sábado, 21 de setembro de 2019
Roubo ou exploração? – Resenha do livro Stolen, de Grace Blakeley
por Michael Roberts [*]
Toda a nossa riqueza foi roubada pela grande finança e, ao fazê-lo, a grande finança pôs a nossa economia de joelhos. Portanto, devemos nos livrar da grande finança. Esta é a mensagem abreviada de um novo livro, Stolen – how to save the world from financialisation (Stolen – como salvar o mundo da financiarização), de Grace Blakeley.
Grace Blakeley é uma estrela em ascensão no firmamento da esquerda radical do movimento trabalhista britânico. Ela licenciou-se em política, filosofia e economia (PPE) na Universidade de Oxford e fez um mestrado em estudos africanos. A seguir Blakeley foi investigadora do Institute of Public Policy Research (IIPPE), um "think tank" de esquerda, e agora tornou-se o correspondente económico da revista de esquerda New Statesman. Blakeley é uma comentarista habitual e apoiante de ideias de esquerda em vários media da Grã-Bretanha. Seu perfil e popularidade elevaram seu livro, publicado esta semana, ao top 50 de todos os livros da Amazon.
Roubado: como salvar o mundo da financiarização é um relato ambicioso das contradições e fracassos do capitalismo do pós-guerra ou, mais exactamente, do capitalismo anglo-americano (porque o capitalismo europeu ou asiático é pouco mencionado e a periferia da economia mundial é coberta apenas de passagem). O livro pretende explicar como e porque o capitalismo se transformou na ladroagem do modelo da "financiarização", beneficiando poucos, enquanto destruindo (roubando?) o crescimento, o emprego e o rendimento de muitos.
Stolen conduz o leitor através dos vários períodos do desenvolvimento capitalista anglo-americano de 1945 até a Grande Recessão de 2008-9 e além. E termina com algumas propostas de política para acabar a roubalheira com um novo modelo económico (pós-financiarização) que beneficiará os trabalhadores. Isto é algo atraente. Mas o relato de Blakeley acerca da natureza do capitalismo anglo-americano moderno e das causas das crises recorrentes na produção capitalista estará correcto?
Comecemos pelo título do livro de Blakeley: "Roubado". É um título atraente para um livro. Mas ele implica que os proprietários do capital, especificamente o capital financeiro, são ladrões. Eles têm "roubado" a riqueza produzida por outros; ou eles "extraíram" a riqueza daqueles que a criaram. Isto é lucro sem exploração. Na verdade, o lucro agora vem simplesmente do roubo dos outros.
Marx chamou a isto de "lucro de alienação". Para Marx, ele é alcançado pela transferência da riqueza existente (valor) criada no processo de acumulação e produção capitalista. Mas o valor não é criado por este roubo financeiro. Para Marx, os lucros, ou valor excedente (surplus value), como os chamava Marx, são criados apenas através da exploração do trabalho na produção de mercadorias (coisas e serviços). A riqueza dos trabalhadores não é "roubada", nem a riqueza que eles criam. Sob o capitalismo, os trabalhadores recebem um salário dos empregadores pelas horas em que trabalham, conforme negociado. Mas eles produzem mais valor no tempo trabalhado do que o valor (medido em tempo de trabalho) que recebem em salários. Assim, os capitalistas obtêm uma mais-valia com a venda das mercadorias produzidas pelos trabalhadores de que eles se apropriam como donos do capital. Isto não é roubo, mas exploração. (Ver meu livro, Marx 200 , para uma explicação mais completa).
Importa se é roubo ou exploração? Bem, Marx pensava que sim. Ele argumentou ferozmente contra a ideia de Pierre-Joseph Proudhon, o socialista mais popular daquele tempo de que "a propriedade é um roubo". Dizer isso, argumentou Marx, era deixar de ver a maneira real pela qual a riqueza criada por muitos e como ela acaba nas mãos de poucos. Portanto, não estava em causa acabar com o roubo, mas sim com o capitalismo.
Em Stolen, Blakeley ignora a mais importante descoberta científica (como Engels afirmou), ou seja, a mais-valia. Ao invés disso, Blakeley engole completamente os pontos de vista dos modernos Proudhonianos como Costas Lapavitsas, David Harvey e outros como Bryan e Rafferty, os quais rejeitam a visão de Marx de que o lucro vem da exploração do trabalho. Para eles, isso é velho. Agora, o capitalismo moderno é o "capitalismo financiarizado", que obtém a sua riqueza roubando ou extraindo "rendas" de todos, não da exploração do trabalho. Isto leva Blakeley ao ponto de aceitar a falsa análise de Thomas Piketty de que os retornos ao capital aumentarão inexoravelmente através deste processo – quando a evidência é de que os retornos ao capital têm estado a cair inexoravelmente – ver aqui minha crítica a Piketty .
Mas estes argumentos "modernos" são tão falsos quanto os de Proudhon. Lapavitsas foi bem criticado pelo marxista britânico Tony Norfield ; eu envolvi David Harvey no debate sobre a teoria do valor de Marx e Bryan e Rafferty foram considerados falhos pelo marxista grego Stavros Mavroudeas . Depois de ler estas críticas, pode-se perguntar se a lei do valor de Marx pode ser ignorada ao explicar as contradições do capitalismo moderno.
Depois, há o subtítulo do livro de Blakeley: "Como salvar o mundo da financiarização". "Financiarização" como categoria ou termo tornou-se extremamente popular na teoria económica heterodoxa. A categoria veio originalmente da economia convencional, foi adoptada por alguns marxistas e promovida por economistas pós-keynesianos. Seu objectivo era explicar as contradições dentro do capitalismo e suas crises recorrentes com uma teoria que não envolvesse a lei do valor de Marx e a lei da lucratividade – ambas as quais os pós-keynesianos rejeitam ou ignoram ( ver minha carta à Monthly Review ) .
Blakeley toma a definição do termo de Epstein, Krippner e Stockhammer e faz dela a peça central da narrativa do livro (p.11). Como esbocei num post anterior , se o termo significa simplesmente um aumento do papel do sector financeiro e um aumento da sua participação nos lucros nos últimos 40 anos, isso é obviamente verdade – pelo menos nos EUA e no Reino Unido. Mas se significa "a emergência de um novo modelo económico ... e uma profunda mudança estrutural no modo como a economia (capitalista) funciona" (Krippner), então trata-se de um jogo totalmente novo.
Como Stavros Mavroudeas coloca em seu excelente e novo artigo ( 393982858-QMUL-2018-Financialisation-London ), a "hipótese da financiarização" considera que "o capital monetário se torna totalmente independente do capital produtivo (pois pode explorar directamente o trabalho através da usura) e remodela as outras fracções do capital de acordo com suas prerrogativas". E se os "lucros financeiros não são uma subdivisão da mais-valia, então ... a teoria da mais-valia é, pelo menos, marginalizada. Consequentemente, a lucratividade (as principais diferenças específicas da análise económica marxista em relação à economia neoclássica e keynesiana) perde sua centralidade e o juro é autonomizado a partir dele (ou seja, do lucro – MR)".
E é claramente assim que Blakeley o encara. Aceitar este novo modelo implica que o capital financeiro é o inimigo e não o capitalismo como um todo, ou seja, excluindo os sectores produtivos (criadores de valor). Blakeley nega esta interpretação no livro. As finanças não são uma camada separada de capital sentada no topo do sector produtivo. Isso porque todo o capitalismo está agora 'financiarizado!': "qualquer análise que veja a financiarização como uma "perversão" de uma forma mais pura e produtiva de capitalismo falha na apreensão do contexto real. O que emergiu na economia global nas últimas décadas é um novo modelo de capitalismo, que é muito mais integrado do que sugerem as dicotomias simples". Segundo Blakeley, "as corporações de hoje tornaram-se completamente financiarizadas com algumas a parecerem-se mais como bancos do que como empresas produtivas". Blakeley argumenta que "não estamos a testemunhar a "ascensão dos rentistas" nesta era; ao invés disso estamos a testemunhar a ascensão de todos os capitalistas – industriais e não industriais – a tornaram-se rentistas ... De facto, as corporações não financeiras estão cada vez mais empenhadas em actividades financeiras a fim de assegurar os mais altos retornos possíveis".
Se isso fosse verdade, e todo o valor proviesse de juros e renda 'extraídos' de todo mundo e não da exploração, então isto seria realmente ganhar dinheiro a partir do nada e Marx esteve a dizer asneiras. Contudo, a evidência empírica não confirma a tese da "financiarização". Sim, desde a década de 1980, os lucros do sector financeiro aumentaram como uma parcela dos lucros totais em muitas economias, embora principalmente nos EUA. Mas mesmo no auge (2006), a participação dos lucros do sector financeiro nos lucros totais atingiu apenas 40% nos EUA. Após a Grande Recessão, a participação recuou drasticamente e agora está em média em cerca de 25%. E grande parte destes lucros acabaram por ser "fictícios", como Marx os chamou, baseados em ganhos da compra e venda de acções e títulos (não nos lucros da produção), os quais desapareceram na baixa.
Além disso, a narrativa de que os sectores produtivos da economia capitalista se transformaram em rentistas ou banqueiros simplesmente não é confirmada pelos factos. Joel Rabinovich, da Universidade de Paris, efectuou uma análise meticulosa do argumento de que agora as empresas não financeiras obtêm a maior parte de seus lucros com a "extracção" de juros, rendas ou ganhos de capital e não com a exploração da força de trabalho que empregam. Ele descobriu que: "contrariamente à hipótese da rentização financeira, o rendimento financeiro calcula a média (justa) de 2,5% do rendimento total desde os anos 80, enquanto o lucro financeiro líquido fica mais negativo como percentagem do lucro total para corporações não financeiras. Em termos de activos, alguns dos alegados activos financeiros realmente reflectem outras actividades nas quais as corporações não financeiras se têm empenhado cada vez mais: internacionalização da produção, reorientação das actividades e fusões e aquisições". Aqui está o seu gráfico:
Por outras palavras, corporações não financeiras como a General Motors, Caterpillar, Amazon, Google, Microsoft, grande indústria tabaco, grande farmacêutica e assim por diante ainda lucram com a venda de mercadorias da maneira habitual. Os lucros da 'financiarização' são pequenos como uma parcela do rendimento total. Estas companhias não são 'financiarizadas'.
Blakely diz que "a financiarização é um processo que começou nos anos 80 com a remoção de barreiras à mobilidade do capital". Pode ser assim, mas por que começou na década de 1980 e não antes ou depois? Por que então começou a desregulamentação do sector financeiro? Por que o 'neoliberalismo' surgiu então? Não há resposta de Blakeley, ou dos pós-keynesianos. Blakeley destaca que o "modelo social-democrata" do pós-guerra fracassou, mas ela não fornece nenhuma explicação para isso – excepto sugerir que o capitalismo não podia mais "permitir-se continuar a tolerar a exigência sindical por aumentos salariais no contexto da competição internacional crescente e alta inflação" (p.48). Blakeley sugere uma resposta: "a competição externa começou a corroer os lucros" (p.51). Mas isso levanta a questão de por que a concorrência internacional agora causou um problema quando ele não existia antes e por que havia inflação alta.
Mas a teoria económica marxista pode dar uma resposta. Foi o colapso da lucratividade do capital em todas as principais economias capitalistas. Isto está bem documentado pelos marxistas e por estudos convencionais. Este blog tem uma série de posts sobre o assunto e eu forneci uma análise clara no meu livro, The Long Depression (não é um best-seller). A queda na lucratividade forçou o capitalismo a procurar forças em sentido contrário: o enfraquecimento do movimento trabalhista por meio de baixas (slumps) e medidas anti-trabalho; privatizações, etc e também uma comutação para o investimento em activos financeiros (a que Marx chamou de 'capital fictício') para promover os lucros financeiros. Tudo isto teve como objectivo reverter a queda na lucratividade geral do capital. Teve êxito até certo ponto.
Mas Blakeley descarta esta explicação. Não era por causa da lucratividade do capital que crises ocorriam regularmente sob o capitalismo e a lucratividade nada teve a ver com a Grande Recessão [considera ela]. Ao invés disso, Blakeley segue servilmente a explicação de analistas pós-keynesianos como Hyman Minsky e Michel Kalecki. Agora, eu e outros temos gasto muita tinta a argumentar que a sua análise está incorrecta , pois deixa de fora o principal factor da acumulação capitalista, o lucro e a lucratividade. Em consequência, eles não podem realmente explicar crises.
Kalecki diz que as crises são causadas pela falta de "procura efectiva", no estilo keynesiano e, embora os governos possam superar essa falta de procura através de intervenções orçamentais e outras, elas são bloqueadas pela resistência política dos capitalistas. Como se vê, como diz Blakeley, "o argumento de Kalecki não é que a social-democracia seja economicamente instável, mas sim que é politicamente instável". Para Kalecki, as crises são causadas pelos capitalistas que politicamente não estão dispostos a concordar com reformas. Então, aparentemente, a social-democracia funcionaria sob o capitalismo se não fosse a estupidez dos capitalistas!
