sábado, 19 de julho de 2025

 

BRICS contra a economia rentista

Michael Hudson e Ricard Wolff [*]
entrevistados por Nima Alkhorshid

Rendimento não merecido, composição de Nick Youngson.

NIMA ALKHORSHID: Olá a todos. Hoje é quinta-feira, 10 de julho de 2025, e os nossos amigos Richard Wolff e Michael Hudson estão de volta. Bem-vindos.

RICHARD WOLFF: É um prazer estar aqui.

NIMA ALKHORSHID: Michael, deixe-me começar com o que está a acontecer com o BRICS lá no Rio de Janeiro. Eles começaram a cimeira e estão a discutir muitos assuntos, mas uma das principais questões é a tarifa e a forma como os Estados Unidos estão a lidar com o resto do mundo. O senhor está a levar isso muito longe com o BRICS.

MICHAEL HUDSON: Bem, acho que, no que diz respeito à resposta dos BRICS, ela vem realmente da Rússia e da China.

O presidente russo, Putin, e o ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, foram os mais explícitos ao esclarecer exatamente o que os BRICS precisam e a razão óbvia para isso, ou seja, que a Rússia e a China são os principais alvos dos ataques dos EUA, o que inclui um ataque aos BRICS. Acho que a ruptura com o controlo dos EUA se tornou urgente neste momento devido às ações do governo Trump.

Mas o resto dos BRICS é mais reativo do que proativo. Estão a queixar-se, mas não implementaram políticas específicas para se libertarem. Eles percebem algo que Trump percebe (enquanto economistas e o público evitam reconhecer):   que a era americana do pós-guerra acabou. Mas ainda há muito pouca discussão sobre a criação de uma alternativa real.

O relatório final dos BRICS enfatizou que eles querem quotas mais altas no Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, mas isso não oferece uma alternativa à visão neoliberal dos EUA. Não fala realmente sobre que tipo de instituições alternativas eles precisam para evitar toda a armadilha do desenvolvimento neoliberal que foi imposta pelos EUA em 1945 e os tornou muito ricos nos últimos 80 anos, mas que já não está a enriquecer os EUA.

Agora, de repente, os Estados Unidos estão a mudar todas as regras. E o facto é que os BRICS ainda não decidiram as suas próprias regras. As únicas alternativas de liderança que vejo são as do líder russo.

Deixem-me falar sobre o que está a acontecer nos Estados Unidos para que eu possa contextualizar os BRICS. O que está a acontecer nos Estados Unidos é muito parecido com o que aconteceu com a União Soviética na década de 1990, quando estava a se desintegrar. Há uma corrida para pegar o que puder, um saco de surpresas. A elite do pós-guerra vê que o jogo acabou e está a agarrar tudo o que pode às custas da economia. Estão a dividir tudo, aumentando os preços monopolistas, reduzindo os impostos sobre si mesmos, cortando programas governamentais. A guerra de classes está realmente de volta.

Acho que o mesmo está a acontecer na Europa. As ações das empresas militares europeias estão a subir muito. Os governos estão a reduzir os gastos públicos e a criar uma crise social. Na Grã-Bretanha, na Alemanha e na França, os salários estão a diminuir. O mesmo está a acontecer no Japão. Portanto, os aliados dos Estados Unidos estão a passar pelo mesmo tipo de colapso que os Estados Unidos.

A questão é:  o que substituirá esse novo tipo de apropriação, em que os Estados Unidos dizem:   “Bem, não podemos seguir as velhas regras do livre comércio e investimento que nos enriqueceram nos últimos 80 anos. Vamos impor tributos a vocês. O que vão fazer a respeito?”

A questão é: o Ocidente pode impedir que a maioria global (que considero mais importante do que os BRICS) se torne um novo centro próspero, crescendo sem o controlo dos EUA e tornando-se beneficiária do seu comércio e investimento, em vez dos investidores estrangeiros?

Tudo o que os Estados Unidos podem fazer para impedir isso neste momento é agir como um destruidor. E dentro dos BRICS, estão a tentar usar, penso eu, a Índia e o Brasil para enfraquecer qualquer ruptura real com a política dos EUA.

Acho que a imposição de tarifas de 50% sobre o Brasil ontem por Trump foi uma tentativa de intimidá-lo para se submeter aos Estados Unidos. E ele disse que, se o Brasil impuser tarifas recíprocas aos Estados Unidos, ele aumentará as tarifas sobre o Brasil para mais de 50%.

Depois de ouvir a opinião de Richard, quero discutir o que acho que a maioria global e os BRICS realmente precisam.

NECESSIDADE DE PLANO

RICHARD WOLFF: Ok. Concordo, mas eu abordaria isso de uma maneira um pouco diferente. Fiquei impressionado com o que os BRICS alcançaram. Concordo com Michael, o plano para superar a situação atual ainda não existe. Não acho que eles tenham chegado a uma conclusão. Acho que eles próprios não têm certeza. Acho que há muitas divergências e divisões entre eles que ainda não foram resolvidas. [Interrupção]

MICHAEL HUDSON: Bem, a chave é que o mundo está a dividir-se em duas partes. Os diplomatas dos EUA conseguem ver isso, eles vêem isso como uma divisão civilizacional, mas os BRICS e a maioria global não estão a tratar isso dessa forma. Todos sabem que há uma ruptura com o passado, mas os BRICS não têm uma visão clara de que estão na mesma posição em que a Grã-Bretanha, a França e a Europa estavam há 200 anos, quando tentavam libertar-se do feudalismo, da aristocracia hereditária que cobrava rendas fundiárias – o capitalismo industrial queria libertar-se de tudo isso. É isso que os BRICS terão de fazer.

RICHARD WOLFF: Deixe-me salientar que não devemos ter pressa. Michael tem razão, mas na verdade só se passaram cerca de 16 ou 17 anos desde que os BRICS começaram. A princípio estavam apenas a dar os primeiros passos. Agora estão claramente em andamento. Cresceram em número. Têm dois níveis de participação, o de membro e o de parceiro, se bem entendi a sua linguagem. E atingiram esse marco há uma ou duas semanas, quando o valor total do comércio entre eles ultrapassou US$1 milhão de milhões. É um desenvolvimento impressionante.

Todos temos que agradecer ao Sr. Trump, porque o seu programa tarifário foi um grande impulso para o aumento do comércio entre eles (já que, obviamente, quando comercializam entre si, as tarifas do Sr. Trump não têm qualquer impacto, pelo menos não diretamente). Por isso, estou bastante impressionado, tendo em conta todas as suas diferenças em muitas, muitas questões, que tenham conseguido manter-se unidos.

A segunda coisa que eu diria é a prática de agarramento à força ("grab-itization"). Gosto do termo, se foi o Michael que o inventou; agarrar tudo é uma boa metáfora, mas gostaria de o ampliar um pouco mais.

O jogo das tarifas tem várias vantagens. Em primeiro lugar, pode exigir uma certa quantia em tributos. No entanto, lembremo-nos que, no final, os tributos serão pagos pelos americanos ao seu próprio governo falido. Ainda não sabemos quanto será financiado pelos outros países.

O Sr. Trump adora falar sobre tarifas, sobre o que elas fazem aos outros países. Mas a primeira vítima de uma tarifa são os americanos que têm de a pagar, não os estrangeiros. E é uma questão em aberto, dependente de muitas variáveis, quanto da tarifa que o americano que a paga será capaz de repassar para o país estrangeiro para baixar os seus preços e compensar o efeito das tarifas. Parte disso irá acontecer. Mas grande parte do efeito será o aumento dos preços nos Estados Unidos.

Deixem-me dar um exemplo que se tornou popular há 24 horas. Acontece que a grande maioria (90% ou mais) dos sapatos e ténis que os americanos usam são importados. São importados principalmente de cerca de seis países, todos os quais viram enormes tarifas impostas sobre eles.

A estimativa das empresas americanas de calçado é que terão de aumentar os preços em cerca de 37% para lidar com as tarifas de 40 a 50 a 60% que foram impostas a muitos dos países que produzem calçado. Agora, essa parte da inflação ainda não atingiu os Estados Unidos, mas já está a ser considerada nos cálculos de todas estas empresas.

Portanto, penso que é importante compreender que o efeito das tarifas, em termos dos EUA versus os BRICS ou o resto do mundo, ainda não está resolvido.

Em seguida, a imposição destas tarifas – é claro que Trump compreende esta parte – é uma forma de quebrar qualquer unidade, por exemplo, entre o Vietname e a China em torno de certas questões, ou a unidade que os BRICS estabeleceram entre os seus membros e parceiros. Porque o que isso faz é incentivar os países a competir entre si pela preferência dos Estados Unidos.

Isso é claramente divisivo para os BRICS. Significa que eles talvez estejam a dizer uma coisa enquanto fazem acordos com Washington nos bastidores. Vamos descobrir isso nos próximos meses e anos. Mas seria ingênuo não pensar que isso está a decorrer.

É possível ver o impacto dessa estratégia específica porque a sua maior vítima é a Europa, onde não há união porque esses países não confiam uns nos outros para não fazerem acordos secretos com os Estados Unidos. O continente não confia na Grã-Bretanha e vice-versa. A França e a Alemanha não confiam uma na outra. Cada uma teme que, se for muito longe na oposição a Trump, ele favoreça as outras em detrimento dela. E assim por diante.

A Europa tem sofrido com o fracasso da forma como saiu do feudalismo – todo esse barulho nacionalista tem-lhes custado muito caro desde então.

Finalmente, outra dimensão. Se olharmos atentamente para o que Trump disse sobre a ameaça ao Brasil e a tarifa de 50%, o argumento que ele apresentou foi que quer impedir a investigação sobre Bolsonaro. Ele não está satisfeito com isso. Ele quer aliados lá e quer puni-los por causa dos seus procedimentos judiciais internos, o que é uma justificativa notável para uma tarifa. Quero dizer, não estamos habituados a ver esse tipo de coisa. Isso teria sido mantido em segredo, se fosse um objetivo em tudo isso.

Mas, dada a forma como o Sr. Trump trabalha, tudo isto parece ser uma confusão, uma confusão de tarifas entrelaçadas com compromissos ideológicos, entrelaçadas com objetivos políticos de longo prazo que são mal definidos e provavelmente impossíveis de alcançar.

Por isso, sinto-me levado a fazer o que o meu amigo Yanis Varoufakis faz, encontrar o método na loucura. Estou contente por estarmos a fazer isso, e devemos fazê-lo. Mas não devemos esquecer que há muita loucura aqui e muitos objetivos conflitantes que não vão funcionar. E isso vai ajudar-nos a evitar ver demasiada lógica, demasiada gestão. E assim acabo por não ser tão crítico em relação aos BRICS, por mais fácil que seja fazê-lo. Podiam fazer mais? Sim. Podiam ter ido mais longe? Sim.

Mas até mesmo Lula, se eu puder concluir sobre isso, fez uma coisa interessante no seu discurso mais recente que li. Ele diz: “Não sou daqueles que atacam a globalização. O problema não foi a globalização”. O problema foi – ele não usa essas palavras, mas vou colocá-las na boca dele – o imperialismo americano. Os Estados Unidos usaram uma economia globalizada para seus próprios fins. Lula quer que todos entendam que a globalização ainda está na agenda e que ele, pelo menos, é a favor dela.

Vejo nisso o eco dos chineses e de outros que apoiam o livre comércio, reposicionando o mundo em torno dessa velha luta capitalista, livre comércio versus protecionismo. Eles estão a tornar-se habilmente os defensores de um regime de livre comércio contra o protecionismo estreito e retrógrado do MAGA.

Acho que essa é uma imagem muito poderosa, que muda o que é o mundo avançado e o que é o mundo menos desenvolvido. Ela não substitui a estratégia de desenvolvimento económico (que ainda precisa ser definida), mas reconceitua de forma muito inteligente o que está a acontecer no mundo em termos de globalização e protecionismo. E isso é muito diferente da forma como os Estados Unidos entendem a economia mundial.

MICHAEL HUDSON: Acho que tem razão. O que está realmente em causa é o tipo de sistema económico que o mundo vai ter, pelo menos o mundo fora dos Estados Unidos. O problema não é apenas o capitalismo. É particularmente a versão europeia e americana do que o capitalismo se tornou, que é muito diferente de como começou.

Os países da maioria global enfrentam hoje um problema muito semelhante ao que a Europa enfrentou quando se libertou do feudalismo, do controlo do passado, do controlo de uma aristocracia predatória e hereditária que detinha as terras, cobrava rendas e estabelecia monopólios para pagar as suas dívidas externas e tinha um sistema bancário predatório. Todo o sistema teve de ser revisto. Foi isso que tornou o capitalismo industrial revolucionário.

