terça-feira, 23 de outubro de 2018

O capitalismo e o desenvolvimento do Terceiro Mundo


       por Prabhat Patnaik [*]


       Aquilo a que hoje chamamos terceiro mundo nem sempre existiu na sua forma
       actual. Ele experimentou uma transformação estrutural específica devido à
      intrusão do capitalismo metropolitano, devido ao que alguns economistas, a
      começar por Andre Gunder Frank, classificam como "o desenvolvimento do
      subdesenvolvimento". Na Índia por exemplo os processos de
       "des-industrialização" (importações da metrópole deslocando produtores
      artesanais internos) e a "drenagem de excedente" (o desvio sem qualquer
      contrapartida de uma parte do excedente do país através do sistema de
      tributação colonial), provocou um enorme aumento na pressão sobre a terra
      por parte da população e engendrou a moderna pobreza em massa.
       Uma vez que o "subdesenvolvimento" do terceiro mundo foi o resultado da
      maneira pelo qual ele foi integrado na economia capitalista mundial, na
       época da descolonização acreditava-se geralmente que os povos desta
      região só poderiam progredir sob um regime económico alternativo que os
      livrasse de tal integração. E uma vez que o capital metropolitano não iria
      tolerar isto, e a burguesia – temerosa quanto à ameaça à sua própria
       posição devido à sua chegada tardia ao cenário histórico (razão pela qual
      ela também fazia causa comum com os interesse fundiários internos) – era
      incapaz de enfrentar o capital metropolitano, tal libertação só poderia
      ser efectuada através de um estado baseado numa aliança dos trabalhadores
      com o campesinato. Este argumento da esquerda exerceu na época uma
      considerável influência intelectual; e estes países eram vistos a
      procederem tal libertação por etapas ao longo do tempo rumo ao socialismo.
      O desenvolvimento do terceiro mundo não era, portanto, encarado como
      ocorrendo através da busca de um caminho capitalista de desenvolvimento;
      isso só poderia ocorrer através da busca de uma trajectória alternativa
      que o levasse ao socialismo.
       Tal entendimento, entretanto, começou a ser desafiado na era neoliberal
       com o argumento de que os factores que no passado haviam produzido a
       segmentação do mundo não estavam mais operacionais. Subjacente a esta
      segmentação, a qual exprimia-se na dicotomia entre países desenvolvidos e
      subdesenvolvidos, estava o facto de que o trabalho destes últimos não era
      livre para mover-se para os primeiros e o capital destes, através de
      movimentos juridicamente livres para os segundos, por variadas razões
      relutava em fazê-lo, excepto para capturar o mercado destes últimos ou
      apossar-se das matérias-primas dos mesmos. Por outras palavras, apesar de
      os salários destes últimos serem muito mais baixos, o capital dos
       primeiros não localizava ali fábricas para atender ao mercado global,
      incluindo o metropolitano.
       Esta situação, de acordo com este novo argumento, mudou sob a
       globalização neoliberal. O capital metropolitano estava agora desejoso de
      localizar fábricas no terceiro mundo a fim de explorar seus salários mais
      baixos para atender à procura global. De facto, a relocalização de várias
      actividades manufactureiras e do sector de serviços da metrópole em países
      do terceiro mundo, especialmente no Leste, Sudeste e Sul da Ásia, sugeriam
      agora que mesmo dentro da estrutura do capitalismo mundial estes países
      poderiam ainda assim experimentar desenvolvimento económico rápido.
       Tal argumento naturalmente era falho, mesmo no momento em que estava a
      ser avançado. A mesma ordem neoliberal sob a qual tal difusão de
       actividades estava a ocorrer, da metrópole para o terceiro mundo, também
      estava a lançar um feroz ataque à pequena produção e infligia um processo
      de acumulação primitiva de capital dentro do terceiro mundo. E, ao mesmo
      tempo, estava a gerar empregos tão escassos no terceiro mundo, mesmo
      quando as taxas de crescimento do PIB dessas economias eram
      impressionantes e sem precedentes, que a pobreza em massa realmente se
      agravou, ao invés de ser aliviada, apesar desse crescimento elevado.
       Mas agora o capitalismo mundial entrou numa nova fase em que até mesmo
       essa difusão, como estava a ocorrer na era neoliberal, está a ser
       restringida. Portanto a própria premissa do argumento que via o terceiro
       mundo como a desenvolver-se dentro do quadro do capitalismo mundial, ou
      seja, mesmo sem desligar-se do quadro do capitalismo mundial através de
       controles adequados de comércio e capital, perdeu sua relevância. O
      proteccionismo de Trump pretende precisamente restringir tal difusão da
      actividade da metrópole para o terceiro mundo, e isto é apenas um
      sinalizador do facto de que o regime neoliberal está agora num beco sem
      saída.
       Trump, deve-se notar, não pretende de modo algum desfazer-se do
       neoliberalismo. Ao contrário, ele está a manter o núcleo da organização
      neoliberal, a qual é mobilidade global do capital financeiro. Mas ele está
      a estabelecer restrições ao capital americano (e a outros capitais
      metropolitanos, bem como capitais do terceiro mundo) a que localizem
      instalações de produção dentro do terceiro mundo a fim de atender à
       procura americana. E ele está a compensar o capital americano que seria
       prejudicado por tais restrições através de concessões fiscais em grande
      escala sobre lucros corporativos. As medidas de Trump, por outras
      palavras, são calculadas de modo a não provocar danos ao capital
      americano; mas elas certamente impediriam a difusão de actividades da
      metrópole para o terceiro mundo que supostamente são o instrumento para
      inaugurar o desenvolvimento do terceiro mundo mesmo dentro da estrutura do
      capitalismo mundial.
       As medidas de Trump têm de ser entendidas no contexto da crise que
       engolfou o capitalismo mundial no período da globalização neoliberal. Na
      raiz desta crise está o facto de que a própria relocalização de
      actividades das metrópoles para o terceiro mundo tem mantido baixos os
      salários reais nas metrópoles. Ao mesmo tempo, isto não elevou os salários
       reais no terceiro mundo pois a grandes reservas de trabalho nestes,
      criadas no período colonial, longe de ficarem esgotadas, estão a crescer
       ainda mais. Se bem que o vector dos salários reais na economia mundial
       permaneça assim mais ou menos constante, o vector da produtividade do
       trabalho aumentou muitíssimo, resultando em um enorme aumento na fatia de
      excedente da produção mundial. Isso cria uma tendência à superprodução na
      economia mundial, uma vez que a fatia do consumo do excedente é menor do
      que a dos salários. Esta tendência, no entanto, foi mantida sob controle
      nos EUA devido a dois  booms  baseados em "bolhas", primeiro a “bolha das
      dot.com” nos anos noventa e depois a “bolha habitacional” no início deste
       século.
       Com o colapso da bolha habitacional e sem nenhuma nova bolha a
       substituí-la, a economia dos EUA, e com ela a economia capitalista
       mundial, entrou num período de crise, provocando descontentamento
       generalizado em massa e uma ameaça à estabilidade social do sistema. A
      classe trabalhadora, já afligida há muito por salários estagnados, agora
      tem de enfrentar o fardo agravado do aumento do desemprego.
       A solução de Trump para a crise é a busca daquilo a que economistas
      chamam a política do "roubo o meu vizinho"  ("beggar-my-neighbour"),  a
      qual equivale a roubar empregos de outros países, especialmente países do
      terceiro mundo, a fim de aumentar o emprego nos EUA. A estagnação na
      economia mundial, por outras palavras, não está a ser superada. Mas dentro
      desta estagnada economia mundial, os EUA estão a tentar melhorar sua
      posição a expensas dos outros. Embora isso possa melhorar a posição dos
      EUA por algum tempo, até que outros comecem a retaliar, ela não supera a
      crise do capitalismo mundial. Ao contrário, quando outros retaliarem, esta
      crise será agravada ainda mais, o que só confirma o facto de que o
       capitalismo neoliberal chegou a um beco sem saída.
       Nesta situação desaparecem claramente quaisquer esperanças de que o
      terceiro mundo continuasse a ser o beneficiário da difusão de actividades
      da metrópole e dessa forma continuasse a crescer rapidamente dentro do
      quadro do capitalismo mundial. Este crescimento, como vimos, foi
      acompanhado por um agravamento da pobreza em massa e não do seu alívio.
      Mas agora até esta trajectória de desenvolvimento chegou ao fim.
       Os países do terceiro mundo terão doravante de adoptar medidas para
      desenvolver o seu mercado interno. Daqui em diante, para qualquer
       crescimento terão de confiar no mercado interno ao invés do mercado de
      exportação, o qual é atingido pela estagnação económica mundial e pelo
      proteccionismo dos EUA. Isto exigirá o crescimento da agricultura
      camponesa, de maior igualdade de rendimento interno, de um aumento
      generalizado nos salários reais, de uma elevação do salário mínimo e de
      uma activação da despesa estatal. Uma vez que tais medidas enfrentarão a
      oposição da finança globalizada, a qual precipitaria uma fuga de capitais
      e portanto uma crise financeira, terão de ser postos em vigor controles de
      capitais. E como isto é provável que torne muito mais difícil financiar
      défices de transacções correntes das balanças de pagamentos, também terão
      de ser instituídos controles de importações.
       Contudo, todas estas medidas exigiriam uma mudança na natureza do Estado,
      na aliança de classe que o sustenta. Só uma aliança
      trabalhadores-campesinato que possa sustentar um estado [poderá] assistir
      a uma ultrapassagem da crise e estagnação para a qual o terceiro mundo
      está a ser inexoravelmente empurrado nesta nova situação, a qual assinala
      o beco sem saída do capitalismo neoliberal. E uma vez que a trajectória de
      desenvolvimento anunciada por um estado apoiado por uma tal aliança será
      caracterizada por um movimento rumo ao socialismo através de etapas, o
      velho argumento de que o desenvolvimento do terceiro mundo pode ocorrer só
      através da busca de um caminho que conduza ao socialismo readquire uma
      relevância enfática na nova situação.

      21/Outubro/2018
      [*] Economista, indiano, ver  Wikipedia
       O original encontra-se em 
      peoplesdemocracy.in/2018/1021_pd/capitalism-and-third-world-development .
      Tradução de JF. 
In
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/patnaik/patnaik_21out18.html
21/10/2018

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O fascismo e os “homens bons”



Por Mauro Luis Iasi.