Minsky estava certo de que o sector financeiro é inerentemente instável e o crescimento maciço da dívida nos últimos 40 anos aumenta esta vulnerabilidade – Marx afirmou isso há 150 anos em O Capital. E no meu blog, já afirmei em muitos posts que "a dívida tem importância" . Mas crashes financeiros por si sós nem sempre levam a quedas na produção e no investimento. Na verdade, não têm sido as crises financeiras (bancarrotas bancárias, colapsos do mercado de acções, colapso dos preços das habitações, etc.) que têm levado a uma queda na produção e no investimento capitalista, a menos que haja também uma crise na lucratividade do sector produtivo da economia capitalista. Esta última ainda é decisiva.
Num capítulo do livro, World in Crisis , editado por G. Carchedi e eu (infelizmente novamente não é um best-seller), Carchedi proporciona um apoio empírico convincente para o vínculo entre os sectores financeiro e produtivo nas crises capitalistas. Carchedi: "Confrontado com a queda da lucratividade na esfera produtiva, o capital passa da baixa rentabilidade nos sectores produtivos para a alta rentabilidade nos sectores financeiros (ou seja, improdutivos). Mas os lucros nestes sectores são fictícios; eles existem apenas nos livros da contabilidade. Eles se tornam lucros reais apenas quando recebidos. Quando isto acontece, os lucros disponíveis para os sectores produtivos contraem-se. Quanto mais capitais tentam obter taxas de lucro mais altas movendo-se para os sectores improdutivos, maiores serão as dificuldades nos sectores produtivos. Esta contra-tendência – movimento de capital para os sectores financeiro e especulativo e, portanto, taxas de lucro mais altas nestes sectores – não pode conter a tendência, isto é, a queda da taxa de lucro nos sectores produtivos".
Carchedi descobre que: "Crises financeiras devem-se à impossibilidade de reembolsar dívidas e surgem quando o crescimento percentual está em queda tanto para lucros financeiros quanto para lucros reais". Na verdade, em 2000 e 2008, os lucros financeiros caíram mais do que os lucros reais pela primeira vez. Carchedi conclui que: "A deterioração do sector produtivo nos anos anteriores à crise é, portanto, a causa comum das crises financeiras e não financeiras. Se eles têm uma causa comum, é irrelevante se um precede o outro ou vice-versa. O ponto é que o (a deterioração do) sector produtivo determina as (crises no) sector financeiro ".
Pode-se perguntar: importa se as desigualdades e crises que experimentamos no capitalismo são causadas pela financiarização ou pelas leis de valor e lucratividade de Marx? Afinal de contas, todos podemos concordar que a resposta é acabar com o sistema capitalista, não? Bem, penso que isso importa, porque a acção política decorre de qualquer teoria das causas. Se aceitarmos a financiarização como a causa de todos os nossos males, isso significa que apenas as finanças são inimigas do trabalho e dos trabalhadores e não os bons capitalistas produtivos como a Amazon que apenas nos exploram no trabalho? Não deveria, mas acontece. Tome-se o próprio Minsky como exemplo . Minsky começou como um socialista, mas a sua própria teoria da financiarização nos anos 80 levou-o não a expor as falhas do capitalismo, mas sim a explicar como um capitalismo instável poderia ser "estabilizado".
Sem dúvida Blakeley é feita de material mais duro. Blakeley diz que devemos enfrentar os banqueiros com o mesmo grau de implacabilidade que Thatcher e Reagan enfrentaram o movimento trabalhista no período neoliberal principiado na década de 1980. Blakeley diz que " o manifesto do Partido Trabalhista lê-se como um retorno ao consenso do pós-guerra ... não podemos nos permitir sermos tão defensivos hoje. Devemos combater por algo mais radical… porque o modelo capitalista está a aproximar-se do fim da estrada. Se não conseguirmos substituí-lo, não há como descrever a destruição que o seu colapso pode trazer". (p.229). Isso soa como o rugido de uma leoa socialista. Mas quando se trata das políticas reais a tratar com a finança, Blakeley torna-se uma rata da social-democracia.
Primeiro, Blakeley diz que " devemos adoptar uma agenda política que desafie a hegemonia do capital financeiro, revogando seus privilégios e colocando os poderes do investimento novamente sob controle democrático". Agora, tenho argumentado em muitos postos e em reuniões do movimento trabalhista na Grã-Bretanha que a única maneira de assumir o controle democrático é trazer à propriedade pública os cinco grandes bancos que controlam 90% dos empréstimos e depósitos na Grã-Bretanha. A regulamentação desses bancos não funcionou e não funcionará .
No entanto, Blakeley ignora esta opção e, ao invés, pede medidas de "constrangimento" aos bancos existentes, ao mesmo tempo que estabelece um banco público de retalho ou bancos postais em competição juntamente com um Banco Nacional de Investimento. "O financiamento privado deve ser adequadamente constrangido" (mas o seu comando não deve ser tomado), "usando ferramentas reguladoras adoptadas internacionalmente". p.285. Em vários lugares, Blakeley refere-se a Lenine. Talvez Blakeley devesse recordar-se do que Lenine disse sobre lidar com os bancos. "Os bancos, como sabemos, são centros da vida moderna económica, os principais centros nervosos de todo o sistema económico capitalista. Falar sobre "regular a vida económica" e, no entanto, fugir da questão da nacionalização dos bancos significa trair a mais profunda ignorância ou enganar as "pessoas comuns" com palavras floridas e promessas grandiloquentes com a intenção deliberada de não cumprir tais promessas".
Quanto a um Banco Nacional de Investimento, uma promessa do Partido Trabalhista, ele deixa a maioria das decisões e recursos de investimento nas mãos do sector financeiro capitalista. Como mostrei antes, o BNI acrescentaria apenas 1-2% de PIB em investimento extra na economia britânica, a comparar com 15-20% no investimento controlado pelo sector capitalista . Portanto, a 'financiarização' não seria contida.
A outra proposta-chave de Blakeley é um Administrador de Activos do Povo (People's Asset Manager, PAM), que gradualmente compraria acções das grandes multinacionais, "socializando assim a propriedade em toda a economia" e "pressionando as empresas" a apoiar investimentos em projectos socialmente úteis. "À medida que um sistema bancário público surja e cresça ao lado de um administrador de activos do povo, a propriedade será constantemente transferida do sector privado para o sector público" (p.268) "numa tentativa de dissolver a distinção entre capital e trabalho" (p.267). Portanto, o objectivo de Blakeley não é acabar com o modo de produção capitalista, pela tomada de comando dos principais sectores de investimento e produção capitalista, mas dissolver gradualmente a "distinção" entre capital e trabalho.
Isto é o máximo em gradualismo utópico. Os capitalistas permaneceriam impávidos enquanto os seus poderes de controle fossem gradualmente ou constantemente perdidos? Uma greve de investimentos se seguiria e qualquer governo socialista seria confrontado com a tarefa de assumir o controle completo. Então, por que não formular completamente um programa para uma economia de propriedade pública controlada democraticamente com um plano nacional de investimento, produção e emprego?
O objectivo de Stolen é apresentar uma análise radical das crises e contradições do capitalismo moderno e das políticas que poderiam acabar com a "financiarização" e dar aos muitos o controle sobre seu futuro económico. Mas, como a análise é defeituosa, as políticas também são inadequadas.
13/Setembro/2019
[*] Economista.
O original encontra-se em thenextrecession.wordpress.com/...
In
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/crise/roberts_13set19.html
13/9/2019
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
A desinformação dos media dominantes acerca da vida internacional – Mentiras, manipulações, silêncios
*por Investig'action *
Os media dominantes, sem complexos e muito para além da questão
europeia, mentem, deformam, dissimulam com mais ou menos subtileza,
alinham (quando não são dominados pelo recrutamento selectivo de seus
editorialistas) com os interesses dos grupos que os financiam. O
resultado é um desconhecimento grosseiro da opinião pública sobre a
realidade das relações internacionais e um confinamento mental dos
cidadãos no pré-estabelecido. Como pode alguém surpreender-se com o
periódico reavivar do chauvinismo estreito e do nacionalismo arrogante,
frequentemente acompanhado de racismo, pelas grandes potências? Os
poderes "ensinam" de facto o desprezo pelos outros e um desejo de poder
muito maior que a solidariedade internacional *[1]* <#notas>
O paradoxo é profundo num tempo de globalização desejada pelo mundo dos
negócios e seus auxiliares estatais, o que significa que nenhuma
economia nacional e nenhuma pessoa podem escapar à interferência
estrangeira e ao impacto dos interesses transnacionais sempre presentes
em todos os lugares: qualquer regime, qualquer que seja, passa por uma
espécie de "mestiçagem". O Estado mais apegado à soberania nacional e o
povo mais patriótico são vítimas de um ambiente internacional
desfavorável e, apesar de tudo, são transformados pela penetração de
interesses que não são os seus. Este é particularmente o caso dos poucos
bastiões que se reivindicam do socialismo, muitas vezes degradado por
sanções de todos os tipos (embargos, bloqueio de activos financeiros,
discriminações comerciais, pressões políticas e ideológicas etc.), que
podem chegar até à sabotagem e intervenção militar.
Os grandes media ocidentais ocultam o que pode constituir suas culpas ou
seus vexames, por causa dos equilíbrios de poder com os regimes de que
não gostam: a forma como apresentam a Coreia do Norte desde há mais de
meio século torna-se a caricatura mais básica. O mesmo acontece com o
chavismo na Venezuela, com o Vietname e com Cuba! A desinformação é a
regra: um simplismo doentio domina a luta que opõe um "campo" a outro,
num nevoeiro mantido por uma conversa incessante sobre "valores" e
"ideias"! A adesão à ideologia dos gestores capitalistas, associada a
uma "cultura descuidada, atrevida, faladora e narcisística", como
escreve A. Accardo, *[2]* <#notas> caracteriza certos espécimes das
escolas de jornalismo, produtoras mais de habilidade do que de saber.
Esse não é o caso de todo os jornalistas, mas, na precariedade, quase
todos concordam em sofrer a trela mantida pelos "patrões"! *[3]* <#notas>
(...)
Para todas as questões internacionais é feita quase que sistematicamente
uma avaliação binária baseada nas noções (primárias e quase religiosas)
do Bem e do Mal, regularmente confirmadas pelas correntes doutrinárias
dos EUA. A transposição para a ordem interna é evidente: os media
dominantes servem o Bem e aqueles que discordam situam-se no campo do Mal!
Enfim, todas as informações macroeconómicas situam-se dentro do quadro
exclusivo do capitalismo e da sua gestão: os problemas peculiares ao
socialismo, considerado "contra-natura", são sempre objecto de uma
rejeição global. As controvérsias admitidas nos media dominantes
situam-se apenas dentro do único sistema permitido, ou seja, na economia
de mercado e na sua lógica à qual ninguém pode escapar sob pena de
desastre social. Não existe nenhuma alternativa e a história económica
não tem lugar: está concluída. A prova deste fim da evolução foi trazida
pelo fracasso das outras experiências que seria absurdo querer
reproduzir "em casa": está fora de questão ter em conta as múltiplas
agressões económicas e financeiras sofridas pela URSS, Cuba, Chile,
Coreia do Norte, Venezuela, etc.
Denunciar a penúria "noutros lugares" (ou, em alguns casos, o sucesso de
tal ou tal medida que seria necessário tomar "em casa") é o caminho para
descartar as propostas das oposições na própria economia do país!
Inclusive se os contextos estrangeiros são muito diferentes e
racionalmente não transponíveis. Assim, favorece-se nos espíritos o
conceito de "modelo" e "modelo-a-rejeitar". Todos os "especialistas"
(seleccionados) convocados pelos editores principais obviamente
confirmam-no em todas as ocasiões!
*As regras seguidas *
As notícias internacionais dos grandes media estão sujeitas a certas
regras de "eficácia" propagandística, embora a equipe editorial se
defenda declarando-se "ofendida" e vítima de populismo inaceitável
quando questionada.
Uma breve exposição dos métodos seguidos é, no entanto, dificilmente
contestável com boa fé.
O descritivo prevalece sistematicamente. Os eventos do dia não têm nem
raiz nem história. O flash privilegiado, buscando a emoção, exclui a
explicitação. Usa-se a imagem simbólica (por exemplo, uma criança ferida
nas ruínas de um bombardeamento) ou um testemunho individual escolhido,
como bastando para fazer sentido!
(...)
Cada acontecimento mediático é martelado durante um ou mais dias
seguidos, com uma forte intensidade para impregnar os espíritos,
desaparece abruptamente para dar lugar a outro que desaparece por sua
vez: não há acompanhamento. O objectivo não é fazer as pessoas
compreenderem o que se passa, mas "impressionar" a mente para fabricar a
opinião desejada pelos poderes. Pode-se imaginar o dano intelectual que
esse método produziria no campo da pedagogia escolar!
