sábado, 16 de janeiro de 2016
O levante dos secundaristas em São Paulo
O levante dos secundaristas em São Paulo:
a juventude aponta os rumos da luta popular
por Edmilson Costa [*]
A escola é nossa. Não tem arrego .
Se fechar, vamos tirar seu sossego.
Palavra de ordem dos estudantes
O levante vitorioso dos estudantes secundaristas de São Paulo, após a
ocupação de mais de 220 escolas e a derrota do governo do PSDB paulista,
se inscreve nos marcos do ciclo de lutas sociais que se abriu com as
jornadas de junho de 2013 e que vem se mantendo ativo desde aquele
período, além de guardar estreita relação com os impactos da crise
sistêmica global no Brasil. Se observarmos o desenvolvimento das lutas
sociais no País desde então poderemos verificar não só o aumento das
greves em todos os setores dos trabalhadores (metalúrgicos, petroleiros,
metroviário, rodoviários, bancários, professores, servidores públicos),
mas especialmente um conjunto de lutas realizadas pela juventude com
elevado grau de organização e originalidade, justamente as que conseguiram
maiores vitórias concretas contra as políticas neoliberais.
Como afirmávamos em trabalhos anteriores [1] , as manifestações de junho
de 2013 abriram um novo ciclo de lutas sociais que vem questionando de
maneira cada vez mais explícita a contradição entre o nível de
desenvolvimento econômico do País (sétima economia do mundo) e as
precárias condições de vida da população (o Brasil ocupa a 75º posição no
ranking do Índice de desenvolvimento Humano da ONU), atrás mesmo de países
africanos e latino-americanos. O processo que se iniciou em 2013 vai
continuar sua trajetória, muito embora de maneira não linear, porque
nenhum dos problemas colocados por aquelas manifestações foram resolvidos.
Pelo contrário: estão sendo agravados pela política de ajustes
neoliberais implementados pelo governo, o que levará com certeza a um
acirramento da luta de classes no País.
Além disso, estamos vivenciando também o fim do ciclo iniciado com as
greves do final da década de 70 no ABC e que forjaram os principais
instrumentos políticos e sociais no Brasil, como o Partido dos
Trabalhadores (PT) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Essas
organizações cumpriram um papel importante na luta de classe no período e
na luta contra a ditadura, mas aos poucos foram se amoldando à ordem até
se transformarem em principais instrumentos da própria ordem e se voltarem
contra a luta dos trabalhadores. Metamorfosearam-se de uma maneira tão
rápida que não terão qualquer papel de relevo neste ciclo que se abriu em
2013. Ainda poderão sobreviver como entidades formais, mas sem a garra e o
protagonismo que tiveram naquele período, até mesmo porque a luta de
classes no Brasil está colocando novas questões e reclamando a
constituição de novos instrumentos para conduzir as transformações no
País.
As ocupações realizadas pelos estudantes secundaristas de São Paulo, ao
contrário do que ocorreu com as lutas da juventude em 2013, foram marcadas
surpreendentemente por elevado nível de organização e originalidade, mesmo
levando em conta que esses estudantes eram crianças e adolescentes entre
13 e 18 anos, com quase nenhuma experiência, posto que estavam debutando
na luta de classes. Alguns meses atrás, quem previsse que esses jovens
seriam capazes de derrotar um governo arrogante e truculento, blindado
pela mídia, com apoio das camadas médias conservadoras e que tratava a
questão social como caso de policia, seria tachado de louco ou visionário.
Mas as lutas sociais sempre surpreendem aqueles que não atentam aos
meandros da conjuntura.
Em termos práticos, os secundaristas conseguiram uma proeza pouco
verificada nos últimos anos: uniram um amplo leque de forças políticas e
sociais, que envolveu os professores, os pais e mães de alunos, os
movimentos sociais, os artistas e vários segmentos da população. Criou-se
quase que espontaneamente uma rede solidariedade em torno do movimento,
que aumentava à medida que as ocupações se ampliavam e a repressão se
intensificava. A população levou comida, água e refrigerantes, os
sindicatos ofereceram colchões e barracas, os professores deram aulas
alternativas, os artistas cantaram e tocaram gratuitamente nas escolas
ocupadas e criou-se até uma guarda informal, os Guardiãs das Escolas,
uma articulação que mobilizava rapidamente, através das redes sociais,
centenas de pessoas na frente das escolas diante de qualquer tentativa de
repressão da polícia nas ocupações.
Além disso, as ocupações demonstraram que o mito de bom moço construído
pela mídia em torno do governador Geraldo Alckmin, do PSDB, partido que
está há mais de 20 anos no poder em São Paulo, foi por água a baixo. A
mídia corporativa sempre procurou apresentar o governador como homem
trabalhador, propenso ao diálogo, preocupado com os problemas da
população, mas a própria mídia foi obrigada a veicular imagens de
truculência da Polícia Militar contra crianças e adolescentes dentro das
escolas, mesmo com a justiça tendo proibido a polícia de entrar nestes
estabelecimentos de ensino, e também as barbaridades repressivas nas ruas,
com espancamento e prisões de menores.
A imagem de bom moço foi-se deteriorando e a prova maior disso pode ser
refletida em uma pesquisa do Instituto Data Folha, que mostrou a queda
brusca da popularidade do governador. Preocupado com as futuras eleições
presidenciais, onde é um dos pretendentes, Alckmin jogou a toalha e
revogou o decreto de reorganização das escolas, que foi a causa das
mobilizações estudantis e das ocupações. Mesmo assim, o governo ainda
tentou cinicamente esconder a derrotar ao aparecer na imprensa dizendo que
a revogação do processo de reorganização ocorreu em respeito à mensagem
dos estudantes, familiares e da comunidade. É risível, mas cada um tem o
direito de esconder seus fracassos da maneira que melhor lhe convém.
A reorganização e os objetivos do governo
Sem consultar os alunos, nem os professores, nem a sociedade, o
governador anunciou um decreto que iniciava um processo de reorganização
da rede estadual de ensino, através do qual haveria um grande
remanejamento de alunos e escolas, de forma a que a rede escolar fosse
estruturada por ciclos. Os alunos de cada ciclo (fundamental I,
fundamental II e ensino médio) seriam agrupados em unidades específicas,
de acordo com cada ciclo. O secretário de Educação dizia que a
reorganização visava não só racionalizar o ensino, mas também melhorar a
qualidade da educação. Junto ao pacote, também era anunciado
sorrateiramente o fechamento de 94 escolas e cerca de 311 mil alunos
deveriam ser remanejados e centenas de professores perderiam seu emprego.
O governo também divulgou que as mudanças estavam baseadas em estudo de
uma consultora especializada, mas espertamente se recusou a divulgar os
fundamentos nos quais o estudo estava baseado. Foi necessário que um órgão
de imprensa apelasse para a Lei de Acesso à Informação a fim de obter a
íntegra do estudo.
Tão logo se tomou conhecimento do estudo, começou um intenso processo de
discussão, especialmente porque, quando o documento ficou conhecido na
íntegra, pôde-se verificar a inconsistência de seus fundamentos. Todas as
Faculdades de Educação do Estado (USP, Unicamp, Unesp, Unifesp, Federal do
ABC, UFSCAR), justamente as instituições que formam a maior parte dos
professores da rede pública do Estado, lançaram documentos criticando a
medida e buscando revelar os verdadeiros motivos que levavam o governo a
realizar a chamada reorganização. Esses motivos eram o corte de gastos com
a educação e o início do processo de privatização do ensino público no
Estado, através das terceirizações e concessões, como já vem ocorrendo em
outro Estado, Goiás, onde o PSDB também detém o governo estadual.
Para os professores dessas Faculdades, o estudo encomendado pela
Secretaria de Educação do Estado não apresentava elementos científicos que
fundamentassem o processo de reorganização da rede escolar. Tratava-se de
um documento frágil, mal elaborado, de péssima qualidade técnica, que
visava apenas dar uma satisfação à sociedade. Por isso mesmo, o governo
não divulgou o documento. Os professores também condenaram o fato de que
uma medida desta natureza, que vai envolver centenas de milhares de
estudantes, pais e mães de alunos, além de professores, não tenha sido
debatida com os interessados antes de ser anunciada.
O argumento de que a reorganização por ciclo iria melhorar a qualidade de
ensino é de uma pobreza franciscana, pois nas escolas privadas de ensino
médio, tidas como de excelência e as que aprovam o maior número de alunos
nos vestibulares das universidades públicas, os estudantes dos diversos
ciclos frequentam o mesmo prédio, como acontece atualmente no ensino
público. Ou seja, a segregação é empobrecedora na formação dos jovens. Se
o governo estivesse preocupado realmente com a qualidade do ensino,
deveria fazer o inverso do que anunciou, ou seja, reduziria o número de
alunos por sala, que hoje estão superlotadas; melhoraria as condições
físicas das escolas, cujas instalações são precárias; modernizaria as
bibliotecas, compraria laboratórios e equipamentos audiovisuais e
contrataria os professores que passaram no último concurso e até hoje não
foram chamados e aumentaria os vergonhosos salários pagos aos docentes.
Melhorar a qualidade do ensino fechando escolas é uma aberração.
Vale lembrar que um dos governos do PSDB, o de Mario Covas, em 1995,
também realizou um processo de reorganização da rede estadual de ensino,
com o fechamento de 150 escolas e cerca de 10 mil salas de aulas, tudo com
o mesmo argumento da necessidade de melhoria da qualidade da educação. Mas
se avaliarmos 20 anos depois o resultado dessa medida, poderemos observar
que se constituiu num verdadeiro fracasso: a qualidade do ensino continuou
precária e muitas das escolas fechadas viraram depósitos para vários
órgãos da administração pública. Ou seja, a reorganização era apenas um
pretexto para cortar gastos com a educação.
Na verdade, o objetivo dessa pretensa reorganização era a implantação de
um modelo de gestão educacional empresarial, tudo dentro do figurino
elaborado pelo Banco Mundial, para o qual a educação é uma mercadoria e
por isso deve ser paga. Como ressalta o documento dos professores, o
objetivo final é fazer com que cada escola seja gerida como se fosse uma
pequena empresa, com metas, produtividade, bonificações por desempenho,
redução permanente de gastos e flexibilidade para demitir professores,
afinal a estabilidade no emprego dos professores é uma heresia para o
dogma neoliberal. Todo esse conjunto de metas teria por objetivo, como nas
empresas privadas, alcançar maior eficiência possível e as escolas que não
se enquadrarem nesse modelo deveriam ser fechadas.
O processo de reorganização de São Paulo era também um balão de ensaio
para uma contrarreforma profunda na já precária educação pública do
Estado, como já acontece em Goiás, onde as escolas estão sendo geridas
pelas organizações sociais. O plano era o seguinte: primeiro,
reorganizava-se as escolas por ciclos e fechavam-se as 94 escolas; em
seguida, reduzia-se o ensino noturno e a Educação Para Jovens e Adultos.
Depois, terceirizava-se a gestão para ONGs, OCIPs (as chamadas
organizações sociais), desviando dinheiro da educação para mãos privadas.
Posteriormente, implantavam-se os chamados sistemas de ensino, no qual as
disciplinas seriam apostiladas (padronizadas ideologicamente), como já
ocorre em vários colégios privados. As organizações sociais deixariam de
fazer concursos para professores e passariam a contratá-los pela CLT
(Consolidação das Leis do Trabalho), eliminando a estabilidade no emprego.
Assim, seria bem mais fácil demitir aqueles que contestassem a nova ordem
ou os grevistas.
Essas etapas do que deveria ser o processo de privatização do ensino em
São Paulo não significa nenhum exercício de criatividade ou futurismo.
Como enfatiza o documento dos docentes, a política educacional de São
Paulo é orientada por um grupo de empresários neoliberais, com apoio de
instituições privadas. Em outras palavras, o passo final seria a
privatização das escolas, com a concessão de vouchers para os alunos
mais carentes, como aconteceu no Chile de Pinochet, onde praticamente toda
a estrutura educacional do País foi privatizada.
