segunda-feira, 13 de abril de 2026

A morte de Bebianno e a técnica do assassinato sem rastro

 

 

Ex-lutador de jiu-jitsu, Bebianno era conhecido por seus hábitos
saudáveis — não bebia nem fumava — e por seu histórico de boa saúde.


O Código 12 foi usado pela ditadura para vigilância e eliminação
disfarçada de opositores, com técnicas francesas e americanas.
Plano “Punhal Verde e Amarelo” visava assassinato de Lula, Alckmin e
Moraes em 2022, com presos ligados ao Exército e Polícia Federal.
Mortes suspeitas de figuras como Bebianno e Adriano da Nóbrega levantam
dúvidas sobre execuções e queima de arquivo no Brasil recente.


      Esse resumo foi útil?


          Resumo gerado por Inteligência artificial

*Peça 1 – os métodos dos porões*


    Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do
    Brasil e do Mundo


 

A falta de uma justiça de transição deu sobrevida ao que de pior a
ditadura gerou: os assassinos dos porões. Uma de suas especialidades era
a de liquidar adversários com uma técnica de disfarce do assassinato.

O *Código 12* foi a designação utilizada pelo regime militar brasileiro
(1964–1985) dentro do sistema de informações e repressão política.


Era um *código de classificação de prioridade de vigilância* usado pelos
órgãos de segurança do Estado — especialmente o SNI (Serviço Nacional de
Informações), o DOPS e o DOI-CODI — para catalogar e monitorar
indivíduos considerados “subversivos” ou ameaças ao regime.

O código indicava que a pessoa era alvo de *atenção especial e
permanente* dos aparatos de repressão.

O sistema de fichas e códigos era parte da *doutrina de segurança
nacional*, importada em grande medida da Escola Superior de Guerra e
influenciada pela Escola das Américas (EUA). Cada órgão repressor
mantinha arquivos cruzados sobre militantes, jornalistas, religiosos,
artistas e qualquer pessoa suspeita de oposição ao regime.

Os repressores brasileiros foram formados por duas escolas.

*A Escola das Américas*

A Escola das Américas foi fundada em 1946 no Panamá. Dedicava-se a
desenvolver métodos de contrainformação, interrogatórios com torturas,
execução sumária, guerra psicológica, inteligência militar. Oficiais e
soldados de países latino-americanos eram ensinados a subverter a
verdade, silenciar sindicalistas, militantes do clero e jornalistas.

A estrutura intelectual americana veio da *National War College* de
Washington, que serviu de modelo direto para a criação da *Escola
Superior de Guerra* (ESG) brasileira — onde se formulou a Doutrina de
Segurança Nacional que depois virou lei em 1968.

*A escola francesa*

Foi desenvolvida na guerra da Argélia. O cérebro foi o coronel Roger
Trinquier, maior ideólogo francês de guerra suja, cujo argumento central
era que “a tortura é um elemento importante na guerra moderna
contrarrevolucionária”. 

Os historiadores que estabeleceram os nexos entre as práticas aplicadas
durante esses conflitos e as que se viram depois na Argentina, Uruguai,
Chile e Brasil chegam a uma conclusão clara: o aperfeiçoamento do choque
elétrico, a radiografia das agendas dos detidos, os sequestros em plena
noite, a tortura sistemática, a guerra psicológica, os desaparecimentos,
o uso de arquivos e os voos da morte são técnicas transmitidas pelos
oficiais franceses.

A técnica do assassinato sem deixar pistas foi importada diretamente da
Guerra da Argélia (1954–1962), onde foi sistematizada pelo general
francês *Paul Aussaresses* e teorizada pelo coronel *Roger Trinquier*.  

Aussaresses esteve no Brasil em 1973, a convite da ditadura, como adido
militar à embaixada da França. Um de seus amigos mais íntimos era o
então coronel João Batista Figueiredo, do SNI. O general francês também
conviveu com o delegado Sérgio Fleury. E deu aulas de tortura e
desaparecimento de opositores políticos em Brasília, Manaus e outros
lugares.

O Destacamento de Operações Internas (DOI) do Brasil remonta ao /
Détachement Opérationnel de Protection/ (DOP) de criação francesa.

O pesquisador Rodrigo Nabuco de Araújo, autor de /Diplomatas de Farda/,
conclui que “a doutrina da guerra revolucionária foi um elemento-chave
para preparar a organização e a estruturação dos serviços de informação
brasileiros, que foram calcados nos serviços de informações franceses
durante a Guerra da Argélia”. Os militares do 2º Exército em São Paulo
se inspiraram amplamente nas sessões administrativas especiais da guerra
colonial francesa para estruturar a Operação Bandeirantes.

Os receptores brasileiros foram General João Figueiredo e delegado
Sérgio Fleury, que aplicaram as teses no DOI-CODI e no esquadrão da morte.