Todos os dias, existem vários acontecimentos nos ou entre os 200 estados
que compartilham o planeta. Os media dominantes "vão às compras", à
ordem do dia monopolizada pelas autoridades públicas e privadas, a fim
de influenciar a opinião, seja para reforçar uma ideia geral recebida
seja para agir sobre uma questão específica sobre a qual é necessário
orientar. São escolhidos, por exemplo, eventos que reforcem a
hostilidade à China ou à Rússia ou demonstrem que a polícia argelina
sabe usar o bastão como a francesa e que não nos podemos deter nas
condenações do governo francês pronunciadas pelas Nações Unidas ou o
Parlamento Europeu por ocasião da repressão dos Coletes Amarelos em Paris!
Os acontecimentos não são retidos diariamente pelo seu interesse
intrínseco, novidade, o seu significado maior ou menor, mas por sua
"utilidade" na batalha local do momento (social, ideológica,
institucional, etc). Trata-se de ilustrar com imagens internacionais
"significativas" o que é "apropriado" pensar na ordem interna: o
exercício mediático, de perfeita má-fé, é antes de tudo "pedagógico".
Na ordem internacional, as redacções dispõem de uma grande "liberdade":
os cidadãos, na sua maior parte, não estão em condições de verificar o
que é dito, ao contrário do que pode ser afirmado na ordem interna. Na
massa de acontecimentos que ocorrem em todos os continentes, onde os
cidadãos têm alguns meios de avaliação, sempre há alguns que basta
referenciar e desenvolver para legitimar qualquer causa!
Ninguém é imposto objectivamente em detrimento de todos os outros!
Jornalistas "responsáveis" *[4]* <#notas> por serem hábeis, capazes de
escolher os factos, mais os "sabedores" que oferecerão um pouco de
música de objectividade, para bem orientar os debates e eventualmente
desestabilizar o convidado com maus pensamentos, por excepção convidado
expressamente para tornar credíveis os "habituais" "bem pensantes"
porque a posição destes é conhecida com antecedência!
Está obviamente excluído que os dominantes sejam dominados, mesmo que
acidentalmente (daí a raridade de uma passagem de TV ou rádio de um
Bourdieu (no passado), um Onfray ou um Badie (actualmente), ou mais
geralmente académicos em número capaz (desde que sejam solicitados) para
fazerem frente a "avençados" do estilo Minc, Finkelkraut, BH Lévy e
outros Zémour ou Ménard e de uma coorte de falsos especialistas mais ou
menos economistas ou políticos, saídos de fundações e organizações
fantasmas, sempre que sejam necessários!
Repetição é outra regra quando o facto tratado é potencialmente
"persuasivo". (...) Assim, a maior ou menor intensidade repetitiva e o
domínio dos horários e da preparação criam as condições para um respeito
fictício por uma pseudo-"objectividade", altamente reivindicada pelos
profissionais dos media. No entanto, o pluralismo não é essa
"objectividade" inacessível, mas uma honestidade básica tendo em conta o
maior número possível de eventos internacionais, dando-lhes um conteúdo
explicativo.
O facto de, nos diversos canais de TV e rádio, a selecção das notícias
internacionais estar estandardizada não seria a prova de uma vontade de
formatar a opinião, mas, pelo contrário, o respeito por uma "Verdade"
única face aos vendedores ambulantes de "notícias falsas", o que é uma
triste farsa. Bastaria demonstrar a história das várias "verdades"
falsas amplamente divulgadas e repetidas, por exemplo, sobre o exército
iraquiano e "suas armas de destruição massiva" ou o "massacre" de
Benghazi por mercenários do sr. Kadafi, origem da destruição da Líbia
pela NATO.
Eventos internacionais "preferidos" pelos grandes media não são os
movimentos populares quando carregam reivindicações sociais, a menos que
ocorram em países "inimigos". O que é apresentado não são as pessoas,
mas seus líderes que seriam "bons" ou "maus"!
(...)
Um facto nunca é "puro". Ele é sempre "tratado" pelo informante, que
fabrica a impressão que o "informado" terá. O tom do comentarista, as
palavras que ele usa, possivelmente a música de fundo que acompanha a
imagem, a proximidade de outras informações que a contaminam,
disfarçando segundo o critério dos media uma realidade crua que é
dificilmente acessível.
Uma escrita "boa" é por função manipuladora: os adjectivos de
qualificação são usados com oportunidade (um líder odiado que não se
deixará de chamar "ditador"), a ironia é bem-vinda (especialmente para
os pequenos Estados do Sul em que alguns aspectos podem parecer
folclóricos), uma prudência austera é necessária (seja para o Vaticano
ou para Israel). O estilo deve ir até à indignação (por violações de
direitos humanos num país não ocidental ou por guerras destrutivas
quando não são "justas" por exemplo, as da Rússia, e não as de uma
coligação pró-ocidental, como no Iémen, cujos "danos colaterais" devem
ser admitidos.
(...)
Para os media dominantes, um atirador de pedras contra a polícia de
Paris ou contra a polícia da sra. Park (agora na prisão) em Seul *[5]*
<#notas> é um bandido, mas será um cidadão lúcido e corajoso. se for
"gaseado" em Argel *[6]* <#notas> ou em Caracas! Um manifestante morto
ou ferido em Paris é apenas um "erro grave" de um comportamento
individual no âmbito da manutenção da "ordem republicana", nos países
menos apreciados como a Venezuela é o resultado da natureza repressiva
do poder!
Estas práticas significam que os media dominantes estão necessariamente
cada vez mais desacreditados (só 10% dos franceses ainda confiam neles),
seja o /Pravda / do fim da URSS ou a BFMTV (canal de notícias francês)
sob a presidência de Macron. No entanto, eles têm o "dever" de superar,
através de uma variedade de diversões a sua falta de princípios, a
incoerência dos seus julgamentos de valor e o enfraquecimento da cultura
democrática de muitos jornalistas, muitas vezes seleccionados pela sua
adequação às "normas" e ao seu servilismo oportunista! *[7]* <#notas>
*Algumas ilustrações *
Na ordem interna, é o social que é objecto de todas as censuras e
autocensuras, mas reivindicações diferentes, mesmo com reflexos no
orçamento, contradizem de facto a lógica de um capitalismo sem
escrúpulos que nunca cede quando se trata de dinheiro!
Na ordem internacional, da mesma forma, é neutralizado tudo o que diz
respeito às transacções financeiras, imposto de "optimização", fenómenos
de concentração, concorrência nunca livre e sempre distorcida! Convém
tornar credível uma sociedade internacional "equilibrada", graças ao
"livre jogo das leis do mercado" como sendo o melhor para o crescimento
e o progresso. O coração do sistema é, portanto, cuidadosamente
protegido pelos media dominantes.
A ordem da UE é objecto de todas as "precauções" dos media sejam quais
forem as críticas que alguns lhe fazem. A UE, a Comissão e o BCE
beneficiam da condescendência mediática, isto foi constatado quando o
Estado grego se lhe opôs, também por ocasião do Brexit e das disputas
italianas. Na França, o episódio do "Não" ao Referendo de 2005, apesar
do apoio total e quase unânime dos media ao "Sim" e depois a manipulação
parlamentar, foram apresentados de forma caricatural.
O tratamento dos paraísos fiscais e da evasão fiscal é extremamente
complacente: há críticas dos media apenas contra algumas "ovelhas
negras", mas nunca o julgamento feito ao sistema de fraude "legal"
tolerado pelos Estados. Os casos "Paradise Papers" ou "Panama Papers"
foram despolitizados ao máximo possível e as propostas de medidas para
impedir estes movimentos financeiros não foram apoiadas.
Os jornalistas sujeitos às classes decadentes e corruptas têm, como
elas, medo da verdade, como disse Jaurès em 1904! Eles pertencem a esse
"extremo centro", no coração da ideologia servil do sistema mediático,
uma opção que permite sucessivamente todas as adesões (Sarkozy, Holland
e Macron, este último omnipresente em todas as suas facetas e em todos
os canais), expressão de um "novo" mundo, perfeitamente análogo ao
antigo. Envergando as vestes da "moderação" sobre as questões
financeiras mais "delicadas", os media dominantes salvaguardam o
liberalismo financeiro e o seu lugar fora de qualquer controvérsia
política!
Para os observadores "honestos", como são os jornalistas dos grandes
media, o mundo está dividido sem distinção entre dois tipos de Estado,
dois tipos de sistemas socioeconómicos, liderados por dois tipos de
líderes: os "bons" (EUA, mesmo com Trump, o capitalismo e os
responsáveis alemães e britânicos...) e os "maus" (Rússia, China, Irão,
além de Putin, os dirigentes do PC da China, etc). Os meios de
comunicação não estabelecem diferenças: estes nunca conseguem nada,
estão em permanente crise e ameaçam-nos perigosamente! Em suma, tudo
ficaria bem no mundo se eles não existissem.
O delírio às vezes atinge novos patamares: nas últimas décadas, somam-se
os absurdos acumulados contra a Coreia do Norte ou a Líbia!
Os media ocidentais não cessaram, por exemplo, de anunciar a morte do
regime de Pyong Yang brandindo a ameaça que representava para a paz no
mundo, encarnada pelo desfile militar, apresentado em todos os ecrãs,
visivelmente a única actividade dos norte-coreanos fanatizados. A este
espectáculo edificante, foram adicionados, até à reviravolta de Trump,
comentários na televisão e na rádio pelos "especialistas" mais
analfabetos sobre os horrores sem paralelo do regime norte-coreano.
A evolução dos Estados Unidos sobre o assunto colocou em reverso a
desinformação europeia que então, com pesar, mudou de tom e ... de
"especialistas", sem no entanto lembrarem os danos económicos, políticos
e humanos de 70 anos de embargo!
Kaddafi, comparado a um louco perigoso, e a Jamahiriya líbia, não foram
melhor tratados até a guerra de Sarkozy e B-H. Levy destruindo todo o
país que oito anos depois ainda vive no caos! Os media preferem ainda
hoje manter um silêncio quase total sem o menor arrependimento.
Por outro lado, o menor sobressalto positivo na Arábia Saudita, como a
carta de condução para mulheres, é saudado como um grande avanço
democrático! Dólares e petróleo assim obrigam!
Na África (especialmente de língua francesa), onde se multiplicam
eleições presidenciais fraudulentas, os media ocidentais dominantes
fazem prova de discrição: a indignação por fraude eleitoral é orientada
noutras direcções! É que os media devem ser prudentes com os Bolloré e
outros grandes grupos como o Total com interesses nessas terras difíceis
e, portanto, são complacentes com as autoridades locais mais corruptas.
*[9]* <#notas>
Quando as tropas da NATO destruíram todo o Médio Oriente e continuam a
fazê-lo com a Arábia Saudita no Iémen, é "explicado" que essas guerras
são conduzidas de acordo com o direito humanitário, o que não é o caso
dos russos na Síria, por exemplo, "aliado incondicional" do carrasco de
Damasco! Os jornalistas não precisam se perguntar sobre o custo
das"guerras justas", mas apenas sobre o das intervenções russas ou
iranianas, cuja maleficência é óbvia!
A nova ditadura brasileira não preocupa os jornalistas especialistas da
América do Sul. Por outro lado, a Venezuela chavista merece todas as
acusações, embora o regime bolivariano tenha tirado, antes de sofrer a
crise actual em grande parte devido às políticas americanas, milhares de
venezuelanos de miséria!
Está claro para os media dominantes que nenhuma experiência de
orientação socialista pode beneficiar do mínimo de crédito, porque, é
desnecessário dizer, nenhuma "deve" ter sucesso!
De Allende a Maduro, passando pelo regime cubano, foi mediaticamente
proclamado que o fracasso estava programado. E são tantos os golpes na
esquerda ocidental quando esta é solidária!
(...)
Tendo necessidade de inimigos, o sistema mediático cultiva um espírito
de "guerra fria" e um mundo unipolar cujo centro é o Ocidente, contra
qualquer avanço de uma multipolaridade, no entanto favorável às trocas e
à manutenção de uma paz justa.
A NATO (ao contrário das Nações Unidas) nunca é questionada, apesar do
protagonismo desempenhado pelos Estados Unidos e pelo seu unilateralismo
agressivo (800 bases militares em todo o mundo). Pelo contrário, é
apoiada pelos media, como vimos na crise ucraniana, na reintegração da
Crimeia na Rússia e na agressividade polaca ou báltica em relação ao
Kremlin.
Quanto aos direitos humanos e humanitários, são tratados de maneira
muito diferente, conforme os casos.
Às vezes, ocupam o essencial ao ponto de subordinarem qualquer outro
problema; são esquecidos quando os poderes que os violam estão
associados ao Ocidente, como é o caso da Turquia de Erdogan, um pivô da
Aliança Atlântica, inclusive quando massacrou o povo curdo. O mesmo vale
para os direitos dos migrantes dos quais se esquece que são humanos,
postos de parte perante uma política securitária cada vez mais invasiva.
