sábado, 19 de junho de 2021

Jones Manoel. «Uma organização revolucionária tem de ter um departamento de hackers»

 


Por Nuno Ramos de Almeida
 

Tem 31 anos, é historiador, marxista, /youtuber/, professor de História,
comunicador popular, escritor, militante do Partido Comunista
Brasileiro, e conhecido pelo seu canal no /YouTube/ denominado Jones
Manoel. Nascido numa favela do Recife, chegou ao marxismo-leninismo a
partir da vida e do rap. A conversa com o /*AbrilAbril*/ começa com a
questão do Estado e acaba nas redes sociais.

Historiador e um dos jovens marxistas com maior audiência nas redes
sociais brasileiras.

Historiador e um dos jovens marxistas com maior audiência nas redes
sociais brasileiras.CréditosRennan Peixe / DR

*Fez 150 anos que a Comuna de Paris foi derrotada depois da Semana
Sangrenta. Há alguma razão comum que justifique esta derrota e todos os
outros insucessos nas revoluções feitas pelos explorados?*

A Comuna Paris surge numa situação muito adversa, num contexto da guerra
Franco-Prussiana em que o governo da França assumiu uma postura de
traição nacional, entregou o país à Prússia e os operários de Paris
resolveram tomar o poder. Marx tinha alertado, antes da Comuna, que
seria um suicídio os operários tentarem tomar o poder. Quando eles o
fizeram, Marx analisou objectivamente as razões que levaram à sua
derrota. A esquerda ocidental tem um fetiche pela derrota e pelo
martírio. Ela adora quem perdeu.

*Talvez porque nunca ganharam.*

A ideologia dominante permite que a gente tenha referências, mas desde
que elas sejam referências de martírio e não de exercício de poder. Para
sectores da burguesia e dos intelectuais democráticos, uma figura como
Che Guevara é muito mais saborosa que uma figura como Fidel Castro. Che
Guevara morre enquanto exemplo de martírio e Fidel Castro permanece
enquanto líder e estadista do processo revolucionário. Há gente que
gosta muito de assassinados, como Che Guevara, Rosa Luxemburgo e
Gramsci, esvaziando-os da perspectiva comunista e apagando o que
defendiam. Paralelamente, dirigentes revolucionários como Fidel Castro,
Ho Chi Minh, Mao Ze Dong e Kim Il-Sung são quase sempre odiados,
ostracizados e chamados de ditadores que trairam a revolução em algum
lugar da história.

    «Não se deve perder as oportunidades de golpear o inimigo de classe
    o mais profundamente possível, para melhorar as nossas condições no
    enfrentamento.»

Mas voltando à Comuna, acho muito importante vermos o que são os
ensinamentos da derrota. Marx e Engels apontam duas coisas: primeiro, os
/communards/ não tomaram o Banco da França, elemento fundamental que os
colocaria numa situação de maior poder para pressionar e negociar com a
burguesia francesa; segundo, usaram muito pouco a capacidade de
repressão e de eliminação do inimigo de classe. Isso está muito bem
documentado num texto de Engels sobre a autoridade. O ensinamento
importante que a Comuna deixa é que a burguesia não tem ética, não tem
pudor, e trata a luta de classes como uma guerra de classes, o que
significa que elimina fisicamente o inimigo. Na esquerda, a gente pensa
muito pouco em termos estratégicos e subordinamos a estratégia à ética.
Não se deve perder as oportunidades de golpear o inimigo de classe o
mais profundamente possível, para melhorar as nossas condições no
enfrentamento. Caso contrário, vamos estar a chorar derrotas e a
orgulhar-nos da pureza. Lembro quando aconteceu o golpe de Estado na
Bolívia, em 2019, o filósofo Slavoj Zizek lançou um texto em que se
dizia orgulhoso pelo governo boliviano não ter sido um governo
autoritário, e que mesmo quando veio o golpe de Estado não reprimiu os
golpistas. Esse tipo de pensamento é tudo menos marxista.