A resistência dos estudantes
Do alto de sua arrogância, Alckmin imaginava que essa medida iria ser
implantada tranquilamente, com apenas pequenos protestos de alunos e
professores, mas no final tudo seria implantado conforme o figurino, como
aconteceu com outras medidas antipopulares que foram implementadas no
Estado. Ao longo dos mais de 20 anos de poder do PSDB na principal unidade
da Federação do País, o governo sempre tratou as lutas sociais como caso
de polícia, as greves como coisa baderneiros e agitadores, buscando
desqualificar, criminalizar e derrotar os trabalhadores em luta. Portanto,
para o governo, as ocupações realizadas pelos adolescentes parecia
brincadeira de criança e logo seriam derrotadas. O vício da impunidade
impediu o governo de entender a conjuntura, afinal esse mesmo governo
tinha recentemente derrotado a mais longa greve dos professores do Estado,
que durou 95 dias. Mas por ironia, de onde menos se esperava, surgiu o
movimento que levou o governo a uma derrota acachapante, até mesmo
humilhante, colocando um basta a mais de duas décadas de truculências no
Estado.
Antes das ocupações, as manifestações contra a reorganização já
demonstravam que algo de novo estava acontecendo. Os manifestantes não
eram apenas militantes que comumente estão nas ruas contra o governo:
aquelas manifestações contavam com a presença de pais e mães de alunos,
coletivos dos mais diversos tipos e militantes em geral, mas com algo
inovador – professores com os alunos de suas escolas, a maioria deles
entre 13 e 18 anos, quase todos participando pela primeira vez de uma
manifestação de rua. Essas passeatas eram realizadas quase todas as
semanas e envolviam milhares de pessoas. Foi um aprendizado importante que
depois se materializou na organização das ocupações.
Cansados de tanto protestar e não serem ouvidos, os estudantes decidiram
realizar um enfrentamento mais direto contra o projeto de reorganização
do governo. No dia 9 de novembro ocuparam a primeira escola, na cidade de
Diadema, na Grande São Paulo. Essa foi a chama que imediatamente se
espalhou por todo o Estado, especialmente na capital. Nos outros dias as
ocupações foram sendo realizadas em proporções geométricas, tanto que
vinte dias depois mais de 200 escolas já estavam ocupadas no Estado, o que
demonstra que a revolta juvenil estava latente e que o aprendizado das
manifestações cumpriu um papel fundamental. A grande maioria das
ocupações foi realizada de forma espontânea, mas também houve
participação de coletivos autônomos, de professores, movimentos sociais e
organizações políticas.
O processo de ocupação era relativamente simples: os estudantes entravam
nas escolas munidos de correntes e cadeados escondidos nas mochilas e, no
momento combinado, anunciavam a ocupação, colocavam cadeados novos no
portão e a partir daí passavam dirigir todas as atividades da escola. Na
maioria das escolas só poderiam permanecer na parte de dentro os
estudantes da própria escola, medida que era fundamental para evitar que o
governador do Estado, como várias vezes tentou fazer, acusasse o movimento
de ser dirigido por partidos políticos de oposição. De posse da escola,
realizavam as assembleias e organizavam as comissões de gestão da
ocupação: limpeza, cozinha e alimentação, segurança, eventos, sempre
enfatizando que todas as principais decisões seriam tiradas em assembleia.
Logo os alunos perceberam uma série de irregularidades, como montanhas de
livros que não eram distribuídos, bibliotecas mal cuidadas, escola com
infraestrutura precária. Com a ocupação, todas as escolas se tornaram mais
organizadas, mais limpas e com uma vida cultural muito mais rica.
Com a massificação das ocupações, o governo utilizou o mesmo padrão
repressivo, intercalando medidas judiciais, administrativas e repressão
direta. A Secretaria de Educação pressionou os diretores a fazer com que
os alunos desocupassem as escolas. Como não conseguiram, então montou-se
uma equipe que ligava diretamente para os pais e mães dos alunos dizendo
que era perigoso os adolescentes ficarem nas ocupações, pois lá estavam
consumindo drogas e as meninas poderiam ser estupradas. Esse método também
não obteve resultados satisfatórios. A polícia se postava diariamente na
frente das escolas com provocações e prisões de apoiadores, que acampavam
em frente dos estabelecimentos de ensino. Posteriormente, o governo entrou
na Justiça com um pedido de reintegração de posse, que era a senha para a
invasão policial e desarticulação do movimento. No entanto, a justiça
também negou o pedido de reintegração.
No início de dezembro, com o movimento plenamente consolidado e com apoio
social e sem que a Justiça atendesse à solicitação do Executivo, o governo
resolveu partir para o tudo ou nada. O chefe de gabinete da Secretaria
reuniu secretamente os diretores de ensino para traçar uma estratégia de
desocupação das escolas. Disse que a partir daquele momento seria iniciada
uma guerra contra as ocupações e anunciou a tática que deveria ser
executada em cada unidade de ensino ocupada. Mas a conversa do chefe de
gabinete foi gravada por alguém e vazou para a imprensa, através dos
Jornalistas Livres, uma articulação da mídia alternativa que teve um
papel importante na contrainformação à mídia corporativa. O vazamento
quebrou o efeito surpresa da ofensiva governamental, mas mesmo assim eles
tentaram implementar o seu plano.
O governo escolheu para a desocupação uma escola símbolo, a Maria José,
no centro de São Paulo, pois lá estava o presidente da União Municipal dos
Estudantes Secundaristas. Logo cedo o chefe de gabinete da Secretaria de
Educação veio à escola, acompanhado de um grupo de pessoas que se diziam
“pais de alunos” (depois verificou-se que eram funcionários da secretaria)
que queriam a escola de volta. A polícia quebrou os cadeados, invadiu a
escola junto com os “pais” e começou o espancamento dos alunos, que
resistiram bravamente. Imediatamente começou a funcionar o esquema de
proteção das escolas ocupadas, através dos Guardiãs das Escolas, e
dezenas de pessoas foram para a frente da escola em solidariedade aos
estudantes. Como os alunos resistiram e muitos dos “pais” não suportaram
o gás de pimenta lançado pela polícia, a invasão fracassou e os alunos
reocuparam a escola, para a alegria e comemoração de todos. Ocorreram
tentativas de desocupação em outras escolas, mas foram derrotadas [2] .
A essa altura os alunos resolveram mudar de tática também e passaram a
ocupar as ruas e avenidas na hora do rush para chamar a atenção da
população, além de realizar aulas públicas. Essas manifestações foram
brutalmente reprimidas pela polícia. Cenas de espancamento de crianças e
adolescentes se tornaram comuns em São Paulo, mas a batalha da opinião
pública o governo já estava perdendo. Além de todas as faculdades de
educação, agora também a Justiça estava contra a maneira como foi
implementada a reorganização, além de artistas, movimentos culturais e
professores e a maioria da população. Até as torcidas de futebol se
manifestaram contra a medida do governo. A brutalidade da polícia fez o
governo perder a opinião pública e até mesmo a mídia corporativa já não
podia mais esconder a repressão. Para complicar ainda mais a situação do
governo, o Instituto Data Folha divulgou uma pesquisa na qual 61% da
população apoiavam o movimento, bem como a popularidade do governo tinha
caído aos níveis mais baixos. Sem escolha, o governo suspendeu a
reorganização e o Secretário de Educação pediu demissão. Estava selada a
vitória do movimento.
As redes de solidariedade
Um dos momentos mais ricos dessa jornada de lutas dos secundaristas foi a
ampla rede de solidariedade espontânea que se articulou para apoiar o
movimento. Tão logo se iniciaram as ocupações, as pessoas começaram a
acampar em frente das escolas para evitar a repressão policial e
provocações dos agentes policiais infiltrados. Os pais, mães e amigos dos
alunos levavam comida, água, colchões e barracas para garantir a ocupação,
além de se revezarem em frente das escolas. Como as ocupações duraram
cerca de um mês, não é difícil imaginar a dificuldade que os estudantes
tiveram para manter a logística de revezamento no interior das escolas,
dormindo em condições precárias, cozinhando o próprio alimento, limpando e
cuidando da escola. E também a dificuldade que os apoiadores tiveram para
se manter noite e dia em frente das escolas. Mas o sacrifício valeu a
pena, pois todos saíram vitoriosos nessa jornada de lutas.
Os estudantes também conseguiram organizar um cadastro de Guardiãs das
Escolas, via redes sociais, no qual estavam inscritos milhares de pessoas
voluntárias, dispostas a defender as escolas. Toda vez que uma unidade
escolar estava ameaçada os Guardiãs eram acionados e rapidamente
dezenas de pessoas compareciam à frente da escola para defendê-la e evitar
repressão, arbitrariedades e prisões de estudantes. Este esquema funcionou
razoavelmente bem e cumpriu um papel importante na vitória do movimento
porque quanto mais pessoas se postavam em frente das escolas, mais difícil
se tornava a repressão.
Outro papel importante foi o dos Advogados Ativistas, uma articulação
de jovens advogados voluntários que estavam à disposição a qualquer hora
do dia e da noite para comparecer não só nas escolas onde estivessem
ocorrendo arbitrariedades, mas principalmente no acompanhamento das
passeatas (a presença de advogados muitas vezes reduz a fúria repressiva),
e na ida às delegacias de polícia soltar os garotos presos e evitar
espancamentos. Também foi importante nesse processo a presença dos
Jornalistas Livres, uma organização de jornalistas independentes que
buscava de todas as formas, especialmente nas redes sociais, documentar a
repressão, denunciar as arbitrariedades e divulgar tudo o mais
rapidamente pelas redes sociais. Foram os Jornalistas Livres que
vazaram o áudio com a estratégia da Secretaria de Educação para desocupar
as escolas e, com isso, contribuíram para a derrota da estratégia
repressiva do governo.
Os artistas, escritores e professores também tiveram um papel fundamental
na solidariedade ao movimento dos secundaristas. Todo dia nas escolas
tinha aulas alternativas sob os mais variados assuntos. Para tanto, também
foi realizado um cadastro de professores voluntários dispostos a doar
aulas nas ocupações, o que funcionou de maneira muito satisfatória. Os
saraus eram realizados quase que diariamente. Os cantores e músicos em
geral, os artistas de teatro faziam shows e apresentavam peças teatrais
gratuitas nas escolas ocupadas. No auge do movimento ocorreu até uma
Virada Cultural com a participação de artistas famosos como Chico César,
Titãs, Maria Gadu, entre outros. Até mesmo Chico Buarque de Holanda e
vários artistas do Rio de Janeiro gravaram um clip de apoio ao
movimento.
As escolas ocupadas se tornaram um ambiente vivo, criativo, com
diversidade cultural, os mais variados debates, com democracia
participativa, com uma relação mais estreita com a comunidade, muito
diferente do período normal de aula. Além disso, as ocupações demonstraram
que as escolas geridas pelos estudantes funcionaram melhor do que quando
administradas pelo governo. Essa experiência das ocupações de São Paulo de
certa forma aponta para a necessidade de construção de uma nova escola,
fora dos padrões burocratizados e repetitivos da escola tradicional, uma
escola crítica. que proporcione os mais avançados conhecimentos
específicos para os estudantes, mas que também forme um cidadão com
capacidade de entender o mundo.
A luta dos estudantes secundaristas de São Paulo, comandada por
adolescentes, significou uma grande vitória para o movimento social,
porque pela primeira vez um movimento derrota de maneira clara a
truculência de um governo neoliberal. Os jovens também derrotaram o
governo em 2013, mas essa foi uma luta nacional, que envolveu cerca de 600
cidades. A luta dos secundaristas foi uma queda de braço entre um governo
arbitrário e os estudantes, na qual eles venceram com galhardia. Essa
jornada aponta também o rumo da luta popular no País, pois demonstrou que
a organização, a combatividade e a luta, em aliança com a população, é o
único caminho para se conquistar as reivindicações populares. Os
estudantes saíram dessa luta de cabeça erguida, com moral alta, e logo
mais estarão nas ruas engrossando as lutas populares.
[1] Brasil: extraordinárias jornadas de lutas e A explosão social
bate às portas do Brasil
[2] O autor desse texto, um dos Guardiãs das Escolas, esteve presente
na Escola Maria José no dia em que os alunos derrotaram a estratégia do
governo do Estado. Um relato dessa experiência foi postada no facebook
(Relato sobre a reocupação da E.E. Maria Jose, no Bexiga, pelos estudantes
secundaristas).
