terça-feira, 26 de março de 2019

“Reforma nacional democrática e contrarreforma no ABC paulista: 1956-1964”





“Reforma nacional democrática e contrarreforma no ABC paulista: 1956-1964”, é uma pesquisa histórico-empírica que utilizando exaustivamente fontes escritas e orais traça um esboço vívido da trajetória do movimento operário e popular (MOP) na década que antecedeu a instauração da ditadura militar, colocando em evidência que: à época Santo André era o epicentro econômico, social e político da vida regional e também nucleava o MOP;  o Conselho Sindical da Borda do Campo articulava o sindicalismo; o Centro Popular de Cultura tinha uma influência cultural estendida e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, com sede em Santo André, desempenhava o tradicional papel de “quartel general” da classe trabalhadora. O MOP na região remontava ao fim do século XIX, permanecendo sob a influência do ativismo anarquista pelo menos até a Revolução Russa de 1917. No pós-guerra, entretanto, os comunistas, sobretudo do PCB, que têm um papel protagonista neste estudo, tornam-se a força de referência do Movimento. Concomitantemente, os católicos de esquerda, buscando incluir-se no MOP, iam emprestando deste, algumas de suas formas de luta. Em 31 de março de 1964, a ditadura burguesa, em conúbio com o imperialismo, esmagou o MOP manu militari, interrompendo sua trajetória ascendente e compelindo o Movimento a viver uma existência semilegal e semiclandestina durante doze anos. No, entanto, exibindo sua capacidade de autopreservação mesmo sob a maior adversidade, a partir do segundo lustro dos anos 1970, o Movimento reavivado, valendo-se de velhas e novas formas de organização, das quais fizeram parte o autodenominado “novo sindicalismo” e o Partido dos Trabalhadores, reassumiu a luta política abertamente, vindo a desempenhar papel decisivo na liquidação da ditadura militar.  

Candido Giraldez Vieitez
Reforma nacional democrática e contrarreforma no ABC paulista: 1956-1964
Marília: Lutas Anticapital, 2019. 2ª edição





sábado, 23 de março de 2019

Los trabajadores del Hotel Bauen cumplen 16 años de autogestión




*En un nuevo aniversario de su creación, los trabajadores del hotel
cooperativo impulsan la expropiación y resisten el desalojo.*

Trabajo Cooperativo




El jueves 21 de marzo los trabajadores y las trabajadoras que
recuperaron el Hotel Bauen celebraron 16 años desde aquellas jornadas en
las que tuvieron que reponerse de la estafa empresarial. Ahora buscan
superar los obstáculos que les colocan desde la justicia, luego del veto
presidencial de Mauricio Macri en la anterior expropiación votada en la
Cámara de diputados nacional.

Con esa misión impulsan un nuevo proyecto de ley, que lleva la firma del
bloque del Frente para la Victoria-PJ. La iniciativa parlamentaria
replica la letra de aquella Ley 27.344.

Por otra parte, y con el objetivo de frenar la ejecución de la orden de
desalojo que pesa sobre la Cooperativa de Trabajo Buenos Aires Una
Empresa Nacional Ltda., los abogados que la representan se aprestan a
realizar una presentación ante la Comisión Interamericana de Derechos
Humanos.

No es la primera vez que los trabajadores del Bauen enfrentan una
amenaza de desalojo. En 2007 y en 2014 pasaron por situaciones
similares, que lograron revertir. Mientras tanto, y como lo vienen
haciendo en forma ininterrumpida desde hace 16 años, mantienen abierto y
en funcionamiento el hotel, rodeados de muestras de solidaridad tanto de
Argentina como del exterior.

El Bauen se construyó con préstamos otorgados a un grupo empresario por
la dictadura cívico-militar entre 1977 y 1978, dinero público que nunca
fue devuelto al Estado Nacional. En diciembre de 2001, los mismos
empresarios que recibieron esos fondos provocaron el cierre del hotel,
dejando a todos los trabajadores y las trabajadoras en la calle y
abandonando las instalaciones. En 2003 el hotel fue recuperado por los
ex empleados y desde ese momento es una empresa gestionada por sus
trabajadores.

