segunda-feira, 9 de junho de 2025

Marx era um defensor do mercado livre – (livre do rentismo parasitário do capital financeiro)

 

Marx era um defensor do mercado livre

– (livre do rentismo parasitário do capital financeiro)

Michael Hudson e Richard Wolff [*]
entrevistados por Nima Alkhorshid

Previsões de PIB da OCDE.

NIMA ALKHORSHID: Olá a todos. Hoje é quinta-feira, 29 de maio de 2025, e os nossos amigos Richard Wolf e Michael Hudson estão de volta connosco. Sejam bem-vindos.

RICHARD WOLFF: É um prazer estar de volta. Muito obrigado.

NIMA ALKHORSHID: Michael, vamos começar por si. Em que medida é que a atual fratura global entre as economias ocidentais e a maioria global é semelhante à revolução capitalista industrial na Europa dos séculos XVIII e XIX?

MICHAEL HUDSON: Bem, antes de explicar isso, devo dar uma pequena nota prévia. Tanto eu como o Richard somos economistas clássicos. Seguimos a teoria do valor que foi desenvolvida por Adam Smith, Ricardo, John Stuart Mill e outros – aqueles cujas análises conduziram a Marx. O problema é que o currículo económico moderno não fala sobre a teoria do valor, a teoria do preço e a teoria da renda que os economistas clássicos desenvolveram. Os únicos que falam disto são os marxistas.

Por isso, é irónico que sejamos ambos economistas clássicos e nos chamem marxistas. Identificamo-nos com os marxistas porque Marx escreveu a primeira história do pensamento económico, as suas Teorias da Mais-Valia, onde fala de como as análises clássicas dos fisiocratas, Smith e outros – a sua teoria do valor e a sua teoria dos preços – conduziram aos problemas que ele discutiu em O Capital. Dedicou o Volume Um aos seus acréscimos às suas teorias, mas o Volume Dois e o Volume Três descrevem a teoria da renda, a teoria financeira e a teoria do imobiliário que conduziram a tudo isto.

Pode surpreender muitos leitores saber que acreditamos no mercado livre clássico. Mas o que os economistas clássicos queriam dizer por mercado livre era algo livre de interesses instalados (vested interests), os quais sacam rendimentos para si próprios que nada têm a ver com o processo de produção e que são barreiras ao êxito do capitalismo industrial.

O papel da economia política clássica era desenvolver a teoria do valor e do preço como instrumento para isolar a renda económica – o rendimento não merecido (unearned income) – o qual era tarefa do capitalismo industrial liquidar a fim fazer da Grã-Bretanha a oficina do mundo e permitir que a França, a Alemanha se tornassem as potências industriais em que se tornaram.

A estratégia industrial clássica baseava-se na economia clássica e na economia política. Foi isso que tornou o próprio capitalismo industrial tão revolucionário, ao eliminar os vestígios do feudalismo. E é isso, de certa forma, que os países BRICS enfrentam atualmente ao tentarem desenvolver o seu próprio plano para os seus próprios mercados. Trata-se de se libertarem do legado do colonialismo e do neoliberalismo centrado nos EUA que tem dominado a política governamental em todo o mundo e é imposto pelo Banco Mundial, pelo Fundo Monetário Internacional e pela corrente económica dominante.

Portanto, a nossa posição é que os países BRICS estão a enfrentar um problema muito semelhante ao enfrentado pelos países capitalistas industriais da Europa no final do século XVIII, tal como foi entendido pelos fisiocratas franceses e por Adam Smith (que foi influenciado por eles) – até ao final do século XIX. A Grã-Bretanha, a França, a Alemanha e outros países tiveram de lidar com os interesses instalados herdados do feudalismo.

Atualmente, os países BRICS têm de enfrentar um legado semelhante – o legado do colonialismo e do investimento estrangeiro e das oligarquias clientes que detêm a propriedade dos seus recursos de matérias-primas, das suas terras e dos seus serviços públicos privatizados. Tudo isto constitui um fardo que os impede de se desenvolverem de uma forma que, por exemplo, permitiu que o crescimento da China fosse tão bem sucedido. Portanto, o que queremos falar é sobre isto, que vai ser a questão política que está a impulsionar os países BRICS nos próximos anos.

Foi preciso um século inteiro para que o capitalismo industrial tentasse eliminar os interesses instalados do sector imobiliário, da banca e dos monopólios. E, no final, falhou. Houve uma reação anti-clássica com a qual ainda hoje convivemos. Queremos descrever como é que os países BRICS podem seguir esta teoria do valor, do preço e da renda para se libertarem do rendimento não merecido, de todas estas classes, investidores estrangeiros e rent seekers nacionais que não têm nada a ver com o processo de produção e que os estão a impedir de dedicar as suas receitas fiscais, as suas receitas governamentais, as suas receitas cambiais e o seu comércio externo à industrialização. Talvez eu deva deixar o Richard dizer algumas coisas aqui.

RICHARD WOLFF: Antes de o fazer, quero tirar o chapéu ao Michael, não por uma questão de celebração mútua, mas porque é muito importante perceber isto. O que os países BRICS e a China estão a fazer agora é análogo, tem muitos paralelos, ao que foi a rutura inicial da Europa Ocidental com o feudalismo. Estão a tentar alcançar para si próprios um avanço comparável, com as melhorias de rendimento, etc., que daí resultaram.

As pessoas que fizeram a revolução nos séculos XVIII e XIX na Europa ocupam agora a posição oposta ou inversa. São os novos senhores feudais contra os quais se revoltaram, mas em que agora se tornaram. E o Sul Global tomou conta do momento historicamente progressista e dinâmico.

Reparem que ainda não estou a falar de socialismo. Essa é outra questão. O socialismo é o reconhecimento de que mesmo o que eles estão a fazer não lhes vai trazer o que eles esperam. Sabem, Marx olhou à sua volta em meados do século XIX e disse:   "Adoro o slogan da Revolução Francesa: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. E adoro o que a Revolução Americana acrescentou a isso – democracia". E compreendo que os líderes da revolta contra o feudalismo tenham prometido que, a par do fim do senhor e do servo, substituindo-o por patrão e empregado, viria, como um fantástico benefício social, a liberdade, a igualdade, a fraternidade e a democracia.

Mas tenho de vos dizer, disse Marx, escrevendo na Londres de Charles Dickens, que não temos liberdade, igualdade, fraternidade e democracia. O que o capitalismo prometeu, não conseguiu cumprir. E isso tem sido verdade desde então. Assim, o projeto de Marx, se me permitem dizer isto, era responder à pergunta:   “Porque é que o capitalismo não cumpriu a liberdade, a igualdade, a fraternidade e a democracia que prometeu?”

Não se trata de questionar a sinceridade da promessa. Ela era sincera. Robespierre estava a falar a sério. Thomas Jefferson, à sua maneira, também o fez. Mas não o conseguiram fazer. Não o conseguiram. E a resposta de Marx, que o torna tão importante, é que o próprio capitalismo é a barreira para a realização da liberdade, da igualdade, e não procurem noutro lado. Não procurem fora. Está mesmo cá dentro.

Há algo que o capitalismo preserva e que o impede de ultrapassar a autocracia, a escravatura, tudo o resto, da história anterior. E isso é o facto de haver algo assustadoramente semelhante entre o mestre e o escravo, por um lado, o senhor e o servo, por outro lado, e nessa famosa terceira mão, o patrão e o empregado. Mantiveram essa dicotomia. E ao manterem essa dicotomia, uma minoria no topo, uma vasta maioria na base, impediram a liberdade e a democracia. Criámos cem anos ou duzentos anos de pessoas honestas, boas e bem intencionadas a tentar ultrapassar a desigualdade e tudo o resto, incapazes de o conseguir porque não absorveram a lição de Marx.

Se queremos liberdade, igualdade, fraternidade e democracia, temos de nos livrar do capitalismo. Caso contrário, estão condenados. Falharão como nós falhámos. Cada vez que lêem sobre Elon Musk, estão a encarar o fracasso de frente. Está bem? O que o Michael fez foi focar-nos ainda mais além disso. Ajudou-nos a identificar os latifundiários – porque quero falar um pouco sobre isso – latifundiários, monopolistas e banqueiros. Que papel desempenharam eles que teve de ser ultrapassado?

Bem, a resposta é dada pela reação que aconteceu quando a economia clássica atingiu o seu auge. É aquilo a que chamamos a revolução neoclássica, por volta de 1870 e 1880, quando na Europa se dá uma explosão de socialismo que questiona o capitalismo e que usa a versão de Marx da teoria do valor do trabalho para defender que o mundo está dividido entre o proletariado que produz um excedente e os capitalistas que o recebem e o usam para reproduzir essa situação, essa forma de organizar a economia. É por isso que os trabalhadores estão sempre sem recursos e em apuros.

E, sabem, a resposta é sempre que os capitalistas encurralaram o excedente e estão a usá-lo para manter o excedente, o que não surpreende – ou não deveria surpreender ninguém. E uma das formas de o fazer é criando estas classes especiais de pessoas. E é aí que entra a beleza da analogia com o feudalismo. Os senhores da terra!

Marx estava no seu melhor humor quando simplesmente nos ensinou – sabem, a classe trabalhadora sempre compreendeu: Porque é que estamos a pagar uma renda aos landlords? Eles não criaram a terra. Não tiveram nada a ver com a produção da terra. E sabem, se deixássemos de lhes pagar, isso não significaria que a terra desaparecesse. A terra está lá. É disso que precisamos. Não precisamos do latifundiário.

Pagar-lhe simplesmente retira uma parte do valor criado pelos trabalhadores de estar disponível para desenvolver a sua economia e, em vez disso, sustenta um estilo de vida extravagante para pessoas que são efetivamente parasitas do sistema. Os monopolistas estão a fazer a mesma coisa. Estão a receber um pagamento pelo que vendem acima do custo de produção. Não deviam estar a receber esse dinheiro. Esse dinheiro é depois retirado por eles para o que quer que seja que pensam que gostariam de fazer, mas já não está disponível para os trabalhadores e os seus capitalistas industriais que presumivelmente o utilizariam de outra forma. E o mesmo acontece com os banqueiros.

A classe trabalhadora tem sido frequentemente confundida entre o capitalista industrial que lhe retira o excedente e o capitalista monetário que se senta e assiste a todo o processo e recolhe os seus juros. Mas a renda, o preço de monopólio e os juros são deduções de um excedente produzido pelos trabalhadores que poderia ser utilizado de outra forma. E a revolta da economia clássica foi mostrar isso. A contrarrevolução da economia neoclássica foi obliterar esse entendimento, fazer de tudo uma questão de oferta e procura. Se há procura, bem, então deve ser valioso. O capitalista exige trabalhadores. Vê, eles são valiosos. O banqueiro exige juros. Deve ser valioso.

Aqui está. Falsificámos o excedente. Falsificámos tudo o que a teoria do valor do trabalho nos ajudou a ver. E os neoclássicos duplicam o horror porque se orgulham de não prestar atenção à teoria do valor do trabalho. Para eles, isto é um feito de maior precisão teórica. Para nós, é o esforço óbvio de um sistema que já não está a fazer avançar a sociedade de forma dinâmica, mas que está a enraizar elementos parasitários que serão um problema para as nossas sociedades enquanto os deixarmos existir.

MICHAEL HUDSON: Bem, a palavra-chave que Richard usou repetidamente no que acabou de dizer é “valor”. Marx salientou que o que tornou o capitalismo industrial tão revolucionário foi o facto de querer retirar da economia todas as reivindicações de rendimento que não reflectiam o valor, que foi definido como um custo de produção necessário. Segundo Ricardo, o custo da mão-de-obra era a solução final.

Mas o facto é que, se olharmos, digamos, para o que faz a renda monopolista, é o encargo para além do custo necessário de produção que os monopolistas enfrentam. Embora o capitalismo tenha sido revolucionário ao querer livrar-se da classe dos proprietários, reconheceu que a renda iria sempre existir.