*Não pode haver a acusação inversa? No sentido de que a necessidade de
defender a revolução exige muitas vezes uma permanente militarização dos
regimes socialistas e a necessidade de usar meios policiais, deixando a
certa altura de existir o socialismo, dado que se esvazia a participação
popular e dos trabalhadores?*

Para mim, o maior problema das experiências socialistas no século XX foi
não conseguir uma dialéctica que permitisse a defesa interna do processo
revolucionário contra a pressão imperialista e, ao mesmo tempo,
conseguir ampliar e fortalecer a democracia socialista. A União
Soviética é um belo exemplo de que a defesa dos ataques do imperialismo
acabou por conduzir à legitimação de um processo progressivo de
esvaziamento da democracia socialista. Levando ao enfraquecimento da
base de consenso do projecto socialista ao ponto de ser destruído. Já no
caso de Cuba, vai-se conseguindo defender do imperialismo, ao mesmo
tempo que conserva uma vitalidade e um nível de democracia socialista
muito interessante. Isto é um problema real, considerando que os EUA têm
mais de 800 bases espalhadas pelo mundo, o maior orçamento militar, o
maior aparelho de espionagem, sabotagem e guerra suja do mundo, que é a
CIA. Isso sem contar que estamos na era das redes sociais que permite um
nível de vigilância e controlo nunca antes possível.

A defesa da revolução pode acabar por criar processos de burocratização,
mas isso não nos deve levar a subestimar a necessidade das revoluções se
defenderem. A visão de Lénine da necessidade do povo em armas continua
actual. É importante socializar ao máximo a defesa. Mas a questão é que,
na era dos mísseis intercontinentais, o povo em armas não garante a
defesa de qualquer país. Sem estrutura militar não é possível manter o
segredo militar. A necessidade de defesa em relação à maior potência
imperialista do mundo impõe restrições ao processo de democratização
socialista. Enquanto não se fizer uma revolução no centro do império é
um problema que vamos ter de enfrentar.

*Em Marx, a ditadura do proletariado era uma fase curta para cimentar o
poder do proletariado. Em /O Estado e a Revolução/, Lénine defende que o
Estado deveria imediatamente ir desaparecendo, que só será democrático
quando puder ser dirigido pela empregada doméstica. Como é possível num
contexto em que as revoluções são nacionais, defender o novo poder e
democratizar ao mesmo tempo?*

Lénine alterou parcialmente a sua posição depois de /O Estado e a
Revolução/. Muda de perspectiva com a experiência da revolução russa e
compreende, a partir de 1920, que a temporalidade da transição
socialista é muito maior do que a imaginava. Altera a sua posição em
relação ao defenecimento do Estado, para fazer deste um aparelho
alicerçado nos sovietes e que dê efectividade às reivindicações das
massas. Lénine falava até em aprender com as melhores práticas de
administração pública dos capitalistas.  Cuba, Vietname, Laos, China e
Coreia do Norte não caíram, conseguiram sobreviver, uns com formas mais
qualificadas do que outros, mas existe um histórico de experiências
socialistas que não sucumbiram ao ponto de perderem o apoio da base da
classe trabalhadora a esses regimes de transição. A primeira coisa é
fazer um balanço sistemático, real e nosso de todas as experiências.

*Coloca a Coreia do Norte e Cuba no mesmo campo? Não lhe parece que
existem aspectos da Coreia que têm muito pouco a ver com o socialismo, a
sucessão quase dinástica, o culto exacerbado da personalidade, por exemplo?*

A ideia do culto da personalidade é um termo ocidental muito ligado à
própria realidade da União Soviética que, a meu ver, não se encaixa na
explicação da Coreia. Também não acho que haja passagem de poder de pai
para filho, porque os cargos que exerciam Kim Il-Sung, Kim Jong-il, Kim
Jong-un são diferentes. Eles são evidentemente um elemento de simbologia
da revolução nacional, mas exerceram e exercem cargos diferentes. A
representação dos /media/ de que Kim Jong-un é um ditador todo-poderoso,
que controla tudo, é totalmente falsa. Existe pouca literatura e pouco
estudo sistemático sobre a Coreia [do Norte] e há uma desconsideração
sobre o estado permanente de agressão militar em que o país vive.
Recorde-se que foi um país destruído pela guerra com os EUA, em que as
forças norte-americanas destruíram todas as cidades da Coreia do Norte e
mataram 30% da população. Os EUA  mantêm, até hoje, mais de 50 mil
soldados a cercar o país. E têm armas atómicas apontadas à Coreia [do
Norte].