La Cooperativa Bauen es un emblema de las empresas recuperadas
argentinas. Esta modalidad autogestiva surgió como respuesta al cierre y
abandono de muchas empresas en el marco de la crisis económica, política
y social que hizo explosión en diciembre de 2001.

Fuente: Tiempo Argentino.

In
TRABAJO COOPERATIVO
https://trabajocooperativo.com.ar/2019/03/22/los-trabajadores-del-hotel-bauen-cumplen-16-anos-de-autogestion/
22/3/2019

sexta-feira, 22 de março de 2019

Concentração de riqueza impulsiona um novo imperialismo global.





Peter Phillips

As mudanças no regime do Iraque e da Líbia, a guerra da Síria, a crise
da Venezuela, as sanções contra Cuba, Irã, Rússia e Coréia do Norte são
reflexos de um novo imperialismo global imposto por um núcleo de nações
capitalistas em apoio a trilhões de dólares de riqueza concentrada em
investimentos. Essa nova ordem mundial de capital de massa tornou-se um
império totalitário de desigualdade e repressão.

O 1% global, composto por mais de 36 milhões de milionários e 2.400
bilionários, emprega seu excesso de capital em empresas de gestão de
investimentos como /BlackRock/ e /J.P Morgan Chase/. Os dezessete
principais dessas empresas de administração de investimentos de um
trilhão de dólares controlaram US$ 41,1 trilhões de dólares em 2017.
Essas empresas são todas diretamente investidas umas nas outras e
administradas por apenas 199 pessoas que decidem como e onde o capital
global será investido. Seu maior problema é que eles têm mais capital do
que oportunidades de investimento seguras, o que leva a investimentos
especulativos arriscados, aumento dos gastos de guerra, privatização do
domínio público e pressões para abrir novas oportunidades de
investimento de capital por meio de mudanças no regime político.

As elites de poder em apoio ao investimento de capital estão
coletivamente incorporadas em um sistema de crescimento obrigatório. A
falta de capital para alcançar uma expansão contínua leva à estagnação
econômica, que pode resultar em depressão, falências bancárias, colapso
monetário e desemprego em massa. O capitalismo é um sistema econômico
que inevitavelmente se ajusta através de contrações, recessões e
depressões. As elites de poder estão presas em uma rede de crescimento
forçado que exige gerenciamento global contínuo e a formação de novas
oportunidades de investimento de capital em constante expansão. Essa
expansão forçada se torna um destino manifesto mundial que busca a
dominação total do capital em todas as regiões da Terra e além.

Sessenta por cento dos gerentes centrais de elite do poder global de 199
são dos EUA, com pessoas de vinte nações capitalistas que completam o
equilíbrio. Esses poderosos gerentes de elite e um percentual associado
participam ativamente de grupos de políticas globais e governos. Eles
atuam como assessores do FMI, da Organização Mundial do Comércio, do
Banco Mundial, do Banco Internacional de Assentamentos, do /Federal
Reserve Board/, do G-7 e do G-20. A maioria frequenta o Fórum Econômico
Mundial. As elites globais do poder participam ativamente de conselhos
de política internacional privada, como o Conselho dos Trinta, a
Comissão Trilateral e o Conselho do Atlântico. Muitas das elites globais
dos EUA são membros do /Council on Foreign Relations/ e da /Business
Roundtable/ nos EUA. A questão mais importante para essas elites de
poder é proteger o investimento de capital, garantir a cobrança de
dívidas e criar oportunidades para mais retornos.

A elite global do poder está ciente de sua existência como minoria
numérica no vasto mar da humanidade empobrecida. Aproximadamente 80% da
população mundial vive com menos de dez dólares por dia e metade vive
com menos de três dólares por dia. O capital global concentrado torna-se
o alinhamento institucional vinculante que leva os capitalistas
transnacionais a um imperialismo global centralizado, facilitado pelas
instituições económicas/comerciais mundiais e protegido pelo império
militar dos EUA/OTAN. Essa concentração de riqueza leva a uma crise da
humanidade, em que a pobreza, a guerra, a fome, a alienação em massa, a
propaganda da mídia e a devastação ambiental atingiram níveis que
ameaçam o futuro da humanidade.