Alguns terrenos estão num local mais valioso do que outros. É isso que faz com que as mesmas casas nalguns bairros sejam muito mais caras do que noutros. E isso porque pode haver parques, pode haver proximidade de transportes, pode haver museus, pode haver todas as coisas que a despesa pública acrescenta. Bem, o capitalismo foi revolucionário ao querer livrar-se de todos os custos de produção desnecessários – aquilo a que Marx chamou a “falsa” classe de produção – e da renda económica aos proprietários. A renda vai continuar a existir, mas deve ser a base fiscal. E se a renda é uma base de tributação, então não é preciso tributar o trabalho e a indústria.

Enquanto os proprietários controlassem os governos da Europa, o que acontecia desde o feudalismo, evitariam pagar impostos e obrigariam o trabalho e a indústria a pagar os impostos. Os industriais disseram: “se tivermos de pagar aos nossos assalariados o dinheiro suficiente para que possam pagar a renda económica aos proprietários e a renda de monopólio aos monopolistas e depois endividar-se e pagar juros aos bancos, então não vamos conseguir ser competitivos a nível internacional”. A Grã-Bretanha não pode ser a oficina do mundo enquanto não houver uma reforma política que acabe com o controlo do governo e do sistema fiscal por parte dos proprietários. Tudo isso era revolucionário.

A ideia do capitalismo industrial era racionalizar os custos de produção. E verificou-se que fazer isso era uma condição prévia para que um mercado livre, ou seja, um mercado livre de rendas económicas, começasse a evoluir. E, como Richard acabou de explicar, isso resolveria os objectivos da Revolução Industrial para a classe industrial, mas não resolveria os problemas da grande maioria da população, que era cada vez mais a classe assalariada, juntamente com a classe agrícola.

Marx acreditava que, uma vez libertados os mercados e as economias do domínio dos rent seekers, estes evoluiriam naturalmente para o socialismo. Assim, embora o socialismo fosse além do capitalismo, era o capitalismo que Marx via como evoluindo para o socialismo. Esta evolução, segundo Marx, começaria com o fornecimento pelo governo dos meios de produção para todo o tipo de serviços básicos, como os serviços públicos, as comunicações – todas as coisas que a Europa começou certamente por manter no domínio público – os correios, os transportes, todos estes serviços básicos.

Os europeus, e os americanos que os seguiram, aperceberam-se de que, se deixássemos estes serviços em mãos privadas, os proprietários privados cobrariam rendas de monopólio para além dos lucros. Tornar-se-ão exploradores. Assim, o capitalismo industrial precisava de um papel ativo do governo para substituir os monopólios que haviam sido criados durante o período medieval, em grande parte para fornecer aos governos e aos reis o dinheiro para pagar aos banqueiros as dívidas externas que contraíam a fim de financiar as suas guerras.

O objetivo da banca era, basicamente, organizar o financiamento das guerras e dos governos. A banca não desempenhou qualquer papel no início da Revolução Industrial. Os banqueiros não ajudaram a financiar a máquina a vapor e a mecanização da produção. Isso foi feito pelos capitalistas industriais. Eles queriam o apoio do governo para essa industrialização.

Claro que não queriam ter de aumentar os salários que pagavam, mas perceberam que a mão-de-obra precisava de salários elevados para ser produtiva, para se tornar mão-de-obra industrial. E os salários elevados assumiram a forma, em grande parte, de redução do custo de vida, através da atuação destes governos como receptores da renda da terra, de modo a não terem de tributar o trabalho. Assim, a mão-de-obra não tinha de pagar aos proprietários e não tinha de pagar preços de monopólio.

A ideia era racionalizar os meios de produção. E era isso que os economistas queriam dizer com mercado livre. Bem, o que o Richard acabou de dizer é que houve uma contrarrevolução contra isso e quando pessoas como Frederick Hayek e Margaret Thatcher falaram sobre o mercado livre – com uma coisa chamada Instituto Adam Smith – isso significava um mercado livre de caçadores de rendas, de latifundiários, de monopolistas, livre de qualquer regulamentação governamental para impedir interesses de rendas. E assim o capitalismo industrial no século XX, acelerando nos anos 80, tornou-se a antítese da revolução que o capitalismo industrial procurou criar.

Bem, como é que os BRICS vão lidar com isto? O que eles precisam perceber é que, embora o capitalismo industrial tenha falhado no Ocidente, têm de perguntar como podem proceder de forma a que seja bem sucedido naquilo que estão a fazer? Como é que se libertam? Bem, vejamos a questão da renda da terra, da renda dos recursos naturais. Os investidores estrangeiros desempenham nos países BRICS e no Sul global o mesmo papel que a aristocracia hereditária europeia desempenhou na Europa. Invadiram, assumiram o controlo dos recursos naturais e das receitas. E, embora a Grã-Bretanha, a França e a América fossem a favor da eliminação das rendas económicas nas suas próprias economias, quando estabeleceram colónias e tentaram conquistar economicamente o que se tornou os países do Sul Global – tudo isso foi uma questão de busca de rendas.

Queriam apoderar-se dos recursos naturais e ficar com todas as rendas dos recursos naturais, que eram exatamente como as rendas fundiárias, tal como Ricardo descreveu no capítulo dois do seu On the Principles of Political Economy. Estes princípios foram desenvolvidos logo após o fim das guerras napoleónicas, como um esboço do que a Grã-Bretanha tinha de fazer para se livrar das Leis do Milho (Corn Laws), do protecionismo agrícola, do poder dos proprietários sobre o governo e para conseguir uma reforma parlamentar que apoiasse essencialmente o capitalismo industrial contra estes interesses instalados.

Bem, os economistas clássicos tinham uma solução. Mesmo que os investidores estrangeiros continuem a deter a propriedade estrangeira dos recursos naturais, os governos têm a possibilidade de aplicar um imposto sobre a renda económica, sobre o rendimento não auferido, distinto do rendimento salarial e dos lucros industriais. Marx considerava o lucro industrial um elemento de valor porque os capitalistas industriais desempenhavam de facto um papel na produção.

Os industriais organizaram a produção, desenvolveram mercados, fizeram todo o tipo de coisas para competir com os rivais no estrangeiro e para criar mercados para si próprios em todo o mundo. Mas para continuarem a competir, para se tornarem realmente competitivos, quer fosse contra a sua vontade ou não, o capitalismo industrial tinha de evoluir para o socialismo.

Não só Marx pensava assim, mas toda a gente no final do século XIX pensava que iria assistir ao socialismo, de uma forma ou de outra. Havia, como dissemos nos programas anteriores enquanto Richard estava em França, o socialismo católico, o socialismo cristão, o socialismo não marxista. Havia todas as formas, mas havia uma ideia geral de que era necessária uma economia mista, um sector público governamental cada vez mais ativo, a par da produção privada, para evitar que os monopolistas, os proprietários de terras e os banqueiros procurassem obter rendimentos que impedissem as economias industriais de serem produtivas.

Bem, o mesmo se aplica ao que os países BRICS precisariam. Não mencionei a banca antes, mas os países BRICS precisariam de fazer o que a China fez:   fazer com que a banca criasse dinheiro e crédito. Não apenas para obter lucros através da aquisição de empresas industriais e da criação de monopólios como a mãe dos trusts, e depois apoiando aqueles que se opõem à tributação da terra porque querem que os proprietários ganhem dinheiro suficiente para pagar os juros do governo sobre o crédito hipotecário que permite aos novos compradores da terra.

Bem, a principal medida que a China tomou e que os países BRICS precisam de imitar é manter a banca como um monopólio público, uma criação pública de dinheiro e crédito, para que seja utilizada para financiar investimentos reais em infra-estruturas industriais, agrícolas e governamentais, e não o comportamento predatório dos bancos da Europa.

Bem, esta luta foi travada na Alemanha no século XIX, mas os bancos ripostaram. De qualquer modo, estes conceitos clássicos de valor, preço e renda, e a utilização da teoria do valor para definir a renda económica como rendimento não merecido de que as economias precisam de se livrar, é uma condição prévia, não só para o capitalismo, mas também para o socialismo. É isso que faz com que esta seja essencialmente a tarefa das economias BRICS atualmente, penso eu.

RICHARD WOLFF: E repare, não compreender isto – se me permite acrescentar, Nima – não compreender isto leva-nos ao seguinte enigma. A denúncia da China no Ocidente é precisamente porque os chineses estão a fazer, por exemplo, com o seu sistema de crédito, o que o Michael acabou de descrever. Não estão a permitir que funcione como se fosse de alguma forma equivalente à forma como funciona no capitalismo industrial.

Não vai ser propriedade privada. Não vai ser conduzido por uma definição estreita do que quer que se chame lucro e maximização – nada disso. Vai resolver o problema social, que para eles tem sido, não ser o país mais pobre do mundo, mas tornar-se um país decente, moderno e de rendimento médio, o que conseguiram numa geração. Nunca ninguém o tinha feito antes.

Mas a denúncia é uma dupla ironia. Não percebe o seu êxito e garante o fracasso do Ocidente, porque este não pode fazer isso. O Ocidente não tem forma de mobilizar os seus recursos de uma forma comparativamente centrada no crescimento económico. Por isso, ficará para trás, o que conduzirá a todos os problemas.

Lemos esta manhã na imprensa que o Governo dos Estados Unidos decidiu que há ainda outros tipos de equipamento que não permitirá que as empresas americanas vendam à China. Isso não vai parar o processo. Não compreende a questão estrutural. Será um fracasso tão grande como foi a guerra na Ucrânia, ou a guerra no Vietname, ou a guerra no Iraque.

Não está a pensar com clareza, não porque não seja inteligente, mas porque retirou a teoria do valor do trabalho, que foi desenvolvida – mais uma vez, porque o Michael o disse, e muito poucas pessoas a compreendem – não por Karl Marx, mas por Adam Smith e David Ricardo e houve outros precursores além destes. Marx levou-o numa direção diferente, sem dúvida.

Mas devia-lhes isso, uma dívida que reconheceu nos livros a que o Michael se referiu em The Theories of Surplus Value, onde diz repetidamente que foi um avanço importante quando Smith e Ricardo puseram as mãos nessa teoria do valor do trabalho. E o que o Michael está a dizer é que temos de ler a história da economia de forma diferente, porque é crucial para nos orientarmos no ponto em que estamos hoje.

A minha dívida, um pouco diferente da do Michael, é para com um filósofo francês chamado Louis Althusser, cuja publicação mais importante, praticamente desconhecida nos Estados Unidos, é um livro chamado Lire le Capital, que se traduz em inglês como Reading Capital. E ele referia-se a O Capital, o livro. Ele vem como filósofo e diz:   “O que é que este livro está a fazer?” Qual é o problema que este livro aborda? Qual é o projeto?

Ele diz isso na sua própria linguagem, que é a de um filósofo. Era professor de filosofia. A sua linguagem é diferente. Mas chega a uma conclusão encantadoramente paralela àquela que o Michael nos abriu hoje. Ele diz: "Vejam o que eles estão a tentar fazer. Oh! – e a seguir desvenda. Se lermos estas coisas em Althusser e depois voltarmos atrás e dissermos que tivemos aquele momento Eureka, é disso que trata este livro. Não se trata deste ou daquele pormenor. Trata-se de uma forma diferente de compreender o que se está a passar.

Já agora, se querem saber porque é que O Capital de Marx não é ensinado nos Estados Unidos, é porque é uma forma diferente de compreender o que se está a passar. E é muito importante para este sistema que isso não seja discutido publicamente, explorado publicamente ou criticado. Está tudo bem. Encontrem falhas no sistema. Há muitas. Isto não é um jogo de lealdade. Este é um jogo para dizer que tipo de sociedade permitiria a realização de descobertas científicas que depois enterra. Em que tipo de sociedade bizarra temos de viver para o fazer? Não é algo de que nos possamos orgulhar. É algo que nos faz coçar a cabeça e perguntar porquê.

MICHAEL HUDSON: Bem, Adam Smith seria hoje chamado de marxista, porque insistiu em mudar o sistema fiscal para tributar os proprietários e não o trabalho e o capital. Lembrem-se que ele acusava os homens de negócios de procurarem monopólios. E se quisermos evitar isso, bem, com legislação anti-monopólio, isso é chamado de marxista. Todas as reformas que os economistas clássicos defendiam para libertar os mercados são hoje chamadas de marxistas.

Então, o que é que eu e o Richard podemos fazer? Os únicos estudantes que estão a aprender economia estão a ser ensinados por professores marxistas. Esta é a única exposição que têm quanto ao que Adam Smith, John Stuart Mill, Ricardo e até Thomas Malthus realmente diziam.