[*] Doutorado em economia pela Unicamp, com pós-doutoramento no Instituto
de Filosofia e Ciências Humanas da mesma instituição. É autor, entre
outros, de A globalização e o capitalismo contemporâneo (Expressão
Popular) e A crise econômica mundial, a globalização e o Brasil (Edições
ICP), diretor do Instituto Caio Prado Junior e um dos editores da revista
Novos Temas.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
In
Resistir.info
http://resistir.info/brasil/levante_secundaristas_12jan16.html
12/1/2016
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
MST pede punição a agentes policiais que cometeram abusos em manifestação
Organizações da sociedade civil criticaram atuação da PM durante protesto da
terça-feira
Brasil de Fato
Após a repressão policial ocorrida na concentração do segundo protesto contra o
aumento das passagens em São Paulo, organizações da sociedade civil repudiaram a
atuação da PM durante a manifestação ocorrida na terça-feira (12). O Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em nota, pediu "investigações e
punição aos responsáveis".
Rovena Rosa/ Agência Brasil
No documento, o movimento lembra que protestos de rua são direito
constitucional: “manifestações públicas são um direito da população e todos os
espancamentos, intimidações, tiros e bombas de "efeito moral", xingamentos,
prisões arbitrárias e apropriações indevidas de equipamentos de comunicação e/ou
filmagem são injustificáveis e inadmissíveis”.
Nas redes sociais, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) considerou a
repressão policial como “brutal”, chamando o ocorrido de “massacre”. Em sua
página de Facebook, a Anistia Internacional se posicionou afirmando que
“protesto não é crime”. “É muito grave que a Polícia Militar de São Paulo
continue reprimindo protestos pacíficos com uso excessivo e desnecessário da
força e detenções arbitrárias”, afirmou a organização de direitos humanos.
Políticos
O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), também se posicionou sobre a
violência ocorrida na Avenida Paulista. "Defendemos o livre direito de
manifestação e repudiamos mais este ato de violência da polícia militar e do
governo Alckmin . A luta contra o aumento da tarifa, também reajustada pela
prefeitura de São Paulo, é legítima, necessária e garantida pela Constituição
Federal", afirmou o parlamentar em sua página de Facebook.
Os secretários municipais de Cultura e Direitos Humanos se somaram aos que
criticam a atuação da Polícia Militar. Eduardo Suplicy, responsável pela segunda
pasta, afirmou que a atuação da PM foi “violenta” e que buscará o Ministério
Público para mediar as tensões, linha já proposta pelo prefeito.
“Terei hoje novo diálogo com o Promotor de Justiça Eduardo Valério sobre a forma
tão violenta com que a PM ontem reprimiu as manifestações em São Paulo. Quando o
comando da PM dialogava com os representantes do Movimento Passe Livre sobre o
roteiro da manifestação começaram as explosões de bombas que generalizaram os
conflitos. É necessário um esforço do MP para mediar um entendimento para que
não se repitam os tristes episódios de violência e se garanta o direito à livre
manifestação”.
Nabil Bonduki, titular da Cultura, apontou para o fato de que a repressão
desproporcional à reivindicação em torno da mobilidade urbana atinge a própria
sociedade democrática.
“Como em 2013, a ação violenta e injustificada da Polícia Militar nas
manifestações de rua em São Paulo está transformando o movimento contra o
reajuste inflacionário da tarifa de transporte coletivo, que é um debate sobre
políticas públicas, em um processo de restrição à liberdade de expressão e
conflito armado. As conseqüências são imprevisíveis sobretudo em uma conjuntura
em que os ataques a democracia e o apoio a praticas autoritárias crescem no
país”.
O prefeito Fernando Haddad (PT) afirmou "preocupação". "As cenas são muito
incompatíveis com a cidade de São Paulo e o que a gente deseja. São Paulo é
palco de manifestações, ano passado tivemos várias com 40 mil pessoas, 30 mil
pessoas, sem incidentes. Nós queremos que a nossa cidade continue sendo um
palco de democracia onde as pessoas possam se manifestar livremente", afirmou.
Confira a nota do MST na íntegra:
O Movimento vê como desastrosa a ação da polícia do Estado de São Paulo contra
manifestantes e a população em geral que, de forma pacífica, estava nas ruas
lutando por seu livre direito de mobilização e organização na noite dessa
terça-feira (12) no '2º Grande Ato Contra O Aumento das Tarifas do Transporte
Público', organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL).
Os episódios de violência que tomaram as ruas da cidade e que deixaram centenas
de feridos, muitos com gravidade, demonstra o despreparo dos agentes.
Partimos do pressuposto constitucional de que manifestações públicas são um
direito da população e todos os espancamentos, intimidações, tiros e bombas de
"efeito moral", xingamentos, prisões arbitrárias e apropriações indevidas de
equipamentos de comunicação e/ou filmagem são injustificáveis e inadmissíveis.
Os fatos remetem aos episódios fatídicos ocorridos em junho de 2013 e
denunciados por organizações de direitos humanos em órgãos internacionais de
todo o mundo.
Esperamos que os responsáveis pelos ataques sejam identificados e punidos para
que episódios desta natureza não voltem a ocorrer.
In
Brasil de Fato
13/1/2016
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Protesto em SP: A polícia desce a porrada, mas não é a única responsável
Leonardo Sakamoto
O protesto contra o aumento nas tarifas de ônibus, metrô e trens, organizada
pelo Movimento Passe Livre, nesta sexta (8), terminou – novamente – com a
polícia tentando queimar o estoque de bombas de gás e de estilhaços e balas de
borracha no centro de São Paulo.
A justificativa policial replicada em reportagens que tratam do assunto é a
mesma de uma criança de seis anos que reclama do amiguinho após uma briga: foi
ele quem começou.
Imagens que estão circulando na rede, contudo, mostram que os primeiros atos de
violência contra pessoas partiram – novamente – dos próprios policiais.
A verdade é que não importa quem começou. A polícia tem que ser mais fria que o
cidadão em um protesto. Se a sua missão for garantir a segurança de todos, ela
deveria cumprir isso evitando o confronto. Engolindo sapos se for necessário.
Afinal, polícia não é Exército. Polícia não está em guerra com ninguém. Ou pelo
menos não deveria estar. E mesmo se estivesse, não deveria atacar sua própria
gente..
Será que o poder público paulista é tão ruim, mas tão ruim, que não consegue
atuar, de forma inteligente? Ou mesmo reagir de forma localizada, seletiva e não
violenta a uma meia dúzia de celerados (sejam eles manifestantes ou mercenários
infiltrados com a função de causar) que depredam patrimônio público e privado
sem prejudicar o direito cidadão à manifestação em um espaço público e sem
atacar os milhares de presentes em um protesto pacífico?
Convenhamos: não consegue ou não quer?
Porque essa situação sempre foi cômoda para justificar uma reação policial
violenta, dissipar toda uma manifestação e gerar uma narrativa que criminaliza
um movimento.
Policiais não são monstros alterados por radiação para serem insensíveis ao ser
humano. Não é da natureza das pessoas que decidem vestir farda (por opção ou
falta dela) tornarem-se violentas. Elas aprendem a agir assim. No cotidiano da
instituição a que pertencem (e sua natureza mal resolvida), na formação
profissional que tiveram, na exploração diária como trabalhadores e na
internalização de sua principal missão: manter o status quo.
O problema não se resolve apenas com aulas de direitos humanos e sim com uma
revisão sobre o papel e os métodos da polícia em nossa sociedade. Setores da
polícia estão impregnados com a ideia de que nada acontecerá com eles caso não
cumpram as regras. Outra parte sabe que a mesma sociedade – mesmo que tire
selfies com eles – está pouco se lixando para eles e suas famílias, pagando
salários ridículos e cobrando para que se sacrifiquem em nome do patrimônio
alheio.
Como já disse aqui antes, conversei com um soldado da Polícia Militar que disse
detestar atuar em manifestações. Fica nervoso com provocações de black blocs,
mas acha pior ainda ter que ir para cima da “criançada”, como mesmo descreveu.
Para ele, isso não faz sentido. Mas tem medo de reclamar.
Sei que a justificativa do “estou cumprindo ordens” não cola desde o tribunal de
Nuremberg, somos responsáveis pelos atos que cometemos. Mas, neste caso, a
discussão do “estou sobrevivendo” e do “ué, mas sempre me disseram que essa era
a forma correta de agir” se entrelaçam de forma complexa. Pois, para muito
policial que discorda dessa situação, a saída pode ser sofrer sanções
disciplinares ou pedir demissão.
Isso não nos impede de cobrar o avanço do debate sobre a desmilitarização da
polícia dos administradores públicos e responsabilizá-los por cada ato de
violência estatal oriundo dessa inação. O problema é que isso são palavras ao
vento. Por exemplo, os policiais que foram executores dos 111 presos no massacre
do Carandiru, em 1992, foram condenados pela Justiça. Mas nenhum político,
responsável por essas forças policiais, foi ao banco dos réus. Afinal, são eles
que mantêm a política de controle da população, valendo-se de uma massa de
pessoas obrigada a aceitar ordens bizarras para não perder o emprego.
E também não nos impede de cobrar Fernando Haddad e Geraldo Alckmin por mais um
aumento na tarifa de metrô, ônibus e trens, sem a devida discussão com a
sociedade, em um momento de crise econômica que está sendo especialmente
dolorosa aos mais pobres.
Não sei o que vai acontecer nas próximas semanas, se os ânimos vão se exaltar
ainda mais. Mas seja o que for, a responsabilidade pelo que acontecer também
será colocada na conta dos dois.
In
Intersindical
http://www.intersindicalcentral.com.br/protesto-em-sp-policia-desce-porrada-mas-nao-e-unica-responsavel/
10/1/2016
Vandana Shiva: A profunda ligação entre a Monsanto e o Facebook
Da plantação até a prateleira do supermercado, tudo será determinado pelos
interesses dos mesmos acionistas. Vamos conversar sobre liberdade de escolha?
Vandana Shiva - CommonDreams*
Da Carta Maior
Enquanto a Agência Reguladora de Telecomunicações da Índia decide o futuro do
programa “Free Basics”, Mark Zuckerberg está na Índia com um bilhão de rúpias,
em moeda trocada, para fazer sua publicidade. O programa é um internet.org
repaginado ou, em outras palavras, um sistema em que o Facebook decide qual
parte da internet compõe o pacote básico para os usuários.
A Reliance, parceira indiana do Facebook na empreitada do Free Basics, é uma
megacorporação indiana com interesses em telecomunicação, energia, alimentos,
varejo, infraestrutura e, é claro, terras. A Reliance obteve territórios para
suas torres rurais de celulares do governo da Índia e tomou terras de
fazendeiros para Zonas Econômicas Especiais através de violência e golpes. Como
resultado e quase sem custo, a Reliance obteve um grande público rural,
semiurbano e suburbano, especialmente fazendeiros. Embora o Free Basics tenha
sido banido (por enquanto), a Reliance continua oferecendo seu serviço através
de suas redes.
Um ataque corporativo coletivo está em curso globalmente. Tendo já programado
suas ações, veteranos de corporações americanas como Bill Gates estão se
juntando à nova onda de imperialistas filantropos, que inclui Mark Zuckerberg. É
incrível a semelhança nas relações públicas de Gates e Zuckerberg, perfeitamente
ensaiadas, que envolvem um preparo retórico e doação de fortunas. Qualquer
entidade com que os Zuckerbergs se unam para administrar os 45 bilhões de
dólares investidos provavelmente vai terminar parecendo a Fundação Bill e
Melinda Gates; isto é, poderosa o suficiente para influenciar negociações
climáticas, apesar não serem efetivamente responsáveis por nada.
Mas o que Bill Gates e Mark Zuckerberg teriam a ganhar quando ditam os termos
aos governos do mundo durante a conferência climática? "A Breakthrough Energy
Coalition vai investir em ideias que podem transformar a maneira como todos nós
produzimos e consumimos energia", escreveu Zuckerberg em sua página no Facebook.
Era um anúncio da Breakthrough Energy Coalition de Bill Gates, um fundo privado
com uma riqueza combinada de centenas de bilhões de dólares de 28 investidores
que irão influenciar a forma como o mundo produz e consome energia.
Ao mesmo tempo, Gates pressiona para forçar uma agricultura dependente de
insumos químicos, combustíveis fósseis e transgênicos patenteados (#FossilAg)
através da Aliança pela Revolução Verde na África (AGRA). Trata-se de uma
tentativa de tornar fazendeiros africanos dependentes de combústiveis fósseis
que deveriam ter permanecido no subsolo, além de criar uma relação de
dependência com as sementes e petroquímicos da Monsanto.