A idéia de estados-nação autônomos independentes há muito tempo é
considerada sacrossanta nas economias capitalistas liberais
tradicionais. No entanto, a globalização colocou um novo conjunto de
demandas sobre o capitalismo que exige mecanismos transnacionais para
apoiar o crescimento contínuo do capital que está cada vez mais além dos
limites dos estados individuais. A crise financeira de 2008 foi um
reconhecimento do sistema global de capital sob ameaça. Estas ameaças
encorajam o abandono dos direitos dos estados-nação e a formação de um
imperialismo global que reflete os novos requisitos da ordem mundial
para proteger o capital transnacional.

Instituições dentro de países capitalistas, incluindo ministérios do
governo, forças de defesa, agências de inteligência, poder judiciário,
universidades e órgãos representativos, reconhecem em graus variados que
as exigências primordiais do capital transnacional se espalham para além
das fronteiras dos estados-nação. O alcance mundial resultante motiva
uma nova forma de imperialismo global que é evidente por coalizões de
nações capitalistas centrais envolvidas em esforços de mudança de regime
passados ​​e presentes via sanções, ações secretas, coopções e guerra
com nações não cooperantes – Irã, Iraque, Síria, Líbia, Venezuela, Cuba,
Coréia do Norte e Rússia.

A tentativa de golpe na Venezuela mostra o alinhamento dos estados
transnacionais de apoio ao capital ao reconhecer as forças de elite que
se opõem à presidência socialista de Maduro. Um novo imperialismo global
está em ação aqui, por meio do qual a soberania da Venezuela é
abertamente prejudicada por uma ordem mundial imperial de capital que
busca não apenas o controle do petróleo venezuelano, mas uma
oportunidade plena de investimentos generalizados através de um novo regime.

A ampla negação da mídia corporativa do presidente democraticamente
eleito da Venezuela demonstra que esses meios são de propriedade e
controlados por ideólogos para a elite do poder global. A mídia
corporativa hoje é altamente concentrada e totalmente internacional. Seu
principal objetivo é a promoção de vendas de produtos e propaganda
pró-capitalista através do controle psicológico dos desejos, emoções,
crenças, medos e valores humanos. A mídia corporativa faz isso
manipulando sentimentos e cognições de seres humanos em todo o mundo e
promovendo o entretenimento como uma distração para a desigualdade global.

– margens de lucro corporativas mais altas do que nunca.
– menos americanos empregados do que em qualquer momento nos últimos 30
anos.
– salários como um percentual do PIB mais baixo do que nunca.
Você pode encontrar algo errado com esta foto?

Reconhecer o imperialismo global como uma manifestação de riqueza
concentrada, administrada por algumas centenas de pessoas, é de extrema
importância para os ativistas humanitários democráticos. Devemos nos
posicionar sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos e desafiar
o imperialismo global e seus governos fascistas, a propaganda da mídia e
os exércitos do império.


Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com
<https://dinamicaglobal.wordpress.com/>

Fonte: Dissident Voice
<https://dissidentvoice.org/2019/03/wealth-concentration-drives-a-new-global-imperialism/>

In
DINÃMICA GLOBAL
https://dinamicaglobal.wordpress.com/2019/03/22/concentracao-de-riqueza-impulsiona-um-novo-imperialismo-global/
22/3/2019

terça-feira, 19 de março de 2019

O massacre que a TV não mostrou em Suzano


 
Flávia Martinelli


    Enquanto as emissoras focaram a cobertura nas cenas de sangue e
    barbárie, entrevistas com pessoas em estado de choque e assédio aos
    familiares dos atiradores, um grupo de professores na porta da
    escola Raul Brasil explicava a tragédia anunciada

Estarrecido, o país parou nessa quarta-feira, 13 de março de 2019, para
entender o que houve na Escola Raul Brasil em Suzano. O massacre, que
resultou em dez mortes e ao menos 11 feridos, exigiu cobertura ao vivo.
As TVs escalaram seus repórteres, suas câmeras de alta resolução, seus
helicópteros, seus carros com satélites de link para transmissões
diretamente do local do crime. O arsenal estava todo lá. *Mas acompanhar
a chegada das informações pelas emissoras foi mais um espetáculo de
horrores da mídia nacional.*