Toda a estratégia do capitalismo industrial foi resumida por Marx e é essa a estratégia que temos discutido – e é muito embaraçosa para os que estão em busca de rendas, os quais dizem “não, não, não, não digam que os latifundiários não merecem o seu dinheiro”. É verdade que os latifundiários não se limitam a receber as rendas a dormir, como dizia John Stuart Mill. Eles desempenham um papel ativo. Decidem a quem arrendar. E pagam a lobistas para ajudar o governo a entender que a renda é [algo] produtivo.

É por isso que as nossas contas do PIB e do rendimento nacional consideram a renda como uma contribuição para o produto. Mas não é um produto. Marx é muito claro. Distinguiu a economia de produção, produto e consumo, da economia improdutiva, a economia de circulação. É a mesma coisa que outros economistas que criticavam os monopólios, os reformadores alemães que industrializaram a banca, queriam evitar – que a banca desempenhasse um papel improdutivo.

Mas o que aconteceu depois da Primeira Guerra Mundial foi que, em vez do que Marx esperava e do que descreveu no Volume 3 de O Capital, em vez de a banca ser industrializada, a indústria foi financeirizada. E isso tornou-se uma contrarrevolução, no sentido de ser contra a revolução na teoria do valor, do preço e da renda que tinha guiado o capitalismo industrial. Esse é o modo [deles] de pensar.

Se pensarmos no preço como o excesso desnecessário da renda económica em relação ao valor como o custo necessário da produção, isso leva-nos a eliminar todos os privilégios especiais que os proprietários têm, que os monopolistas têm e que outras pessoas que procuram obter rendas têm. Temos um mercado livre no sentido clássico de Adam Smith, Marx, Richard e eu, e não a teoria de Hayek, segundo a qual, se queremos liberdade, devemos livrar-nos do governo.

O capitalismo industrial conduziu a um governo suficientemente forte para tributar a renda económica, suficientemente forte para levar os monopólios para o domínio público, para produzir necessidades básicas e serviços básicos como serviços públicos a serem subsidiados e fornecidos gratuitamente – como a educação, em vez de ter de cobrar por ela, como os transportes, como os cuidados médicos e a saúde pública. Bem, todas estas eram políticas conservadoras no século XIX. Benjamin Disraeli disse que a saúde, a saúde é tudo. Disraeli e os economistas clássicos não apoiariam o Obamacare e a enorme sobrecarga dos cuidados de saúde nos Estados Unidos.

É isto que realmente distingue o tipo de reforma económica que o industrialismo prometeu mas não conseguiu realizar, porque não conseguiu impedir esta contrarrevolução intelectual que foi patrocinada pela contrarrevolução política dos proprietários de terras, banqueiros e monopolistas que lutaram contra a ideia dos industriais de uma economia de baixo preço e gerida de forma eficiente. Por isso, coube à China socialista racionalizar a situação, e vimos a diferença na prática.

RICHARD WOLFF: Deixem-me mostrar-vos como isto funciona, amigos. O investidor mais bem sucedido dos Estados Unidos no último meio século é um homem chamado Warren Buffett. Reformou-se recentemente. Agora é um senhor idoso, um multimilionário, etc. Ao longo da sua carreira, fizeram-lhe sempre uma pergunta: porque é que é tão bem sucedido? Por que razão, na sua empresa Berkshire Hathaway, reuniu as acções certas na altura certa para se tornar multimilionário, blá, blá, blá.

Ele nunca hesitou em responder. A sua resposta – sim, na linguagem económica a que está habituado – foi a seguinte:   "Concentro sempre o meu investimento da seguinte forma. Procuro uma empresa". E agora – na sua linguagem – que tenha uma posição dominante no seu mercado". Muito bem, é uma forma simpática de dizer “monopolista”, alguém que está em posição de aumentar o preço do que quer que seja que produz muito acima do seu custo, e depois distribuir essa maravilhosa receita por quem quer que a tenha tornado possível.

Foi isso que ele fez. Por isso, investiu, com base na fome de monopólio do capitalismo moderno. E ganhou muito dinheiro porque apostou corretamente que as empresas em posição de dominar um mercado, ou seja, de cobrar mais do que o custo de reprodução do que quer que seja, é onde se quer estar para recolher o dinheiro da forma como este capitalismo funciona. Uau.

É por isso que ele é grande no sector bancário. Ele é grande nos seguros. É grande em todas essas coisas – caminhos-de-ferro que têm um monopólio efetivo sobre o local onde circulam. São com essas as coisas em que ele fez uma tonelada de dinheiro. É uma ilustração do que o Michael está a tentar dizer. E uma sociedade que faz isso está a desviar a riqueza do desenvolvimento económico para sustentar esses grupos especiais. E era isso que Adam Smith e Ricardo odiavam nos senhores feudais. Eles desviaram a riqueza que emergia do feudalismo e que não podia ser usada para desenvolver as economias inglesa ou francesa, porque estava a ser gasta na loucura do consumo frívolo desse período da história francesa.

Acabei de regressar de França. Se viajarmos ao longo do rio Loire, que não fica muito longe de Paris, podemos ver as extraordinárias mansões e castelos que foram construídos com este enorme excedente que foi retirado à produção industrial para produzir um grande palácio atrás do outro. É extraordinário o conhecimento que se obtém com isto.

E depois, mais uma vez, a ironia da China. Ao ser excluída do Ocidente, ao ser-lhe dito que é um país comunista, por isso é o país mais pobre do mundo. Não vos vamos ajudar e vão continuar a ser o país mais pobre do mundo porque não aderem ao sistema de crescimento capitalista. Isto foi-lhes dito literalmente no final dos anos 40 e início dos anos 50.

Serem excluídos foi a melhor coisa que lhes aconteceu. Ao serem obrigados a não depender do Ocidente, conseguiram limitar – não totalmente, aliás, apenas limitar, porque eles também têm os seus problemas – mas conseguiram limitar a perda de toda essa riqueza do trabalho de desenvolvimento económico. Mantiveram-na lá. E isso fez toda a diferença.

Nada vai mudar nesse processo. Continuaremos a ver o PIB da China crescer duas a três vezes mais depressa do que o dos Estados Unidos, o que tem acontecido em todos os últimos 30 anos. Trata-se de um feito espantoso, que qualquer profissional sério em análise económica tornaria o seu objeto principal. Se o grande livro de Adam Smith, A Riqueza das Nações, quisesse explicar por que razão a riqueza de uma nação era muito maior do que a riqueza de outra, essa seria a questão número um. Por que é que a riqueza da China está a explodir em relação à de todos os outros países?

MICHAEL HUDSON: Bem, uma coisa que a China tinha e que as nações industriais da Europa não tinham era um governo suficientemente forte para impedir o desenvolvimento de uma oligarquia independente, uma oligarquia financeira, e a oligarquia de proprietários e monopolistas a ela associada. A razão foi que, quando a China fez uma revolução, livrou-se da classe financeira. A classe financeira e a classe senhorial fugiram todas para Taiwan ou abandonaram o país, ou foram essencialmente socializadas, deixando de existir.

Isso não aconteceu no Ocidente e foi esse o fracasso. As economias ocidentais, no final do século XIX, na altura da escola austríaca, da escola americana e de toda a contrarrevolução de direita contra o governo, disseram:   "Não queremos um governo forte. O governo é o opressor". Bem, o que eles queriam dizer era que o governo bloqueia a classe dos proprietários, a classe dos monopolistas e a classe financeira.

Mas eles convenceram a população. E hoje, a chamada defesa do mercado livre que estamos a ter nos Estados Unidos com Donald Trump, Musk, e os republicanos, a que se juntaram os democratas, é que as burocracias governamentais são menos eficientes do que os monopolistas privados e os capitalistas privados. Bem, eles não são realmente capitalistas no sentido de capitalistas industriais, como era entendido no século XIX. São essencialmente gestores financeiros que tomaram conta da indústria e tomaram conta do governo para o orientar segundo linhas financeirizadas.

Foram os interesses bancários que apoiaram os interesses imobiliários na oposição a um imposto sobre o património imobiliário. E fizeram-no porque sabiam que, muito bem, ainda se paga renda fundiária, mas já não está a ser paga aos proprietários. Está a ser paga aos bancos, no sentido em que quem pede dinheiro emprestado para comprar uma casa tem de pagar a renda fundiária e é para os bancos que vai a maior parte do valor das casas e dos edifícios comerciais.

E se olharmos para baixo, quem são os beneficiários da renda económica hoje em dia? Acontece que é o sector bancário e financeiro. Portanto, estamos numa situação que nem Marx nem outros socialistas antes de Lenine conheceram. Estamos hoje numa sociedade capitalista financeira, não numa sociedade capitalista industrial. Marx esperava que o capitalismo industrial evoluísse para o socialismo, mas foi desviado pelos interesses dos rentistas, transformando-o num capitalismo financeiro.

Foi isso que conduziu à desindustrialização dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. E essa é essencialmente a lição que eu penso que os países BRICS precisam de analisar, para dizer:   o que é que queremos evitar? Queremos evitar que os investidores estrangeiros e os proprietários privados, sejam eles oligarquias nacionais, oligarquias clientes ou investidores estrangeiros, se apropriem da renda dos nossos recursos naturais.

Os recursos naturais são criados pela natureza de forma gratuita. Não há custos de produção e, portanto, não há valor. E tentar beneficiar – se estivermos a explorar uma mina – de mais do que as despesas de capital que estamos a criar ao escavar um poço de petróleo e ao criar a mina, então estamos a receber toda a renda dos recursos naturais. Isso não é natural. Isso pode ser tributado e permitiria aos governos dos BRICS ter dinheiro para construir as suas próprias infraestruturas nacionais, para substituir as infraestruturas privatizadas, para criar uma economia racionalizada e baseada na economia da produção.

Seria utilizado para elevar o nível de vida, aumentar a produtividade, aumentar a educação, baixar o custo de vida e criar o que era a promessa capitalista original. E tornou-se a promessa socialista que foi combatida pela revolução anti-industrial que ocorreu, como disse Richard, no final do século XIX e início do século XX e que, essencialmente, substituiu o capitalismo industrial na sequência da Primeira Guerra Mundial.

RICHARD WOLFF: Poderia concluir esta conversa e voltar a Adam Smith. Ele avisou-nos – e, aliás, Marx repetiu-o mais tarde – que se deixarmos a estrutura capitalista como está, a forma como os capitalistas pensam e funcionam, eles farão a transição que criticámos. Deixarão de ser um capitalismo industrial, centrado na obtenção de lucros através da produção de algo, e passarão a procurar a posição de monopólio em que se pode ganhar dinheiro enquanto se dorme. É muito menos árduo. Em vez de sermos o organismo vivo que produz a riqueza, passamos a ser o parasita que se senta e simplesmente consome a riqueza e perde o interesse por ela.

A garantia final? Eis a ironia: a garantia máxima é o que os primeiros capitalistas imaginavam, um capitalismo movido pela concorrência para obter o máximo de excedentes e voltar a investi-los no negócio para crescer. Mas essa imagem é minada pela relação patrão-empregado. Foi essa a genialidade de Marx. Aquilo a que ele chamava as relações de produção acaba por deixar de ser um meio de fazer crescer a riqueza e passa a ser um grilhão que trava o crescimento da riqueza.

Então, qual seria a garantia de que não se passaria de um apropriador do excedente para um parasita? A resposta é: acabar com a contradição entre o empregador e o empregado, os seus interesses não são os mesmos. É a compreensão que os trabalhadores têm daquilo que Marx lhes ensinou. Se eles se tornarem o seu próprio patrão, podem ter a certeza de que não o levarão nessa direção social perdulária. E o facto de os trabalhadores se tornarem eles próprios patrões é socialismo.

É por isso que Marx não é algum previsor místico do futuro. Marx não acreditava, sabe, em prever o futuro como algo que as pessoas no parque de diversões fazem. Isso não é um negócio sério. Nenhum de nós sabe o que é o futuro. É por isso que lhe chamamos o futuro. Quando Marx falava assim, estava a trabalhar a lógica do sistema.