“Esse que em mim envelhece
 assomou ao espelho
 a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
 Fingindo desconhecer a imagem,
 Deixaram-me, a sós, perplexo,
 Com meu súbito reflexo.”
O Espelho – Mia Couto
Desde 2004 não voto no PT e me coloquei como oposição de esquerda a seus
governos. No segundo turno entre Dilma e Aécio em 2014 votei nulo e não me
arrependo dessa posição, inclusive pelo cenário que se desdobrou após o pleito e
a vitória da petista. O que haveria de diferente neste segundo turno?
Em todas as outras oportunidades víamos um discurso que afirmava que era
necessário garantir o governo petista diante do retrocesso que significaria
apostar no PSDB e em sua declarada política privatista e pró-mercado, sua
política externa entreguista e sua rendição aos ditames do capital financeiro.
Sempre argumentamos que, ainda que houvessem diferenças importantes entre as
propostas de governo de petistas e tucanos, havia uma campo de consenso no que
dizia respeito a aspectos como a reforma do Estado, a política de superávits
primários, a submissão à lei de responsabilidade fiscal, a lógica de parcerias
publico privadas, o abandono da reforma agrária diante da prioridade ao
agronegócio, a forma de governabilidade via concessões e negociatas e tantos
outros.
Hoje acreditamos que a situação é qualitativamente diferente quando nos
confrontamos com a extrema direita. Hoje defendemos um voto “crítico” em
Fernando Haddad. Não se trata de programas de governo, ainda que uma breve
análise do que está proposto pelas candidaturas seja mais que o suficiente para
alertar sobre os graves perigos que a vitória do candidato do PSL representa. É
muito mais do que isso. Não alimentamos ilusões sobre o caráter do programa
petista e sabemos que sua inclinação ao centro e à centro direita será um fato
certo, até mesmo pela chantagem entorno dos termos da chamada governabilidade.
Ocorre que o fracasso dos governos de conciliação de classe e a total falta de
estabilidade do governo usurpador que se seguiu ao golpe institucional,
parlamentar e midiático de 2016, gestou as condições para o fortalecimento da
alternativa de extrema direita. Tal fato foi profundamente facilitado pelo braço
jurídico do golpe e pela condenação sem provas do ex-presidente Lula que teria,
muito provavelmente, ganho estas eleições.
A desarticulação do PT e a impossibilidade da direita golpista encontrar uma
alternativa viável do ponto de vista eleitoral abriu o espaço para que a
alternativa reacionária se apresentasse como possibilidade de governo.
Programaticamente aponta para o que tem se chamado de “ultraliberalismo”, mas
que, parodiando Lênin, poderíamos chamar de “ultrabobagens” que nem mesmo os
mais neoliberais com ainda alguma capacidade de intelecção acreditam ser
viáveis.  Isto é, coisas como realizar a total privatização dos serviços
oferecidos pelo Estado, implementar uma simplificação grosseira do imposto de
renda com porcentagens iguais diante de uma realidade de profunda desigualdade
de rendimentos e rendas da população, levar a cabo o desmonte das universidades
federais do ensino público gratuito, dotar o famigerado movimento “escola sem
partido” de retaguarda legal para operar uma cruzada de perseguições políticas e
obscurantismo no sistema educacional, eliminar todos aos “ativismos” (sabemos o
que isso significa) e acabar com o 13 salário e do adicional de férias, entre
outras sandices.
O verdadeiro sentido da extrema direita é outro. Acirrar as contradições para
vender a alternativa da ordem imposta violentamente, seja pela interferência
direta das forças armadas, seja através do controle da ordem institucional,
legislativa e judiciária. O problema é que o acirramento é fundamental para
ganhar as eleições, mas impossível para manter condições mínimas de
governabilidade, daí a alternativa da força.
A história nos ensina que os verdadeiros planos aparecem depois da solução de
força, como vimos na clara diferença entre os projetos da Aliança Liberal de
Vargas em 1929, que falava da “vocação agrária do Brasil” e as prioridades do
Estado Novo depois de 1937; da pregação moralista e anticorrupção das forças
golpistas de 1964 e o entreguismo corrupto da ditadura por décadas.
Podemos ver esse processo mesmo nos clássicos casos do nazi-fascismo europeu,
quando a retórica nacionalista e a crítica ao grande capital se transformou na
aliança prática do capital financeiro e monopolista com o nazismo e o fascismo.
É ridículo mas necessário lembrar que o fascismo e o nazismo foram projetos da
extrema direita. Se seguirem o “raciocínio” que se tem feito esses dias, é capaz
dos reacionários do futuro afirmarem que o Bolsonaro era de centro, pois eu
partido se autodenomina “social e liberal”.
A extrema direita é um instrumento do grande capital que lança mão da barbárie
para salvar sua civilização diante do risco da democracia. Seu método, como já
discutíamos em outra oportunidade, é a estigmatização do inimigo, a manipulação
dos valores da Nação, da família, da moral, do perigo comunista, deslocando a
responsabilidade pela crise e seus efeitos para os ombros de seus adversários.
Por isso, não nos espanta que a mentira seja a principal arma política daqueles
que defendem os interesses de uma minoria e precisam do apoio das massas para
suas aventuras. Não foi o Facebook nem o WhatsApp que criou o fenômeno. Ainda
que esses dispositivos sejam veículos eficientes da mentira e das falsificações,
a “propaganda” é reconhecidamente um instrumento do fascismo, pois a verdade os
destrói como a luz aos vampiros.
Mas, por que devemos combater a extrema direita? Não é uma doutrina política
como outra qualquer que devemos respeitar no sagrado debate de ideias e o
direito ao divergente? Não acredito nisso, pelo simples fato que não há diálogo
com aqueles que negam o diálogo e optam pela manipulação, a mentira, a manobra
grosseira e pregam nossa eliminação física. Não devemos ser tolerantes contra a
intolerância e o obscurantismo.
A extrema direita desperta na sociedade forças reacionárias que ameaçam a
integridade física e moral da maioria da população. Não estão simplesmente
apresentando suas propostas e disputando uma eleição, estão operando um golpe.
Já passa de 50 o número de atentados notificados em que apoiadores de Bolsonaro
constrangeram, ameaçaram ou agrediram ou mataram pessoas, como foi o caso do
mestre Moa do Katendê, assassinado com doze facadas covardemente pelas costas na
Bahia. Outro caso alarmante foi o da menina que teve uma suástica gravada a
canivete em sua pele no Rio Grande do Sul.  Essas agressões dão corpo a uma
escalada de violência política à qual poderíamos somar tantos outros casos como
o assassinato de Marielle Franco, de Jorginho Guajajara e muitas outras
lideranças indígenas ainda este ano.
Consolidou-se uma postura entre parte da população de que a resposta a ser dada
ao PT (seja pelo que de fato fez e pelo que a ele se atribui através de diversas
e inverossímeis alegações) é votar em Bolsonaro. Desta maneira, o deputado
aparece como a forma vazia de conteúdo que recolhe o antipetismo e o transforma
em alternativa política. O problema é que se a forma se presta perfeitamente a
tal função, de modo algum esta candidatura é vazia de conteúdo e sua substância
real fica obliterada pelo antipetismo.
Entre as milhares de pessoas que votaram no primeiro turno é possível que
existam fascistas convictos, reacionários de todo tipo e conservadores, mas a
grande maioria escolheu alguém para derrotar o PT. Caso retirássemos este fator,
restaria uma trupe de pessoas muito estúpidas que acreditam que a terra é plana,
que o Francis Fukuyama é comunista e que Rogers Waters, do Pink Floyd, nunca
prestou atenção nas letras que ele mesmo escreveu. O problema é que estas
pessoas, supostamente boas, estão acalentando a ilusão de que o mais importante
é derrotar o PT, de que o maluco do Bolsonaro não fará tanto estrago como seus
antecessores. O vice Mourão seria um militar simplório e racista que gosta de
seu neto que está a cada dia mais branco e que prometeu acabar com o 13o
salário, mas que não vai fazer isso. As “pessoas boas” só estão preocupadas em
salvar a família tradicional, morrem de medo de jovens do mesmo sexo que
passeiam de mãos dadas pela rua, mas ninguém vai sair nas ruas matando
homossexuais a golpes de barra de ferro, ou queimar índios, ou estuprar
mulheres, ou ligar fios desencapados nos testículos de ninguém, pendurar pessoas
no “pau de arara”, espanca-las e depois de deixa-las nuas, cobertas de sangue e
fezes, para em seguida trazer seus filhos de quatro anos para presenciar a cena.
Ninguém vai pegar um jovem, tortura-lo, amarrar sua boca no escapamento de um
Jipe e arrastá-lo pelo pátio do quartel. Ninguém enfiaria um rato na vagina de
ninguém. Ninguém vai assassinar opositores, esquartejá-los e queimar os restos
nos fornos de uma usina de açúcar no Rio de Janeiro. Pessoas boas preferem não
pensar nisso.
Mas tudo isso aconteceu de verdade (o contrário do fake news é uma coisa chamada
história) e já está acontecendo quer as “pessoas boas” queiram ou não. De alguma
forma, elas são cumplices da barbárie. São elas que estão colocando a arma na
mão dos assassinos, são elas que colocam as pedras nas mãos dos fanáticos que
apedrejam meninas saindo dos cultos afros, são elas que estão dando a chave do
cofre para as quadrilhas que as assaltarão. São elas que estão assinando um
contrato no qual acreditam que há apenas uma clausula: impedir que o PT volte a
governar.
Não. Bolsonaro não é maluco. Nem seu vice, um milico simplório. Nem seus
asseclas, que não passam de profissionais bem remunerados para fazer uma
“campanha eleitoral”. São políticos de extrema direita, alguns com claras
características fascistas, que estão tentando encobrir suas pegadas e seus
crimes, desde 1964 e o golpe, as torturas e a longa noite que se abateu sobre o
Brasil, mas também suas falcatruas presentes, seu apoio inconteste ao governo do
usurpador Temer e seus ataques aos trabalhadores e sua responsabilidade direta
pela destruição do país. Não são anjos vindos do céus com a missão de derrotar o
PT, como dizem alguns pastores coniventes e parceiros da farsa, em nome da fé,
da família e do fim da corrupção. São, em poucas palavras, pessoas más que
habitam os bastidores do terror e da barbárie, com negócios e interesses
escusos.
Em 2015, quando essas forças iam as ruas pedir o afastamento da então presidente
Dilma, ao fazer uma análise de conjuntura, eu dizia que com esses setores não
poderia haver diálogo possível. Fui envolvido numa manipulação grosseira de
minha fala para me apresentar como aquele que queria fuzilar “todos os
conservadores” por conta de uma citação descontextualizada de poema de Brecht.
Fui caluniado, perseguido, ameaçado, processado, ironicamente por aqueles que
defendem e praticam o extermínio e os fuzilamentos. Mas o que o poeta alemão
externava em seu poema, usando a imagem do fuzilamento, dizia respeito à
responsabilidade daqueles que ajudaram o fascismo a chegar ao poder e que,
depois da catástrofe, se diziam inocentes pois o fizeram na mais boa das
intenções, porque, afinal, eram pessoas boas.
Na Alemanha de Weimar também haviam pessoas boas que só queriam um país grande e
forte. Estavam descontentes com a crise, a inflação e o desemprego. Tinham
críticas aos governos democráticos, muitas delas bastante pertinentes. Queriam
defender a família, queriam uma raça pura, bonita e forte. Por isso votaram em
massa pelos nazistas e os elegeram em 1932. Continuaram os apoiando quando em
1933 Hitler eliminou toda a oposição ao seu governo. Por isso, também, aceitaram
quando apareceu a proposta de esterilizar pobres e pessoas com comportamento
antissocial hereditário, assim como matar aqueles que tinham uma vida indigna de
ser vivida. Estavam alegres e confiantes como as boas pessoas que eram… até que
começaram a levar as crianças com problemas mentais para eventualmente serem
mortas no projeto Aktion 4 (até 1945 foram mais de 5 mil crianças), e terem seus
cérebros destinados à pesquisa de um prestigioso doutor (ele também uma boa
pessoa) Depois foram os judeus, os ciganos, os homossexuais, os comunistas que
passaram a ser levados para o extermínio nas câmaras de gás e nos fornos
crematórios dos campos de concentração. Mas tudo isso para eliminar o crime, a
corrupção e afastar o mundo perigo do comunismo. No final das contas,
entretanto, foram os comunistas que ajudaram a salvar o mundo dos nazistas. Os
homens de bem ficaram, compreensivelmente confusos. Será que estávamos do lado
errado, pensavam em meio às cidades em ruinas e às bombas que caiam sobre suas
cabeças, enquanto corriam para se livrar de todo símbolo que os pudessem
associar ao mundo que ruía à sua volta.
Será possível que as pessoas de bem estivessem entre aqueles corpos esqueléticos
jogados em valas comuns e cobertos de cal? Será que as crianças assassinadas não
eram… pessoas boas? Seriam mesmo os judeus os culpados de tudo? Seriam os
comunistas realmente nossos inimigos? Assim divagavam as pessoas que se achavam
boas e apoiaram a barbárie fascista, mas toda e qualquer dúvida desaparecia
quando confrontavam suas vítimas, porque seu lugar era entre os carrascos.
Então vamos combinar uma coisa: vote em que quiser. Se você é um fascista
convicto, vote nos assassinos e torturadores, pois acredito mesmo que eles o
representam. Mas, se você acredita que é uma pessoa boa, não diga depois que não
sabia. O sangue de homens e mulheres de bem, gente simples e corajosa – Moas e
Marielles e tantos outros – o sangue dessas pessoas já está caindo e tingindo o
solo de nosso país de vermelho, jovens são agredidos no meio da rua e têm sua
carne marcada com a suástica nazista. Você que se acha uma pessoa de bem e um
cristão e votou no candidato da extrema direita já está com sangue nas mãos e
nenhuma água ou esquecimento será capaz de limpar suas mãos e sua consciência
desses crimes cometidos em seu nome.
Ainda temos uma chance de evitar uma catástrofe que já é reconhecida e temida
por todos os órgãos de imprensa sérios do planeta. Você quer ser lembrado por
ter ajudado a derrotar as forças do mal (e depois ajudar a organizar a oposição
ao governo do PT) ou por ter dado seu apoio a um governo que será catastrófico
do ponto de vista econômico, social, cultural e civilizatório? No futuro, quando
você que não escutou todos os alertas, tentar negar sua responsabilidade,
repetindo como um mantra que é uma pessoa boa, olhando para o espelho verá,
inconfundível, os traços dos assassinos, o olho brutal da maldade e o horror de
todas as vítimas consumindo suas pretensões de ingenuidade. Só podemos garantir
uma coisa: nós estaremos lá, como estivemos no passado, todos os dias, para que
você e ninguém jamais esqueça.
***
Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador
do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro
do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser
da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe
Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a
emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora
para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