    «Um povo que se consegue defender já é olhado de lado pela esquerda
    ocidental. Para essa gente, uma criança com uma pedra contra um
    tanque israelita é heróico, quando para mim é uma coisa brutal e
    quase pornográfica»

Vamos lembrar que o principal palco militar dos EUA, na segunda metade
do século XX, foi a Ásia. Atacaram o Vietname, atacaram o Laos, atacaram
o Camboja, para além da Coreia [do Norte]. Usaram na guerra da Coreia
mais bombas do que todas as que foram usadas na II Guerra Mundial. E até
hoje, formalmente, a guerra da Coreia não acabou, foi apenas assinado um
armistício, que significa, do ponto de vista do direito internacional,
apenas uma pausa numa guerra.

A Coreia [do Norte] é uma experiência socialista que é olhada de uma
forma muito preconceituosa e preguiçosa pela esquerda Ocidental, que não
estuda o país e tem aquela coisa com que começamos a conversa que é o
fetiche da derrota. Veja, a Coreia [do Norte] foi invadida para ser
liquidada, conseguiram resistir, consolidar um Estado, formar uma
economia nacional. Têm um nível de industrialização considerável,
constituíram um complexo industrial militar importante e, ao contrário
do povo palestiniano, têm a capacidade de se defender. Um povo que se
consegue defender já é olhado de lado pela esquerda ocidental. Para essa
gente, uma criança com uma pedra contra um tanque israelita é heróico,
quando para mim é uma coisa brutal e quase pornográfica. Mas essa
esquerda gosta disso e de sofrimento, mas não gosta de países como a
Coreia [do Norte] que têm mísseis intercontinentais com armas atómicas e
que podem atingir os EUA.

Eu dou um outro exemplo, a Líbia de Muammar al-Gaddafi não era uma
experiência socialista, mas algo que surgiu no contexto das lutas
anticoloniais, que tinha uma certa política anti-imperialista e
nacionalista de apropriação dos recursos naturais do país.

*Na senda de Nasser e do socialismo pan-arabista.*

A Líbia tinha um programa nuclear, mas Gaddafi, tentando aproximar-se da
União Europeia, desistiu do seu programa nuclear. Quatro anos depois de
ter desistido desse programa, a NATO intervém na Líbia, derruba Gaddafi
e destrói o país. Hoje temos um local que até tráfico de pessoas
escravizadas tem. Em Tripoli, estão a vender-se escravos como no século
XVI. A Líbia foi destruída, era dos países mais ricos de África e agora
está nesta situação. Tenho várias divergências com o modelo socialista
coreano, está bem longe daquilo que quero para o socialismo, mas eu
apoio qualquer experiência socialista. O que aconteceu na Líbia, e quem
acompanha o sofrimento do povo palestiniano, sabe, como dizia o velho
Luckács, que «o pior socialismo é melhor que o melhor capitalismo». E o
melhor capitalismo na periferia do sistema não existe. Basta ver a
desgraça que aconteceu com a Líbia.

A Coreia [do Norte] é um Estado muito militarizado, cercado, que tenta
manter a coesão nacional máxima frente às ameaças militares, que se
expressa por exemplo na continuidade de símbolos de unidade nacional,
como a continuidade da família de Kim Il Sung. Tem várias coisas que eu
acho problemáticas, mas que não estou preocupado em criticar: para mim,
o essencial é a acção do imperialismo e o cerco feito a esse país.
Quando acabar esse cerco militar, aí a gente pode debater livremente os
problemas do regime, agora não dá para brincar, porque o imperialismo
não brinca em serviço.

*A questão que coloco é que em que medida a necessidade de militarização
e defesa de um regime não torna esse poder a certa altura pouco
socialista. Não é possível uma estratégia de resistência que passe pelo
aumento do poder do povo e da democracia socialista?*

Temos que considerar várias coisas. O Brasil é mais militarizado que a
Coreia [do Norte] em termos de violência contra a população. A República
Democrática da Coreia não sabe o que é ter, todos os anos, 62 mil
pessoas assassinadas. O cidadão norte-coreano não sabe o que é ter, nas
favelas, a polícia todos os dias a agredir e a xingar as pessoas,
entrando nas casas sem mandado e por vezes matando. Essa própria ideia
de militarização tem que ser muito bem contextualizada. Em termos de
segurança do indivíduo em relação ao Estado,  a Coreia [do Norte]
disfruta de infinitamente mais democracia que o Brasil.