Estas orientações gerais não excluem expressões pontuais de posições
críticas, fazendo acreditar que não há monolitismo, ilusão que tem o
"mérito" de reforçar a credibilidade de um pensamento conformista, mas
renovado, se o compararmos, por exemplo, com a época gaulista dos
primórdios da V República Francesa. A falsa "elite" que exerce a sua
hegemonia através dos media tem, é necessário reconhecê-lo, a capacidade
de inovar e oferecer à opinião pública as variações que lhe permitem
perdurar. *[9]* <#notas>
Assim, dia após dia, desenvolve-se em contínuo a desinformação que
formata os cidadãos, utilizando o subterfúgio do internacional, para
adoptarem uma posição "politicamente correcta" na ordem interna. É este
o único objectivo do tempo e lugar limitados concedidos às relações
internacionais. Essa propaganda intensa é na "sociedade democrática",
como diz Noam Chomsky, o que a matraca é no Estado totalitário! Se a
matraca é dolorosa, a prática dos media ocidentais tem a "virtude" de
fabricar em cadeia imbecis e ignorantes que é difícil de curar.
Parafraseando G. Bachelard que afirmava "não há ciência, apenas
crítica", podemos concluir "não há informação autêntica, apenas
crítica", ou seja, em ruptura com o Estado e o dinheiro.
Mas como conseguir isso? No contexto do sistema, é óbvio que o realismo
proíbe qualquer solução.
Mas "realismo", responde Bernanos, "é o bom senso dos patifes".
Aqui chegámos!
[1] Lembremos como os "boatpeoples" de vietnamitas anticomunistas foram
"aplaudidos", ao contrário dos refugiados chilenos, por exemplo,
expulsos por Pinochet, acolhidos por comunistas e progressistas europeus.
[2] A. Accardo. /Pour une socio-analyse du journalisme, / Agnone. 2017.
[3] Ver A. Lancelin. /La pensée en otage. S'armer intellectuellement
contre les médias dominants, / Les liens qui libèrent, 2018.
[4] Essa categoria muito privilegiada e muito restrita, adquirida no
sistema, deve ser distinguida da massa de jornalistas mais ou menos
precários que não podem realmente exercer a sua profissão (metade dos
jornalistas franceses ganha o salário mínimo, totalmente dependentes de
seu empregador).
[5] O movimento popular na Coreia do Sul, que, de maneira massiva e
pacífica, conseguiu impor a demissão de Mrs. Park em 2017, foi
praticamente ignorado na Europa. O "exemplo" era "perigoso"!
[6] Como é tradição dos governos e dos media franceses, a posição em
relação aos eventos na Argélia é a de pôr "dois espetos no mesmo lume":
garantindo que qualquer que seja o seguimento poder optar claramente por
uma força ou outra (veja-se a "cautela" usada na guerra civil entre os
islamitas e o exército nos anos 90 ou nas eleições presidenciais de
abril de 2019).
[7] Quando os jornalistas mais "eminentes" (os únicos responsáveis pelo
discurso dominante) são postos em causa pelo seu seguidismo, seu
espírito de cortesãos e a sua agressividade (inclusive no Serviço
Público) contra os oponentes, eles tendem a fazer bloco, aproveitando o
silêncio forçado dos seus colegas mais precários. Eles denunciam
"conspirações" e "populismo", sem dar qualquer definição. Esse espírito
de corpo é pré-fabricado nas escolas de jornalismo, onde um certo
"know-how" é ensinado acima de tudo o resto, sem exigências da
necessária cultura crítica.
[8] As críticas são muito mais firmes quando se trata de certos países
mais distantes da Europa, como por exemplo Sudão ou Argélia. Existe,
portanto, uma visão muito diferente das práticas internas idênticas dos
Estados, de acordo com sua orientação externa. Ver R. Charvin. /Nouvelle
"guerre froide" ou nouveau type de belligérance? / in /Relations
Internationales / (Paris), n° 108. janeiro a março de 2017.
[9] Felizmente, "A história é um cemitério de elites", como escreve
Thomas Bo Homore (Elites and Society, Londres, Watts, 1964).
*A íntegra do original encontra-se em www.investigaction.net/...
<https://www.investigaction.net/fr/la-mal-information-sur-la-vie-internationale-mensonges-manipulations-silences-des-medias-dominants/>
*
In
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/varios/desinformacao_dos_media.html
17/9/2019
terça-feira, 17 de setembro de 2019
Para pensar sobre o futuro, depois do senhor Guedes e seu capitão, por
José Luís Fiori
Hoje, depois do golpe de Estado de 2015/16, e depois de três anos
seguidos da mesma política econômica neoliberal e ortodoxa, o Brasil
está ficando cada mais parecido com a Rússia dos anos 90.
/Existe uma pergunta parada no ar: o que passará no país quando a
população perceber que a economia brasileira colapsou e que o programa
econômico deste governo não tem a menor possibilidade de recolocar o
país na rota do crescimento?/
___________________________________
No início dos anos 90, na véspera de sua dissolução, a União Soviética
tinha 293 milhões de habitantes, e possuía um território de 22.400.000
km, cerca de um sexto das terras emersas de todo o planeta. Seu PIB já
tinha ultrapassado os doistrilhões de dólares, e a URSS era o segundo
país mais rico do mundo, em poder nominal de compra. Além disso, era a
segunda maior potência militar do sistema internacional, e uma potência
energética, o maior produtor de petróleo bruto do mundo. Possuía
tecnologia e indústria militar e espacial de ponta, e tinha alguns dos
cientistas mais bem treinados em diversas áreas, como a física de altas
energias, medicina, matemática, química e astronomia. E, finalmente, a
URSS era a potência que dividia o poder atômico global com os Estados
Unidos. Mesmo assim, foi derrotada na Guerra Fria, sendo dissolvida no
dia 26 de dezembro de 1991, e depois disto, durante uma década, foi
literalmente destruída.
No entanto, ainda antes da dissolução soviética, Boris Yeltsin – que
viria a ser o primeiro presidente da nova Federação Russa – já havia
convocado um grupo de economistas e financistas, nacionais e
internacionais, liderados pelo jovem ex-comunista Yegor Gaidar, para
formular um programa de reformas e políticas radicais, com o objetivo de
instalar na Rússia uma economia liberal de mercado. Depois disso, a
dissolução da URSS já pode ser considerada o primeiro passo do grande
programa ultraliberal de destruição do Estado soviético e de sua
economia de planejamento. Em 1993, Boris Yeltsin ordenou a invasão e a
explosão da Casa Branca do parlamento russo, que ainda se opunha às
reformas ultraliberais, levando à morte de 187 pessoas, à prisão dos
líderes da oposição e à imposição de uma nova Constituição que
facilitasse a aprovação das políticas propostas pelo superministro Yegor
Gaidar.
Mesmo assim, e apesar das resistências, já em 1992, Yeltsin ordenou a
liberalização do comércio exterior, dos preços e da moeda. Deu início,
ao mesmo tempo, a uma política de “estabilização macroeconômica”
caracterizada por uma rígida austeridade fiscal. Por outro lado, o
superministro Gaidar – que era considerado um “craque” por seus pares do
mundo das finanças – aumentou as taxas de juros, restringiu o crédito,
aumentou os impostos e cancelou todo tipo de subsídio do governo à
indústria e à construção; fez, ainda, cortes duríssimos no sistema de
previdência e de saúde do país.
É fundamental destacar que, como condição prévia, o novo governo russo
se submeteu às determinações dos Estados Unidos e do G7, abandonou
qualquer pretensão a “grande potência” e permitiu a desmontagem e
desorganização de suas Forças Armadas, junto com o sucateamento de seu
arsenal atômico.
E foi assim que o “choque ultraliberal” da equipe econômica de Yeltsin
conseguiu avançar de forma rápida e violenta: basta dizer que em apenas
três anos, Gaidar vendeu quase 70% de todas as empresas estatais russas,
atingindo em cheio o setor do petróleo que havia sido uma peça central
da economia socialista russa, e que foi desmembrado, privatizado e
desnacionalizado. Outrossim, as consequências do “choque” foram mais
rápidas e violentas do que o próprio choque, e acabaram levando Yegor
Gaidar de roldão, já em 1994. A inflação disparou e as falências se
multiplicaram através de toda a Rússia, levando a economia do país a uma
profunda depressão. Em apenas oito anos, o investimento total da
economia russa caiu 81%, a produção agrícola despencou 45% e o PIB russo
caiu mais de 50% em relação ao seu nível de 1990, e vários setores da
economia russa foram varridos do mapa. Por sua vez, a quebra
generalizada da indústria provocou um grande aumento do desemprego, e
uma queda de 58%, em média, no nível dos salários. As reformas e o corte
dos “gastos sociais” devastaram o nível de vida da maior parte da
população; a população pobre do país cresceu de 2% para 39%, e o
coeficiente de Gini saltou de 0,2333 em 1990, para 0,401 em 1999. Uma
destruição e uma queda continuada do PIB que não impediram, entretanto,
as altas taxas de lucro e o enriquecimento de alguns grupos privados,
formados por antigos burocratas soviéticos, que se aliaram com grandes
bancos internacionais e participaram do big business das privatizações –
em particular, da indústria do petróleo e do gás. São os assim chamados
“oligarcas russos”, multimilionários que dominaram o governo de Yeltsin
e criaram junto com ele e seus economistas ultraliberais uma verdadeira
“cleptocracia”, que cresceu e enriqueceu a despeito da destruição do
resto da economia e da sociedade russas.
Leia também: Ocupação Vladimir Herzog: Memória Viva, por Bruno Fedri
<https://jornalggn.com.br/noticia/ocupacao-vladimir-herzog-memoria-viva-por-bruno-fedri/>
Na verdade, em 1991, a União Soviética foi derrotada, mas seu exército
não foi destruído numa batalha convencional. Assim mesmo, durante toda a
década de 90, os EUA, a União Europeia e a OTAN promoveram ativamente o
desmembramento do território do antigo Estado Soviético, que perdeu
cinco milhões de quilômetros quadrados e cerca de 140 milhões de
habitantes. Tudo feito com a aquiescência subalterna do governo de Boris
Yeltsin e de seus economistas ultraliberais, em nome de um futuro
renascimento da Rússia, que deveria ser parida pela mão invisível dos
mercados. Mas como vimos, este sonho econômico acabou se transformando
num grande fracasso, com um custo social e econômico imenso para a
população russa. O primeiro-ministro Ygor Gaidar foi desembarcado do
governo em 1994, ainda no primeiro mandato de Yeltsin, e o próprio Boris
Yeltsin teve um final melancólico, humilhado internacionalmente nas
Guerras da Chechênia e da Iugoslávia, renunciando à presidência da
Rússia no dia 31 de dezembro de 1999.
A história posterior da Rússia é mais conhecida e chega até nossos dias,
mas talvez deva ser relembrada, sobretudo para os que apostam, no
Brasil, na radicalização das privatizações e na desmontagem do Estado
brasileiro e de seus compromissos com a soberania nacional e com a
proteção social da população. Porque foi o fracasso do “choque liberal”
russo que contribuiu decisivamente para a vitória eleitoral de Vladimir
Putin, no ano 2000, e para a decisão de seu primeiro governo, entre 2000
e 2004, de resgatar o velho nacionalismo e retomar o Estado como líder
da reconstrução econômica da Rússia, no século XXI.
Leia também: Economia de Bolhas à Americana: Aqui-e-Agora?!
Por Fernando Nogueira da Costa
<https://jornalggn.com.br/gestao/gestao-publica-gestao/economia-de-bolhas-a-americana-aqui-e-agora-por-fernando-nogueira-da-costa/>
Tanto Putin quanto seu sucessor, Dmitri Medvedev, e de novo Putin,
mantiveram a opção capitalista dos anos 90, mas recentralizaram o poder
do Estado e reorganizaram sua economia, a partir de suas grandes
empresas da indústria do petróleo e do gás. Mas isto só foi possível
porque ao mesmo tempo retomaram o projeto de potência que havia sido
abandonado nos anos 90, com a reorganização de seu complexo
militar-industrial e a reatualização de seu arsenal atômico. Depois
disso, em 2008, na Guerra da Geórgia, a Rússia deu uma primeira
demonstração de que não aceitaria mais a expansão indiscriminada da
OTAN. Mais à frente, o governo russo incorporou o território da Crimeia,
em resposta à intervenção euro-americana na Ucrânia em 2014, para
finalmente, em 2015, fazer sua primeira intervenção militar vitoriosa
fora de suas fronteiras, na guerra da Síria. Ou seja, depois do seu
colapso econômico e internacional dos anos 90, a Rússia conseguiu
retomar seu lugar entre as grandes potências mundiais em apenas 15 anos,
dando um verdadeiro salto tecnológico nos campos militar e
eletrônico-informacional. E hoje, as sanções econômicas impostas à
Rússia a partir de 2014 vêm produzindo efeitos negativos e problemas
inevitáveis para a economia russa, mas tudo indica que já não
conseguirão alterar o rumo estratégico que aquele país traçou para si
mesmo, voltado para a reconquista de sua soberania econômica e militar
destruída na década de 90.