Das cenas de pânico e horror dos alunos e funcionários aos corpos dos
mortos no chão, vimos tudo em detalhes. Menos o essencial: o massacre do
ensino público e o desamparo das escolas, professores, alunos e de toda
uma população vulnerável à falta de políticas públicas capazes de
promover o diálogo entre educação, assistência social e saúde ANTES de
uma tragédia acontecer. Uma tragédia anunciada, por sinal, pelas mãos de
um governante que banaliza a morte ao brincar de empunhar armas de fogo
enquanto reduz ainda mais as verbas para a pasta de educação.
<https://jornalistaslivres.org/a-mercantilizacao-do-odio/>

O fato é que nenhuma emissora se preocupou com isso tudo quando passou
horas a fio reproduzindo os gritos, o medo e o pânico de uma escola
inteira diante um revólver de verdade. O apresentador Datena
<https://www.facebook.com/datenaoficial/>, por exemplo, não poupou
ninguém em horário livre para crianças: colocou ao vivo e em câmera
lenta as cenas brutais de violência que registraram o massacre pelo
circuito interno da escola. Diretamente de Suzano, um repórter de seu
programa ainda foi capaz de encurralar a mãe dependente química de um
dos assassinos. A TV Globo <https://www.facebook.com/RedeGlobo/>, por
sua vez, não hesitou em mostrar o endereço da casa dos familiares dos
atiradores no Jornal Nacional. Se a mãe, pai, avô ou os quatro irmãos de
um deles virarem eternos reféns de um crime que não cometeram, o
problema não é da emissora.

    *O choro convulsivo de crianças e os endereços dos sites de
    fanáticos por violência também foram oferecidos ao público por
    diferentes programas de TV. Não houve limites para a
    irresponsabilidade, a covardia e sanha por audiência minuto a minuto.*

Passamos o dia ouvindo dezenas de entrevistas de porta-vozes de forças
policiais, cenas oficiais de João Doria que omitiram a grande vaia que
ele recebeu no loca
<https://jornalistaslivres.org/em-suzano-populacao-cai-na-real-e-vaia-doria-governador-de-sao-paulo/>l,
e nenhuma entrevista com educadores e professores analisando o caso a
partir do fato de que aqueles atiradores poderiam, sim, ser um dos seus
alunos.

Pelo contrário, ao mencionar que os assassinos foram alunos da escola,
os jornalistas imediatamente reiteravam que Luiz Henrique Castro, de 25
anos, já havia concluído o curso, e o outro, Guilherme Taucci, de 17
anos, era *“evadido”,* ou seja, termo usado para designar o aluno
convidado a se retirar ou que simplesmente saiu do colégio e nunca mais
voltou. Nada se questionou sobre esse sistema de abandono escolar que,
sabe-se, é assunto delicado.

Atualmente existem cerca de*10 milhões de crianças e adolescentes
excluídos do sistema de ensino ou em situação de atraso escolar, de
acordo* com Censo Escolar e a Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios (PNAD). O assunto é a prioridade dos programas da agência
brasileira da Unicef, <https://www.facebook.com/UNICEFBrasil/> o Fundo
Internacional de Emergência para a Infância das Nações Unidas. O órgão
de defesa de direitos da infância sabe que, infelizmente, existe uma
cultura disseminada nas escolas públicas brasileiras de rotular as
crianças e adolescentes com atraso, problemas familiares e afins, como
incapazes de aprender e superar suas condições.

Mas a TV não polemizou nem ao vivo ou em estúdio essa questão. Apenas
ignorou o tema que deve ser compreendido como parte de uma complexa
desconexão entre a rede educacional, de assistência social, de saúde e
de apoio por profissionais especializados em gerenciamento de conflitos.

A televisão preferiu dar voz sem críticas ou embate de opiniões às
declarações de um parlamentar que afirmou que professores armados teriam
evitado o massacre. Os jornais também passaram batido por um dos
principais temas a serem abordados no momento: a política de ampliação
de posse e porte de armas que embasou a campanha do atual presidente e
sua influência no comportamento da população, particularmente, entre os
jovens.