Segundo ponto, se não existisse legitimidade, e um certo consenso e
apoio na sociedade coreana, nenhum governo ficaria de pé. Durante os
anos 90, o país perdeu o seu principal parceiro económico, que era a
União Soviética, sofreu uma série de inundações e catástrofes, teve um
problema sério de desnutrição, e o regime continuou de pé com um alto
nível de consenso e apoio. Nos últimos dez anos, a qualidade de vida da
população tem melhorado muito. Houve uma mudança relativa da orientação
que colocava as Forças Armadas em primeiro lugar. A partir do momento
que o país alcançou o domínio do armamento atómico e mísseis
intercontinentais, a necessidade de ter forças terrestres diminuiu.

    «Todo o projecto anti-imperialista só se mantém se tiver uma forte
    base de apoio, de outra maneira não se aguentaria um minuto»

A guerra moderna é muito mais definida pelos mísseis, caças e submarinos
do que pelo número de soldados. Há uma redução do peso na economia do
exército e uma passagem maior de recursos para habitação e para melhorar
as infraestruturas sociais. A Coreia [do Norte] vive um boom da
construção civil. A melhoria da qualidade da habitação dos
trabalhadores, o aumento de construção de equipamentos colectivos
– bibliotecas, parques, ginásios e equipamentos desportivos –, é visível
e significativa. Há um debate no partido, respondendo aos pedidos das
bases, que reivindicavam melhores condições de vida e de consumo. Assim
como existe um debate sobre o país se tornar um centro mundial de
criptomoedas e a partir daí quebrar o bloqueio económico dos EUA, para
conseguir recursos para adquirir a modernização das infraestruturas e
melhorar mais a vida das populações.

A Coreia [do Norte] tem vários problemas, mas está longe de ser um país
sem uma base social de consenso e legitimidade. Eu dou sempre este
exemplo: os média liberais e certa esquerda representam o governo de
Nicolas Maduro como ultra-militarizado e que só se mantem por causa do
apoio do exército. Veja, eu tenho várias críticas ao governo Maduro, que
nos últimos tempos resolveu lançar uma ofensiva contra o Partido
Comunista Venezuelano, mas é uma ilusão maluca achar que um governo
atacado pela maior potência do mundo, os Estados Unidos, vai conseguir
manter-se no poder só pela força, se não tiver apoio popular. Isso não é
possível. Todo o projecto anti-imperialista só se mantém se tiver uma
forte base de apoio, de outra maneira não se aguentaria um minuto. Não
apenas uma base passiva, mas uma base activa. E isso diferencia a
esquerda da Venezuela em relação à do Brasil. A Dilma [Rousseff] foi
retirada do poder muito facilmente, em 2016, sem nenhuma revolta das
massas. Só tinha uma base de apoio passiva.

*Como é que foi o seu trajecto político do rap para o comunismo?*

 O Brasil tem uma tradição de uma cultura de rap que nasceu em São Paulo
e que é muito politizada. Nos anos 90, Racionais Mcs, RZO, GOG, Sabotage
falavam de violência policial, racismo e de desigualdades. Falavam
inclusive de líderes revolucionários. O GOG tem uma música em que diz:
«Malcolm X foi a Meca e o GOG ao nordeste», ele conta a história de
Malcolm X, a primeira vez que ouvi falar dele foi nessa música. Os
Racionais MCs tem uma música chamada «Jesus chorou» em que se fala:
«Malcom X, Ghandi, Lennon, Marvin Gaye, Che Guevara, 2Pac, Bob Marley, e
o evangélico Martin Luther King». O rap historicamente no Brasil, embora
hoje menos, é muito politizado e serve como voz da comunidades
periféricas. Não só para denunciar das mazelas da sociedade, mas como
memória de uma identidade e de luta contra o racismo. Em formações que
eu dava, antes da pandemia, usava muito o rap.

*Mas nem toda a gente que ouve o rap vira marxista-leninista*.

Há três elementos que contribuíram para isso. Primeiro elemento central,
a produção marxista no Brasil ficou muito centralizada na universidade.
E estas, até aos governos do PT, eram universidades da classe média e da
burguesia, o que tem impacto no tipo de produção marxista. No meu
primeiro contacto com os marxistas na faculdade, vi que eles não
correspondiam à minha realidade. Só para ter uma ideia, a influência no
Brasil era sobretudo uma leitura eurocomunista de Gramsci, de que dá
para construir o socialismo ampliando a democracia, e que a dominação
burguesa hoje se faz mais pelo consenso do que pela coerção. Só acredita
nisso quem é de classe média. Quem, como eu, nasceu numa favela de
Recife, não consegue levar isso a sério. O meu afastamento desse
marxismo hegemónico na universidade e adesão ao marxismo-leninismo para
mim foi natural na minha própria experiência empírica. Eu li estas
coisas e pensei: «Que país é esse? O Brasil não é».