O capitalismo industrial queria libertar as economias de todo esse fardo da classe rentista que havia surgido do feudalismo. E a solução de Adam Smith, dos fisiocratas franceses e do resto dos economistas clássicos foi esta:

Se tributarmos os rentistas (que vivem da renda económica, do rendimento não merecido (unearned income))... se tributarmos a terra, se tributarmos os monopólios e impedirmos os monopólios e os tornarmos domínio público, então nos tornaremos uma economia de baixo custo.

E se a Inglaterra vai ser a oficina do mundo, não podemos arcar com os custos dessa classe rentista pós-feudal. Vamos ter de nos livrar deles.

Bem, vejamos a situação atual. Assim como a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha tiveram de libertar as suas economias do fardo rentista do feudalismo, os países do BRICS e a maioria dos países da maioria global precisam de se libertar da renda herdada da época do colonialismo europeu e do seu controlo credor.

Mas o problema é que esse controlo rentista é internacional. É estrangeiro. É americano e europeu muito mais do que de investidores internos. São as empresas multinacionais que assumiram o controlo dos recursos naturais, dos recursos minerais, do petróleo e da terra. Foram os investidores estrangeiros que compraram os monopólios das infraestruturas naturais e estão a sangrá-los de tudo o que podem. E são os investidores estrangeiros que financiaram a banca local e controlam o sistema de crédito local segundo os princípios neoliberais.

FALTAM ECONOMISTAS CLÁSSICOS NO SUL GLOBAL

O que é único hoje é que os BRICS não chegaram à mesma solução que os economistas clássicos chegaram para libertar o capitalismo industrial no início do século XIX de toda essa estrutura feudal. É isso que precisa ser feito, mas eles não têm um corpo de economistas clássicos.

A maioria dos seus economistas, funcionários e administradores foram enviados para universidades americanas para estudar. Quando fazem um curso de economia, não aprendem nada sobre economia clássica; não existe renda económica; todos ganham o que têm; não existe exploração.

Enquanto que a economia clássica era toda sobre exploração. É isso que é a renda económica. É rendimento não merecido.

Hoje, a renda não merecida não é paga simplesmente às maiorias globais ou à classe dominante interna dos BRICS. É paga a investidores estrangeiros americanos e europeus, multinacionais. E se fizessem o que a Europa fez para se tornar uma economia industrial competitiva, poderiam então dizer:

“Temos soberania. E a nossa soberania será fazer exatamente o que Adam Smith e John Stuart Mill e seus seguidores disseram. Vamos tributar a renda económica da indústria petrolífera, da indústria mineira. Vamos tributar os monopólios e teremos as nossas próprias leis antitrust para que os investidores estrangeiros possam obter lucros normais sobre o que investem, mas não vamos deixá-los obter lucros exorbitantes e renda económica.»

E vamos definir o rendimento que obtêm, o rendimento tributável, como o seu fluxo de caixa global. Não vamos permitir que os investidores estrangeiros digam que não obtiveram qualquer rendimento porque gastaram todo o nosso rendimento a pagar juros a nós próprios e a cobrar depreciação sobre o petróleo e os minerais que esgotam, para os quais existe uma dedução fiscal para que não paguem quaisquer impostos.»

Todo o sistema que foi implementado para promover a revolução ideológica anticlássica e pró-rentista que ocorreu no início do século XX e floresceu sob Margaret Thatcher e Ronald Reagan tem de ser substituído pelo capitalismo industrial do final do século XIX, evoluindo para o socialismo, para uma economia mista público-privada, onde o governo regulamentava os monopólios naturais e tributava a renda econômica.

A ideia dos economistas clássicos de um mercado livre, como discutimos anteriormente, era um mercado livre de renda econômica, não livre para os rentistas ou livre de qualquer tributação ou regulamentação governamental da economia.

Então, suponha que os países do BRICS dissessem:   “Vamos desenvolver a nossa indústria da mesma forma que a Inglaterra, a França, a Alemanha e os Estados Unidos desenvolveram a sua, com uma economia mista público-privada, impedindo que a renda económica aumentasse o custo de produção. E se não fizermos isso, não poderemos industrializar-nos”.

«E, a propósito, o outro fardo feudal que temos é a dívida externa com que fomos sobrecarregados devido à forma como a ordem económica pós-guerra foi criada em 1945.»

Os países do Sul Global emergiram da Segunda Guerra Mundial com reservas externas muito abundantes porque venderam matérias-primas aos Aliados durante a guerra. E a forma como os Estados Unidos conceberam o FMI e o Banco Mundial e os acordos de comércio livre levou os países do Sul Global a perder as reservas que tinham acumulado durante a guerra, caindo na dependência comercial e, cada vez mais, na dependência da dívida.

Tudo isso tem de ser descartado, assim como a Europa descartou o fardo feudal, o feudalismo que tinha. E a luta para se libertar do investimento estrangeiro que (como disse Lula) é coordenado principalmente pelos Estados Unidos é a contrapartida de como a Europa alcançou a sua prosperidade.

LIVRE COMÉRCIO JÁ NÃO AJUDA OS EUA

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Lavrov, fez um discurso maravilhoso sobre a necessidade de estabelecer mecanismos de comércio exterior que o Ocidente não possa controlar, como corredores de transporte, sistemas de pagamento alternativos e cadeias de abastecimento. E, como exemplo, citou como os Estados Unidos paralisaram a Organização Mundial do Comércio, que eles mesmos criaram com base no livre comércio, mas agora o livre comércio não ajuda os Estados Unidos porque os Estados Unidos estão desindustrializados.

Vou citar o que Lavrov disse:

"Quando os americanos perceberam que o sistema globalizado que criaram – baseado na concorrência leal, nos direitos de propriedade invioláveis, na presunção de inocência e em princípios semelhantes, e que lhes permitiu dominar durante décadas – também começou a beneficiar os seus rivais, principalmente a China, tomaram medidas drásticas. Quando a China começou a superá-los no seu próprio terreno e pelas suas próprias regras, Washington simplesmente bloqueou o órgão de apelação da OMC. Ao privá-lo artificialmente do quórum, tornaram inativo este mecanismo fundamental de resolução de litígios e isso permanece assim até hoje".

E se os BRICS e os países da maioria global dissessem que o que a China fez, de certa forma, seguiu a lógica exata do capitalismo industrial quando este estava a emergir?

A China manteve a propriedade e a terra no domínio público. Não permitiu que os monopólios fossem privados. Não permitiu que um sistema bancário privado financeirizasse a economia e concedesse empréstimos para aquisições de empresas e compra de corporações industriais, utilizando os seus lucros para recompra de ações e pagamento de dividendos. A China fez exatamente o que Adam Smith, John Stuart Mill e os capitalistas industriais queriam fazer, além de evoluir da mesma forma que o capitalismo industrial.

Para que os BRICS se tornem independentes desse sistema que os levou à dívida, à dependência comercial e alimentar, eles teriam que dizer:   a China forneceu uma versão moderna do modelo clássico de mercado livre, livre de rendas exploradoras. E nós vamos seguir esse modelo.

Mas isso exige que retiremos a propriedade estrangeira do nosso petróleo, das nossas matérias-primas, dos nossos recursos, dos nossos monopólios. E se não podemos nacionalizá-los – sabemos que isso está fora de questão –, pelo menos podemos tributar todos os seus rendimentos não auferidos, os rendimentos não auferidos que David Ricardo, Smith, John Stuart Mill, Marx e Veblen, todo o século XIX, se esforçaram tanto para definir.

RICHARD WOLFF: Deixe-me abordar isto de uma forma ligeiramente diferente. Aqui, vou basear-me em Marx e na sua forma particular de lidar com isto.

Pode dizer-se que a ruptura do feudalismo, seja na forma de Smith e Ricardo ou de qualquer outro, surge do reconhecimento de que a renda da terra tem muito a ver com o crescimento da população.

É por isso que um metro quadrado em Nova Iorque custa muito mais do que um metro quadrado no Nebraska, certo? Não se trata do solo. Não se trata dos investimentos que foram feitos na terra ou não. Basicamente, é que cada vez mais pessoas obtêm vantagens por estarem numa população aglomerada, o que permite a quem possui a terra simplesmente aumentar a renda, e ela torna-se cada vez maior.

Pode-se pensar que as pessoas antifeudais tiveram um momento de eureka. E nesse momento, perceberam que, para ter acesso à terra, não é necessário um senhorio (landlord). Por outras palavras, pode-se, figurativamente ou não, livrar-se do senhorio e ainda assim ter a terra, que é o que o resto da população ou o resto da economia precisa.

Bem, Marx, num momento de humor, disse que a única diferença entre ele e as pessoas que perceberam o que acabei de dizer é que ele quer acrescentar que exatamente o mesmo se aplica ao capital.

Precisamos de máquinas? Absolutamente. Precisamos de fábricas e escritórios? Sim. Precisamos dos proprietários dessas coisas, que podem ficar com uma grande parte da nossa produção para nos dar acesso a elas? Não. Nós podemos produzir essas coisas.

Sabemos disso porque já o fazemos. São os trabalhadores que fabricam as máquinas. São os trabalhadores que constroem os edifícios. São os trabalhadores que fazem tudo isso. Então, se são os trabalhadores que fazem isso, por que haveria outros que não são trabalhadores a acumular receitas? Não faz mais sentido, diz Marx, do que um proprietário que herdou do avô um determinado terreno poder desviar uma enorme quantidade de receitas.

Então, a conclusão, tal como disse Michael, é que se essa receita fosse adquirida por uma agência da comunidade que quisesse o desenvolvimento económico, então, é claro que usaria essas receitas para esse fim. E essa é a velha ideia socialista. As pessoas fazem o trabalho, produzem bens de consumo para o seu próprio consumo, produzem meios de produção para se tornarem mais produtivas como comunidade.

Para que esta história seja contada, não é necessário que uma classe social separada reúna nas suas mãos a receita e a dedique exclusivamente ao crescimento do bem-estar da comunidade, se esse fosse o seu objetivo. Mas sabemos que, se existe tal classe, o capitalismo garante que o objetivo que ela perseguirá com a receita que obtém é a rentabilidade. E a rentabilidade não tem nada a ver com o que uma comunidade de trabalhadores faria se fosse ela própria a mandar aqui.

Por isso, deixem-me propor aos BRICS, tal como Michael fez, um foco estratégico que pode fazer uma diferença real:

O socialismo que produziram até agora, um governo com regulamentação e propriedade massivas (como na China, por exemplo), é um passo, provavelmente um passo necessário... mas não é um passo suficiente. O que têm de fazer é ir mais longe.

Têm de colocar realmente os trabalhadores no comando, não indiretamente através da eleição de alguns... não, não, não. Têm de, na base, em todos os escritórios, em todas as fábricas, em todas as lojas, colocar as pessoas que lá trabalham no comando. Já não existe uma classe capitalista. Na verdade, superaram a divisão de classes porque o empregador e o empregado tornaram-se a mesma pessoa. Um deles é um indivíduo, o outro é um membro do coletivo.

Não há mais senhor vs escravo, não há mais senhor vs servo e não há mais empregador vs empregado. Então teremos a microfundação para tornar possível aquilo de que Michael está a falar.

Mas isso significa que nos países do BRICS – e não vejo outra saída para isso – na medida em que ainda existirem organizações de empregadores e empregados, será necessário ir além delas. E haverá resistência por parte dos empregadores, sejam eles particulares ou funcionários públicos. Terá de engolir o sapo, não em nome de uma ideia abstrata, mas em nome da base necessária para essa organização alternativa da economia mundial de que Michael fala e para a qual os BRICS estão a caminhar, mas ainda não chegaram.

MICHAEL HUDSON: Isso deixa a questão: como se chega de onde se está agora ao que descreveu como o sonho final do socialismo?

Marx tratou disso. Ele foi realmente o inventor da contabilidade de custos para o capitalismo industrial.

Ele disse que o capitalista industrial era muito mais do que um senhorio. A renda do senhorio não acrescentava valor. Acrescentava ao preço, mas não havia custo de produção para a terra, porque a terra era fornecida gratuitamente pela natureza. À medida que a economia se torna mais próspera e a população cresce, há um aumento não merecido. O senhorio não fez nada.

Mas, disse Marx, o capitalista faz algo. O capitalista organizava a indústria. E Marx incluía o lucro do capitalista como valor, não como renda económica, porque dizia que o papel dos capitalistas industriais é ganhar dinheiro criando mais-valia, empregando mão-de-obra, vendendo os seus produtos com lucro, mais do que têm de pagar à mão-de-obra e ao custo de produção.