95% do algodão na Índia pertence à Monsanto Bt Cotton. Em 2015, nas regiões de
Punjab até Karnataka, 80% de sua plantação transgênica não vingou - isso
significa que 76% dos produtores afiliados à Bt Cotton estavam sem algodão na
época da colheita. Se tivessem opção, eles teriam trocado de variedade. Mas o
que parece ser uma simples escolha entre sementes de algodão é na verdade a
imposição de uma mesma semente Bt, comercializada por diferentes companhias com
diferentes nomes, compradas por fazendeiros desesperados que tentam combinações
de sementes, pesticidas, herbicidas e fungicidas - todos com nomes complexos o
bastante para fazê-los se sentir inadequados - até que você não tenha nenhuma
“escolha” a não ser tirar sua própria vida.
O que a Monsanto faz ao empurrar as leis de Direitos de Propriedade Intelectual
(IPR) referentes ao comércio de sementes, Zuckerberg está tentando fazer com a
liberdade de internet da Índia. E, assim como a Monsanto, ele está prejudicando
os indianos mais marginalizados.
O Free Basics irá limitar o conteúdo da internet para a grande maioria de
usuários indianos. Já de início, o programa afirmou que não irá permitir
conteúdos de vídeo que interfiram nos serviços (leia-se: lucros) das companhias
de telecomunicações - apesar da recomendação da própria Agência Reguladora de
Telecomunicações da Índia de que conteúdo em vídeo seja acessível a diferentes
partes da população.
Uma vez distribuída como um serviço gratuito, o que impedirá que as companhias
de telecomunicações redefinam o uso da internet para satisfazer seus próprios
interesses e o de seus parceiros? Afinal, a proibição ao Free Basics não impediu
que a Reliance continuasse oferecendo seus serviços para uma grande base de
usuários, muitos deles fazendeiros.
Por que deveria ficar a cargo de Mark Zuckerberg decidir o que é a internet
para um fazendeiro em Punjab, que acabou de perder 80% de sua colheita de
algodão por conta das sementes transgênicas da Monsanto e cujos produtos
químicos (que foi coagido a usar) falharam completamente? Deveria a internet
permitir que ele se informasse sobre o fracasso das tecnologias de transgênicos
ao redor do mundo, que apenas são mantidas através de políticas de comércio
injustas, ou deveria ela apenas induzir o uso de outra molécula patenteada em
sua plantação?
A ligação entre o Facebook e a Monsanto é profunda. Os 12 maiores investidores
da Monsanto são os mesmos que os 12 maiores investidores no Facebook, incluindo
o Grupo Vanguard. Esse grupo é um grande investidor da John Deere, a novo
parceira da Monsanto em “tratores inteligentes”, o que faz com que toda a
produção e consumo de alimentos, da semente à informação, permaneça sob o
controle de um pequeno punhado de investidores.
Não é de surpreender que a página do Facebook “March Against Monsanto” [Marcha
contra a Monsanto], um grande movimento americano a favor da regulação e
rotulagem de transgênicos, foi deletada.
Recentemente a Índia tem visto uma explosão em varejo online. Desde grande
corporações a pequenos empreendedores, pessoas de todo o país tem podido vender
o que produzem em um mercado previamente inacessível. Artesãos tem conseguido
ampliar seus negócios, fazendas tem encontrado consumidores mais próximos.
Assim como a Monsanto e suas sementes patenteadas, Zuckerberg quer não apenas
uma fatia, mas toda a pizza da economia indiana, especialmente seus fazendeiros
e camponeses. O que o monopólio da Monsanto sobre informações climáticas
significaria para fazendeiros escravizados através de um canal do Facebook com
acesso limitado a essas informações? O que isso significaria para a internet e
para a democracia alimentícia?
O direito ao alimento é o direito de escolher o que desejamos comer; saber o
que está na nossa comida (#LabelGMOsNOW) e escolher alimentos saborosos e
nutritivos - não os poucos alimentos processados que as corporações esperam que
consumamos.
O direito à internet é o direito de escolher quais espaços e mídias nós
acessamos; de escolher aquilo que nos enriquece - e não aquilo que as companhias
pensam que deveria ser o nosso pacote básico.
Nosso direito de conhecer o que comemos é tão essencial quanto o direito à
informação, qualquer informação. Nosso direito a uma internet aberta é tão
essencial à nossa democracia quanto nosso direito de estocar, trocar e vender
sementes polinizadas.
No eufemismo de Orwell, o “livre” para Zuckerberg significaria “privatizado”,
algo totalmente diferente de privacidade - uma palavra inclusive estranha a ele.
E assim como em acordos de “livre” comércio definidos por corporações, o Free
Basics significa qualquer coisa menos ‘livre” para os cidadãos. É um cerceamento
de bens essenciais, que deveriam ser acessíveis ao povo, sejam eles sementes,
água, informação ou internet. Os Direitos de Propriedade Intelectual da Monsanto
estão para as sementes como o Free Basics está para informação.
Tratores inteligentes da John Deere, utilizados em fazendas que plantam
sementes patenteadas pela Monsanto, tratadas com insumos químicos da Bayer, com
informações sobre clima e solo fornecidas pela Monsanto, transmitidas ao celular
do fazendeiro pela Reliance, conectadas no perfil do Facebook, em terras
pertencentes ao Grupo Vanguard.
Todos os passos de todos os processos, até o ponto em que você escolhe algo da
prateleira de um supermercado, serão determinados pelos interesses dos mesmos
acionistas.
Que tal conversarmos sobre liberdade de escolha?
*Tradução por Allan Brum
In
MST
http://www.mst.org.br/2016/01/12/vandana-shiva-a-profunda-ligacao-entre-a-monsanto-e-o-facebook.html
12/1/2016
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
Preço do petróleo: Rússia quebrará o monopólio de Wall Street
F. William Engdahl, New Eastern Outlook
Rússia acaba de dar passos significativos para quebrar o atual monopólio que
Wall Street impõe ao preço do petróleo, pelo menos para parte significativa do
mercado mundial de petróleo. O movimento é parte de estratégia de mais longo
prazo para descolar a economia da Rússia e, especialmente sua muito
significativa exportação de petróleo, do dólar norte-americano - que é hoje o
calcanhar de Aquiles da economia russa.
No final de novembro, o Ministério de Energia da Rússia anunciou que começaria
a testar um novo preço referencial para o petróleo russo. Talvez pareça café
pequeno para muitos, mas é importantíssimo. Se o experimento for bem-sucedido, e
não há razão para que não seja, os contratos futuros negociados para o cru russo
nas bolsas russas, serão denominados em rublos, não mais em dólares
norte-americanos. É parte de um movimento de desdolarização que Rússia, China e
número crescente de outros países já iniciaram sem alarde.
A fixação de um preço referencial [orig. oil benchmark price: preço para o cru
que serve como referência, facilitando para vendedores e comparadores a
determinação dos preços de incontáveis variedades de crus e misturas] é o eixo
de distribuição de todo o sistema que os grandes bancos de Wall Street usam para
controlar os preços mundiais do petróleo.
Hoje, o petróleo é a principal mercadoria negociada em dólares em todo o mundo.
O preço do cru russo está hoje referenciado a um preço chamado "preço Brent". O
problema é que o campo de Brent, como outros grandes campos do Mar do Norte
estão já em declínio, o que implica dizer que Wall Street pode estar usando uma
referencial em vias de esgotamento, para controlar o preço de quantidades
gigantescas de petróleo. O outro problema é que o contrato Brent é controlado
essencialmente por Wall Street e pela manipulação dos derivativos em bancos como
Goldman Sachs, Morgan Stanley, JP MorganChase e Citibank.
O fim do 'petrodólar'
A venda de petróleo denominado em dólares é essencial como apoio ao EUA-dólar.
Por sua vez, manter a demanda por dólares em todos os bancos centrais, como
moeda básica das reservas nacionais para pagar pelo petróleo importado, em
países como China, Japão ou Alemanha, é essencial para que o EUA-dólar continue
a ser a principal moeda de reserva em todo o mundo. O status de principal moeda
de reserva no mundo é um dos dois pilares da hegemonia dos EUA desde o final da
2ª Guerra Mundial. O segundo é a força militar armada.
EUA financia suas guerras com dólares dos outros
Porque todos os países têm de comprar dólares para pagar pelo petróleo e por
praticamente todas as mercadorias que importam, países como Rússia ou China
(para ficar nesses exemplos) investem em papéis do governo dos EUA ou outras
securities semelhantes do governo dos EUA - portanto, em dólares -, o excedente
que suas empresas acumulam. O único segundo candidato suficientemente grande
para esses investimentos, o euro, passou a ser visto como de mais alto risco
desde a crise da Grécia em 2010.
O papel de liderança do EUA-dólar na função de moeda de reserva é o que
permite, desde agosto de 1971, quando o dólar foi desvinculado do lastro ouro,
que o governo dos EUA sobreviva apesar de infindáveis déficits no orçamento, sem
ser forçado a subir a taxa de juros - como alguém que pudesse usar um 'cheque
especial' bancário infinito, sem limite nem prazo.
É também o que permitiu que Washington criasse dívida federal recorde de $18,6
trilhões, sem nenhuma preocupação. Hoje, a relação dívida federal/PIB do governo
dos EUA é 111%.
Em 2001, quando George W. Bush assumiu a Casa Branca, e antes de torrar
trilhões na "Guerra ao Terror" no Afeganistão e Iraque, a mesma relação
EUA-dívida/PIB era a metade do que é hoje: 55%.
Daí que os falastrões em Washington vivam a dizer que "dívida não é problema":
porque têm certeza de que Rússia, China, Japão, Índia, Alemanha estão para
sempre condenados a ter de comprar a dívida dos EUA com os dólares excedentes
que consigam acumular.
Manter esse 'poder' - a condição de principal moeda internacional de reserva -
é prioridade estratégica para Washington e Wall Street, vitalmente ligada ao
processo pelo qual o mundo determina os preços do petróleo.
No período até o final dos anos 1980s os preços mundiais do petróleo eram
determinados, em grande proporção, pela relação real diária entre oferta e
demanda. Ali ainda reinavam os corretores de petróleo, os que compravam e
vendiam. Então, Goldman Sachs decidiu comprar uma pequena corretora de
mercadorias que havia em Wall Street, J. Aron, nos anos 1980. Já haviam posto o
olho na possibilidade de transformar o modo como, dali em diante, o petróleo
seria negociado nos mercados mundiais.
Foi o advento do "petróleo papel", petróleo vendido em contratos futuros -
contratos independentes de entrega do cru físico, que podem ser muito mais
facilmente manipuláveis por grandes bancos, cujos preços são muito sensíveis a
boatos e a operações clandestinas sórdidas 'de mercado', e quanto mais sórdidas
mais lucrativas. Esse 'mercado' era meia dúzia de bancos de Wall Street que
denominavam as vendas futuras de petróleo e sabiam que posições preservar e que
posições vender - função insider muito conveniente, da qual não se fala em
reuniões sociais da boa sociedade.
Foi o começo da conversão do mercado de petróleo em cassino, no qual Goldman
Sachs, Morgan Stanley, JP MorganChase e uns poucos outros bancos gigantes de
Wall Street controlam as mesas de roleta.
Depois do aumento do petróleo da OPEP em 1973, quando o preço chegou a quase
400% em apenas alguns meses depois da Guerra do Yon Kippur em outubro de 1973, o
Tesouro dos EUA enviou emissário de alto nível a Riad, Arábia Saudita.
Em 1975, o secretário-assistente do Tesouro dos EUA Jack F. Bennett foi enviado
à Arábia Saudita para firmar um acordo com a monarquia, pelo qual o petróleo
saudita e de toda a OPEP passaria a ser negociado exclusivamente em EUA-dólares,
não mais em ienes japoneses, ou marcos alemães, ou o que fosse. Imediatamente
depois, Bennett assumiu um alto posto na Exxon.
Os sauditas exigiram altas garantias militares e equipamento de ponta, em troca
do 'acordo' e, daquele ponto em diante, por mais que países importadores de
petróleo tenham protestado, o petróleo é vendido em dólares em todos os mercados
do mundo, a preços determinados por Wall Street mediante o controle dos
derivativos e do mercado de futuros, como se faz na Bolsa Intercontinental
Exchange, ICE em Londres, na Bolsa de Mercadorias NYMEX, em New York, ou na
Bolsa Mercantil de Dubai, que determina o preço de referência para o cru árabe.