In
PCB
http://pcb.org.br/portal2/21103/o-fascismo-e-os-homens-bons/
16/10/2018

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Bolsonaro, tres hipótesis y una sospecha



Atilio A. Boron
Rebelión

(Por ) La sorprendente performance electoral de Jair Mesías Bolsonaro en la
primera vuelta de las elecciones presidenciales del Brasil suscita numerosos
interrogantes. Sorprende la meteórica evolución de su intención de voto hasta
llegar a arañar la mayoría absoluta. Y no fue el atentado lo que lo catapultó la
posibilidad de ganar en primera vuelta. Veamos: en los últimos dos años su
intención de voto fluctuó alrededor del 15 por ciento, pese a que está próximo a
cumplir 28 años consecutivos como diputado federal (y con sólo tres proyectos de
ley presentados a lo largo de estos años). Ergo, no es un "outsider" y mucho
menos la personificación de la “nueva política". Es un astuto impostor, nada
más. A comienzos de Julio su intención de voto era del 17 por ciento: el 22 de
Agosto, Datafolha marcaba un 22 por ciento. El 6 de Septiembre sufre el atentado
y pocos días después las preferencias crecieron ligeramente hasta alcanzar un 24
y un par de semanas después subía al 26 por ciento. En resumen: un módico
aumento de 9 puntos porcentuales entre comienzos de Julio y mediados de
Septiembre. Pero a escasos días de las elecciones su intención de voto trepó al
41 y en las elecciones obtuvo el 46 por ciento de los votos válidos. En resumen:
en un mes prácticamente duplicó su caudal electoral. ¿Cómo explicar este
irresistible ascenso de un personaje que durante casi treinta años jamás había
salido de los sótanos de la política brasileña? A continuación ofreceré tres
claves interpretativas.
I
Primero, Bolsonaro tuvo éxito en aparecer como el hombre que puede restaurar el
orden en un país que, según pregonan los voceros del establishment, fue
desquiciado por la corrupción y la demagogia instaurada por los gobiernos del PT
y cuyas secuelas son la inseguridad ciudadana, la criminalidad, el narcotráfico,
los sobornos, la revuelta de las minorías sexuales, la tolerancia ante la
homosexualidad y la degradación del papel de la mujer, extraída de sus roles
tradicionales. El escándalo del Lava Jato y el desastroso gobierno de Michel
Temer acentuaron los rasgos más negativos de esta situación, que en la
percepción de los sectores más conservadores de la sociedad brasileña llegó a
extremos inimaginables. En un país donde el orden es un valor supremo – recordar
que la frase estampada en la bandera de Brasil es "Orden y Progreso"- y que fue
el último en abolir la esclavitud en el mundo, el “desorden” producido por la
irrupción de las “turbas plebeyas” desata en las clases dominantes y las capas
medias subordinadas a su hegemonía una incandescente mezcla de pánico y odio,
suficiente como para volcarlas en apoyo de quienquiera que sea percibido con las
credenciales requeridas para restaurar el orden subvertido. En el desierto lunar
de la derecha brasileña, que concurrió con seis candidatos a la elección
presidencial y ninguno superó el 5 % de los votos, nadie mejor que el
inescrupuloso y transgresor Bolsonaro, capaz de infringir todas las normas de la
"corrección política" para realizar esta tarea de limpieza y remoción de legados
políticos contestatarios. El ex capitán del Ejército, eligió como compañero de
fórmula a Antonio Hamilton Mourau, un muy reaccionario general retirado que pese
a sus orígenes indígenas cree necesario “blanquear la raza” y que no tuvo
empachos en declarar que “Brasil está lastrado por una herencia producto de la
indolencia de los indígenas y del espíritu taimado de los africanos" . Ambos
son, en resumidas cuentas, la reencarnación de la dictadura militar de 1964 pero
catapultada al gobierno no por la prepotencia de las armas sino por la voluntad
de una población envenenada por los grandes medios de comunicación y que, hasta
ahora, a dos semanas de la segunda vuelta, parece decidida a votar por sus
verdugos.
Ahora bien: ¿por qué la burguesía brasileña se inclinó a favor de Bolsonaro?
Algunas pistas para entender esta deriva las ofrece Marx en un brillante pasaje
de El 18 Brumario de Luis Bonaparte . En él describió en los siguientes términos
la reacción de la burguesía ante la progresiva descomposición del orden social y
el desborde del bajo pueblo movilizado en la Francia de 1852: “se comprende que
en medio de esta confusión indecible y estrepitosa de fusión, revisión, prórroga
de poderes, Constitución, conspiración, coalición, emigración, usurpación y
revolución el burgués, jadeante, gritase como loco a su república parlamentaria:
“¡Antes un final terrible que un terror sin fin!” [1]  Pocas analogías
históricas pueden ser más aleccionadoras que esta para entender el súbito apoyo
de las clases dominantes brasileñas -enfurecidas y espantadas por el
debilitamiento de una secular jerarquía social anclada en los legados de la
esclavitud y la colonia- a un psicópata impresentable como Bolsonaro. O para
comprender el auge de la Bolsa de Sao Paulo luego de su victoria en la primera
vuelta y el júbilo de la canalla mediática, encabezada por la Cadena O Globo.
Todo este bloque dominante suplicó, jadeante y como un loco, que alguien viniese
a poner fin tanto descalabro. Y allí estaba Bolsonaro.
Y es que como lo observara Antonio Gramsci en un célebre pasaje de sus
Cuadernos, en situaciones de “crisis orgánica” cuando se produce una ruptura en
la articulación existente entre las clases dominantes y sus representantes
políticos e intelectuales (los ya mencionados más arriba, ninguno de los cuales
obtuvo siquiera el 5 por ciento de los votos) la burguesía y sus clases aliadas
rápidamente se desembarazan de sus voceros y operadores tradicionales y corren
en busca de una figura providencial que les permita sortear los desafíos del
momento. “El tránsito de las tropas de muchos partidos bajo la bandera de un
partido único que mejor representa y retoma los intereses y las necesidades de
la clase en su conjunto” –observa el italiano- “es un fenómeno orgánico y
normal, aún cuando su ritmo sea rapidísimo y casi fulminante por comparación a
los tiempos tranquilos del pasado: esto representa la fusión de todo un grupo
social (las clases dominantes, NdA) bajo una única dirección concebida como la
sola capaz de resolver un problema dominante existencial y alejar un peligro
mortal.” [2] 
Esto fue precisamente lo ocurrido en Brasil una vez que sus clases dominantes
comprobaran la obsolescencia de sus fuerzas políticas y liderazgos
tradicionales, la bancarrota de los Cardoso, Temer, Neves, Serra, Sarney,
Alckmin y compañía, lo que las llevó a la desesperada búsqueda del providencial
mesías exigido para restaurar el orden desquiciado por la demagogia petista y la
insumisión de las masas y que, a su vez, les permitiera ganar tiempo para
reorganizarse políticamente y crear una fuerza y un liderazgo políticos más a
tono con sus necesidades sin el riesgo de imprevisibilidad inherente al
liderazgo de Bolsonaro. Pero por el momento, lo importante para las clases
dominantes brasileñas: subrayamos, lo único importante, es acabar
definitivamente con el legado de los gobiernos del PT y sus aliados. Conocido el
derrumbe de sus candidatos en las encuestas pre-electorales, incluyendo al
delfín de Fernando H. Cardoso, el gobernador del estado de Sao Paulo, Geraldo
Alckmin, aquéllas necesitaban tiempo para pergeñar una nueva fórmula política.
Una eventual victoria de Bolsonaro se lo proporcionaría, y hacia él volcaron
todo su apoyo en las últimas semanas de la campaña.
II
Segundo, Bolsonaro fue favorecido por el cambio en la cultura política de las
clases y capas populares que las tornó receptivas a un discurso que apenas unos
años antes hubiera sido motivo de burlas, desoído o repudiado en las barriadas
populares del Brasil, para ni hablar en los ambientes de las capas medias más
educadas. La crisis económica y social y la ruptura de los lazos de integración
comunitaria en las favelas, potenciadas por la falta de educación política de
las masas -una tarea que según Frei Betto el PT jamás se propuso como
acompañamiento a sus políticas de promoción social- junto a la gravísima crisis
institucional y política del país prepararon el terreno para un cambio de
mentalidad en donde el llamamiento al orden y la apelación a la “mano dura”
afloraron como propuestas sensatas y razonables para enfrentar una situación muy
crítica en los suburbios populares y que los medios del establishment
agigantaban pintándola con rasgos estremecedores.
¿Es éste un rasgo exclusivo del Brasil? No. Todos los gobiernos latinoamericanos
del ciclo político iniciado a fines del siglo pasado con el ascenso de Hugo
Chávez cayeron en el error de creer que sacar de la pobreza a millones de
familias las convertiría inexorablemente en portadoras de una nueva cultura
solidaria, comunitaria, inmunizada ante el espejismo del consumismo, y por lo
tanto propensa a respaldar los proyectos reformistas. Sin embargo, como en la
Argentina, Venezuela, Ecuador y Bolivia, en Brasil también una buena parte de
los beneficiarios de las políticas de inclusión de los gobiernos del PT fue