Mas a dinâmica do capitalismo industrial era que a empresa, para crescer, reinvestia os seus lucros em mais investimento de capital e mais emprego. E, nesse sentido, ele disse que o capitalista desempenha um papel produtivo no capitalismo. Ele diz que, em última análise, à medida que o capitalismo desempenha esse papel de criar indústria em uma escala cada vez maior, ele está a preparar toda a estrutura para que os socialistas assumam o controle e, em determinado momento, haja uma gestão socialista.

Ele também descreveu toda a estrutura da renda do capitalista. Aqui está a parte ganha da renda, os lucros reais sobre o investimento de capital necessário por fábrica. Mas o custo de produção da indústria capitalista incluía a renda da terra e outras coisas, outros fatores — e estes não deveriam ser dedutíveis dos impostos.

Assim, Marx refinou toda a ideologia fiscal de Adam Smith, Ricardo e John Stuart Mill e deu sentido a tudo isso, dizendo que o capitalista industrial era a chave para a transição para o socialismo.

Desta forma, a China permite o investimento privado com fins lucrativos, o capitalismo privado em pequena escala, mas não permite que os multimilionários se desenvolvam e não permite que o capitalismo industrial pela sua classe inovadora – que é muito inovadora – se financeirize e se transforme em capitalismo financeiro, que acabou por destruir e desindustrializar o capitalismo nas economias ocidentais.

Acho que esse é o panorama geral das economias dos BRICS e do Sul global.

Mas, para fazer isso, eles precisam de uma ideia completa de contabilidade de custos e de como tributar exatamente essas empresas, para que possam dizer:   não vamos nacionalizar vocês, apenas vamos garantir que ganhem realmente o que produzem. Se fizer um investimento de capital, é permitido obter – sobre o valor do capital físico, equipamento de mineração e equipamento de perfuração de petróleo – um lucro regular de, digamos, seis a oito por cento. Não é permitido obter lucro sobre os vastos investimentos que pagam renda económica que fez. Isso não é um investimento.

Estamos a lidar com um conceito totalmente diferente de rendimento nacional, produto nacional bruto e eliminação de transferências para investidores estrangeiros que não fazem parte do produto, mas são essencialmente uma transferência, um tributo à classe rentista que se formou em grande parte.

Para fazer isso, eles teriam que ler os volumes dois e três de O Capital, para ver como a economia clássica realmente evoluiu no século XIX.

RICHARD WOLFF: Sim, acho que não discordamos, exceto que eu quero enfatizar a mudança de ajuste em nível micro que reorganiza radicalmente todas as empresas para que elas possam, juntas, fazer o que você acabou de dizer.

No interesse de reproduzir o seu poder e a sua situação social, eles precisam ter regras em vigor para que, por exemplo, nenhuma empresa, mesmo que organizada como uma cooperativa, possa ter uma posição de monopólio. Para que essa [posição] não esteja disponível.

Considerando que sabemos que a natureza competitiva do capitalismo sempre produz vencedores e vencidos e não tem razão para não continuar até que restem apenas uma ou duas ou três empresas monopolistas ou oligopolistas. A produção de um monopolista é intrínseca ao sistema capitalista. Ele os produz e reproduz constantemente.

É por isso que existem Jeffrey Bezos, Elon Musk e todos os outros.

Não só não há nada que o impeça, como o sistema está montado de tal forma que todos os capitalistas que já conheci sonham em ter «quota de mercado». Bem, essa é uma ideia nada subtil. Trata-se de conseguir a capacidade de aumentar o preço acima do que seria se fizesse o tipo de cálculo de custos que o Michael acabou de especificar.

Se queremos fazer o nosso trabalho, temos de especificar a economia política que poderia estabelecer a tarefa de limitar o monopólio.

E nós tentámos isso. Tivemos a lei Sherman Antitrust em 1890. Tivemos a lei Clayton em 1914. Foram fracassos espetaculares. Não impediram a monopolização. Nunca impediram. É uma fraude. Temos um departamento antitrust que é outra fraude que não faz o seu trabalho. E não o faz, seja republicano ou democrata, porque isso está incorporado no sistema. O financiamento bancário depende do tipo de quota de mercado que se pode prometer ao banqueiro que se pode obter com um empréstimo que permite eliminar os concorrentes. Isso não seria possível se se organizasse a base de forma diferenciada. Eles não permitiriam porque todos poderiam ser vítimas disso de uma forma que poderia realmente prejudicá-los.

Penso, portanto, que estes são os próximos passos de um BRICS.

Mas há outra dimensão nisto que não quero perder e gostaria de ouvir os comentários de Michael. Parece-me que os BRICS já são uma transformação histórica. O facto é que – sei que já fiz isto antes, mas quero que pensemos nisso – se somarmos o PIB de todos os países do BRICS atualmente, chega-se a cerca de 35% do PIB global. Se somarmos o PIB do G7, ou seja, os Estados Unidos e os seus principais aliados, estamos a falar de 27 ou 28%.

Para mim, é isso. Acabou. Já não estamos onde estávamos nos 80 anos desde Bretton Woods, uma economia mundial em que os Estados Unidos e os seus aliados eram a potência económica global que moldava o mundo e, com isso, a potência política, militar e ideológica. Não somos o centro económico da economia mundial. Os Estados Unidos não são. E esta diferença foi cruzada em 2020.

Aqui estamos nós, cinco anos depois, e a diferença só aumentou a favor dos BRICS e contra os Estados Unidos.

Isso, na minha opinião, representa uma pressão implacável sobre o Sr. Trump, sobre todos neste país, quer admitam o que acabei de dizer como uma estatística ou não. Consciente ou inconscientemente, eles têm uma sensação sinistra de que a própria marcha do tempo é agora sua inimiga.

Então, surge um desespero que produz essa mentalidade de "agarramento", com a qual Michael começou hoje. Mas essa é uma mentalidade fundamentada numa transformação material real.

Suspeito que, em algum lugar, os BRICS também sabem disso. Eles não sabem muito bem o que fazer – Michael está certo. Por outro lado, eles estão a negociar mais entre si do que nunca. E não se trata apenas de comércio de emergência. Por outras palavras, não é apenas a Rússia a vender petróleo e gás à China e à Índia porque não podem ser manipulados.

Agora, uma palavra final: porque Michael mencionou o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Lavrov. No mesmo discurso ao qual Michael se refere, Lavrov apresenta uma estatística, e eu verifiquei que está correta. Aqui está e é algo para se pensar.

BM: UCRÂNIA E ÁFRICA

Desde o início da guerra na Ucrânia, no início de 2022, o Banco Mundial, uma instituição ocidental criada pelas reuniões de Bretton Woods, concedeu à Ucrânia o dobro do dinheiro que concede anualmente à África. Agora, deixem-me lembrar-vos:   a população da Ucrânia é de 39 milhões de pessoas. A população da África é de 1,55 mil milhões de pessoas.

Não há qualquer justificação para tal comportamento, a não ser que se esteja desesperado e a mobilizar todos os recursos disponíveis, sem se importar com as consequências. É um comportamento muito diferente daquele a que estamos habituados. É como se o Sr. Trump tivesse acabado com a ajuda externa à África e ontem, em seguida, convidado aqueles tristes cinco líderes para conversar com ele.

Duas vezes mais para a guerra na Ucrânia, que afeta 39 milhões de pessoas, do que o que se dá anualmente a 1,55 mil milhões.

É impressionante se pensarmos nisso. Pense na mensagem de desenvolvimento económico aqui. Ajudar a Ucrânia a basicamente destruir tudo porque o dinheiro é usado para a guerra, em vez de ajudar 1,5 mil milhões de pessoas que são vítimas do subdesenvolvimento económico por excelência no mundo em que vivemos. É realmente de tirar o fôlego.

MICHAEL HUDSON: Richard, a população [beneficiada] da Ucrânia é de apenas 1000 pessoas. Essas 1000 pessoas recebem todo o dinheiro do FMI, todo o dinheiro do Banco Mundial. Esse dinheiro não é gasto com o resto da população em geral. Vai para a oligarquia cliente. Essa é a chave.

Mas quero voltar ao que falaste, a marcha do tempo. A questão é: como é que o governo americano, que parece ser o mais proativo neste momento sob Trump, impede que a marcha do tempo avance numa direção que não é do interesse nacional americano? Como é que impede o desenvolvimento dos BRICS? É realmente isso que acho que deveria ter sido o foco da conferência no Brasil.

Acho que o plano dos EUA é, de facto, como você aponta, baseado no monopólio. Na verdade, o presidente do Federal Reserve, esta semana, reforçou muito o seu argumento sobre os preços monopolistas. Ele disse: “Donald Trump está a tentar forçar-me a baixar as taxas de juro [mas eu quero mantê-las inalteradas, dado o efeito incerto das tarifas] para impedir o aumento dos preços”. Mas o aumento dos preços não é causado pela criação de dinheiro. O aumento dos preços não tem nada a ver com a criação de dinheiro. As empresas estão a perceber que não há qualquer aplicação da lei antitrust, que podem simplesmente explorar, explorar e explorar os seus clientes. Os supermercados estão a explorar. Todos estão a explorar os clientes. Foi isso que ele disse. E, claro, ele tem razão.

Numa escala maior, pergunto:   como os EUA vão sobreviver como um país monopolista, impondo aos BRICS e ao resto do mundo seus direitos monopolistas e os privilégios rentistas relacionados, que são exclusivamente favoráveis a si mesmo no comércio e nos investimentos mundiais?

Bem, a América de Trump quer tornar outros países dependentes da tecnologia da informação americana, das suas plataformas de Internet, da sua tecnologia militar. Quer tornar-se ela própria o grande poder monopolista sobre outros países. Se não conseguir alcançar o seu domínio através da industrialização, pode alcançá-lo através do capitalismo monopolista pós-industrial, que acaba por ser a fase final do capitalismo financeiro neste caso.

Assim, para Trump e para os Estados Unidos, o Estado de direito baseia-se num sistema que permite exigências unilaterais dos EUA para impor sanções comerciais e financeiras, ditando como e com que países estrangeiros podem negociar e investir entre si.

Além disso, mencionou na primeira parte da sua palestra:   quem vai pagar estas tarifas? Serão os consumidores americanos ou os exportadores estrangeiros?

Bem, muitas dessas tarifas não serão pagas porque o comércio deixará de existir. Os estrangeiros não podem pagar para ter acesso ao mercado americano pagando essas tarifas, e os americanos não podem comprar dos estrangeiros com essas tarifas. Haverá uma retração do comércio mundial em todos os tipos de conexões que foram estabelecidas nos últimos 80 anos.

Haverá uma interrupção tão grande no comércio que a verdadeira questão que os BRICS enfrentarão é:   agora que não podemos exportar para os EUA e não vamos importar dos EUA, como faremos nosso comércio e nossos investimentos entre nós, ao invés de fazê-lo com os Estados Unidos? É isso que eles têm que fazer.

Tudo isso exigirá a criação de novas instituições internacionais, em que a Rússia e a China estão na liderança para tentar promover.

Os Estados Unidos estão a tentar impedir isso. Estão a fazer tudo o que podem para impedir a criação de qualquer alternativa. É isso que os próprios americanos chamam de choque de civilizações.

A ideia americana de civilização é a imposição da economia neoliberal financeirizada. E a alternativa é a autocracia, a ditadura, como os Estados Unidos diriam que existe na China.

Mas a ideia americana de democracia é a ditadura de clientes. Esta não é a democracia dos países que estão a crescer e a rejeitar ditaduras de clientes e a assumir a sua soberania.

Estamos a lidar com uma luta não entre a civilização americana e britânica, mas entre a barbárie e o próprio princípio da civilização baseada no direito internacional, na igualdade das nações em termos de soberania, na liberdade da interferência estrangeira, nas regras da guerra, em todas as regras que foram destruídas pela política americana nos últimos anos.

RICHARD WOLFF: Gostaria, nos poucos minutos que nos restam, de usar o velho argumento do livre comércio contra tudo isso.

Os Estados Unidos estão a fechar-se com um muro de proteção. Todos estes preços vão subir em virtude das tarifas que lhes são impostas, mais ou menos. E o importante a ter em mente é que no resto do mundo que não está a seguir o exemplo, os preços serão mais baixos do que nos Estados Unidos. Não na mesma medida em todos os lugares, mas mais baixos.

Isso começa a ser incorporado nos sistemas de preços externos, que se tornam cada vez mais diferenciados dos preços protegidos pelo monopólio dentro dos Estados Unidos.

Isso significará que os Estados Unidos, como totalidade capitalista, estarão numa posição competitiva em deterioração em relação ao resto do mundo, porque todos os insumos aqui serão mais caros do que os seus equivalentes fora da zona de proteção.

Não é um arranjo sustentável ou, em outras palavras, isso se tornará um mecanismo que, com o tempo, deteriorará e isolará o capitalismo dos Estados Unidos do resto do mundo. Portanto, essa também não é uma estratégia viável.