A garantia do socialismo é que as contradições internas do capitalismo, que ele passou a vida a tentar perceber, impediam não só a concretização da liberdade, da igualdade e da fraternidade, mas também a perpetuação do próprio sistema capitalista. E quando descobriu isso, legou ao resto de nós uma noção não só de como o capitalismo funciona, mas também de como e por que razão deixará de existir, altura em que um dos seus produtos, o marxismo, desaparecerá também.

Quero dizer, quem é que consegue tal visão? Sabem, é isso o que maravilha em Althusser. Vejam isto. Esta é uma análise que pode explicar a passagem do objeto da análise e depois da análise também. É extraordinário. E sublinha realmente o que o Michael e eu dissemos, o problema que ele disse que enfrentamos. Estamos a tentar explicar aos nossos colegas economistas o que é que lhes está a faltar. Mas, tendo a formação que tiveram, não nos conseguem ouvir.

Por isso, estamos a gritar, estamos a falar numa situação em que há frustração por todo o lado. Mas, por outro lado, talvez não nos devêssemos queixar. Porque se aprendo alguma coisa com os meus compatriotas americanos, todos os dias na rua, é que todos nos perguntamos o que raio se está a passar, porque nenhuma das velhas regras parece estar em vigor. Os títulos dos jornais de cada dia são mais bizarros do que os do dia anterior.

De qualquer forma, tenho de ir, por isso peço desculpa. Estou muito contente por estar de volta a esta conversa. Aprendo muito com o que estamos a tentar perceber aqui. Por isso, estou ansioso por voltar a fazê-lo na próxima semana.

MICHAEL HUDSON: Até breve. Obrigado, Richard. Há uma razão para os economistas não nos ouvirem: é que não estamos nos principais meios de comunicação social nem na televisão. Não nos pedem para comentar em companhia educada. Estamos no programa da Nima e muitas vezes noutros. Este é basicamente o nosso veículo. E estamos a voltar ao que o Richard disse. Ele disse que Adam Smith previu o que aconteceria se a esperança industrial de se livrar da classe dos proprietários e da sua renda económica não funcionasse.

Foi Ricardo, que era o porta-voz dos bancos no Parlamento britânico, que fez uma descrição ainda mais dramática, dizendo que, à medida que a população aumentasse e a procura de habitação e de terrenos agrícolas e imóveis aumentasse, cada vez mais o rendimento nacional seria utilizado para pagar aos donos da terra, até que todo o excedente económico, para além da mera subsistência, fosse pago à classe dos donos da terra, o que significaria o fim do capitalismo industrial.

Na próxima semana, posso ler-vos a passagem do que Ricardo disse de forma tão dramática. Mas, de facto, o que Ricardo não criticou, claro, foi a classe financeira, porque ele era um lobista da classe dos banqueiros de Inglaterra. E o que temos discutido neste programa nos últimos seis meses é a forma como cada vez mais do rendimento nacional dos Estados Unidos e da Europa tem sido pago como serviço da dívida ao sector financeiro, cada vez mais alto.

Todas as recuperações desde a Segunda Guerra Mundial começaram a partir de um nível de dívida cada vez mais elevado. E agora quase todo o rendimento, para além da subsistência de um número cada vez maior de assalariados, é pago aos bancos sob a forma de juros, juros de cartões de crédito – sobretudo juros de hipotecas, se tiverem uma casa. Mas, caso contrário, é sob a forma de renda económica que os compradores de imóveis que pediram dinheiro emprestado aos bancos para obterem a renda da terra pagaram essencialmente como juros.

São os juros da sua dívida automóvel, dos seus empréstimos pessoais que tiveram de contrair para se equilibrarem, porque os seus salários não são suficientes para pagar o custo de vida básico. Assim, o destino que Adam Smith e Ricardo avisaram que ocorreria se não se tributasse a renda económica – e eles estavam a pensar nos latifundiários – está agora a ser tomado pelo sector bancário, que desempenha hoje o papel que os latifundiários desempenhavam no século XIX.

Assim, ao lermos a economia de Marx, John Stuart Mill e outros economistas, apercebemo-nos de que, ah, sim, agora são os banqueiros os principais beneficiários. E como principais beneficiários da renda, opõem-se à tributação da renda económica e à sua utilização como base fiscal. Defendem a tributação sobre o trabalho e a indústria, não sobre os interesses imobiliários dos nossos clientes, não sobre os interesses monopolistas dos nossos clientes. E foi isso que essencialmente desindustrializou os Estados Unidos.

A tarefa dos países BRICS é:   como é que evitarmos isto? Como evitar que o poder das instituições financeiras internacionais, o Banco Mundial, o FMI e o National Endowment for Democracy americano se envolvam numa mudança de regime para nos impedir de tomar medidas para alcançar uma economia racionalizada em que o excedente económico seja utilizado para aumentar a produção, aumentar o emprego, construir mais fábricas, melhorar a agricultura e elevar o nível de vida e de trabalho, de modo a que a mão-de-obra mais instruída, mais bem vestida e mais bem alojada possa vender o trabalho a um preço inferior ao dos países pobres.

Os países pobres tornaram-se os Estados Unidos, a Alemanha e a Europa, que deveriam ser os principais países industriais. É a mão-de-obra americana, alemã e europeia que está agora a ser empobrecida pela finança, juntamente com o sector imobiliário e com os interesses monopolistas em busca de rendas. É diferente da China e de outros países asiáticos que estão a tentar reinventar a roda.

O que eu e o Richard tentámos fazer foi fornecer-lhes os conceitos de valor, preço e renda que orientariam a sua política para libertar a sociedade da renda. Isso implica um governo suficientemente forte para o fazer. E o objetivo do capitalismo financeiro é impedir um governo forte capaz de o fazer e capturá-lo para o tornar forte a favor do sector financeiro, a favor dos que procuram a renda – exatamente o que a Grã-Bretanha, a França e outros países europeus passaram um século a tentar reformar.

Tudo isto culminou, de facto, numa crise constitucional em Inglaterra, em 1909, 1910, quando o Parlamento britânico aprovou o imposto predial e a Câmara dos Lordes o rejeitou. A crise durou um ano, e a Grã-Bretanha aprovou uma regra que dizia que nunca mais a Câmara dos Lordes poderia rejeitar uma lei de receitas da Câmara dos Comuns. Bem, na altura em que foi aprovada, o mundo estava a caminho da Primeira Guerra Mundial.

As emergências nacionais e tudo isso anularam toda esta iniciativa de libertar as economias da renda e criar um mercado livre, ao estilo da economia clássica. Foi substituído por um mercado livre no sentido de ser livre para os rentistas impedirem que os governos bloqueassem a sua aquisição e paralisassem as economias. Foram essas as leis do movimento que ocorreram.

Marx, na sua introdução ao Capital, disse:   “O meu trabalho é descrever as leis de movimento do capitalismo”. Bem, as leis de movimento actuais não são as mesmas leis de movimento que Marx descreveu na altura. Ele era demasiado otimista quanto ao que esperava que o capitalismo industrial acabasse por fazer.

Estamos a tentar recentrar a atenção nestas leis de movimento para orientar a política que gostaríamos de ver aplicada pelos países BRICS, porque não vemos grandes perspectivas de que sejam aplicadas nos Estados Unidos e na Europa, onde os neoliberais se apoderaram do governo e o utilizaram exatamente para o fim oposto que os economistas e industriais originais e clássicos da Europa e da América esperavam ver.

NIMA ALKHORSHID: Ótimo, Michael. Vamos continuar estas discussões que são tão importantes, na minha opinião, no que diz respeito aos BRICS e ao futuro dos BRICS e do Sul Global e ao que podem aprender com os Estados Unidos, com a economia ocidental, com o que tem mencionado nas várias sessões em que está a falar, aqui neste podcast. Muito obrigado, Michael.

MICHAEL HUDSON: Bem, temos de vos agradecer por nos patrocinarem e nos darem este espaço para introduzirmos estes conceitos que não conseguimos introduzir no currículo académico destes países.

NIMA ALKHORSHID: Obrigado. Até breve, Michael. Até para a semana.

Em

RESISTIR.INFO

https://resistir.info/m_hudson/mercado_livre_01jun25.html

1/6/2025 

domingo, 8 de junho de 2025

Um mito duradouro acerca do capitalismo

 


Prabhat Patnaik [*]

Desemprego durante a depressão.

Há certamente muitos mitos sobre o capitalismo, difundidos por economistas. Um desses mitos, propalado por David Ricardo, perdura há mais de dois séculos. Inicialmente, Ricardo havia sido um apoiante entusiástico da introdução da maquinaria, desdenhando o argumento das organizações de trabalhadores do seu tempo de que esta dava origem ao desemprego. No entanto, na terceira edição dos seus Princípios, acrescentou um capítulo intitulado “Sobre a maquinaria”, no qual concordava com as organizações de trabalhadores em que a sua introdução causava, de facto, desemprego imediato, mas argumentava que, como aumentava a taxa de lucro e, consequentemente, a taxa de acumulação e de crescimento, incluindo a taxa de crescimento do emprego, geraria, ao longo do tempo, um emprego ainda maior do que o que teria ocorrido de outra forma.

Esta afirmação de Ricardo, que Marx criticou duramente nas suas Teorias da Mais-Valia, é obviamente incorrecta por várias razões. Em primeiro lugar, toda a discussão de Ricardo girava em torno de uma introdução pontual de maquinaria; mas, numa economia capitalista, a mudança tecnológica é um fenómeno contínuo, sendo a introdução de um conjunto de maquinaria seguida pela introdução de outro, e ainda outro. Por conseguinte, mesmo partindo do princípio de que a taxa de lucro e, por conseguinte, a taxa de acumulação e de crescimento do emprego continuam a aumentar com este progresso tecnológico, o dia em que o desemprego gerado por esta mecanização será finalmente totalmente absorvido também continua a ser cada vez mais adiado.

Em segundo lugar, toda a argumentação ricardiana parte do princípio de que a lei de Say é válida, ou seja, que nunca existirá qualquer problema de procura agregada. Por outras palavras, todas as poupanças, que são iguais aos lucros não consumidos (presume-se que todos os salários são consumidos), são investidas; o investimento nunca deverá ser limitado pelo crescimento do mercado, o que, por sua vez, pressupõe que não existe outra forma de detenção de riqueza, ou seja, a moeda não é uma forma de detenção de riqueza. Isto é irrealista e logicamente inválido.

Uma vez reconhecido que o investimento é regido pelo crescimento do mercado, segue-se que uma mudança de salários para lucros causada pela introdução de maquinaria reduzirá a taxa de acumulação. Como a introdução de maquinaria causará imediatamente um aumento do desemprego, os salários não aumentarão mesmo que a produtividade do trabalho aumente através da mecanização; isto causará uma deslocação dos salários para os lucros. Uma vez que os salários são mais ou menos totalmente consumidos, ao passo que apenas uma pequena parte dos lucros o é, essa transferência dos salários para os lucros tende a reduzir o rácio do consumo no rendimento total, provocando uma tendência para a sobreprodução, o que, na realidade, faz baixar a taxa de acumulação.

Assim, longe de aumentar a taxa de crescimento do emprego, como defendia Ricardo, a introdução de maquinaria tenderá a reduzir a taxa de crescimento do emprego. É claro que pode haver períodos em que a taxa de acumulação pode aumentar por razões independentes e, se esses períodos forem marcados pela ausência de novas introduções de máquinas ainda mais recentes, então o nível de desemprego pode efetivamente diminuir; mas essas reduções no desemprego não são causadas per se pela introdução inicial de máquinas. Podemos, portanto, dizer com certeza que não há absolutamente nenhuma razão para acreditar que a introdução de máquinas irá, mesmo durante um período de tempo, superar por si própria o desemprego que inicialmente cria.

No entanto, o quadro pintado por Ricardo passou a ser aceite como uma caraterística geral do capitalismo, segundo a qual, independentemente das dificuldades que possa causar no início, acabará por trazer maior prosperidade para todos. No entanto, isto não é verdade:   as dificuldades que causa inicialmente, como vimos, por si mesmas nunca tenderão a ser melhoradas ao longo do tempo; não há absolutamente nada na dinâmica interna do capitalismo que contribua para a superação dessas dificuldades iniciais.

