sábado, 16 de agosto de 2014
Tiananmen 20 anos depois. O fracasso da primeira “revolução colorida”
Os Editores
Há umas semanas, a imprensa dominante assinalava novamente o aniversário daquilo
a que chama agora a revolta de Tiananmen. A propaganda atlantista impôs a imagem
de um ‘levantamento popular’ afogado em sangue pela ‘ditadura comunista’. Aquela
que estava destinada a ser a primeira “revolução colorida” da História acabou em
fracasso.
Nestes últimos dias, a grande imprensa de “informação” empenhou-se em recordar o
vigésimo aniversário do “massacre” da praça Tiananmen. As alusões “emocionadas”
àqueles acontecimentos, as entrevistas com os “dissidentes”, os editoriais
“indignados”, assim como os múltiplos artigos que se sucedem e se encontram em
preparação procuram cobrir de perpétua infâmia a República Popular da China e
render solene homenagem à superior civilização do Ocidente liberal.
Mas, o que aconteceu realmente há 20 anos?
Em 2001, foram publicados e posteriormente traduzidos nas principais línguas do
mundo os assim chamados Tiananmen Papers [1] que, segundo as declarações dos
seus curadores, reproduzem relatórios secretos e reservados do processo de
tomada de decisão que resultou na repressão do movimento de contestação. É um
livro que, sempre de acordo com as intenções dos curadores e dos editores,
deveria mostrar a extrema brutalidade de uma direção (comunista) que não hesita
em submergir num banho de sangue um protesto “pacífico”. No entanto, uma leitura
atenta do livro em questão acaba por fazer surgir um quadro bem diferente da
tragédia consumada em Pequim entre maio e junho de 1989.
Vejamos algumas páginas:
“Mais de 500 camiões do exército foram incendiados simultaneamente em dezenas de
cruzamentos […] Na avenida Chang’na, um camião do exército parou devido a um
problema no motor e duzentos revoltosos assaltaram o condutor golpeando-o
mortalmente […] No cruzamento Cuiwei, um camião que transportava seis soldados
abrandou para evitar atingir a multidão. Um grupo de manifestantes começou então
a lançar pedras, cocktails molotov e tochas contra o camião, que em pouco tempo
tombou sobre o lado esquerdo porque um dos dois pneus tinha sido furado pelos
pregos que os revoltosos tinham espalhado. Então, os manifestantes pegaram fogo
a diversos objetos que lançaram contra o veículo fazendo explodir o depósito do
combustível. Todos os seis soldados morreram no meio das chamas” [2].
Os manifestantes não só recorreram à violência, como também utilizaram armas
surpreendentes:
“Levantou-se subitamente um fumo verde amarelado no extremo da ponte. Provinha
de um blindado avariado que provocava agora o bloqueamento da rua […] Os
blindados e tanques que tinham acudido para desimpedir a via não puderam evitar
o engarrafamento na cabeça da ponte. De repente, chegou um jovem que lançou algo
sobre um dos blindados e fugiu. Em questão de segundos, saiu do veículo o mesmo
fumo verde amarelado enquanto os soldados se arrastavam para fora, deitando-se
no chão agarrados à garganta e agonizantes. Alguém disse que tinham inalado gás
tóxico. Mas, os oficiais e os soldados, apesar da raiva sentida, conseguiram
manter o autocontrolo.” [3]
Estes atos de guerra, com repetido recurso a armas proibidas pelas convenções
internacionais, combinam-se com iniciativas que dão ainda mais que pensar, como
a “contrafação da primeira página do Diário do Povo”. [4]
Vejamos agora, do outro lado, as diretivas dirigidas pelos dirigentes do Partido
Comunista e do governo chinês às forças militares encarregadas da repressão:
“Se chegar a acontecer que as tropas sofram pancadas e maus tratos até à morte
por parte das massas obscurantistas, ou se forem atacadas por elementos fora da
lei com barras, pedras ou cocktails molotov, [as tropas] devem manter o controlo
e defender-se sem usar armas. As suas armas de autodefesa serão os bastões e as
tropas não devem abrir fogo contra as massas. As transgressões serão
imediatamente punidas” [5].
Se é verdadeiro o quadro traçado por este livro publicado e promovido no
Ocidente, quem dá provas de prudência e moderação não são os manifestantes, mas
o Exército Popular de Libertação.
Nos dias seguintes, torna-se mais evidente o caráter armado da revolta. Um
dirigente de primeiríssimo plano do Partido Comunista chama a atenção para um
facto particularmente alarmante: “Os revoltosos capturaram alguns blindados e
montaram metralhadoras com o objetivo de se exibir”. Limitar-se-ão à exibição de
ameaças? E contudo as disposições fornecidas ao exército não mudaram
substancialmente: “O comando da Lei Marcial quer tornar claro a todas as
unidades que só em última instância é necessário abrir fogo”. [6]
O próprio episódio do jovem manifestante que bloqueia com o corpo um carro
armado, celebrado no Ocidente como símbolo do heroísmo não-violento em luta
contra uma violência cega e indiscriminada, é visto pelos dirigentes numa
perspetiva muito diferente e oposta, também segundo o citado livro:
“Todos vimos as imagens do jovem que bloqueia o carro armado. O nosso carro
armado cedeu o passo várias vezes, mas ele punha-se sempre ali no meio da
estrada e inclusivamente quando tentou subir para o tanque os soldados
contiveram-se e não dispararam. Isto é muito significativo! Se os militares
tivessem feito fogo, as repercussões teriam sido muito diferentes. Os nossos
soldados seguiram à perfeição as ordens do Partido. É espantoso como conseguiram
manter a calma numa situação como aquela!” [7]
O recurso por parte dos manifestantes a gás asfixiante ou venenoso e sobretudo a
edição pirata do “Diário do Povo” demonstram claramente que os incidentes da
praça Tiananmen não são uma questão exclusivamente interna da China. Outros
pormenores significativos emergem do livro celebrado no Ocidente: “A [rádio
governamental americana] “Voice of America” teve um papel bastante inglório com
a sua maneira de deitar lenha para o fogo”, não parando de “difundir notícias
infundadas e instigando às desordens”. E não é tudo: “Da América, da
Grã-Bretanha e de Hong Kong chegaram mais de um milhão de dólares hong-kong.
Parte dos fundos foi utilizada para a compra de tendas de campanha, alimentos,
computadores, impressoras rápidas e material sofisticado de comunicações” [8].
O que o Ocidente e sobretudo os EUA pretendiam pode ser deduzido de um outro
livro, escrito por dois autores americanos ferozmente anticomunistas. Estes
autores recordam que naquela época Winston Lord, ex-embaixador em Pequim e
conselheiro de primeiro plano do futuro presidente Clinton, não se cansava de
repetir que a queda do regime comunista na China era “uma questão de semanas ou
meses”. Tanto mais fundada parecia esta previsão quanto no vértice do governo e
do Partido se destacava a figura de Zhao Ziyang, o qual, segundo os dois citados
autores americanos, era de considerar “provavelmente o dirigente chinês mais
filo-americano da história recente” [9].
Recentemente, falando para o “Financial Times”, Bao Tong, o ex-secretário de
Zhao Ziyang e atualmente sob prisão domiciliária em Pequim, parece lamentar o
fracassado golpe de estado ao qual aspiravam em 1989 personalidades e círculos
importantes na China e nos EUA, enquanto o “socialismo real” se desmoronava:
“Nem um soldado prestou atenção a Zhao”, os soldados “seguiam os seus oficiais,
os oficiais seguiam os seus generais e os generais seguiam Deng Xiaoping” [10].
Vistos em retrospetiva, os incidentes da praça Tiananmen de há vinte anos
apresentam-se como uma tentativa falhada de golpe de estado e instauração de um
império mundial para desafiar os séculos…
Dentro em pouco, outro vigésimo aniversário vai ter lugar. Em dezembro de 1989,
sem sequer terem sido precedidos por uma declaração de guerra, bombardeiros
americanos descarregavam fogo sobre o Panamá e a sua capital. Conforme demonstra
o trabalho de reconstituição uma vez mais de um autor americano, bairros
densamente povoados foram surpreendidos de noite pelas bombas e incêndios,
perdendo a vida em grande parte “civis, pobres e de pele escura”. Pelo menos 15
mil pessoas ficaram sem teto. De facto, trata-se do “episódio mais sangrento” na
história do pequeno país. [11] É fácil prever que os jornais que tanto empenho
põem em chorar pela praça Tiananmen passaram por cima do aniversário do Panamá,
como de resto tem acontecido todos estes anos. Os grandes órgãos de “informação”
são grandes órgãos de seleção da informação e de orientação e controlo da
memória.1 de Junho de 2009Referências bibliográficasJamil Anderlini 2009
«Tanks were roaring and bullets flying», in «Financial Times», p. 3 («Life and
Arts») Richard Bernstein, Ross H. Munro 1997
The Coming Conflict with China, Knopf, New YorkKevin Buckley 1991
Panama. The Whole Story, Simon & Schuster, New YorkAndrew J. Nathan, Perry Link
(eds.) 2001
The Tiananmen Papers (2001), tr. it., di Michela Benuzzi et alii, Tienanmen,
Rizzoli, MilanoNotas
[1] “The Tiananmen Papers”, documentos apresentados por Andrew J. Nathan, Perry
Link, Orville Schell e Liang Zhang, PublicAffairs, 2000, 513 pp. Publicado em
francês com o título “Les Archives de Tiananmen”, apresentado por Liang Zhang,
éditions du Félin, 2004, 652 pp. [Nota da versão espanhola]
[2] Op. cit., p. 444-45.
[3] Op. cit., p. 435.
[4] Op. cit., p. 324.
[5] Op. cit., p. 293.
[6] Op. cit., p. 428-29.
[7] Op. cit., p.486.
[8] Op. cit., p. 391.
[9] “The coming Conflict with China”, por Richard Bernstein e Ross H. Munro,
Atlantic Books, 1997 (245 pp.), p. 95 e 39.
[10] «Tea with the FT: Bao Tong», por Jamil Anderlini, in Financial Times, 29 de
maio de 2009.
[11] “Panama. The Whole Story”, por Kevin Buckley, Simon & Schuster, 1991 (304
pp.).Tradução: Jorge Vasconcelos (a partir da versão original publicada em
http://www.domenicolosurdoblogtienanmen.blogspot.pt/2009/06/tienanmen-20-anni-dopo.html
complementada pela versão espanhola publicada por Red Voltaire em
http://www.voltairenet.org/article184950.html) Imprimir
In
O Diário.info
http://www.odiario.info/?p=3371
16/8/2014
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
“Contra el cierre ilegal, los trabajadores de Donnelley ingresamos a la fábrica y la ponemos a producir”
ANRED
Esta mañana, en conferencia de prensa, trabajadores de la gráfica multinacional
Donnelley ubicada en Au. Panamericana Km 36,7, Garín, Buenos Aires, anunciaron
que la Comisión Interna y los trabajadores de Donnelley resolvieron en asamblea
general "ingresar y ponerla a producir, para defender la fuente de trabajo y el
sustento de las familias".
Reproducimos:
(Garín, 12/8). El delegado Jorge Medina informó que “después de que la
multinacional gráfica Donnelley cerrara en forma absolutamente ilegal, dejando
más de cuatrocientas familias en la calle, y de que el Ministerio de Trabajo
provincial constatara esta mañana el incumplimiento de la conciliación
obligatoria, la Comisión Interna y los trabajadores de Donnelley resolvimos en
asamblea general ingresar y ponerla a producir, para defender nuestra fuente de
trabajo y el sustento de nuestras familias. Si la empresa vuelve, no vamos a
permitir ningún chantaje. Vamos a exigir su reapertura en las mismas condiciones
de trabajo y de salario y manteniendo todos los puestos. Si la patronal insiste
en la quiebra, nosotros vamos a continuar produciendo”.
El delegado René Córdoba agregó: “No vamos a permitir que esta empresa mienta
diciendo que está en quiebra y cierre la planta cuando a nivel mundial
reportaron ganancias por doscientos dieciocho millones de dólares el año pasado,
y mayores aún este año. Está denunciada por sindicatos de todo el mundo por su
método de cerrar plantas de un día para el otro. Vamos a resguardar la fábrica y
sus bienes, impidiendo su vaciamiento ilegal y defendiendo los más de
cuatrocientos puestos de trabajo. Venimos apoyando a los compañeros y a las
compañeras de Lear que también enfrentan a otra multinacional yanqui que
pretende dejar en la calle a decenas de familias y desconocer a los delegados
votados por los trabajadores”.
El delegado Martín Killing anunció: "Convocamos a una conferencia de prensa a
las once de la mañana en el interior de la planta. Llamamos al conjunto de los
trabajadores y de las organizaciones sociales, a toda la comunidad, a apoyar
nuestra lucha en defensa de nuestros puestos de trabajo. Llamamos a todos
nuestros compañeros gráficos a seguir llevando adelante la resolución votada en
el plenario de delegados de la Federación Gráfica Bonaerense de no imprimir
ninguno de los productos de Donnelley y reiteramos nuestra propuesta de paro
general del gremio".
Comisión Interna y trabajadores de Donnelley
IN
Argempress
http://www.argenpress.info/2014/08/contra-el-cierre-ilegal-los.html
13/8/2014
Esta mañana, en conferencia de prensa, trabajadores de la gráfica multinacional
Donnelley ubicada en Au. Panamericana Km 36,7, Garín, Buenos Aires, anunciaron
que la Comisión Interna y los trabajadores de Donnelley resolvieron en asamblea
general "ingresar y ponerla a producir, para defender la fuente de trabajo y el
sustento de las familias".
Reproducimos:
(Garín, 12/8). El delegado Jorge Medina informó que “después de que la
multinacional gráfica Donnelley cerrara en forma absolutamente ilegal, dejando
más de cuatrocientas familias en la calle, y de que el Ministerio de Trabajo
provincial constatara esta mañana el incumplimiento de la conciliación
obligatoria, la Comisión Interna y los trabajadores de Donnelley resolvimos en
asamblea general ingresar y ponerla a producir, para defender nuestra fuente de
trabajo y el sustento de nuestras familias. Si la empresa vuelve, no vamos a
permitir ningún chantaje. Vamos a exigir su reapertura en las mismas condiciones
de trabajo y de salario y manteniendo todos los puestos. Si la patronal insiste
en la quiebra, nosotros vamos a continuar produciendo”.
El delegado René Córdoba agregó: “No vamos a permitir que esta empresa mienta
diciendo que está en quiebra y cierre la planta cuando a nivel mundial
reportaron ganancias por doscientos dieciocho millones de dólares el año pasado,
y mayores aún este año. Está denunciada por sindicatos de todo el mundo por su
método de cerrar plantas de un día para el otro. Vamos a resguardar la fábrica y
sus bienes, impidiendo su vaciamiento ilegal y defendiendo los más de
cuatrocientos puestos de trabajo. Venimos apoyando a los compañeros y a las
compañeras de Lear que también enfrentan a otra multinacional yanqui que
pretende dejar en la calle a decenas de familias y desconocer a los delegados
votados por los trabajadores”.
El delegado Martín Killing anunció: "Convocamos a una conferencia de prensa a
las once de la mañana en el interior de la planta. Llamamos al conjunto de los
trabajadores y de las organizaciones sociales, a toda la comunidad, a apoyar
nuestra lucha en defensa de nuestros puestos de trabajo. Llamamos a todos
nuestros compañeros gráficos a seguir llevando adelante la resolución votada en
el plenario de delegados de la Federación Gráfica Bonaerense de no imprimir
ninguno de los productos de Donnelley y reiteramos nuestra propuesta de paro
general del gremio".
Comisión Interna y trabajadores de Donnelley
IN
Argempress
http://www.argenpress.info/2014/08/contra-el-cierre-ilegal-los.html
13/8/2014
sábado, 9 de agosto de 2014
Los "colectivos" venezolanos, de la fantasía a la realidad
Maurice Lemoine
Mémoire des luttes
Traducido del francés para Rebelión por Caty R.
Sarria, un barrio popular de Caracas. En el hangar un poco lúgubre donde las
sombras disputan con la claridad, una lámpara de luz temblorosa alumbra los
retratos del presidente Hugo Chávez, Simón Bolívar y Jesucristo. Polos negros,
gafas oscuras sobre las viseras de gorras también negras, el aire de los
miembros del colectivo Richard Marcano que nos acoge provoca una ligera
sensación de malestar. A Carlos Gutiérrez, su «comandante», le comentamos
nuestra turbación. Mientras la oposición asimila a los colectivos a formaciones
paramilitares, en realidad esta forma de vestirse podría recordar a los
siniestros «camisas negras» de la Milizia Volontaria per la Sicurezza Nazionale,
el brazo armado del régimen de Benito Mussolini. Es más fuerte que él, nuestro
interlocutor estalla en carcajadas antes de volver a ponerse serio. «Creo que
cada persona da a los colores el sentido que le viene bien. El negro es el luto
del corazón; en nuestra cultura no se considera malo». Muestra la estrella
blanca incrustada en rojo del logo que adorna su pecho: «El rojo es la sangre
derramada por nuestros mártires, nuestros libertadores, nuestros camaradas
derribados, desarmados», en la época anterior a la llegada al poder de Chávez
cuando el movimiento social padecía la represión. Reflexiona un momento: «La
oposición dice que somos violentos pero sus grupos de choque, que desde febrero
siembran el caos, se manifiestan vestidos de blanco, ¡el símbolo del amor y la
paz!».
