital em
fevereiro de 2018.
E para aplicar o dinheiro em títulos da dívida pública, simplesmente rendeu mais
com risco zero e liquidez total do que para fazer investimentos produtivos.
Tanto a redução da demanda doméstica quanto a redução da atividade comercial
naturalmente reduziram as receitas do Estado. E o próprio estado viu seu
vazamento de receita para o pagamento de juros sobre a dívida pública.
Todo o sistema se tornara financeirizado. O volume de juros extraídos das
famílias e empresas em 2015, segundo o Banco Central, chegou a 1 trilhão de
reais, 16% do PIB. E os juros pagos pelo governo aos bancos, sobre a dívida
pública, chegaram a este ano 500 bilhões de reais, 8% do PIB.
Além disso, o fluxo de juros extraídos da população, das empresas e do Estado
chega a mais de 20% do PIB. É claro que nenhuma economia pode sobreviver dessa
maneira, e a recessão brasileira não tem realmente nenhum mistério nesse
sentido.
O drama que cresceu, conforme o sistema financeiro sangrou a economia, ficou
claro para Guido Mantega, para Dilma e para o próprio Lula. Em 2012, Dilma
decidiu começar a conter o interesse. Reduziu as taxas de juros para famílias e
empresas em bancos públicos, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, e
reduziu a remuneração dos títulos públicos de 12% para 7,25%.
A partir deste momento, a guerra começa. Muitos correntistas deixaram bancos
privados, como Itaú, Bradesco e Santander, e foram refugiar-se da agiotagem em
bancos públicos. Isso significava, para os bancos privados, que a Carta aos
brasileiros havia sido rasgada.
E os rentistas em geral, os banqueiros, bem como a classe média alta e muitas
empresas produtivas, ficaram revoltados com o fato de que o rendimento fácil da
dívida pública foi drasticamente reduzido. A partir de 2013, não há mais governo
no Brasil, há boicotes, demonstrações entusiasticamente infladas pela mídia.
Um braço de ferro começou então a ser imposto ao governmet. Mesmo reeleita,
Dilma não teve forças para enfrentar a ofensiva de renda, e nomes como Joaquim
Levy, um homem dos bancos, foram chamados pelo então presidente de responsável
pela política econômica do governo.
Eles haviam quebrado a economia, então uma desconstrução política havia
começado.
Edu Montesanti: Fale sobre a detenção de Lula, o impeachment de Dilma devido a
um crime supostamente fiscal, culpado pela crise econômica pela grande mídia e
pela oposição, e nas últimas semanas do governo Temer.
Ladislau Dowbor: Dilma foi retirada sem nenhum crime, Lula foi preso sem culpa.
Hoje temos o Itaú no comando do Banco Central e o Bradesco no comando do
Ministério da Fazenda.
O desemprego subiu novamente para 13%. No mesmo período em que o PIB caiu 3,5%,
o Bradesco obteve um aumento de lucro de 25% e o Itaú de 32%. Hoje temos o
retorno da fome e o incrível aumento até da mortalidade infantil.
Há quatro anos, os banqueiros estão “consertando” o país, depois de anunciar que
Dilma havia gerado a crise com uma política populista que teria rompido as
finanças públicas. Os banqueiros instalariam a austeridade, portanto, uma
política séria.
Nenhum dado suporta a narrativa criada. Isso é um engano. O que não é uma farsa
é que as medidas de Dilma visavam restaurar o equilíbrio do desenvolvimento do
país, reduzindo o sangramento gerado pelo sistema financeiro improdutivo. As
contas públicas obtiveram um superávit de 1,4% do PIB em 2013, e mesmo com a
drenagem de 3,5% do PIB paga em juros da dívida pública, o resultado nominal foi
de -2,1%.
Nada de dramático, mas o essencial é que o desequilíbrio nunca foi originado por
excessos de políticas sociais, de “medidas populistas”, mas pelo excesso de
interesse pago ao sistema de intermediação financeira e à classe média alta.
Uma financeirização improdutiva dessa dimensão rompe qualquer economia. O resto,
são resultados esperados. Como vimos, esperamos por quatro anos. Em 2017, o
resultado nominal do governo apresenta um déficit de 7,0%.
Edu Montesanti: O que o novo governo deve fazer para superar a crise?
Ladislau Dowbor: A tarefa do próximo governo brasileiro é clara: usar os bancos
oficiais para reduzir a agiotagem, reduzindo as taxas de juros, reintroduzindo
assim os mecanismos de concorrência no sistema bancário atual.
Aliviar o consumo através da redução de impostos indiretos e tributar a
especulação financeira, reintroduzindo, em particular, o pagamento de impostos
sobre lucros e dividendos distribuídos.
Retomar a expansão das políticas sociais que favorecem o debaixo para cima da
sociedade, que libera renda para o consumo de bens e serviços.
A economia brasileira não está quebrada. As empresas estão operando com uma
capacidade ociosa gigantesca, e a retomada do virtuoso círculo ascendente é
perfeitamente viável.
O que é inviável é convencer a oligarquia brasileira de que deve se reproduzir.