Ao final da cobertura do dia, muito se mostrou do crime e do horror.
Acontece que a violência nas escolas não é apenas uma questão do
noticiário policial. É assunto para as editorias de educação, saúde e
política.

    *A escola, vamos lembrar, é aquele espaço onde crianças e
    adolescentes passam boa parte do tempo para estudar. Esses alunos
    carregam na mochila seu histórico familiar, eventos traumáticos,
    estresse crônico, abusos e todo tipo de experiências fora dos muros.
    A escola também representa a última fronteira entre esses jovens e
    uma série de tragédias a que estão vulneráveis: do tráfico de drogas
    à marginalização, subemprego ou desemprego. E nelas estão
    professores mal remunerados, desmotivados, assustados e adoecidos. É
    nelas que mães e pais confiam seus filhos enquanto saem para
    trabalhar – ou vão à procura de emprego.*

Todos esses assuntos subestimados nos noticiários viraram destaque na
conversa de um grupo de professores que estava na porta da Escola Raul
Brasil no dia do massacre. Educadores de escolas da região de Suzano e
representantes da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial
do Estado de São Paulo) <https://www.facebook.com/imprensadaapeoesp/>,
estavam ali para oferecer apoio aos educadores e alunos da Raul Brasil,
e também se dispuseram a conversar com a imprensa na terça-feira.
Estavam ali prontos para as entrevistas mas pouco foram abordados.

Em entrevista aos Jornalistas Livres
<https://www.facebook.com/watch/?v=2356771397887254>, porém,
esclareceram didaticamente: o massacre de Suzano foi fruto desse
entroncado e complexo sistema de sucateamento de diferentes políticas
públicas cujas mazelas escoam, diariamente, nas mais de cinco mil
escolas públicas do país.

A professora Angela Talassa, que dá aulas na Escola Estadual Professor
Carlos Molteni, a apenas dois quilômetros da Raul Brasil, chama atenção
para a precariedade de o sistema de ensino lidar com os conflitos dos
jovens sob intensa exposição à violência.
<https://www.facebook.com/watch/?v=410086699759204>“Agora, neste
momento, estamos com esse grande movimento de psicólogos, médicos,
enfermeiros, assistentes sociais, funcionários da área de saúde da
prefeitura prestando socorro aos familiares e à escola. Mas é preciso
dizer que precisamos dessa atenção multidisciplinar ANTES de uma
tragédia acontecer. *Amanhã, quando os corpos esfriarem e os jornalistas
desaparecerem, estaremos sozinhos como sempre?”*

Angela conta que identifica na sala de aula, facilmente, os alunos que
estão sofrendo de depressão, diversos tipos de síndromes emocionais e
transtornos. “*Eu mesma já tirei carta de suicídio de bolsa de aluna”*.
Mas ela não tem a quem recorrer. “Pedimos encaminhamentos que acabam
nunca acontecendo. Os estudantes são orientados a ir à Universidade de
Mogi das Cruzes para atendimento psicológico e a maioria não tem
condições de sequer chegar até lá”, desabafa.

    *“Os adolescentes, então, ficam sem tratamento remoendo todos os
    seus problemas: os que são próprios da idade e os que são fruto
    dessa tragédia social que o país vive. Isso não pode ser ignorado.”*

Ao lado dela, o educador Richard Araújo, da Apeoesp, concorda: “Há
muitos anos temos observado esse fenômeno crescente de violência nas
escolas e o governo não toma providências. *Quem acredita que
militarizar as escolas ou armar a população vai resolver o problema da
violência não compreende a complexidade da crise social que existe no
nosso pais e como essa crise adentra os muros da escola!”*

A solução, diz o educador, existe, sim, e passa por investimentos:
“Desde investimento em infraestrutura em escolas que não têm nem
biblioteca ou laboratório, como em profissionais, psicólogos,
assistentes sociais e em toda a rede de acolhimento.” Vale não só para
os alunos, lembra Angela: “Vejo professores vivendo sob doses de
calmantes. Eles não conseguem dar continuidade ao seu trabalho nas
péssimas condições de trabalho e situação de pressão social que vivem.
Atacar isso é cuidar da educação para evitar essas tragédias.”