Hoje, depois do golpe de Estado de 2015/16, e depois de três anos
seguidos da mesma política econômica neoliberal e ortodoxa, o Brasil
está ficando cada mais parecido com a Rússia dos anos 90. Quase todos os
seus indicadores econômicos e sociais são declinantes ou catastróficos,
em particular no que diz respeito à queda do consumo e dos
investimentos, e mais ainda, no caso do aumento do desemprego, da
miséria e da desigualdade social. E quase todas as previsões sérias do
futuro são muito ruins, a despeito da imprensa conservadora que procura
transformar em gemada qualquer filigrana de ovo que encontra à sua
frente, tentando transmitir um falso otimismo para os investidores
estrangeiros. Frente a isto, a equipe econômica do senhor Guedes
resolveu transformar a Reforma da Previdência na tábua de salvação da
economia brasileira, para logo depois inventar um novo Santo Graal, e
agora anuncia em todo lugar e a toda hora, uma privatização radical de
todo o estado brasileiro, incluindo toda a indústria do petróleo e a
própria Petrobrás. Como se fosse um palhaço de circo mambembe do
interior, tentando manter a atenção da plateia entediada com o anúncio
da entrada em cena do leão. Mas tudo indica que sem sucesso, se tomarmos
em conta a maior fuga capitais da Bolsa de Valores, em 23 anos, só neste
mês de agosto recém findo. E é aqui exatamente que a história da Rússia
pode nos ajudar a entender o que está passando, e prever o que deverá
passar daqui para frente, tendo em conta as inúmeras semelhanças que
existem entre esses dois países.
Leia também: Internações, demissões e tensão constante marcam governo
Bolsonaro, por Sidney Rezende
<https://jornalggn.com.br/noticia/internacoes-demissoes-e-tensao-constante-marcam-governo-bolsonaro-por-sidney-rezende/>
Agora bem, o que nos ensina a experiência russa dos anos 90, e depois?
1. Primeiro, e muito importante: que a destruição da economia, do
Estado e da sociedade russa, na década de 90, não foi incompatível
com o enriquecimento privado, sobretudo dos grupos de financistas e
ex-burocratas soviéticos que obtiveram lucros extraordinários com o
negócio das privatizações – e que depois assumiram o controle
monopólico das antigas indústrias estatais, em particular no campo
do petróleo e do gás. Ou seja, é perfeitamente possível conciliar
altas taxas de lucro com estagnação ou recessão econômica, e até com
a queda do produto nacional.¹
2. Segundo: que os grandes lucros privados e os ganhos estatais com as
privatizações não levam necessariamente ao aumento dos investimentos
num ambiente macroeconômico caracterizado pela austeridade fiscal,
pela restrição ao crédito e pela queda simultânea do consumo. Pelo
contrário: o que se viu na Rússia foi uma gigantesca queda dos
investimentos e do PIB russo, da ordem de quase 50%.
3. Terceiro, e o mais importante: que depois de dez anos de destruição
liberal, ficou muito claro na experiência russa que em países
extensos, com grandes populações e economias mais complexas, os
“choques ultraliberais” têm um efeito muito mais violento e
desastroso do que nos pequenos países com economias exportadoras. E
esta é uma situação política insustentável no médio prazo, mesmo com
ditaduras muito violentas, como aconteceu com o fracasso econômico
da ditadura chilena do General Augusto Pinochet.
Ao mesmo tempo, a reversão posterior da situação russa também ensina: 1)
quanto mais longo e mais radical for o “choque utraliberal”, mais
violenta e estatista tende a ser sua reversão posterior; e ii) em países
com grandes reservas energéticas, é possível e necessário recomeçar a
reconstrução da economia e do país, depois da passagem do tufão, a
partir do setor energético.
A História não se repete, nem se pode transformar a história de outros
países em receita universal, mas pelo menos a experiência russa ensina
que existe “vida” depois da destruição ultraliberal, e que será possível
refazer o Brasil, depois que o senhor Guedes e seu capitão já tiverem
passado em conjunto para galeria dos grandes erros ou tragédias da
História brasileira.
Setembro de 2019
/*José Luís Fiori –* Professor permanente do Programa de Pós-Graduação
em Economia Política Internacional da UFRJ, coordenador do grupo de
pesquisa “Poder Global e Geopolítica do Capitalismo”, e do Laboratório
de “Ética e Poder Global”, pesquisador do Instituto de Estudos
Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).
Publicou, “O Poder Global e a Nova Geopolitica das Nações”, Editora
Boitempo, 2007 e “História, estratégia e desenvolvimento”, Boitempo, em
2014./
1 – Sobre este ponto, vide a excelente exposição do professor Franklin
Serrano, em “Pensando o Brasil: quem gosta de crescimento é o
trabalhador” (<https://www.youtube.com>).
In
GGN
https://jornalggn.com.br/artigos/para-pensar-sobre-o-futuro-depois-do-senhor-guedes-e-seu-capitao-por-jose-luis-fiori/
16/9/2019
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
El capitalismo desquiciado(Parte 3)
El capitalismo desquiciado(Parte 3)
La ilusión de los reguladores: ¿Puede volver el ‘genio malo’ a la botella?
Por el economista Alfredo Apilánez
PARTE 3
“Hemos descubierto la manera en que el dinero funciona en la economía moderna”
Randall Wray
Según Piketty, el contraste entre el gran impulso de optimismo que animó a
Europa durante los ‘treinta gloriosos’ y las dificultades subsiguientes para
aceptar, desde los años ochenta, que se haya frenado ese irresistible avance
hacia el progreso social, nos lleva a preguntarnos, ¿cuándo volverá a la botella
el genio malo del capitalismo? ¡Qué maravilloso sería sin duda conseguir, a
través de los civilizados mecanismos de las reformas legales, implementados por
autoridades democráticas que respondan a los intereses de las mayorías sociales
a las que dicen representar, la mejora de las condiciones de vida de la gente
que atemperen las fuerzas ciegas de los mercados!
La cuestión decisiva sería pues, ¿es ello posible? ¿Perviven en el capitalismo
actual palancas correctoras, que, con el manejo adecuado, pudieran revertir los
aspectos más inicuos de la acerva realidad circundante? ¿Resulta realista
pretender corregir los rasgos surrealistas del capitalismo desquiciado con
políticas fiscales y monetarias adecuadas o, por el contrario, son estos rasgos
la expresión de un organismo crecientemente degenerativo e irreformable? ¿Tiene
el Estado-nación actual, despojado de soberanía monetaria y maniatado por las
instituciones de la gobernanza del capital, alguna posibilidad de desarrollar
políticas redistributivas o ha quedado reducido a comportarse como la correa de
transmisión pseudodemocrática del gran capital?
Ciertamente, razones para ‘echar el freno de mano’ a la creciente irracionalidad
del sistema de la mercancía no faltan en absoluto. El estancamiento secular y la
depresión crónica, sin grandes alteraciones desde hace medio siglo, avizoran un
horizonte de degradación social acelerada que el desquiciamiento provocado por
la hegemonía absoluta de las finanzas globales no hará más que agudizar. El
espanto de la miseria y la desigualdad crecientes describe la penosa situación
de más de dos terceras partes de los seres humanos, excluidos de las precarias
seguridades del bienestar del mundo rico.
Y un cataclismo más neurálgico aún acecha con implicaciones devastadoras para la
propia subsistencia de la especie: el capitalismo desquiciado choca cada vez más
violentamente, sin el más mínimo atisbo de corrección a la vista, con los
límites biofísicos del planeta, encaminando a la sociedad humana hacia una
inédita situación de colapso ecológico-social de consecuencias catastróficas.
Como expresaba gráficamente el ilustre economista marxista Paul Sweezy: “si las
tendencias presentes continúan operando, será sólo cosa de tiempo que la especie
humana torne completamente asqueroso su propio nido”. Y todo ello coincidiendo
con la tremenda paradoja de que nunca antes ha sido mayor la brecha entre la
capacidad de producir bienes y servicios para proporcionar un nivel de vida
digno a todos los seres humanos en un planeta habitable, con la tecnología y los
recursos existentes, y el panorama de miseria y desigualdad rampante que
padecemos.
Por el contrario, los creyentes en la regulación, como Piketty, profesan la
creencia en la posibilidad de retorno a una época excepcional –y, dicho sea de
paso, profundamente depredadora desde el punto de vista ecológico y explotadora
de los pueblos del Tercer Mundo- que no se repetirá. El sueño de un capitalismo
estable, con crecimiento sostenido y un cierto equilibrio entre el trabajo y el
capital, gestionado por un Estado “corrector” a través de políticas
redistributivas de tipo keynesiano pareció alumbrar durante los ‘treinta
gloriosos’ un periodo duradero de prosperidad y bienestar social. Paul Krugman,
uno de los popes de la ortodoxia neokeynesiana, recuerda, con muy expresiva
nostalgia, aquellos tiempos como “los Estados Unidos que amamos”.
Piketty describe los hechos socioeconómicos más relevantes de ese capitalismo
con rostro humano: el desarrollo de una clase media patrimonial –en España el
80% de las viviendas son en propiedad-, la “principal transformación estructural
de la distribución de la riqueza en el siglo XX”, y la gran reducción de la
desigualdad de rentas y de riqueza parecían justificar la ilusión reformista en
la viabilidad de que un capitalismo embridado derramara sus frutos para todos.
Empero, se trataba de un espejismo, un remanso de paz entre dos tempestades.
La tendencia inexorable al estancamiento secular y las subsiguientes
dificultades para retornar a tasas de acumulación y crecimiento adecuadas
causaron un cambio drástico en la política del capital. El genio malo salió de
la botella para no volver a entrar. La lucha contra el monstruo de la inflación
sirvió la coartada perfecta. Shaikh describe los ingredientes del nuevo
paradigma: “El secreto del “gran boom” financiarizado que se inició en los 80 es
‘fuerza de trabajo abaratada y finanzas menos costosas’”.
Y las fuerzas divergentes, irracionales, generadoras de creciente degradación
social fueron las que de nuevo volvieron por sus fueros. Como el propio Piketty
destaca, en el capitalismo financiarizado y desregulado de las burbujas de
activos y el crecimiento anémico la riqueza “muerta” del patrimonio heredado se
multiplica más velozmente que la riqueza viva acumulada por el fruto del
esfuerzo de toda una vida de duro trabajo. El rentismo financiero e inmobiliario
que, propulsado por la matriz de rentabilidad basada en las burbujas de activos
y en la financiarización ‘a muerte’, sustituye a la economía productiva y al
obrero fabril como eje de la vida económica, es pues el vector fundamental del
incremento acelerado de la desigualdad y la degradación sociopolítica que viven
las sociedades occidentales.
Sin embargo, más allá de la corrección de su diagnóstico superficial sobre la
‘insoportable’ desigualdad de rentas derivada de la hegemonía del talón de
hierro neoliberal durante el último medio siglo, la propuesta estrella de
Piketty para reducirla es de una puerilidad asombrosa: “el impuesto progresivo
sobre el patrimonio individual es una institución que permite al interés general
retomar el control sobre el capitalismo, apoyándose en las fuerzas de la
propiedad privada y la competencia”. En plena hegemonía de la máquina de succión
de las finanzas globales, laminadas la soberanía nacional y sus palancas
redistributivas por el poder en la sombra de la plutocracia financiera, el
optimista irredento, con indisimulada candidez, propone nada menos que ¡retomar
el control sobre el capitalismo! Sin duda, peccata minuta.
Tamaña puerilidad se explica por su obsesión por demostrar que el fundamento de
la desigualdad no se debe buscar en la esencia misma del capital –a pesar del
título de su obra, tiene a gala no haber leído ‘El capital’ de Marx lo cual, a
la luz de sus superficiales referencias al marxismo, es perfectamente verosímil-
ni en el origen de su rentabilidad, sino en la sociedad de rentistas y en el
peso de la herencia. Sin embargo, lo que omite Piketty es que la fuente real de
la desigualdad – y por tanto, de las crisis que muestran la incapacidad de un
funcionamiento normal del organismo económico- en el sistema capitalista es el
capital mismo, que no es un “objeto” o algo idéntico al patrimonio, como él lo
considera, sino una relación social, en la cual el trabajo vivo impago es el
único factor capaz de incrementar el trabajo muerto contenido en el capital
inicial, posibilitando su acumulación ampliada.
¿Y quién implantaría el impuesto sobre el patrimonio que nos permitiría retomar
el control sobre el capitalismo? He aquí el rasgo común a todos los reguladores
reformistas: el uso del Estado, cual Deus ex machina, como herramienta para
implementar reformas fiscales, monetarias o legales que pongan coto al
capitalismo desquiciado. Se pretende constituir de esta suerte un campo de juego
“neutral” que logre colar la ilusión de que, con el timonel adecuado, el control
del Estado -como pretendido agente reequilibrador- será capaz de voltear las
relaciones de poder a favor de las clases subalternas. Joseph Stiglitz
–keynesiano de cabecera de la ‘nueva izquierda’ socialdemócrata- expresa la
esencia del paradigma reformista: “La reflexión sobre la crisis de 2008 tiene
muchas enseñanzas que ofrecernos, pero la más importante es que el problema era
–y sigue siendo– político, no económico: no hay nada que necesariamente impida
una gestión económica que asegure pleno empleo y prosperidad compartida”. Sin
duda, un dechado de optimismo y ‘pensamiento desiderativo’.