captada por el discurso del orden de la burguesía y las capas medias
-atemorizadas y llenas de resentimiento por la activación del campo popular que
hizo abandono de su tradicional quietismo- y pregonado de modo abrumador por la
prensa hegemónica con el auxilio de las iglesias evangélicas. Estas hicieron lo
que el PT y la izquierda no supo o no quiso hacer: organizar y concientizar, en
clave reaccionaria, a las comunidades más vulnerables rescatadas de la pobreza
extrema por los gobiernos de Lula y Dilma. Y lo hicieron reforzando los valores
tradicionales en relación al papel de la mujer, la identidad de género y el
aborto y promoviendo una cosmovisión reaccionaria, autoculpabilizadora de los
pobres y esperanzada en el papel salvífico de la religión e, incidentalmente, de
un oscuro político oportunamente bautizado y renacido como un buen cristiano en
Mayo del 2016 en las mismísimas aguas del río Jordán, ¡donde San Juan Bautista
hiciera lo propio con Jesucristo! La piadosa imagen de Bolsonaro sumergido en
las aguas del río fue masivamente difundida a través de los medios y lo rodeó
con el aura que necesitaba para aparecer como el Mesías que llegaba para poner
fin al desquicio moral, social y político producido por Lula y sus seguidores.
Esta prédica se difundía no sólo a través de los medios de comunicación
hegemónicos -sino sobre todo por la Record TV, propiedad de Edir Macedo,
fundador de la Iglesia Universal del Reino de Dios y segunda en audiencia detrás
de la Cadena O Globo- sino que también se reproducía en sus más de seis mil
templos establecidos en todo Brasil, una cifra abrumadoramente superior al
número de locales que cualquier partido político jamás tuvo en ese país. [3] 
Resumiendo: se verificó, como antes en Argentina y en cierta medida también en
Brasil, la inesperada “revuelta de los incluidos” en contra de los gobiernos
progresistas que promovieron esas políticas de integración social en la región.
[4] 
III
Una tercera línea de interpretación dice relación con el eficaz -y por supuesto,
nefasto- papel de los medios hegemónicos en el linchamiento mediático de Lula y
todo lo que éste representa. En este sentido el papel de la Cadena O Globo y, en
menor medida, el de Record TV, ha sido de capital importancia, pero no le van en
zaga la prensa gráfica y por supuesto una muy aceitada utilización masiva de las
redes sociales activadas por un enorme ejército de militantes y trolls. Las
riquísimas iglesias evangélicas disponen de dinero más que suficiente para
sostener esta letal infantería comunicacional. Toda esta artillería mediática ha
venido desde hace años descargando un torrente de informaciones difamatorias y
“fake news” (para cuya elaboración y diseminación ya existen numerosos programas
disponibles en la web) que a lo largo del tiempo fueron erosionando la
valoración de las políticas de inclusión social del PT y la credibilidad y
honorabilidad de sus principales dirigentes, comenzando por Lula. La farsa
jurídica mediante el cual se lo condenó, sin pruebas, a pasar largos años de
cárcel no mereció crítica alguna de la prensa hegemónica, que previamente había
maliciosa y minuciosamente atacado la imagen pública del ex presidente y sus
colaboradores. El Lava Jato sirvió para arrojar un pesado manto de desprestigio
sobre toda la clase política, no sólo los líderes del PT, y ciertos sectores del
gran empresariado. Prueba de ello fue la decepcionante performance de los
candidatos de la derecha en la primera vuelta, cosa que anotáramos más arriba.
Pero toda esta movida, la segunda etapa del golpe institucional cuya primera
fase fue la destitución de Dilma Rousseff, debía culminar con la detención e
ilegal condena de Lula y su proscripción como candidato, única forma de frustrar
su seguro retorno al Palacio del Planalto. El efecto combinado de una justicia
corrupta y unos medios cuya misión hace rato dejó de ser otra cosa que manipular
y “formatear” la conciencia del gran público aseguró ese resultado y, sobre
todo, el quietismo dentro de las propias filas de simpatizantes y militantes
petistas que sólo en escaso número se movilizaron y tomaron las calles para
impedir la consumación de esta maniobra. La complicidad de la justicia electoral
en un proceso que tiene grandes chances de desembocar en el derrumbe de la
democracia brasileña y la instauración de un nuevo tipo de dictadura militar es
tan inmensa como inocultable. Jueces y fiscales, con la ayuda de los medios,
arrasaron con los derechos políticos del ex presidente, lo encerraron física y
mediáticamente en su cárcel de Curitiba al prohibirle grabar audios o videos
apoyando a la fórmula Haddad-D'Avila e inclusive vetaron la realización de una
entrevista acordada con la Folha de Sao Paulo. En términos prácticos la justicia
fue un operador más de Bolsonaro, y los pedidos o reclamos de su comité de
campaña apenas tardaban horas para convertirse en aberrantes decisiones
judiciales. Por eso la justicia, los medios y los legisladores corruptos que
avalaron todo este fraudulento proceso son los verdugos que están a punto de
destruir a la frágil democracia brasileña, que en treinta y tres años no pudo
emanciparse del permanente chantaje de la derecha y su instrumento militar.
Va de suyo que este perverso tridente reaccionario y bastión antidemocrático es
convenientemente entrenado y promovido por Estados Unidos a través de numerosos
programas de “buenas prácticas” donde se les enseña a jueces, fiscales,
legisladores y periodistas de la región a desempeñar sus funciones de manera
“apropiada". En el caso de la justicia uno de sus más aventajados alumnos es el
Juez Sergio Moro, que perpetró un colosal retroceso del derecho moderno al
condenar a Lula a la cárcel no por las pruebas -que no tenía, como él mismo lo
reconoció- sino por su convicción de que el ex presidente era culpable y había
recibido un departamento como parte de un soborno. ¡Condena sin pruebas y por la
sola convicción del juez! La legión de periodistas que mienten y difaman a
diario a lo largo y a lo ancho del continente también son entrenados en Estados
Unidos para hacerlo "profesionalmente", en lo que sería la versión civil de la
tristemente célebre Escuela de las Américas. Si antes, durante décadas se
entrenó a los militares latinoamericanos a torturar, matar y desaparecer
ciudadanas y ciudadanos sospechados de ser un peligro para el mantenimiento del
orden social vigente hoy se entrena a jueces, fiscales y “paraperiodistas” (tan
letales para las democracias como los “paramilitares”) a mentir, ocultar,
difamar y destruir a quienes no se plieguen a los mandatos del imperio. Lo mismo
ocurre con los legisladores y, en cierta menor medida, con los académicos.
IV
Las interpretaciones ofrecidas hasta aquí tienen por objetivo ofrecer algunos
antecedentes que ayuden a la elaboración de hipótesis más específicas y precisas
que den cuenta del sorprendente ascenso de Bolsonaro en las preferencias
electorales de los brasileños. El hilo conductor del argumento revela la trama
de una gigantesca conspiración pergeñada por la burguesía local, el imperialismo
y sus personeros en los medios y en la política que va desde la ilegal
destitución de Dilma pasando por la no menos ilegal condena y encarcelamiento de
Lula hasta la emisión, días atrás, de los falsos certificados médicos que le
permiten al mediocre Bolsonaro rehuir el debate con su contrincante que, sin
duda alguna, le haría perder muchos votos. Toda la institucionalidad del estado
burgués así como las clases dominantes y sus representantes políticos y su
emporio mediático se prestan para concretar esta gigantesca estafa al pueblo
brasileño. Y en este sentido no podríamos dejar de proponer como hipótesis
adicional que tal vez el avasallante éxito electoral de un farsante como
Bolsonaro pueda responder, al menos en parte, a un sofisticado fraude
electrónico que pudo haberle agregado un 4 o 5 por ciento más de votos a los que
legítimamente había obtenido. No estamos diciendo aquí que ganó gracias a un
fraude electrónico -como ocurriera en la elección presidencial que en 1988
consagró el triunfo de Carlos Salinas de Gortari sobre Cuauhtémoc Cárdenas en
México y tantas otras, dentro y fuera de América Latina- sino que sería
imprudente y temerario descartar esa posibilidad. Sobre todo cuando se sabe que
a diferencia del venezolano el sistema electoral brasileño no emite un
comprobante en soporte papel del voto emitido en la urna electrónica, lo cual
facilita enormemente la posibilidad de manipular los resultados. Es sorprendente
que esto no haya sido considerado por los sectores democráticos en Brasil habida
cuenta de la existencia de varios antecedentes en América Latina y en otras
partes del mundo en donde la voluntad popular fue desvirtuada por el voto
electrónico. Por algo países como Alemania, Holanda, Noruega, Irlanda, Reino
Unido, Francia, Finlandia y Suecia han prohibido expresamente el voto
electrónico. ¿Por qué no pensar que la pasmosa performance electoral de
Bolsonaro podría haber sido potenciada –si bien sólo en parte, insistimos- por
el hackeo de la informática electoral?