Os primeiros momentos em que Trump jogou isso para o ar podem parecer algum tipo de inovação notável, mas todos sabemos que a história do capitalismo é uma história de oscilações entre o livre comércio e a proteção. Não somos os primeiros a passar por isso. E a fase de proteção, que surge quando o livre comércio não funciona, acaba sempre por ser um beco sem saída. Na verdade, é por isso que voltamos ao livre comércio, porque temos uma repulsa pelos problemas da proteção.

Em suma, não se trata de descobrir uma nova solução. Trata-se de ansiar por uma solução antiga que já devíamos ter aprendido que não funciona.

MICHAEL HUDSON: Bem, essa disparidade de preços é exatamente o que a Grã-Bretanha enfrentava há 200 anos. Ela percebeu que outros países tinham uma vantagem natural em termos de preços porque podiam crescer, por um lado, podiam cultivar os seus alimentos e produzir matérias-primas a um custo muito menor do que a Grã-Bretanha.

Então, o que fez a Grã-Bretanha? Além de reformar a sua própria economia para reduzir os seus custos, disse:

«Vamos colonizar esses países e investir neles. Podemos tomar posse das suas vantagens, da sua terra para produzir alimentos e das suas matérias-primas. Então, em vez de esses países obterem os benefícios do seu baixo custo de produção, nós, britânicos e outros proprietários colonialistas europeus, vamos conquistar a posse do património natural, da terra, dos recursos naturais e da infraestrutura desses países para nós mesmos. Eles farão parte da nossa própria economia, não da economia dos outros países.»

Essa percepção da ameaça de preços mais baixos no exterior levou ao colonialismo e imperialismo britânico e ao desenvolvimento do imperialismo financeiro na forma de corporações multinacionais comprando o controle de todos os recursos básicos e ativos que tornavam esses outros países mais naturalmente competitivos do que a Europa (que tinha o fardo da sua aristocracia e tudo mais).

O PARASITA DO SUL GLOBAL

É esse tipo de luta que está a ser travada hoje. É como se estivéssemos a assistir a uma nova tentativa dos americanos de fazer o que os colonizadores europeus fizeram ao tomar a África e outros países, investindo no sul global, apropriando-se dos seus recursos e negando a renda desses recursos aos seus países anfitriões. O sul global é um anfitrião no sentido de hospedar um parasita que extrai o seu valor.

Esta é exatamente a luta que deve ser reconhecida pelos países da maioria global. E penso que foi reconhecida pelo discurso de Lavrov, pelos russos e certamente pelos chineses.

Mas o problema é: como fazer com que os BRICS admitam que isso requer uma reestruturação realmente radical da ordem mundial? Esta é uma luta civilizacional. Como vamos criar um plano para isso? Até agora, eles realmente não desenvolveram um plano.

Falou-se em desdolarização, como se isso pudesse resolver o problema, mas isso vai muito além de se livrar do dólar americano. É libertar a economia de toda a organização financeira capitalista rentista da economia. Claro, era isso que o capitalismo industrial deveria ter feito à medida que evoluía para o socialismo.

Então, tem razão. Os países do BRICS e do Sul global têm de evoluir para o socialismo.

E a questão é: isso pode ser feito sem uma revolução? Colocámos essa questão no final do último programa.

Foi necessária uma revolução na Rússia em 1917, uma revolução na China em 1945. Os outros países dos BRICS e a maioria global podem alcançar esta alternativa à exploração dos EUA e da Europa sem uma revolução? Os Estados Unidos vão fazer tudo o que puderem para lutar contra isso. E isso é o que vai determinar os próximos anos da diplomacia internacional.

RICHARD WOLFF: Quero dizer a todos que não fiquem demasiado deprimidos.

Vocês viram as economias europeias passarem do século XIX, com um comércio mais ou menos livre, para o século XX, com a colonização e a proteção de cada colónia, um conjunto de propriedades coloniais umas contra as outras. Isso resultou nas Primeira e Segunda Guerras Mundiais.

É por isso que não se deve seguir o caminho da proteção, acompanhada por forças militares para impor essa proteção. Reparem que o orçamento que acaba de ser aprovado pelo Sr. Trump aumenta as forças armadas e a polícia. É a chamada segurança interna. Tudo o resto é cortado porque é preciso concentrar-se na proteção em todos os sentidos da palavra. Isso levou a guerras repetidas, especialmente quando o país sitiado tenta impedir os outros de se protegerem.

O que aconteceria – e não estou a sugerir isso, mas – se e quando os BRICS se sentassem e, como uma unidade, respondessem às tarifas dos Estados Unidos com uma tarifa uniforme entre eles? Tornando-se um mercado comum e excluindo os Estados Unidos?

Pessoas com memória verão aqui a própria evolução dos impérios coloniais – o americano, o britânico, o alemão, o japonês – que foram as causas das maiores guerras mundiais do século XX que a humanidade já viu.

O que está a ser feito aqui não é uma solução. É um ato de desespero que vem da ganância de que Michael nos falou hoje logo no início.

MICHAEL HUDSON: Bem, criar um mercado comum é exatamente o que a China está a tentar fazer com a Iniciativa Belt and Road.

Se vão ter comércio entre vocês, precisam de transporte. Precisam da Belt and Road. E é exatamente isso que os Estados Unidos estão a tentar fazer militarmente para impedir isso no Afeganistão, no Irão, com atividades no Azerbaijão.

É exatamente disso que se trata a luta geopolítica dos próximos anos:   tentar quebrar a capacidade de outros países de trabalharem juntos e destruir todas as conexões, não deixando alternativa a não ser depender dos Estados Unidos e da Europa.

Essa é a nova Guerra Fria, e é uma guerra sobre que tipo de civilização o mundo terá, ou pelo menos o mundo fora do mundo dourado nos Estados Unidos, na Europa e seus aliados.

NIMA ALKHORSHID: Muito obrigado, Richard e Michael. Foi um grande prazer, como sempre. Até breve.

17/Julho/2025

Vídeo desta entrevista:

[*] Economistas.

O original encontra-se em michael-hudson.com/2025/07/brics-vs-the-rentier-economy

Em

Resistir.info

 https://resistir.info/m_hudson/brics_17jul25.html

17/7/2025 

Este artigo encontra-se em resistir.info

segunda-feira, 14 de julho de 2025

 

O capitalismo reverte os gastos com bem-estar social

Prabhat Patnaik [*]

Tropas da NATO, Rússia e Ucrânia.

Imediatamente após a [2ª] guerra, quando o capitalismo enfrentou uma grave crise existencial, ele adotou uma estratégia dupla para lidar com ela. Primeiro, incitou o “medo do comunismo”, que era absolutamente injustificado, a fim de aterrorizar a classe trabalhadora nacional e fazê-la aceitar o sistema. Em segundo lugar, foi forçado a fazer ajustes no seu modus operandi. Quatro destes ajustes merecem especial atenção: a descolonização política formal, a introdução da governação democrática baseada no sufrágio universal dos adultos, a aceitação da «gestão da procura» keynesiana para eliminar o desemprego em massa e a adoção de medidas de Estado social em todo o lado, especialmente na Europa Ocidental. Estas mudanças foram tão significativas que criaram a impressão de que «o capitalismo havia mudado», que já não era o velho capitalismo predatório que prevalecia, mas sim um novo «capitalismo social».

Com o capital financeiro a ganhar força durante o longo boom do pós-guerra que se seguiu e com a globalização desse capital financeiro, que abriu caminho para uma atenuação da autonomia do Estado-nação e a imposição de um regime neoliberal por toda a parte, essas medidas do pós-guerra foram sendo revertidas de qualquer maneira; mas agora esta reversão adquiriu um impulso sem precedentes. O genocídio aberto perpetrado contra os palestinos com o apoio do capitalismo metropolitano tem uma brutalidade igual ou superior à da época colonial; o ressurgimento do neofascismo e do autoritarismo burguês atenuou o espaço democrático disponível para os povos; a crise económica do capitalismo mundial já não pode ser tratada através da «gestão da procura» keynesiana devido à hegemonia das finanças globalizadas; e agora há também um esforço concertado para reduzir os gastos com o bem-estar social em todo o lado e dedicar os recursos liberados para transferências financeiras aos capitalistas e para aumentar as despesas militares.

A «grande e bela lei» de Donald Trump, que foi aprovada pelas duas câmaras dos EUA e agora entrou em vigor, é um ataque maciço aos gastos com o bem-estar social. De acordo com o Gabinete de Orçamento do Congresso, que faz estimativas independentes do governo dos EUA, esta lei dará concessões fiscais cujo valor acumulado nos próximos dez anos será de US$4,5 milhões de milhões; e os principais beneficiários das concessões fiscais serão os ricos. Além disso, as despesas militares aumentarão cumulativamente em 150 mil milhões de dólares e a «segurança nas fronteiras» (ou seja, as despesas incorridas para impedir a entrada de imigrantes) em 129 mil milhões de dólares. Todas estas despesas são financiadas através de um corte no Medicaid de 930 mil milhões de dólares, na Energia Verde de 488 mil milhões de dólares e nos Subsídios Alimentares de 287 mil milhões de dólares. O Medicaid é o programa destinado a ajudar os segmentos mais vulneráveis da sociedade americana, como idosos, pobres e deficientes; e reduzi-lo, como faz o projeto de lei, é atingir os segmentos mais indefesos desta sociedade. O «grande e belo projeto de lei» de Trump é uma transferência descarada de benefícios dos mais pobres para os mais ricos.

É claro que as concessões fiscais são muito maiores do que mesmo a redução nas despesas mencionada acima; como resultado, o défice orçamental nos EUA deverá aumentar cumulativamente ao longo da próxima década em US$3,4 milhões de milhões. Em suma, o governo dos EUA irá contrair empréstimos por conta própria e reduzir as despesas com o bem-estar social que assumia, a fim de simplesmente entregar a riqueza aos ricos americanos. Isso é justificado em nome da recuperação da economia; mas se a recuperação fosse o objetivo, o próprio governo deveria ter gasto diretamente o que emprestou; em vez disso, está apenas a entregar todo esse poder de compra aos ricos. O seu impacto na estimulação da economia será insignificante; equivale apenas a um acréscimo gratuito à riqueza dos ricos.

Aqui surge uma questão. Um défice orçamental maior é indesejável para o capital financeiro. Mesmo quando o défice orçamental maior é incorrido para financiar transferências para os ricos, o capital financeiro continua a não gostar. Na verdade, foi isso que Liz Truss, ex-primeira-ministra britânica, tentou fazer; mas a oposição do setor financeiro ao seu programa foi tão grande que a libra esterlina desvalorizou-se e Liz Truss teve de se demitir. Nesse processo, ela se tornou a primeira-ministra com o mandato mais curto de toda a história da Grã-Bretanha, com uma duração de menos de 50 dias. Como, então, o capital financeiro permitiu que Donald Trump contraísse empréstimos maiores para fazer transferências maiores para os ricos?

É claro que ainda não está claro se Trump teve êxito com o seu défice orçamental maior; ou seja, se o capital financeiro não o forçará a reduzi-lo mais, não necessariamente reduzindo as transferências para os ricos, mas cortando ainda mais os gastos com a previdência social. Mas Trump tem alguma margem de manobra devido ao facto de o dólar americano ter hoje um estatuto bastante diferente do da libra esterlina britânica. Os detentores da riqueza mundial ainda consideram o dólar quase «tão bom quanto ouro» e é improvável que abandonem essa moeda, mesmo diante do aumento do défice orçamental de Trump. Esta margem de manobra não estava disponível para Liz Truss quando ela embarcou no seu infame plano de fazer transferências financiadas pelo défice para os britânicos ricos.

A redução das despesas sociais que está a ocorrer atualmente nos EUA será em breve seguida por uma redução semelhante em todo o mundo capitalista metropolitano. Numa cimeira da NATO realizada em 24 e 25 de junho, em Haia, foi tomada a decisão de aumentar as despesas militares em todos os países membros para 5% do PIB até 2035. As despesas atuais são de cerca de 2% do PIB e, em muitos países, nem sequer chegam a esse valor. Os países da NATO, especialmente os da Europa, estão, por outras palavras, a planear aumentar os seus gastos militares de 2% para 5% do PIB em uma década.

Ora, as moedas dos outros países da NATO não são comparáveis ao dólar americano, razão pela qual não podem aumentar os seus défices orçamentais em relação ao PIB, contrariando os desejos do capital financeiro globalizado. Além disso, a maioria dos países europeus da NATO, sendo membros da União Europeia, estão legalmente obrigados a não aumentar os seus défices orçamentais acima de 3% do seu PIB, que é mais ou menos o nível em que se encontram atualmente. Uma vez que tributar os ricos está fora de questão, mais uma vez em deferência aos desejos do capital financeiro, segue-se que o aumento das despesas militares terá de ser efetuado à custa dos trabalhadores destes países, o que pode assumir a forma de impostos mais elevados sobre os trabalhadores ou de cortes nas despesas sociais.