Coloca-se então a questão:   como explicar que na região do mundo onde o capitalismo teve origem e continua a ser a sua base, nomeadamente a Europa Ocidental, se tenha verificado uma melhoria efectiva das condições de vida das populações em relação aos primeiros anos do capitalismo? Como conciliar este fenómeno observado com o argumento teórico de que as dificuldades iniciais causadas pelo capitalismo, longe de serem revertidas, têm tendência para se agravarem por si próprias ao longo do tempo?

Há duas circunstâncias históricas associadas ao desenvolvimento do capitalismo que explicam este quebra-cabeças. A primeira é a emigração maciça de população da Europa para as regiões temperadas do mundo, como o Canadá, os Estados Unidos (como se tornaram mais tarde), a Austrália, a Nova Zelândia e a África do Sul. Estas tornaram-se as “colónias de povoamento”, ao contrário das “colónias de conquista”, como a Índia, a Indonésia ou a Indochina. Nas colónias de povoamento, os imigrantes ocuparam as terras que pertenciam aos habitantes originais e obtiveram um nível de rendimento mais elevado através do seu cultivo, o que aumentou o “salário de reserva” dos trabalhadores na Europa, ou seja, o salário mínimo que os trabalhadores podem obter. Deste modo, tanto o nível de emprego como a taxa de salário aumentaram nos seus países de origem, muito acima do que teriam sido de outro modo, anulando assim o efeito adverso da mecanização sobre o emprego.

A escala da emigração da Europa foi maciça em relação à sua população. Durante o “longo século XIX” (que se estendeu até à Primeira Guerra Mundial), calcula-se que cinquenta milhões de pessoas emigraram da Europa para as regiões temperadas de colonização europeia. Para a Grã-Bretanha, o local original da Revolução Industrial, onde as máquinas fizeram a sua primeira aparição, a escala da migração anual foi tão grande que cerca de metade do aumento natural da população deixou as suas costas. A emigração em tal escala e durante um período tão longo introduziu um aperto no mercado de trabalho, enviando os desempregados para o estrangeiro. Foi este fator de expansão externa, mais do que qualquer dinâmica interna do capitalismo, que assegurou que o desemprego inicial criado pela introdução da maquinaria, longe de se agravar ao longo do tempo, fosse de facto atenuado.

O segundo fator que funcionou no mesmo sentido foi o fenómeno da desindustrialização das exportações de produtos manufacturados para as colónias de conquista que já produziam esses produtos. Assim, o desemprego gerado pela introdução da maquinaria não se confinou apenas à economia nacional; uma grande parte dele ocorreu fora, nas colónias de conquista. E, ainda nos dias de hoje, constitui as grandes reservas de mão-de-obra do Sul global.

É porque geralmente não vemos estas reservas como resultantes da mecanização introduzida pelo capitalismo industrial na metrópole, e nos concentramos apenas no desemprego gerado dentro da própria metrópole, enquanto avaliamos o efeito da mecanização, que efetivamente se reduziu através da emigração, que ficamos com a impressão de que esse desemprego desaparece com o tempo através da dinâmica interna do capitalismo. De facto, esse efeito da dinâmica interna do capitalismo não existe.

Tudo isto tem implicações extremamente importantes para o Sul global atual. É aceite como verdade evangélica, e vendida como tal pelo Banco Mundial, pelo FMI e por outras agências do género, que a prossecução de um capitalismo desenfreado pelos países do Sul global iria ultrapassar o seu desemprego e pobreza. O exemplo da Europa Ocidental é dado em apoio a esta afirmação. No entanto, esta é uma leitura totalmente errada da teoria e da história do capitalismo.

Os primeiros planeadores indianos, como P. C. Mahalanobis, estavam bem cientes deste facto. Não só queriam um regime dirigista em vez de um regime capitalista desenfreado para o desenvolvimento da nação, como também, mesmo dentro do regime dirigista, queriam proteção para as indústrias artesanais e de pequena escala. Mahalanobis, para além da sua conhecida ênfase na indústria pesada, tinha um elemento adicional na sua proposta para o segundo plano quinquenal da Índia. Tratava-se de reforçar a disponibilidade de bens de consumo, criando simultaneamente emprego na economia, através de uma expansão das indústrias artesanais e de pequena escala. Ideias muito semelhantes de “andar sobre duas pernas” estavam a ser desenvolvidas na mesma altura na China, o outro grande país populoso do Sul global, para ultrapassar o seu problema de desemprego e pobreza herdado dos tempos coloniais e semi-coloniais.

É lamentável que o debate económico no país tenha atingido hoje um nível tão jejuno que se reciclam mitos de duzentos anos atrás sobre o capitalismo, sustentados por todo o tipo de falsas alegações sobre o desaparecimento da pobreza no Sul global. Quanto mais depressa abandonarmos esses mitos, melhor.

08/Junho/2025

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2025/0608_pd/enduring-myth-about-capitalism

Em

RESISTIR.INFO

https://resistir.info/patnaik/patnaik_08jun25.html

8/6/2025

 

     

quinta-feira, 5 de junho de 2025

A teoria económica e o conceito de progresso

 


– Quem encarna o interesse nacional

Prabhat Patnaik [*]

Mumbai, foto de Sebastião Salgado.

Os mercantilistas definiram a prosperidade de uma nação em termos da quantidade de metais preciosos que possuía e o progresso de uma nação em termos do aumento do seu montante de metais preciosos. Para aumentar a sua quantidade de metais preciosos, uma nação tinha de ter uma balança comercial favorável em bens e serviços (ou seja, as suas exportações tinham de exceder as suas importações), que teria então de ser resolvida através da importação de metais preciosos, especialmente ouro, a fim de que aumentasse a quantidade de ouro na sua posse.

Os mercantilistas foram os alvos de Adam Smith quando este escreveu a sua obra A riqueza das nações. A posição de Smith era a de que não era o stock de metais preciosos que definia a riqueza de uma nação, como afirmavam empresas mercantis monopolistas tais como a Companhia das Índias Orientais, mas sim a quantidade de capital social na sua posse. O progresso consistia, portanto, em acumular stocks de capital cada vez maiores, para o que se criavam as condições mais favoráveis através da eliminação de todas as restrições impostas pelo Estado à liberdade de funcionamento dos mercados e do capital, ou seja, assegurando a prevalência de condições de laissez faire na economia. Para que isso fosse possível, era necessário eliminar o domínio das empresas monopolistas, como a Companhia das Índias Orientais, sobre o Estado.

O notável na posição de Smith é o facto de, apesar da sua ruptura revolucionária com a concepção anterior, continuar a centrar-se na nação e não no povo; é a riqueza da nação, vista como uma entidade acima do povo, que conta como o desiderato. A concepção do que deveria ser contado como riqueza havia mudado, do ouro e da prata para o capital social, mas não a entidade de cuja riqueza se falava.

Esta ideia de uma nação distinta do povo e acima dele era uma caraterística do nacionalismo burguês desenvolvida na Europa na sequência dos tratados de paz da Vestefália. Embora tenha atingido o seu apogeu com o fascismo europeu nos anos 30, a ideia em si foi um tema constante ao longo de todo o pensamento burguês.

Como seria de esperar, embora a nação estivesse supostamente acima do povo, o “interesse nacional” era necessariamente identificado com os interesses de determinados segmentos burgueses. A passagem do mercantilismo para Adam Smith implicou, portanto, uma mudança da idolatria dos interesses de companhias mercantis monopolistas, como a Companhia das Índias Orientais, como sinónimo de “interesse nacional”, para o tratamento dos interesses da burguesia manufactureira emergente como a encarnação do “interesse nacional” – promover os interesses deste último segmento da burguesia tornou-se agora sinónimo de promover os interesses da nação. Mas esta mudança foi efectuada mantendo-se sempre uma conceção da nação cujos interesses tinham de ser promovidos e que era uma entidade distinta e superior ao povo.

David Ricardo tinha exatamente a mesma noção de progresso que Adam Smith, nomeadamente a acumulação de capital social no seio da nação. O seu receio de que se caminhasse para um estado estacionário, em que a acumulação de capital deixasse de se verificar, decorria precisamente da noção de que o capital social constituía a riqueza da nação; a cessação da acumulação de capital significaria o fim do progresso. John Stuart Mill foi, sem dúvida, uma exceção a este respeito, uma vez que declarou não se preocupar com um estado estacionário se os trabalhadores estivessem em melhor situação do que quando a economia estava em fase de acumulação de capital; ou seja, ao contrário dos seus antecessores, como Smith e Ricardo, colocou o bem-estar dos trabalhadores acima da acumulação de capital, mas este seu desvio da posição da economia política clássica pode ser explicado pelo facto de se ter orientado para um certo posicionamento socialista sob a influência da sua mulher Harriet.

Os economistas clássicos, como Smith e Ricardo, não devem, no entanto, ser demasiado criticados por se centrarem na magnitude do capital social (e na quantidade de produção que este produzia) como o desiderato, e não no bem-estar da população trabalhadora. Eles tinham muita simpatia pelos trabalhadores, mas acreditavam que estes tendiam a procriar rapidamente se houvesse uma melhoria da sua condição material de vida (uma ideia que encontrou expressão na teoria malthusiana da população). Se os salários reais subissem acima de um nível de subsistência, então a população aumentaria e a oferta de trabalho também, o que faria com que os salários reais voltassem ao nível de subsistência. Por conseguinte, qualquer melhoria da sua condição de vida dependia apenas deles próprios. Eles tinham de mudar os seus hábitos e restringir o seu crescimento numérico mesmo quando se deparavam com uma melhoria nas suas condições de vida; só assim poderiam manter quaisquer melhorias verificadas nas suas vidas. Só assim poderiam manter a melhoria das suas condições de vida. Uma vez que a política nada podia fazer quanto a isto, o foco da política tinha de se concentrar no aumento do capital social total e, consequentemente, no aumento da produção; isto aumentava o montante total disponível para todos, do qual os trabalhadores poderiam obter uma parte maior se mudassem os seus hábitos.

A mesma benevolência que se pode dar a Smith e a Ricardo não pode, no entanto, ser dada à chamada economia burguesa “mainstream” de épocas posteriores. A crença na teoria malthusiana da população havia terminado há muito tempo. Na verdade, a descrição de Marx desta teoria como uma “calúnia contra a raça humana” encontraria hoje uma aceitação geral, ao contrário do que acontecia no final do século XVIII e início do século XIX. Mesmo assim, a teoria burguesa “dominante” continua a considerar o nível do Produto Interno Bruto como o índice de prosperidade de uma “nação” e a sua taxa de crescimento como o índice do seu progresso. Uma vez que o “progresso”, neste sentido, só pode ser alcançado através das acções dos capitalistas, o interesse da “nação” seria melhor servido se se fizesse a vontade aos capitalistas, dando-lhes incentivos, promovendo os seus interesses e tratando-os como seres privilegiados. Se bem que Smith e Ricardo possam ter adotado esta posição por pensarem (erradamente) que nada mais poderia ser feito até que os trabalhadores mudassem os seus hábitos, o facto de os economistas actuais adoptarem a mesma posição representa um puro viés ideológico.

O exemplo mais recente deste viés é o anúncio feito pelo CEO da Niti Aayog de que a Índia é agora a quarta maior economia do mundo, tendo acabado de ultrapassar o Japão em termos da dimensão do seu PIB que agora ultrapassou os US$4 milhões de milhões (trillion). O CEO da Niti Aayog não mencionou este facto apenas de passagem; fez questão de o referir como um grande feito e, sem surpresa, este desenvolvimento foi louvado por membros do big business indiano. Contudo, é significativo que o facto de a Índia ter uma população mais de dez vezes superior à do Japão não foi mencionado por aquele CEO. O seu cacarejar foi exatamente igual à observação de Modi, algum tempo atrás, de que a Índia teria em breve um PIB de US$5 milhões de milhões.

Mas absolutamente aparte da questão da dimensão do país, a qual torna sem sentido todas as afirmações baseadas na comparação da magnitude absoluta do nosso PIB com os dos países capitalistas avançados, concentrar-se no PIB em si representa uma perspetiva totalmente falsa. Não só é um retrocesso a uma perspetiva antiga que acreditava no malthusianismo, como é completamente desfasada de uma sociedade democrática. Numa democracia é a condição de vida do povo que importa e o progresso deve ser medido exclusivamente em função da medida em que estas condições estão a melhorar.