Muito menos viável, está levando-os à compreensão humilhante de que, ao romper o
ciclo virtuoso de redução das desigualdades, eles se mataram.
A idiotice desfruta, como bem faz Barbara Tuchman, de um imenso poder de
inércia.
Fonte: Global Research.ca
In
DINÂMICA GLOBAL
https://dinamicaglobal.wordpress.com/2018/11/07/a-crise-economica-e-social-profunda-do-brasil/
7/11/2018
terça-feira, 6 de novembro de 2018
A perda da supremacia militar e a miopia do planeamento estratégico dos EUA (II)
– Um livro de Andrei Martyanov
por Daniel Vaz de Carvalho
"Para Samuel Huntington (autor de "The clash of Civilisations"), a
universalidade da cultura ocidental sofre de três problemas: é
falsa, é imoral e é perigosa. A imposição destes três parâmetros na
Rússia mostra a falácia do pensamento doutrinário dos EUA em pensar
que o mundo pode ser levado a um sistema global capitalista sob
domínio do Ocidente".
Andrei Martyanov [1]
1 - O erro de subestimar o adversário
Um dos mais graves erros estratégicos consiste em menosprezar o
adversário. Porém os EUA parecem preferir ilusões agradáveis a verdades
duras.
A economia russa é grosseiramente subavaliada em comparação com a
grotesca sobre-avaliação da economia dos EUA, muita da qual não tem nada
que ver com o que realmente define o poder de uma nação. (40)
A Rússia é sistematicamente comparada desfavoravelmente, por exemplo, à
Alemanha, mas a Alemanha não tem indústria espacial nem é capaz de
projetar um avião militar de tecnologia avançada, tal como relativamente à
indústria microeletrónica em que nenhum país pode comparar-se
consistentemente com a Rússia, à exceção dos EUA e da China, ou produzir
aviões SU-35 ou SU-57 invisíveis aos radares, nem construir estações
espaciais ou dispor da única alternativa global ao GPS, o sistema Glonass.
(39)
As sanções ocidentais à Rússia revelaram-se um fracasso, bem como a
tentativa do seu desmembramento a partir da guerra da Chechénia [2] . A
Rússia, país remanescente da supostamente derrotada União Soviética,
esteve sujeita a "especialistas" ocidentais que consideraram a destruição
da capacidade de combate das Forças Armadas russas uma "reforma" viável".
(135)
Em 2017, V. Putin em resposta a um jornalista alemão afirmou: o nosso
maior erro foi acreditarmos demasiado em vocês. Interpretaram-no como uma
fraqueza e exploraram isso. (137)
A única maneira de a Rússia poder ter um diálogo racional com os EUA e
por consequência na Europa, foi voltar a ser um superpoder. Ao mesmo tempo
era inevitável uma aproximação à China. (159) Foi isso que aconteceu.
2 - As capacidades militares atuais
Atualmente, a capacidade industrial, científica e tecnológica russa é de
primeira classe a nível mundial. (185)
Após a apresentação de V. Putin em março deste ano, a impressão é que em
termos de mísseis existe atualmente um abismo entre os EUA e a Rússia. A
Rússia baseada na tecnologia soviética que herdou, desenvolveu mísseis
capazes de trajetórias que desafiam quaisquer sistemas ABM. (219,220)
A conceção das armas russas foi feita para funcionar, pois disso depende
a sobrevivência de um país, que teve de lutar constantemente contra
inimigos externos. (181)
Já nos anos 70 a aviação soviética dispunha de misseis AS-6 capazes de
Mach- 3. A marinha soviética havia desenvolvido sistemas avançados de
misseis contra navios (ASM) não permitindo que um inimigo projetasse o seu
poder naval sobre o país.
As munições guiadas de alta precisão (PGM) foram desenvolvidas pela União
Soviética. O seu nível atual ficou patente na Chechénia e na Síria, mas
tal escapou aos "especialistas". (167)
Atualmente a Rússia dispõe de misseis de cruzeiro com alcance superior a
5 500 km. A marinha russa pode disparar misseis 3M14 com alcance superior
a mais de 2 500 km de qualquer parte do Mediterrâneo oriental ou do mar
Cáspio. O segredo está no grau de precisão com que foram disparados de
fora das fronteiras Sírias. E neste campo os EUA não têm a liderança.
(174)
O desenvolvimento das capacidade em "electronic counter-counter mesures"
(ECCM) ficou cabalmente demonstrado na passagem de um SU-24 junto ao USS
Donald Cook, em abril de 2016, paralisando os seus sistemas eletrónicos
(tema da capa do livro).
O avanço russo no processamento de sinais eletrónicos, pode ser também
evidenciado pelo facto de ter conseguido manipular o GPS e apoderar-se do
controlo das nuvens de drones que atacavam duas bases russas na Síria.