Outro educador, Sérgio Pereira, acrescenta que as escolas precisam de
profissionais que vão além da grade clássica de professores, coordenador
pedagógico e diretor: “*Precisamos de mediadores de conflito
especializados e políticas de assistência social interligadas na escola.
São mecanismos que garantem uma rede de proteção às crianças também fora
dos muros.”* Para isso, mais uma vez, é necessário investimento – em vez
de cortes e congelamento de verbas em educação por 20 anos, como foi
instituído pelo ex-presidente Michel Temer e mantido pelo atual Bolsonaro.

A banalização do discurso da violência usada durante a campanha do
presidente foi questionada na roda de educadores: “Estamos no auge de
uma violência construída nos últimos anos por meio de uma rede
discursiva gigante que mostra arminhas com a mão como se isso fosse uma
brincadeira. Não é brincadeira”,
<https://jornalistaslivres.org/o-diario-do-bolso-hoje-nao-contem-humor/>
acentua Pereira. “A violência da sociedade está no cotidiano da escola
publica. Vai desde o problema do time A conta o time B e passa por
questões de gênero, étnicos-raciais, por tudo! *Se um lado da sociedade
banaliza uma arma apontada, o ápice disso são esses corpos caídos no
chão, mortos, aqui!*”, completa.

Diante disso, a professora Angela conclui: “Todas as escolas estão
vulneráveis, estamos todos abandonados. E para onde os governantes e a
imprensa sinalizam? Para a privatização do ensino! *Mas isso não é
saída, é exclusão.”* A professora, então, deixa sua pauta: *“Amanhã, os
repórteres vão embora e o que será feito? Seremos ouvidos como
professores ou criminalizados e culpados pelas péssimas condições de
ensino que enfrentamos?”.*

JORNALISTAS LIVRES

https://jornalistaslivres.org/o-massacre-que-a-tv-nao-mostrou-em-suzano/
15/3/2019

segunda-feira, 18 de março de 2019

Teoria económica e imperialismo


*por Prabhat Patnaik [*] 