Notas
[1] En Obras Escogidas de Marx y Engels (Moscú: Editorial Progreso, 1966), Tomo
I, pp. 307-308.
 [2]   Note Sul Machiavelli, sulla política e sullo stato moderno  (Giulio
Einaudi Editore, 1966), pp.50-51.
 [3]  El nada casual crecimiento de las iglesias evangélicas y su conexión con
los designios de Washington quedan patentemente reflejados en el artículo de
Miles Christi, “El Informe Rockefeller”. Sectas y apoyo del gobierno de Estados
Unidos contra la Iglesia Católica”, disponible en
http://mileschristimex.blogspot.com/2015/10/el-informe-rockefeller.html

 [4]  Cf. Gustavo Veiga, "El día en que 'Bolso-nazi' fue bautizado 'Mesías' ",
en Página/12, 8 Octubre 2018, en
https://www.pagina12.com.ar/147320-el-dia-en-que-bolso-nazi-fue-bautizado-messias
. Luego del bautizo Bolsonaro añadió la palabra Mesías después de su primer
nombre, Jair. Las diferentes denominaciones evangélicas, asegura Veiga,
"controlan una quinta parte de la Cámara de Diputados y en su conjunto orillan
el 29 por ciento de la población."

In
REBELION
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=247749
15/10/2018

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Brasil: existe ameaça fascista?

     

 Anita Leocadia Prestes  

A experiência histórica mundial revela que as classes dominantes têm sempre
preocupação com a possibilidade de uma insurgência popular e tratam de adoptar
medidas preventivas para salvar o regime capitalista, mesmo quando não existe a
ameaça iminente da revolução. O fascismo é uma arma à qual os sectores mais
reacionários do capital financeiro recorrem para assegurar os seus interesses. O
panorama europeu actual é revelador nesse sentido.


Diante do fenômeno “Bolsonaro” que se explicitou com as eleições deste ano,
parte das “esquerdas” se depara com a seguinte questão: podemos afirmar que
existe uma ameaça fascista em nosso país? Seria correto identificar esse
fenômeno com o fascismo?
Enquanto alguns empregam o termo fascismo como sinônimo de autoritarismo,
identificando qualquer forma de regime autoritário com essa designação, outros a
associam exclusivamente a regimes que se estabeleceram na Europa, durante os
anos de 1920/1930, em especial os que contaram com as lideranças de Hitler na
Alemanha e Mussolini na Itália.
Entre os últimos é comum recorrer à definição, proposta, em 1935, por Jorge
Dimitrov, conhecido dirigente da Internacional Comunista, para afirmar que o
avanço atual da direita no Brasil não deve ser associado ao fascismo. Segundo
Dimitrov, o fascismo no poder se caracteriza por ser “a ditadura terrorista
aberta dos elementos mais reacionários, mais chovinistas e mais imperialistas do
capital financeiro” (1). Os críticos da adoção dessa definição para a situação
que vem se configurando atualmente em nosso país não só questionam sua aplicação
à nossa realidade, como, para justificar sua rejeição, recorrem a outros traços
do fascismo europeu dos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial - a
existência de partidos de massa, o expansionismo militar, o racismo declarado,
etc. -, os quais não estariam presentes no Brasil.
Cabe lembrar que Jorge Dimitrov escrevera também que é tarefa do fascismo
“assegurar no sentido político o êxito da ofensiva do capital, da exploração e
do saque das massas populares pela minoria capitalista e garantir a unidade da
dominação dessa minoria sobre a maioria popular” (2) . Para o dirigente
comunista, o recurso ao fascismo se explica pela necessidade do capitalismo
assegurar sua sobrevivência e sua continuidade em momentos de crise – algo que,
tudo indica, está acontecendo no Brasil de hoje.
Ao buscar explicação para os regimes autoritários que se estabeleceram na
América Latina durante os anos 1960/1970, o dirigente comunista de El Salvador,
Schafik Handal, deu valiosa contribuição ao lembrar que “o fascismo acima de
tudo é uma contrarrevolução”, afirmação que tanto pode ser entendida no sentido
de salvar o capitalismo dos efeitos da Revolução Cubana, como afirma esse
dirigente referindo-se ao período citado (3), quanto no sentido de salvar o
capitalismo da grave crise que atravessamos agora no Brasil e em nosso
continente e, em particular, do perigo potencial constituído pela possibilidade
de revolta das massas frente às sérias consequências dessa crise, e das
políticas adotadas pelos governos burgueses, para suas vidas e seu futuro.
Shafik Handal destacava o papel modernizador do fascismo na América Latina, em
comparação com a função dos “regimes tradicionais”, “conservadora, visando
favorecer as oligarquias latifundiárias e burguesas”, acrescentando:
a função do fascismo é salvar o capitalismo dependente frente à revolução e
modernizá-lo, favorecendo os consórcios transnacionais e os burgueses locais
seus associados, salvar e consolidar a hegemonia política e militar do
imperialismo ianque, ameaçada de colapso em nossa região. (4)
Pode-se argumentar que hoje não existe no Brasil a ameaça de uma revolução.
Entretanto, a experiência histórica mundial revela que as classes dominantes têm
sempre preocupação com a possibilidade de uma insurgência popular e tratam de
adotar medidas preventivas para salvar o regime capitalista. O fascismo é uma
arma à qual os setores mais reacionários do capital financeiro recorrem para
assegurar seus interesses. O panorama europeu atual é revelador nesse sentido.
Não seria atitude coerente com uma análise marxista encaixar dogmaticamente a
situação de hoje em esquemas elaborados para a Europa de oitenta anos atrás.
Trata-se de captar a essência do fenômeno fascista para alcançar sucesso em
possíveis analogias, que contribuam para o esclarecimento do momento atual.
Uma eventual vitória eleitoral de Jair Bolsonaro significaria a opção pelo
fascismo de setores da extrema direita do capital financeiro internacionalizado
na busca de uma saída anti-povo para a grave crise que afeta o Brasil nos
últimos anos. Certamente, não é por acaso que o economista Paulo Guedes, seu
principal assessor e provável ministro da Fazenda do seu governo, é um dos
fundadores do Instituto Millenium (Imil), entidade que sabidamente defende e
difunde os valores e os interesses do grande capital. (5)
Se o grande capital optou na Alemanha, em 1933, pela entrega do poder a Hitler,
o grande capital internacionalizado pode hoje, no Brasil, sem outra opção,
entregar o poder a Bolsonaro, da mesma forma que o fez com Hitler, através de
processos eleitorais, reveladores da grande insatisfação de numerosos setores
sociais. Num país como o Brasil, onde inexiste tradição partidária, isso pode
acontecer sem partido fascista, sem uniformes fascistas e sem a mística fascista
dos anos 1930, sem expansionismo militar declarado e sem racismo explicito. As
formas são outras, mais elaboradas, com a utilização em larga escala dos meios
fornecidos pela informática, mantendo sempre o discurso anticomunista e
propagando a violência contra todos que se opõem aos seus objetivos, inclusive
por meio da ação de hordas fascistas. Vale lembrar como exemplo desse emprego
“moderno” da informática a colaboração com a campanha de Bolsonaro de Steve
Bannon, estrategista de Donald Trump e especialista em desinformação. (6)
Se a eleição de Bolsonaro representa uma ameaça fascista, o que pode ser feito
para impedi-la?
É necessário ter presente que a atual campanha eleitoral adquiriu
características especiais: não estamos diante de uma campanha “normal”; ela
acontece no bojo de grave crise econômica, social e política, marcada pela
presença de um altíssimo índice de desemprego, de crescente deterioração das
condições de vida de milhões de brasileiros, de acentuada insatisfação popular
com a chamada “classe política” tanto pela sua inoperância quanto pelas
denúncias de corrupção – expediente utilizado pela direita contra o PT, mas que
contribuiu para o desgaste da maior parte dos partidos e dos políticos.
Frente a tal situação, existe o risco de as forças de esquerda voltarem a
incorrer nos erros “ultraesquerdistas” condenados por Lenin em seu tempo, apesar
de suas intenções, devido ao dogmatismo livresco que, em vez de acelerar o
processo revolucionário, contribui para seu retrocesso. Como escreve Atílio
Boron, cientista político marxista e comunista,
(…) a derrota de Bolsonaro é um imperativo categórico para as forças genuína e
realisticamente empenhadas na construção de uma alternativa anticapistalista.
Uma vez consumada, as forças de esquerda deverão aprofundar seus esforços para,
afinal, construir uma maioria política e social - coisa que atualmente está
muito atrasada – que impulsione a necessária radicalização de um eventual
governo do PT e seus aliados. Sei que toda esta argumentação pode soar como
inaceitável, ou o “menos pior”, para alguns setores do trotskismo, do anarquismo
pós-moderno e do autonomismo da antipolítica. Mas, como dizia Gramsci, só a
verdade é revolucionária, e na hora da eleição essa verdade se imporá com a
inexorabilidade da lei da gravidade para impulsionar as forças populares do
Brasil a impedir o triunfo de um fascista. Salvo, está claro, se os companheiros
do gigante sul-americano me convencerem de que estão em condições de conquistar
o poder de Estado e impor o socialismo pela via insurrecional, deixando de lado
as manobras e maquinações da democracia burguesa. Seria uma grande notícia, mas
falando com a franqueza que deve caracterizar o diálogo entre revolucionários,
creio que essa alternativa é, no momento, absolutamente ilusória e fantasiosa.
E, além disso, paralisante e suicida. (7)
No momento atual, caracterizado pela inexistência no país de um movimento
popular organizado – consequência em grande medida das políticas adotadas pelos
governos do PT -, diante da ameaça fascista, a única alternativa possível para
as esquerdas é o voto em Fernando Haddad, no esforço conjunto com outras forças
sociais e políticas para derrotar a candidatura fascista de Jair Bolsonaro.
Neste momento, trata-se do embate entre fascismo e democracia burguesa, cuja
defesa era assumida por V. I. Lenin com a argumentação de que tal democracia,
apesar das grandes limitações que impõe aos trabalhadores, apesar de ser uma
garantia para os interesses burgueses, sempre é melhor para o avanço da
organização popular que os regimes autoritários e, certamente, que o fascismo –
último recurso do capital, quando a democracia burguesa deixa de ser uma
garantia para seus lucros. V. I. Lenin escrevia em 1919:
(…) A democracia burguesa representa historicamente um avanço enorme em relação
ao czarismo, à autocracia, à monarquia e a todas as sobrevivências do
feudalismo. Certamente, devemos utilizá-la e então vamos levantar a questão de
maneira que, enquanto não se colocar na ordem do dia a luta da classe operária
por todo o poder, a utilização de formas de democracia burguesa é obrigatória
para nós. (8)
Seria um erro fatal, para as esquerdas e as forças populares, embarcar na
concepção do “quanto pior, melhor”, tendo como consequência um gravíssimo
retrocesso de todo o movimento popular no Brasil e na América Latina.