El atractivo de los reguladores reformistas se deriva pues de que parecen
propugnar atajos “pragmáticos”, que permitirían sortear los obstáculos
“absurdos” y desarrollar una gestión eficaz por parte de las fuerzas
progresistas a través de medidas claramente factibles y de abrumador sentido
común. Su respeto a las reglas legales e institucionales infunde la confianza
en sus propuestas razonables y ponderadas, alejadas de los utopismos de los
radicales. Sin embargo, lo cierto es que, a pesar de su apariencia de
respetabilidad y pragmatismo, quizás sean más utópicas sus prescripciones que
la defensa de la ‘socialización de la banca y de los medios de producción’
propugnada por radicales antisistema. Haciendo abstracción de la lógica interna
del funcionamiento del capitalismo, los reguladores llegan por tanto a
soluciones mágicas que ignoran las estructuras profundas de las relaciones
sociales. Abundan los ejemplos.
La TMM –teoría monetaria moderna, otra de las herramientas mágicas de los
reguladores de la izquierda reformista, de rancia estirpe keynesiana- ofrece una
revolución en la política económica a través de la utilización de la soberanía
monetaria -¡en tiempos nada menos que de la jaula de hierro del euro!- para
enchufar la manguera del gasto público deficitario a la economía real y asegurar
el pleno empleo.
Randall Wray, uno de sus sumos sacerdotes, señala la tecla mágica: “Siempre
pueden suministrarse unas finanzas suficientes para la plena utilización de
todos los recursos disponibles a fin de apoyar el desarrollo de capital de la
economía. Podemos servirnos del golpe de tecla para llegar al pleno empleo”.
“Toda nación dotada de una moneda soberana será capaz de alcanzar el pleno
empleo”. ¡Bum! De nuevo la confianza en el papel corrector del Estado y las
palancas institucionales para revertir, con una gestión correcta y a través de
maravillosamente sencillos mecanismos, el embate de los ‘espíritus animales’ del
‘genio malo’ del capital.
Empero, como dice Roberts, quizás no sea una idea ni tan novedosa ni tan mágica:
“Los keynesianos, post-keynesianos (y los partidarios de la TMM) creen que los
estímulos fiscales a través de más gasto público y el aumento de los déficits
presupuestarios de los gobiernos es la manera de poner fin a la Larga Depresión
y evitar una nueva recesión. Pero nunca ha habido la menor prueba de que tales
medidas de gasto fiscal funcionen, excepto en la economía de guerra de 1940”.
El mito de la renta básica, proclamada como panacea asistencial-redistributiva
por otra rama de los reguladores reformistas, emerge como la coronación de este
fútil intento de construcción nostálgica de un capitalismo con “corazón”. Junto
al trabajo garantizado de los ‘curanderos’ de la TMM y a las varitas mágicas
fiscales ‘a la Piketty’, el mito del ingreso universal completa la tríada de
propuestas estrella de los reguladores en pos del retorno del ‘genio malo’ del
capitalismo sin corazón a la botella donde lo encerrará el bueno del papá Estado
al servicio del interés general.
Michel Husson describe la debilidad teórica de las propuestas de regulación de
los curanderos: “La salida de la crisis implicaría que el capitalismo acepta
funcionar con una tasa de beneficio menos elevada y que la finanza privilegia
las inversiones útiles. Lo que es al mismo tiempo cierto pero incompatible con
el fundamento mismo del capitalismo. Esto es lo que no comprenden los analistas
keynesianos que, fascinados por la finanza, desprecian los fundamentos
estructurales de la crisis”.
Vanas y anacrónicas ilusiones que omiten el hecho esencial: el capitalismo
regulado de los añorados ‘treinta gloriosos’ fue un periodo excepcional e
irrepetible, un paréntesis en la tendencia hacia el estancamiento secular que
caracteriza al capitalismo senil. La falta de comprensión de este hecho
histórico –ya descrito por Marx, cuya tesis del capitalismo degenerativo,
progresivamente ahogado en sus insolubles contradicciones, cada vez adquiere
más verosimilitud- es la que incapacita a los reguladores para realizar un
diagnóstico correcto y les sitúa delante del espejismo de la posibilidad de
detener los espíritus montaraces del capitalismo desquiciado.
La keynesiana de izquierdas Joan Robinson, con su agudeza proverbial, apunta a
la paradoja de utilizar al Estado para arreglar los desperfectos del capitalismo
desembridado: “Cualquier gobierno que tenga tanto el poder y la voluntad de
solucionar los principales defectos del sistema capitalista tendría la voluntad
y el poder de abolirlo por completo”.
El sociólogo y destacado marxista ecológico John Bellamy Foster describe la
cruda realidad que los reguladores reformistas prefieren ignorar: “Ahora la
política fiscal y la monetaria están fuera del alcance de cualquier gobierno que
se atreva a hacer algún cambio que afecte a los grandes intereses creados. Los
Bancos Centrales se han transformado en entidades controladas por los Bancos
Privados. Los Ministerios de Hacienda están atrapados por los límites de la
deuda y las agencias reguladoras están en manos de los monopolios financieros y
actúan en interés directo de las corporaciones”
Y hay razones profundas cuya ignorancia impide a los reguladores situar sus
mágicas propuestas en el terreno firme de la realidad: “Pero hay una razón
quizás más fundamental que hace imposible la regulación del capitalismo, y es la
caída de la mejora de la productividad. El capitalismo neoliberal tiene esta
característica muy suya de haber sido capaz de restablecer la tasa de ganancia a
través de la inflación de activos a pesar de una disminución relativa de las
ganancias de productividad. Ya no tiene mucho que redistribuir y por lo tanto no
tiene más remedio que aumentar de manera continua la tasa de explotación. Hoy en
día, el capitalismo no beneficia más que a una pequeña fracción de la población.
A la mayoría no le ofrece otra perspectiva que la regresión social sin fin”.
Y, más fundamentalmente, todo se basaba en otra ilusión, a saber, que el dinero
puede generar dinero sin pasar por la casilla de la explotación. Para disipar
esta representación fantasmagórica que los reguladores tienen del organismo
económico es necesario disponer de una teoría del valor, marxista en este caso,
de la que abominan los reformistas de toda laya.
Frente a esta regresión social y ecológica sin fin, no queda más remedio pues
que proclamar de nuevo la vieja máxima de Rosa Luxemburgo contra el falso
espejismo de los reguladores de un capitalismo con rostro humano. Porque estas
ilusiones basadas en hacer retornar el genio malo a la botella no son solamente
estériles, son también, desgraciadamente, mala pedagogía popular. Y representan
por tanto obstáculos para el surgimiento de movimientos y luchas verdaderamente
antagonistas que construyan alternativas frente a las crecientemente
desconyuntadas relaciones sociales en el capitalismo desquiciado. En caso
contrario, como describe Anselm Jappe, autor del libro titulado,
significativamente, ‘Crédito a muerte’, las implicaciones de ese progresivo
desquiciamiento del sistema de la mercancía pondrán a la especie humana y a su
crucificado planeta ante una perspectiva catastrófica: “Lo que se avecina tiene
más bien el aspecto de una barbarie a fuego lento, un sálvese quien pueda.
Antes que el gran crash, podemos esperar una espiral que descienda hasta el
infinito, una demora perpetua que nos dé tiempo para acostumbrarnos a ella como
en la fábula de la rana y el agua caliente. Seguramente asistiremos a una
espectacular difusión del arte de sobrevivir de mil maneras y de adaptarse a
todo, antes que a un vasto movimiento de reflexión y de solidaridad, en el que
todos dejen a un lado sus intereses personales, olviden los aspectos negativos
de su socialización y construyan juntos una sociedad más humana”. Ojalá se
equivoque.
In
OBSERVATORIO DE LA CRISIS
https://observatoriocrisis.com/2019/09/15/el-capitalismo-desquiciadoparte-3/
15/9/2019
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
O 11/Setembro dezoito anos depois
*por Paul Craig Roberts *
Gostaria de perguntar aos leitores se encontraram nos media impressos,
televisivos ou na National Public Radio alguma notícia da investigação
altamente profissional realizada durante quatro anos acerca do
desaparecimento do Edifício 7 do World Trade Center. A equipe
internacional de engenheiros civis concluiu que a história oficial da
destruição do edifício 7 é inteiramente falsa. Informei das suas
descobertas aqui: www.paulcraigroberts.org/...
<https://www.paulcraigroberts.org/2019/09/04/the-official-story-of-the-collapse-of-wtc-building-7-lies-in-ruins/>
Suspeito que o relatório pericial já esteja no Buraco da Memória. A
revista /Popular Mechanics, / a Wikipedia e a CNN não podem etiquetar
uma equipe eminente como "teóricos da conspiração". Portanto os
presstitutos e variados artistas do encobrimento do ataque de falsa
bandeira do 11/Set aos Estados Unidos simplesmente actuarão como se
nenhum relatório existisse. A vasta maioria dos povos no mundo nunca
ouvirá nada acerca do relatório. Duvido que os perpetradores reais do
11/Set cheguem a contratar a sua própria equipe para "refutar" o
relatório, pois isso traria o relatório para os noticiários, o último
lugar em que os autores querem que esteja.
O relatório da Comissão do 11/Set não era de uma investigação e ignorou
todas as evidências forenses. A simulação do colapso do Edifício 7 feita
pelo NIST
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Instituto_Nacional_de_Padr%C3%B5es_e_Tecnologia>
foi amanhada para obter o resultado desejado. As únicas investigações
reais foram feitas por cientistas, engenheiros e arquitectos privados.
Eles descobriram evidência clara da utilização do [explosivo]
nano-thermite na destruição das torres gémeas. Mais de 100 membros de
unidades de intervenção inicial /(First Responders) / testemunharam
terem sentido um grande número de explosões dentro das torres, incluindo
uma explosão maciça no subsolo antes do momento em que foi dito que os
aviões atingiram a torre. Numerosos militares e pilotos civis disseram
que as manobras de voo envolvidas nos ataques ao WTC e ao Pentágono
estão para além das suas qualificações e ainda mais certamente para além
das qualificações dos alegados sequestradores. Destroços dos aviões
estão surpreendentemente ausentes dos sítios do impacto. E assim por
diante e assim por diante. Que o Edifício 7 foi uma demolição controlada
já não é mais discutível.
Na base da evidência conhecida, pessoas entendidas e informadas
concluíram que o 11/Set foi um trabalho interno /(inside job) /
organizado pelo vice-presidente Dick Cheney, sua cavalariça de
neoconservadores e Israel para o objectivo de reconstruir o Médio
Oriente no interesse de Israel e, neste processo, enriquecer o complexo
militar/de segurança dos EUA.
A maior parte das pessoas está inconsciente do papel do director do FBI,
Robert Mueller, em proteger da evidência a narrativa oficial do 11/Set.
Paul Sperry informa no /New York Post / as muitas acções tomadas por
Mueller como director do FBI para ocultar os factos ao Congresso e ao
público. nypost.com/...
<https://nypost.com/2019/09/07/robert-mueller-helped-saudi-arabia-cover-up-its-role-in-9-11-attacks-suit/?utm_source=facebook_sitebuttons&utm_medium=site+buttons&utm_campaign=site+buttons>
Patrick Pasin, um autor francês, fornece uma evidência adicional do mau
uso do seu posto por parte de Mueller para proteger uma mentira oficial.
Uma tradução em língua inglesa do livro de Pasin, /The FBI Accomplice of
9/11 / , foi publicada pela Talma Studios, em Dublim, Irlanda.
www.bookdepository.com/...
<https://www.bookdepository.com/FBI-Accomplice-9-11-Patrick-Pasin/9781913191009?ref=grid-view&qid=1568124891642&sr=1-1>
*[*]* <#notas>
O livro de Pasin consiste em organizar a evidência conhecida, a qual tem
sido suprimida a fim de perpetrar uma falsa narrativa do 11/Set, num
relato irrefutável de como um ataque de falsa bandeira foi protegido da
revelação. Ele pormenoriza o plano "através do qual o FBI tentou provar
a narrativa conspiratória do governo – a qualquer custo. É de recordar
que Mueller é um dos que no Estado Profundo provocou o presidente Trump.
Negócios sujos é o negócio de Mueller.
Pasin colecciona as provas e as teias numa narrativa irrefutável. Está
tudo ali. A utilização de informação privilegiada /(insider trading) /
antes dos sequestros dos aviões, a impossibilidade de chamadas
telefónicas a partir de aviões em 2001; as cartas com antraz enviadas
aos senadores Tom Daschle e Patrick Leahy que abriram o caminho para o
Patriot Act; o esforço para culpar cientistas militares americanos pelas
cartas quando se revelou que o antraz só existia num laboratório militar
estado-unidense; a total implausibilidade de encontrar um passaporte não
danificado no entulho das torres gémeas onde os fogos eram alegadamente
tão quentes que fundiam o aço.