Todas essas instituições são propriedade de um fechadíssimo grupo de bancos de
Wall Street (Goldman Sachs, JP MorganChase, Citigroup e outros). Foi quando se
diz que o secretário de Estado Henry Kissinger teria dito que "Se você controla
o petróleo, você controla nações inteiras". O petróleo sempre foi o coração do
Sistema EUA-dólar, desde 1945.
Importância do preço referencial russo
Hoje, os preços do petróleo que a Rússia exporta são fixados conforme o preço
Brent negociado em Londres e New York. Com o lançamento do preço referencial da
Rússia, isso deve mudar, provavelmente muito dramaticamente. O novo tipo de
contrato para o cru russo em rublos será negociado na Bolsa Mercantil
Internacional de São Petersburgo (SPIMEX).
Os contratos referenciados ao preço Brent são usados atualmente para fazer
preço não só do petróleo cru russo. Fazem preço também de mais de 2/3 de todo o
petróleo negociado internacionalmente. O problema é que a produção do Mar do
Norte está caindo, a ponto de que hoje míseros 1 milhão de barris de Brent ali
produzido fazem o preço de 67% de todo o petróleo comercializado no mundo.
Contratos denominados em rublos russos podem dar mordida considerável na
demanda por petrodólares, tão logo comecem a aparecer.
A Rússia é o maior produtor de petróleo do mundo; a criação de um referencial
independente para o preço do petróleo russo, que seja independente do dólar, é
evento muito significativo, para dizer o mínimo. Em 2013 a Rússia produziu 10,5
milhões de barris/dia, pouco mais que a Arábia Saudita. Dado que país usa
predominantemente o gás natural, os russos podem exportar 75% de todo o petróleo
que extraem. A Europa é, de longe, o principal consumidor do petróleo russo,
comprando 3,5 milhões de barris/dia, ou 80% do total das exportações russas.
O petróleo Urals Blend, mistura de vários tipos de petróleo russo, é o item
mais exportado da 'carta' de petróleo russo. Principais consumidores são
Alemanha, Países Baixos e Polônia. Para avaliar com mais clareza o peso do preço
referencial que os russos estão criando, basta considerar que os demais grandes
fornecedores de cru para a Europa - Arábia Saudita (890 mil barris/dia), Nigéria
(810 mil b/d), Cazaquistão (580 mil b/d) e Líbia (560 mil b/d) - ficam muito
abaixo da Rússia, na relação de fornecedores para a Europa.
E, também, a produção doméstica de petróleo na Europa já entrou em declínio
acentuado. O petróleo extraído em toda a Europa caiu abaixo de 3 mi b/d em 2013,
acompanhando o declínio ininterrupto também no Mar do Norte, base do referencial
Brent.
Fim da hegemonia do dólar não prejudica os EUA
O movimento dos russos para negociar petróleo em rublos para os mercados
mundiais, especialmente para a Europa Ocidental, e cada vez mais para China e
Ásia pelo oleoduto SOOP (Sibéria Oriental-Oceano Pacífico) [ing. ESPO, Eastern
Siberia-Pacific Ocean] e por outras vias, precificado pelo novo referencial
russo, na Bolsa Mercantil Internacional de São Petersburgo não é, de modo algum,
o único movimento concebido por países dependentes do dólar, para escapar dessa
dependência na compra de petróleo.
Em algum momento, no início do próximo ano, a China, segundo maior importador
de petróleo do mundo, planeja lançar seu próprio contrato para compra de
petróleo a ser pago, não em dólares, mas em yuan chineses - a ser negociado na
Bolsa Internacional de Energia de Xangai.
Passo a passo, Rússia, China e outras economias emergentes estão tomando medidas
para reduzir o muito que dependem do EUA-dólar, para se "desdolarizar". Petróleo
é a mercadoria mais negociada no mundo e quase inteiramente em EUA-dólares. Se
essa relação desigual for rompida, a capacidade do complexo industrial militar
norte-americano para fazer guerras sofrerá duro baque.
Talvez assim se abram algumas portas para ideias mais pacíficas, menos
belicistas, sobre como gastar os dólares dos contribuintes norte-americanos para
reconstruir a infraestrutura básica da economia dos EUA, hoje reduzida às mais
escandalosas ruínas.
Em 2013, a Sociedade Norte-Americana de Engenheiros Civis estimou em $3,6
trilhões o investimento em infraestrutura básica de que os EUA carecem, se for
feito nos próximos cinco anos (se demorar mais que isso, os números crescem).
Aquele relatório informa que de cada nove pontes nos EUA, mais de 70 mil pontes
em todo o país, estão em estado precaríssimo. Quase 1/3 de todas as grandes
rodovias nos EUA estão em más condições. Só dois, dos 14 grandes portos que há
na costa leste têm condições de receber os super cargueiros que em breve estarão
chegando pelo recém alargado Canal do Panamá. Já há no mundo mais de 224 mil
quilômetros de trilhos para trens de alta velocidade; nem um metro deles em
território dos EUA.
Esse tipo de gasto em infraestrutura básica seria fonte muito mais
economicamente benéfica de empregos reais e de renda real para os EUA, que as
infindáveis guerras de que John McCain fez meio de vida. Investimento em
infraestrutura, como já escrevi incontáveis vezes, tem efeito multiplicador na
criação de novos mercados. Infraestrutura cria eficiências econômicas e
arrecadação da ordem de 11 dólares para cada dólar investido, porque toda a
economia ganha eficiência.
Declínio dramático no papel do dólar como moeda mundial de reserva, se
combinado com foco concentrado, à moda russa, na reconstrução da economia
nacional, em vez de deslocalizar tudo, terceirizar tudo em todos os casos, seria
excelente caminho para reequilibrar um mundo já completamente enlouquecido com
tantas guerras.
Por paradoxal que pareça, a desdolarização - que negue a Washington os meios
para financiar guerras futuras com o que o país recebe de chineses, russos e
outros compradores de papeis da dívida pública dos EUA - pode vir a ser valiosa
contribuição para um mundo de paz genuína. Não seria ótimo, para variar? *****+
Orig. Brent price. "Brent" é uma categoria de petróleo cru, que se subdivide em
Brent Crude, Brent doce leve, Oseberg e Forties. O Brent Crude é originário do
Mar do Norte. O nome 'Brent' foi criado por uma política interna da Shell, que
originalmente denominava seus campos de produção com nomes de aves (neste caso,
o ganso de Brent, ave típica do Mar do Norte) [NTs].
In
port.pravda.ru
http://port.pravda.ru/russa/13-01-2016/40168-petroleo_russia-0/
13/1/2016
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Un mundo en el filo de la navaja
Alan Woods
"Adios Año Viejo. Feliz Año Nuevo". Ese fue siempre el mensaje alentador del Año
Nuevo. Pero en medio de todas las fiestas y del estallido de botellas de
champán, no había señal alguna de optimismo ni esperanza en el futuro por parte
de la clase dominante y sus estrategas. Por el contrario, las columnas de la
prensa burguesa están llenas de pesimismo y aprensión.
El 28 de diciembre el Financial Times publicó un artículo de Gideon Rachman con
el título interesante: Maltratado, magullado y asustado - el mundo entero está
en el filo de una navaja. En él se lee lo siguiente:
"En 2015, pareció asentarse una sensación de inquietud y aprensión en los
principales centros de poder del mundo. Desde Beijing a Washington, de Berlín a
Brasilia, de Moscú a Tokio –gobiernos, medios de comunicación y ciudadanos se
mostraban temerosos y acosados.
"Este tipo de ansiedad globalizada es inusual. Durante los últimos 30 años y
más, ha habido al menos una potencia mundial que era disparatadamente optimista.
A finales de 1980 los japoneses todavía estaban disfrutando de un auge de
décadas –y confiadamente compraban activos en todo el mundo. En la década de
1990 Estados Unidos disfrutaba de la victoria en la guerra fría y de una larga
expansión económica. Al comienzo del 2000 la UE estaba en un excelente estado de
ánimo, con el lanzamiento de una moneda única y la casi duplicación de sus
miembros. Y durante la mayor parte de la última década, el creciente poder
político y económico de China ha inspirado respeto en todo el mundo.
"Sin embargo, en este momento todos los grandes jugadores parecen sumidos en la
incertidumbre –incluso temerosos. La única excepción parcial que me encontré
este año fue la India, donde la élite de los negocios y de la política todavía
parecía impulsada por el celo reformista del primer ministro Narendra Modi.
"Por el contrario, en Japón, se está desvaneciendo la fe en que las reformas
radicales, conocidas como Abenomics, puedan realmente romper el ciclo de deuda y
deflación del país. La ansiedad japonesa está alimentada por las continuas
tensiones con China. Sin embargo, mi principal impresión de una visita a China,
a principios de año, es que este es también un país que se siente mucho menos
estable que hace incluso un par de años. La época en la que el gobierno sin
esfuerzo despachaba crecimientos anuales del 8 por ciento o más ha terminado.
Las preocupaciones sobre la estabilidad financiera interna van en aumento, como
revelaron los trastornos en la bolsa de Shanghai durante el verano".
Nuevas explosiones en Oriente Medio
El año nuevo se abrió con gran dramatismo en el escenario dispuesto, como era de
esperar, del caldero hirviente de Oriente Medio, a raíz de la ejecución del
jeque Nimr al-Nimr, un prominente clérigo musulmán chiíta, crítico persistente
de la familia real de Arabia Saudita que participó en las protestas
antigubernamentales que estallaron en Arabia Saudita en el período de la
Primavera Árabe, hasta que fue detenido en 2012.
Washington considera la situación con una mezcla de alarma e impotencia. El
portavoz del Departamento de Estado John Kirby pronunció palabras
tranquilizadoras: "Vamos a seguir instando a los líderes de toda la región a
adoptar medidas afirmativas para calmar las tensiones. Creemos que el compromiso
diplomático y las conversaciones directas siguen siendo esenciales".
Pero mientras Washington predica dulzura y luz, sus amigos y aliados en Riyadh
están vertiendo litros de gasolina a las llamas de la que ya era una región
altamente explosiva. Las palabras de Kirby se asemejan a un discurso pronunciado
por un vegetariano en una convención anual de caníbales. La única diferencia es
que el hombre que lo pronunció es el representante de la potencia más caníbal de
la tierra.
Las llamas que envuelven todo Oriente Medio son la consecuencia directa de la
invasión criminal de Irak y de la continua injerencia del imperialismo
estadounidense en esa infeliz región. Después de haber desestabilizado Irak y de
reducirlo a ruinas humeantes tras una guerra devastadora, los estadounidenses y
sus aliados han ayudado e instigado fuerzas reaccionarias en Siria que ahora
plantean una grave amenaza para sus intereses. Pero la llamada "guerra contra el
terror" que supuestamente ha sido llevada a cabo por los EEUU y sus aliados en
los últimos años en Irak no ha conseguido absolutamente nada. La afirmación de
que el patético y cobarde ejército iraquí, que está bajo control de Estados
Unidos, ha retomado Ramadi de manos del ISIS, resultó ser una mentira.
Mientras escribo estas líneas, los yihadistas permanecen con el control de
grandes partes de esa ciudad (o lo que queda de ella) y la lucha todavía se está
librando. Sin duda, el ejército iraquí finalmente podría tener éxito en
controlar un montón de ruinas humeantes. Pero el "triunfo" en Ramadi sólo ha
servido para exponer al ejército iraquí como un instrumento inútil. Esta farsa
vergonzosa expone la falsedad de todas las pretensiones jactanciosas del
Pentágono, que paga sus salarios y pone armas en sus manos, que tirarán a la
basura tan pronto como se presente la primera oportunidad conveniente.
Estados Unidos, Rusia e Irán
Después de haber despertado finalmente ante el peligro que representan las
fuerzas que han escapado a su control, los estadounidenses están buscando
desesperadamente a alguien que pueda ayudarles en acabar con los incendios que
ellos mismos han provocado. Pero, ¿quién puede ser? De mala gana, murmurando en
voz baja, los estadounidenses están obligados a recurrir a los más inesperados e
indeseados de todos los aliados imaginables –Rusia e Irán.