Rio de Janeiro, outubro de 2018
Notas
 (1) Jorge Dimitrov, “La ofensiva del fascismo y las tareas de la Internacional
Comunista en la lucha por la unidad de la classe obrera, contra el fascismo”, em
Jorge Dimitrov, El frente único y popular (Sofia [Bulgária], Sofia-Press, 1969),
p. 117. (Tradução do espanhol desta autora)
 (2) Jorge Dimitrov, “El frente único y la reaccion burguesa”, em El frente
único y popular, cit., p. 11. (Tradução do espanhol desta autora).
 (3) Shafik Handal, “El fascismo en América Latina”, em América Latina (Moscou,
Progreso, 1976), n. 4, p. 121-46; tradução desta autora.
 (4) Idem; grifos do autor.
 (5) Ver, por exemplo,
https://www.infomoney.com.br/mercados/politica/noticia/7109305/quem-e-paulo-guedes-o-ministro-da-fazenda-se-bolsonaro-for-presidente,s
consulta realizada em 9 out. 2018.
 (6) Ver, por exemplo, https://www.youtube.com/watch?v=B8u64kzj4FQ, consulta
realizada em 9 out. 2018.
 (7) Atílio A. Boron, “¿TIENE CURA EL “IZQUIERDISMO”?”, em
http://www.atilioboron.com.ar/2018/09/tiene-cura-el-izquierdismo.html ,
consultado em 12 out. 2018..; tradução da autora.
 (8) V. I. Lenin, “Informe no II Congresso dos Sindicatos de toda a Rússia”
(1919), em Obras Completas (em russo), t. 37 (Moscou, Ed. de Literatura
Politica, 1974), p. 438; tradução da autora.


In
O DIARIO.INFO
https://www.odiario.info/brasil-existe-ameaca-fascista/
15/10/2018

domingo, 14 de outubro de 2018

Temperatura máxima em Wall Street






Fernando Grossman, da redação.



Depois de bater todos os recordes históricos, nos últimos nove anos, e não haver
nenhum sinal evidente que esses recordes possam parar, ainda tem gente mais
inteligente que os chamados homens do mercado e que aparece, de repente, para
alertar a esses indivíduos práticos que as coisas da vida econômica não são tão
simples quanto eles imaginam.
É o caso, por exemplo, de Robert Shiller – professor na Yale University e que,
apesar de ser um ganhador do prêmio Nobel de Economia, é um economista
inteligente. Em palestra nesta sexta-feira (14) em Nova York, disse para uma
plateia de acelerados especuladores que vê “tempos ruins no mercado de ações” à
frente. Uma sensação de que alguma coisa muito ruim está para acontecer
brevemente.
Em entrevista à CNBC TV, em 22 de Agosto, ele já tinha afirmado que o nível
exagerado da recente disparada touro do mercado indica que é hora de vender. O
“mercado touro” pode reverter para o “mercado urso”. Uma nova correção no
mercado de ações.
Na palestra de sexta-feira reforçou essa recomendação, explicando que os
capitalistas (“investidores”) devem ignorar a recente explosão nos lucros das
empresas estadunidenses e focar na valorização de longo-prazo, a qual, segundo
ele, “carrega notícias muito ruins (foreboding news, no original) para o mercado
de ações”.
Shiller é muito conhecido por uma série de formulações e teorias a respeito do
mercado de ações. Mas seu grande prestígio se deve a um interessante indicador
que ele formulou e utiliza para medir a valorização no mercado de ações.
Trata-se da Cyclically Adjusted Price to Earnings ratio [relação Preço/Lucro
Ciclicamente Ajustada], um indicador correntemente conhecido como “Shiller CAPE”
or “Shiller PE”.
Permite analisar a valorização das ações ao longo de um período de dez anos para
suavizar as flutuações no ciclo econômico (business cycle). Atualmente, o
“Shiller CAPE” está em 33,3, seu nível mais elevado desde junho de 2001.
É claro que é difícil detalhar o roteiro completo do próximo choque global. Mas,
indo além das corretas intuições de Shiller, pelo menos algumas coisas a
respeito já podem ser antecipadas com segurança. Uma delas é que essa planetária
queima de capitais será inaugurada com uma monumental desvalorização das ações
da bolsa de valores de Nova York, em Wall Street.
Outra coisa, mais segura ainda, é que a explosão será a maior de todas ocorridas
nos últimos setenta anos. A evolução do índice S&P 500 que mede a da valorização
das 500 maiores empresas dos EUA, mostra com clareza a cena em que essas coisas
ocorrerão. Veja a curva de longo prazo atualizada dessa odisseia capitalista.

Algumas observações. No presente ciclo econômico, o mais longo rali da história
fez com que o índice S&P 500 subisse mais de 335% desde a ressaca encerrada em
Março de 2009. Essa desvairada trajetória de valorização mostra, ao mesmo tempo,
o potencial de destruição de capital que certamente ocorrerá na nova correção
que pode explodir nos próximos trimestres.
Compare-se o que está ocorrendo neste ciclo econômico com os dois anteriores. Em
Maio de 2000, como destacado no gráfico, o S&P 500 já havia alcançado um
fantástico pico recorde de valorização de 1420,60 pontos. Foi aquela coisa
inaudita no pós-guerra que Alan Greenspan, presidente do Fed, na época, chamou
de “exuberância irracional”.
Aquele índice de 2000 foi novamente igualado pelo pico do ciclo posterior, em
Dezembro /2007, às vésperas da explosão da nova crise 2008/2009. É notável,
portanto, que os dois picos daqueles dois ciclos econômicos correspondem (em
2000 e 2007) ao mesmo nível de valorização.
Em outras palavras: apesar da persistência da “exuberância irracional”, a massa
de capital a ser queimada no último período de crise (2008/2009) continuava em
condições politicamente administráveis. De um lado, pela política fiscal e
monetária do Fed e do governo estadunidense; de outro, pelas ações geopolíticas
e militaristas da máquina imperialista comandada pelos EUA (OTAN, União
Europeia, Israel, etc.).
Mas agora, nesta segunda-feira (17 Setembro 2018) o índice S&P 500 alcançava
2888,80 pontos! Exatamente o dobro daqueles picos recordes dos dois ciclos
anteriores. Mais do que irracional, uma exuberância altamente criativa de
destruição de capital.
Primeira comprovação: existe agora uma nova e fantástica massa de capital
acumulada nos últimos nove anos significativamente maior do que nos dois últimos
ciclos periódicos anteriores. Pronta para ser incinerada.
É isso que permite afirmar que esse incêndio no coração do sistema – e a
consequente falência de um número incalculável de bancos e empresas – será o
maior de todos ocorridos nos últimos setenta anos do pós-guerra.
Importante observação: esse incêndio será de difícil contenção através dos
mecanismos imperialistas de regulação e de governabilidade (ultra-imperialismo)
conhecidos e aplicados nos últimos setenta anos. Trata-se de um processo
incontornável de corrosão e enfraquecimento das condições internas fundamentais
da pax-imperialista do pós-guerra.
A atual reestruturação da ordem geopolítica mundial e os conflitos comerciais de
Washington com as principais áreas e economias do resto do mundo são claras
manifestações antecipatórias deste processo de apodrecimento da civilização.

In
CRÍTICA DA ECONOMIA
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18/9/2018

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O futuro da democracia ocidental está em jogo no Brasil



       por Pepe Escobar [*]