(192)
Na tecnologia submarina foi desenvolvido um sistema de propulsão não
nuclear extremamente silencioso, de "ar independente", com vantagens sobre
os nucleares. (186),
Os novos submarinos SSK dispararam 6 Kalibur 3M14 com intervalos de 6
segundos entre cada um sobre alvos na Síria em 5 de outubro de 2017. O
êxito foi o facto de se pensar tal não ser possível em submarinos daquela
classe. (185)
A Rússia dispõe de uma Força Aérea moderna e complexa, mas também
sistemas avançados de defesa aérea tornando a FA do adversário muito menos
eficaz. Mísseis X-32 podem ser disparados dos bombardeiros TU-22 M3 com um
alcance de 1 000 km e velocidade Mach 4.2. (175)
Esta situação impõe sérias limitações ao poder naval tornando
determinados espaços fechados a qualquer adversário. O aparecimento do
3M22 Zirkon (ASM Mach 8, alcance 1 000 km) mudou completamente o
equilíbrio do poder naval. São tecnologias para as quais a marinha dos EUA
não está preparada e o seu SM-6 não pode ser considerado um bom sistema
antimissil. (187)
Com o projeto 885 Severodviinsk de submarinos a energia nuclear armados
com modernos misseis de longo alcance é muito difícil conceber como podem
os EUA defender-se de um ataque massivo de misseis. (189)
Os modernos S-400 e os revolucionários S-500 de defesa aérea fecham o
espaço aéreo russo e de seus aliados a quaisquer ataques aéreos ou mesmo
balísticos. (205)
3 - Experiência em guerras
Os cinco dias em que as tropas da Geórgia treinadas, armadas e apoiadas
por "conselheiros" dos EUA, foram derrotadas por tropas russas
fronteiriças em igualdade de efetivos, mostraram a sua capacidade de
combate em ações combinadas das diversas armas. Na Ucrânia as formações
do Donbass produziram resultados que destroçaram completamente as
conceções militares de há 20 anos. Apesar de numericamente superiores as
forças de Kiev sofreram sucessivas derrotas que culminaram com dois cercos
catastróficos em Ilovaisk e Debaltsevo. (167, 168)
As capacidades eletrónicas utilizadas pela Rússia para apoiar as forças
do Donbass foram descritas pelo gen. Ben Hodges como "de fazer chorar": "o
nosso maior problema é que nunca lutámos num ambiente de comunicações
degradado e não sabemos como o fazer". Ou seja lutar num ambiente de
completa cegueira eletrónica e redes de computador suprimidas. (168, 170).
Em 2015, pequenos navios lança misseis no mar Cáspio lançaram sobre
posições do ISIS, misseis PGM 3M14 e bombardeiros estratégicos lançaram
misseis X101, tornando evidente um mundo multipolar e a dura realidade da
perda de supremacia militar dos EUA, (169)
Com um pequeno contingente na Síria, a Rússia foi capaz de ditar as
condições no terreno e na área de operações. Estes factos fizeram aumentar
a histeria anti-russa desde que o resultado da guerra se tornou evidente.
(176) Recordemos que em 2013 ministros ocidentais davam seis meses para a
"mudança de regime" na Síria.
Os EUA não podem comemorar marchas de vitória depois de terem destruído o
Iraque, o Afeganistão ou a Líbia. Os EUA não têm nada mais para comemorar
senão morte e destruição e veteranos que regressam a casa com traumas
psicológicos e envenenamento por radiações, que são ignoradas pelo seu
governo. (142)
A maioria dos conflitos em que os EUA se envolveram desde a Guerra da
Correia levaram a sangrentos resultados ou foram perdidos. (170) Afinal,
uma nação tão orgulhosa dos seus sucesso militares nunca ganhou nenhuma
guerra nos últimos 70 anos se excetuarmos o "tiro aos perus" da 1ª Guerra
do Golfo. (203) Podemos acrescentar, a "gloriosa" (vergonhosa) invasão da
pequena Granada para derrubar um governo progressista.
4 - Fragilidades geoestratégicas dos EUA
A marinha dos EUA não tem sistema de defesa contra o ataque de uma salva
de misseis hipersónicos. Isto deve-se a que os EUA continuam aplicar
rígidas e ultrapassadas doutrinas agressivas. (148)
Os EUA não têm meios contra o SU-35C russo, ou o novo SU-57, planeado
para 2019. O radar do SU-35C pode detetar aviões ditos invisíveis ao radar
a 100 km, dispondo de uma inultrapassável capacidade de manobra. A nova
tecnologia radiofotónica torna os aviões "invisíveis" (onde os EUA
gastaram milhares de milhões de dólares) obsoletos. (179)
Um ataque vindo do Polo Sul é uma contingência que os EUA têm agora que
encarar (220) Além dos Mach 8 já revolucionários, dos Mach 10 + altamente
manobráveis com alcance de 2 000 km transportados por MiG 31, estão em
produção os Avangard "deslizantes" capazes de Mach 20 (transportados até
próximo dos alvos por RS-28 Sarmat heavy ICBM ). A NATO não tem
atualmente nenhum sistema de defesa ou em perspetiva para intercetar um
único míssil com estas características. Uma salva de cinco ou seis pode
destruir qualquer grupo de batalha naval – tudo sem usar munições
nucleares. (220,222)
Os porta-aviões, principal força de ataque naval dos EUA, além de
proibitivamente caros, são alvos vulneráveis levantando sérias dúvidas
acerca do conceito estratégico naval centrado nestes meios. (145,146) A
destruição de um porta-aviões teria um impacto psicológico correspondente
aos milhares de efetivos e custo astronómico do navio e da aviação
transportada. (142)
Os porta-aviões constituem excelentes alvos para os atuais ASM
supersónicos que podem ser lançados imersos. São uma realidade para a
qual a marinha dos EUA não está preparada. Um porta-aviões pode ficar
destruído com uma salva de misseis ou ficar com a pista incapacitada por
um ataque de drones. (43)
Os EUA têm necessidade de atualizar os seu dispositivos militares. O mais
novo submarino (classe Ohio) tem 20 anos. A classe Colômbia entrará em
produção em 2021 com um custo estimado de 97 mil milhões de dólares, cerca
de 8,1 mil milhões cada, mais que o custo total do programa dissuasor
russo de 8 submarinos. (41,42)
Um simples submarino da classe Virgínia custa 2,5 mil milhões de dólares,
um custo astronómico quando comparado com os SSK russos, mais indetetáveis
particularmente no litoral do que qualquer submarino dos EUA. (188)
A defesa do país simplesmente não faz parte da História dos EUA, dado
nunca terem tido uma credível ameaça continental que os invadisse e
procedesse à aniquilação da população civil (ao contrário da Rússia).