Al cambiar de marco y de ambiente volviendo a la claridad cegadora del sol, esas
siluetas, inquietantes en la penumbra, adquieren otra dimensión: padres y madres
de familia, jóvenes que bromean y ríen a carcajadas mientras saltan. Pero
cualquier asesor de comunicacion les indicaría que la calavera que aparece en su
logo no tiene nada de amable.
Tras la muerte de Chávez muchos creían, o esperaban, que la «Revolución
Bolivariana» no sobreviviría. La elección del delfín Nicolás Maduro en abril de
2013 con una débil mayoría (50,61%), después la consolidación del poder en las
elecciones municipales del 8 de diciembre, ganadas por el Partido Socialista de
Venezuela (PSV) y sus aliados con un 48,69% (el 76,42% de las municipalidades),
constituyeron una burla sangrante (la oposición obtuvo el 39,34%). Desde febrero
de 2014 los sectores extremistas han lanzado una operación de desestabilización
con el modo operativo de organización de «guarimbas» -barricadas, barreras y
neumáticos incendiados- (1). Esta ola de violencia se ha cobrado 43 muertos y
cientos de heridos. ¿Represión gubernamental? Solo en parte: la mayoría de las
víctimas no pertenecían a la oposición y, a título de ejemplo, seis guardias
nacionales encargados de mantener el orden fueron asesinados por balas.
Curiosamente fue en Florida, Miami, el 1 de enero de 2014, sin apoyarse en
ningún hecho concreto y bajo el título «Los colectivos, orden y terror chavista
en Venezuela», cuando el Nuevo Herald, periódico visceralmente anticastrista,
lanzó la primera andanada contra los «culpables» de una crisis que… todavía no
había empezado: «Son la cara violenta de la Revolución Bolivariana, delincuentes
apoyados por el régimen para intimidar a la sociedad civil y,si llega el caso,
hacer el trabajo sucio». Desde entonces, la gran internacional del «copia-pega»
no ha parado de denunciar a esas «bandas armadas» o «milicias socialistas» que
siembran el terror con toda impunidad.
Los dirigentes del colectivo Antimantuanos, establecido en los altos de La
Pastora, Jesús García y la simpática Pacha Guzmán, a priori tienen un aspecto
totalmente humano. «El colectivo, explica García con la sonrisa en los labios,
es una forma de vivir, de trabajar, casi una familia, con un objetivo común:
construir la Revolución». Ninguno de los dos lleva uniforme. «Los nuestros,
precisa Pacha Guzmán, nuestros símbolos están en las pinturas murales que hemos
hecho en el barrio con los niños». Nacido en 2012, vinculado al consejo comunal
que garantiza la gestión local, su colectivo tiene como prioridad «la juventud».
Fútbol, baloncesto, fotografía, serigrafía, proyecciones cinematográficas. «Muy
importante, se utiliza el cine como medio de formación, a través de los mensajes
que se pasan antes de la película, se llama a la organización»… ¿Su próximo
proyecto de envergadura? Se carcajean al mismo tiempo. No, no se trata de la
creación de un stand de entrenamiento de disparo con kalasnikov, ¡sino de una
escuela de arte en un local que les ha donado el consejo comunal!
Algunos de esos grupos –los más satanizados- emergieron en los años 60 y 70,
procedentes a veces de la lucha armada. Genéricamente entonces les llamaban
«ñangaras» (sinónimo de revolucionarios). El colectivo Ali Primera de Monte
Piedad nació en 1989, después de la matanza del «caracazo» (2). A principios de
los años 2000, con la llegada de Chávez al poder, vio la luz otro tipo de
organización popular: los «Círculos Bolivarianos». Todavía quedan algunos, pero
la dinámica del «proceso», como lo denominan ahora, ha llevado a profundizar la
movilización obrera, campesina, indígena, estudiantil o ciudadana a través de
los famosos colectivos, presentes en todo el país.
Seguimos en Caracas, en uno de esos barrios acrobáticamente suspendidos en las
pendientes. Los cuarenta altavoces instalados en diversos puntos estratégicos
vocean al mismo tiempo el anuncio de las próximas actividades: «No olviden que
hoy, a las 15 h, tendrá lugar la vacunación de los animales domésticos». En la
sede del colectivo La Piedrita (del nombre del barrio), su responsable, Douglas,
nos muestra con orgullo el hogar destinado a las personas sin recursos,
afectadas por enfermedades especialmente duras, que vienen del interior del país
para recibir cuidados. «Los alojamos, los alimentamos, si es necesario los
transportan en ambulancias». Una mujer de perfil anguloso y apariencia campesina
opina cabeceando agradecida. «Mi bebé sufre parálisis cerebral. Venir a Caracas
la primera vez es muy difícil. Afortunadamente vinieron a buscarme a la estación
de autobuses. Hace un mes que estoy aquí».
A unos metros de aquí, un hombre extremadamente delgado, de ojos hundidos y
frente constelada de manchas de vejez, entra en el «refectorio de la dignidad
Lina Ron» (3). Tras un mostrador los voluntarios entregan platos humeantes a los
«sin techo» ahora instalados. Douglas aprieta los puños y comenta: «Antes los
llamaban peyorativamente «indigentes» y los marginaban de la sociedad. A través
de la política seguida por nuestro camarada obrero Nicolás Maduro (4) defendemos
la idea de que podemos insertarlos en la sociedad, que son dificultades
psicológicas las que los han aislado de manera prolongada». Aquí se sirven 250
comidas diarias con la ayuda financiera del Estado. Cuando terminan de comer,
algunos de los «asistidos» se van en dirección a los jardines obreros en los
cuales, en equilibrio inestable debido a la pendiente, se ocupan de las
lechugas, remolachas, cebollas y otros productos de la comunidad.
Sabemos que en Caracas la inseguridad no es una leyenda. Aunque se puede matizar
(5). Es lo que hace Pacha Guzmán, en La Pastora: «Antes de la Revolución
Bolivariana se mataba por un par de zapatos. Eso ya no existe, La violencia que
ha aumentado se debe a la droga, los enfrentamientos entre bandas. Pero aquí la
organización popular los ha obligado a dar marcha atrás».
El colectivo de Sarria vio la luz el 12 de noviembre de 2013, al final de una
asamblea del consejo comunal, precisamente debido a la inseguridad. «Un clamor
popular, precisa Gutiérrez. Había zonas abandonadas donde se desvalijaban y se
destrozaban los vehículos y se atacaba a las personas. Ahora hemos recuperado
esos espacios, los hemos convertido en parques recreativos para los niños y son
vigilados por el barrio». El colectivo La Piedrita pertenece al Frente de los
Colectivos Sergio Rodríguez. Con la mirada y con la mano, con el emisor-receptor
de radio enganchado a la cintura, Douglas abarca un amplio sector. «Somos
conscientes de que todavía faltan muchos policías. En el corredor que va de Caño
Amarillo hasta La Silsa, en conjunto con 17 colectivos y 35 consejos comunales,
se garantiza la seguridad. Si hay algún problema se activa porque hay un
contacto total con la comunidad. Sabemos quién es quién, quién es la víctima y
quién el delincuente». Hace una pausa, nos observa con aire burlón y adelanta la
cuestión que está viendo venir: «Los no chavistas no son hostiles a este
trabajo, porque genera paz y tranquilidad. ¡En nuestros barrios populares hay
opositores, pero no ultras!».
En versión alarmista, a través de la voz del presidente de la Conferencia
Episcopal, Diego Rafael Padrón Sánchez, la ultraconservadora jerarquía de la
iglesia católica denuncia: «Esos grupos radicales controlan barrios pobres
enteros en las grandes ciudades, a menudo al margen de la policía y de la
justicia» (6). En versión gubernamental el ministro del Interior, Miguel
Rodríguez Torres, desmiente: «La ciudad de Caracas está dividida en “cuadrantes”
(7). En ningún momento los colectivos efectúan patrullajes armados. Lo que se ha
establecido con ellos son redes de información. Si se produce un delito, si
alguien está implicado en el tráfico de drogas, el colectivo informa a las
fuerzas de seguridad». Subraya sin evasivas: «Las redes de información son
muchas». Realmente, aunque a veces hemos llegado de improviso, en la quincena de
colectivos que hemos visitado, de los más suaves a los más radicales, hemos
detectado la presencia de una sola persona armada (de pistola).
Pero no hay que olvidar que es el tipo de fenómeno que hay que vigilar como a la
leche en el fuego. El 9 de agosto de 2013, en el inmenso complejo de hormigón de
la parroquia (8) 23 de enero, histórico bastión rebelde donde se declara
abiertamente la solidaridad con las Fuerzas Armadas de Colombia (FARC) y con los
«hermanos palestinos», 97 colectivos han remitido voluntariamente a las
autoridades un centenar de pistolas, carabinas y otros fusiles de asalto, en el
marco de la ley de desarme. A la manera del dirigente del Movimiento
Revolucionario Tupamaro, Oswaldo Canica, y de su sonrisa sibilina, nadie podría
jurar que todas las armas han desaparecido de los barrios. Pero en La Piedrita,
simbólicamente, la Virgen que pende sobre uno de los muros ha cambiado su
kalasnikov por el «pequeño libro azul», la Constitución. «Hemos depuesto las
armas porque creemos en el proceso revolucionario y en este Gobierno», precisa
José Odrema, robusto comandante, de cabeza rasurada y voz cascada, del colectivo
5 de marzo. « ¿Qué dijo nuestro líder, Maduro? Que si queríamos defender la
Revolución debíamos integrarnos en la Milicia Bolivariana. Entonces soy
miliciano, no hay nada que ocultar».
La milicia… ¡La peste se une al cólera! Pero, una vez más, debemos evitar la
inercia del pensamiento eurocentrista. Aquí el término no recuerda a la policía
delegada de la Gestapo que acosaba a los judíos y a los resistentes franceses a
partir de 1943, porque en el pasado de Venezuela, en enero de 1797, un tal Simón
Bolívar se enroló como cadete en la sexta compañía del Batallón de Milicias de
Blancos de los Valles de Aragua, preludio de la gesta independentista que
llevaría a cabo después. Desde entonces, bajo diversas formas, la milicia ha
acompañado a la historia de la nación. Creada por Chaves el 13 de abril de 2005,
aniversario de su regreso al palacio presidencial después de que los golpistas
le secuestrasen en 2002, la Milicia Bolivariana tiene la misión de apoyar a la
Fuerza Armada Nacional Bolivariana (FANB) en caso de agresión y para ello
entrena, prepara y organiza la «defensa integral» del país. Compuesta de
voluntarios que se entrenan los fines de semana, la Milicia está organizada por
un cuerpo de oficiales de las fuerzas armadas.
Este concepto de «pueblo en armas» o de «unión cívica-militar» puede chocar en
países que desde hace mucho tiempo no se han enfrentado a ningún intento de
desestabilización. Pero quien conoce la historia contemporánea de América Latina
no ignora los ardientes debates que siguieron a los derrocamientos de Jacobo
Arbenz (Guatemala 1954) y de Salvador Allende (Chile 1973) ¿Había que armar al
pueblo frente al peligro inminente? Y en el sometimiento de la Nicaragua
sandinista por parte de Estados Unidos, los «contras» (contrarrevolucionarios)
de entonces presentaban similitudes evidentes con los actuales paramilitares
colombianos. En Caracas se ha hecho una elección: un proyecto socialista no
puede sobrevivir sin capacidad de defenderse. Con más razón, y paradójicamente,
si juega la carta de la democracia.
De manera que jóvenes y menos jóvenes, casi la totalidad de los miembros de los
colectivos, forman parte del ejército de reserva, de unas 500.000 personas,
similares a los que existen en Francia, Suiza, España, Canadá, Estados Unidos
(848.000 personas), Chile, Argentina, etc., aunque no se llamen milicias.
Productos de una cultura endógena, los dirigentes de los colectivos llevan a
veces el título de «comandante». Algunos, exmilitares, participaron en el
intento de golpe de Estado de Chávez el 4 de febrero de 1992, sus tropas se
visten con uniformes que van de los más elaborados (al estilo de los de los
vigilantes de los centros comerciales) a los más desparejados.
Desde el principio de las manifestaciones de sectores minoritarios, incluso
dentro de la propia oposición, los colectivos se movilizaron. «Aquí no se
toleran las guarimbas, admite Gutiérrez, en Sarria. No vamos a permitir que nos
secuestren en nuestro propio barrio. Todo el mundo tiene derecho a manifestarse,
a salir a la calle y a defender sus derechos. Pero no a decapitar a motoristas
(tendiendo hilos de acero que cruzan la calle a la altura de las personas) ni a
disparar a la cabeza de un inocente (suerte corrida por varias personas desde el
12 de febrero)». Ocupado y reducido al silencio durante el golpe de Estado de
2002, el canal público Venezolana de Televisión (VTV) conoció, en mayo, un
intento de guarimba frente a sus locales. «Tenemos comunicación, y es vital,
cuenta Odrema. La comunidad nos previene. Bajamos con los diversos colectivos y
cuando nos ven llegar, los “fascistas” se van». La Candelaria, un barrio en
pleno centro de la capital, también ha sufrido numerosas incursiones. La misma
reacción de Luis Cortez, antiguo del «4F» (9) y comandante del colectivo
Catedral Combativa: «Tuvimos que salir a defender a compañeros a los que no
dejaban bajar de su coche. Les llamamos la atención y pudimos controlar la
situación» ¿Cómo se justifica el calificativo de «paramilitares» a quienes se
puede burlar regularmente? «Nuestro sector, nuestro logo, están perfectamente
identificados. No como los opositores que en Altamira, El Hatillo (barrios
acomodados), siembran la violencia encapuchados».
Durante los enfrentamientos más violentos, los policías y los civiles (de ambos
bandos) abrieron fuego. Al contrario de numerosas afirmaciones de que «Las
bandas militares denominadas colectivos afluyeron en moto disparando bales
reales sobre cualquiera que estuviera a descubierto (10)», no se les puede
atribuir ninguna víctima con certeza absoluta. Uno de los dirigentes, Juan Pablo
Montoya, coordinador del Secretariado Revolucionario de Venezuela –que agrupa a
más de cien colectivos- fue uno de los dos primeros muertos, el 12 de febrero,
en circunstancias confusas todavía no aclaradas (11). Y podemos añadir que sin
los colectivos, la situación sería infinitamente más peligrosa…
En los barrios populares todas las personas tienen memoria y atravesada en la
garganta la intentona golpista de abril de 2002. Entonces oficial en activo, el
actual ministro del Interior era coordinador nacional de los Círculos
Bolivarianos (CB), «una especie de comisario político», precisa sonriendo. Como
los colectivos actuales, aquéllos, rebautizados como «círculos del terror» por
la oposición, sufrieron una dura campaña de satanización. «Los días 12 y 13 de
abril, recuerda Torres, mientras Chávez estaba preso, actué de bisagra entre mis
compañeros comandantes de batallones (los militares leales) y los miembros de
los CB que se manifestaban masivamente, Hice miles de llamadas telefónicas para
coordinar la movilización, pero también para evitar la violencia, porque a pesar
de la enorme rabia que todos sentíamos, todo se hizo bajo la presión pacífica de
la calle. En ningún momento los CB utilizaron las armas y se restableció la
situación».
12 años después, la historia se repite. Frente a una oposición que una vez más
se niega a respetar el resultado de las urnas, se elevan voces numerosas,
unánimes, furiosas, excesivas: se ha sobrepasado el límite de lo tolerable. Otra
vez no han entendido nada: «Si el pueblo ve la necesidad de salir a la calle
para defender el proceso lo hará como lo hizo el 13-A» (13 de abril de 2002). Un
tipo de situación que puede degenerar muy fácilmente.
«Cuando empezó la violencia de la derecha, en febrero, nos dice el ministro del
Interior, nos con reunimos todos los colectivos, de cualquier naturaleza, y les
dijimos: “Estad tranquilos, las autoridades del Estado sabrán gestionar la
situación”». En todas las reuniones de colectivos, lo mismo que en la que
asistimos el 7 de junio en el cuartel de la antigua policía metropolitana, la
que utilizaba la IV República para reprimir, se alzan las voces de los
responsables para recordar los fundamentos: «Nuestra arma, en primer lugar, es
la Constitución. Cualquier otra arma solo se utilizará en legítima defensa de
nuestro proceso, eso debe estar bien claro para todos los compañeros». Y de
hecho, a pesar de lo consciente que es de su fuerza, «el pueblo, las neuronas
antes que las hormonas, comentará el ministro para la transformación del gran
Caracas, Ernesto Villegas, ha conservado su calma, disciplinado y organizado.