       No Brasil está em jogo nada menos do que o futuro da política de todo o
      Ocidente – e do Sul global.
       Despojadas até à sua essência, as eleições presidenciais brasileiras
      representaram um choque direto entre a democracia e um neofascismo do
      início do século XXI, entre a civilização e a barbárie.
       As repercussões geopolíticas e económicas mundiais serão enormes. O
      dilema brasileiro ilumina todas as contradições que rodeiam a ofensiva
      populista de direita do Ocidente, justapondo-se ao inexorável colapso da
      esquerda. Os riscos não podem ser maiores.
       Jair Bolsonaro, apoiante ferrenho das ditaduras militares brasileiras do
       século passado, que tem sido apresentado simpaticamente como o "candidato
      de extrema-direita", ganhou a primeira volta das eleições presidenciais no
      domingo com mais de 49 milhões de votos. Foram 46% do total, a pouca
      distância da maioria necessária para uma vitória imediata. Isto, só por
      si, já é um desenvolvimento incrível.
       O seu opositor, Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), só
       recebeu 31 milhões de votos, ou seja, 29% do total. Vai agora enfrentar
       Bolsonaro numa segunda volta em 28 de outubro. Uma tarefa digna de Sísifo
      aguarda Haddad: para igualar Bolsonaro, precisa de cada um dos votos dos
      que apoiaram os candidatos situados em terceiro e quarto lugares, mais uma
      substancial parte de quase 20% dos votos brancos e nulos.
       Entretanto, nada menos de 69% dos brasileiros, segundo as últimas
       sondagens, manifestam apoio à democracia. Ou seja, há 31% que não a
      apoiam.
       Um Trump tropical? Não. 
       A Distopia Central nem sequer o qualifica. Os brasileiros progressistas
       sentem-se aterrorizados com a ideia de enfrentar um deserto intelectual
       mutante, como no filme "Brazil" ou Mad Max, devastado por fanáticos
      evangélicos, capitalistas gananciosos do casino neoliberal e militares
      raivosos inclinados a recriar uma ditadura 2.0.
       Bolsonaro, um antigo paraquedista, tem sido retratado pelos media
      ocidentais dominantes como o Trump Tropical. Os factos são muito mais
       complexos.
       Bolsonaro, um membro medíocre do Congresso durante 27 anos, sem nada que
       se destaque no seu currículo, demoniza indiscriminadamente negros, a
       comunidade LGBT, a esquerda no seu todo, a "fraude" ambiental e,
       sobretudo, os pobres. Confessou abertamente ser a favor da tortura.
       Apresenta-se como um Messias – um avatar fatalista que aparece para
       "salvar" o Brasil de todos os "pecados" atrás referidos.
       A Deusa do Mercado, previsivelmente, abre-lhe os braços. Os
       "investidores" – essas entidades semidivinas – consideram-no bom para "o
      mercado", com a sua ofensiva de última hora nas sondagens, refletidas numa 
      recuperação do real brasileiro e do mercado de ações de São Paulo.
       Bolsonaro pode ser o "salvador" clássico de extrema-direita, segundo o
      molde nazi. Pode encarnar o populismo de direita até ao âmago. Mas não é,
      de modo algum, um "soberanista" – o lema de eleição no debate político em
      todo o Ocidente. O seu Brasil "soberano" será governado mais como uma
       ditadura retro-militar, totalmente subordinada aos caprichos de
      Washington.
       O vice-presidente proposto por Bolsonaro é um general reformado,
       escassamente letrado, um homem que se envergonha da sua origem mista e é
       abertamente a favor da eugenia. O general António Hamilton Mourão até já 
      ressuscitou a ideia de um golpe militar.
       Por detrás desta equipa, encontramos enormes interesses económicos,
      ligados a recursos minerais, agroindústrias e a quase todos os "Cinturões
      Bíblicos" brasileiros. Acompanham-nos os esquadrões da morte contra os
      brasileiros nativos, os camponeses sem terra e as comunidades
      afro-americanas. É um paraíso para a indústria do armamento. Chamem-lhe a
      apoteose do cristão-sionismo tropical neopentecostalista.
       Louvado seja o Senhor 
       O Brasil tem 42 milhões de evangélicos – e mais de 200 representantes nos
      dois ramos do Parlamento. Não se metam com os seus jihadistas. Eles sabem
      como exercer uma influência maciça entre os mendigos do banquete
      neoliberal. A esquerda de  Lula não sabia como os seduzir.
       Assim, mesmo imitando Mike Pence, Bolsonaro só é o Trump brasileiro até
      um certo ponto: as suas técnicas de comunicação – falar duro, de forma
      simplista — são uma linguagem que até um miúdo de sete anos percebe. Os
      italianos instruídos comparam-no a Matteo Salvini, o líder do partido
      Lega, hoje ministro do Interior. Mas também não é exatamente esse o caso.
       Bolsonaro é um sintoma de uma doença muito maior. Só atingiu este nível,
      um frente a frente na segunda volta contra Haddad, candidato de Lula, por
      causa duma Guerra Híbrida judicial/congressional/industrial/media,
       refinada e contínua, desencadeada contra o Brasil.
       Bastante mais complexa do que qualquer revolução colorida, a Guerra
      Híbrida no Brasil caracteriza-se por um golpe  lawfare sob a cobertura da
      investigação anticorrupção da  Lava Jato que levou ao impeachment da
      presidente Dilma Rousseff e à prisão de Lula, com acusações de corrupção
      sem quaisquer provas.
       Em todas as sondagens Lula ganharia estas eleições. Os conspiradores
      conseguiram metê-lo na prisão e impedi-lo de se candidatar. O direito de
      Lula a candidatar-se foi defendido por toda a gente, desde o Papa
      Francisco ao Conselho dos Direitos Humanos da ONU, assim como por Noam
      Chomsky. No entanto, numa deliciosa reviravolta histórica, o cenário dos
      conspiradores rebentou-lhes na cara quando o primeiro candidato a governar
      o país não é nenhum deles, mas um neofascista.
       "Um deles" seria idealmente um burocrata sem rosto, um apaniguado dos
       antigos sociais-democratas, o PSDB – Partido da Social Democracia
       Brasileira –, neoliberais radicais viciados em colocar-se no
       centro-esquerda, quando são "aceitáveis" perante os neoliberais da
      direita. Chamem-lhes Tony Blairs brasileiros. As contradições específicas
      brasileiras, mais o avanço do populismo de direita no Ocidente, levaram à
      sua queda.
       Até a Wall Street e a City de Londres (que apoiaram a Guerra Híbrida no
      Brasil, depois de ela ter sido desencadeada pela NSA, que  espionou a
      gigantesca petrolífera Petrobrás) começaram a mudar de opinião quanto ao
      apoio a Bolsonaro para presidente duma nação BRICS, que é líder do Sul
      Global, e que, até há poucos anos, estava em vias de ser a quinta maior
      economia do mundo.
       Tudo depende do mecanismo da "transferência de votos" de Lula para Haddad
      e na criação de uma Frente Democrática Progressiva séria e multipartidária
      na segunda volta para derrotar o crescente neofascismo. Têm menos de três
      semanas para o realizar.
       O efeito Bannon 
       Não é segredo nenhum que Steve Bannon é conselheiro da campanha de
      Bolsonaro no Brasil. Um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo, encontrou-se com
      Bannon em Nova Iorque dois meses depois de o campo de Bolsonaro ter
      decidido aproveitar a supostamente inigualável visão de engenharia social
      de Bannon.
       O filho de Bolsonaro escreveu num  tweet  , nessa altura: "Estamos em
      contacto para reunir forças, especialmente contra o marxismo cultural".
      Isto foi seguido por um exército de  bots,  que vomitaram uma avalanche de
      notícias falsas até ao dia das eleições.
       Um espectro assombra a Europa. Chama-se Steve Bannon. Este espectro
      mudou-se para os trópicos.
       Na Europa, Bannon está agora apostado em intervir como um anjo da
       perdição num quadro de Tintoretto, anunciando a criação duma coligação
      populista União Europeia-toda a direita.
       Bannon recebe publicamente os maiores elogios do ministro do Interior
      italiano, Salvini; do primeiro-ministro húngaro Viktor Orban; do
      nacionalista holandês Geert Wilders; e do flagelo do establishment de
      Paris, Marine Le Pen.
       No mês passado, Bannon fundou O Movimento; à primeira vista apenas uma
       start-up  política em Bruxelas, com uma pequena equipa. Mas falamos em
       ambição sem limites: o seu objetivo é nada menos do que virar as eleições
      parlamentares europeias em maio de 2019 de pernas para o ar.
       O Parlamento Europeu em Estrasburgo – um bastião de ineficácia burocrata
      – não é exatamente um nome familiar na União Europeia. O parlamento está
      impedido de propor legislação. As leis e os orçamentos só podem ser
       bloqueados através de uma maioria de votos.
       Bannon pretende captar pelo menos um terço dos assentos em Estrasburgo.
       Está apostado em aplicar métodos ao estilo americano, já testados, tais
      com sondagens intensivas, análise de dados e intensivas campanhas sociais
      nos media – tal como no caso de Bolsonaro. Mas, claro, não há garantias de
      que vá funcionar.
       A pedra basilar de O Movimento, segundo tudo leva a crer, foi colocada em
      duas importantes reuniões no início de setembro, organizadas por Bannon e
      pelo seu braço direito, Mischael Modrikamen, presidente do pequenino
      Partido Popular Belga (PP). A primeira reunião realizou-se em Roma com
      Salvini e a segunda em Belgrado com Orban.
       Modrikamen define o conceito como um "clube" que vai "angariar fundos de
      doadores, na América e na Europa, para assegurar que as ideias
       'populistas' sejam ouvidas pelos cidadãos da Europa que se apercebem cada
      vez mais que a Europa já não é uma democracia".
       Modrikamen insiste: "Somos todos soberanistas". O Movimento vai martelar
      quatro temas que parecem formar consenso em partidos políticos diferentes,
      de toda a União Europeia: contra uma "imigração descontrolada"; contra o
       "islamismo"; a favor da "segurança" na União Europeia; e em apoio a "uma
      Europa de nações soberanas, orgulhosas da sua identidade".
       O Movimento deverá ganhar velocidade depois das intercalares do próximo
      mês nos EUA. Em teoria, poderá congregar diversos partidos da mesma nação
      à sua sombra. Poderá ser uma ordem muito alta, ainda mais alta do que o
      facto de os principais atores políticos já terem programas divergentes.
       Wilders quer rebentar com a União Europeia. Salvini e Orban querem uma
       União Europeia fraca, mas não querem ver-se livres das suas instituições,
      Le Pen quer uma reforma da União Europeia seguida por um referendo
      "Frexit".
       Os únicos temas que unem este saco de gatos de populismos de direita são
      o nacionalismo, um confuso impulso anti-establishment e — muito popular —
      o desencanto com a pesada máquina burocrática da União Europeia.
       Encontramos aqui terreno comum com Bolsonaro, que se apresenta como
       nacionalista e contra o sistema político brasileiro – apesar de estar no
      Parlamento há séculos.
       Não há uma explicação racional para o avanço de última hora de Bolsonaro
      nas duas secções do eleitorado brasileiro que o desprezam profundamente:
      as mulheres e a região nordeste, que sempre foi discriminada pelo sul e
      pelo sudeste, mais ricos.
       Tal como a Analítica de Cambridge nas eleições norte-americanas de 2016,
      a campanha de Bolsonaro visou eleitores indecisos nos estados do nordeste,
      assim como as mulheres, com uma barragem de notícias falsas, denegrindo
      Haddad e o Partido dos Trabalhadores. Funcionou como mágica.
       A ação italiana 
       Estive no norte de Itália para ver até que ponto Salvini é popular.
      Salvini define as eleições para o Parlamento Europeu em maio de 2019 como
      "a última hipótese para a Europa". O ministro italiano dos Estrangeiros,
      Enzo Moavero, considera-as as primeiras "verdadeiras eleições para o
      futuro da Europa". Bannon também acha que o futuro da Europa está em jogo
      na Itália.
       É espantoso apreender a energia conflituosa no ar em Milão, onde o
      partido Lega de Salvini é muito popular enquanto, simultaneamente, Milão é
      uma cidade globalizada, a abarrotar de bolsõess ultraprogressistas.
       Num debate político sobre um livro publicado pelo Instituto Bruno Leoni,
       acerca da saída do euro, Roberto Maroni, antigo governador da poderosa
       região da Lombardia, observou: "A Italexit está fora do programa formal
      do governo, do Lega e do centro-direita". Maroni lá sabe, afinal de
      contas, ele foi um dos fundadores do Lega,
       Mas deu a entender que há no horizonte importantes mudanças. "Para formar
      um grupo no Parlamento Europeu, os números são importantes. Este é o
      momento para aparecer com um único símbolo dos partidos de muitas nações".
       Não são só Bannon e Modrikamen de O Movimento. Salvini, Le Pen e Orban
      estão convencidos de que podem ganhar as eleições de 2019 – com a União
      Europeia transformada numa "União das Nações Europeias". Isso incluirá não
      só algumas das grandes cidades onde se passa toda a ação, com o resto
      reduzido a um estatuto de observadores. O populismo de direita argumenta
      que a França, a Itália, a Espanha e a Grécia já não são nações – apenas
      meras províncias.
       O populismo de direita sente-se imensamente satisfeito por o seu
      principal inimigo ser o auto-intitulado Macron "Júpiter" – ridicularizado
      por alguns em França como "o pequeno Rei-Sol". O presidente Emmanuel
      Macron deve andar aterrorizado por Salvini surgir como a "luz principal"
      dos nacionalistas europeus.
       É para isto que a Europa parece estar a caminhar: um destruidor desafio
       de Salvini contra Macron.
       A luta entre Salvini e Macron, na Europa, pode ser uma repetição da luta
      entre Bolsonaro e Haddad, no Brasil. Alguns espíritos agudos brasileiros
      estão convencidos de que Haddad é o Macron brasileiro.
       Na minha opinião, não é. Tem formação em filosofia e foi um competente
      prefeito de São Paulo, uma das mais complexas metrópoles do planeta.
      Macron é um banqueiro Rothschild de fusões e aquisições. Ao contrário de
      Macron, que foi engendrado pela instituição francesa como o perfeito lobo
       "progressivo" a ser largado entre as ovelhas, Haddad encarna o que resta
      da esquerda realmente progressista.
       Para mais – ao contrário de todo o espectro político brasileiro – Haddad
      não é corrupto. Terá que oferecer a exigida porção de carne aos suspeitos
      habituais, se ganhar a corrida. Mas não será uma marioneta nas mãos deles.
       Comparem o trumpismo de Bolsonaro, evidente na sua mensagem de última
       hora, antes do dia das eleições: "Tornem o Brasil Grande de Novo!", com o
      trumpismo de Trump.
       Os instrumentos de Bolsonaro são o elogio persistente da Pátria Mãe, das
      forças armadas e da bandeira.
       Mas Bolsonaro não está interessado em defender a indústria, os empregos e
      a cultura do Brasil. Pelo contrário. Um exemplo gráfico é o que aconteceu
      num restaurante brasileiro, em Deerfield Beach, na Flórida, há um ano:
      Bolsonaro saudou a bandeira americana e entoou "USA! USA!"
       Isso é puro MAGA (Make America Great Again) – e sem a letra "B".
       Jason Stanley, professor de Filosofia em Yale e autor de How Fascism
      Works , leva-nos  mais longe . Stanley sublinha como "a ideia no fascismo
      é destruir a política económica… Os empresários alinham com os políticos
      que usam táticas fascistas porque tentam desviar a atenção das pessoas das
      forças reais que causam a genuína ansiedade que elas sentem".
       Bolsonaro domina estas táticas de diversão. É excelente em denegrir o
      alegado marxismo cultural. Bolsonaro encaixa na descrição de Stanley, tal
      como é aplicado aos EUA:

      "O liberalismo e o marxismo cultural destruíram a nossa supremacia e
      destruíram esse maravilhoso passado em que governávamos e as nossas
      tradições culturais eram as que dominavam. Depois, militariza o sentimento
      de nostalgia. Toda a ansiedade e perda que as pessoas sentem na sua vida,
      digamos por causa da perda do serviço de saúde, da perda das suas
      reformas, da perda da sua estabilidade, é enraizada numa sensação de que o
      verdadeiro inimigo é o liberalismo, que levou à perda do seu passado
       mítico".
    No caso brasileiro, o inimigo não é o liberalismo, mas o Partido dos
    Trabalhadores, ridicularizado por Bolsonaro como "um monte de comunistas".
    Ao celebrar a sua espantosa vitória da primeira volta, disse que o Brasil
    estava à beira de um "abismo" comunista corrupto e podia escolher entre uma
    via de "prosperidade, liberdade, família" ou "a via da Venezuela".
     A investigação Lava Jato consagrou o mito de que o Partido dos
     Trabalhadores e toda a esquerda é corrupta (mas a direita não). Bolsonaro
    ainda ampliou mais o mito: todas as minorias e classe social é um alvo – na
    sua cabeça são "comunistas" e "terroristas".
     Faz-nos recordar Goebbels – no seu texto fundamental  "A Radicalização do
    Socialismo",  em que ele sublinha a necessidade de retratar o
    centro-esquerda como marxistas e socialistas porque, como Stanley assinala,
    "a classe média vê no marxismo não tanto a subversão da vontade nacional,
     mas sobretudo o ladrão da sua propriedade".
     Isto está no centro da estratégia de Bolsonaro de denegrir o Partido dos
    Trabalhadores – e a esquerda em geral. A estratégia é encharcada em notícias
    falsas – mais uma vez refletindo o que Stanley escreve sobre a história dos
    EUA: "Todo o conceito de império baseia-se em notícias falsas. Toda a
     colonização baseia-se em notícias falsas".
     A direita contra o populismo? Como já escrevi  num artigo anterior , a
    esquerda no Ocidente é como um encadeado encadeado por faróis, quando se
    trata de combater o populismo de direita.
     Espíritos atentos, de Slavoj Zizek a Chantal Mouffe estão a tentar
    conceptualizar uma alternativa – sem conseguir arranjar o neologismo
    definitivo. Populismo de esquerda? Popularismo? Idealmente, devia ser
    "socialismo democrático" – mas ninguém, num ambiente pós-ideologia,
    pós-verdade, se atreveria a usar a palavra temida.
     A ascensão do populismo de direita é uma consequência direta do
    aparecimento de uma profunda crise de representação política em todo o
    Ocidente; a política de identidade erigida como um novo mantra; e o
    esmagador poder das redes sociais, que permitem – na definição inigualável
    de Umberto Eco – a ascensão do "idiota da aldeia à condição de oráculo".
     Como já vimos, o lema central do populismo de direita na Europa é contra a
    imigração – uma variante mal disfarçada do ódio contra o Outro. No Brasil, o
    tema principal, realçado por Bolsonaro, é a insegurança urbana. Pode ser o
    Rodrigo Duterte brasileiro – ou Harry Duterte: "Atreve-te, idiota".
     Ele intitula-se o Legítimo Defensor contra uma elite corrupta (apesar de
     fazer parte dessa elite); e o seu ódio de todas as coisas politicamente
     corretas, do feminismo, da homossexualidade, do multiculturalismo – tudo
     isso são crimes imperdoáveis contra os "valores da família". Um 
    historiador brasileiro afirma que a única forma de nos opormos é "traduzir"
     para cada setor da sociedade brasileira como a posição de Bolsonaro os
    afeta: "o armamento alargado, a discriminação, os empregos, (e) os
    impostos". E isso tem que ser feito em menos de três semanas.
     Penso que o melhor livro que explica o fracasso da esquerda por toda a
    parte para lidar com esta situação tóxica é o livro de Jean-Claude Michea, 
    Le loup dans la Bergerie (O lobo no curral)  publicado em França há uns
    dias.
     Michea mostra, concisamente, como as profundas contradições do liberalismo,
    desde o século XVIII – políticas, económicas e culturais – o levaram a
    VIRAR-SE CONTRA SI MESMO e a separar-se do espírito inicial de tolerância
    (Adam Smith, David Hume, Montesquieu). É por isso que estamos mergulhados
    profundamente no capitalismo pós-democrático.
     Chamadas eufemisticamente "a comunidade internacional" pelos "media"
    dominantes ocidentais, as elites, que têm sido confrontadas desde 2008 com
    "as dificuldades crescentes que o processo da acumulação globalizada do
    capital enfrenta", parecem agora dispostas a fazer tudo para manter os seus
    privilégios.
     Michea tem razão quando diz que o mais perigoso inimigo da civilização – e
    até da vida na Terra – é a dinâmica cega da acumulação infindável do
    capital. Sabemos para onde este bravo Mundo Novo neoliberal nos está a
    levar.
     O único obstáculo é um movimento autónomo, popular "que não esteja
    submetido à hegemonia ideológica e cultural de movimentos 'progressistas'
    que, durante mais de 30 anos, defendem apenas os interesses culturais das
    novas classes médias em todo o mundo", diz Michea.
     Por agora, um tal movimento mantém-se no reino da utopia. O que resta é
    tentar remediar uma distopia iminente – como o apoio a uma verdadeira Frente
    Democrática Progressista – para bloquear um Brasil Bolsonaro.
     Um dos pontos altos da minha estadia em Itália foi uma reunião com Rolf
    Petri, professor de História Contemporânea na Universidade Ca' Foscari, em
    Veneza, e autor do livro absolutamente essencial A Short History of Western
    Ideology: A Critical Account .
     Passando da religião, da etnia e do colonialismo, para o projeto iluminista
    de "civilização", Petri tece uma tapeçaria devastadora de como "a geografia
    imaginada de um 'continente' que nem sequer era um continente, oferecia uma
    plataforma para a afirmação da superioridade europeia e da missão
     civilizadora da Europa".
     Durante um longo jantar numa pequena  trattoria  veneziana longe das hordas
    galopantes de  selfies,  Petrie observou como Salvini – um pequeno
    empresário da classe média – descobriu astuciosamente como canalizar uma
    profunda saudade inconsciente de uma harmoniosa Europa mítica que nunca
     voltará, tal como o pequeno-burguês Bolsonaro evoca um regresso mítico ao
    "milagre brasileiro" durante a ditadura militar de 1964-1985.
     Todos os seres conscientes sabem que os EUA mergulharam numa desigualdade
     extrema "supervisionada" por uma plutocracia implacável. Os trabalhadores
    norte-americanos continuarão a ser lixados, tal como os trabalhadores
    franceses com o "liberal" Macron. O mesmo acontecerá aos trabalhadores
    brasileiros com Bolsonaro. Como dizia Yeats, que besta imunda, nesta hora
    tão negra, se lança à liberdade de nascer?

    09/Outubro/2018
    [*] Jornalista, brasileiro, correspondente do  Asia Times.  O seu último
    livro é 2030 .
     O original encontra-se em  consortiumnews.com/... . Tradução de Margarida
    Ferreira.

In
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/brasil/escobar_09out18_p.html
11/10/2018