Cartonn da revista 'Punch'. A teoria económica burguesa /mainstream, /
que ocupa a posição hegemónica no mundo acadêmico de hoje, é
frequentemente criticada por ser "irreal", ao proceder baseada em
suposições que obviamente não correspondem à realidade. Contudo, esta
crítica, apesar de válida, não capta a real intenção da teoria, que é a
de servir como camuflagem ao imperialismo. O conteúdo teórico da
economia burguesa /mainstream / avança um conjunto de proposições sobre
o funcionamento do capitalismo que nega qualquer necessidade e portanto
qualquer papel ao imperialismo no desenvolvimento capitalista. Dado que
o imperialismo é, de facto, um elemento crucial ao funcionamento do
capitalismo, essas proposições são, por óbvio, "irreais", mas destacar
seu carácter "irreal" não basta. Este carácter "irreal" tem um
propósito, e este facto não pode ser ignorado.
Dizer que a economia burguesa serve ao imperialismo não equivale a
sugerir que todos os economistas burgueses desempenham deliberadamente
este papel. Quando um determinado discurso ganha valor de face, muitos
economistas insuspeitos, de modo inocente, se mantém dentro de seus
limites, por razões profissionais e de carreira. Como um determinado
discurso ganha valor de face e como aqueles que desafiam seus limites
são penalizados profissionalmente, são tópicos pertinentes à sociologia
da vida académica, e não serão discutidos aqui. Devo cingir-me à
ilustração da minha proposição de que a economia serve para camuflar o
imperialismo, e o farei recorrendo a apenas duas teorias-padrão.
A primeira é a "teoria do crescimento", isto é, a teoria que se ocupa do
que determina o crescimento duma economia capitalista no longo prazo. A
posição mais habitualmente defendida, que foi desenvolvida com rigor por
Robert Solow, do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e que
ganhou um Prémio Nobel pelo trabalho, o qual foi recentemente utilizada
por Thomas Piketty (a propósito, nem Solow nem Piketty podem ser
considerados ideologicamente de direita, de forma alguma), é que o
crescimento duma economia capitalista, no longo prazo, é determinado
pela taxa de crescimento de sua força de trabalho. É claro que quando a
taxa natural de crescimento da força de trabalho é de, digamos, 3% ao
ano e a produtividade do trabalho a uma razão capital-produto dada
cresce a 2% ao ano devido ao progresso tecnológico (isto é, cada
trabalhador hoje equivalerá a 1,02 trabalhador no próximo ano), a taxa
de crescimento desta economia no longo prazo, de acordo com esta teoria,
equivalerá a 5%. Resumidamente, a taxa de crescimento da economia
equivalerá à taxa de crescimento da força de trabalho, não em unidades
naturais, mas em "unidades de eficiência". Mas isto é apenas uma
variação sobre o tema; o ponto básico é que a teoria burguesa
/mainstream / predominante, que é ensinada assiduamente em quase todas
as universidades do mundo, considera que o crescimento económico, sob o
capitalismo, é limitado pela disponibilidade de mão-de-obra.
Ocorre que esta é uma proposição notavelmente bizarra, uma vez que ao
longo da sua história o capitalismo deslocou milhões de pessoas através
do globo para satisfazer as necessidades de acumulação de capital. Vinte
milhões de escravos foram embarcados à força para cruzar o Oceano
Atlântico, de África ao assim chamado "Novo Mundo", para trabalhar em
minas e em /plantations. / E depois que o tráfico de escravos chegou ao
fim, 50 milhões de chineses e indianos (de acordo com uma estimativa)
foram transportados, como /coolies/
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Coolie> ou sob servidão por contrato, até
a Primeira Guerra Mundial, a lugares distantes como Fiji, as Ilhas
Maurício ou as Índias Ocidentais, novamente para trabalhar em minas e
/plantations, / de forma a satisfazer as necessidades do capital
metropolitano.
Quando se observa que o capital desenraizou, desta forma brutal, milhões
de pessoas para suprir suas necessidades de mão-de-obra, dizer que a
acumulação de capital simplesmente se ajusta com mansidão à
disponibilidade de mão-de-obra interna é incrivelmente absurdo. Ainda
assim, é o que a teoria económica /mainstream / defende. É claro que se
a teoria propusesse que a acumulação de capital seria limitada pela
disponibilidade de mão-de-obra se o capitalismo tivesse que se arranjar
somente com a força de trabalho interna, e que teria portanto
forçosamente de percorrer o globo em busca de trabalhadores e
desenraizasse um grande contingente de pessoas para satisfazer as
necessidades de trabalho humano, isto é, se se tratasse de uma teoria
/ex ante / utilizada para prover uma explicação do imperialismo (como um
meio de superar uma escassez de mão-de-obra /ex ante / ), estaríamos a
tratar de algo bem diferente. Independentemente de se concordar ou não
com uma teoria dessas como uma explicação central para o imperialismo,
tratar-se-ia ao menos de um esforço teórico honesto. Na verdade, o
conhecido marxista austríaco Otto Bauer propôs precisamente esta teoria