É extraordinário que alguém pudesse ter acreditado numa só palavra
disto. Tente imaginar um calor tão intenso que funde o aço mas não é
suficiente para queimar um passaporte!
O livro de Pasin é de leitura fácil. Ele simplesmente expõe, revelando
falsificação após falsificação, mentira após mentira. A narrativa
obviamente falsa é transmitida ao mundo e os peritos que a revelam como
falsa são chamados "teóricos da conspiração" por pessoas demasiado
estúpidas e desinformadas para assimilar seus livros.
Esta é a América do século XXI e, aparentemente, o resto da população do
mundo não é mais brilhante.
Dentro de três dias será o 18º aniversário do 11/Set. O que aprendemos
nestes 18 anos? Aprendemos que milhares de peritos com provas concretas
não podem prevalecer sobre uma transparente mentira oficial.
09/Setembro/2019
*[1] Edição em francês: /Le FBI, complice du 11 septembre,/
<http://www.librairie-renaissance.fr/9791096132850-le-fbi-complice-du-11-septembre-patrick-pasin/>
Talma Studios, 2019, 280 p. *
*O original encontra-se em
www.paulcraigroberts.org/2019/09/09/9-11-after-18-years/
<https://www.paulcraigroberts.org/2019/09/09/9-11-after-18-years/> *
In
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/11set/roberts_09set19.html
11/9/2019
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
Instruções para os Delegados do Conselho Geral Provisório.
As Diferentes Questões[N41]
Karl Marx
Agosto de 1866
| Transcrição autorizada |
![]() |
Primeira Edição: Escrito por K. Marx no fim de Agosto de 1866. Publicado nos jornais The International Courier, n.os 6-7, 20 de Fevereiro, e n.°s 8-10, 13 de Março, 1867, e Le Courrier International, n.°s 10 e 11, 9 e 16 de Março, 1867, assim como na revista Der Vorbote nºs 10 e 11, de Outubro e Novembro de 1866. Publicado segundo o texto de The International Courier.
Fonte: . Obras Escolhidas em três tomos, Editorial "Avante!"
Tradução: Traduzido do inglês por José BARATA-MOURA.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, julho 2008.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.
Fonte: . Obras Escolhidas em três tomos, Editorial "Avante!"
Tradução: Traduzido do inglês por José BARATA-MOURA.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, julho 2008.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.
1. Organização da Associação Internacional
Ao fim e ao cabo, o Conselho Central Provisório recomenda o plano de organização tal como foi traçado nos Estatutos Provisórios. A sua solidez e facilidade de adaptação a diferentes países sem prejuízo da unidade de acção foram provadas pela experiência de dois anos. Para o próximo ano recomendamos Londres como sede do Conselho Central, uma vez que a situação continental se mostra desfavorável a [qualquer] mudança.Os membros do Conselho Central serão, certamente, eleitos pelo Congresso (5 dos Estatutos Provisórios) com o poder de aumentar o seu número.
O Secretário-Geral será escolhido pelo Congresso, por um ano e será o único funcionário pago da Associação. Propomos £2 como salário semanal.
A contribuição anual uniforme de cada membro individual da Associação será meio penny (talvez um penny). O preço de custo dos cartões de membro (carnets)(1*) será pago à parte.
Ainda que, apelando aos membros da Associação para que formem sociedades de beneficência e que as liguem por um elo internacional, deixamos a iniciativa desta questão (établissement des sociétés de secours mutuels. Appui moral et matériel accordé aux orphelins de l'association)(2*) aos Suíços que originalmente a propuseram na Conferência de Setembro último[N42].
2. Combinação internacional de esforços, por acção da Associação, na luta entre trabalho e capital
(a) De um ponto de vista geral, esta questão abarca toda a actividade da Associação Internacional que tem como objectivo combinar e generalizar os esforços de emancipação, até agora desconexos, das classes operárias em diferentes países.(b) Contrariar as intrigas dos capitalistas sempre prontos, em casos de greves e lockouts, a abusarem do operário estrangeiro como ferramenta contra o operário nativo é uma das particulares funções que a nossa Sociedade tem, até agora, desempenhado comsucesso.
É um dos grandes propósitos da Associação fazer com que os operários de diferentes países não só se sintam mas actuem como irmãos e camaradas no exército da emancipação.
(c) Uma grande «combinação internacional de esforços» que sugerimos é um inquérito estatístico à situação das classes operárias de todos os países a ser instituído pelas próprias classes operárias. Para agir com algum sucesso, têm de conhecer-se os materiais sobre que se vai agir. Tomando a iniciativa de tão grande tarefa, os operários provarão a sua capacidade de tomar o seu destino nas suas próprias mãos. Por conseguinte, propomos:
Que em cada localidade onde existam ramos da nossa Associação, o trabalho seja imediatamente começado, e que sejam coligidos elementos [evidence] sobre os diferentes pontos especificados no esquema de inquérito junto.
Que o Congresso convide todos os operários da Europa e dos Estados Unidos da América a colaborar na reunião de elementos das estatísticas da classe operária; que relatórios e elementos sejam encaminhados para o Conselho Central. Que o Conselho Central os elabore num relatório geral, acrescentando os elementos como apêndice.
Que este relatório, juntamente com o seu apêndice, seja apresentado ao próximo Congresso anual e, que, depois de ter recebido a sanção deste, seja impresso a expensas da Associação.
ESQUEMA GERAL DE INQUÉRITO QUE PODE, CERTAMENTE, SER MODIFICADO EM CADA LOCALIDADE
- Indústria, nome da.
- Idade e sexo dos empregados.
- Número dos empregados.
- Ordenados e salários [salaries and wages]: (a) aprendizes;
(b) salário por dia ou por peça; taxas pagas pelos intermediários.
Médias semanais e anuais. - (a) Horas de trabalho em fábricas, (b) As horas de trabalho para pequenos patrões [employers] e de trabalho feito em casa, se a actividade for feita nesses diferentes moldes, (c) Trabalho nocturno e trabalho diurno.
- Horas de refeição e tratamento.
- Espécies de oficinas e trabalho; superlotação, ventilação deficiente, necessidade de luz de dia, uso de luz de gás. Limpeza, etc.
- Natureza da ocupação.
- Efeitos do emprego sobre a condição física.
- Condição moral. Educação.
- Estado do negócio [trade]: se o negócio é sazonal ou mais ou menos uniformemente distribuído ao longo do ano, se tem grandes flutuações, se exposto à concorrência estrangeira, se destinado principalmente para concorrência interna ou estrangeira, etc.
3. Limitação do dia de trabalho
Uma condição preliminar, sem a qual todas as ulteriores tentativas para o melhoramento e emancipação terão de se revelar abortivas, é a limitação do dia de trabalho.É necessária para restaurar a saúde e as energias físicas da classe operária, isto é, o grande corpo de cada nação, assim como para assegurar-lhe a possibilidade de desenvolvimento intelectual, relações sociais [sociable], acção social [social] e política.
Propomos 8 horas de trabalho como limite legal do dia de trabalho. Tendo esta limitação sido reclamada de um modo geral pelos operários dos Estados Unidos da América[N43], o voto do Congresso elevá-la-á a plataforma comum das classes operárias em todo o mundo.
Para informação dos membros continentais, cuja experiência da lei fabril é comparativamente recente, nós acrescentamos que todas as restrições legais falharão e serão quebradas pelo capital se o período do dia durante o qual as 8 horas de trabalho terão de ser cumpridas não for fixado. A duração deste período devia ser determinada pelas 8 horas de trabalho e as pausas adicionais para refeições. Por exemplo, se as diferentes interrupções para refeições montarem a uma hora, o período legal do dia deveria abarcar 9 horas, digamos das 7 da manhã às 4 da tarde ou das 8 da manhã às 5 da tarde, etc. O trabalho nocturno não deverá ser permitido senão excepcionalmente, em ofícios ou ramos de ofícios especificados por lei. A tendência tem de ser para suprimir todo o trabalho nocturno.
Este parágrafo refere-se somente a pessoas adultas, homens ou mulheres; estas últimas, no entanto, deverão ser rigorosamente excluídas de todo o trabalho nocturno, qualquer que ele seja, e de toda a espécie de trabalho prejudicial à delicadeza do sexo ou que exponha os seus corpos a agentes venenosos ou de qualquer outra forma deletérios. Por pessoas adultas entendemos todas as pessoas que tenham atingido ou ultrapassado a idade de 18 anos.
4. Trabalho juvenil e infantil (ambos os sexos)
Consideramos a tendência da indústria moderna para levar as crianças e jovens de ambos os sexos a cooperarem no grande trabalho da produção social como uma tendência progressiva, sã e legítima, embora sob o capital tenha sido distorcida numa abominação. Num estado racional da sociedade qualquer criança que seja, desde a idade dos 9 anos, deve tornar-se trabalhador produtivo da mesma maneira que todo o adulto saudável não deveria ser eximido da lei geral da natureza: Trabalhar para comer, e trabalhar não só com o cérebro mas também com as mãos.No entanto, presentemente, nós temos apenas de tratar de crianças e jovens de ambos os sexos [pertencendo ao povo trabalhador. Devem ser divididos](3*) em três classes, a serem tratadas de maneira diferente: a primeira classe englobando dos 9 aos 12; a segunda, dos 13 aos 15 anos; e a terceira compreendendo as idades dos 16 e 17 anos. Propomos que o emprego da primeira classe em qualquer oficina ou local de trabalho seja legalmente restringido a duas [horas]; a segunda classe a quatro [horas]; e o da terceira classe a seis horas. Para a terceira classe terá de haver um intervalo pelo menos de uma hora para refeições ou descontracção.
Poderá ser desejável começar a instrução escolar elementar antes da idade de 9 anos; mas aqui tratamos apenas dos mais indispensáveis antídotos contra as tendências de um sistema social que degrada o operário a mero instrumento para a acumulação de capital, e que transforma pais, devido às suas necessidades, em proprietários de escravos, vendedores dos seus próprios filhos. O direito das crianças e dos jovens tem de ser feito valer. Eles não são capazes de agir por si próprios. É, no entanto, dever da sociedade agir em nome deles.
Se as classes média e superior negligenciam os seus deveres para com a sua descendência, a culpa é delas. Partilhando os privilégios dessas classes, a criança está condenada a sofrer dos preconceitos daquelas.
O caso da classe operária apresenta-se bem diferente. O operário não é um agente livre. Em demasiados casos, ele é até demasiado ignorante para compreender o verdadeiro interesse do seu filho, ou as condições normais do desenvolvimento humano. No entanto, a parte mais esclarecida da classe operária compreende inteiramente que o futuro da sua classe, e, por conseguinte, da humanidade, depende completamente da formação da geração operária nascente. Eles sabem, antes de tudo o mais, que as crianças e os jovens trabalhadores têm de ser salvos dos efeitos esmagadores do presente sistema. Isto só poderá ser efectuado convertendo a razão social em força social e, em dadas circunstâncias, não existe outro método de o fazer senão através de leis gerais impostas pelo poder do Estado. Impondo tais leis, a classe operária não fortifica o poder governamental. Pelo contrário, eles transformam esse poder, agora usado contra eles, em seu próprio agente. Eles efectuam por uma medida [act] geral aquilo que em vão tentariam atingir por uma multidão de esforços individuais isolados.
Partindo deste ponto, dizemos que nenhum pai nem nenhum patrão deveria ser autorizado a usar trabalho juvenil, excepto quando combinado com educação.
Por educação entendemos três coisas:
Primeiramente: Educação mental.
Segundo: Educação física, tal como é dada em escolas de ginástica e pelo exercício militar.
Terceiro: Instrução tecnológica, que transmite os princípios gerais de todos os processos de produção e, simultaneamente, inicia a criança e o jovem no uso prático e manejo dos instrumentos elementares de todos os ofícios.
Um curso gradual e progressivo de instrução mental, gímnica e tecnológica deve corresponder à classificação dos trabalhadores jovens. Os custos das escolas tecnológicas deveriam ser em parte pagos pela venda dos seus produtos.
A combinação de trabalho produtivo pago, educação mental, exercício físico e instrução politécnica, eleverá a classe operária bastante acima do nível das classes superior e média.
É evidente que o emprego de todas as pessoas dos [9] aos 17 anos (inclusive) em trabalho nocturno e em todos os ofícios nocivos à saúde tem de ser estritamente proibido por lei.
5. Trabalho cooperativo
É tarefa da Associação Internacional dos Trabalhadores combinar e generalizar os movimentos espontâneos das classes operárias, mas não ditar ou impor qualquer sistema doutrinário que seja. O Congresso não deveria, portanto, proclamar qualquer sistema especial de cooperação, mas limitar-se à enunciação de alguns princípios gerais.(a) Reconhecemos o movimento cooperativo como uma das forças transformadoras da sociedade presente baseada em antagonismo de classes. O seu grande mérito é o de mostrar praticamente que o presente sistema, pauperizador e despótico, de subordinação do trabalho ao capital pode ser superado pelo sistema republicano e beneficente de associação de produtores livres e iguais.