*Peça 2 – as mortes suspeitas*

Há um conjunto de mortes, no mesmo espaço de tempo, dadas como acidentes
ou doenças. Com o tempo, apurou-se que em algumas delas ocorreu
assassinato comprovado. Outras ainda estão sob investigação.

* Morte de Zuzu Angel em acidente de carro. A estilista Zuzu tornou-se a
maior ativista brasileira contra a ditadura.

* Morte de JK, em acidente de carro.

* Morte de Carlos Lacerda, de infarto agudo.

* Morte de João Goulart, de infarto agudo. Nos dois casos, há suspeitas
da troca de remédios.

* Atentado no Riocentro: a intenção era promover o atentado e atribuir
às forças de esquerda.

* Assassinato de Vladimir Herzog, passando por suicídio.

*Peça 3 – o Código 12 em 8 de janeiro*

A técnica foi mantida ao longo das décadas entre o fim do regime militar
e o golpe de 8 de janeiro.

A Polícia Federal revelou um plano denominado “Punhal Verde e Amarelo”,
elaborado com nível técnico militar detalhado, cujo objetivo era
assassinar o presidente eleito Lula, o vice-presidente eleito Alckmin e
o ministro Alexandre de Moraes. A data fixada para a execução era 15 de
dezembro de 2022 — três dias após a diplomação de Lula no TSE e antes da
posse.

Os alvos eram identificados por codinomes: Lula era “Jeca”, Alckmin era
“Joca” e Moraes era “Professora”.

O documento com o planejamento operacional foi elaborado pelo general
Mário Fernandes e impresso no Palácio do Planalto em 9 de novembro de
2022 — quando Bolsonaro ainda residia no Palácio da Alvorada, para onde
o material foi levado. Uma segunda impressão foi feita no Planalto em 6
de dezembro de 2022.

Em 3 de dezembro de 2022, foram habilitados chips telefônicos utilizados
na ação criminosa “Copa 2022”, em nomes de terceiros, em uma Lojas
Americanas de Uberlândia. O grupo se comunicava via Signal com codinomes
para dificultar o rastreamento.

*Os métodos planejados*

*Para Lula — envenenamento*

Para a execução do presidente Lula, o plano considerava, “dada sua
vulnerabilidade de saúde e ida frequente a hospitais, a possibilidade de
utilização de envenenamento ou uso de químicos para causar um colapso
orgânico”. O método planejado para Lula  é tecnicamente idêntico ao que
laudos periciais argentinos identificaram no caso de Jango em 1976, e ao
que foi ensinado pelos instrutores franceses como técnica de eliminação
“sem rastros”.

*Para Moraes — arsenal de guerra*

O documento especificava o armamento a ser utilizado na captura e
execução de Moraes: uma metralhadora, quatro fuzis, quatro pistolas e um
lança-granada. Também foram consideradas outras condições para o
assassinato, como uso de artefato explosivo ou envenenamento.

*Os presos e a cadeia de comando*

Foram presos quatro integrantes dos “kids pretos” — elite de combate do
Exército treinada para operações sigilosas e ambientes politicamente
sensíveis — e um policial federal: o general de brigada da reserva Mário
Fernandes, o tenente-coronel Hélio Ferreira Lima, o major Rafael Martins
de Oliveira, o major Rodrigo Bezerra Azevedo e o policial federal
Wladimir Matos Soares.

Investigações apontam que reuniões estratégicas ocorreram na casa do
general Braga Netto, ex-ministro e aliado de Bolsonaro. Participaram
dessas reuniões Mauro Cid e outros militares. A liderança do grupo seria
atribuída aos generais Braga Netto e Augusto Heleno, que coordenariam um
“Gabinete de Crise” para gerenciar o país após a execução do golpe.

*Peça 4 – as mortes inexplicadas*

A partir desse histórico, há a necessidade de uma releitura de algumas
mortes do período.

*Gustavo Bebbiano*

*Gustavo Bebianno* foi o primeiro ministro de Bolsonaro (Secretaria-
Geral da Presidência) e um dos principais articuladores da campanha de
2018. Foi demitido dois meses após a posse, tornando-se um crítico
aberto do governo.

Bebianno morreu na madrugada de 14 de março de 2020, vítima de infarto
fulminante, quando estava em seu sítio em Teresópolis (RJ), acompanhado
do filho e do caseiro. Foi levado ao hospital, mas não resistiu. Tinha
56 anos. 

Ex-lutador de jiu-jitsu, Bebianno era conhecido por seus hábitos
saudáveis — não bebia nem fumava — e por seu histórico de boa saúde.
Dias antes de morrer, planejava concorrer à Prefeitura do Rio pelo PSDB
nas eleições de 2020. 

Em dezembro de 2019, disse que se sentia ameaçado: “O presidente Jair
Bolsonaro é uma pessoa que tem muitos laços com policiais no Rio de
Janeiro. Policiais bons e ruins. Me sinto, sim, vulnerável e sob risco
constante.” 