No hace mucho tiempo, los estadounidenses y sus aliados de la OTAN estaban
repitiendo constantemente el mismo canto monótono de "aislar a Rusia". ¡Oh si!
"Rusia está aislada internacionalmente." Ese era el mantra, repetido día tras
día. Pero ahora, como por arte de magia, Rusia no está en absoluto aislada, sino
cortejada, festejada, y bañada en elogios, aunque proporcionados de una forma
hosca y gruñona. "No tenemos ninguna intención de aislar a Rusia", "Tenemos que
llegar a un entendimiento con Rusia", repiten ahora constantemente, y esperan
que nadie notará el cambio de tono.
Esa no fue la única vuelta de campana realizada por Washington en el año del
Señor de 2015. Un salto aún más sorprendente en el circo diplomático tuvo lugar
en relación con Irán. El mismo Irán que, como Rusia, estaba condenado al papel
de un paria internacional, que estuvo sometido a sanciones de castigo, e incluso
estuvo a punto de recibir las atenciones amables de la fuerza aérea de Estados
Unidos, se ha convertido ahora en un amigo de Estados Unidos. Y como todos
sabemos, ¡un amigo en la necesidad es un amigo de verdad!
La razón de estas acrobacias diplomáticas sorprendentes no es difícil de ver.
Las únicas acciones militares serias contra los yihadistas en Siria han sido
llevadas a cabo por los rusos en colaboración con el ejército sirio de Bashar
al-Assad. Y las únicas acciones militares serias contra el ISIS en Iraq (aparte
de los kurdos, que sólo luchan en sus propias áreas) son llevadas a cabo, no por
el llamado ejército iraquí y sus aliados estadounidenses, sino por la milicia
chiíta respaldada por Irán y elementos del ejército iraní.
En la práctica, los estadounidenses se han visto obligados a reconocer esto y
aceptar las demandas de Rusia e Irán de que Bashar al-Assad debe permanecer en
el poder durante el futuro previsible. Un informe publicado en la London Review
of Books por el destacado periodista de investigación estadounidense Seymour
Hersh afirma que "el Estado Mayor Conjunto estadounidense proveyó de información
de seguridad al Ejército sirio a través de Alemania, Rusia e Israel".
Esto concuerda con las declaraciones hechas por el ex director de la 'Agencia de
Inteligencia de Defensa' estadounidense (DIA), Michael Flynn, quien dijo a la
misma revista que entre 2012 y 2014 su agencia envió una serie de mensajes de
advertencia sobre el impacto de derrocar al régimen de Assad. Su agencia comenzó
a ofrecer al régimen información de inteligencia (sin, al parecer, la aprobación
de los políticos) para avanzar en su guerra contra los "enemigos comunes".
Los estadounidenses y sus aliados están siendo obligados por la fuerza de las
circunstancias a abandonar la ficción ridícula de una "oposición islamista
moderada" en Siria. Esta "oposición moderada", como ahora todo el mundo sabe, se
compone de bandas extremistas de yihadistas como las del Frente Al Nusra,
apoyado por EEUU, y que es la rama siria de Al Qaeda. Una parte del imperialismo
de Estados Unidos (la CIA) desea continuar esta política, pero se contradice
directamente por el cambio de línea de la Administración de Obama en relación
con Rusia e Irán. Mientras tanto, los rusos siguen bombardeando a placer a todas
las fuerzas yihadistas, sin prestar la menor atención a los aullidos de protesta
de Washington.
Saudíes y turcos
Estas divisiones en Washington crean una impresión de confusión e indecisión,
que está personificada en la persona del presidente Obama. No puede haber
ninguna duda de que el derribo de un avión ruso por los turcos fue una
provocación deliberada por parte de Erdogan, cuya intención era abrir una brecha
entre Estados Unidos y Rusia. Como predijimos, esta maniobra fracasó totalmente.
La ejecución de Nimr al-Nimr –un asesinato legal ordenado por la camarilla real
saudí, es del mismo orden. Fue una provocación deliberada con la intención de
provocar la violencia sectaria entre chiítas y sunitas y empujar al gobierno de
Teherán a tomar una acción militar contra Arabia Saudita, para luego pedir ayuda
a los estadounidenses.
La reacción inmediata a lo que fue claramente un asesinato judicial fue el
asalto a la embajada saudí en Teherán. Arabia Saudita inmediatamente rompió
relaciones diplomáticas con Irán. Todo esto fue cuidadosamente premeditado. Los
acontecimientos han procedido paso a paso, al igual que los pasos de una
bailarina de ballet. Pero este ballet es la danza de la muerte. Este fue un acto
desesperado de un régimen que se encuentra en serios problemas y que se enfrenta
a la perspectiva del derrocamiento.
Los gángsteres saudíes calcularon mal en Yemen, donde están involucrados en una
guerra imposible de ganar. Ahora han despertado la ira de los chiítas, que
constituyen al menos el veinte por ciento de la población saudí y están entre
las capas más pobres y oprimidas. Manifestaciones masivas han estallado en
ciudades saudíes con consignas como "¡Muerte a la Casa de Saud!" Al
extralimitarse, la camarilla dominante saudí ha sembrado vientos y cosechará
tempestades.
Crisis de los refugiados
El revisionista pseudo-marxista Hobsbawm, haciéndose eco de una idea que fue
mucho mejor expresada por Kautsky, sostuvo que en la era de la globalización,
las barreras nacionales dejarían de tener sentido y las guerras serían una cosa
del pasado. En lugar de esto, el siglo XXI ha estado marcado por interminables
guerras, violencia y conflictos nacionales de todo tipo. Oriente Medio es sólo
un ejemplo de esto.
El caos sangriento de Siria está provocando un desplazamiento masivo de
personas, probablemente no visto desde el final de la Segunda Guerra Mundial.
Miles y miles de refugiados ateridos de frío, agotados, y hambrientos golpearon
con sus puños desnudos contra las alambradas que fueron apresuradamente erigidas
por las fuerzas de la ley y del orden de la Europa civilizada. Nada puede
ilustrar mejor la hipocresía fría y cínica de la burguesía europea que su
reacción frente a la crisis de los refugiados.
Durante muchos años los pueblos de Europa y de Norteamérica fueron alimentados
con la mentira de que cada acto de agresión imperialista estaba motivado por las
más puras preocupaciones humanitarias. Estas "preocupaciones" han creado el
mayor desastre humanitario desde la Segunda Guerra Mundial. Después de haber
contribuido en gran manera al caos en Siria, los gobiernos de Europa están ahora
ocupados diseñando la mejor manera de cerrar la puerta a las desafortunadas
víctimas de la guerra.
La situación no es mejor en el otro lado del Atlántico. Hace cien años, EEUU
inscribió en la Estatua de la Libertad las famosas palabras:
"Dadme vuestros cansados, vuestros pobres,
Vuestras masas hacinadas que anhelan respirar en libertad,
El desamparado desecho de vuestras rebosantes costas.
Enviadme a estos, los desamparados y náufragos, a mí:
Levanto mi lámpara junto a la puerta dorada ".
Ahora, estas palabras suenan como una cruel ironía. Esa misma Norteamérica está
erigiendo vallas cada vez más altas para contener a las pobres masas hacinadas
en el otro lado del Río Grande. El candidato presidencial que encabeza las
preferencias por el Partido Republicano pide públicamente la prohibición de
ingreso a los musulmanes que deseen entrar en los Estados Unidos. Esta es la
auténtica voz del capitalismo del siglo XXI, la voz de la reacción abierta, del
chovinismo, la xenofobia y el racismo, apenas disimulada.
En lugar de la utopía revisionista de un mundo sin fronteras, las barreras
nacionales se están reforzando en todas partes. Los controles fronterizos están
siendo reintroducidos no sólo en la periferia de Europa, sino también entre los
países miembros del Acuerdo de Schengen. La bonita y democrática Suecia está
introduciendo controles de los viajeros procedentes de la bonita y democrática
Dinamarca. Nada queda del sueño de una Europa unida, que siempre fue imposible
sobre bases capitalistas.
Europa en crisis
El estado de ánimo en Europa es sombrío. El año 2015 estuvo marcado tanto en su
principio como en su final por dos atentados sangrientos en París. Los
ciudadanos de Munich y Bruselas ni siquiera pudieron celebrar el Año Nuevo en el
estilo acostumbrado por temor a nuevos atentados terroristas. En París, el
castillo de fuegos artificiales tuvo que ser suspendido. El miedo y la
incertidumbre están en todas partes.
Todos los economistas serios esperan que la economía global se dirija hacia otra
caída, que puede comenzar en Asia como resultado de la fuerte desaceleración de
la poderosa economía china. Pero igualmente podría comenzar en Europa. Alemania,
anteriormente la locomotora del crecimiento económico de Europa, se ha estancado
y quedó sumida en una crisis por la llegada de más de un millón de refugiados de
Oriente Medio y de otras zonas en guerra.
El euro, que, junto con el Acuerdo de Schengen, se suponía iban a ser la base
para una mayor integración económica, se ha convertido en su contrario. Un
profundo abismo se ha abierto entre Alemania y los países del sur de Europa,
mientras que la crisis de los refugiados ha abierto una brecha entre ella y los
países del este. La larga agonía de Grecia va a continuar, ya que nada en
absoluto ha sido resuelto. La salida de Grecia del euro es sólo cuestión de
tiempo.
A su vez, será la causa de mayor dolor y sufrimiento para el pueblo griego, y
puede actuar como un detonador que empujará a otros países hacia la puerta
marcada con la salida. Gran Bretaña ha convocado un referéndum que podría
terminar con la salida del Reino Unido de la UE. El sentimiento anti-UE se está
acumulando en Francia y otros países. El futuro, no sólo del euro, sino de la
propia UE, está en cuestión.
Fermento político
El pesimismo de la burguesía está bien fundado. Pero es sólo una cara de la
moneda. La crisis del capitalismo engendra inevitablemente su opuesto: el
nacimiento de un nuevo espíritu de revuelta que es lo único que puede ofrecer a
la humanidad una esperanza en el futuro. Lenta, pero firmemente, la conciencia
de las masas está despertando. Y si los brotes verdes de la recuperación
económica son sólo producto de la imaginación de los economistas, los primeros
síntomas del renacimiento de un estado de ánimo revolucionario son reales y
tangibles.
Es una proposición elemental del materialismo dialéctico que la conciencia
humana siempre va por detrás de los acontecimientos. Pero tarde o temprano se
pone al día de una manera explosiva. Eso es precisamente lo que es una
revolución. Y lo que estamos presenciando en Gran Bretaña es el comienzo de una
revolución política. De la noche a la mañana toda la ecuación se ha
transformado. Eso en sí mismo es un síntoma de los profundos cambios que se
están produciendo en la sociedad. Los cambios bruscos y repentinos están
implícitos en la situación actual.
Es cierto que la conciencia se forma en gran medida con los recuerdos del
pasado. Tomará un tiempo para que las viejas ilusiones en el reformismo sean
reducidas a cenizas y expulsadas de la conciencia de las masas. Pero bajo los
golpes de martillo de los acontecimientos habrá cambios bruscos y repentinos en
la conciencia ¡Ay de aquellos que tratan de basarse en la conciencia de un
pasado que ya se desvaneció sin remedio! Los marxistas deben basarse en el
proceso vivo y en las perspectivas para el próximo período, que no guardan
ninguna similitud con lo que hemos experimentado hasta ahora.
Buscando una salida a la crisis, las masas ponen a prueba un partido tras otro.
Los viejos líderes y programas son analizados y descartados. Esos partidos que
son elegidos y traicionan las esperanzas del pueblo, llevando a cabo recortes en
violación de las promesas electorales, se ven desacreditados rápidamente. Las
que eran consideradas ideologías dominantes se vuelven despreciadas. Los líderes
que eran populares se vuelven odiosos. Cambios bruscos y repentinos están en el
orden del día.
Hay una ira creciente contra las élites políticas: contra los ricos, los
poderosos y los privilegiados. Esta reacción contra el status quo, que contiene
las semillas embrionarias de acontecimientos revolucionarios, puede durar mucho
más allá del punto en el que la economía comienza a registrar signos de mejoría.
La gente ya no cree lo que dicen o prometen los políticos. Hay una creciente
desilusión con la clase política y en los partidos políticos en general. Hay un
sentimiento general y profundo de malestar económico en la sociedad. Pero carece
de un vehículo que sea capaz de darle una expresión organizada.