Esta perspetiva está também em desacordo com a perspetiva da nossa luta anti-colonial. O conceito de uma “nação” cujo PIB é supostamente superior ao do Japão é suposto ser motivo de celebração, é o de uma “nação” que se posiciona acima do povo, cuja realização ‘gloriosa’ é totalmente alheia à condição de vida do povo. Isto é um anátema completo anátema para o espírito da luta anticolonial que via a libertação da “nação” do domínio imperialista como sinónimo de libertação do povo.

Não só a condição do povo continua a ser quase tão miserável [quanto antes] após mais de três quartos de século de independência, com a Índia a ocupar em 2024 o 105º lugar no Índice Global da Fome entre os 127 países para os quais esse índice é elaborado, como também temos um governo que, ao invés de se envergonhar deste facto, se gaba da dimensão do nosso PIB.

01/Junho/2025

domingo, 1 de junho de 2025

O acordo que vendeu a Europa

 


Michael Hudson [*]
entrevistado por Nima Alkhorshid

Titanic.

NIMA ALKHORSHID: Olá a todos. Hoje é quinta-feira, 15 de maio de 2025, e o nosso amigo Michael Hudson está de volta. Bem-vindo de volta, Michael.

MICHAEL HUDSON: É bom estar aqui.

NIMA ALKHORSHID: Michael, vamos falar sobre o que está a acontecer entre os Estados Unidos e o Reino Unido. Na sua opinião, como é que a Grã-Bretanha está a ser usada pelos Estados Unidos hoje, de forma semelhante ao seu papel em 1944, durante a criação do FMI e do Banco Mundial?

MICHAEL HUDSON: Bem, é praticamente o mesmo papel.

Em 1944, os Estados Unidos estavam a planear como criar uma ordem pós-guerra que os beneficiasse. E o seu objetivo principal era dissolver o Império Britânico e o Império Francês, criando regras que beneficiassem os Estados Unidos.

Por exemplo, o fim da preferência imperial e a base do sistema financeiro no ouro e, especialmente, contrariar John Maynard Keynes, que viu os problemas que iriam surgir nos próximos 50 anos.

Ele disse que o problema seria que os Estados Unidos se tornariam um país credor. Iriam endividar outros países consigo. Estes iriam gostar especialmente da Inglaterra. E queremos um tipo de regras que, se houver um país que continue a ter excedentes e outros países que tenham défices, tenhamos de dizer: «Ok, os Estados Unidos não estão a deixar a Inglaterra ganhar os dólares para pagar as dívidas que os Estados Unidos a obrigaram a contrair com o empréstimo britânico em 1944». E descrevi tudo isso em Super Imperialism e houve debates maravilhosos na Câmara dos Lordes e na Câmara dos Comuns.

E basicamente, o teor dos seus comentários foi: não temos escolha. Dependemos completamente dos Estados Unidos. Temos de nos submeter.

E assim, as regras de Keynes foram rejeitadas e a Inglaterra concordou com regras que se tornaram a ordem económica do pós-guerra, beneficiando os Estados Unidos na criação do FMI e do Banco Mundial, de acordo com linhas que os beneficiavam em detrimento de outros países.

Bem, o que os Estados Unidos fizeram então foi ir à Europa continental e dizer: «Olhem, fizemos isto com a Inglaterra. Esse é o protótipo». Havia uma inércia e a Inglaterra era sempre a primeira a vender a Europa e outros países para se render aos Estados Unidos. E os EUA aceitavam a sua rendição e usavam essa negociação para estabelecer as regras que os outros países deveriam seguir.

Bem, foi exatamente isso que aconteceu nos últimos dias. Os Estados Unidos foram à Inglaterra e fizeram com que ela concordasse, sem mencionar especificamente a China, com regras comerciais que eram regras de segurança nacional, o que significa que qualquer coisa que a China exportasse para a Inglaterra que pudesse ser considerada segurança nacional, como tecidos que pudessem ser usados em uniformes militares, qualquer coisa que fosse proibida.

E, basicamente, Trump já tinha anunciado praticamente o que iria fazer no Dia da Libertação, a 2 de abril. Ele disse que iria impor estas tarifas a outros países. Não disse que isso iria criar o caos, mas que iria dar-lhes uma escolha.

O que ele disse foi, claro, que poderíamos reverter as tarifas se eles cedessem. E as cedências eram as políticas americanas que eles iriam aceitar. E as concessões eram praticamente exatamente o que a Inglaterra acabou de concordar.

Portanto, é óbvio que Trump não esperava realmente que toda essa questão das tarifas fosse sobre tarifas. Ele deixou muito claro que a questão das tarifas é forçar outros países a se juntarem à nossa Guerra Fria contra a Rússia e a China, especialmente a China, por tudo isso. E é basicamente disso que se tratam essas regras.

E a mesma coisa está a acontecer agora com a Alemanha, que está a juntar-se à Inglaterra sob o Sr. Merz.

Portanto, o problema para os outros países é: vão evitar esta crise de curto prazo, esta perturbação de curto prazo no seu comércio que Trump causou ao reorientar o seu comércio para longe da Rússia, da China e dos seus aliados no Leste Asiático?

Ou vão decidir que a economia dos EUA está a encolher, e está a encolher especialmente, podemos discutir isso, devido às medidas que Trump tomou, ele garantiu que estamos a entrar numa recessão aqui.

Se outros países se renderem a ele e concordarem com os seus termos de vincular o seu comércio e investimento a uma economia americana em contração, então terão de sacrificar o comércio com a Rússia, a China e a maioria global que está a crescer em vez de encolher.

Bem, todo o problema para os outros países é: o que queremos dizer quando falamos de outro país? Normalmente, queremos dizer o que os seus líderes vão dizer, e Starmer, na Inglaterra, e Merz, na Alemanha, realmente não representam o que os seus eleitores querem.

E sabemos disso por causa de todos os protestos dos eleitores contra Starmer, o Partido Trabalhista está agora no nível mais baixo que já atingiu. E o mesmo vale para os democratas-cristãos na Alemanha, os alemães não querem Merz e a remilitarização antirussa que ele quer, mas os Estados Unidos promoveram pessoas como Starmer e Merz para serem os chefes de seus países.

Portanto, temos uma situação estranha em que os líderes dos países com os quais os Estados Unidos lidam em primeiro lugar representam os interesses dos EUA ou estão dispostos a concordar com eles. Eles acreditam que as suas carreiras pessoais continuarão ligadas aos Estados Unidos, assim como os EUA os promoveram desde o início, de acordo com as suas linhas ideológicas e políticas.

Então, basicamente, é isso que está a acontecer. Outros países estão a ser solicitados a sacrificar-se pela economia dos EUA.

NIMA ALKHORSHID: Michael, mencionou a segurança nacional dos Estados Unidos. Como vê o objetivo estratégico por trás da invocação das cláusulas de segurança nacional pelos Estados Unidos nas negociações comerciais, particularmente em relação à China?

MICHAEL HUDSON: Segurança nacional significa tudo o que se quiser que signifique. É uma palavra polissémica, como dizem os linguistas. Pode significar qualquer coisa, tudo pode ser segurança nacional.

Vê os Estados Unidos a querer fechar Harvard e outras universidades com o argumento da segurança nacional, porque os seus estudantes protestam contra a guerra e o genocídio. Isso é uma ameaça à segurança nacional.

Vê-o a prender imigrantes com o argumento de que é por razões de segurança nacional. Tudo pode ser segurança nacional.

Portanto, tudo o que os Estados Unidos têm de dizer é que o comércio com a Rússia ou a China ameaça a nossa segurança nacional porque a China quer exportar algo que nós queremos exportar. Ou a China quer importar algo da Europa, como máquinas de gravação para chips de computador que pode usar militarmente.

E, essencialmente, isso significa que os Estados Unidos têm uma ditadura completamente arbitrária para decidir o que os outros países podem fazer. Significa que agora estamos a apontar para uma economia centralmente planeada pelo exército dos EUA e pelo estado profundo, em preparação para uma escalada da guerra fria contra a Rússia e a China. É isso que significa.

NIMA ALKHORSHID: Michael, que escolha os países têm entre alinhar-se com os Estados Unidos e virar-se para a China, o mercado mais dinâmico da China, se assim podemos dizer?

MICHAEL HUDSON: Bem, se não lhes é permitido negociar com a China, o que podem fazer?

Não conseguem obter receitas do comércio externo suficientes para se manterem solventes. E as principais vítimas em tudo isto são os países do Sul global em particular. Já têm dificuldades em pagar as suas dívidas externas. Estão a entrar em incumprimento.

As obrigações da América Latina e de outros países do Sul global estão a desvalorizar-se porque são realmente arriscadas. E é basicamente este o problema. E há uma solução que eles têm.

O problema é que, se aumentarem os impostos para, de alguma forma, lançar a sua moeda no mercado cambial para tentar angariar dólares para pagar aos detentores de obrigações denominadas em dólares, não terão dinheiro suficiente para os governos investirem em infraestruturas domésticas ou promoverem programas sociais justos. Terão de fazer a si próprios o que Trump, Musk e os republicanos estão a fazer aos Estados Unidos, cortando programas sociais, cortando investigação e desenvolvimento, estrangulando a economia com medidas de austeridade para pagar aos detentores de obrigações.

Por outras palavras, os países e os seus líderes, ou líderes eleitos, vão ter de colocar os interesses dos países estrangeiros acima dos seus próprios interesses nacionais. Bem, isso é uma perda de soberania. Seria de pensar que a definição de soberania é permitir que os países soberanos decidam como gerir o seu próprio sistema fiscal e monetário para promover o seu próprio desenvolvimento económico. Mas se agora são impedidos de o fazer, então o que fazer?

Bem, o que Trump fez foi dar-lhes uma dádiva de Deus em tudo isto. Já se falava sobre se iríamos voltar à situação em que estávamos na década de 1980, depois que o México entrou em incumprimento com seus Tesobonos e os países latino-americanos declararam insolvência. Então surgiu o plano Brady, que reduziu as dívidas a algo que era pagável, mas foi uma década perdida para a América Latina.

E o Fundo Monetário Internacional, basicamente um braço do exército dos EUA, usou a sua capacidade de empréstimo para apoiar líderes de direita apoiados pelos Estados Unidos e retirar o apoio a países cujos líderes a política externa dos EUA não considerava compatíveis com a política externa americana.

Assim, os países podem agora dizer:   bem, havia um contrato moral implícito no comércio internacional, e isso era exatamente o que Keynes tinha dito em 1944. Keynes tinha sido um dos principais economistas durante o debate sobre as reparações alemãs, dizendo que, se os aliados insistissem em receber as dívidas de reparação para pagar aos Estados Unidos, os Estados Unidos teriam de permitir que a Alemanha ganhasse o dinheiro exportando para os Estados Unidos.

Mas o Congresso dos Estados Unidos disse: bem, espere um minuto, não queremos que os devedores ganhem dinheiro para nos pagar competindo com a indústria dos EUA. Então, eles aprovaram uma lei sobre o comércio com países com moedas em desvalorização, o que significava uma tarifa flutuante que aumentaria para eliminar qualquer vantagem cambial que a Alemanha ou outros devedores aliados tivessem ao tentar levantar dinheiro para exportar e pagar as suas dívidas externas.

Bem, Keynes disse que era preciso eliminar as dívidas das reparações de Versalhes e as dívidas entre aliados que deveriam ser pagas com as reparações alemãs aos Estados Unidos pelas armas que os aliados usaram antes de os Estados Unidos entrarem na Primeira Guerra Mundial.

Bem, o mesmo argumento moral que foi discutido durante toda a década de 1920 acaba de reaparecer hoje. Os países do Sul Global podem dizer:   as tarifas de Trump impediram-nos de ganhar o dinheiro para pagar aos detentores de títulos que têm dólares americanos. Não podemos pagar-lhes, por isso vamos precisar exatamente do que aconteceu ao mundo em 1931, quando houve uma moratória sobre as reparações alemãs e as dívidas entre aliados, ou na década de 1980, quando surgiram os planos Brady.