Cerca de 70% do orçamento militar dos EUA é para combater no estrangeiro.
As armas dos EUA são itens comerciais, a sua idiossincrasia militar usa o
termo "sofisticado" em vez de "eficaz". O F-35 é muito "sofisticado" mas é
"eficaz"? Na realidade a tecnologia militar dos EUA está atrasada não
apenas em relação à Rússia mas também em relação a alguns meios aéreos do
Reino Unido e França. (179)
Somas astronómicas foram entregues ao Pentágono e seus fornecedores,
porém nenhuma tecnologia militar de classe mundial foi produzida pelo
elogiado complexo militar-industrial. Podem continuar a "investir"
prosseguindo na pesquisa de exóticas armas espaciais financiadas pela
gigantesca dívida (21,6 milhões de milhões de dólares) mas isso não vai
alterar o resultado. (191)
Ao contrário da Rússia que dispõe de um sistema profundamente escalonado
de defesa aérea e antimissil, o litoral dos EUA está praticamente sem
defesa. Os Patriot e o sistema AEGIS não são garantia contra um ataque
convencional ou mesmo nuclear de retaliação em caso de conflito em grande
escala.
Em geral, a tecnologia militar convencional dos EUA, já não falando em
conceitos operacionais desligados da realidade, é boa na sua maior parte
para lutar contra adversários fracos e subdesenvolvidos. (191) Mas se os
EUA não têm uma indiscutível superioridade convencional sobre pelo menos
dois dos maiores poderes militares - a Rússia e num menor grau a China -
qual é então a real extensão do seu domínio?
Os perigos da insanidade
A expansão da NATO para as fronteiras da Rússia, apesar das garantias
dadas em 1990, tornou evidente que o objetivo do Ocidente era ver a Rússia
removida de qualquer papel geopolítico significativo. (154) Dado que para
os EUA a existência de um nação com paridade militar é algo inaceitável.
(192) Neste sentido Hillary Clinton comparou Putin a Hitler. (96)
Os EUA permanecem no geral e militarmente uma primeira força geopolítica,
porém crescentemente têm de confrontar-se com o facto da curta era de
proclamada superioridade na guerra moderna terminou. (188)
A sua visão do mundo é baseada no poder militar. Mas esta visão está
completamente desligada do entendimento das consequências da guerra e dos
recursos necessários. (157) Contudo, não podemos pôr de parte a hipótese
de um cenário suicida dos EUA, tentando comprometer a China e a Rússia
numa guerra que se convenceriam ser um cenário convencional. (172) O
perigo reside na iliteracia militar dos neoconservadores e a sua total
alienação da realidade estratégica. (175)
A sua postura militar acabou por contribuir para a bancarrota moral e
económica da nação. Através de uma série de mal concebidas e largamente
falseadas aventuras militares, os EUA expressaram dramaticamente os
limites da sua capacidade. Excetuando uma guerra nuclear os EUA não podem
derrotar a Rússia ou a China nas suas vizinhanças geográficas. Além de que
devido à evolução da tecnologia militar, deixou de ser impossível levar os
cenários de guerra para os próprio território dos EUA. (207)
Se os EUA tivessem superioridade militar convencional não recorreriam à
opção nuclear, com o abandono do tratado IRNF (Intermediate Range Nuclear
Forces), encetando uma perigosíssima corrida às armas.