Mientras, los dirigentes de los colectivos permanecen en contacto con las
autoridades».
El debate artificial lanzado y mantenido sobre el tema de su supuesta violencia
impide cualquier reflexión sobre la verdadera naturaleza y la diversidad de los
colectivos. Aunque muchos de ellos efectivamente pueden considerarse apéndices
del poder -«¡Estamos con nuestro presidente Maduro!»- otros se muestran más
autónomos, más independientes. «Ser chavistas no es ser “del Gobierno”». Un
proceso político que por definición es lento, inestable, no lineal, trufado de
logros indiscutibles y también de errores y fallos, «nuestras críticas, nos
confía Guillermo Lugo (colectivo Ali Primera) llegan al PSUV a través de los
medios alternativos, las redes, los seminarios, los foros, las reuniones…» En
preludio de la del 7 de junio, a la que asistiría el ministro Villegas, uno de
los comandantes nos previene relamiéndose: «Vamos a aprovechar el momento para
dar oxígeno al Estado».
Recibido calurosamente y una vez finalizado su discurso oficial el ministro,
frente a los cabecillas clavados al suelo, entiende que efectivamente hay que
«hablar del país»: «Algunos políticos todavía no se han dado cuenta de que están
ahí para servir al pueblo, diserta el comandante Cortez, muy encumbrado. Os
necesitamos. A diario libramos una batalla frontal contra la burocracia y contra
el bloqueo de los medios de comunicación, incluidos los nuestros, los medios
públicos. Y tenemos las manos atadas, porque este Gobierno revolucionario no nos
escucha, Ernesto. Queremos que se cree un ministerio de seguimiento de las
acciones sociales. Queremos que los ministros se sienten con el poder popular.
Queremos…».
En pleno centro de la capital, Cortez y su colectivo «Catedral Combativa» han
establecido su cuartel general en el aparcamiento de cemento de un antiguo
centro comercial Sambil, requisado en 2010 para servir de refugio provisional a
1.400 familias (5.200 personas) afectadas por un episodio de lluvias
torrenciales e inundaciones (12). Con la mirada brillante de satisfacción
detalla las actuaciones en curso: «Hemos captado a los compañeros sin techo y a
los drogadictos y los orientamos hacia los programas del Departamento de
Atención al Ciudadano. También hemos reinsertado escolarmente a los niños de la
calle marginados». De momento, él y su pequeña tropa intentan poner un poco de
orden en una larga fila que frente a un McDonald’s se alarga ante un camión
gubernamental que vende café a un precio muy subvencionado.
En el barrio (elegante) de Chacao, donde la derecha quiere demoler el mercado
tradicional para construir un centro comercial, un colectivo lucha «para
salvaguardar el patrimonio cultural de la nación». Otros cientos de ellos, por
otra parte, se dedican a la formación política, a la cultura en general, a la
cultura afro-venezolana o indígena en particular, al deporte, a la música, a la
concienciación de los moteros (cuyo estilo errático de conducción es la
pesadilla de los automovilistas), a la salud, a la educación, a la mejora de la
vivienda. Hay un colectivo de 200 mujeres que está construyendo un inmueble en
Caracas, en la avenida Francisco de Miranda (13). En La Pastora, Pacha Guzmán
resume: «Damos a las personas la oportunidad de participar en el tipo de
democracia que Chávez llamó a construir: es distinto de ir a votar y esperar que
el Gobierno se ocupe de todo».
Pero entonces, ¿Por qué tanto odio, según parece? Al pie de los inmuebles del
conjunto 23 de Enero, el diputado suplente del PSUV y director de la
Coordinadora Simón Bolívar, Juan Contreras, levanta los brazos en señal de
desesperación: «La oposición no soporta que las personas defiendan el proceso.
Entonces necesita estigmatizar, criminalizar a las organizaciones sociales que
han crecido al calor de la Revolución Bolivariana, como las comunidades, los
consejos comunales, y sobre todo los colectivos, que no son otra cosa que el
pueblo organizado».
Notas
(1) Leer de Maurice Lemoine « Stratégie de la tension », Mémoire des luttes 20
de febrero de 2014).
(2) La represión de un levantamiento popular en Caracas el 27 de febrero de
1989, según las fuentes, produjo entre 300 y, más probablemente, 3.000 muertos.
(3) Lina Ron: dirigente chavista particularmente radical, fallecida el 5 de
marzo de 2011.
(4) El presidente actual fue conductor de autobús y sindicalista.
(5) De enero a julio de 2014, en los diez barrios de Caracas establecidos bajo
la jurisdicción de la nueva Policía Nacional Bolivariana (PNB), la criminalidad
disminuyó un 33% con respecto al mismo período del año anterior, Ciudad Caracas,
11 de julio de 2014.
(6) El Nacional, Caracas, 15 de febrero de 2014.
(7) Zonas de patrullaje intensivo de la policía de proximidad.
(8) Literalmente «parroquia»: la menor unidad política-territorial. Caracas
tiene 32.
(9) 4 de febrero de 1992: golpe de Estado de Chávez contra el presidente Carlos
Andrés Pérez.
(10) Slate.fr, París, 21 de febrero de 2014.
(11) En primer lugar atribuido a un funcionario del Servicio Bolivariano de
Inteligencia Nacional (SEBIN), su muerte se atribuye ahora a otro dirigente de
colectivos, Hermes Barrera Niño, que clama su inocencia.
(12) Solo quedan en la actualidad 34 familias (trescientas personas). Las demás
están realojadas.
(13) Leer « Construyendo un sueño en manos de mujeres… », 28 de mayo de 2014.
Fuente: http://www.medelu.org/Les-colectivos-venezueliens-du
IN
REBELIÓN
http://rebelion.org/noticia.php?id=188243
9/8/2014
Mémoire des luttes
Traducido del francés para Rebelión por Caty R.
Sarria, un barrio popular de Caracas. En el hangar un poco lúgubre donde las
sombras disputan con la claridad, una lámpara de luz temblorosa alumbra los
retratos del presidente Hugo Chávez, Simón Bolívar y Jesucristo. Polos negros,
gafas oscuras sobre las viseras de gorras también negras, el aire de los
miembros del colectivo Richard Marcano que nos acoge provoca una ligera
sensación de malestar. A Carlos Gutiérrez, su «comandante», le comentamos
nuestra turbación. Mientras la oposición asimila a los colectivos a formaciones
paramilitares, en realidad esta forma de vestirse podría recordar a los
siniestros «camisas negras» de la Milizia Volontaria per la Sicurezza Nazionale,
el brazo armado del régimen de Benito Mussolini. Es más fuerte que él, nuestro
interlocutor estalla en carcajadas antes de volver a ponerse serio. «Creo que
cada persona da a los colores el sentido que le viene bien. El negro es el luto
del corazón; en nuestra cultura no se considera malo». Muestra la estrella
blanca incrustada en rojo del logo que adorna su pecho: «El rojo es la sangre
derramada por nuestros mártires, nuestros libertadores, nuestros camaradas
derribados, desarmados», en la época anterior a la llegada al poder de Chávez
cuando el movimiento social padecía la represión. Reflexiona un momento: «La
oposición dice que somos violentos pero sus grupos de choque, que desde febrero
siembran el caos, se manifiestan vestidos de blanco, ¡el símbolo del amor y la
paz!».
Al cambiar de marco y de ambiente volviendo a la claridad cegadora del sol, esas
siluetas, inquietantes en la penumbra, adquieren otra dimensión: padres y madres
de familia, jóvenes que bromean y ríen a carcajadas mientras saltan. Pero
cualquier asesor de comunicacion les indicaría que la calavera que aparece en su
logo no tiene nada de amable.
Tras la muerte de Chávez muchos creían, o esperaban, que la «Revolución
Bolivariana» no sobreviviría. La elección del delfín Nicolás Maduro en abril de
2013 con una débil mayoría (50,61%), después la consolidación del poder en las
elecciones municipales del 8 de diciembre, ganadas por el Partido Socialista de
Venezuela (PSV) y sus aliados con un 48,69% (el 76,42% de las municipalidades),
constituyeron una burla sangrante (la oposición obtuvo el 39,34%). Desde febrero
de 2014 los sectores extremistas han lanzado una operación de desestabilización
con el modo operativo de organización de «guarimbas» -barricadas, barreras y
neumáticos incendiados- (1). Esta ola de violencia se ha cobrado 43 muertos y
cientos de heridos. ¿Represión gubernamental? Solo en parte: la mayoría de las
víctimas no pertenecían a la oposición y, a título de ejemplo, seis guardias
nacionales encargados de mantener el orden fueron asesinados por balas.
Curiosamente fue en Florida, Miami, el 1 de enero de 2014, sin apoyarse en
ningún hecho concreto y bajo el título «Los colectivos, orden y terror chavista
en Venezuela», cuando el Nuevo Herald, periódico visceralmente anticastrista,
lanzó la primera andanada contra los «culpables» de una crisis que… todavía no
había empezado: «Son la cara violenta de la Revolución Bolivariana, delincuentes
apoyados por el régimen para intimidar a la sociedad civil y,si llega el caso,
hacer el trabajo sucio». Desde entonces, la gran internacional del «copia-pega»
no ha parado de denunciar a esas «bandas armadas» o «milicias socialistas» que
siembran el terror con toda impunidad.
Los dirigentes del colectivo Antimantuanos, establecido en los altos de La
Pastora, Jesús García y la simpática Pacha Guzmán, a priori tienen un aspecto
totalmente humano. «El colectivo, explica García con la sonrisa en los labios,
es una forma de vivir, de trabajar, casi una familia, con un objetivo común:
construir la Revolución». Ninguno de los dos lleva uniforme. «Los nuestros,
precisa Pacha Guzmán, nuestros símbolos están en las pinturas murales que hemos
hecho en el barrio con los niños». Nacido en 2012, vinculado al consejo comunal
que garantiza la gestión local, su colectivo tiene como prioridad «la juventud».
Fútbol, baloncesto, fotografía, serigrafía, proyecciones cinematográficas. «Muy
importante, se utiliza el cine como medio de formación, a través de los mensajes
que se pasan antes de la película, se llama a la organización»… ¿Su próximo
proyecto de envergadura? Se carcajean al mismo tiempo. No, no se trata de la
creación de un stand de entrenamiento de disparo con kalasnikov, ¡sino de una
escuela de arte en un local que les ha donado el consejo comunal!
Algunos de esos grupos –los más satanizados- emergieron en los años 60 y 70,
procedentes a veces de la lucha armada. Genéricamente entonces les llamaban
«ñangaras» (sinónimo de revolucionarios). El colectivo Ali Primera de Monte
Piedad nació en 1989, después de la matanza del «caracazo» (2). A principios de
los años 2000, con la llegada de Chávez al poder, vio la luz otro tipo de
organización popular: los «Círculos Bolivarianos». Todavía quedan algunos, pero
la dinámica del «proceso», como lo denominan ahora, ha llevado a profundizar la
movilización obrera, campesina, indígena, estudiantil o ciudadana a través de
los famosos colectivos, presentes en todo el país.
Seguimos en Caracas, en uno de esos barrios acrobáticamente suspendidos en las
pendientes. Los cuarenta altavoces instalados en diversos puntos estratégicos
vocean al mismo tiempo el anuncio de las próximas actividades: «No olviden que
hoy, a las 15 h, tendrá lugar la vacunación de los animales domésticos». En la
sede del colectivo La Piedrita (del nombre del barrio), su responsable, Douglas,
nos muestra con orgullo el hogar destinado a las personas sin recursos,
afectadas por enfermedades especialmente duras, que vienen del interior del país
para recibir cuidados. «Los alojamos, los alimentamos, si es necesario los
transportan en ambulancias». Una mujer de perfil anguloso y apariencia campesina
opina cabeceando agradecida. «Mi bebé sufre parálisis cerebral. Venir a Caracas
la primera vez es muy difícil. Afortunadamente vinieron a buscarme a la estación
de autobuses. Hace un mes que estoy aquí».
A unos metros de aquí, un hombre extremadamente delgado, de ojos hundidos y
frente constelada de manchas de vejez, entra en el «refectorio de la dignidad
Lina Ron» (3). Tras un mostrador los voluntarios entregan platos humeantes a los
«sin techo» ahora instalados. Douglas aprieta los puños y comenta: «Antes los
llamaban peyorativamente «indigentes» y los marginaban de la sociedad. A través
de la política seguida por nuestro camarada obrero Nicolás Maduro (4) defendemos
la idea de que podemos insertarlos en la sociedad, que son dificultades
psicológicas las que los han aislado de manera prolongada». Aquí se sirven 250
comidas diarias con la ayuda financiera del Estado. Cuando terminan de comer,
algunos de los «asistidos» se van en dirección a los jardines obreros en los
cuales, en equilibrio inestable debido a la pendiente, se ocupan de las
lechugas, remolachas, cebollas y otros productos de la comunidad.
Sabemos que en Caracas la inseguridad no es una leyenda. Aunque se puede matizar
(5). Es lo que hace Pacha Guzmán, en La Pastora: «Antes de la Revolución
Bolivariana se mataba por un par de zapatos. Eso ya no existe, La violencia que
ha aumentado se debe a la droga, los enfrentamientos entre bandas. Pero aquí la
organización popular los ha obligado a dar marcha atrás».
El colectivo de Sarria vio la luz el 12 de noviembre de 2013, al final de una
asamblea del consejo comunal, precisamente debido a la inseguridad. «Un clamor
popular, precisa Gutiérrez. Había zonas abandonadas donde se desvalijaban y se
destrozaban los vehículos y se atacaba a las personas. Ahora hemos recuperado
esos espacios, los hemos convertido en parques recreativos para los niños y son
vigilados por el barrio». El colectivo La Piedrita pertenece al Frente de los
Colectivos Sergio Rodríguez. Con la mirada y con la mano, con el emisor-receptor
de radio enganchado a la cintura, Douglas abarca un amplio sector. «Somos
conscientes de que todavía faltan muchos policías. En el corredor que va de Caño
Amarillo hasta La Silsa, en conjunto con 17 colectivos y 35 consejos comunales,
se garantiza la seguridad. Si hay algún problema se activa porque hay un
contacto total con la comunidad. Sabemos quién es quién, quién es la víctima y
quién el delincuente». Hace una pausa, nos observa con aire burlón y adelanta la
cuestión que está viendo venir: «Los no chavistas no son hostiles a este
trabajo, porque genera paz y tranquilidad. ¡En nuestros barrios populares hay
opositores, pero no ultras!».
En versión alarmista, a través de la voz del presidente de la Conferencia
Episcopal, Diego Rafael Padrón Sánchez, la ultraconservadora jerarquía de la
iglesia católica denuncia: «Esos grupos radicales controlan barrios pobres
enteros en las grandes ciudades, a menudo al margen de la policía y de la
justicia» (6). En versión gubernamental el ministro del Interior, Miguel
Rodríguez Torres, desmiente: «La ciudad de Caracas está dividida en “cuadrantes”
(7). En ningún momento los colectivos efectúan patrullajes armados. Lo que se ha
establecido con ellos son redes de información. Si se produce un delito, si
alguien está implicado en el tráfico de drogas, el colectivo informa a las
fuerzas de seguridad». Subraya sin evasivas: «Las redes de información son
muchas». Realmente, aunque a veces hemos llegado de improviso, en la quincena de
colectivos que hemos visitado, de los más suaves a los más radicales, hemos
detectado la presencia de una sola persona armada (de pistola).
Pero no hay que olvidar que es el tipo de fenómeno que hay que vigilar como a la
leche en el fuego. El 9 de agosto de 2013, en el inmenso complejo de hormigón de
la parroquia (8) 23 de enero, histórico bastión rebelde donde se declara
abiertamente la solidaridad con las Fuerzas Armadas de Colombia (FARC) y con los
«hermanos palestinos», 97 colectivos han remitido voluntariamente a las
autoridades un centenar de pistolas, carabinas y otros fusiles de asalto, en el
marco de la ley de desarme. A la manera del dirigente del Movimiento
Revolucionario Tupamaro, Oswaldo Canica, y de su sonrisa sibilina, nadie podría
jurar que todas las armas han desaparecido de los barrios. Pero en La Piedrita,
simbólicamente, la Virgen que pende sobre uno de los muros ha cambiado su
kalasnikov por el «pequeño libro azul», la Constitución. «Hemos depuesto las
armas porque creemos en el proceso revolucionario y en este Gobierno», precisa
José Odrema, robusto comandante, de cabeza rasurada y voz cascada, del colectivo
5 de marzo. « ¿Qué dijo nuestro líder, Maduro? Que si queríamos defender la
Revolución debíamos integrarnos en la Milicia Bolivariana. Entonces soy
miliciano, no hay nada que ocultar».