Das duas formas alternativas de aumentar a carga sobre os trabalhadores, os cortes nas despesas sociais são obviamente mais fáceis de conseguir, embora pouco importe qual a forma adotada pois ambas implicam uma diminuição do nível de vida dos trabalhadores. A imposição de uma carga adicional de 3% do PIB aos trabalhadores é uma imposição imensa. Em suma, os países da OTAN deram um aviso claro de que, mesmo oficialmente, os dias do chamado «capitalismo social» acabaram, que o mundo voltou aos dias do «capitalismo predatório».

Por que razão os países da NATO decidiram aumentar os seus gastos militares? É claro que há a invocação padrão da ameaça russa à Europa Ocidental. Mas mesmo no auge da chamada ameaça soviética, invocada para justificar a Guerra Fria, nunca se viu um nível tão alto de gastos militares. Além disso, mesmo hoje, os gastos militares anuais da Rússia são menos de um terço do total dos gastos militares anuais dos países europeus da NATO, ainda que deixemos de lado os EUA. Portanto, a «ameaça russa» é apenas uma camuflagem. Os gastos militares significativamente mais elevados com os quais os países da NATO se comprometeram são motivados pelo desejo de proteger uma ordem imperialista ocidental em ruínas, usando a força contra todos os países considerados possíveis desafiantes a essa ordem. O bombardeamento do Irão foi motivado por esse desejo; e os próximos anos provavelmente verão vários casos semelhantes de agressão.

É para preparar esta agressão que os trabalhadores dos países avançados estão a ser obrigados a sacrificar todas as medidas de bem-estar que haviam desfrutado até agora. Contudo, um imperialismo em ruínas é extremamente perigoso, pois é perfeitamente capaz de empurrar o mundo para uma catástrofe. A temeridade envolvida no bombardeamento das instalações nucleares do Irão atesta isso mesmo. Torna-se portanto absolutamente imperioso elevar a consciência dos povos de todo o mundo para resistir a esta imprudência imperialista.

13/Julho/2025

quarta-feira, 9 de julho de 2025

A guerra por baixo da guerra

 


– A guerra contra o Irão faz parte de uma tentativa mais ampla do império norte-americano de reimpor o seu domínio unipolar sobre o sistema político e financeiro global.
– Washington quer preservar a hegemonia do dólar e do petrodólar, ao mesmo tempo que perturba a integração dos BRICS e da Eurásia com a China e a Rússia.

Michael Hudson [*]
entrevistado por Ben Norton [**]

Mossadegh, o antigo primeiro-ministro iraniano derrubado pela CIA.

BEN NORTON: Por que os Estados Unidos estão tão preocupados com o Irão? O presidente dos EUA, Donald Trump, admitiu que o que Washington quer é uma mudança de regime em Teerão, para derrubar o governo iraniano.

Trump apoiou uma guerra contra o Irão em junho, na qual tanto os EUA como Israel bombardearam diretamente o território iraniano. Ele afirmou ter negociado um cessar-fogo após a chamada de Guerra dos 12 Dias, travada pelos EUA e Israel contra o Irão. Mas é muito difícil acreditar que este cessar-fogo vá perdurar. Em especial, quando se considera que Trump disse o mesmo em janeiro. Naquela altura alegou ter negociado um cessar-fogo em Gaza, mas a seguir, em março, dois meses depois, Israel reiniciou a guerra, depois de Trump ter dado a Israel sinal verde para violar o cessar-fogo que ele ajudara a negociar.

Portanto, é muito difícil para as autoridades iranianas acreditarem que o cessar-fogo realmente vai durar. E mesmo que se mantenha a curto prazo, a realidade é que o governo dos EUA vem travando uma espécie de guerra política e econômica contra o Irã há muitas décadas, desde 1953, quando os EUA realizaram um golpe que derrubou o primeiro-ministro democraticamente eleito do Irã, Mohammad Mosaddegh, e instalou um ditador pró-EUA, o xá Mohammad Reza Pahlavi.

Então, porquê isto? O que Washington pretende obter com a sua guerra política e económica interminável contra o Irão? Para tentar responder a esta pergunta, entrevistei o renomado economista Michael Hudson, autor de muitos livros e especialista em economia política global.

Michael Hudson publicou um artigo no qual descreve as razões económicas e políticas desta guerra contra o Irão e postula que esta faz parte da tentativa do império norte-americano de impor uma ordem unipolar ao mundo, como vimos na década de 1990, quando os EUA eram a única superpotência e podiam impor a sua vontade política e económica a quase todos os países da Terra.

O Irão foi um dos poucos países que realmente resistiu à hegemonia unipolar dos EUA. E hoje vemos que, à medida que o mundo se torna cada vez mais multipolar, o Irão desempenha um papel importante como membro do BRICS e como apoiante de grupos de resistência. O Irão está a pressionar por um mundo mais multipolar, em oposição à unipolaridade do império dos EUA, como descreveu o economista Michael Hudson no seu ensaio:

O que está em jogo é a tentativa dos EUA de controlar o Médio Oriente e o seu petróleo como um suporte do poder económico dos EUA e impedir que outros países avancem para criar a sua própria autonomia em relação à ordem neoliberal centrada nos EUA, administrada pelo FMI, Banco Mundial e outras instituições para reforçar o poder unipolar dos EUA.

Na nossa discussão de hoje, Michael conecta todos os diferentes fatores envolvidos neste conflito, incluindo o petróleo, o gás e outros recursos na Ásia Ocidental (no chamado Médio Oriente); incluindo o papel do dólar americano e do sistema do petrodólar; e como o Irão, como membro do BRICS, e muitos outros países do Sul Global, estão a desdolarizar-se e a procurar alternativas ao dólar. Também falámos sobre a geopolítica da região, as rotas comerciais e a interconectividade entre a China, o Irão e a Rússia, como parte de um projeto de integração eurasiana; falamos sobre os objetivos geopolíticos dos EUA e de Israel; e muito, muito mais.

Aqui está um excerto da nossa conversa, e depois passaremos diretamente para a entrevista:

MICHAEL HUDSON: O que vimos no último mês — ou, na verdade, nos últimos dois anos — é o culminar da longa estratégia que os Estados Unidos têm seguido desde a Segunda Guerra Mundial, de assumir o controlo total das terras petrolíferas do Próximo Oriente e torná-las proxies dos Estados Unidos, sob governantes clientes, como a Arábia Saudita e o rei da Jordânia.

O Irão representa uma ameaça militar para a fronteira sul da Rússia, porque se os Estados Unidos conseguissem colocar um regime fantoche no Irão, ou dividir o Irão em grupos étnicos que pudessem interferir no corredor comercial da Rússia para o sul, no acesso ao Oceano Índico, bem, então teriam encurralado a Rússia, teriam encurralado a China e teriam conseguido isolá-las.

Essa é a atual política externa americana. Se conseguirem isolar países que não querem fazer parte do sistema financeiro e comercial internacional americano, então a crença é que eles não podem existir por si próprios; são demasiado pequenos.

A América ainda vive na época da Conferência de Bandung de 1955 das nações não alinhadas na Indonésia. Quando os países queriam seguir sozinhos eram economicamente demasiado pequenos.

Imagem 1.

Mas hoje, pela primeira vez na história moderna, temos a opção da Eurásia, da Rússia, da China, do Irão e de todos os países vizinhos entre eles. Pela primeira vez, eles são grandes o suficiente para não precisarem do comércio e do investimento dos Estados Unidos.

Na verdade, enquanto os Estados Unidos e os seus aliados da OTAN na Europa estão a encolher — são economias desindustrializadas, neoliberais e pós-industriais —, a maior parte do crescimento da produção, manufatura e comércio mundial ocorreu na China, juntamente com o controlo da refinação de matérias-primas, como terras raras, mas também cobalto, até alumínio e muitos outros materiais.

Assim, a tentativa estratégica dos Estados Unidos de isolar a Rússia, a China e qualquer um dos seus aliados no BRICS ou na Organização de Cooperação de Xangai acaba por isolar-se a si própria. Está a forçar outros países a fazer uma escolha.

É a única coisa que os Estados Unidos têm para oferecer aos outros países no mundo de hoje. Não lhes podem oferecer exportações. Não lhes podem oferecer estabilidade monetária.

A única coisa que os Estados Unidos têm a oferecer ao mundo é abster-se de destruir a sua economia e causar caos económico, como Trump ameaçou fazer com as suas tarifas e com qualquer país que tente criar uma alternativa ao dólar.

Daí este almoço grátis, em que outros países podem ganhar dólares, mas têm de os emprestar novamente aos Estados Unidos. E os Estados Unidos, como seu banqueiro, têm de guardar tudo, e o banqueiro pode simplesmente decidir a quem pagar e a quem não pagar.

É um gangster. Tem sido chamado de Estado gangster, exatamente por estas razões. E outros países têm medo do que os Estados Unidos podem fazer, não só sob Donald Trump, mas do que têm feito nos últimos 50 anos. Está simplesmente a confiscar, a desestabilizar e a derrubar.

Os Estados Unidos basicamente declararam guerra contra qualquer tentativa de criar um sistema internacional de comércio e investimento que não seja controlado pelos Estados Unidos, em seu próprio interesse, querendo todos os lucros, todas as receitas, não apenas parte delas. É um império ganancioso.

Entrevista

BEN NORTON: Michael, obrigado por se juntar a mim. É sempre um prazer ter-te aqui. Vamos falar sobre este artigo que escreveu, no qual argumenta que a guerra contra o Irão faz parte de uma tentativa dos Estados Unidos de impor a sua hegemonia unipolar ao mundo.

Vemos que estamos a viver num mundo cada vez mais multipolar, e o Irão tem desempenhado um papel importante no projeto multipolar como membro do BRICS, como membro da Organização de Cooperação de Xangai, como parceiro da China e da Rússia. O Irão também tem pressionado pela desdolarização do sistema financeiro global.

Fale sobre como vê a guerra contra o Irão — que não começou com Donald Trump, mas remonta a muitos anos — e como a vê em particular como economista.

MICHAEL HUDSON: Bem, a guerra contra o Irão começou em 1953, quando os Estados Unidos e o MI6 derrubaram o primeiro-ministro eleito [Mohammad Mosaddegh], e a razão pela qual ele foi derrubado foi porque quis nacionalizar as reservas de petróleo do Irão. Os Estados Unidos sempre viram o Irão como parte do Golfo petrolífero do Próximo Oriente.

A política externa americana, em termos de armamento do seu comércio externo, sempre se baseou em duas commodities: cereais — a capacidade de impedir a exportação de alimentos para países que se opõem à política dos EUA, como os Estados Unidos impediram a exportação de cereais para a China sob Mao — e petróleo.

Durante um século, os Estados Unidos concentraram-se no controlo do petróleo como base da sua balança comercial internacional — é o maior contribuinte para a balança comercial — e da sua capacidade de sancionar o resto do mundo, cortando o fornecimento de petróleo e, consequentemente, cortando a eletricidade, o gás e o aquecimento doméstico dos países que se afastam da política dos EUA.

Quando trabalhei para o Instituto Hudson no início dos anos 70, Herman Kahn levou-me a uma reunião com alguns generais, e eles estavam a discutir o que fazer com o Irão, caso, sob o xá, o Irão tentasse mais uma vez afirmar a sua autonomia e seguir o seu próprio caminho.

O Irão sempre foi a potência mais forte de todo o Próximo Oriente e a pedra angular do controlo do Próximo Oriente. Não é possível controlar totalmente o petróleo do Próximo Oriente — Síria, Iraque, os restantes países da região — sem controlar também o Irão, devido à dimensão da sua população e à força da sua economia.

Herman Kahn

Foi uma reunião muito interessante. Herman Kahn, o modelo para o Dr. Strangelove, discutiu como dividir o Irão em suas várias etnias, cinco ou seis etnias, caso ele adotasse uma política independente dos Estados Unidos.

A preocupação dos Estados Unidos já na década de 1970, há 50 anos, era:   «O que faremos se outros países não seguirem o tipo de ordem mundial internacional que estamos a organizar?»

Herman disse que achava que o ponto de crise que iria eclodir nas notícias internacionais seria o Baluchistão, na fronteira do Irão com o Paquistão. Os baluchis são uma população distinta, assim como os azerbaijanos, os azeris e os curdos.

O Irão é um país composto por muitos grupos étnicos, incluindo um grupo judaico muito grande. É uma sociedade multiétnica, e a estratégia dos Estados Unidos, no caso de uma guerra contra o Irão, era jogar com essas etnias — tal como planos semelhantes foram traçados para a Rússia, como dividi-la em partes étnicas separadas; e para a China, como dividir a China em partes étnicas, no momento em que os Estados Unidos quisessem enfrentá-los.