Uma escalada militar descontrolada pode levar a um muito perigoso ponto
de partida nuclear para os EUA salvarem a sua própria reputação, cada vez
mais reduzida. Isto poderia acontecer em caso de guerra com o Irão, se um
porta-aviões dos EUA fosse atingido ou os EUA tivessem de enfrentar outra
humilhação como na Síria, ou mesmo em relação à Ucrânia ou à Coreia do
Norte. (211)
A mais importante tarefa atual é portanto evitar por todos os meios
qualquer possibilidade desta autoproclamada ilusão de "nação excecional",
levar o mundo à destruição global pela frustração com que a sua própria
fraqueza fosse subitamente exposta. (213)
Ver também:
1ª parte deste artigo
A supremacia militar perdida dos EUA
O gato e o cozinheiro
The Pentagon Realised What It Has Done – the Chinese Put the US Army on
Its Knees
[1] Losing American Supremacy. The Myopia of American Strategic Planning
, Ed. Clarity Press, 2018, 308 p., ISBN 0998694754. Entre parêntesis os
números das páginas a que se referem transcrições e comentários ao texto
de AM.
[2] Sobre este tema ver "Do fim da URSS à atual russofobia – Notas de
Dimitri Rogozin, um embaixador russo junto da NATO",
resistir.info/v_carvalho/rogozin_resenha_1.html e
resistir.info/v_carvalho/rogozin_resenha_2.html
In
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/v_carvalho/martyanov_resenha_2.html
6/11/2018
segunda-feira, 5 de novembro de 2018
A perda da supremacia militar e a miopia do planeamento estratégico dos EUA (1)
– Um livro de Andrei Martyanov
por Daniel Vaz de Carvalho
O mundo vive atualmente uma convulsiva e violenta desintegração da
Pax Americana. As suas ferramentas não funcionam contra aqueles
alvos que têm capacidade para resistir a reais ameaças do
expansionismo dos EUA.
Andrei Martyanov [1]
Andrei Martyanov é um reputado analista militar. Nascido em Baku, URSS,
em 1963, graduou-se oficial da marinha soviética na Academia Naval
Bandeira Vermelha de Kirov e prestou serviço na Guarda Costeira até 1990.
Em meados dos anos 90 emigrou para os EUA sendo atualmente Diretor numa
empresa do sector aeroespacial. Em 2018 publicou Losing American
Supremacy. The Myopia os American Strategic Planning , um livro de
flagrante oportunidade e fundamental para a compreensão das questões
militares e geoestratégicas do mundo de hoje.
Os perigos para a paz mundial continuam a acumular-se. Tragédias
humanitárias abatem-se sobre povos que se limitam a seguir orientações
diferentes das que os EUA – e a UE – admitem. Neste contexto, o livro de
Andrei Martyanov (AM) constitui um importante contributo para a defesa da
paz e de um são relacionamento entre os povos.
O declínio cognitivo dos EUA
Nos EUA assiste-se a uma completa falta de raciocínio consistente da
política externa à economia, às questões militares, à cultura (8) AM
coloca desde logo o problema que atinge os que manipulam a informação: é
que começam a acreditar em absoluto nas suas falsificações, tornam-se
crentes dogmáticos, da própria narrativa. (11)
Ditos especialistas militares que nunca envergaram um uniforme, formulam
estratégias políticas e militares e influenciam decisões básicas, como o
ataque ao Iraque e enviar mais 30 mil soldados para o Afeganistão. (128,
129)
Um dos mais conceituados analistas militares dos EUA, o Dr. Stephan
Black, escrevia em 2017: "Como chamar Putin à atenção". Propunha que se
enviassem forças navais para o mar de Azov (para lidar com a Rússia e
apoiar o governo ucraniano). Demonstrava uma atroz ignorância: a
profundidade média do mar da Azov é de 7 metros, menos 2,3 metros que o
calado de um destroyer. Estas fantasias mostram a irresponsabilidade e as
ilusões de grandeza dos EUA, além de uma irrestrita russofobia. (194)
Como AM salienta, estes "especialistas" estão totalmente desligados da
racionalidade, não tendo a mínima compreensão ou sensibilidade pelo mundo
exterior. (171) Na realidade, falham porque não são especialistas de coisa
alguma, são muitas vezes substituídos por atores, desportistas, teóricos
da conspiração e demagogos que contribuem para a completa falta de
entendimento da natureza do poder militar e das consequências da guerra.
Não poderia ser de outra forma num país cuja história militar é em grande
medida um mito triunfalista. (200)
A distorção da realidade é também evidenciada pela forma como a Rússia, o
único país que pode derrotar militarmente os EUA, foi reduzida a uma
caricatura. A esquizofrenia cognitiva leva a que simultaneamente se
propague a ideia da Rússia estar tanto à beira do colapso como prestes a
dominar os EUA e todo o Ocidente. (140)
Bases da política externa dos EUA
A essência da política externa dos EUA foi formulada por Karl Rove em
2004: "Nós somos um Império, agimos, criamos a nossa própria realidade.
Enquanto vocês a estudam essa realidade, nós agimos e criamos outras
realidades que vocês também estudam. (150)
A diplomacia dos EUA existe para proporcionar mudanças de regime – um
eufemismo para ilegais e violentos derrubes de governos de que os EUA não
gostam – e ditar ordens aos que não podem recusar os seus ditames. Este
tipo de "diplomacia" é por definição profundamente incompetente. (200)
É desta forma que os direitos humanos são usados para remover qualquer
governo que não alinhe com os EUA. (140) Esta visão, mostra uma crescente
falta de senso prático e uma série crise mental das elites dirigentes.