La milicia… ¡La peste se une al cólera! Pero, una vez más, debemos evitar la
inercia del pensamiento eurocentrista. Aquí el término no recuerda a la policía
delegada de la Gestapo que acosaba a los judíos y a los resistentes franceses a
partir de 1943, porque en el pasado de Venezuela, en enero de 1797, un tal Simón
Bolívar se enroló como cadete en la sexta compañía del Batallón de Milicias de
Blancos de los Valles de Aragua, preludio de la gesta independentista que
llevaría a cabo después. Desde entonces, bajo diversas formas, la milicia ha
acompañado a la historia de la nación. Creada por Chaves el 13 de abril de 2005,
aniversario de su regreso al palacio presidencial después de que los golpistas
le secuestrasen en 2002, la Milicia Bolivariana tiene la misión de apoyar a la
Fuerza Armada Nacional Bolivariana (FANB) en caso de agresión y para ello
entrena, prepara y organiza la «defensa integral» del país. Compuesta de
voluntarios que se entrenan los fines de semana, la Milicia está organizada por
un cuerpo de oficiales de las fuerzas armadas.
Este concepto de «pueblo en armas» o de «unión cívica-militar» puede chocar en
países que desde hace mucho tiempo no se han enfrentado a ningún intento de
desestabilización. Pero quien conoce la historia contemporánea de América Latina
no ignora los ardientes debates que siguieron a los derrocamientos de Jacobo
Arbenz (Guatemala 1954) y de Salvador Allende (Chile 1973) ¿Había que armar al
pueblo frente al peligro inminente? Y en el sometimiento de la Nicaragua
sandinista por parte de Estados Unidos, los «contras» (contrarrevolucionarios)
de entonces presentaban similitudes evidentes con los actuales paramilitares
colombianos. En Caracas se ha hecho una elección: un proyecto socialista no
puede sobrevivir sin capacidad de defenderse. Con más razón, y paradójicamente,
si juega la carta de la democracia.
De manera que jóvenes y menos jóvenes, casi la totalidad de los miembros de los
colectivos, forman parte del ejército de reserva, de unas 500.000 personas,
similares a los que existen en Francia, Suiza, España, Canadá, Estados Unidos
(848.000 personas), Chile, Argentina, etc., aunque no se llamen milicias.
Productos de una cultura endógena, los dirigentes de los colectivos llevan a
veces el título de «comandante». Algunos, exmilitares, participaron en el
intento de golpe de Estado de Chávez el 4 de febrero de 1992, sus tropas se
visten con uniformes que van de los más elaborados (al estilo de los de los
vigilantes de los centros comerciales) a los más desparejados.
Desde el principio de las manifestaciones de sectores minoritarios, incluso
dentro de la propia oposición, los colectivos se movilizaron. «Aquí no se
toleran las guarimbas, admite Gutiérrez, en Sarria. No vamos a permitir que nos
secuestren en nuestro propio barrio. Todo el mundo tiene derecho a manifestarse,
a salir a la calle y a defender sus derechos. Pero no a decapitar a motoristas
(tendiendo hilos de acero que cruzan la calle a la altura de las personas) ni a
disparar a la cabeza de un inocente (suerte corrida por varias personas desde el
12 de febrero)». Ocupado y reducido al silencio durante el golpe de Estado de
2002, el canal público Venezolana de Televisión (VTV) conoció, en mayo, un
intento de guarimba frente a sus locales. «Tenemos comunicación, y es vital,
cuenta Odrema. La comunidad nos previene. Bajamos con los diversos colectivos y
cuando nos ven llegar, los “fascistas” se van». La Candelaria, un barrio en
pleno centro de la capital, también ha sufrido numerosas incursiones. La misma
reacción de Luis Cortez, antiguo del «4F» (9) y comandante del colectivo
Catedral Combativa: «Tuvimos que salir a defender a compañeros a los que no
dejaban bajar de su coche. Les llamamos la atención y pudimos controlar la
situación» ¿Cómo se justifica el calificativo de «paramilitares» a quienes se
puede burlar regularmente? «Nuestro sector, nuestro logo, están perfectamente
identificados. No como los opositores que en Altamira, El Hatillo (barrios
acomodados), siembran la violencia encapuchados».
Durante los enfrentamientos más violentos, los policías y los civiles (de ambos
bandos) abrieron fuego. Al contrario de numerosas afirmaciones de que «Las
bandas militares denominadas colectivos afluyeron en moto disparando bales
reales sobre cualquiera que estuviera a descubierto (10)», no se les puede
atribuir ninguna víctima con certeza absoluta. Uno de los dirigentes, Juan Pablo
Montoya, coordinador del Secretariado Revolucionario de Venezuela –que agrupa a
más de cien colectivos- fue uno de los dos primeros muertos, el 12 de febrero,
en circunstancias confusas todavía no aclaradas (11). Y podemos añadir que sin
los colectivos, la situación sería infinitamente más peligrosa…
En los barrios populares todas las personas tienen memoria y atravesada en la
garganta la intentona golpista de abril de 2002. Entonces oficial en activo, el
actual ministro del Interior era coordinador nacional de los Círculos
Bolivarianos (CB), «una especie de comisario político», precisa sonriendo. Como
los colectivos actuales, aquéllos, rebautizados como «círculos del terror» por
la oposición, sufrieron una dura campaña de satanización. «Los días 12 y 13 de
abril, recuerda Torres, mientras Chávez estaba preso, actué de bisagra entre mis
compañeros comandantes de batallones (los militares leales) y los miembros de
los CB que se manifestaban masivamente, Hice miles de llamadas telefónicas para
coordinar la movilización, pero también para evitar la violencia, porque a pesar
de la enorme rabia que todos sentíamos, todo se hizo bajo la presión pacífica de
la calle. En ningún momento los CB utilizaron las armas y se restableció la
situación».
12 años después, la historia se repite. Frente a una oposición que una vez más
se niega a respetar el resultado de las urnas, se elevan voces numerosas,
unánimes, furiosas, excesivas: se ha sobrepasado el límite de lo tolerable. Otra
vez no han entendido nada: «Si el pueblo ve la necesidad de salir a la calle
para defender el proceso lo hará como lo hizo el 13-A» (13 de abril de 2002). Un
tipo de situación que puede degenerar muy fácilmente.
«Cuando empezó la violencia de la derecha, en febrero, nos dice el ministro del
Interior, nos con reunimos todos los colectivos, de cualquier naturaleza, y les
dijimos: “Estad tranquilos, las autoridades del Estado sabrán gestionar la
situación”». En todas las reuniones de colectivos, lo mismo que en la que
asistimos el 7 de junio en el cuartel de la antigua policía metropolitana, la
que utilizaba la IV República para reprimir, se alzan las voces de los
responsables para recordar los fundamentos: «Nuestra arma, en primer lugar, es
la Constitución. Cualquier otra arma solo se utilizará en legítima defensa de
nuestro proceso, eso debe estar bien claro para todos los compañeros». Y de
hecho, a pesar de lo consciente que es de su fuerza, «el pueblo, las neuronas
antes que las hormonas, comentará el ministro para la transformación del gran
Caracas, Ernesto Villegas, ha conservado su calma, disciplinado y organizado.
Mientras, los dirigentes de los colectivos permanecen en contacto con las
autoridades».
El debate artificial lanzado y mantenido sobre el tema de su supuesta violencia
impide cualquier reflexión sobre la verdadera naturaleza y la diversidad de los
colectivos. Aunque muchos de ellos efectivamente pueden considerarse apéndices
del poder -«¡Estamos con nuestro presidente Maduro!»- otros se muestran más
autónomos, más independientes. «Ser chavistas no es ser “del Gobierno”». Un
proceso político que por definición es lento, inestable, no lineal, trufado de
logros indiscutibles y también de errores y fallos, «nuestras críticas, nos
confía Guillermo Lugo (colectivo Ali Primera) llegan al PSUV a través de los
medios alternativos, las redes, los seminarios, los foros, las reuniones…» En
preludio de la del 7 de junio, a la que asistiría el ministro Villegas, uno de
los comandantes nos previene relamiéndose: «Vamos a aprovechar el momento para
dar oxígeno al Estado».
Recibido calurosamente y una vez finalizado su discurso oficial el ministro,
frente a los cabecillas clavados al suelo, entiende que efectivamente hay que
«hablar del país»: «Algunos políticos todavía no se han dado cuenta de que están
ahí para servir al pueblo, diserta el comandante Cortez, muy encumbrado. Os
necesitamos. A diario libramos una batalla frontal contra la burocracia y contra
el bloqueo de los medios de comunicación, incluidos los nuestros, los medios
públicos. Y tenemos las manos atadas, porque este Gobierno revolucionario no nos
escucha, Ernesto. Queremos que se cree un ministerio de seguimiento de las
acciones sociales. Queremos que los ministros se sienten con el poder popular.
Queremos…».
En pleno centro de la capital, Cortez y su colectivo «Catedral Combativa» han
establecido su cuartel general en el aparcamiento de cemento de un antiguo
centro comercial Sambil, requisado en 2010 para servir de refugio provisional a
1.400 familias (5.200 personas) afectadas por un episodio de lluvias
torrenciales e inundaciones (12). Con la mirada brillante de satisfacción
detalla las actuaciones en curso: «Hemos captado a los compañeros sin techo y a
los drogadictos y los orientamos hacia los programas del Departamento de
Atención al Ciudadano. También hemos reinsertado escolarmente a los niños de la
calle marginados». De momento, él y su pequeña tropa intentan poner un poco de
orden en una larga fila que frente a un McDonald’s se alarga ante un camión
gubernamental que vende café a un precio muy subvencionado.
En el barrio (elegante) de Chacao, donde la derecha quiere demoler el mercado
tradicional para construir un centro comercial, un colectivo lucha «para
salvaguardar el patrimonio cultural de la nación». Otros cientos de ellos, por
otra parte, se dedican a la formación política, a la cultura en general, a la
cultura afro-venezolana o indígena en particular, al deporte, a la música, a la
concienciación de los moteros (cuyo estilo errático de conducción es la
pesadilla de los automovilistas), a la salud, a la educación, a la mejora de la
vivienda. Hay un colectivo de 200 mujeres que está construyendo un inmueble en
Caracas, en la avenida Francisco de Miranda (13). En La Pastora, Pacha Guzmán
resume: «Damos a las personas la oportunidad de participar en el tipo de
democracia que Chávez llamó a construir: es distinto de ir a votar y esperar que
el Gobierno se ocupe de todo».
Pero entonces, ¿Por qué tanto odio, según parece? Al pie de los inmuebles del
conjunto 23 de Enero, el diputado suplente del PSUV y director de la
Coordinadora Simón Bolívar, Juan Contreras, levanta los brazos en señal de
desesperación: «La oposición no soporta que las personas defiendan el proceso.
Entonces necesita estigmatizar, criminalizar a las organizaciones sociales que
han crecido al calor de la Revolución Bolivariana, como las comunidades, los
consejos comunales, y sobre todo los colectivos, que no son otra cosa que el
pueblo organizado».
Notas
(1) Leer de Maurice Lemoine « Stratégie de la tension », Mémoire des luttes 20
de febrero de 2014).
(2) La represión de un levantamiento popular en Caracas el 27 de febrero de
1989, según las fuentes, produjo entre 300 y, más probablemente, 3.000 muertos.
(3) Lina Ron: dirigente chavista particularmente radical, fallecida el 5 de
marzo de 2011.
(4) El presidente actual fue conductor de autobús y sindicalista.
(5) De enero a julio de 2014, en los diez barrios de Caracas establecidos bajo
la jurisdicción de la nueva Policía Nacional Bolivariana (PNB), la criminalidad
disminuyó un 33% con respecto al mismo período del año anterior, Ciudad Caracas,
11 de julio de 2014.
(6) El Nacional, Caracas, 15 de febrero de 2014.
(7) Zonas de patrullaje intensivo de la policía de proximidad.
(8) Literalmente «parroquia»: la menor unidad política-territorial. Caracas
tiene 32.
(9) 4 de febrero de 1992: golpe de Estado de Chávez contra el presidente Carlos
Andrés Pérez.
(10) Slate.fr, París, 21 de febrero de 2014.
(11) En primer lugar atribuido a un funcionario del Servicio Bolivariano de
Inteligencia Nacional (SEBIN), su muerte se atribuye ahora a otro dirigente de
colectivos, Hermes Barrera Niño, que clama su inocencia.
(12) Solo quedan en la actualidad 34 familias (trescientas personas). Las demás
están realojadas.
(13) Leer « Construyendo un sueño en manos de mujeres… », 28 de mayo de 2014.
Fuente: http://www.medelu.org/Les-colectivos-venezueliens-du
IN
REBELIÓN
http://rebelion.org/noticia.php?id=188243
9/8/2014
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
Profundizar el proceso de cambio desde los movimientos sociales
Alfredo Rada
¿Hay procesos revolucionarios que no tengan contradicciones internas? Por
supuesto que no, ni antes ni ahora, ni aquí ni en ninguna parte del mundo.
Precisamente la acción política transformadora consiste en comprender los
aspectos contradictorios (por tanto dialécticos) de la realidad
histórica-concreta para seguir transformándola. Quien busque procesos
unidireccionales en lo político y homogéneos en lo ideológico, caerá
inevitablemente en la decepción y el escepticismo, corto preámbulo hacia el
derrotismo y la capitulación.
Hace tres años el cuadro de situación era preocupante. La Central Obrera
Boliviana (COB) se había distanciado del Gobierno a raíz del “gasolinazo” del
2010. Esta ruptura con los sindicatos -a la que después se sumó otro quiebre con
los indígenas amazónicos por el conflicto del TIPNIS- debilitó al Bloque Social
Revolucionario conformado por los movimientos sociales indígenas, obreros y
populares que, entre los años 2006 al 2009, impulsó y respaldó las más
importantes medidas de cambio estructural tomadas durante ese período: en lo
económico la nacionalización de los hidrocarburos, en lo político la fundación
del Estado Plurinacional, comunitario y autonómico.
Había que reconstituir ese bloque para recuperar el impulso revolucionario; era
un objetivo de la mayor importancia que sólo pudo cumplirse una vez derrotada la
línea de ultraizquierda en la conducción cobista que llevó a la confrontación
por la Ley de Pensiones en mayo del año pasado. ¡Cuánto han cambiado las cosas
desde ese momento! La autocrítica gubernamental preservó la naturaleza del
gobierno de Evo como un Gobierno de los movimientos sociales. La autocrítica
sindical permitió la reinserción proletaria en el proceso para profundizarlo,
propugnando la aplicación de una agenda programática revolucionaria.
Luego se dieron las cosas como en cascada. El reencuentro de la COB con el
Gobierno reforzó a la Coordinadora Nacional por el Cambio (CONALCAM), que
incorpora en su seno, además de los sectores sindicalizados, a sectores que
responden a otras lógicas organizativas como las autoridades originarias de
pueblos indígenas, las juntas vecinales y juntas escolares urbanas, los
microempresarios y cooperativistas. La convocatoria conjunta de la COB y
CONALCAM posibilitó que el proceso vuelva a tener fuerza social movilizada en
las calles: recordemos la masiva concurrencia a la marcha del 1 de mayo del 2014
convocada por la COB en la ciudad de La Paz, o la multitud que colmó el Estadio
Tahuichi Aguilera en la ciudad de Santa Cruz en la apertura de la Cumbre del G77
+ China, en lo que fue una inédita acción de masas en tierras orientales.
El gobierno de Evo también se ha fortalecido, al expandir su base social de
respaldo entre los trabajadores lo que impactó positivamente en todo el campo
popular. Estos desplazamientos han reavivado el debate ideológico y
programático-estratégico, traducido en una pregunta: ¿hacia dónde va el proceso
de cambio?
Encandilados por el buen momento económico que vive el país, hay quienes
postulan que se trata de administrar la estabilidad y el crecimiento, ampliar
nuestra base productiva con mayores flujos de inversión interna y externa, y
fortalecer la redistribución del excedente. Esto, que no es malo en sí mismo,
constituye el núcleo de pensamiento del progresismo socialdemócrata, cuya arista
no revolucionaria radica en que va dejando de lado, hasta abandonar por
completo, cualquier programa de superación del sistema capitalista, y termina
asumiendo como propia la engañosa ficción de que estabilidad, crecimiento,
inversión, mayor producción y hasta redistribución se pueden alcanzar bajo este
sistema, eso sí dándole un aire más endógeno y regulando sus aspectos injustos.
El progresismo en economía con frecuencia va de la mano con el pragmatismo en
política; así por ejemplo la presencia de algunos invitados con trayectoria de
derecha en las listas electorales será presentada como un “acto de inclusión” y
no como una preocupante concesión ideológica.