No programa Roda Viva, 11 dias antes de morrer, Bebianno revelou o plano
de Carlos Bolsonaro de montar uma “Abin paralela”. 

*Em síntese:* um homem saudável, que dizia temer pela própria vida, que
guardava material comprometedor e morreu dias depois de sua última
aparição pública. A causa oficial é infarto, sem indício forense de
crime. O caso permanece, na prática, sem resposta definitiva.

*Adriano da Nóbrega*

Segundo Paulo Emílio Catta Preta, advogado do miliciano, em 5 de
fevereiro de 2020 — quatro dias antes de ser morto — Adriano lhe
telefonou para relatar “medo de um plano de queima de arquivo” e alegou
que “queriam matá-lo, não prendê-lo”.

O advogado declarou: “Ele me ligou e disse que não adiantaria se
entregar porque ninguém queria a sua prisão, mas sim a sua morte.”

No domingo 2 de fevereiro de 2020, uma semana antes da operação que
resultou em sua morte, a esposa Júlia Mello Lotufo declarou à revista
Veja que ele seria assassinado: “Meu marido foi envolvido numa
conspiração armada pelo governador do Rio, Wilson Witzel, que queria
matar o Adriano como queima de arquivo.”

Conversas telefônicas grampeadas pela Polícia Civil, no âmbito da
Operação Gárgula do MP do Rio, revelaram que parentes de Adriano também
temiam queima de arquivo. Numa das conversas, uma irmã elogia a postura
de Bolsonaro no caso e diz que a morte de Adriano teria sido ordenada
pelo governador Witzel.

Adriano era o elo central de uma rede que conectava crime organizado e
poder político:

*Caso Marielle* — era apontado pelo MP como chefe do “Escritório do
Crime”, organização de onde partiu o assassinato da vereadora. Ronnie
Lessa, condenado pelo crime, era subordinado da mesma estrutura.

*Rachadinha de Flávio Bolsonaro* — segundo o MP do Rio, Flávio Bolsonaro
financiou e lucrou com construções ilegais erguidas pela milícia com
dinheiro de rachadinha. Contas bancárias controladas por Adriano foram
usadas para abastecer Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio.

*Conexão direta com a família* — a mãe e a esposa de Adriano trabalharam
no gabinete de Flávio até novembro de 2018, quando a investigação
estourou. Queiroz admitiu que as demitiu justamente para evitar a
ligação pública.

A operação teve início no dia 8 de fevereiro com cerca de 70 homens, mas
foi finalizada no dia seguinte com a participação de somente 3 homens,
destacados para enfrentar o ex-capitão — conhecido atirador de elite.

*Os laudos contradizem a versão policial*

Com base nas fotos post-mortem e no laudo de necrópsia, especialistas
concluíram que os tiros que atingiram Adriano foram disparados à
curtíssima distância. As fotos revelam um ferimento na cabeça logo
abaixo do queixo que pode ter sido um tiro dado quando ele já estava caído.

Um especialista em medicina legal, sob anonimato, apontou como possível
sinal de execução o disparo na lateral do corpo, provavelmente feito
quando ele estava com os braços erguidos, em sinal de rendição. Uma
queimadura no lado esquerdo do peito indica que o cano de uma arma de
grosso calibre foi encostado no local — e havia reação vital ao redor,
indicando que Adriano ainda estava vivo nesse momento.

Um laudo posterior revelou que Adriano foi atingido por uma bala quando
estava deitado — informação que contradiz diretamente a versão dos três
policiais envolvidos de que teria ocorrido troca de tiros.

Relatórios de inteligência da Polícia Civil do Rio obtidos pelo
Intercept <https://www.cartacapital.com.br/justica/apos-mencao-a-
bolsonaro-mp-suspende-grampo-no-caso-adriano-da-nobrega/> revelaram que
ao menos duas pessoas ligadas a Adriano mencionaram o presidente Jair
Bolsonaro em diálogos grampeados sobre a situação do ex-PM. Após essas
menções, o MP do Rio suspendeu os grampos — sem encaminhar as
informações à PGR, que teria prerrogativa de investigar o presidente.

*Peça 5 – os riscos futuros*

Esta semana houve uma boa celebração nos jornalões, com a informação que
o Datafolha registrara empate técnico entre a candidatura de Lula e cada
um dos candidatos da direita. A rigor, não quer dizer muita coisa, pois
Lula ainda não colocou sua candidatura em campo. Mas a comemoração dos
jornais mostra esse lado terrível da irracionalidade brasileira.

Não se trata de uma disputa civilizada, entre PT e PSDB, como ocorreu em
outras fases da história. Trata-se do risco concreto de colocar no
comando do país uma milícia, com táticas de assassinatos que remontam os
porões da ditadura.

Em
JORNAL GGN
https://jornalggn.com.br/politica/a-morte-de-bebianno-e-a-tecnica-do-assassinato-sem-rastro/
13/4/2026

Nenhum comentário:

Postar um comentário