En Francia, donde el Partido Socialista arrasó en las últimas elecciones
presidenciales, François Hollande tiene la tasa de aprobación más baja de
cualquier presidente desde 1958. En Grecia vimos el colapso del Pasok y el
ascenso de Syriza. En España tenemos el auge de Podemos, que salió de la nada
para conseguir –junto con sus aliados– 69 escaños en el parlamento español,
consolidándose como el único partido verdadero de oposición.
Vemos el mismo proceso que tiene lugar en Irlanda en el reciente referéndum.
Durante siglos, Irlanda fue uno de los países más católicos de Europa. No hace
mucho tiempo, la Iglesia mantenía un dominio absoluto sobre todos los aspectos
de la vida. El resultado del referéndum sobre el matrimonio gay, donde el 62%
votó Sí, fue un duro golpe a la Iglesia Católica Romana. Fue una protesta masiva
contra su poder y su interferencia en la política y en la vida de las personas.
Esto representó un cambio fundamental en la sociedad irlandesa.
En Gran Bretaña, contra todos los pronósticos, Jeremy Corbyn arrasó en las
elecciones para líder laborista. Este fue un terremoto político que transformó
toda la situación en Gran Bretaña prácticamente de la noche a la mañana. Este
desarrollo fue anticipado por los acontecimientos en Escocia, donde la revuelta
contra el Establishment se reflejó en el rápido crecimiento del Partido Nacional
Escocés (SNP). Esto no fue un movimiento hacia la derecha, sino a la izquierda.
No fue una expresión de nacionalismo sino de un odio ardiente hacia la élite
decadente que gobierna en Westminster. El Partido Laborista, como resultado de
las políticas de colaboración de clases cobarde de sus líderes, es visto
justamente como una parte de dicho Establishment.
Durante décadas, el Partido Laborista bajo el liderazgo del ala derecha fue un
pilar de apoyo al sistema existente. La clase dominante no lo abandonará sin una
lucha feroz. La primera línea de defensa del sistema capitalista es el mismo
grupo parlamentario del Partido Laborista (PLP). La mayoría de Blair del PLP es
el agente directo y consciente de los banqueros y capitalistas en esta lucha.
Eso explica su determinación fanática de deshacerse de Jeremy Corbyn a toda
costa. Se está preparando el terreno para una escisión en el Partido Laborista,
que creará una situación totalmente nueva en Gran Bretaña. Todo esto es una
expresión del profundo descontento que existe en la sociedad y que busca una
expresión política. En toda Europa existe el temor de que las políticas de
austeridad no serán un ajuste temporal, sino un ataque permanente a los niveles
de vida. En países como Grecia, Portugal e Irlanda estas políticas ya han dado
lugar a profundos recortes en los salarios y las pensiones nominales sin haber
resuelto el problema del déficit. Por lo tanto, todos los sufrimientos y
privaciones de las personas han sido en vano. En todas partes los pobres son más
pobres y los ricos son más ricos.
Estos procesos no se limitan a Europa. La elección presidencial estadounidense
presenta un desarrollo más interesante. Es, por supuesto, imposible de predecir
el resultado con algún grado de certeza, dada la coyuntura extremadamente
inestable y volátil de la política estadounidense. El circo de los medios se ha
centrado casi exclusivamente en la persona del Republicano Donald Trump. Parece
poco probable que la clase dominante de Estados Unidos confíe sus asuntos a un
payaso ignorante. Pero lo ha hecho al menos en dos ocasiones en el pasado
reciente. Hillary Clinton es sin duda una apuesta más segura desde el punto de
vista de la clase dominante.
Pero mucho más importante que Trump o Clinton fue el apoyo masivo a Bernie
Sanders que habla abiertamente de socialismo. La aparición de Bernie Sanders
como un rival por la nominación Demócrata a la candidatura presidencial es un
síntoma del profundo descontento y fermento en la sociedad. Sus ataques contra
la clase multimillonaria y su llamamiento a una "revolución política" resuenan
en millones de personas, mientras decenas de miles asisten a sus mítines.
La palabra "socialismo" ahora se utiliza con mayor frecuencia en los medios de
comunicación. Una encuesta de 2011 encontró que el 49% de los jóvenes de 18 a 29
años tenía una visión positiva del socialismo, frente a sólo el 47%, con una
visión positiva del capitalismo. Una encuesta más reciente, de junio de 2014,
encontró que el 47% de los estadounidenses votaría por un socialista, con un 69%
de los menores de 30 a favor.
Un gran número de personas, muchas de ellas jóvenes, estaban ansiosas por
escuchar el mensaje de Bernie Sanders. Es cierto que éste era más afín al estilo
escandinavo de socialdemocracia que al verdadero socialismo. Aún así, este es un
síntoma muy significativo de que algo está cambiando en los EEUU.
La situación en Rusia ha marcado diferencias con el resto de Europa. En la
superficie puede parecer paradójico que Putin haya emergido fortalecido de la
crisis en Ucrania y Siria. Los esfuerzos de Occidente para aislarlo han sido un
fracaso miserable. En Siria él es el hombre que ahora está al mando. E incluso
si los EEUU persisten en el mantenimiento de las sanciones sobre Crimea y
Ucrania, podemos predecir con confianza que sus aliados europeos retirarán las
suyas de manera silenciosa. La economía europea en crisis, necesita el mercado
de Rusia y el gas ruso tanto como necesita la burguesía europea ayuda rusa para
limpiar el desorden en Siria y (si Dios quiere) detener el flujo interminable de
refugiados.
Pero, si miramos más profundamente en la situación, quedará claro que no es tan
estable como parece. La economía rusa sigue cayendo, afectada por la caída del
precio del petróleo y las sanciones occidentales. Los salarios reales están
cayendo. La clase media ya no puede pasar fines de semana agradables en Londres
y París. Se queja, pero no hace nada. Los trabajadores rusos estuvieron
influenciados por la propaganda oficial sobre Ucrania. Ellos se escandalizaron
por las actividades de los fascistas y ultranacionalistas ucranianos y Putin fue
capaz de tomar ventaja de su simpatía natural hacia sus hermanos y hermanas del
este de Ucrania.
Putin puede mantener su control del poder por algún tiempo, pero todo tiene sus
límites y al final de la historia siempre llega la factura. La crisis económica
ha llevado a una fuerte caída en los niveles de vida de muchos trabajadores,
sobre todo fuera de Petersburgo y Moscú. Las masas son pacientes, pero la
paciencia tiene límites definidos. Vimos una evidencia de esto al final de 2015,
cuando los camioneros de larga distancia se declararon en huelga. Un pequeño
síntoma tal vez; pero un síntoma, no obstante, de que tarde o temprano el
descontento de los obreros rusos encontrará su expresión en graves protestas.
Panorama sombrío
En el fondo, todos estos fenómenos reflejan el hecho de que el sistema
capitalista ha llegado a sus límites. La globalización, habiéndose agotado, se
ha convertido en su contrario. De ser un factor poderoso que propulsaba el
crecimiento, ahora está ayudando a arrastrar todo el edificio poco sólido hacia
abajo. El hecho es que la llamada recuperación –que no es una recuperación en
absoluto– es de carácter tan débil y anémica que cualquier choque, ya sea
económico, político o militar, será suficiente para llevar toda la recuperación
a una parálisis temblorosa.
La desaceleración de la economía china amenaza al mundo entero. China importaba
grandes cantidades de productos de países como Brasil. Ahora la economía
brasileña se contrae un 4,5 por ciento. Muchos otros de los llamados BRICS están
en una posición similar. Las predicciones de los portavoces del capital son cada
vez más pesimistas sobre el futuro. The Wall Street Journal informó de las
palabras de Adam Parker, jefe de valores de EEUU, estratega jefe de la bolsa de
valores del Morgan Stanley: "Creemos que estamos propensos a dirigimos hacia un
año agitado de bajos rendimientos, y sospechamos que muchos otros piensan lo
mismo".
El máximo ejecutivo de Hyundai Motor ha dicho que la perspectiva para este año
"no es brillante". El presidente del Grupo Chung Mong-Ku dijo a los jefes de los
fabricantes de automóviles en el extranjero que el crecimiento de las unidades
en 2015 estuvo limitado por una economía global débil, por la desaceleración
económica en el segundo mayor mercado de autos del mundo, China, y por una
disminución de la demanda de los mercados emergentes. "Teniendo en cuenta muchos
de los indicadores principales, las perspectivas para el mercado de automóviles
del próximo año tampoco son brillantes", dijo. Ejemplos similares se pueden
repetir a voluntad.
En el artículo que mencionamos al principio, Gideon Rachman saca las
conclusiones más pesimistas:
"El pesimismo mundial hace que el sistema político internacional se asemeje a un
paciente que todavía está luchando por recuperarse de una enfermedad grave que
se inició con la crisis financiera de 2008. Si no hay malos choques adicionales,
la recuperación debe proceder gradualmente y los peores síntomas políticos
pueden desvanecerse. El paciente es vulnerable, sin embargo. Otro duro golpe,
como un ataque terrorista o una recesión económica grave, podría significar un
verdadero problema".
Esta es la verdadera voz de los estrategas del Capital. Miran el futuro con
temor. Y desde su propia perspectiva de clase no se equivocan. 2016 producirá
más turbulencia, crisis económica y ataques a los niveles de vida, más
desigualdad e injusticia, más derramamiento de sangre y caos.
El Año Nuevo replicará al Viejo, pero con mayor intensidad. Las guerras en
Oriente Medio, África y Asia producirán el mismo tsunami de miseria humana que
continuará derramándose hacia Europa, donde será recibido por una barrera de
alambres de púas y de inhumanidad.
El terrorismo, que se está extendiendo por el mundo como una epidemia
incontrolable, es en sí mismo un síntoma de la naturaleza enferma del
capitalismo en el siglo XXI. Más actos de terrorismo son inevitables. Los
terroristas no pueden ser detenidos con métodos policiales. No hay suficientes
policías en el mundo para hacer frente a un gran número de individuos
determinados y fanáticos que deseen perpetrar actos de asesinato contra civiles
desarmados e indefensos.
Cuando Lenin escribió que el capitalismo era horror sin fin, él estaba diciendo
la verdad. Es tan inútil quejarse de estos horrores, como de quejarse de los
dolores que acompañan al parto. La tarea de los marxistas no es quejarse de las
consecuencias inevitables de la decadencia capitalista. Dejamos ese tipo de
cosas a los predicadores y pacifistas.
Nuestra tarea es trabajar incansablemente para señalar a los trabajadores y los
jóvenes las causas reales de estos horrores y explicar la forma en que el
problema se puede erradicar de una vez por todas. Eso sólo se puede lograr
mediante una transformación de raíz de la sociedad. Problemas drásticos exigen
soluciones drásticas. Sólo la revolución socialista puede resolver los problemas
a los que se enfrenta la humanidad. Esa es la única causa por la que vale la
pena luchar hoy día.
Londres, 4 de enero de 2016
In
Lucha de clases
http://www.luchadeclases.org.ve/internacionales/7920-perspectivas-20016
8/1/2016
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
Acerca do capitalismo monopolista transnacional ***
por Daniel Vaz de Carvalho [*]
O monopólio penetra imperiosamente em todos os domínios da vida
social independentemente do regime político e de todas as outras
contingências.
Lenine, O imperialismo estado supremo do capitalismo
1 – Do CME ao CMT
2 – Países dominantes e países dominados
3 – CMT e "comércio livre"
4 – "Construtores de uma civilização mundial"
1 – Do CME ao CMT
No início dos anos 70 o capitalismo monopolista de Estado (CME)
evidenciava os limites do capitalismo perante o agudizar das suas
contradições. Para as superar, bem como à crise que se instalava,
restavam duas vias: a progressista de transição para o socialismo, a
reacionária neoliberal e imperialista.
Em "A catástrofe iminente e os meios de a conjurar", Lenine escrevera: "O
capitalismo monopolista de Estado é a mais completa preparação para o
socialismo, a antecâmara do socialismo, o degrau histórico que nenhum
outro degrau intermédio separa daquele a que se chama socialismo".
Os partidos socialistas/social-democratas renegando os seus próprios
programas em que preconizavam atingir o socialismo pele via reformista,
seguiram a sua verdadeira agenda: defender o sistema capitalista e a
aliança com o imperialismo, acabando assim por assegurar o domínio do
neoliberalismo.