Pero el recuperado protagonismo obrero y de los movimientos sociales
inevitablemente va a fortalecer otras tendencias ideológicas dentro del proceso
de cambio. Una muestra ya se vio en el “Encuentro Sindical Internacional
Antiimperialista” realizado en la ciudad de Cochabamba hace tres semanas. Este
evento, convocado por la Federación Sindical Mundial (FSM) y la Central Obrera
Boliviana (COB) con la adhesión del Gobierno de Bolivia, reunió a más de 1200
delegados de organizaciones sociales de todos los departamentos del país, así
como a un centenar de representantes sindicales llegados de casi toda
Latinoamérica, de Africa, Asia y Europa. El Encuentro aprobó una Tesis Política
en la que se puede leer lo siguiente: “Sin abandonar la lucha en defensa de las
condiciones materiales, los trabajadores debemos intervenir en la vida política
del país en nuestra condición de vanguardia revolucionaria. Vanguardia que en el
caso de Bolivia y otros países se complementa con el proyecto político de las
naciones y pueblos indígenas originarios y campesinos, que fusionan la lucha
sindical con lo comunitario bajo un horizonte de Socialismo Comunitario”.
Aquí está el presente vigoroso y el futuro esperanzador del proceso boliviano;
en estos planteamientos que defienden lo hasta aquí logrado (que no es poco) y
buscan la profundización de los cambios con su propia acción política desde los
movimientos sociales. Pero el discurso de profundización del proceso, si quiere
ganar mayor vitalidad, debe estar acompañado de propuestas programáticas que
apunten al mayor fortalecimiento del Estado con nuevas nacionalizaciones en
sectores estratégicos de la economía y nuevas industrias en petroquímica,
siderurgia, metalurgia y de alimentos procesados, a la transformación de las
relaciones capitalistas de producción en las empresas públicas, al
potenciamiento del sector social y comunitario de la economía a través de
proyectos productivos de carácter asociativo y que generen empleo, a la
revolución agraria que erradique las nuevas formas de latifundio y
extranjerización de la propiedad de la tierra surgidas en los últimos años, a la
soberanía alimentaria evitando las nuevas formas de monocultivo tanto en el
oriente (soya) como en el occidente (quinua) del país, a la defensa de la Madre
Tierra tanto de la contaminación minera como del severo impacto del consumo
irracional de recursos naturales en las ciudades.
Si los movimientos sociales mantienen la iniciativa político-programática se
convertirán en el principal factor de gobernabilidad democrática en el mediano
plazo, un factor imprescindible para la gestión del proceso.
Hoy que estamos ante la probabilidad de un nuevo triunfo de Evo Morales contra
una derecha que sigue buscando la brújula, nuestra mirada debe ir más allá del
cálculo electoralista. Hoy es el momento de cohesionar a los/as
revolucionarios/as en torno a ideas claras, organizarlos en estrecha relación
con los movimientos sociales y fortaleciendo al Movimiento al Socialismo (MAS)
en tanto instrumento político de esos movimientos.
Rebelión ha publicado este artículo con el permiso del autor mediante una
licencia de Creative Commons, respetando su libertad para publicarlo en otras
fuentes.
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Rebelión
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6/8/2014
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Un Programa para la toma del poder por el pueblo
Jorge Alcázar González
Rebelión
En 1938, León Trotsky escribe “El programa de Transición”, documento que servirá
de guía para cimentar los preceptos sobre los cuales ha de asentarse la Cuarta
Internacional Socialista. Hoy, casi 80 años después, la vigencia de las palabras
del gigante ruso asombra por su clarividencia y actualidad; y estas, pueden
servir de guía para los retos presentes y futuros que se plantean a la clase
trabajadora.
Para Trotsky, se hacía necesaria la construcción de un programa alternativo a
los dos planteamientos que la socialdemocracia clásica había confeccionado: el
programa de mínimos y el programa de máximos. El primero se “limitaba a reformas
en el marco de la sociedad burguesa”, mientras que el segundo “prometía la
sustitución del capitalismo por el socialismo en un futuro indeterminado”.
Durante las últimas décadas, el ala izquierda de la política española y por
ampliación europea, ha prescindido totalmente del segundo de los programas,
anclándose en la defensa de los postulados del primero e, incluso, renunciando a
éstos, como el caso de la socialdemocracia europea moderna ha venido a mostrar.
Muchos han sido los ejemplos que desde tiempo ha han enseñado como las fuerzas
políticas llamadas a ser la vanguardia de la clase trabajadora hicieron dejación
de funciones y sometieron su política y compromiso a una clase capitalista que,
de una forma u otra, vencía implacablemente los clásicos planteamientos de la
izquierda. El abandono en septiembre de 1979 de las tesis marxistas por parte
del PSOE, liderado por Felipe González; la corriente del eurocomunismo que asoló
a gran parte de los partidos comunistas de la Europa occidental, incluido España
con Carrillo a la cabeza; o la disolución en 1991 del PCI, tras la caída del
muro de Berlín, son algunos de los ejemplos que la historia reciente nos brinda
y que vienen a testimoniar la tendente inclinación en momentos decisivos y
convulsos de los líderes de la vanguardia de la clase trabajadora. Incluso
dentro de las corrientes actuales y de los partidos políticos situados en una
posición relativamente más cercana a la izquierda, el vértigo revolucionario de
los cuadros dirigentes es manifiesto y patente, como enseñan las controversias
surgidas en diferentes escenarios propiciados por acuerdos de gobierno con la
socialdemocracia o con la derecha (véase los pactos de gobierno en Andalucía o
en Extremadura). En este punto, conviene señalar que las causas del vértigo
anteriormente aludido son variadas, pero comparten una razón común: la falta de
fortaleza teórica y rigor práctico de los cuadros. No es objeto de este escrito
describir con detalle las anteriores, pero se hace necesario una reflexión al
respecto, pues el quehacer de los líderes de la izquierda tradicional ha
propiciado, entre otros males, la desorientación y falta de formación de la
clase trabajadora. Podemos decir, sin temor a equivocarnos, que aquellas fuerzas
dentro de la izquierda europea que ejercían con vocación de gobierno,
renunciaron al “programa máximo” e incluso minimizaron el mínimo, pues, citando
a Trotsky “…la socialdemocracia no necesita tal puente, ya que la palabra
socialismo le sirve sólo para las arengas domingueras”.
Los acontecimientos surgidos en los últimos años hacen más necesario que nunca
una revisión de las formas políticas, teóricas y prácticas, con las que la
vanguardia de la clase trabajadora, entendida ésta como estructura organizativa
de lucha, debe afrontar los retos del presente y del futuro. Día a día,
escenario a escenario, estado a estado, el capitalismo y el hijo nacido de éste,
el neoliberalismo, destruye derechos y libertades, asola sociedades, derrocha
recursos, empobrece a la multitud y enriquece al rico. Como una bestia que se
quiere cobrar su recompensa, en el breve lapso de tiempo de apenas dos décadas,
la faz de los países europeos ha sido transformada dando lugar a una masa
ingente de desempleados crónicos, desigualdades extremas, desaparición de
derechos laborales y sindicales, etc., a la par que la maquinaria diseñada por
el capital es alimentada cada vez más vorazmente con las carnes y los huesos de
la clase trabajadora. Citando de nuevo a Trotsky, “la burguesía retoma cada vez
con la mano derecha el doble de lo que ha dado con la izquierda (impuestos,
derechos aduaneros, inflación, deflación, carestía de la vida, paro,
reglamentación política de las huelgas, etc.)”.
Para el revolucionario ruso, la solución al problema pasaba por la implantación
de un programa de transición. Un puente entre el programa de mínimos y el de
máximos que, defendiendo infatigablemente los derechos democráticos y las
conquistas sociales, plantease un sistema de reivindicaciones transitorias, cuya
esencia se encierra en el hecho de que se orientarán cada vez más abierta y
decisivamente contra las bases mismas del régimen capitalista.
Desde el contexto histórico que nos contempla, la lectura anterior es
perfectamente aplicable y vigente. La alternativa política que hoy la izquierda
debe diseñar ha de pasar por la construcción de un programa de transición cuya
tarea consista en la movilización sistemática de la ciudadanía que derive en la
conquista del poder por la clase trabajadora. ¿Y cuáles son los ejes motrices de
esta movilización ciudadana? A diferencia de entonces, los postulados de partida
de la clase trabajadora hoy tienen una dimensión teórica mucho más tangible que
entonces. Nuestras leyes, a base del continuo vaivén de las fuerzas dinámicas
que mueven las palancas de la historia, facilitan el camino de la movilización
de las masas. La Constitución Española (al igual que la inmensa mayoría de
constituciones europeas) y la DDHH salvaguardan y protegen, en el contexto del
papel, derechos y reivindicaciones otrora revolucionarios. Éstas han de ser
entendidas no como un estadio final, si no como una herramienta estratégica de
lucha hacia el objetivo final. El derecho al empleo, a la vivienda, a la Sanidad
y la Educación, a la libertad de asociación e incluso a la rebelión, son
palancas de cambio que han de funcionar bajo el paraguas del nuevo Programa de
Transición que la vanguardia política de la clase trabajadora debe hacer
funcionar. Este programa ha sido ya puesto en práctica en fase experimental y de
forma conjunta por todos aquellos movimientos que formaron las Marchas de la
Dignidad 22 M. Nuestra tarea consiste hoy en trasladar a la ciudadanía que esos
mismos derechos incluidos en las cartas magnas, son violados sistemáticamente
porque el propio sistema capitalista es incapaz de asumirlos. Es nuestro deber,
obligación y camino mostrar a las sociedades europeas la confrontación directa,
en términos dialécticos, existente entre lo que ha venido a llamarse
Constitución “formal” y Constitución “material”. Nuestras exigencias,
contempladas y adoptadas en su día de común acuerdo con las clases
privilegiadas, son las propias contradicciones del sistema en que vivimos. Serán
los elementos estratégicos que permitan la conquista de dos escenarios
materiales y en orden temporal -la confluencia de las vanguardias sociales y
políticas y la mayoría social y ciudadana-, y que posibilitarán, en última
instancia, el objetivo final: la conquista del poder por el pueblo.
El Programa de Transición debe rotar sobre los siguientes argumentos:
1.- Empleo y condiciones decentes de vida para todos. Guerra sin cuartel a las
clases privilegiadas que, en connivencia con sus agentes políticos (reformistas,
democristianos y socialdemócratas) y a través de políticas neoliberales,
intentan hacer caer sobre las espaldas de la clase trabajadora todo el peso de
las crisis, el militarismo, la desorganización del sistema monetario y todos los
demás males derivados del sistema capitalista. Retomando a Trotsky, “… el
derecho al empleo es el único derecho serio dejado a los trabajadores en una
sociedad basada en la explotación”. Hay que renunciar tajantemente a las
políticas de subvención, subsidio y perpetuación de la pobreza en forma de
prestaciones asistenciales por desempleo. Hemos de levantar contra el desempleo,
tanto estructural como coyuntural, junto con la consigna de empleos públicos, la
de la reducción de la jornada laboral. Hoy más que nunca, las clases
privilegiadas aumentan bochornosamente sus riquezas. Cada vez, los productos de
lujo y superlujo llenan de oprobio nuestras vidas, colisionando frontalmente con
las necesidades al mismo tiempo más perentorias y dramáticas de millones de
seres humanos. Exigimos empleo, decencia y dignidad. Los pequeños propietarios
son arrastrados cada vez a mayor ritmo al saco de la pobreza, constituyéndose en
clase oprimida, al igual que el resto de asalariados, y todo ello propiciado por
un modelo económico que genera una dependencia casi esclavista de los primeros
para con los grandes grupos empresariales y financieros. Hemos se enseñar y
mostrar el futuro de estas clases medias y su condición de clase trabajadora. La
cuestión no está en una colisión “normal” entre intereses opuestos; la cuestión
está en preservar a la clase trabajadora del deterioro, la desmoralización y la
ruina. Se trata de una cuestión de vida o muerte para la única clase creadora y
progresiva, y, por ello, garante del futuro de la humanidad. Alegarán las clases
poseedoras, a través de sus economistas, abogados, periodistas y políticos
profesionales lo irrealizable de estas medidas, mas lo “lo realizable” o
“irrealizable” es, en este caso, una cuestión de relación de fuerzas que sólo la
lucha puede resolver. Nuestras reivindicaciones deben incidir sobre la
desaparición radical de esas bolsas de desempleo crónicas asentadas en las
sociedades europeas (14 % en España, 20 % en Grecia o más del 5 % de la media
europea, en términos de población activa) que han consolidado una red de pobreza
crónica que irá más allá de las generaciones presentes. De igual forma, nuestra
lucha sin tregua contra la nueva forma de empleo que se impone a los
trabajadores europeos en forma de lo que la oficialidad ha venido a llamar
subempleo, y que no es más que una consecuencia lógica e inmediata de las
políticas laborales en materia regulatoria. En el otro lado, el aumento en más
de un 15 % de la riqueza de los grandes patrimonios españoles, o el aumento
exponencial, en términos netos, de las grandes fortunas mundiales.
2.- Educación, Sanidad y Servicios Sociales. En su afán por capitalizar derechos
y ante la impasibilidad de las sociedades europeas, las viejas clases
privilegiadas han lanzado una ofensiva sin precedentes contra las conquistas
sociales de otros tiempos. Hoy, conscientes de que la correlación de fuerzas ha
cambiado, se apresuran en recuperar lo que entienden suyo. Los servicios
públicos de salud o educación van siendo cercenados progresivamente, llegándose
al extremo de que en muchos lugares de Europa, prácticamente son inexistentes.
Las vanguardias trabajadoras creadas alrededor de las demandas en este sentido
deben, en el período inmediato, consolidarse como instrumento de lucha. Las
mareas ciudadanas en todas sus variantes hoy son el embrión de los consejos
populares en los que la clase trabajadora construya la lucha del mañana, y deben
aspirar a la materialización de la organización de los trabajadores. Por ello,
el papel de las fuerzas políticas de la izquierda real siempre debe jugar del
lado de estas reivindicaciones y acciones. Los partidos que hoy aspiren a
construir y tomar el poder popular deben, innegociablemente, hacer una lucha
real y honesta en este sentido.
3.- Contra la corrupción. A la par que la correlación de fuerzas va cambiando,
las clases privilegiadas se sirven de este hecho para hundir sus tentáculos en
todos los órganos e instituciones de control. Es en ese momento cuando se hace
manifiesto que las leyes y normas que han servido en un momento determinado,
dejan de funcionar, en primera instancia de forma velada, para posteriormente
hacerlo a pecho descubierto. La corrupción es una condición necesaria del
capitalismo, pues los principios de legalidad vigentes en un contexto artificial
de entente entre clases sólo tienen rango de aplicación y validez en la medida
en que éstos pueden ser defendidos. Cuando el propio estado a través de sus
mecanismos oficiales y en aras de los intereses de las clases dominantes moldea
leyes, destruye derechos e impone restricciones a una mayoría, aquellos que se
encuentran en el otro lado de la plaza comienzan a jugar su particular juego. En
éste todo vale, pues los mecanismos del Estado están a su favor. Leyes,
tribunales, medios de comunicación, forman parte de un todo cuya única directriz
obedece a la de preservar los privilegios de una clase decadente y mezquina. Mas
si la correlación de fuerzas no varía, los niveles de corrupción van en aumento,
corriendo el riesgo de que las propias clases sociales fuera de los
privilegiados tiendan a resignarse e interiorizar esta misma corrupción como un
mal necesario. Es en ese sentido que las fuerzas dominantes intentan imbuir el
estado de ánimo necesario en la población para que esta amanse sus ansías de
justicia y aparque la reivindicación y la lucha por lo justo y necesario para
ella como clase. De aquí vienen los mensajes de nuestros gobernantes sobre el
fraude fiscal o el incumplimiento de normas constitucionales. Ante una
imposibilidad material, según ellos, es necesario e incluso conveniente mirar
hacia otro lado mientras las tropelías, corruptelas e ilegalidades tienen lugar.
Por el contrario, al pueblo llano se le exige un nivel cada vez mayor de
cinismo, pues a la par que bebe de aquellas aguas fecales, es castigado
arbitraria y desproporcionadamente cuando lucha por sus derechos.
4.- Las Marchas de la Dignidad 22M y las Mareas Ciudadanas. La sola presencia de
un o unos partidos políticos que luchen por el cambio no es suficiente hoy día
para que éste sea plausible. Se necesitan unos agentes externos pero
relacionados con éstos cuya labor primordial es la de construir la organización
y la lucha ciudadana. Un partido político o una coalición de éstos que llegue al
poder para compartirlo con el pueblo debe estar aupado por éste. Pero para ello,
debe existir un período previo en el cual se construyan los espacios de decisión
popular. Es necesario crear organizaciones ad hoc que abarquen a la ciudadanía
en lucha en su conjunto y que finalmente deriven en consejos populares. Hoy, el
camino iniciado por las diferentes mareas ha señalado la dirección a seguir. En
un nuevo impulso, el movimiento surgido en torno a las Marchas de la Dignidad es
un intento real de consolidar estos órganos de asociación, organización y lucha.
