sábado, 18 de abril de 2026

“Sem reindustrialização, o Brasil é condenado à quase irrelevância”, diz Elias Jabbour

 

  


    Jabbour defende reindustrialização como eixo do projeto nacional e
    afirma que empregos industriais são centrais para enfrentar a falta
    de perspectiva


Elias Jabbour


*247 -* A reindustrialização do Brasil precisa voltar ao centro do
debate político e econômico, na avaliação do professor de economia da
Uerj e analista geopolítico Elias Jabbour. Para ele, a reconstrução da
capacidade industrial do país é o caminho para gerar empregos de
qualidade, recuperar a mobilidade social e enfrentar a falta de
perspectiva que atinge sobretudo os jovens.

Em entrevista ao programa Ponto de Vista, da TV 247, Jabbour afirmou que
o país atravessa uma crise prolongada de esvaziamento produtivo e de
perda de dinamismo econômico. Segundo ele, esse processo impede o Brasil
de oferecer horizontes concretos para a população. “O Brasil empobreceu
muito nos últimos 10 anos, perdeu tração industrial e chegou a uma taxa
de investimento de 16,8% do PIB”, disse. Na sua avaliação, esse quadro
compromete a posição do país nas cadeias globais de valor e bloqueia
avanços mais amplos no desenvolvimento nacional.

Ao concentrar sua análise na estrutura econômica, Jabbour sustenta que a
perda de empregos industriais tem consequências que vão além da
economia. “Ao não oferecer empregos industriais para a sua população, o
Brasil acaba condenando essa população a não ter mobilidade social”,
afirmou. Em seguida, associou esse cenário ao ambiente político e social
do país: “Essa população não tem esperança, e isso acaba se
transformando em um caldo de cultura por onde o fascismo se alimenta”.

Para o professor, a defesa de um projeto nacional não pode permanecer em
nível abstrato. Ele argumenta que a reindustrialização deve funcionar
como eixo organizador de uma estratégia de longo prazo, capaz de
reposicionar o Brasil internacionalmente e, ao mesmo tempo, responder a
demandas internas de emprego e renda. “Um projeto viável para o país é
um projeto que coloque no centro do debate a necessidade de um projeto
nacional de desenvolvimento”, declarou. Na sequência, reforçou o ponto
que considera decisivo: “Nós temos a necessidade de ter como baliza
desse projeto nacional o processo de reindustrialização do Brasil”.

Jabbour também atribui a esse processo uma função social direta. Segundo
ele, a retomada industrial poderia abrir uma nova etapa para milhões de
brasileiros. “Eu chamo de uma cruzada de geração, nos próximos 10, 15,
20 anos, de 10 a 20 milhões de empregos industriais no Brasil”, afirmou.
Para ele, esse movimento permitiria que “as pessoas voltem a ter
esperança, os jovens voltem a ter esperança”, além de recolocar a
mobilidade social como realidade concreta.

Ao abordar os obstáculos para esse caminho, o economista citou o que
considera amarras institucionais que limitam a ação do Estado. Entre
elas, mencionou o arcabouço fiscal, a independência do Banco Central, o
modelo de metas anuais de inflação e o tripé macroeconômico. Em sua
leitura, sem rever essas bases, o país seguirá sem instrumentos para
sustentar uma estratégia de transformação produtiva. “Um país que não
pensa em termos de projeto nacional, que não pensa em termos de
reindustrialização, é um país condenado à quase irrelevância”, afirmou.

A crítica de Jabbour também alcança o campo da esquerda. Ele disse
considerar minoritária a corrente que trata o futuro do Brasil em termos
de projeto nacional e menor ainda a parcela que enxerga a
reindustrialização como elemento central dessa agenda. Por isso,
defendeu uma disputa de orientação política e cultural dentro do próprio
campo progressista. “As correntes nacional-desenvolvimentistas dentro da
esquerda brasileira têm que travar uma luta cultural para que se tornem
a corrente cultural hegemônica”, declarou.

Na entrevista, ele insistiu que a resposta à crise brasileira precisa
partir de uma visão material do país, baseada em investimento, emprego e
soberania produtiva. Sua formulação é que o enfrentamento da extrema
direita não deve se limitar ao plano discursivo, mas se apoiar numa
proposta concreta de reconstrução econômica. “A minha questão central é
enfrentar a extrema direita a partir de uma visão de país que coloque a
soberania nacional, a reindustrialização e a formação de uma nova
maioria política de caráter patriótico e nacionalista como elemento
balizador da minha ação política”, disse.

Ao resumir sua posição, Jabbour voltou ao ponto que atravessou toda a
conversa: sem indústria, o Brasil perde capacidade de se desenvolver, de
integrar sua população ao mercado de trabalho de qualidade e de oferecer
um horizonte coletivo. Em sua síntese, a recuperação da base produtiva
não é um tema setorial, mas uma condição para reorganizar o país. “A
mobilidade social, que é o principal antídoto para enfrentar o fascismo,
tem que se transformar de novo em uma realidade.”

Em
Brasil 247
https://www.brasil247.com/entrevistas/sem-reindustrializacao-o-brasil-e-condenado-a-quase-irrelevancia-diz-elias-jabbour#goog_rewarded
14/4/2026

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