(141)
A ideia básica de que outras nações podem ter visões delas próprias e dos
seus interesses que não envolvam a "liderança global" e a "democracia" tal
como os EUA entendem, é algo que lhes escapa. (166)
O cinismo de certos políticos americanos está patente desde Truman:
deitando fora as mais importantes decisões de Roosevelt declarou que "a
força é a única coisa que os russos entendem". (93)
Os acontecimentos destes últimos 19 anos mostram que não é possível ter
ilusões acerca da possibilidade de haver um diálogo medianamente racional
com o Ocidente e em, primeiro lugar com os EUA. Não admira que a política
dos EUA tenha um sombrio registo de desastres militares e humanitários.
(218)
Preconceitos ideológicos e moralistas não são novos. Resultam agora de
uma combinação de ignorância e russofobia, revestida de pretensiosas
doutrinas ideológicas e geopolíticas. Um autor (Paul Fussel) expressava
que "a causa aliada (na 2ª Guerra Mundial) ficou manchada de impureza
moral quando Estaline foi incluído", desprezava assim os esforços da URSS
para ser elaborado um sistema se Segurança Coletiva Europeu antes da 2ª
guerra Mundial. A sabotagem deste esforço deve ser o que Fussel classifica
de "causa moral". (94)
Os EUA falharam a oportunidade histórica de terem relações baseadas na
igualdade e mutuas vantagens com a Rússia. Trataram-na com desprezo,
chantagem, humilhação e ignorância nos anos 90. (215). Não admira que numa
sondagem em 2017, 80% dos russos desejasse relações neutras ou mesmo
hostis com os EUA. Apenas 14,7% se pronunciavam por relações de aliados.
(196)
Atualmente, exceto para uma fina camada de fanáticos "liberais", muitos
dos quais nas folhas de pagamento de ONG norte-americanas, qualquer menção
à "objetividade" dos media dos EUA e à sua liberdade de expressão, é
acolhida pelos russos com sorrisos ou mesmo gargalhadas. (123)
A Rússia como herdeira das realizações soviéticas [2]
Quando Putin declarou em 2005 que o fim da URSS tinha sido a maior
catástrofe geopolítica do século XX, os fazedores de opinião ficaram
apopléticos. Nas suas cabeças a União Soviética tinha sido o Império do
Mal derrotado para sempre. Porém, não é possível compreender a Rússia
moderna sem conhecimento do enorme e complexo impacto do período soviético
e esta noção requer uma avaliação não distorcida dos êxitos e das falhas
da URSS. (100,101)
Para AM foram as realizações soviéticas que permitiram a recuperação
económica, social e militar da Rússia após os anos 90. Foram aquelas
realizações, que permitiram, por exemplo, os russos das cidades sobreviver
às inumanas "reformas" dos anos 90, deslocando-se para as suas casas de
campo onde faziam pequena agricultura. (125)
AM refere que a vida dos soviéticos nos anos 70 era na verdade boa, nunca
tendo vivido tão bem na sua Historia. (121) Salienta o elevado nível do
sistema educacional soviético – e a recusa do sistema norte-americano –
base da recuperação da Rússia. A URSS não apenas produziu cientistas de
alto nível mundial mas também uma elite tecnológica que seriamente
desafiava os EUA, alcançando-os apesar das devastações da 2ª Guerra
Mundial. (117)
Hoje os dissidentes soviéticos estão totalmente desacreditados. A terapia
de choque aplicada à Rússia sob a supervisão de Jeffrey Sachs resultou num
falhanço espetacular, não apenas originou imenso sofrimento ao povo mas
também um drástico enfraquecimento do Estado Russo. Os dissidentes
soviéticos limitavam-se a dizer o que era esperado deles: o excecionalismo
norte-americano. A Rússia tornou-se um exemplo de como as coisas correm
mal seguindo as prescrições norte-americanas. ( 26)
As reformas liberais foram quase um suicídio coletivo. (39) Contudo,
apesar dos "reformistas" pró ocidentais, a herança soviética industrial e
militar, a consciência nacional e o desenvolvimento futuro foi preservado.
Esta preservação reflete a quase genética cultura de um povo que lutou sem
cessar contra invasões desde os Cavaleiros Teutónicos a Napoleão e Hitler.