    «Quem conhece a burguesia brasileira não consegue propor nenhuma
    aliança, mesmo que seja táctica, com essa classe»

O segundo elemento, é quando eu criei o hábito de leitura e decidi
organizar-me politicamente. Parei para ler os programas dos partidos
políticos do Brasil. Li os programas do PT, PC do B, PSOL, PSTU, PCR e
da Consulta Popular e por aí vai. Entrei no PCB, na sua organização da
juventude, a UJC, porque era o que deixava mais claro uma estratégia
socialista para a revolução brasileira. Quem conhece a burguesia
brasileira não consegue propor nenhuma aliança, mesmo que seja táctica,
com essa classe.

Um terceiro elemento, chamou-me muita atenção a história do PCB, quando
você estuda no vestibular, para a entrada da universidade, ouve muito
falar do PCB, de Luiz Carlos Prestes, Olga Benário e Ana Montenegro. E a
história do partidão sempre me encantou muito, principalmente via
Prestes. Quando entrei no PCB, deu-me muito orgulho: «vou militar no
mesmo partido que Luiz Carlos Prestes». Foi também isso que me levou a
concordar com o marxismo-leninismo do PCB.

*Em Recife, há uns anos, tentou candidatar-se na sua comunidade. Não o
fez porque foi ameaçado. Actualmente, com o domínio do tráfico de droga
e a repressão do Estado, há espaço nas comunidades para a luta
revolucionária?*

Há espaço. Mas é muito perigosa e difícil. Na favela, onde nasci e fui
criado, mantive um cursinho popular, chamado «Novo Caminho», para ajudar
jovens a conseguir entrar na universidade. Consegui manter essa
actividade durante dois anos, recrutei gente para a juventude do
partido, houve um reconhecimento social da comunidade para com o nosso
trabalho, mas quando foi a hora de disputar a associação de moradores o
meu caminho foi barrado. E repare que eu sou prata da casa, sou nascido
e crescido na favela do Borborema. Não consegui avançar nesse negócio.
Claro que na época eu não era ainda organizado no PCB. Tentei concorrer
à associação de moradores sozinho, sem um partido por trás, o que muda
bastante o cenário.

Agora é preciso dizer que todo o trabalho de base é perigoso. O Brasil é
um país muito perigoso para se militar. É perigoso, trabalhoso, exige
muita estrutura e planeamento. Exige muita paciência revolucionária. O
PCB tem vários trabalhos em comunidades, menos do que é necessário para
a revolução brasileira. Militar no Brasil não é como militar em Paris ou
em Londres. O nível de violência a que estamos submetidos, no
continente, só se compara com a Colômbia em que há um narco-Estado que
mata a rodos. Brasil e Colômbia são os países mais perigosos na região
para se militar.

*Pode-se dizer que a luta de classes no Brasil tem uma carga de ódio
muito maior devido ao peso da escravatura? Há um ódio da burguesia ao
proletariado aditivado pelo racismo?*

Com certeza. José Carlos Mariatégui, o famoso comunista peruano, matou a
charada nos anos 20 do século passado. Tem um texto que mostra que a
burguesia crioula se formou não só a partir de uma identidade classista
burguesa, mas também de uma identidade racial. Fazendo com que a
oposição de classe também assumisse uma forma de oposição racial,
inclusive eugénica, e que essa burguesia se achasse superior aos
caboclos, negros, mulatos e indígenas. Começamos a conversa pela
liquidação da Comuna de Paris, em que a burguesia matou 20 mil pessoas.
Aqui morre muito mais gente. O ódio de classe, quando se soma com o ódio
racial, toma traços neofascistas. É o que acontece com a burguesia
boliviana em Santa Cruz da Serra, a burguesia peruana em Lima. No Brasil
eles se auto-representam como brancos, descendentes directos dos
europeus, e a massa trabalhadora como uma espécie de ralé racialmente
inferior. E trabalham a partir de discursos de extermínio camuflados em
ideologia da segurança pública, em que «bandido bom é bandido morto»,
«tem que se matar o traficante». A grande diferença daqui e do discurso
do Hitler é que este afirmava claramente que odiava judeus, enquanto no
Brasil e em outros países mascara-se os genocídios com políticas de
segurança pública, mas no final o resultado é o mesmo.                 