E a razão pela qual essa divisão étnica foi desenvolvida foi que, como democracia, especialmente na década de 1970, tornou-se muito evidente que os Estados Unidos nunca mais poderiam mobilizar um exército para invasão, como estavam a fazer no Vietname.

Na altura em que participei nessa reunião, no final de 1974, acho, ou no início de 1975, havia manifestações. Era óbvio que nunca mais poderia haver um recrutamento militar obrigatório.

Como os Estados Unidos exerceriam seu poder internacional sem poder militar? Tinha bases militares em todo o mundo; gastava mais com as forças armadas do que qualquer outro país.

Todo o défice da balança de pagamentos dos EUA era em gasto militar no estrangeiro e, mesmo assim, não podiam entrar em guerra. Tinham de usar proxies.

Foi nessa altura que, além das discussões em que participei sobre como usar as etnias dos países aos quais declarámos guerra como adversários, os Estados Unidos decidiram criar a maior base militar do Próximo Oriente, que foi Israel.

Henry Jackson, o senador pró-guerra do complexo militar-industrial, reuniu-se com Herman Kahn — eu estava no escritório de Herman, a ouvir a chamada, quando ela foi atendida — e o acordo foi que o complexo militar-industrial e Jackson apoiariam Israel, se Israel concordasse em agir como porta-aviões dos Estados Unidos no Oriente Próximo, como foi dito na altura.

Herman aceitou de bom grado esse acordo, porque o Instituto Hudson, naquela época, era uma organização sionista e um campo de treino para a Mossad.

Um dos meus colegas era Uzi Arad. Fizemos várias viagens juntos à Ásia. E Uzi tornou-se conselheiro de Netanyahu e chefe da Mossad nos anos seguintes.

Assim, eu estava presente quando a estratégia americana estava a ser traçada.

Israel iria ser a cara dos Estados Unidos e, de facto, tem coordenado o apoio americano à Al-Qaeda e aos carniceiros wahhabitas que tomaram o controlo da Síria e agora estão ocupados a matar cristãos, xiitas e alauítas.

Imagem 2.

E nunca se verá qualquer crítica a Israel por parte da Al-Qaeda ou do grupo [Hayat Tahrir al-Sham (HTS)] na Síria, ou como quer que se chame agora. E vice-versa, sempre houve uma relação de trabalho.

Isto dá-nos alguma contextualização sobre há quanto tempo os Estados Unidos antecipam o dia em que tentarão finalmente coroar a sua invasão do Iraque, o seu ataque à Síria, a sua destruição da Líbia, o seu apoio à destruição do Líbano e de outros países, no Norte de África, etc.

O que vimos no último mês — ou, na verdade, nos últimos dois anos — é o culminar da longa estratégia que os Estados Unidos têm tido desde a Segunda Guerra Mundial, de assumir o controlo total das terras petrolíferas do Próximo Oriente e torná-las proxies dos Estados Unidos, sob governantes clientes, como a Arábia Saudita e o rei da Jordânia.

Geopolítica e comércio global

BEN NORTON: Levantou muitos pontos interessantes, Michael. Quero focar em duas questões principais aqui: uma é a geopolítica da integração do Irão com a Eurásia e a outra é o petróleo e o sistema do petrodólar.

Vou começar pela geopolítica. É claro que, quando falamos sobre o petrodólar, devemos ter em mente que o Irão tem vendido o seu petróleo e gás em outras moedas e pressionado pela desdolarização.

Imagem 3.

Mas antes de chegarmos a isso, quero falar sobre o papel que o Irão tem desempenhado não apenas no apoio a grupos de resistência na Ásia Ocidental, mas também no aprofundamento da sua parceria política e económica com a China e a Rússia, como parte de uma parceria eurasiana mais ampla.

Existem inúmeros projetos físicos que integram estas regiões.

O Irão está no centro da Nova Rota da Seda da China. Esta foi originalmente lançada pelo presidente chinês Xi Jinping em 2013 e depois expandiu-se para a Iniciativa Belt and Road (BRI).

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O Irão é uma parte importante nisso, conectando a Ásia Oriental, através da Ásia Central, através do Irão, até a Ásia Ocidental. E os EUA realmente tentaram atrapalhar isso.

O Irão também desempenha um papel importante num corredor económico liderado pela Rússia que conecta São Petersburgo, passando por Moscovo, descendo pelo Mar Cáspio, passando pelo Irão e chegando à Índia. Isso é conhecido como Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul, o INSTC.

Portanto, vimos que o Irão desempenhou um papel muito importante ao desafiar o dólar americano, desafiar a hegemonia dos EUA e também buscar a integração económica e política com outros países da Eurásia.

Pode falar mais sobre isso e por que esses planeadores imperiais em Washington veem isso como uma grande ameaça?

MICHAEL HUDSON: Bem, acabou de resumir os dois mapas que incluí no meu artigo.

Há cerca de um mês, o Irão concluiu a sua ferrovia Belt and Road, que vai até Teerão. Pela primeira vez, existe um corredor terrestre do Irão à China.

Agora, o corredor Belt and Road significa que eles estão a evitar o transporte marítimo.

A política militar americana e britânica baseia-se há cem anos no controlo dos mares, e o controlo do comércio de petróleo fazia parte dessa estratégia.

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Porque se o Irão, a Arábia Saudita, o Kuwait e os outros países produtores de petróleo não puderem carregar petroleiros com petróleo, como vão conseguir exportar? E como podem importadores como a China ou a Índia obter petróleo do Próximo Oriente?

Bem, com a iniciativa chinesa Belt and Road, a intenção era atravessar todo o território, passando pelo Irão, e depois seguir até ao Oceano Atlântico, até à Europa. Este Belt and Road iria abranger todo o continente euro-asiático, todo o hemisfério oriental.

E se os Estados Unidos conseguissem conquistar o Irão e tomá-lo, isso interferiria no desenvolvimento ferroviário de longa distância da China e o bloquearia — assim como os Estados Unidos esperam incitar a Índia e o Paquistão a algum tipo de conflito que interrompa a iniciativa Belt and Road da China, que atravessa o Paquistão [o Corredor Económico China-Paquistão (CPEC)].

Portanto, por um lado, o Irão é a chave para o transporte terrestre da China para a Europa.

E, como acabou de salientar, com a Rússia:   o Irão representa uma ameaça militar para a fronteira sul da Rússia, porque se os Estados Unidos conseguissem colocar um regime fantoche no Irão, ou dividir o Irão em grupos étnicos que pudessem interferir no corredor comercial da Rússia para o sul, no acesso ao Oceano Índico, bem, então teriam encurralado a Rússia, teriam encurralado a China e teriam conseguido isolá-las.

Essa é a atual política externa americana. Se conseguirem isolar países que não querem fazer parte do sistema financeiro e comercial internacional americano, então a crença é que eles não podem existir por si próprios; são demasiado pequenos.

A América ainda vive na época da Conferência de Bandung de 1955, das nações não alinhadas, na Indonésia. Quando outros países queriam seguir sozinhos, eram economicamente demasiado pequenos.

Mas hoje, pela primeira vez na história moderna, temos a opção da Eurásia, da Rússia, da China, do Irão e de todos os países vizinhos entre eles. Pela primeira vez, eles são grandes o suficiente para não precisarem do comércio e do investimento dos Estados Unidos.

Na verdade, enquanto os Estados Unidos e os seus aliados da OTAN na Europa estão a encolher — são economias desindustrializadas, neoliberais e pós-industriais —, a maior parte do crescimento da produção, manufatura e comércio mundial ocorreu na China, juntamente com o controlo da refinação de matérias-primas, como terras raras, mas também cobalto, até alumínio e muitos outros materiais na China.

Assim, a tentativa estratégica dos Estados Unidos de isolar a Rússia, a China e qualquer um dos seus aliados no BRICS ou na Organização de Cooperação de Xangai acaba por isolar-se a si própria. Está a forçar outros países a fazer uma escolha.

Isto ficou muito claro imediatamente após Trump assumir a presidência e anunciar a sua política tarifária, dizendo:   «Em três meses, vou impor tarifas tão devastadoramente altas que vocês, os países do Sul Global, os países da Maioria Global, as vossas economias ficarão no caos sem ter acesso ao mercado americano».

Mas, [disse Trump], “Temos três meses para negociar e, se vocês nos derem algo em troca, eu reduzirei essas tarifas para 10%, para que não devastem as vossas economias. E um dos acordos que vocês têm de fazer é concordar com as sanções dos Estados Unidos de não negociar com a China, não investir na China, não usar alternativas ao dólar americano”.

A China está a tentar evitar usar dólares, assim como a Rússia já não consegue usar dólares, porque os Estados Unidos simplesmente confiscaram US$300 mil milhões das reservas cambiais da Rússia no Ocidente, que ela mantinha em Bruxelas, a fim de gerir o seu câmbio, estabilizar a sua taxa de câmbio, que é o que os bancos centrais fazem em todo o mundo.

Bem, é muito interessante. O Financial Times publicou um artigo na primeira página [relatando] que agora os países europeus, especialmente a Alemanha e a Itália, que têm a segunda e terceira maiores reservas de ouro, pediram:   “Podem [devolver-nos o nosso ouro]? Desde a Segunda Guerra Mundial, deixámos todas as nossas reservas de ouro na Reserva Federal em Nova Iorque”.

O ouro dos Estados Unidos está em Fort Knox, mas outros países mantêm as suas reservas de ouro no porão do Banco da Reserva Federal, em frente ao banco Chase Manhattan, no centro da cidade.

E outros países agora percebem que, sob Trump, se ele disser:   «Bem, a Europa tem realmente tirado partido de nós; tem exportado mais para nós do que nós vendemos para eles» — sabe, a Itália e a Alemanha estão preocupadas que, de alguma forma, os Estados Unidos digam:   «Bem, vamos simplesmente ficar com todo este ouro que vocês acumularam tirando partido de nós».

Assim, o resto do mundo está a afastar-se do dólar. Isto reflete o efeito de tudo o que os Estados Unidos estão a tentar fazer para isolar as outras partes do mundo do contacto com os Estados Unidos, se tentarem ter um sistema económico alternativo ao capitalismo financeiro neoliberal, se tentarem ter um socialismo industrial — que é realmente o capitalismo industrial a caminho de se tornar socialismo industrial, com investimento governamental ativo em infraestruturas básicas, em vez de privatizar as infraestruturas ao estilo Margaret Thatcher.

O efeito será deixar os Estados Unidos isolados e todo o resto do mundo seguindo seu próprio caminho, incapaz de negociar com os Estados Unidos por causa das altas tarifas que Trump impôs e com medo de negociar em dólares por causa da arma predatória do padrão do dólar, que tinha sido o almoço grátis dos Estados Unidos durante toda a era do padrão do título do Tesouro dos EUA, desde que os Estados Unidos abandonaram o ouro em 1971.

Petróleo e petrodólar

BEN NORTON: Mais uma vez, Michael, levantou muitos pontos importantes. Quero continuar com esta questão do petróleo e do dólar americano, e do sistema do petrodólar.

Agora, mencionou algumas vezes que os EUA dependem realmente das exportações de petróleo e do controlo do comércio de petróleo, em parte para tentar reduzir o seu enorme défice da balança corrente — o que, quero dizer, ainda não é muito bem-sucedido. Os EUA têm enormes défices na balança corrente — ou seja, défices comerciais com o resto do mundo.

Mas o que é diferente na década de 2020 é que os EUA são agora o maior exportador mundial de petróleo. São o maior produtor de petróleo do planeta e o maior produtor de gás. Essa é uma diferença significativa. Trata-se, em grande parte, de um desenvolvimento da última década, devido à explosão do fracking nos EUA e também à revolução do petróleo de xisto.

Portanto, não é necessariamente que os EUA precisem de ter acesso físico a todo o petróleo da região. Embora, é claro, as empresas de combustíveis fósseis dos EUA adorassem privatizar todo o petróleo da Ásia Ocidental, que é propriedade do Estado.

Por exemplo, falámos sobre Mohammad Mosaddegh, o primeiro-ministro do Irão que foi derrubado no golpe de 1953 apoiado pela CIA, depois de nacionalizar o petróleo no Irão e expulsar as empresas petrolíferas americanas e britânicas.

Bem, o atual governo iraniano, após a Revolução Iraniana de 1979, também nacionalizou o petróleo, e o Estado iraniano tem realmente muita influência na economia, inclusive através de empresas estatais.

Portanto, é claro que os EUA adorariam privatizar isso. Mas não se trata necessariamente de obter acesso a todo esse petróleo.