A la par que los partidos políticos revolucionarios deben alcanzar su madurez
como fuerzas de cambio, la confección y consolidación de estos espacios
ciudadanos es tarea primordial para la madurez del sujeto político que aúpe a
las fuerzas políticas necesarias al poder.
5.- Las experiencias de autogestión. Como elementos de lucha, las experiencias
de autogestión no sólo deben apoyarse, si no que deben ser propiciadas por los
agentes políticos de cambio. El control de la gestión por colectivos ciudadanos,
la capacidad de consenso, decisión y acción conjunta por partes de capas de la
sociedad inmovilizadas y resignadas, debe suponer una conquista fundamental para
el logro de nuestro objetivos. Experiencias como el Rey Heredia, La Corrala
Utopía, el barrio de Gamonal, o muchos más que en los últimos tiempos han tenido
lugar en España, no deben parecernos elementos aislados o espontáneos de lucha.
Se debe diseñar en este sentido una estrategia y planificación para llevar a
barrios y ciudades lugares en los que la autogestión acerque el pueblo al
pueblo, estrechando lazos de fraternidad y compromiso de clase.
6.- Expropiación de empresas estratégicas. Nuestro programa debe pasar
ineludiblemente por la expropiación forzosa de todas aquellas ramas industriales
estratégicas que hoy sirven como herramienta de enriquecimiento de unos pocos y
empobrecimiento de la mayoría social. Telecomunicaciones, Transportes,
Alimentación o Energía son sectores cuyo control ha de volver al pueblo. Ahora
bien, la nacionalización así entendida, no debe caer en trampas tales como
indemnizaciones o cantos de sirena lanzados desde los soportes políticos y
mediáticos de las clases privilegiadas. Sencillamente, reclamamos lo que es
nuestro y es necesario para nuestra supervivencia como clase trabajadora, y que
ha sido hurtado a través de privatizaciones sistemáticas en condiciones
ventajosas para los privilegiados y sus secuaces.
7.- Expropiación de la banca privada y estatización del sistema de créditos. Los
bancos concentran en sus manos el dominio real de la economía. Sin ésta, los
derechos, las leyes e incluso las dignidades son papel mojado. En su estructura,
los bancos expresan de forma concentrada la estructura completa del capital
moderno: combinan tendencias de monopolio con tendencias de anarquía. Organizan
los milagros tecnológicos, empresas gigantes, trusts poderosos; y organizan
también las crisis y el desempleo. Sólo la expropiación de la banca privada y la
concentración de todo el sistema de crédito en manos del Estado proporcionará a
este último los medios necesarios reales, es decir, materiales, para la
planificación económica. Mas la expropiación de los bancos no implicará en modo
alguno la expropiación de las cuentas bancarias. Sólo así el estado podrá
configurar una red de créditos en condiciones ventajosas para el pequeño
comercio y las pequeñas empresas y, en definitiva, unas mejores condiciones
materiales para el desarrollo de la clase trabajadora.
La participación estricta en este programa debe ser de obligado cumplimiento
para todas aquellas fuerzas políticas, del lado de la clase trabajadora, que
pretendan liderar el cambio de rumbo que nuestras sociedades reclaman. La
posesión de una visión clara, casi ascética del mismo, una convicción férrea en
aquello que perseguimos; elementos éstos que no propicien concesiones al
enemigo; es ahí donde hoy reside nuestra fuerza. Se ha de alertar de la flaqueza
ideológica de los cuadros dirigentes de los partidos que trabajen por el cambio
de sociedad. Por unos intereses u otros, estas vanguardias pueden, como la
historia ha demostrado, plegarse al poder de las clases privilegiadas, haciendo
un daño irreparable a los intereses de la clase trabajadora. Por ello, la
militancia debe hacer una vigilancia estrecha de las decisiones y acuerdos de
estos cuadros, a fin de corregir las posibles y probables desviaciones derivadas
del comportamiento de unas élites cuya talla no siempre estará en consonancia
con los acontecimientos históricos.
Nuestra decisión y vocación es férrea. Nuestro objetivo: conquistar el poder
popular.
Jorge Alcázar González. Colectivo Prometeo y FCSM
Rebelión ha publicado este artículo con el permiso del autor mediante una
licencia de Creative Commons, respetando su libertad para publicarlo en otras
fuentes.
In
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4/7/2014
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
Impossível pensar o futuro sem discutir a geopolítica mundial
Carlos Lessa: Impossível pensar o futuro sem discutir a geopolítica mundial
Carlos Lessa
“A verdade é que se houvesse uma redução significativa do valor da dívida das
famílias, das empresas e dos Estados nacionais, haveria naturalmente, sem grande
trauma, uma mudança no perfil de retração da riqueza do mundo.” A declaração é
do economista Carlos Lessa à IHU On-Line, ao comentar as razões de ainda haver
tantas desigualdades sociais no mundo. Segundo ele, “o que a história está
mostrando é que os comandos desse sistema financeiro assumiram o comando da
economia mundial, porque é muito difícil mexer no valor dessa dívida”.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone, o ex-presidente do Banco
Nacional de Desenvolvimento (BNDES) menciona a dívida da Argentina como um
exemplo que diz “respeito à saúde do mundo como um todo; [...] ela é uma espécie
de preliminar das dificuldades que estão à frente”. E alfineta: “Se 93%
aceitaram a proposta argentina e estão recebendo segundo essa proposta, como 7%
podem derrubar tudo?”.
Lessa também comenta a criação do banco do Brics como uma possibilidade de
“restabelecer liquidações compensatórias de dinheiro entre as moedas dos países
do Brics”. Entretanto, enfatiza, “se ele fizer isso, já está introduzindo uma
dimensão importante no jogo financeiro mundial. E minha pergunta é: Vão fazer ou
não vão fazer? É a sério ou não é a sério? Porque isso já é uma tentativa de
reduzir o peso do dólar e eu não vejo como os americanos concordam com isso
tranquilamente”. E cutuca: “A presidenta Dilma foi à última reunião de Davos
dizer que o Brasil está inteiramente consciente e subordinado à ideia do
Consenso de Washington, mas aí esse sistema de compensações monetárias entre as
moedas do Brics não é o que Washington quer; por outro lado, o silêncio
brasileiro com respeito à questão argentina — o nosso comportamento está sendo
muito encabulado e retraído — é o que Washington quer. Então, eu não sei e a
pessoa (Dilma) para mim também não sabe, apesar de estar perdendo o campeonato”.
Segundo ele, apesar de a população ter melhorado o padrão de vida nos governos
Lula e Dilma, especialmente no que se refere à distribuição da renda, “o governo
do PT não usou esse ‘oxigênio’ que o Brasil teve para dar sustentabilidade no
longo prazo à melhoria”. Na avaliação dele, “para frente, o Brasil vai se
confrontar com um problema muito sério: um pedaço enorme do patrimônio das
empresas brasileiras, das empresas que estão no Brasil, dos bancos brasileiros e
das famílias ricas está apoiado na dívida das famílias pobres que se endividaram
para comprar automóvel, geladeira e mobiliário. Então, terá uma queda de braço
para frente no país”.
Defensor de um projeto nacional, Carlos Lessa é categórico quanto ao assunto:
“Nós estamos órfãos de um projeto nacional. Agora, é evidente que qualquer
projeto nacional começa por projetar o Brasil do futuro. (...) Nós fomos achando
que é possível tocar o futuro sem discutir o futuro, então é complicado”. E
conclui: “Pelo menos três dos grandes países periféricos do mundo têm projetos
nacionais claros, enquanto o Brasil não tem nenhum. Nós nem sequer discutimos a
geopolítica mundial; nós não temos posicionamento nenhum”.
Confira a entrevista.
Como, na Economia, se define e se entende o conceito de “desigualdade”?
Carlos Lessa – Colocando-se a ideia de renda, a desigualdade se mede por
diversos coeficientes, que medem a dispersão das extremidades em relação ao
valor médio. Isso são estudos de distribuição de renda, desenvolvidos há muito
tempo, em 30, 40 países do mundo.
Agora, o que não se faz — e essa é a dimensão que está sendo levantada para
discussão — é a distribuição do patrimônio, ou seja, tudo aquilo que representa
a chamada riqueza do indivíduo. Nesse sentido, a riqueza do indivíduo pode ir
desde a sua casa própria e o que está nela até participações percentuais nas
empresas — que são as participações societárias — e participações da dívida que
outros têm; esses outros podem ser famílias, empresas e Estados nacionais.
Então, essa dívida também faz parte da riqueza.
Estudos recentes demonstraram que, embora a distribuição de renda tenha
melhorado em diversos países — principalmente nos chamados de primeiro mundo —,
a distribuição do patrimônio não melhorou. Ou seja, apesar de uma quantidade
crescente de famílias do primeiro mundo possuir casa própria, há um crescimento
enorme da dívida das famílias, das empresas e dos Estados nacionais, e essa nova
dívida, que faz parte do patrimônio, cresce em uma velocidade tal, que o
patrimônio se mantém praticamente o mesmo.
E como o senhor vê essa má distribuição do patrimônio?
A verdade é que se houvesse uma redução significativa do valor da dívida das
famílias, das empresas e dos Estados nacionais, haveria naturalmente, sem grande
trauma, uma mudança no perfil de retração da riqueza do mundo. Agora, o que a
história está mostrando é que os comandos desse sistema financeiro assumiram o
comando da economia mundial, porque é muito difícil mexer no valor dessa dívida.
Por exemplo, o que está acontecendo com a Argentina, hoje, é uma tentativa de
forçá-la a pagar por uma dívida que foi contraída no passado. Porque, na
verdade, no momento em que se diz que a dívida pode não ser paga, retira-se dela
o valor patrimonial que ela tem. Essa questão da Argentina diz respeito à saúde
do mundo como um todo; não acho que ela vá definir o futuro da humanidade, mas é
uma espécie de preliminar das dificuldades que estão à frente.
Nesse sentido, o valor que está sendo cobrado da dívida da Argentina é
equivocado?
É totalmente equivocado; estou do lado da posição argentina. A Argentina
negociou uma redução da dívida numa situação em que está fracamente destruída
como país e essa negociação foi aceita por 93% dos diretores; 7% não opinaram
porque os fundos abutres compraram. A Justiça norte-americana diz que a
Argentina deve pagar a dívida integralmente e com prioridade para esses 7%. Isso
é algo absolutamente espantoso, porque se 93% aceitaram a proposta argentina e
estão recebendo segundo essa proposta, como 7% podem derrubar tudo? Então, por
isso, uma das coisas mais interessantes que aconteceram nas últimas semanas foi
o fato de os países latino-americanos da Organização dos Estados Americanos
(OEA) terem votado a favor da Argentina e depois repetirem o gesto quando houve
esse encontro do Brics em Fortaleza. Trata-se de um recado dizendo para ter
cuidado, porque o tamanho dessa dívida colossal faz com que necessariamente um
pedaço dela seja desvalorizado.
Como vê a criação do banco do Brics?
Estou cheio de dúvidas a respeito. Em uma primeira aproximação, a ideia do Brics
é uma ideia geopolítica de criar uma terceira interlocução em nível mundial.
Então, por esse lado, o Brics tem importância geopolítica para o Brasil. Agora,
se vai ter importância econômica, tenho minhas dúvidas. O que o banco do Brics
pode fazer é restabelecer liquidações compensatórias de dinheiro entre as moedas
dos países do Brics. Se ele fizer isso, já está introduzindo uma dimensão
importante no jogo financeiro mundial. E minha pergunta é: Vão fazer ou não vão
fazer? É a sério ou não é a sério? Porque isso já é uma tentativa de reduzir o
peso do dólar e eu não vejo como os americanos concordam com isso
tranquilamente.
Mas fala-se também que o banco tem o objetivo de financiar projetos de
infraestrutura entre os países.
Esse é o pretexto que está por trás da ideia de criar um sistema de compensações
monetárias que não esteja baseado no dólar. Agora o pretexto para criar o banco
é o pretexto que pode financiar projetos de infraestrutura a longo prazo sem
lançar mão de reserva de dólar. Isso reduz o peso do dólar e é um efeito
político ou geopolítico importante para um banco. Contudo, quero ver se ele é
real mesmo; não é que eu queira ser São Tomé (ver para crer), eu só quero ver
como isso vai se desdobrar.
Porque, por exemplo, a presidenta Dilma foi à última reunião de Davos dizer que
o Brasil está inteiramente consciente e subordinado à ideia do Consenso de
Washington, mas aí esse sistema de compensações monetárias entre as moedas do
Brics não é o que Washington quer; por outro lado, o silêncio brasileiro com
respeito à questão argentina — o nosso comportamento está sendo muito encabulado
e retraído — é o que Washington quer. Então, eu não sei e a pessoa (Dilma) para
mim também não sabe, apesar de estar perdendo o campeonato.
Qual é o papel do Brics na arquitetura financeira internacional?
Ainda não tem, mas se ele montar esse sistema de compensações bilaterais,
passará a ter. Quer dizer, tem um lado aí que achei muito interessante nesse
encontro do Brics, o de sair um financiamento para a Argentina. Outra ação
interessante — e há tempo gosto muito do que a diplomacia brasileira faz — foi,
na reunião da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e do Mercado Comum do Sul
(Mercosul), colocar os países sul-americanos e seus presidentes junto aos
presidentes do Brics. Isso foi um gesto político muito bonito e muito
importante, porque marcou certa posição, mas por enquanto estamos na retórica.
O senhor leu o livro Capital in the Twenty-First Century [O capital no século
XXI] de Thomas Piketty? Quais suas impressões?
Li alguns trechos. Não li todo, pois estou com descolamento da retina. Piketty
fez diversos exercícios lançando mão das informações disponíveis para demonstrar
isso que eu disse a você, ou seja, que a destruição da riqueza do patrimônio não
se modificou, apesar de haver melhorias na distribuição de renda.
Quais são as principais dificuldades do Brasil em relação às desigualdades?
Os programas que o governo do PT implantou desde 2002, desde o primeiro mandato
do Lula, do segundo mandato dele e do início do mandato da presidenta Dilma,
tiveram um efeito importante do ponto de vista de distribuição de renda, somente
isso. Como o Brasil teve uma melhoria espetacular na sua relação de trocas com o
mundo, porque os produtos que o Brasil vendia para o mundo se valorizaram —
tecnicamente nós dizemos que a relação de troca foi extremamente favorável para
o Brasil até 2008, 2009 —, os governos do PT aproveitaram para tocar para frente
uma política de distribuição.
Ou seja, melhoraram muito significativamente o salário mínimo real, que é a
chave da disfunção de renda para a baixa renda do Brasil, que é o indexador
geral de todos que têm ou não carteira assinada, e criou alguns programas de
assistência social, como o Programa Bolsa Família, e isso melhorou a base da
população brasileira.
É impressionante como as pessoas melhoraram o seu padrão de vida. Só que o
problema é o seguinte: o governo do PT não usou esse “oxigênio” que o Brasil
teve para dar sustentabilidade no longo prazo à melhoria. Agora, para a frente,
o Brasil vai se confrontar com um problema muito sério: um pedaço enorme do
patrimônio das empresas brasileiras, das empresas que estão no Brasil, dos
bancos brasileiros e das famílias ricas está apoiado na dívida das famílias
pobres que se endividaram para comprar automóvel, geladeira e mobiliário. Então,
terá uma queda de braço para frente no país. Mas o que acho engraçado é que a
disputa eleitoral brasileira nem tocou nesse assunto. Sou muito simpático que a
universidade esteja preocupada em discutir isso, porque a universidade tem de
criar uma geração que saiba pensar e saiba pensar o Brasil, um Brasil no mundo e
um Brasil voltado aos brasileiros. Essa discussão é fundamental.
O senhor é um defensor do desenvolvimento de um projeto nacional. Em que medida
esse projeto pode ter implicações na superação das desigualdades? E em relação a
isso, existe no Brasil algum projeto nacional?
Não. Nós estamos órfãos de um projeto nacional. Agora, é evidente que qualquer
projeto nacional começa por projetar o Brasil do futuro, o Brasil utópico, o
Brasil que nós sonhamos. Eu sonho com um Brasil em que as desigualdades sociais
sejam relativamente pequenas, com um Brasil em que todos os brasileiros tenham
acesso à casa própria, tenham uma educação de qualidade, acesso à saúde,
possibilidade de utilizar o seu tempo para absorver os bens culturais ou
simplesmente ao lazer. Eu sonho com um Brasil que seja justo para os brasileiros
e não acho que o Brasil é justo com os brasileiros. O país vai ter de discutir
isso, só que essa discussão nem sequer começou.