*Concorda que as categorias de capitalismo, racismo e patriarcado fazem
parte do mesmo quadro da luta de classes?*

Totalmente, desde a obra de Marx e Engels que já está colocada a
multiplicidade de formas de expressão da luta de classes. Essa luta
nunca foi só o conflito capital e trabalho no âmbito da fábrica.
Estou-me a lembrar, por exemplo, no /Manifesto Comunista/, Marx e Engels
colocavam na luta de classes a luta pela libertação da Polónia, que era
uma luta de emancipação nacional. Assim como põem, no mesmo texto, a
importância da luta contra a opressão da mulher. Engels no seu famoso
/Anti-Duhring/, e no seu mais célebre capítulo intitulado do /Socialismo
Utópico ao Socialismo Ciêntífico/, repete a célebre frase de Charles
Fourier, em que o grau de emancipação de uma sociedade é medido pelo
grau de emancipação da mulher nessa sociedade. Assim como na /Origem da
Família, da Propriedade Privada e do Estado/, Engels defende que a
mulher é o proletariado do homem. E que o aparecimento da propriedade
privada significou a derrota mundial do sexo feminino, por ter provocado
um processo de exploração, no âmbito doméstico, do homem sobre a mulher,
numa estrutura patriarcal.

    « Os comunistas lutaram contra o /apartheid/. Isso faz parte também
    da luta de classes»

Diria mais, Domenico Losurdo, no seu livro /A Luta de Classes, uma
História Filosófica e Política/, demonstra que desde a obra de Marx e
Engels há uma compreensão sobre três níveis interligados de exploração e
opressão: o âmbito da vida doméstica, com o patriarcado e a exploração
da mulher; o âmbito nacional, com a retirada de mais-valia a partir da
exploração do proletariado; e o âmbito internacional, a partir da
exploração dos países e povos colonizados. Esses três níveis
articulam-se directamente e fazem com que a luta de classes passe também
por lutas contra a exploração, o imperialismo, o machismo e o racismo.
Algo que foi materializado muito bem na história do movimento comunista.

Há um exemplo que eu gosto muito de dar: hoje todo o mundo gosta de
Nelson Mandela, que virou um ícone mundial, mas quando ele estava preso,
os Estados Unidos chamavam-no de «terrorista», e eram os comunistas que
apoiavam a luta contra o/apartheid/. E Cuba mandou milhares de soldados
para lutar, ao lado dos revolucionários africanos, contra o /apartheid/
e pela independência das ex-colónias portuguesas em África. Os
comunistas lutaram contra o /apartheid/. Isso faz parte também da luta
de classes. Não se pode ter uma visão redutora e economicista da luta de
classes.

*Contesta algumas acusações de correntes da esquerda, e até de alguns
activistas anti-racistas, de que o marxismo é eurocentrista, em que as
questões raciais não estão devidamente espelhadas na teoria comunista?*

Estas críticas só se sustentam na base da falsificação histórica. O
marxismo é a tendência teórica política que, depois do liberalismo, teve
mais alcance mundial. O que significa que é possível encontrar de tudo
no marxismo: há marxismo estruturalista, marxismo humanista, marxismo
analítico, marxismo existencialista, marxismo weberiano, marxismo
pós-moderno. O que você procurar vai achar em algum canto do mundo.
Existiram e existem marxistas eurocêntricos, marxistas que não dão
atenção às lutas anticoloniais e anti-racistas. Agora existe também toda
uma larga tradição do marxismo que deu um papel fundamental, no século
XX, às lutas anti-racistas e coloniais.

    «O marxismo ser um negócio de brancos e que não deu atenção às lutas
    anticoloniais e anti-racistas é uma afirmação que não se sustenta
    sob nenhum prisma»

Três exemplos básicos: os principais líderes das lutas de libertação
nacional na África negra ou eram marxistas ou tinham relações com o
marxismo. Amílcar Cabral, Samora Machel, Agostinho Neto e Thomas Sankara
eram marxistas. E os que não eram marxistas, como Lumumba, tinham
óptimas relações com os marxistas e contavam com o movimento comunista
como aliado das suas lutas de libertação. Segundo exemplo importante,
nos EUA só houve o sufrágio universal – uma cabeça, um voto – em 1965,
quando acabou a segregação racial. A principal organização de luta
contra a segregação racial é o partido das Panteras Negras, uma
organização marxista-leninista que o FBI considerou a maior ameaça ao
capitalismo estado-unidense. O terceiro exemplo, muito significativo, é
que o processo de descolonização da Ásia passou pela liderança dos
partidos comunistas: o chinês, o vietnamita, o coreano, o do Laos. Mesmo
na Índia, os partidos comunistas têm um papel importante, e até hoje na
região de Kerala há uma grande tradição comunista enraizada nas massas.