O grande capital encontrara no ultraliberalismo da "escola de Chicago" a
justificação teórica para a sua ofensiva contra o CME keynesiano, forçando
a instauração de um capitalismo monopolista transnacional (CMT).
Em dezembro de 1970 a Business Week postulava: "Sem um governo mundial
não pode haver verdadeira economia mundial", salientando que "doravante o
Estado encontra-se apoiado de modo periclitante entre o seu quadro
nacional e o internacional". [1]
A social-democracia aceitou como boas as teses neoliberais (não podemos
ignorar os interesses pessoais e materiais envolvidos nestas opções),
convencendo-se, ou apenas tentando convencer os demais, que manteria a
mesma relação de forças capital-trabalho, que os trabalhadores
partilhariam dos aumentos de produtividade e da exploração dos outros
povos.
No fundo, aceitavam a tese do "gotejamento", pela qual o grande capital
iria enriquecer ainda mais. Tudo isto, disfarçado com o culto do
"mercado", apresentando-o de forma mecanicista em que as ações humanas
perdem conteúdo social e se resumem à hipotética racionalidade e
predeterminação do homo economicus.
Uma intensa propaganda pretende que o Estado seja gerido como o comum das
famílias, portanto retirando-lhe as funções próprias à sua soberania. O
Estado submeter-se-ia totalmente à voracidade do capital transnacional,
perdendo inclusive o papel que a social-democracia lhe reservava como
protagonista na conciliação de classes a favor do capital. A conciliação
passou a submissão e o protagonismo pertence ao grande capital financeiro.
As privatizações fazem parte do processo de desmantelamento do CME, sendo
desde logo ou posteriormente absorvidas pelos grandes grupos
transnacionais. As regras da UE e a sua "união bancária" visam em
absoluto este objetivo.
A UE é exemplo da ilusão de criar um sistema capitalista, neste caso
transnacional, esvaziado de contradições, perfeitamente racional e
solidário. Assim, enquanto os preâmbulos dos tratados e principais
diretivas apontam para mais emprego, aumento de riqueza dos cidadãos,
solidariedade, crescimento intensivo, a sua prática apenas defende "ûber
alles" os interesses dos grandes grupos transnacionais.
O CMT representa o predomínio da oligarquia sobre a democracia: livre
circulação de capitais, hipertrofia das atividades improdutivas,
repressão dos ideais e movimentos progressistas, expansão e propaganda de
ideologias reacionárias. Tudo o que é social e coletivo fica entregue aos
exclusivos interesses do lucro capitalista. E chamam a isto eficiência…
2 – Países dominantes e países dominados
O CMT estabelece e torna permanentes relações de dependência entre as
nações, relações que não são apenas económicas, mas também políticas (os
tratados), ideológicas (direitos e deveres dos cidadãos e dos povos) e
culturais como modelos de comportamento. A libertação das cadeias de
dependência implica a superação do CMT.
Objetivamente o CMT visa estabelecer uma repartição internacional da
mais-valia a favor do grande capital transnacional, assumindo-se a
superpotência imperialista como garante da exploração do proletariado a
nível mundial.
O mais favorável desempenho dos países dominantes é apresentado como
resultante do seu modelo, tendo em vista a manutenção das relações de
dependência e a sua aceitação pelos países dominados.
Na UE os mecanismos de dependência conduziram os países menos
desenvolvidos para a via do subdesenvolvimento, os casos da Grécia e
Portugal são evidentes, mas logo na sua esteira estão a Espanha, a
Itália, apenas menos pressionados devido à sua dimensão que provocaria o
rápido desmoronamento desta construção imperialista. Quanto aos países da
Europa do leste foram (des)estruturados ao nível do chamado "terceiro
mundo".
A financeirização constitui uma estrutura fundamental de suporte do CMT
sendo a forma do grande capital tentar escapar à baixa tendencial da taxa
de lucro. A função da banca seria transformar dinheiro (capital fictício)
em capital produtivo criando valor. Transformou-se no seu contrário:
acumula valor através da usura e transforma-o em capital fictício através
da especulação.
A lei do valor (transformação do valor em preço de mercado) passa a
realizar-se ao nível global, controlada pelas transnacionais com nítidos
prejuízos para os trabalhadores de todos os países envolvidos e com o
poder do Estado capturado nesta lógica.
A extorsão do excedente económico dos países dominados faz-se pelos
juros, pela troca desigual, pela livre transferência de capitais, pela
(criminosa) concorrência fiscal e seus "paraísos", mas também pela
emigração altamente qualificada.
À perda de soberania e da autonomia democrática dos Estados corresponde o
acréscimo de relações de dependência económica, monetária, tecnológica,
modelos de consumo. Os ataques aos direitos e salários como forma de criar
"confiança" ao investimento estrangeiro contribuem para estabelecer uma
rede de exploração a nível global sob o controlo das transnacionais.
3 - CMT e "comércio livre"
"A liberdade de comércio é a liberdade do capital", escrevia Marx em
"Miséria da filosofia". O CMT elimina limitações nacionais à penetração do
capital transnacional justificando-se com uma aparente neutralidade e
eficiência dos mercados, pelos quais se obteria a otimização dos recursos
produtivos a nível mundial.
Contudo esta aparência esconde as relações de produção que suportam os
mercados e a forma como atuam nos espaços onde se inserem. Praticamente
todos os mercados estão programados pelas grandes transnacionais, numa
ótica monopolista, sob a proteção do imperialismo. O preço é então uma
grandeza determinada por esses interesses, frequentemente com o apoio
(vergonhoso) de entidades ditas reguladoras
Quanto à função reguladora que o mercado poderia desempenhar desaparece
sob a ação dos monopólios e o domínio da finança. Tal função só seria
possível entre unidades de dimensão e com fatores de produção
equivalentes.
A mera constatação da realidade mostra que o comércio externo baseado na
teoria das "vantagem comparativas" (algo completamente fora do contexto!)
conduz ao aumento das desigualdades e desequilíbrios estruturais dos
países menos competitivos, impedindo a reestruturação das suas economias,
estabelecendo relações de dependência e subdesenvolvimento. Tal é evidente
no nosso país com as acríticas e alienantes opções europeias.
A "concorrência livre e não falseada" da UE não passa de um sofisma para
estabelecer mecanismos de troca desigual. A competição pelo preço mascara
a desigualdade dos valores trabalho trocados pela igualdade das taxas de
lucro, em vez de: a trabalho igual salário igual, mesmo capital mesmo
lucro. [2]
A partir do momento em que a OMC escapava de alguma forma às intenções do
imperialismo e se tornava um instrumento insuficiente para impor o CMT [3]
passou-se à fase a dos tratados transcontinentais como o TPP (acordo de
parceria transpacífica), o TTIP, a ser negociado em segredo entre os EUA
e a UE (mas em conluio com as grandes transnacionais) e o TISA (tratado
de serviços e investimento, em negociação). [4]
Estes tratados são uma arma contra os povos e a formalização
institucional do CMT, colocando as transnacionais acima da democracia e do
próprio poder dos Estados, nada mais reconhecendo senão esses interesses,
movidos por uma insana ambição de maximizar os lucros, lei que sobrepõem a
qualquer outra.
De facto, com estes tratados as transnacionais podem submeter totalmente
as nações aos seus interesses e penaliza-las caso considerarem que de
alguma forma as suas perspetivas de lucro foram prejudicadas.
São tratados que vão muito para além do "comércio livre": visam assegurar
o domínio absoluto do CMT tornando a democracia, as aspirações e a vontade
dos povos uma ficção. Trata-se de nivelar por baixo a nível mundial
legislação laboral, políticas de taxação de rendimentos e lucros, mas
também requisitos de qualidade e sanidade, regulamentações ambientais,
etc.
Alguns empresários, políticos e os omnipresentes "comentadores" declaram
o seu apoio a este "comércio livre" que possibilitaria a expansão dos
mercados. A pergunta que se deve fazer é: a troco de quê para o país e
para o seu povo? Ou tal não lhes diz respeito?
4 – "Construtores de uma civilização mundial"
Os ideólogos do CMT defendem os seus políticos como "construtores de uma
civilização mundial". A insanidade desta obsessão evidencia-se pela mera
circunstância de que para a formação dos EUA como Estado federal foi
necessária uma sangrenta e prolongada guerra, cujas sequelas se mantiveram
durante décadas.
O CMT procura criar a ilusão de uma economia mais produtiva, permitindo
mais empregos, maiores níveis de desenvolvimento e correção das
ineficiências de cada país. Na realidade, resultou num descontrolado
aumento das desigualdades e em intermináveis crises.
A ação combinada do capital financeiro e das megaempresas transnacionais
levaram as contradições do sistema capitalista para um nível ainda mais
gravoso e antagónico. O CMT está a ser imposto através da chantagem do
"não há alternativa", da conspiração e da ingerência, guerras de agressão,
desmembramento de Estados, caos social, desastres humanos, apoio
(camuflado) ao terrorismo.
A UE ultraliberal integra-se neste modelo de capitalismo, sem soluções
para os problemas que origina, no fundamental escamoteados pelos
"analistas" e comentadores de serviço que não ultrapassam o estado de
miopia ideológica ou da mera estratégia de desinformação. Uma evidência é
a estagnação económica, desemprego massivo, aumento da pobreza, apesar
dos 60 mil milhões que o BCE programou despejar mensalmente sobre o
sistema financeiro e que não consegue transformar-se em capital produtivo.
As contradições entre as necessidades de desenvolvimento nacional e os
interesses das transnacionais são evidentes: o capital transnacional
apenas ocorre para os locais onde a taxa de lucro é maior,
independentemente de considerações éticas e humanistas. Para serem
defendidos os lucros do grande capital as funções sociais do Estado são
destruídas.
A imposição de um modelo que se pretende global e uniforme para todos os
povos, regido exclusivamente pelas leis do lucro monopolista, não apenas
bloqueia a democracia e o desenvolvimento como destrói a cultura e a
identidade de cada povo: em suma a capacidade para decidir o seu destino
coletivo.
Sem a transformação das relações de produção as soluções reformistas
apenas conduzem a uma situação instável que a oligarquia reverterá a seu
favor. Mas a transformação das relações de produção só é possível realizar
por um movimento revolucionário, popular de massas, na base de uma
estratégia antimonopolista, indo ao encontro dos mais profundos
interesses nacionais. Relembremos que neste sentido o 25 de ABRIL foi de
facto um movimento revolucionário ao definir uma "estratégia
antimonopolista". Logo revertida quando se estabeleceram políticas de
direita.
As necessidades de desenvolvimento económico e social dos povos têm de
sobrepor-se às iníquas condições impostas aos Estados para lhe serem
proporcionados capitais e à "racionalidade" dos preços internacionais, que
as transnacionais controlam em seu benefício.
O desenvolvimento terá de ser, como é mais que evidente numa entidade
coletiva, baseado em custos e benefícios sociais e numa estratégia de
longo prazo.
O CMT representa um gravíssimo retrocesso civilizacional em todos os
campos da atividade humana e mostra que o capitalismo atingiu o seu
limite como fator de desenvolvimento, mergulhando a humanidade em quatro
crises insuperáveis nesse sistema: a crise económica e financeira, a crise
social, a crise ambiental e a crise belicista. A alternativa a este
sistema é a transformação das relações de produção e a opção libertadora
pela paz e pelo socialismo.
[1] Business Week de 19/12/1970, Special Report, citado em "A economia
mundial capitalista Vol. II", Christian Palloix, Ed. Estampa, 1972, p. 188
[2] Idem, p. 68
[3] Acerca das recentes posições da OMC ver: A nova estratégia de
negociação comercial do imperialismo , Prabhat Patnaik,
[4] Ver: O tratado de comércio livre EUA-UE: a grande golpada , Daniel
Vaz de Carvalho, e O Acordo TPP: o tratado de comércio livre mais
agressivo da História , Florentino Lopez Martinez
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
In
RESISTIR.INFO
http://resistir.info/v_carvalho/cme_cmt_07jan16.html
1/6/2016
*** A luta entre os partidários do CME e os partidários do CMT é inequivocamente um dos componentes da denominada "crise política brasileira", como o é também dos processos vivenciados em outros países da América Latina, notadamente a Argentina, Venezuela, Equador, Paraguai dentre outros.
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