Eles têm a oportunidade de suspender o pagamento da dívida, e isso vai forçar os Estados Unidos a fazer uma escolha. Os detentores de títulos vão fazer o que tentaram fazer com a Argentina nas últimas décadas. Dirão: bem, se não pagarem a dívida externa, vamos tratá-los como tratamos a Venezuela, a Argentina ou o Irão. Podemos confiscar todos os ativos que tiverem aqui. Podemos confiscar, se tiverem investimentos governamentais nos Estados Unidos, podemos confiscar. Podemos confiscar o vosso ouro. Podemos confiscar os vossos navios militares quando viajarem para o estrangeiro, como os americanos tentaram confiscar um navio argentino quando este visitou um porto africano amigo.

Assim, outros países enfrentarão literalmente uma força maior dos EUA a tentar confiscar os seus ativos, da mesma forma que os Estados Unidos e a Europa confiscaram US$300 mil milhões em ativos da Rússia.

O que podem fazer? Tudo o que podem fazer é unir-se e dizer: bem, se vocês confiscarem, isso é moralmente errado, e vocês não nos deixaram escrever as regras das finanças internacionais e do comércio internacional de uma forma que nos beneficie, e não a vocês. Vocês, os Estados Unidos, mudaram as regras em 1971, afastando-se do ouro. Estão a mudar as regras hoje, sob o presidente Trump, de forma unilateral. Mas vocês são 1% da população, ou 15% quando se soma toda a Europa e todos os outros. Vamos ter de criar uma ordem económica alternativa. E se vocês confiscarem os nossos ativos, nós confiscaremos todos os vossos investimentos estrangeiros nos nossos países.

E, finalmente, vamos simplesmente deixar os ativos existentes onde estão, e cada país fica com os ativos que tem no seu próprio país. Os EUA ficam com os ativos estrangeiros dos países devedores que impedem de pagar as suas dívidas. A faixa global e a maturidade global, em conjunto, assumirão o controlo dos investimentos mineiros dos EUA no estrangeiro, dos investimentos petrolíferos no estrangeiro, de todos os ativos que têm no estrangeiro. Eles colocarão os bancos americanos sob o seu próprio controlo nacional e os transformarão em serviços públicos, muito semelhantes ao banco central da China. Terão a oportunidade, feita à medida, de criar a sua própria ordem monetária. Bem, tudo o que precisam para isso é uma ideia de como será essa ordem. Eles têm de ter realmente um plano. É a única coisa que falta neste momento. Precisam de um plano e precisam da certeza de que podem fazer a América bluffar. Podem dizer:   «Está bem, não vamos assinar um acordo como o que a Inglaterra assinou e que a Alemanha vai assinar como rendição. Vamos dizer: está bem, deixem as vossas tarifas de 80% sobre o Bangladesh e outros países, deixem as vossas tarifas de 40% sobre nós. Não podemos pagar, talvez na reunião do BRICS que se realizará no próximo mês, apresentemos os planos para uma nova ordem económica internacional, tal como sempre quisemos fazer desde a Conferência de Bandung, na Indonésia, em 1955, dos países não alinhados e suas conferências subsequentes.

Assim, estes países não alinhados podem alinhar-se uns com os outros em ajuda mútua, agora que têm variedade suficiente, uma gama completa de produção e dinheiro entre si para poderem seguir sozinhos. Antes, nunca poderiam seguir sozinhos, mas agora podem. Então, tudo o que precisam de fazer é perceber a sua posição de força.

Bem, todos percebem isso, exceto os economistas [vulgares] que dizem que é preciso conformar-se ao mercado e que o mercado é exatamente o que os Estados Unidos projetaram. O mercado não é natural. Ele foi projetado nos Estados Unidos para beneficiar os Estados Unidos às custas de vocês ou, como diz Donald Trump, para tornar-nos vencedores e vocês perdedores.

Portanto, a questão é:   como vamos fazer com que a maioria global realmente aproveite esta oportunidade maravilhosa e crie esta nova ordem económica internacional que é independente e finalmente se livra do facto de que as dívidas não podem ser pagas sem sacrificar o seu próprio crescimento, para que vocês finalmente deixem os países com os seus próprios recursos naturais livres dos proprietários americanos que não pagam impostos sobre eles? E usar esses recursos naturais, rendas da terra, rendas monopolistas, rendas monopolistas dos serviços públicos e infraestruturas que as empresas americanas compraram. Agora podem usar todas essas rendas económicas para financiar o seu próprio investimento de capital e começar a desenvolver-se na mesma linha que os Estados Unidos, a Alemanha e outros países desenvolveram no século XIX, para o seu decolagem industrial. Esse é o potencial.

NIMA ALKHORSHID: Michael, com o que disse, considerando todas as informações que nos deu, acredita que o plano de Trump não é realmente reindustrializar os Estados Unidos, mas sim desmantelá-los?

MICHAEL HUDSON: Esse é o efeito do que ele está a fazer. O facto é que não há como os Estados Unidos se reindustrializarem por uma série de razões. Existem pré-requisitos necessários para a reindustrialização.

A coisa mais óbvia de que se precisa na América para reindustrializar é mão-de-obra. Mas a América não tem mão-de-obra para trabalhar na indústria porque ninguém quer trabalhar na indústria, porque os salários são muito baixos para trabalhos fabris muito duros, trabalho manual, que ganham apenas 35 cêntimos a mais por hora do que um empregado de mesa, um trabalhador do setor de serviços ou um empilhador num armazém da Amazon.

Portanto, os brancos não querem trabalhar em trabalhos manuais. No passado, esse trabalho manual era feito em grande parte por imigrantes. Mas Trump não quer imigrantes, então não há mão-de-obra imigrante disponível para fazer esse trabalho.

No passado, havia mão-de-obra negra que migrou do sul para se tornar mão-de-obra industrial e sindicalizada.

Mas, para trabalhar na indústria, é preciso algum tipo de formação. E é por isso que, durante muitos anos, os Estados Unidos tiveram um sistema de escolas profissionais altamente desenvolvido, tal como a Alemanha teve durante o seu arranque industrial. Uma formação muito, muito boa de operários, industriais e trabalhadores fabris.

Mas isso não tem sido o caso nos Estados Unidos. Afastámo-nos da ciência, da engenharia, da matemática e da industrialização em geral para algo mais, não sei bem como caracterizar o que estão a estudar, mas não é industrial.

Portanto, houve uma guerra de classes nos Estados Unidos contra os trabalhadores sindicalizados, principalmente os industriais, por meio da deslocalização. E essa deslocalização da indústria levou, de facto, a uma demanda muito pequena por mão-de-obra industrial. Portanto, não é surpresa que não haja mais uma força de trabalho industrial.

Bem, a outra coisa de que se precisa, supondo que se tivesse essa mão-de-obra, são matérias-primas como aço e alumínio, porque quase todos os produtos manufaturados são feitos de aço e alumínio.

Bem, o que Trump fez foi o contrário do que as tarifas protecionistas deveriam fazer. Toda a estratégia da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos era importar matérias-primas de baixo preço de outros países e fazer com que todos eles competissem entre si, fornecendo-nos produtos agrícolas, metais e minerais. E então monopolizaríamos a produção industrial, que é onde está o valor acrescentado. Assim, a nossa mão-de-obra pode ser trocada por muito mais mão-de-obra de matérias-primas que esses países produzem.

Bem, o que Trump fez foi essencialmente ir até os poucos sindicatos que restam, como os dos trabalhadores siderúrgicos. E ele disse: “Vocês sabem, eu quero os votos dos sindicatos”. Ele trouxe um trabalhador siderúrgico que disse: “Esta é uma tarifa maravilhosa”. Vocês sabem, nós certamente vamos votar em Trump.

Mas para o resto da indústria, o que a tarifa de Trump significa é que os fabricantes americanos vão ter de pagar muito mais ao mundo — existe um preço mundial comum para todas as matérias-primas, mas os americanos vão ter de pagar mais do que os seus homólogos europeus ou asiáticos por causa da tarifa de Trump. Portanto, ele já quebrou a regra mais básica da política tarifária.

Bem, outra coisa de que vai precisar é de maquinaria. E a maior parte da maquinaria que é utilizada nos Estados Unidos, desde porcas, parafusos e engrenagens, já não é fabricada aqui.

Eu conhecia o CEO de uma empresa que fabricava parafusos e tarraxas. Ele acabou por encerrar a empresa porque disse: «Não, não temos mais dinheiro para fabricá-los. Outros países estão a fabricá-los. E imagine que não há mais parafusos fabricados nos Estados Unidos. São todos importados.»

Bem, imagine se, de repente, com as barreiras comerciais, os Estados Unidos ficassem dependentes de países estrangeiros para coisas que deveriam ser muito fáceis de fabricar, como parafusos, mas que a indústria americana diz: «Bem, não há lucro de monopólio com alta tecnologia e taxas de patentes sobre tudo isso.»

O plano de Trump é fazer com que as exportações americanas se baseiem num tipo específico de indústria. Seja a indústria informática, a tecnologia da informação ou as armas, exportações monopolizadas que outros países não produzem e estão impedidos de produzir por uma razão ou outra.

E ele espera que, de alguma forma, consiga obter esses enormes produtos monopolistas, preços em setores selecionados dos EUA e, essencialmente, obter um almoço grátis de outros países, que não os produzem. Bem, como outros comentadores apontaram na luta na Ucrânia e em outros lugares, as armas americanas não parecem funcionar muito bem. E outros países, mesmo que Trump tenha acabado de negociar uma enorme venda de armas para a Arábia Saudita, isso não significa que essas armas vão realmente funcionar. Penso que isto é uma ideia política. E, basicamente, a Arábia Saudita concordou em ser um bom cliente dos EUA, para que os Estados Unidos protejam os seus interesses e coloquem os seus terroristas wahhabitas no comando da Síria, para que a Arábia Saudita possa espalhar o terrorismo islâmico e a sua versão particular do Islão e protegê-lo contra o Islão iraniano ou formas mais civilizadas de Islão.

Portanto, o comércio já não depende da utilidade real do processo. E só nas últimas semanas vimos outras razões pelas quais a América não pode industrializar-se.

Trump declarou guerra às principais universidades americanas. Ele disse que vai cortar todo o financiamento para pesquisa em tecnologia, farmacêutica, biologia, tudo nas universidades que permitem que seus alunos digam que são contra a guerra e contra o genocídio. Isso é uma ameaça à segurança americana, porque genocídio somos nós. Guerra somos nós. É uma ameaça se eles estão fazendo isso.

Então, ele está essencialmente a tentar tirar a isenção fiscal de Harvard, como uma espécie de primeiro grande gigante a derrubar, para que ele possa assumir o controle, o que costumava ser chamado de fascismo, assumir o controle do currículo que Harvard tem permissão para ensinar. Não pode realmente ensinar estudos islâmicos, estudos do Oriente Próximo. É um controle total. E não só o dinheiro para a investigação universitária foi cortado, mas Trump também dissuadiu estudantes estrangeiros de frequentar as universidades. Bem, os estudantes estrangeiros, especialmente da China e de outros países asiáticos, da Índia, eram a sua fonte de lucro, porque eram os estudantes que pagavam propinas integrais de 50 a 90 mil dólares por semestre pelos seus estudos. Bem, agora eles não vão mais vir. Haverá uma redução drástica na sua chegada. Eles têm medo de vir porque, e se disserem que são contra a guerra? Bem, saia daqui. O teu visto de estudante está cancelado. Não podes aparecer para os teus exames finais.

E não são só os estudantes que estão bloqueados, mas também os licenciados. A sensação é que muitos dos estudantes que vieram do estrangeiro para os Estados Unidos e queriam especializar-se em engenharia, ciência e tecnologia ficaram nos Estados Unidos. E assim, os Estados Unidos fizeram com que outros países pré-educassem e arcassem com todos os custos de criar os filhos até à idade universitária. E depois obtiveram o benefício da vinda deles para cá.

Foi isso que tornou os Estados Unidos tão ricos desde o início do século XIX, a imigração de mão-de-obra qualificada.

E Trump está agora na sua guerra contra as universidades e contra qualquer pessoa que defenda a paz, perdendo todo este benefício que os Estados Unidos tiveram. Portanto, Trump está, na verdade, com a sua chamada política tarifária e as contrapartidas que anunciou, dizendo que estas tarifas são para nos ajudar a reindustrializar. Isso é apenas uma história para encobrir. Não vão ajudar a América a industrializar-se.