Trata-se de manter a ordem financeira atual, que é realmente apoiada pelo petróleo, especialmente depois que Richard Nixon, em 1971, desvinculou o dólar do ouro.

Então, em 1974, Nixon enviou o seu secretário do Tesouro, William Simon — Bill Simon, da Salomon Brothers — que era especialista em títulos. Ele dirigia a mesa do Tesouro, negociando a dívida do governo dos EUA na Salomon Brothers, um grande banco de investimento de Wall Street.

Ele foi enviado a Jeddah em 1974, onde negociaram um acordo dizendo que os EUA protegeriam a monarquia saudita e, em troca, a Arábia Saudita venderia todo o seu petróleo em dólares, mantendo a procura global pelo dólar americano.

Isso aconteceu um ano após o embargo petrolífero da OPEP, em que os países do Sul Global mostraram que podiam usar o seu controlo sobre o petróleo como uma ferramenta geopolítica para punir os EUA e o Ocidente pelo seu apoio a Israel.

Então, quero dizer, toda essa história ainda é muito relevante hoje.

Agora, o Irão está a desafiar diretamente esse sistema do petrodólar. O Irão está a vender o seu petróleo à China em yuan chinês, o renminbi. [NR]

O Irão também está a negociar com a Índia, vendendo o seu petróleo, e está a usar a sua moeda, o rial. A Índia também está a usar a sua moeda, a rupia, e está essencialmente a trocar os seus produtos agrícolas pelo petróleo iraniano.

Pode falar sobre este sistema do petrodólar e porque é que o Irão é visto como um grande desafio a este sistema? Na verdade, isso significa um desafio direto ao domínio global do próprio dólar americano.

MICHAEL HUDSON: Bem, mencionei que o objetivo original dos Estados Unidos era controlar o petróleo do Próximo Oriente.

Sete irmãs.

Eu era economista de balança de pagamentos do Chase Manhattan Bank e fiz um estudo completo em nome da indústria petrolífera dos EUA para calcular os retornos da balança de pagamentos e a média de dólares gastos pelas Sete Irmãs, as grandes empresas petrolíferas.

A média de dólares investidos na Arábia Saudita, no Kuwait e noutros países árabes era recuperada em apenas 18 meses.

O petróleo era o investimento mais lucrativo de toda a economia dos EUA e era isento de impostos.

Agora, o plano original dos EUA no Oriente Próximo, como mencionei, era ter petróleo. Então veio a guerra do petróleo — e foi mais do que uma guerra do petróleo — em 1974, depois que Israel travou a guerra de 1973 e os Estados Unidos quadruplicaram os preços dos cereais.

Bem, mencionaste Bill Simon [secretário do Tesouro de Nixon]. Herman Kahn e eu fomos encontrar-nos com Bill Simon em 1974, para discutir qual deveria ser a estratégia dos Estados Unidos com as empresas petrolíferas.

Simon disse: «Nós explicámos-lhes que podem cobrar o que quiserem pelo petróleo. Podem quadruplicar os preços».

Na verdade, isso deixou a Standard Oil of New Jersey, a Socony [posteriormente Mobil] e as outras empresas petrolíferas americanas muito felizes, porque, como você apontou, os Estados Unidos eram eles próprios um grande produtor de petróleo.

Quando os países da OPEP quadruplicaram o preço do petróleo, isso tornou as empresas petrolíferas americanas imensamente lucrativas com a sua produção de petróleo e a do Canadá.

Então, Bill Simon disse-me que lhes explicou que podiam cobrar o que quisessem pelo petróleo; quadruplicar estava tudo bem.

Mas o acordo era que eles tinham de manter todas as suas economias provenientes do que ganhavam com este petróleo — não vou chamar-lhe lucro, porque é realmente renda de recursos naturais — tinham de manter as suas rendas na economia dos Estados Unidos.

O acordo era que a Arábia Saudita e outros países exportariam o seu petróleo por dólares; eles não retirariam esses dólares dos Estados Unidos.

Eles deixariam os dólares que recebiam dos países europeus, de outros países que compravam o seu petróleo; eles investiriam principalmente em títulos do Tesouro dos EUA e também poderiam comprar ações e obrigações dos EUA.

Mas não podiam fazer o que os Estados Unidos faziam com as suas divisas estrangeiras europeias, por exemplo. Os países da OPEP não podiam comprar o controlo de nenhuma grande empresa americana.

Podiam comprar ações e obrigações, mas tinham de diversificar o investimento no mercado de ações, por todo o mercado. Por isso, penso que o rei da Arábia Saudita comprou mil milhões de dólares de todas as ações do Dow Jones Industrial Average, para espalhar tudo.

Mas a maior parte do seu dinheiro foi mantida em segurança em títulos do Tesouro dos EUA.

Portanto, essencialmente, as receitas da OPEP — não direi ganhos, porque, mais uma vez, não eram realmente ganhos; são rendimentos não auferidos — as receitas da OPEP provenientes das vendas de petróleo acabaram todas nos Estados Unidos, a maior parte emprestada ao governo dos Estados Unidos.

Bem, essa entrada de dólares foi o que permitiu aos Estados Unidos fazer duas coisas.

Primeiro, como entrada na balança de pagamentos, permitiu aos Estados Unidos continuarem a gastar o seu orçamento militar no estrangeiro, a fim de ter o poder militar por trás do seu império económico.

Mas também financiou o défice orçamental interno. Os bancos centrais estrangeiros estavam a financiar em grande parte o défice orçamental interno dos Estados Unidos, através da sua detenção de títulos do Tesouro americano.

Assim, os países da OPEP tornaram-se essencialmente partes cativas do sistema financeiro americano, o que descrevi no meu livro Super Imperialism.

Então, eu me reuni com o pessoal do Tesouro, basicamente explicando o que havia escrito em Super Imperialism, sobre como acabar com a prática de outros países de manter as suas reservas monetárias internacionais em ouro, mas mantê-las em empréstimos ao Tesouro dos EUA na forma de compra de títulos do Tesouro como veículo para as suas poupanças, o que essencialmente centralizou as poupanças de todo o mundo, as poupanças monetárias, em Washington e Nova Iorque.

Esse controlo do que começou como controlo do comércio de petróleo, para transformar o comércio de petróleo numa arma, tornou-se controlo do sistema financeiro internacional, com os excedentes do dólar a serem lançados pelo comércio de petróleo.

Então, tinha-se essa simbiose entre o sistema comercial e o sistema financeiro como base para a política militar americana, e o que eu chamei de superimperialismo.

Superimperialismo

BEN NORTON: Sim, e o que descreveu há mais de 50 anos de forma tão brilhante como o sistema de superimperialismo, o que vemos hoje é que o Irão e outros países do BRICS estão a desafiar esse sistema.

Estão a desafiar o privilégio exorbitante do dólar americano e a tentar encontrar alternativas.

Talvez possa falar mais sobre este movimento global de desdolarização e como o Irão desempenha um papel central nisso. E essa é uma das razões, claro, pela qual é um alvo dos EUA.

MICHAEL HUDSON: Bem, o Irão realmente não era central nisso, porque os Estados Unidos conseguiram isolar o Irão.

Assim que o xá foi derrubado, os Estados Unidos jogaram uma cartada suja contra o Irão — foi o Chase Manhattan Bank que fez isso.

O Irão tinha uma dívida externa — como todos os países têm, por emitirem títulos estrangeiros — e enviou os dólares para o Chase Manhattan Bank, a fim de pagar os dividendos aos detentores dos títulos.

O Tesouro foi até David Rockefeller e disse-lhe:   «Não envie este dinheiro iraniano. Guarde-o aí». E assim o Irão foi considerado em incumprimento (default), e toda a dívida externa venceu, a seguir os Estados Unidos apreenderam, confiscaram os recursos económicos e financeiros iranianos nos Estados Unidos.

Mais tarde, negociaram a devolução, porque tudo isso era ilegal segundo o direito internacional, mas isso nunca impediu os Estados Unidos, como agora se vê.

Depois de o xá ter sido derrubado, os Estados Unidos disseram:   “Temos que desestabilizar o novo governo iraniano e, se confiscarmos as suas reservas estrangeiras, isso o paralisará e causará o caos, é assim que governamos o mundo, causando o caos”.

Isso é a única coisa que os Estados Unidos têm a oferecer aos outros países no mundo de hoje. Não podem oferecer-lhes exportações. Não podem oferecer-lhes estabilidade monetária.

A única coisa que a América tem para oferecer ao mundo é abster-se de destruir a sua economia e causar caos económico, como Trump ameaçou fazer com as suas tarifas e com qualquer país que tente criar uma alternativa ao dólar.

Daí este almoço grátis, em que outros países podem ganhar dólares, mas têm de os emprestar novamente aos Estados Unidos.

E os Estados Unidos, como seu banqueiro, têm de ficar com tudo, e o banqueiro pode simplesmente decidir a quem pagar e a quem não pagar. É um gangster. Tem sido chamado de Estado gangster, exatamente por estas razões. E outros países têm medo do que os Estados Unidos possam fazer, não só sob Donald Trump, mas do que têm feito nos últimos 50 anos.

Está simplesmente a confiscar, a desestabilizar e a derrubar.

Os Estados Unidos basicamente declararam guerra a qualquer tentativa de criar um sistema internacional de comércio e investimento que não seja controlado pelos Estados Unidos, em seu próprio interesse, querendo todos os lucros, todas as receitas, não apenas parte delas. É um império ganancioso.

Sanções e guerra económica

BEN NORTON: Sim, e o que você está a dizer, Michael, é um ponto muito importante, porque essencialmente o que isso mostra é que essas táticas que os EUA têm abusado cada vez mais nas últimas décadas não são totalmente novas.

Hoje, um terço de todos os países do mundo estão sob sanções dos EUA, que são unilaterais e ilegais segundo o direito internacional.

Mas, claro, o Irão foi um dos primeiros países a ser sancionado, após a sua revolução em 1979.

E sabemos que em 2022 os EUA e a UE confiscaram 300 mil milhões de dólares e euros em ativos russos, o que foi um grande alerta para o mundo.

Mas, na verdade, o Irão foi o primeiro caso-teste. Foram os EUA que apreenderam primeiro os ativos do Irão, depois apreenderam os ativos da Venezuela, depois os do Afeganistão e agora os da Rússia.

Portanto, o Irão foi sempre o primeiro país a ser alvo destas táticas agressivas, e agora elas tornaram-se tão comuns que assistimos a uma espécie de rebelião global contra este sistema, mesmo por parte de aliados de longa data dos EUA. Como, por exemplo, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, que historicamente têm sido Estados clientes dos EUA, mas que vêem o que aconteceu à Rússia, ao Irão e à Venezuela e estão preocupados que possam ser os próximos.

MICHAEL HUDSON: Bem, é exatamente isso que está a moldar a política da Arábia Saudita e dos árabes na região.

Obviamente, os árabes não gostam do que Israel está a fazer em Gaza. Não gostam da limpeza étnica e da limpeza étnica da Cisjordânia, nem de todo o ataque aos palestinos e outras populações árabes.

Mas têm medo de agir em nome do Irão. Podem ser muito solidários com ele. As populações destes países são muito contra a violência que Israel está a exercer contra os Estados árabes, mas os líderes destes países têm um problema: todas as poupanças que a Arábia Saudita acumulou nos últimos 50 anos estão retidas como reféns no Tesouro dos EUA e nos bancos dos EUA.

E os bancos dos EUA, essencialmente, são braços do Tesouro. Acima de tudo, o Chase Manhattan era um banco designado para agir em nome do Tesouro. O Citibank era mais independente disso.

Por isso, não se ouve um pio da Arábia Saudita e dos países vizinhos produtores de petróleo, porque têm medo. Eles percebem que estão numa posição muito delicada.

Todo esse dinheiro que o fundo soberano que eles acumularam para financiar o seu próprio desenvolvimento futuro — se é que se pode chamar o que eles estão a fazer de desenvolvimento —, mas os seus planos para o futuro estão reféns e eles foram neutralizados politicamente, devido a essa exposição ao dólar americano.

Bem, pode imaginar que outros países percebem o que está a acontecer, e os países asiáticos, os países do Sul Global e até mesmo países europeus como a Alemanha e a Itália dizem:   «Não queremos ficar presos na mesma armadilha em que os países árabes estão presos, onde não só as nossas poupanças, títulos do Tesouro, ações e obrigações dos EUA e os nossos investimentos nos Estados Unidos estão reféns; o nosso ouro está a ser mantido lá!»

Haveres em ouro nas reservas oficiais de ativos.

E o mundo inteiro está agora a avançar para o ouro. Eles têm medo de manter dólares. As reservas em dólares dos bancos centrais estrangeiros têm-se mantido estáveis, enquanto as reservas em ouro têm vindo a aumentar.