do imperialismo, que foi criticada por Rosa Luxemburgo.
Mas isto */não / * é o que a teoria económica /mainstream / propõe. Ela
diz que a acumulação de capital não é limitada /ex ante / pela
disponibilidade de mão-de-obra, e sim /ex post; seu propósito não é
demonstrar a necessidade do fenómeno observável do imperialismo devido
ao factor que ela enfatiza, nomeadamente a escassez de mão-de-obra, mas
sim explicar o ritmo real da acumulação de capital em termos da
disponibilidade de mão-de-obra interna sem qualquer referência ao
imperialismo. /
A bem da verdade, há teorias recentes dentro da economia burguesa
/mainstream / que falam na superação da escassez de mão-de-obra através
do estabelecimento de uma taxa apropriada de progresso tecnológico, de
tal maneira que a taxa de crescimento da economia capitalista não mais
seja limitada pela disponibilidade de mão-de-obra. Contudo, tais teorias
ignoram completamente o imenso alcance global do capital e a sua
tendência a deslocar milhões de pessoas através do globo de forma a
atender suas necessidades. Em síntese, a teoria /mainstream / do
crescimento, ao enxergar invariavelmente o capitalismo como um sistema
fechado e auto-contido, serve para obscurecer o fenómeno do
imperialismo. E essa obscuridade caracteriza a economia /mainstream /
como um todo.
A segunda ilustração deste ponto diz respeito à teoria do comércio, que
propaga assiduamente a ideia de que o comércio internacional é sempre
benéfico a todos os países. Esta visão é sustentada oficialmente por
agências como a OMC (Organização Mundial do Comércio), que desejam impor
o livre comércio por toda parte. Entretanto, toda a experiência de
economias coloniais, como a Índia, fornece ampla evidência na direcção
contrária. A abertura comercial foi a causa da "desindustrialização" que
lançou milhões de tecelões e outros artesãos ao desemprego, graças à
importação de manufacturas baratas da metrópole capitalista. Os
trabalhadores assim deslocados foram atirados aos campos, o que elevou o
custo da terra, baixou os rendimentos do trabalho e deprimiu os
ingressos de grande parte da população (exceptuando-se, claro, os
proprietários da terra que, ao contrário, se beneficiaram do processo);
esta foi a génese da pobreza de massas nessas economias. Ainda assim,
estudantes em todo o mundo, incluindo-se os que vivem nesses países,
aprendem teorias que propagam as virtudes do livre comércio, ignorando a
própria experiência.
Como a teoria /mainstream / realiza a façanha de "demonstrar" as
virtudes do livre comércio? Ela o faz simplesmente por assumir que todos
os "factores de produção" encontram-se plenamente utilizados em cada
economia, tanto antes quanto depois da abertura comercial. Se tomamos
esta suposição como um dado, naturalmente não há espaço para qualquer
"desindustrialização", uma vez que os artesãos deslocados serão, por
definição, completamente reabsorvidos pelo sector exportador em vez de
permanecer desempregados ou subempregados. O facto de que o sector
exportador numa economia colonial (ou, de modo geral, em qualquer
economia do Terceiro Mundo ainda hoje) consiste em /commodities /
primárias cuja produção não pode ser elevada arbitrariamente devido à
disponibilidade limitada de terras e que portanto os novos desempregados
simplesmente congestionarão o mercado de trabalho em detrimento de
todos, é tido como inexistente. Com efeito, toda a acachapante evidência
histórica da desindustrialização é tratada como se jamais houvesse
ocorrido! E essa teoria obviamente tendenciosa, derivada de suposições
deliberadamente construídas, é passada adiante como se sabedoria
económica fosse.
A vacuidade da teoria económica burguesa /mainstream / tornou-se óbvia a
todos os que se engajaram na luta anticolonial, de Naoroji
<https://en.wikipedia.org/wiki/Dadabhai_Naoroji> e Romesh Dutt
<https://en.wikipedia.org/wiki/Romesh_Chunder_Dutt> a Gandhi e a
esquerda. Como resultado, logo após a descolonização houve um esforço,
na Índia e em toda parte, para dizer a verdade sobre as experiências
históricas desses países, e sobre a vacuidade da economia /mainstream, /
aos seus estudantes universitários. Lamentavelmente, este não é mais o
caso. No esforço de emular as universidades estrangeiras mais bem
conceituadas, ostensivamente com o fito de atingir uma melhor qualidade
de ensino, todos as instituições de ensino superior destes países
propagam tais teorias económicas burguesas do /mainstream / que servem
para obscurecer o fenómeno do imperialismo aos seus estudantes.
A hegemonia intelectual desempenha um papel crucial no /modus operandi /
do imperialismo; a predominância da teoria económica burguesa
/mainstream / é um elemento-chave desta hegemonia intelectual.
17/Março/2019
*[*] Economista, indiano, ver Wikipedia
<http://en.wikipedia.org/wiki/Prabhat_Patnaik>
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2019/0317_pd/economics-and-imperialism
<https://peoplesdemocracy.in/2019/0317_pd/economics-and-imperialism>
Tradução de LL. *

18/3/2019