Há muitos anos eu já disse que nós caminhávamos imensuravelmente para a
desaceleração da economia e, infelizmente, tudo que imaginei aconteceu. Hoje o
Brasil está tendo dificuldades imensas de manter se movendo como estava se
movendo. Talvez isso tenha um lado muito ruim, porque gera uma perplexidade, uma
angústia, uma interrogação forte para as pessoas, uma insegurança das pessoas em
relação ao seu “estar no mundo”, mas, por outro lado, pode ser que force as
pessoas a discutir que futuro se pensa para o Brasil, porque até agora essa
discussão não existe.
Esse é um problema do Brasil ou há um limite de se ter um projeto nacional em
tempo de globalização?
Isso não é verdade, porque existem muitos países que estão na globalização e
estão perseguindo projetos nacionais. O exemplo principal é a China, mas diria
que de certa maneira a Índia e a Rússia também têm projetos nacionais. Então,
pelo menos três dos grandes países periféricos do mundo têm projetos nacionais
claros, enquanto o Brasil não tem nenhum. Nós nem sequer discutimos a
geopolítica mundial; nós não temos posicionamento nenhum. Por exemplo, qual é o
posicionamento dos brasileiros com respeito ao que vem acontecendo na Argentina?
A impressão que eu tenho é de que nenhum — apesar de vocês estarem aí no Rio
Grande do Sul. Qual é o posicionamento dos brasileiros a respeito do que vem
acontecendo na Ucrânia? Zero; nem se debate. Quem está discutindo no Brasil o
projeto eurasiano que Vladimir Putin está desenvolvendo? Ninguém. Só que esse
projeto vai levar a Rússia a se aliar ao Japão, por um lado, e à China, por
outro, colocando a Europa na dependência total da Rússia. Nós estamos discutindo
isso? Não. A rota dos navios que liga o Japão com a Europa vai agora passar a
ser pelo Ártico, porque com o degelo e as frotas de quebra-gelo russas isso se
torna possível. Só que essa rota, que é ótima para o Japão, que encolhe sete mil
léguas submarinas a distância entre o Japão e a Europa é péssima para o Brasil,
porque nos desloca mais para a periferia do mundo. Estão discutindo isso? Não.
Nós fomos achando que é possível tocar o futuro sem discutir o futuro, então é
complicado.
Pode dar outros exemplos dos projetos nacionais desses países?
Claro. O projeto da China é óbvio: quer voltar a ser o império asiático e
mundial. Para isso, combina três dimensões: procurar ter supremacia no comércio
mundial, exportando produtos industrializados e importando matérias-primas de
alimentos; quer estar na vanguarda tecnológica do mundo, usando os poderes que
dispõe para empurrar a tecnologia para frente e quer, de maneira muito clara,
dominar totalmente a esfera asiática. E nós não temos nenhum projeto, nem com
respeito às relações com a Argentina nós temos um projeto claro.
O senhor é bastante getulista...
Total. Mas nós não podemos fazer invocações de fantasmas, pois nenhum fantasma
se materializa. Getúlio foi uma liderança inquestionável para esse país. Eu
gosto de dizer que com Getúlio, contra Getúlio e sem Getúlio, o Brasil se moveu
50 anos para perseguir a industrialização. E, a partir do governo de Collor de
Mello, o Brasil não persegue nada.
Depois dele, quais presidentes pensaram em um projeto de nação?
Ele foi o presidente brasileiro mais consistente e coerente nisso. Eu diria que
o Rodrigues Alves [1], de certa maneira, e o mineiro Arthur Bernardes [2] tinham
visões claras da necessidade de um projeto nacional. Mas, quem adotou
integralmente e foi fiel ao projeto nacional, foi Getúlio.
Alguns tentam comparar ou fazer alguma aproximação entre Lula e Getúlio. Como vê
essa tentativa?
Essa comparação não dá certo e é complicada por uma razão: o PT tentou se criar
“anti-Getúlio”. Eu lembro do Lula dizendo a seguinte frase: “A Consolidação das
Leis do Trabalho (CLT) é o AI-5 dos trabalhadores”. Ou seja, para ele, a CLT
impediria qualquer ingerência dos trabalhadores em seu futuro. O PT era
antigetulista e depois começou a diminuir um pouco isso, mas ao mesmo tempo
pegou do pragmatismo de Getúlio a pior de todas as dimensões, porque Getúlio era
pragmático nas alianças que fazia, mas apesar das alianças, ele nunca permitiu
dissolver os objetivos nacionais. Enquanto isso, o PT vende o petróleo no leilão
de Libra. Getúlio nunca permitiu que a privatização fosse um elemento pragmático
a ser negociado; soberania nacional sempre foi fundamental para Getúlio. E esse
conceito nem existe no governo Lula.
Eu não estou querendo polemizar com o PT; minha preocupação é outra. Minha
preocupação é que os estudantes da universidade, os gaúchos, que são a vanguarda
do pensamento nacional brasileiro, voltem a discutir o projeto Brasil; mesmo que
vocês troquem desaforos entre vocês, são obrigados a explicitar os debates.
O Brasil quer ser uma Porto Rico enorme do Atlântico Sul? Ou o país quer ter uma
grande importância na formação de um continente sul-americano unificado? Se for
isso, nós temos de cuidar a visão da Argentina que o Brasil tem. Eu fico
encabulado em ver o Chile assumindo mais defesa da Argentina hoje do que o
Brasil. Nesse sentido, os gaúchos são a grande fronteira de nacionalismo do
Brasil.
Como o senhor vê as campanhas à Presidência da República? Algum candidato
apresenta ou tem em perspectiva um projeto de nação?
Não. Uma das minhas angústias é que o desdobramento da campanha presidencial não
está absolutamente politizando o Brasil no bom sentido. O que está acontecendo
agora é uma competição para saber quem é cúmplice do mensalão, para descobrir
algo sobre o aeroporto do Aécio, algo contra o Eduardo, amanhã talvez apareça
algo contra a Dilma e vai ficar nisso. Isso não é absolutamente uma discussão
política; é uma discussão que não explicita as escolhas que o Brasil tem de
fazer. E se a opinião pública mantiver a posição, como está hoje, de que os
políticos são a mesma coisa e que os partidos políticos não servem para nada, eu
não sei o que vai acontecer; vamos numa conjuntura internacional muito difícil.
In
Carta Maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Carlos-Lessa-Impossivel-pensar-o-futuro-sem-discutir-a-geopolitica-mundial/4/31500
31/7/2014
Carlos Lessa
“A verdade é que se houvesse uma redução significativa do valor da dívida das
famílias, das empresas e dos Estados nacionais, haveria naturalmente, sem grande
trauma, uma mudança no perfil de retração da riqueza do mundo.” A declaração é
do economista Carlos Lessa à IHU On-Line, ao comentar as razões de ainda haver
tantas desigualdades sociais no mundo. Segundo ele, “o que a história está
mostrando é que os comandos desse sistema financeiro assumiram o comando da
economia mundial, porque é muito difícil mexer no valor dessa dívida”.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone, o ex-presidente do Banco
Nacional de Desenvolvimento (BNDES) menciona a dívida da Argentina como um
exemplo que diz “respeito à saúde do mundo como um todo; [...] ela é uma espécie
de preliminar das dificuldades que estão à frente”. E alfineta: “Se 93%
aceitaram a proposta argentina e estão recebendo segundo essa proposta, como 7%
podem derrubar tudo?”.
Lessa também comenta a criação do banco do Brics como uma possibilidade de
“restabelecer liquidações compensatórias de dinheiro entre as moedas dos países
do Brics”. Entretanto, enfatiza, “se ele fizer isso, já está introduzindo uma
dimensão importante no jogo financeiro mundial. E minha pergunta é: Vão fazer ou
não vão fazer? É a sério ou não é a sério? Porque isso já é uma tentativa de
reduzir o peso do dólar e eu não vejo como os americanos concordam com isso
tranquilamente”. E cutuca: “A presidenta Dilma foi à última reunião de Davos
dizer que o Brasil está inteiramente consciente e subordinado à ideia do
Consenso de Washington, mas aí esse sistema de compensações monetárias entre as
moedas do Brics não é o que Washington quer; por outro lado, o silêncio
brasileiro com respeito à questão argentina — o nosso comportamento está sendo
muito encabulado e retraído — é o que Washington quer. Então, eu não sei e a
pessoa (Dilma) para mim também não sabe, apesar de estar perdendo o campeonato”.
Segundo ele, apesar de a população ter melhorado o padrão de vida nos governos
Lula e Dilma, especialmente no que se refere à distribuição da renda, “o governo
do PT não usou esse ‘oxigênio’ que o Brasil teve para dar sustentabilidade no
longo prazo à melhoria”. Na avaliação dele, “para frente, o Brasil vai se
confrontar com um problema muito sério: um pedaço enorme do patrimônio das
empresas brasileiras, das empresas que estão no Brasil, dos bancos brasileiros e
das famílias ricas está apoiado na dívida das famílias pobres que se endividaram
para comprar automóvel, geladeira e mobiliário. Então, terá uma queda de braço
para frente no país”.
Defensor de um projeto nacional, Carlos Lessa é categórico quanto ao assunto:
“Nós estamos órfãos de um projeto nacional. Agora, é evidente que qualquer
projeto nacional começa por projetar o Brasil do futuro. (...) Nós fomos achando
que é possível tocar o futuro sem discutir o futuro, então é complicado”. E
conclui: “Pelo menos três dos grandes países periféricos do mundo têm projetos
nacionais claros, enquanto o Brasil não tem nenhum. Nós nem sequer discutimos a
geopolítica mundial; nós não temos posicionamento nenhum”.
Confira a entrevista.
Como, na Economia, se define e se entende o conceito de “desigualdade”?
Carlos Lessa – Colocando-se a ideia de renda, a desigualdade se mede por
diversos coeficientes, que medem a dispersão das extremidades em relação ao
valor médio. Isso são estudos de distribuição de renda, desenvolvidos há muito
tempo, em 30, 40 países do mundo.
Agora, o que não se faz — e essa é a dimensão que está sendo levantada para
discussão — é a distribuição do patrimônio, ou seja, tudo aquilo que representa
a chamada riqueza do indivíduo. Nesse sentido, a riqueza do indivíduo pode ir
desde a sua casa própria e o que está nela até participações percentuais nas
empresas — que são as participações societárias — e participações da dívida que
outros têm; esses outros podem ser famílias, empresas e Estados nacionais.
Então, essa dívida também faz parte da riqueza.
Estudos recentes demonstraram que, embora a distribuição de renda tenha
melhorado em diversos países — principalmente nos chamados de primeiro mundo —,
a distribuição do patrimônio não melhorou. Ou seja, apesar de uma quantidade
crescente de famílias do primeiro mundo possuir casa própria, há um crescimento
enorme da dívida das famílias, das empresas e dos Estados nacionais, e essa nova
dívida, que faz parte do patrimônio, cresce em uma velocidade tal, que o
patrimônio se mantém praticamente o mesmo.
E como o senhor vê essa má distribuição do patrimônio?
A verdade é que se houvesse uma redução significativa do valor da dívida das
famílias, das empresas e dos Estados nacionais, haveria naturalmente, sem grande
trauma, uma mudança no perfil de retração da riqueza do mundo. Agora, o que a
história está mostrando é que os comandos desse sistema financeiro assumiram o
comando da economia mundial, porque é muito difícil mexer no valor dessa dívida.
Por exemplo, o que está acontecendo com a Argentina, hoje, é uma tentativa de
forçá-la a pagar por uma dívida que foi contraída no passado. Porque, na
verdade, no momento em que se diz que a dívida pode não ser paga, retira-se dela
o valor patrimonial que ela tem. Essa questão da Argentina diz respeito à saúde
do mundo como um todo; não acho que ela vá definir o futuro da humanidade, mas é
uma espécie de preliminar das dificuldades que estão à frente.
Nesse sentido, o valor que está sendo cobrado da dívida da Argentina é
equivocado?
É totalmente equivocado; estou do lado da posição argentina. A Argentina
negociou uma redução da dívida numa situação em que está fracamente destruída
como país e essa negociação foi aceita por 93% dos diretores; 7% não opinaram
porque os fundos abutres compraram. A Justiça norte-americana diz que a
Argentina deve pagar a dívida integralmente e com prioridade para esses 7%. Isso
é algo absolutamente espantoso, porque se 93% aceitaram a proposta argentina e
estão recebendo segundo essa proposta, como 7% podem derrubar tudo? Então, por
isso, uma das coisas mais interessantes que aconteceram nas últimas semanas foi
o fato de os países latino-americanos da Organização dos Estados Americanos
(OEA) terem votado a favor da Argentina e depois repetirem o gesto quando houve
esse encontro do Brics em Fortaleza. Trata-se de um recado dizendo para ter
cuidado, porque o tamanho dessa dívida colossal faz com que necessariamente um
pedaço dela seja desvalorizado.
Como vê a criação do banco do Brics?
Estou cheio de dúvidas a respeito. Em uma primeira aproximação, a ideia do Brics
é uma ideia geopolítica de criar uma terceira interlocução em nível mundial.
Então, por esse lado, o Brics tem importância geopolítica para o Brasil. Agora,
se vai ter importância econômica, tenho minhas dúvidas. O que o banco do Brics
pode fazer é restabelecer liquidações compensatórias de dinheiro entre as moedas
dos países do Brics. Se ele fizer isso, já está introduzindo uma dimensão
importante no jogo financeiro mundial. E minha pergunta é: Vão fazer ou não vão
fazer? É a sério ou não é a sério? Porque isso já é uma tentativa de reduzir o
peso do dólar e eu não vejo como os americanos concordam com isso
tranquilamente.
Mas fala-se também que o banco tem o objetivo de financiar projetos de
infraestrutura entre os países.
Esse é o pretexto que está por trás da ideia de criar um sistema de compensações
monetárias que não esteja baseado no dólar. Agora o pretexto para criar o banco
é o pretexto que pode financiar projetos de infraestrutura a longo prazo sem
lançar mão de reserva de dólar. Isso reduz o peso do dólar e é um efeito
político ou geopolítico importante para um banco. Contudo, quero ver se ele é
real mesmo; não é que eu queira ser São Tomé (ver para crer), eu só quero ver
como isso vai se desdobrar.
Porque, por exemplo, a presidenta Dilma foi à última reunião de Davos dizer que
o Brasil está inteiramente consciente e subordinado à ideia do Consenso de
Washington, mas aí esse sistema de compensações monetárias entre as moedas do
Brics não é o que Washington quer; por outro lado, o silêncio brasileiro com
respeito à questão argentina — o nosso comportamento está sendo muito encabulado
e retraído — é o que Washington quer. Então, eu não sei e a pessoa (Dilma) para
mim também não sabe, apesar de estar perdendo o campeonato.
Qual é o papel do Brics na arquitetura financeira internacional?
Ainda não tem, mas se ele montar esse sistema de compensações bilaterais,
passará a ter. Quer dizer, tem um lado aí que achei muito interessante nesse
encontro do Brics, o de sair um financiamento para a Argentina. Outra ação
interessante — e há tempo gosto muito do que a diplomacia brasileira faz — foi,
na reunião da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e do Mercado Comum do Sul
(Mercosul), colocar os países sul-americanos e seus presidentes junto aos
presidentes do Brics. Isso foi um gesto político muito bonito e muito
importante, porque marcou certa posição, mas por enquanto estamos na retórica.
O senhor leu o livro Capital in the Twenty-First Century [O capital no século
XXI] de Thomas Piketty? Quais suas impressões?
Li alguns trechos. Não li todo, pois estou com descolamento da retina. Piketty
fez diversos exercícios lançando mão das informações disponíveis para demonstrar
isso que eu disse a você, ou seja, que a destruição da riqueza do patrimônio não
se modificou, apesar de haver melhorias na distribuição de renda.
Quais são as principais dificuldades do Brasil em relação às desigualdades?
Os programas que o governo do PT implantou desde 2002, desde o primeiro mandato
do Lula, do segundo mandato dele e do início do mandato da presidenta Dilma,
tiveram um efeito importante do ponto de vista de distribuição de renda, somente
isso. Como o Brasil teve uma melhoria espetacular na sua relação de trocas com o
mundo, porque os produtos que o Brasil vendia para o mundo se valorizaram —
tecnicamente nós dizemos que a relação de troca foi extremamente favorável para
o Brasil até 2008, 2009 —, os governos do PT aproveitaram para tocar para frente
uma política de distribuição.
Ou seja, melhoraram muito significativamente o salário mínimo real, que é a
chave da disfunção de renda para a baixa renda do Brasil, que é o indexador
geral de todos que têm ou não carteira assinada, e criou alguns programas de
assistência social, como o Programa Bolsa Família, e isso melhorou a base da
população brasileira.