E muitas reservas oficiais de ouro estrangeiras não são registadas nos livros. O governo mantém ações numa empresa que detém ouro. É possível ocultar o que estão a fazer, para que não seja muito evidente que estão a desvalorizar o dólar.

Há uma espécie de dança Kabuki a decorrer nas estatísticas financeiras, bem como no lançamento de bombas sobre países.

O complexo militar-industrial

BEN NORTON: Michael, quero falar sobre o complexo militar-industrial, porque outro ponto que você levantou neste artigo, que é muito importante e muitas vezes é deixado de fora, é como os empreiteiros (contractors) militares dos EUA lucram com essas guerras — como vimos no que agora chamam de Guerra dos 12 Dias, entre os EUA/Israel e o Irão.

Você salientou que o Irão estava a usar principalmente os seus mísseis mais antigos. Estava a esvaziar o seu arsenal de mísseis antigos para atingir Israel e a tentar sobrecarregar o sistema de defesa aérea israelense.

Agora, sabemos que os empreiteiros militares dos EUA se gabaram do equipamento militar avançado que os EUA forneceram a Israel, como o Iron Dome, o sistema David's Sling e o sistema Arrow.

Alcance de mísseis.

As empresas americanas beneficiaram ao ajudar a projetar esses sistemas e ao fornecer os mísseis e os interceptores. Portanto, Israel gastou muitos milhões de dólares a tentar abater esses mísseis iranianos antigos que o Irão queria eliminar de qualquer maneira.

Se a guerra tivesse continuado, teria obviamente consumido cada vez mais recursos de Israel e dos EUA. Mas, como você aponta, isso é algo que beneficia o complexo militar-industrial dos EUA, porque o que os EUA chamam de “ajuda” que dão a muitos países não é realmente ajuda; são contratos concedidos a empreiteiros privados dos EUA, que depois fornecem esse equipamento militar a Israel, ao Egito, ao Japão, à Coreia do Sul e a outros países.

Pode falar mais sobre o papel do complexo militar-industrial e como ele lucrou com tudo isso?

MICHAEL HUDSON: Bem, essa é a chave do debate que está ocorrendo no Congresso sobre a lei tributária republicana. A enorme quantidade de dinheiro que é gasta no complexo militar-industrial, cujas armas basicamente não funcionam.

Vimos na Ucrânia a incapacidade dos países da OTAN de se defenderem contra os mísseis russos.

Vimos em Israel que o Iron Dome é facilmente penetrado pelo Irão.

E o Irão, já há vários meses, demonstrou isso quando enviou dois conjuntos de foguetes. Avisou Israel: «Não queremos entrar em guerra. Não queremos magoar ninguém, mas só queremos mostrar que podemos bombardear-vos quando quisermos, por isso vamos lançar uma bomba neste local específico; tirem toda a gente de lá; só vamos mostrar que funciona. Tentem abater-nos».

E eles lançaram-na. Fizeram o mesmo com os Estados Unidos, no Iraque, dizendo:   «Sabem, não queremos realmente entrar em guerra convosco no Iraque. Perdemos um milhão de iranianos a lutar contra os iraquianos, quando vocês colocaram Saddam Hussein contra nós antes [na Guerra Irão-Iraque na década de 1980], mas devem saber que podemos destruir as vossas bases americanas sempre que quisermos.

Vamos dar-vos uma demonstração. Aqui está uma base que não é muito povoada. Vamos bombardeá-la, por isso tirem toda a gente de lá; não queremos que ninguém se magoe. Vamos bombardeá-los nesta data. Façam tudo o que puderem para nos abater». E bombardearam-na. A América não conseguiu abatê-los.

Bem, o Iron Dome obviamente não funciona, nem a defesa militar americana.

Bem, o presidente Trump acabou de anunciar: “Vamos aumentar consideravelmente o défice orçamental dos EUA criando um Iron Dome nos Estados Unidos por US$1 milhão de milhões (trillion)”.

Bem, imagine gastar um milhão de milhões de dólares replicando o sistema que o Irão e a Rússia mostram que podem penetrar imediatamente.

BEN NORTON: Michael, isso se chama Golden Dome. E as empresas de Elon Musk, como a SpaceX, estão prestes a obter contratos governamentais gigantescos. Estima-se que centenas de milhares de milhões de dólares serão gastos para construir este Golden Dome que nem sequer vai funcionar.

MICHAEL HUDSON: Claro, para Trump, tudo é ouro, não ferro — eu devia ter percebido isso — tal como as maçanetas das suas Trump Towers, claro.

Então, estamos a assistir a esta fantasia.

O que o complexo militar-industrial fabrica não são armas para serem realmente usadas na guerra. São armas para serem comercializadas ou vendidas.

E, como você apontou, além da enorme quantidade de gastos diretos do Congresso na compra de armas para o Exército, a Marinha e os Fuzileiros Navais dos EUA, para as forças armadas, os Estados Unidos concedem ajuda externa à Coreia do Sul, ao Japão e a outros países, e essa ajuda externa é gasta na compra de armas militares americanas.

Isso não está incluído no orçamento militar americano, mas, na prática, está a financiar o complexo militar-industrial pelas portas das traseiras, dando dinheiro aos aliados dos Estados Unidos para comprar armas americanas, que também não funcionam.

Bem, deve estar a perguntar-se o que estes aliados estão a pensar agora, especialmente na Europa, é quase embaraçoso ver a NATO recusar-se a reconhecer o facto de que as armas americanas que pretende comprar e as armas europeias que fabricou simplesmente não são capazes de se defender contra as armas russas e iranianas.

A tecnologia americana está atrasada porque as empresas do complexo militar-industrial pegaram todo esse dinheiro enorme que receberam, os lucros que obtiveram, e pagaram dividendos e compraram as suas próprias ações.

Não gastaram em pesquisa e desenvolvimento. 92% de cada dólar que recebem é reciclado para sustentar os preços das suas ações, não para realmente fabricar armas.

Assim, ao financeirizar o seu sistema militar, juntamente com a economia industrial como um todo, os Estados Unidos essencialmente desindustrializaram-se e quase se pode dizer que se desarmaram contra o resto do mundo, que realmente gasta o seu dinheiro militar em armas que funcionam, armas que se destinam a funcionar, não simplesmente para obter lucros, para aumentar os preços das ações das empresas militares-industriais.

BEN NORTON: Sim, acho que essa é realmente uma ótima observação para encerrar. Poderíamos continuar por mais uma hora, mas devemos deixar isso para outra ocasião. Michael, há algo que gostaria de recomendar para as pessoas que querem saber mais sobre o seu trabalho?

MICHAEL HUDSON: Bem, tenho o meu site, Michael-Hudson.com, e todos os meus artigos estão no site, incluindo o que Ben acabou de mencionar. Assim, podem ver os meus comentários contínuos sobre tudo isto. E o meu livro Super Imperialism explicou toda a dinâmica que se desenrola em torno disto.

BEN NORTON: Como sempre, Michael, foi um verdadeiro prazer. Obrigado por se juntar a nós hoje e falaremos novamente em breve.

MICHAEL HUDSON: Bem, foi uma discussão oportuna. Obrigado por me receberem.

[NR] Renminbi (RMB) é a divisa oficial da República Popular da China (significa "divisa do povo" em mandarim). Yuan (CNY) é a unidade da divisa. Uma analogia para melhor entender: esterlino (sterling) é a divisa oficial da Grã-Bretanha e a libra (pound) é a unidade básica do esterlino.

01/Julho/2025

Ver também:
  • War on Iran is fight for US unipolar control of world. (A guerra contra o Irão é uma luta pelo controlo unipolar do mundo pelos EUA), artigo de Michael Hudson.
  • Em

    RESISTIR.INFO

    https://resistir.info/m_hudson/guerra_01jul25.html

    9/7/2025

     

    quinta-feira, 3 de julho de 2025

    Independência do Brasil - Bahia

     

    Independência é nós contra eles

    A virada marca uma inflexão política e narrativa do governo, que passa a investir no conflito como motor de mobilização

    Lula e apoiadores durante a Caminhada do Dois de Julho em Salvador, Bahia - 02/07/2025
    Por Sara Goes e Reynaldo Aragon - Ao anunciar que o Dia da Independência passará a ser celebrado também em 2 de Julho, data da expulsão definitiva dos portugueses da Bahia em 1823, o presidente Lula reescreveu com os pés no chão da história o que foi sequestrado pela memória oficial. A verdadeira independência foi conquistada com sangue negro, indígena e popular. Não foi um ato isolado de um príncipe às margens do Ipiranga, mas uma guerra popular que partiu do povo e enfrentou as elites coloniais. Foi arrancada à força, com coragem e sacrifício.

    Ao lado de figuras como Maria Felipa, Bárbara de Alencar, Quitéria e Jovita Feitosa, Lula se colocou como herdeiro de uma tradição de resistência marginalizada pela elite brasileira. E não é coincidência que esse gesto tenha ocorrido no mesmo momento em que essa elite tenta reduzi-lo ao papel de refém institucional, por meio da sabotagem aberta no Congresso Nacional. A derrubada do decreto que aumentava o IOF sobre investimentos no exterior foi apenas o estopim. O que está em jogo é quem governa o país: o presidente eleito nas urnas ou uma casta legislativa blindada pela mídia e protegida pelo mercado.


    Nesta semana, o governo Lula reativou com força a retórica do "nós contra eles", transformando a disputa sobre a taxação dos super-ricos em uma batalha simbólica entre o povo e a elite financeira. A rejeição do decreto do IOF pelo Congresso serviu de gatilho: o Planalto reagiu com uma ofensiva comunicacional centrada na justiça tributária, com Lula posando com cartaz pedindo a taxação dos super-ricos e aliados espalhando a mensagem nas redes sociais. A narrativa passou a dividir o país entre os 99% que pagam impostos e o 1% que é protegido pelo Legislativo.

    A campanha, que inclui ataques indiretos a bilionários, banqueiros e plataformas de apostas, mobilizou ministros, parlamentares governistas e influenciadores ligados ao PT. A estratégia provocou resposta do presidente da Câmara, Hugo Motta, que acusou o governo de governar contra todos ao adotar o discurso do confronto. Mas Lula dobrou a aposta, classificou como "absurdo" o veto ao decreto e anunciou que recorrerá ao STF.

    A virada marca uma inflexão política e narrativa do governo, que passa a investir no conflito como motor de mobilização, diante das sucessivas derrotas no Congresso e do cerco imposto pela aliança entre Centrão, mídia tradicional e mercado. A tática pode tensionar ainda mais as relações institucionais, mas recoloca o povo como sujeito político em uma arena onde até então só se viam bastidores e barganhas.

    A resposta de Lula foi proporcional ao tamanho do ataque. Em vez de recuar, denunciou. Em vez de negociar nos bastidores, levou a disputa à opinião pública. O governo decidiu travar, enfim, a guerra da comunicação, e o fez com coragem rara. No mesmo ciclo de embates, Fernando Haddad, normalmente avesso ao confronto, rompeu o protocolo e se levantou publicamente para defender Lula dos ataques vindos do bolsonarismo e do mercado. "Ele é muito diferente do senhor", disse, com a voz embargada, dirigindo-se ao ex-presidente, após o fiasco do ato da Paulista.

    Lula, por sua vez, com o chapéu panamá que virou sua armadura desde que se feriu no banheiro de casa, encarnou o líder que não aceita ser tutelado. No lançamento do Plano Safra Empresarial, sua fala foi marcada por um tom grave, quase amargo, como quem sabe que precisa mais do povo do que do Congresso. "Quem está ajudando esse país são os pobres", disse, emocionado. "Não são os ricos que sustentam essa nação."

    A campanha pela taxação dos Bilionários, dos Bancos e das Bets (Há um B mudo aqui chamado Big Techs), a chamada "Taxação BBB", ganhou corpo no campo progressista com o apoio do governo, que compreende que essa disputa não é apenas orçamentária, mas simbólica. O que está em jogo é a soberania do voto popular frente a um parlamentarismo informal e plutocrático. Ao transformar o 2 de Julho em feriado nacional, Lula não apenas corrige uma omissão histórica. Ele deixa claro: a independência precisa ser reconquistada todos os dias.

    E essa reconquista começa por nomear o inimigo. Por dizer, sem hesitação: o Centrão não representa o povo. O mercado não pode vetar o projeto de país aprovado nas urnas. A elite legislativa que protege os super-ricos é a mesma que apaga Maria Felipa dos livros de história.

    Neste 2 de Julho, Lula não apenas homenageou os heróis populares. Ele se colocou ao lado deles. E como em 1823, a pergunta é a mesma: vamos deixar que nos roubem de novo o Brasil?

    * Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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    3/7/2025