O que Trump realmente queria fazer era imaginar que, de alguma forma, outros países iriam render-se aos Estados Unidos. Continuariam a exportar exatamente o que exportam agora, mas reduziriam drasticamente o preço que cobram pelas suas exportações.

Trump disse que os americanos não pagarão o custo das tarifas. Os países estrangeiros pagarão o custo das tarifas. Bem, isso foi simplesmente ridículo. É claro que os americanos terão de pagar as tarifas.

Outros países não vão sacrificar-se porque não há lucro para eles. Os lucros são frequentemente de 10 a 15%. Se as tarifas forem mais altas do que isso, não é possível produzir bens para exportação com lucro. Eles terão de encontrar outro mercado.

Bem, onde vão encontrar outro mercado se tiverem de assinar um contrato com os EUA a dizer que não vão negociar com a Rússia ou a China por tudo isto? É possível ver o laço que Trump está a apertar em torno da economia dos EUA e todo o plano neoconservador da Guerra Fria para tudo.

Há muito pouco que eles possaem fazer.

Bem, o que vão fazer os outros países em relação a tudo isto? Não vão exportar, o que significa que não haverá nem de longe a enorme receita tarifária que Trump prometeu. O mesmo se passa com os cortes de Elon Musk nas despesas públicas na Doge. Muitos destes são marginais e fictícios. Ele foi mesmo atrás das despesas culturais e dos pagamentos do Medicare. Os pagamentos para as classes de baixos rendimentos foram basicamente eliminados.

Mas não haverá receita suficiente para compensar os cortes de impostos que os republicanos estão agora a apresentar esta semana no Congresso, renovando todos os cortes de impostos que Trump apresentou anteriormente e ainda mais.

Assim, o resultado é que todos os que fizeram uma análise orçamental vêem que o orçamento americano vai subir e subir e subir. E hoje, os títulos do Tesouro a 10 anos têm um rendimento (yield)superior a 4,5%. Quando os rendimentos (yields) dos títulos sobem, os preços dos títulos vão abaixo. As pessoas estão a dizer:   «Espere um minuto, será que queremos mesmo um título do Tesouro a 10 anos, sem falar dos títulos a 30 anos, se há um défice orçamental tão grande e tão pouca produção, isto vai ser inflacionário. Será que queremos mesmo investir as nossas poupanças? E isto inclui as poupanças dos bancos centrais estrangeiros e as poupanças dos governos estrangeiros. Queremos investir na dívida de um país cujos preços vão subir e não vamos chamar a isso de hiperinflação, mas o aumento dos preços continuará a subir e a taxa de câmbio dos dólares terá de cair.

E Trump disse que quer que as taxas de câmbio caiam. 10%, 20%. Bem, acho que foi 10% nos Acordos Plaza com o Japão, há muito tempo, naquela época. E se você está a perder 10% do seu dinheiro e a taxa de juro é de apenas 4%, você perdeu dois anos e meio de juros. E o valor principal de tudo isso.

Então, qual é a atração dos Estados Unidos como mercado de investimento e do dólar como moeda de reserva internacional para bancos centrais estrangeiros e meio de poupança? Todas as ações de Trump e sua economia maluca, que realmente não funcionam quando se faz as contas e se projeta as tendências estatísticas, mostram que a economia está em uma situação realmente inviável para investimentos estrangeiros.

Portanto, isto deve funcionar como uma espécie de catalisador para forçá-los a dizer:   se não atuarmos em conjunto, vamos todos ser enforcados separadamente, a não ser que nos unamos como os revolucionários americanos afirmavam.

NIMA ALKHORSHID: Michael, Donald Trump está a ameaçar proibir os navios construídos na China, uma grande estratégia de isolamento económico e possível auto-sabotagem. O que é que ele pensa? Como é que isso vai beneficiar os Estados Unidos?

MICHAEL HUDSON: Bem, uma grande parte do comércio é feita em navios construídos na China. As regras fiscais e regulatórias para os navios dos EUA são tão elevadas que quase não há navios americanos por aí.

E a China, juntamente com a Coreia do Sul e o Japão, desenvolveram a construção naval e criaram o seu próprio mercado.

Mas se proibir os navios chineses de entrar nos mercados americanos, bem, os navios costumam ir de um país para outro. E isso significa que todos os países para onde os navios vão serão, de alguma forma, impedidos de comercializar se ele fizer isso. Portanto, esta é outra questão. É uma barreira não tarifária que, em muitos aspetos, é ainda mais um obstáculo ao comércio.

A propósito, Trump também está a insistir no Panamá que os navios americanos não tenham de pagar quaisquer taxas. E o Panamá tinha acabado de dizer que os navios americanos têm de pagar taxas mais elevadas porque são tão grandes que requerem atenção especial. Trump insistiu que eles não têm de pagar nada, aumentando os custos de transporte para todos os outros países.

Portanto, não só existem barreiras tarifárias, como todo o custo do transporte e do comércio externo aumentou.

Bem, nos últimos dias, os Estados Unidos abordaram a Coreia do Sul e o Japão e disseram: digamos que precisamos de um acordo entre os três países para construir navios. E vamos chamá-los de EUA, vocês vão construí-los, mas vamos colocar uma bandeira dos EUA neles para que possamos essencialmente construí-los. E a questão é se a Coreia do Sul e o Japão farão isso.

Bem, acho que no último programa discutimos que o Japão já está a pensar:   queremos mesmo ligar o nosso futuro aos Estados Unidos agora que eles bloquearam as nossas exportações? Queremos pensar em reorientar-nos para a China?

Portanto, a questão é se o transporte para os Estados Unidos em navios que não são navios americanos ou navios que são chineses ou que negociaram com a China, então esse comércio é simplesmente interrompido. Bem, pode-se ver que o comércio não vai realmente parar. Ele apenas será redirecionado para longe dos Estados Unidos.

Portanto, mais uma vez, Trump, ao tentar isolar a China, está acabando por isolar-se a si mesmo.

E a razão pela qual ele foi para a Coreia do Sul e para o Japão é porque alguém lhe disse que são necessários 10 anos para construir um estaleiro capaz de construir um navio. Eles são para navios gigantescos . É preciso criar todo um sistema. É preciso criar um enorme planeamento antecipado e uma indústria naval cara.

A China, a Coreia do Sul e o Japão já investiram os custos irrecuperáveis em tudo isso. Mas agora esses custos para os Estados Unidos são enormes, especialmente porque acabámos de deportar uma importante fonte de mão-de-obra para a construção civil americana.

Então, basta olhar para como todas as medidas que ele tomou para tentar isolar a China acabaram por isolar os Estados Unidos e cortar o país de outros países. Jogando a decisão para outros países sobre, bem, agora que temos que negociar entre nós, quais são os termos, condições e instituições em que vamos basear o nosso próprio comércio? Bem, eles vão precisar de um novo fundo monetário internacional, um novo Banco Mundial e, em última instância, uma nova Organização das Nações Unidas.

Bem, por falar nas Nações Unidas, outra coisa que Trump cortou foram os gastos com saúde. Cortes drásticos, na saúde e na meteorologia. Eles cortaram a previsão do tempo aqui. Justamente quando o aquecimento global aumentou muito e o clima extremo se intensificou, coisas que ameaçam as cidades americanas. Temos deslizamentos de terra aqui. Temos inundações todas as noites no noticiário. Todo o combate ao mau tempo foi cortado e está a causar devastação.

E essas áreas ao nível do mar são onde se faz o transporte marítimo. Não se vai construir um porto no meio [estado sem litoral] de Indiana. Tem de ser construído no oceano, e é exatamente aí que o nível do mar está a subir.

E no que diz respeito ao nível do mar, Trump também retirou os Estados Unidos de todos os acordos ambientais relativos ao aquecimento global.

Além disso, os americanos estão a ficar muito doentes. Reduziram todos os relatórios sobre a COVID e outras doenças. Não há mais relatórios semanais ou mensais sobre a propagação da COVID, os testes da COVID na água potável.

Portanto, os americanos estão a ficar mais doentes. A esperança de vida dos americanos está a diminuir, enquanto em quase todos os outros países está a aumentar.

Para agravar ainda mais os problemas, todas as medidas tomadas por Trump pioram as condições, certamente para 90% da economia. E 90% da economia é basicamente responsável pela produção na economia. Os 10% são rentistas. Vivem das suas ações, obrigações e rendas imobiliárias.

NIMA ALKHORSHID: Michael, antes de encerrarmos esta sessão, uma questão muito importante neste momento no que diz respeito ao conflito na Ucrânia e no Médio Oriente. E sempre que falamos sobre isso, é o sistema SWIFT que os Estados Unidos estão a usar.

E quando impõem sanções a outros países, como a Rússia e o Irão, eles não podem utilizá-lo. Aqui está a questão, na minha opinião. A principal questão neste momento para os Estados Unidos e para a administração Trump seria:   a tentativa de monopolizar a tecnologia da informação e plataformas como o SWIFT é uma estratégia sustentável para manter a influência global dos Estados Unidos?

MICHAEL HUDSON: Desde que Marco Polo visitou a China e alguns padres católicos trouxeram bichos-da-seda para o Ocidente, tem sido quase impossível para qualquer país monopolizar qualquer tecnologia.

Os designers de moda italianos e os tecnólogos italianos foram expulsos de Itália essencialmente pela ditadura e pela Inquisição. Os industriais franceses foram novamente expulsos pela Inquisição católica para outros países.

Não é possível impedir o desenvolvimento de uma tecnologia. E também porque a tecnologia em si está a evoluir muito rapidamente e, para evoluir, é preciso investigação e desenvolvimento que, numa economia financeirizada como a dos Estados Unidos, não se apoia, porque isso leva tempo. Leva alguns anos para desenvolver algo.

E se for diretor financeiro de uma empresa de tecnologia, é pago de acordo com o dinheiro que ganha com as ações da sua empresa. Então, usa os lucros para recomprar ações ou pagar dividendos para aumentar o preço das ações, não para pesquisa e desenvolvimento.

Bem, países que não são financeirizados, como a China, não têm esse problema. Os países que não têm uma classe financeira que tomou conta da indústria e a financeirizou para ganhar dinheiro financeiramente em vez de industrialmente têm, obviamente, uma vantagem no desenvolvimento de novas tecnologias.

E é por isso que agora temos relatos quase semanais de novos avanços chineses em computadores e outras áreas. No mês passado, a China anunciou um novo tipo de sistema de cadeia de blocos para pagamentos feitos na sua moeda e na moeda de países amigos, a fim de se libertar do SWIFT.

Assim, quando se tenta proteger a tecnologia, o que se faz é forçar outros países não só a duplicá-la, mas, normalmente, como já é posterior ao momento em que a América a desenvolveu, conseguem melhorá-la e obter uma vantagem.

E assim, todos os tipos de sanções ajudaram outros países a desenvolver sua própria autossuficiência nessa tecnologia, assim como discutimos no caso da Rússia e em várias ocasiões em seu programa antes. E é exatamente isso que está a acontecer agora.

A China está a gastar dinheiro em desenvolvimento, outros países, Coreia do Sul, Japão, outros países estão a fazer isso.

Os Estados Unidos esperavam, de alguma forma, que os seus bancos de investimento pudessem tomar o controlo dessas indústrias estrangeiras ou comprá-las e consolidá-las nas empresas-mãe americanas. Indústrias de países em que grande parte da investigação e desenvolvimento é financiada pelos governos locais, tal como aqui. Mas os governos não estão dispostos a deixar que essas indústrias que financiaram sejam vendidas aos banqueiros americanos e entregues aos Estados Unidos para monopolizarem à custa das suas próprias economias domésticas.

NIMA ALKHORSHID: Muito obrigado, Michael, por estar connosco hoje. Foi um grande prazer, como sempre.

MICHAEL HUDSON: Bem, é muito bom estar aqui. Eu pergunto-me. Espero que outros países possam resolver os problemas que discutimos. Acho que mostrámos o que é necessário para resolvê-los. Acho que isso fica para programas futuros.

NIMA ALKHORSHID: Sim, exatamente.

Em

RESISTIR.INFO

https://resistir.info/m_hudson/fmi_31mai25.html

1/6/2025