(b) Restringido, contudo, às formas anãs, em que escravos assalariados individuais o podem elaborar pelos seus esforços privados, o sistema cooperativo nunca transformará a sociedade capitalista. Para converter a produção social num sistema amplo e harmonioso de trabalho livre e cooperativo são requeridas mudanças sociais gerais, mudanças das condições gerais da sociedade, que nunca serão realizadas a não ser pela transferência das forças organizadas da sociedade, a saber: o poder do Estado de capitalistas e proprietários fundiários para para os próprios produtores.
(c) Recomendamos aos operários que se metam na produção cooperativa de preferência a em armazéns cooperativos. Os últimos não tocam senão na superfície do sistema económico presente, a primeira ataca o seu alicerce.
(d) Recomendamos a todas as sociedades cooperativas que convertam uma parte do seu rendimento total num fundo para propagar os seus princípios, tanto pelo exemplo como pelo ensinamento, por outras palavras, tanto promovendo o estabelecimento de novas fábricas cooperativas como ensinando e pregando.
(e) Em ordem a evitar que as sociedades cooperativas degenerem em vulgares companhias por acções (sociétés par actions)(4*) da classe média, todos os operários empregados, accionistas ou não, devem comparticipar igualmente. Como mero expediente temporário, estamos na disposição de atribuir aos accionistas uma taxa de lucro baixa.
6. Uniões de Ofícios.
O seu passado, presente e futuro
(a) O seu passado.O capital é força social concentrada, enquanto o operário tem à sua disposição, somente, a sua força de trabalho. Por consequência, o contrato entre capital e trabalho não pode nunca ser estabelecido em termos equitativos nem mesmo no sentido de uma sociedade que coloca a propriedade dos meios materiais de vida e trabalho, de um lado, e as energias produtivas vitais, no lado oposto. O único poder social dos operários é o seu número. A força dos números, no entanto, é quebrada pela desunião. A desunião dos operários é criada e perpetuada pela inevitável concorrência entre eles próprios.
As Uniões de Ofícios [Trades' Unions](5*) nasceram das tentativas espontâneas de operários para remover ou, pelo menos, controlar essa concorrência, a fim de conquistar termos de contrato tais que os pudessem elevar, pelo menos, acima da condição de meros escravos. O objectivo imediato das Uniões de Ofícios estava, por conseguinte, confinado às necessidades de todos os dias, aos expedientes para obstrução das incessantes usurpações do capital, numa palavra, a questões de salários e tempo de trabalho. Esta actividade das Uniões de Ofícios não é só legítima, é necessária. Não pode ser dispensada enquanto o presente sistema de produção durar. Pelo contrário, terá de ser generalizada pela formação e combinação de Uniões de Ofícios por todos os países. Por outro lado, sem terem consciência disso, as Uniões de Ofícios estavam a formar centros de organização da classe operária, tal como os municípios e comunas medievais o fizeram para a classe média. Se as Uniões de Ofícios têm sido necessárias às lutas de guerrilha entre capital e trabalho, elas são ainda mais importantes como agentes organizados para a substituição do próprio sistema de trabalho assalariado e dominação do capital.
(b)O seu presente.
Demasiado exclusivamente viradas para as lutas locais e imediatas com o capital, as Uniões de Ofícios ainda não compreenderam completamente o seu poder de agir contra o próprio sistema de escravatura assalariada. Por consequência, elas mantiveram-se demasiado afastadas dos movimentos sociais e políticos gerais. No entanto, ultimamente, elas parecem ter acordado para algum sentido da sua grande missão histórica, como se depreende, por exemplo, da sua participação, em Inglaterra, no recente movimento político[N44], das perspectivas alargadas sobre a sua função nos Estados Unidos[N45], e da seguinte resolução aprovada na recente grande Conferência de Delegados dos Ofícios em Sheffield[N46]:
«Que esta Conferência, apreciando plenamente os esforços feitos pela Associação Internacional para unir num vínculo comum de fraternidade os operários de todos os países, recomende o mais seriamente, às várias sociedades aqui representadas, a conveniência de se tornarem filiadas daquele corpo, crendo que isso é essencial ao progresso e prosperidade de toda a comunidade trabalhadora.»
(c) O seu futuro.À parte os seus propósitos originais, elas têm agora de aprender a agir deliberadamente como centros organizadores da classe operária no amplo interesse da sua completa emancipação. Têm de ajudar todo o movimento social e político que tende para essa direcção. Considerando-se a si próprias e agindo como campeãs e representantes de toda a classe operária, elas não podem deixar de recrutar para as suas fileiras os homens ainda não associados [non-society men]. Têm de olhar cuidadosamente pelos interesses dos ofícios mais mal pagos, tais como os trabalhadores agrícolas, tornados impotentes [powerless] por circunstâncias excepcionais. Têm de convencer o mundo inteiro de que os seus esforços, longe de serem estreitos e egoístas, apontam para a emancipação de milhões de espezinhados.
7. Tributação directa e indirecta
(a) Nenhuma modificação na forma de tributação pode produzir qualquer mudança importante nas relações de trabalho e capital.(b) Todavia, tendo de escolher entre dois sistemas de tributação, recomendamos a total abolição de impostos indirectos e a substituição geral por impostos directos.
Porque impostos indirectos elevam os preços das mercadorias, uma vez que os comerciantes juntam a esses preços não só o montante dos impostos indirectos como também os juros e o lucro sobre o capital avançado no seu pagamento;
Porque impostos indirectos escondem de um indivíduo o que ele está a pagar ao Estado, ao passo que um imposto directo é indisfarçável, infalsificável e não pode ser mal entendido pela mais fraca capacidade. Tributação directa incita, por conseguinte, todo o indivíduo a controlar os poderes que governam, enquanto tributação indirecta destrói toda a tendência para o autogoverno.
8. Crédito internacional
Iniciativa a deixar aos Franceses.9. Questão polaca
(a) Por que é que os operários da Europa pegam nesta questão? Em primeiro lugar, porque os escritores e agitadores da classe média conspiram para a suprimir, embora eles patrocinem toda a espécie de nacionalidades, no Continente e mesmo na Irlanda. De onde veio esta reticência? Porque aristocratas e burgueses olham ambos para o sombrio poder Asiático na retaguarda como o último recurso contra o avanço da maré de ascendência da classe operária. Esse poder só pode, efectivamente, ser deitado abaixo pela restauração da Polónia numa base democrática.(b) No presente estado transformado da Europa Central e, especialmente, na Alemanha, é mais do que nunca necessário ter uma Polónia democrática. Sem ela, a Alemanha tornar-se-á o posto avançado da Santa Aliança[N47]; com ela, a cooperadora com a França republicana. O movimento da classe operária será continuamente interrompido, travado e retardado até que esta grande questão Europeia fique finalmente assente.
(c) É, especialmente, dever da classe operária alemã tomar a iniciativa nesta matéria, porque a Alemanha é um dos partilhadores da Polónia.
10. Exércitos
(a) A influência deletéria de grandes exércitos permanentes sobre a produção tem sido suficientemente exposta em congressos da classe média de todas as denominações, em congressos de paz, congressos económicos, congressos estatísticos, congressos filantrópicos, congressos sociológicos. Pensamos, por consequência, completamente supérfluo alargarmo-nos sobre este ponto.(b) Propomos o armamento geral do povo e a sua instrução geral no uso das armas.
(c) Aceitamos como uma necessidade transitória pequenos exércitos permanentes para formarem escolas para os oficiais das milícias; todo o cidadão masculino sirva nestes exércitos, por um tempo muito limitado.
11. Questão religiosa
Deixar à iniciativa dos Franceses.
Notas de rodapé:
(1*) Em francês no texto: cadernetas. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)
(2*) Em francês no texto: estabelecimento das sociedades de socorros mútuos. Apoio moral e material concedido aos órfãos da associação. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)
(3*) Omitido no texto do jornal. Corrigido de acordo com uma edição posterior. (retornar ao texto)
(4*) Em francês no texto: sociedades por acções. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)
(5*) Formulação que antecedeu a generalização da expressão Trade Union (Sindicato). Versões da época noutras línguas: em francês Sociétés ouvrières (Sociedades Operárias), em alemão Gewerksgenossenschaften(Associações de Ofícios). (Nota da edição portuguesa.)(retornar ao texto)
Notas de fim de tomo:
[N41] As presentes Instruções foram redigidas por Marx para os delegados do Conselho Central Provisório (mais tarde designado Conselho Geral) ao I Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores, que se realizou em Genebra de 3 a 8 de Setembro de 1866. As Instruções davam resposta às questões que deveriam ser examinadas pelo Congresso. Nelas colocavam-se várias tarefas concretas: a luta pela sua realização devia unir as massas operárias, elevar a sua consciência de classe, atraí-las para a luta comum da classe operária. Seis dos nove parágrafos nelas formulados por Marx foram adoptados como resoluções do Congresso: sobre a unidade de acção internacional, a redução da jornada de trabalho, o trabalho juvenil e infantil (ambos os sexos), o trabalho cooperativo, os sindicatos, os exércitos permanentes. (retornar ao texto)
[N42] Trata-se da Conferência de Londres, que se realizou de 25 a 29 de Setembro de 1865, com a participação de membros do Conselho Geral e dos dirigentes de diversas secções. A conferência ouviu o relatório do Conselho Geral, aprovou o seu balanço financeiro e a ordem de trabalhos do congresso seguinte. A Conferência de Londres, preparada e realizada sob a direcção de Marx, desempenhou um grande papel na época da constituição e organização da Internacional. (retornar ao texto)
[N43] A questão da instituição legal da jornada de trabalho de oito horas foi debatida no congresso dos operários americanos que se realizou em Baltimore de 20 a 25 de Agosto de 1866. O congresso debateu igualmente as seguintes questões: acção política dos operários, sociedades cooperativas, adesão de todos os operários às trade unions, greves, etc. (retornar ao texto)
[N44] Trata-se da ampla participação das trade unions inglesas no movimento democrático geral pela segunda reforma do direito eleitoral em 1865-1867. (A primeira foi aplicada em 1831-1832 e abriu o acesso ao parlamento aos representantes da grande burguesia industrial.)
Em 23 de Fevereiro de 1865, numa assembleia de partidários da reforma do direito eleitoral, por iniciativa e com a participação directa do Conselho Geral da Internacional, foi aprovada uma decisão sobre a fundação da Liga da Reforma, que se tornou o centro político para a direcção do movimento de massas dos operários pela segunda reforma. Por insistência de Marx, a Liga da Reforma apresentou a reivindicação do sufrágio universal para toda a população masculina adulta do país. Contudo, em consequência das vacilações dos radicais burgueses que faziam parte da direcção da Liga da Reforma, assustados com o movimento de massas dos operários, e também do espírito conciliador dos dirigentes oportunistas das trade unions, a Liga não foi capaz de aplicar a linha apontada pelo Conselho Geral; a burguesia britânica conseguiu cindir o movimento, e em 1867 foi aplicada uma reforma limitada, que concedeu o direito de voto apenas à pequena burguesia e às camadas superiores da classe operária, deixando a sua massa sem direitos políticos, tal como antes. (retornar ao texto)
Em 23 de Fevereiro de 1865, numa assembleia de partidários da reforma do direito eleitoral, por iniciativa e com a participação directa do Conselho Geral da Internacional, foi aprovada uma decisão sobre a fundação da Liga da Reforma, que se tornou o centro político para a direcção do movimento de massas dos operários pela segunda reforma. Por insistência de Marx, a Liga da Reforma apresentou a reivindicação do sufrágio universal para toda a população masculina adulta do país. Contudo, em consequência das vacilações dos radicais burgueses que faziam parte da direcção da Liga da Reforma, assustados com o movimento de massas dos operários, e também do espírito conciliador dos dirigentes oportunistas das trade unions, a Liga não foi capaz de aplicar a linha apontada pelo Conselho Geral; a burguesia britânica conseguiu cindir o movimento, e em 1867 foi aplicada uma reforma limitada, que concedeu o direito de voto apenas à pequena burguesia e às camadas superiores da classe operária, deixando a sua massa sem direitos políticos, tal como antes. (retornar ao texto)
[N45] Durante a Guerra Civil nos Estados Unidos, as trade unions americanas apoiaram activamente os Estados do Norte na sua luta contra os escravistas. (retornar ao texto)
[N46] A conferência de Sheffield realizou-se de 17 a 21 de Julho de 1866. Examinou a questão da luta contra os lock-outs. (retornar ao texto)
[N47] Santa Aliança: aliança reaccionária das monarquias europeias fundada em 1815 pela Rússia tsarista, a Áustria e a Prússia com vista a esmagar os movimentos revolucionários nos diferentes países e a salvaguardar os regimes monárquico-feudais. (retornar ao texto)
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| Inclusão | 08/07/2008 |
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