(34)
Em 1913, 70% da população era analfabeta; em 1940 não era apenas
alfabetizada, era uma das mais educadas do mundo. Em 1958 a quantidade de
conhecimentos em matemática, física e biologia que os estudantes
soviéticos recebiam antes da graduação numa escola pública, era três vezes
superior ao estipulado para a entrada no MIT (Massachusetts Institute of
Technology.) (112, 115)
Em 1935, Estaline expressou os factos que obrigavam a tomar medidas
drásticas para a industrialização soviética: "recebemos como herança um
país tecnologicamente atrasado, empobrecido e arruinado por três anos de
guerra imperialista e quatro anos de guerra civil, com população sem
literacia (...) A tarefa é transformar este pais com uma indústria moderna
e agricultura mecanizada. Ou resolvemos esta tarefa rapidamente e
fortalecemos o socialismo ou não resolvemos e perderemos a independência e
tornar-nos-emos objeto dos jogos dos poderes imperialistas". Em 1931 (como
que premonitoriamente) tinha apontado um prazo de 10 anos para estes
objetivos serem alcançados. (23)
E isto de facto foi feito com sacrifícios, mas também com grandes
conquistas sociais e das condições de vida. Foi uma imensa tarefa
cultural e tecnológica. Por detrás dos sucessos militares soviéticos
estava um sistema económico que tinha providenciado o que era necessário
para derrotar a mais poderosa máquina militar do seu tempo. (26) A enorme
capacidade militar soviética fica a crédito de Estaline, do seu governo e
partido, grandes organizadores da vitória sobre o nazismo. (94)
A elite soviética lutou na guerra, Estaline, como outros líderes, perdeu
um filho. Brezhnev, reduzido a uma caricatura no final nos seus últimos
tempos, foi um herói militar. A classe política soviética estava ciente
dos sacrifícios suportados pelo povo e pelos soldados e expressaram-no
durante e depois da guerra. (91)
AM afirma-se não estalinista (o que quer que isto queira dizer
atualmente) porém diz compreender perfeitamente a nostalgia do povo russo
por Estaline, com raízes na deturpação da História russa. (106)
A URSS é descrita numa caricatura tenebrosa completamente fora da
realidade. A abertura dos arquivos soviéticos deitou por terra as
mentiras de dissidentes baseadas da tese de um poder diabólico com
fantasiosos números historicamente impossíveis, de pessoas perseguidas e
mortas durante as repressões. (105)
A média de presos no sistema penal soviético foi de 1,7 milhões; o total
de pessoas presas por razões políticas durante a liderança de Estaline em
32 anos, foi de 4 milhões. Nos EUA o número de presos em 2010 era de 2,27
milhões e em 2016 2, 217 milhões. O número de presos no EUA é o mais
elevado no mundo, incluindo per capita desde há décadas. (108)
Segundo AM, é praticamente impossível convencer alguns que o povo
soviético viajava aos milhões durante o seu período de férias – bastante
longas e pagas – sem necessidade de qualquer "permissão". Apesar das
horríveis perdas da Grande Guerra Pátria a população soviética teve um
constante crescimento. As pacíficas realizações (como as da habitação
depois das terríveis destruições da 2ª Guerra Mundial) são completamente
ignoradas no Ocidente. (109)
Mas não na Rússia: sucessivas sondagens desde 2012, têm mostrado uma
permanente veneração por Estaline como a figura mais importante da
História Russa, juntamente com Pushkin, Youri Gagarine, Pedro o Grande e,
como esperado, Vladimir Putin. (103)
Sinais de decadência dos EUA
As consequências do declínio cognitivo dos EUA, são evidentes no desastre
no Iraque, na guerra perdida no Afeganistão, no pesadelo da Síria, na
Líbia incontrolável, no golpe e guerra na Ucrânia. Tudo isto é um registo
de incompetência geopolítica diplomática e militar que evidencia as falhas
das instituições políticas, militares e académicas dos EUA. (13)
Os eufemismos da terminologia económica migraram para a esfera militar e
serviços de informações. A financeirização e o fundamentalismo do mercado
livre destruíram o planeamento industrial e impediram o desenvolvimento
das capacidades requeridas para uma verdadeira grandeza. (31) A repetição
exaustiva dos dogmas económicos e sociais do liberalismo substituíram o
conhecimento do mundo.
A utopia da ortodoxia liberal de que o dinheiro e o lucro são a medida de
todas as coisas, não funciona. Não importa qual seja a capitalização do
Facebook, não pode proporcionar produtos e serviços que beneficiem todos
os sectores da atividade humana. (213)
O nível catastrófico de desindustrialização, a frágil recuperação da
crise financeira, a crise das drogas ilegais nas cidades, a ascendência e
influencia dos neoconservadores que quase levaram a um confronto direto
com a Rússia, conduziram os EUA a um país crescentemente menos confiante,
dividido e economicamente estagnado. (10,12)
Como salientou o prof. James Petras: "a média das fábricas dos EUA é duas
vezes mais antiga que as da China. Apenas para alcançar a produção da
China os EUA teriam de investir mais de 115 mil milhões de dólares por ano
na indústria nas próximas três décadas. (214)
É irónico aliás que os EUA tenham de adquirir à Rússia foguetões RD-180
para o seu programa Atlas e ir de boleia para a atualizada estação
espacial russa Soyouz. (114)
Para além das centenas de milhões de dólares gastos inutilmente, na Síria
assistiu-se a milícias apoiadas pelo Pentágono atacarem milícias apoiadas
pela CIA. (128)
O custo total das guerras dos EUA desde 2001, ascende a 4,6 milhões de
milhões de dólares ( http://www.informationclearinghouse.info/ )
Os políticos e a liderança militar simplesmente falham em medir as
consequências das suas decisões sobre o uso da força, baseadas em
inflacionadas ameaças enquanto apostam em capacidades próprias grandemente
exageradas. A realidade é que ninguém ameaça a existência dos EUA e
ninguém planeia atacá-los a menos que seja primeiro atacado. (149)
(continua)
Ver também:
A supremacia militar perdida dos EUA
O gato e o cozinheiro
[1] Losing American Supremacy. The Myopia of American Strategic Planning
, Ed. Clarity Press, 2018, 308 p., ISBN 0998694754. Entre parêntesis os
números das páginas a que se referem transcrições e comentários ao texto
de AM.