É impressionante como as pessoas melhoraram o seu padrão de vida. Só que o
problema é o seguinte: o governo do PT não usou esse “oxigênio” que o Brasil
teve para dar sustentabilidade no longo prazo à melhoria. Agora, para a frente,
o Brasil vai se confrontar com um problema muito sério: um pedaço enorme do
patrimônio das empresas brasileiras, das empresas que estão no Brasil, dos
bancos brasileiros e das famílias ricas está apoiado na dívida das famílias
pobres que se endividaram para comprar automóvel, geladeira e mobiliário. Então,
terá uma queda de braço para frente no país. Mas o que acho engraçado é que a
disputa eleitoral brasileira nem tocou nesse assunto. Sou muito simpático que a
universidade esteja preocupada em discutir isso, porque a universidade tem de
criar uma geração que saiba pensar e saiba pensar o Brasil, um Brasil no mundo e
um Brasil voltado aos brasileiros. Essa discussão é fundamental.
O senhor é um defensor do desenvolvimento de um projeto nacional. Em que medida
esse projeto pode ter implicações na superação das desigualdades? E em relação a
isso, existe no Brasil algum projeto nacional?
Não. Nós estamos órfãos de um projeto nacional. Agora, é evidente que qualquer
projeto nacional começa por projetar o Brasil do futuro, o Brasil utópico, o
Brasil que nós sonhamos. Eu sonho com um Brasil em que as desigualdades sociais
sejam relativamente pequenas, com um Brasil em que todos os brasileiros tenham
acesso à casa própria, tenham uma educação de qualidade, acesso à saúde,
possibilidade de utilizar o seu tempo para absorver os bens culturais ou
simplesmente ao lazer. Eu sonho com um Brasil que seja justo para os brasileiros
e não acho que o Brasil é justo com os brasileiros. O país vai ter de discutir
isso, só que essa discussão nem sequer começou.
Há muitos anos eu já disse que nós caminhávamos imensuravelmente para a
desaceleração da economia e, infelizmente, tudo que imaginei aconteceu. Hoje o
Brasil está tendo dificuldades imensas de manter se movendo como estava se
movendo. Talvez isso tenha um lado muito ruim, porque gera uma perplexidade, uma
angústia, uma interrogação forte para as pessoas, uma insegurança das pessoas em
relação ao seu “estar no mundo”, mas, por outro lado, pode ser que force as
pessoas a discutir que futuro se pensa para o Brasil, porque até agora essa
discussão não existe.
Esse é um problema do Brasil ou há um limite de se ter um projeto nacional em
tempo de globalização?
Isso não é verdade, porque existem muitos países que estão na globalização e
estão perseguindo projetos nacionais. O exemplo principal é a China, mas diria
que de certa maneira a Índia e a Rússia também têm projetos nacionais. Então,
pelo menos três dos grandes países periféricos do mundo têm projetos nacionais
claros, enquanto o Brasil não tem nenhum. Nós nem sequer discutimos a
geopolítica mundial; nós não temos posicionamento nenhum. Por exemplo, qual é o
posicionamento dos brasileiros com respeito ao que vem acontecendo na Argentina?
A impressão que eu tenho é de que nenhum — apesar de vocês estarem aí no Rio
Grande do Sul. Qual é o posicionamento dos brasileiros a respeito do que vem
acontecendo na Ucrânia? Zero; nem se debate. Quem está discutindo no Brasil o
projeto eurasiano que Vladimir Putin está desenvolvendo? Ninguém. Só que esse
projeto vai levar a Rússia a se aliar ao Japão, por um lado, e à China, por
outro, colocando a Europa na dependência total da Rússia. Nós estamos discutindo
isso? Não. A rota dos navios que liga o Japão com a Europa vai agora passar a
ser pelo Ártico, porque com o degelo e as frotas de quebra-gelo russas isso se
torna possível. Só que essa rota, que é ótima para o Japão, que encolhe sete mil
léguas submarinas a distância entre o Japão e a Europa é péssima para o Brasil,
porque nos desloca mais para a periferia do mundo. Estão discutindo isso? Não.
Nós fomos achando que é possível tocar o futuro sem discutir o futuro, então é
complicado.
Pode dar outros exemplos dos projetos nacionais desses países?
Claro. O projeto da China é óbvio: quer voltar a ser o império asiático e
mundial. Para isso, combina três dimensões: procurar ter supremacia no comércio
mundial, exportando produtos industrializados e importando matérias-primas de
alimentos; quer estar na vanguarda tecnológica do mundo, usando os poderes que
dispõe para empurrar a tecnologia para frente e quer, de maneira muito clara,
dominar totalmente a esfera asiática. E nós não temos nenhum projeto, nem com
respeito às relações com a Argentina nós temos um projeto claro.
O senhor é bastante getulista...
Total. Mas nós não podemos fazer invocações de fantasmas, pois nenhum fantasma
se materializa. Getúlio foi uma liderança inquestionável para esse país. Eu
gosto de dizer que com Getúlio, contra Getúlio e sem Getúlio, o Brasil se moveu
50 anos para perseguir a industrialização. E, a partir do governo de Collor de
Mello, o Brasil não persegue nada.
Depois dele, quais presidentes pensaram em um projeto de nação?
Ele foi o presidente brasileiro mais consistente e coerente nisso. Eu diria que
o Rodrigues Alves [1], de certa maneira, e o mineiro Arthur Bernardes [2] tinham
visões claras da necessidade de um projeto nacional. Mas, quem adotou
integralmente e foi fiel ao projeto nacional, foi Getúlio.
Alguns tentam comparar ou fazer alguma aproximação entre Lula e Getúlio. Como vê
essa tentativa?
Essa comparação não dá certo e é complicada por uma razão: o PT tentou se criar
“anti-Getúlio”. Eu lembro do Lula dizendo a seguinte frase: “A Consolidação das
Leis do Trabalho (CLT) é o AI-5 dos trabalhadores”. Ou seja, para ele, a CLT
impediria qualquer ingerência dos trabalhadores em seu futuro. O PT era
antigetulista e depois começou a diminuir um pouco isso, mas ao mesmo tempo
pegou do pragmatismo de Getúlio a pior de todas as dimensões, porque Getúlio era
pragmático nas alianças que fazia, mas apesar das alianças, ele nunca permitiu
dissolver os objetivos nacionais. Enquanto isso, o PT vende o petróleo no leilão
de Libra. Getúlio nunca permitiu que a privatização fosse um elemento pragmático
a ser negociado; soberania nacional sempre foi fundamental para Getúlio. E esse
conceito nem existe no governo Lula.
Eu não estou querendo polemizar com o PT; minha preocupação é outra. Minha
preocupação é que os estudantes da universidade, os gaúchos, que são a vanguarda
do pensamento nacional brasileiro, voltem a discutir o projeto Brasil; mesmo que
vocês troquem desaforos entre vocês, são obrigados a explicitar os debates.
O Brasil quer ser uma Porto Rico enorme do Atlântico Sul? Ou o país quer ter uma
grande importância na formação de um continente sul-americano unificado? Se for
isso, nós temos de cuidar a visão da Argentina que o Brasil tem. Eu fico
encabulado em ver o Chile assumindo mais defesa da Argentina hoje do que o
Brasil. Nesse sentido, os gaúchos são a grande fronteira de nacionalismo do
Brasil.
Como o senhor vê as campanhas à Presidência da República? Algum candidato
apresenta ou tem em perspectiva um projeto de nação?
Não. Uma das minhas angústias é que o desdobramento da campanha presidencial não
está absolutamente politizando o Brasil no bom sentido. O que está acontecendo
agora é uma competição para saber quem é cúmplice do mensalão, para descobrir
algo sobre o aeroporto do Aécio, algo contra o Eduardo, amanhã talvez apareça
algo contra a Dilma e vai ficar nisso. Isso não é absolutamente uma discussão
política; é uma discussão que não explicita as escolhas que o Brasil tem de
fazer. E se a opinião pública mantiver a posição, como está hoje, de que os
políticos são a mesma coisa e que os partidos políticos não servem para nada, eu
não sei o que vai acontecer; vamos numa conjuntura internacional muito difícil.
In
Carta Maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Carlos-Lessa-Impossivel-pensar-o-futuro-sem-discutir-a-geopolitica-mundial/4/31500
31/7/2014
Eric Hobsbawm sobre Gaza (2009)
Eric Hobsbawm sobre Gaza (2009)
Este depoimento do grande pensador de origem judaica Eric Hobsbawm foi publicado
na altura da ofensiva sionista de 2009. Continuaria válido face à ofensiva de
2012. Permanece válido em 2014, perante a actual acção genocida desencadeada por
Israel. É importante recordá-lo, além do mais para desmontar a histérica
argumentação que pretende fazer crer que a condenação dos crimes de Israel
significa anti-semitismo. Muitos judeus são também vítimas do sionismo.
Há já três semanas que a barbárie está exposta aos olhos da opinião pública
universal, que está vendo, julgando e, com poucas excepções, rejeitando o
terrorismo armado que Israel emprega contra meio milhão de palestinos cercados,
desde 2006, na Faixa de Gaza.Nunca antes qualquer explicação oficial para a
invasão fora tão flagrantemente refutada por uma combinação de imagens de
televisão e aritmética; ou o papaguear dos jornais sobre “alvos militares”,
pelas imagens de crianças ensanguentadas e escolas incendiadas. 13 mortos de um
lado, 1.360 do outro: não é difícil concluir quem são as vítimas. Nem é preciso
dizer muito mais sobre a horrenda operação militar de Israel contra Gaza.Mas
para nós, judeus, é efectivamente preciso dizer mais.Numa história longa e sem
segurança, de povo em diáspora, a nossa reacção natural a quase todos os
acontecimentos públicos inclui inevitavelmente a pergunta “Isso é bom ou é mau
para os judeus?” E, no caso da violência de Israel contra Gaza, a resposta só
pode ser uma: “é mau para os judeus”.É muito evidentemente mau para os 5,5
milhões de judeus que vivem em Israel e nos territórios ocupados de 1967, cuja
segurança é gravemente ameaçada pelas acções militares que o governo de Israel
empreende em Gaza e no Líbano; acções que demonstram a incapacidade dos
militares israelitas para trabalhar a favor dos objectivos que eles mesmos
declaram, e actos que só servem para perpetuar e intensificar o isolamento de
Israel num Médio Oriente hostil.O genocídio ou a expulsão em massa de palestinos
do que resta do seu território nativo original é nada mais nada menos do que
adoptar uma agenda prática que só pode levar à destruição do Estado de Israel.
Só a convivência negociada em termos igualitários e justos entre os dois grupos
é garantia de futuro estável.A cada nova aventura militar de Israel, como a que
se viu no Líbano e se vê agora [2009] em Gaza, a solução torna-se mais difícil;
e mais se fortalece, em Israel, o jugo da direita; e, na Cisjordânia, o mando
dos colonos que, em primeiro lugar, nunca quiseram qualquer solução
negociada.Tal como aconteceu na guerra do Líbano em 2006, Gaza, agora, torna
ainda mais obscuro o futuro de Israel. E o futuro torna-se mais negro, também,
para os nove milhões de judeus que vivem na diáspora.Sejamos bem claros:
criticar Israel não implica qualquer anti-semitismo, mas as acções do governo de
Israel cobrem de vergonha os judeus e, mais do que tudo, fazem renascer o
anti-semitismo, em pleno século 21.Desde 1945 os judeus, dentro e fora de
Israel, beneficiaram enormemente da má consciência de um mundo ocidental que se
recusou a receber imigrados judeus nos anos 1930, antes de ou cometer genocídio
ou de não se opor a ele. Quanta dessa má consciência, que virtualmente derrotou
por 60 anos o anti-semitismo no Ocidente e produziu uma era de ouro para a
diáspora, sobrevive hoje?Israel em acção em Gaza não é o povo vítima da
história. Não é sequer a “valente pequena Israel” da mitologia de 1948-67, um
David derrotando vários Golias que o cercavam.Israel está a perder a
solidariedade do mundo, tão rapidamente quanto os EUA perderam a solidariedade
do mundo no governo de George W. Bush, e por razões semelhantes: cegueira
nacionalista e a megalomania do poderio bélico.O que é bom para Israel e o que é
bom para os judeus como povo são coisas evidentemente associadas, mas até que
seja encontrada uma solução justa para a questão palestina essas duas coisas não
são nem podem ser idênticas. E é essencialmente importante que os judeus o
declarem, bem claramente.Original publicado em London Review of Books, vol. 31,
n. 2, 29 January 2009, pages 5-6 “Responses to the War in Gaza” Fonte:
http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2012/11/eric-hobsbawm-sobre-gaza-2009_18.html
In
O Diário.Info
http://www.odiario.info/?p=3355
31/7/2014
Este depoimento do grande pensador de origem judaica Eric Hobsbawm foi publicado
na altura da ofensiva sionista de 2009. Continuaria válido face à ofensiva de
2012. Permanece válido em 2014, perante a actual acção genocida desencadeada por
Israel. É importante recordá-lo, além do mais para desmontar a histérica
argumentação que pretende fazer crer que a condenação dos crimes de Israel
significa anti-semitismo. Muitos judeus são também vítimas do sionismo.
Há já três semanas que a barbárie está exposta aos olhos da opinião pública
universal, que está vendo, julgando e, com poucas excepções, rejeitando o
terrorismo armado que Israel emprega contra meio milhão de palestinos cercados,
desde 2006, na Faixa de Gaza.Nunca antes qualquer explicação oficial para a
invasão fora tão flagrantemente refutada por uma combinação de imagens de
televisão e aritmética; ou o papaguear dos jornais sobre “alvos militares”,
pelas imagens de crianças ensanguentadas e escolas incendiadas. 13 mortos de um
lado, 1.360 do outro: não é difícil concluir quem são as vítimas. Nem é preciso
dizer muito mais sobre a horrenda operação militar de Israel contra Gaza.Mas
para nós, judeus, é efectivamente preciso dizer mais.Numa história longa e sem
segurança, de povo em diáspora, a nossa reacção natural a quase todos os
acontecimentos públicos inclui inevitavelmente a pergunta “Isso é bom ou é mau
para os judeus?” E, no caso da violência de Israel contra Gaza, a resposta só
pode ser uma: “é mau para os judeus”.É muito evidentemente mau para os 5,5
milhões de judeus que vivem em Israel e nos territórios ocupados de 1967, cuja
segurança é gravemente ameaçada pelas acções militares que o governo de Israel
empreende em Gaza e no Líbano; acções que demonstram a incapacidade dos
militares israelitas para trabalhar a favor dos objectivos que eles mesmos
declaram, e actos que só servem para perpetuar e intensificar o isolamento de
Israel num Médio Oriente hostil.O genocídio ou a expulsão em massa de palestinos
do que resta do seu território nativo original é nada mais nada menos do que
adoptar uma agenda prática que só pode levar à destruição do Estado de Israel.
Só a convivência negociada em termos igualitários e justos entre os dois grupos
é garantia de futuro estável.A cada nova aventura militar de Israel, como a que
se viu no Líbano e se vê agora [2009] em Gaza, a solução torna-se mais difícil;
e mais se fortalece, em Israel, o jugo da direita; e, na Cisjordânia, o mando
dos colonos que, em primeiro lugar, nunca quiseram qualquer solução
negociada.Tal como aconteceu na guerra do Líbano em 2006, Gaza, agora, torna
ainda mais obscuro o futuro de Israel. E o futuro torna-se mais negro, também,
para os nove milhões de judeus que vivem na diáspora.Sejamos bem claros:
criticar Israel não implica qualquer anti-semitismo, mas as acções do governo de
Israel cobrem de vergonha os judeus e, mais do que tudo, fazem renascer o
anti-semitismo, em pleno século 21.Desde 1945 os judeus, dentro e fora de
Israel, beneficiaram enormemente da má consciência de um mundo ocidental que se
recusou a receber imigrados judeus nos anos 1930, antes de ou cometer genocídio
ou de não se opor a ele. Quanta dessa má consciência, que virtualmente derrotou
por 60 anos o anti-semitismo no Ocidente e produziu uma era de ouro para a
diáspora, sobrevive hoje?Israel em acção em Gaza não é o povo vítima da
história. Não é sequer a “valente pequena Israel” da mitologia de 1948-67, um
David derrotando vários Golias que o cercavam.Israel está a perder a
solidariedade do mundo, tão rapidamente quanto os EUA perderam a solidariedade
do mundo no governo de George W. Bush, e por razões semelhantes: cegueira
nacionalista e a megalomania do poderio bélico.O que é bom para Israel e o que é
bom para os judeus como povo são coisas evidentemente associadas, mas até que
seja encontrada uma solução justa para a questão palestina essas duas coisas não
são nem podem ser idênticas. E é essencialmente importante que os judeus o
declarem, bem claramente.Original publicado em London Review of Books, vol. 31,
n. 2, 29 January 2009, pages 5-6 “Responses to the War in Gaza” Fonte:
http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2012/11/eric-hobsbawm-sobre-gaza-2009_18.html
In
O Diário.Info
http://www.odiario.info/?p=3355
31/7/2014
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