[2] Sobre este tema ver "Do fim da URSS à atual russofobia – Notas de
Dimitri Rogozin, um embaixador russo junto da NATO",
resistir.info/v_carvalho/rogozin_resenha_1.html e
resistir.info/v_carvalho/rogozin_resenha_2.html
In
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/v_carvalho/martyanov_resenha_1.html
5/11/2018
domingo, 4 de novembro de 2018
quinta-feira, 1 de novembro de 2018
Is Brazil's Bolsonaro a Pinochet or a populist?
George Galloway
George Galloway was a member of the British Parliament for nearly 30 years. He
presents TV and radio shows (including on RT). He is a film-maker, writer and a
renowned orator.
The victory of the far-right Jair Bolsonaro in Brazil, Latin America's most
populous country and co-founder of the BRICS bloc, has understandably caused
much fluttering in the dovecotes of leftists and liberals around the globe.
But what the Bolsonaro victory shows is not so much the strength of far-right
ideas as the weakness of the left.
First, though, a word about fascism.
It has become in vogue for left wing people to brand everyone to the right of
them 'a fascist'. This is not just wrong it is entirely self-defeating. As the
famous 'Boy who cried Wolf' found out, it can end up with one being eaten when
folks conclude that if everybody is a fascist then, for practical purposes,
nobody is.
Ontology is important.
Some fools describe Theresa May as a fascist, and think Britain lives under a
fascist government. Others (with a little more justification) think Donald Trump
is a fascist. Neither are of course – both could, may well be brought down by
the existing institutions of the Bourgeois state even before they are forced to
go to the universal adult suffrage of scheduled elections.
Neither, yet at any rate, is the new president of Brazil a fascist. Having
hateful opinions about gays – he'd rather his son was dead than gay, or vile
views on women does not make him a fascist. Actually it makes him, like Trump, a
vulgar knuckle dragging reactionary. It does not make Brazil 2018 a replica of
Chile in 1973. Bolsonaro is not Pinochet. Not yet.
The president-elect IS a nostalgist for the former, actual, fascist military
rule in Brazil in which mass murder, torture, ethnic cleansing, environmental
disaster and white-supremacy were the rules. But that doesn't mean he will, or
can return to dictatorship even if he'd like to.
Moreover a substantial number of poor, black and minority ethnic voters cast
their ballots for him and against the Workers Party (PT) which on paper defended
them.
As Bill Shankly, the legendary Liverpool football manager, once said "football
isn't played on paper, it's played on grass."
On grass, the record of the PT was found wanting by the nation's poorest and a
section of the working class, thus the defeat.
And as fear of the right grew, Fernando Haddad, the PT candidate shifted – to
the right!
Fear of crime – the kind of crime that's in voters faces, climbing through their
windows as opposed to white-collar grand larceny – was a major driver. A
left-wing movement, especially when it holds state power, which cannot protect
its people from such crime, as the Bolsheviks did, as the Cuban revolution did,
as the Irish Republicans did, will not retain support for long no matter how red
their flags.
A left-wing movement which accepts neo-liberal orthodoxies of austerity and
which fails to dramatically redistribute wealth to the masses, and in a country
like Brazil which does not mobilize, even militarize, the advanced sections of
the workers in defense of an actual (as opposed to a rhetorical) transformation
will be overthrown. And they have been.
More than 30 years ago I lent the then impoverished Brazilian trade union leader
Lula the grand sum of $200. It was a fine investment. As the heroic leader of
what became the PT government of Brazil Lula had the right stuff. Despite
disadvantageous changes to the international balance of forces he became the
undefeatable leader of a working class, ethnic minority, lower middle class
coalition. Which is why they came for him on trumped-up corruption charges –
rather than politics – without the slightest basis in truth.
That was the moment when the movement if it had been armed with the wherewithal
should have made its stand. Instead a long dance to defeat took place, accepting
the legitimacy of fascist-era courts, bent policemen and an oligarchy
parliament, all of them the enemies of the workers and their party.
Ironically if this legitimacy had been contested it would, even if it had
failed, have ineluctably led to a boycott of last weekend's farce once the
candidacy of Lula had been judicially murdered by the courts. In those
circumstances Bolsonaro wouldn't have even been the candidate of the right, the
oligarchy wouldn't have needed such an ugly brute.
It may be that Bolsonaro will turn out to be "merely" a "business-friendly"
deforesting bigot of no great lasting historical moment. On the other hand, the
left in Brazil urgently need to start preparing themselves to fight him in the
case he turns out to be more Pinochet than Populist.
In
RT
https://www.rt.com/op-ed/442633-brazil-bolsonaro-pinochet-election/
30 Oct, 2018.
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