O marxismo ser um negócio de brancos e que não deu atenção às lutas
anticoloniais e anti-racistas é uma afirmação que não se sustenta sob
nenhum prisma, a não ser que se reduza o marxismo às suas expressões
eurocêntricas, a figuras como Kaustky ou, actualmente, a Zizek. E queria
acrescentar mais um elemento: o Portugal fascista, dominado pelo
salazarismo, foi aceite pelo Ocidente, entrou na NATO, e a nossa amiga
Hannah Arendt, famosa pela sua teoria sobre o totalitarismo, que tentava
igualar a União Soviética ao nazismo, não colocou o fascismo salazarista
como totalitário, dizia que era apenas autoritário. Esse discurso acaba
por fazer o jogo do liberalismo que se relacionou muito bem com o
fascismo salazarista. Escondendo, por exemplo, que os comunistas
organizados no PCP, que eram a principal força de resistência contra o
fascismo, apoiaram as lutas anticoloniais de África, enquanto os EUA
apoiavam o regime colonialista e fascista. Quando se diz que o marxismo
é eurocêntrico, não só se está a falsificar a história como se está
apoiar os liberais que foram aliados históricos do salazarismo.

*Um autor dos EUA,  Asad Haider,  afirma que o racismo não é produto das
raças, mas as raças é que são produto do racismo. E que a luta
anti-racista tem como objectivo a liquidação da ideia de raças e as
desigualdades que por ela são sustentadas e não a criação de qualquer
«negritude». Concorda?*

Concordo plenamente, inclusive li a entrevista do Asad Haider no
/*AbrilAbril*/, uma entrevista muito boa, como sempre. É um autor muito
qualificado e o que ele fala não é uma ideia nova, baseia-se muito nas
ideias do Frantz Fanon. Defende uma perspectiva que eu gosto de chamar
de humanismo radical. Comprende que a divisão do mundo em raças é um
produto da modernidade, a partir da acumulação primitiva de capital que
se consolida no capitalismo, e que a questão, em última instância, não é
uma sociedade de igualdade racial, mas é uma sociedade desracializada.
Evidentemente, que enquanto elemento táctico nós vamos reivindicar
elementos da positividade do negro na luta anti-racista. Só que isso não
significa que a gente abra mão do horizonte último de desracialização;
da mesma forma que o objectivo de acabar com a classe trabalhadora
enquanto classe, no socialismo, em que todos serão trabalhadores, não
implica que, nas lutas imediatas, no capitalismo, a gente não organize
sindicatos para melhorar os salários:  apesar disso reproduzir o
assalariamento. Como na luta de classes, no caso do racismo acontece o
mesmo.Usamos os elementos de positivação de ser negro, frente à
inferiorização do ser negro, que são intrínsecos à ideologia racista.
Mas o horizonte último é a desracialização da sociedade. Frantz Fanon
estava correctíssimo, fazer com que o signo raça deixe de ser um
marcador e um estruturador de relações sociais.   

*O capitalismo vive em permanente crise e ela parece, cada vez, mais
aguda. Mas por que é que parece mais possível uma catástrofe natural ou
a invasão de extraterrestres, para usar uma imagem de Fredric Jamenson,
do que a simples superação do capitalismo?*

Vivemos uma época contra-revolucionária da qual não nos libertamos
totalmente. A queda da União Soviética e a derrota do socialismo foi
muito grande. E há um processo de reconstrução do movimento
revolucionário. Essa reconstrução é muito tímida, está mais avançada
nuns países que em outros. Há ainda uma busca de horizontes
revolucionários que não estão claros. Há muitos debates sobre
pós-marxismo, sobre socialismo revolucionário no século XXI, sobre
populismo de esquerda, debates que não têm consequências práticas, mas
ainda vamos ter um caminho muito longo para que o marxismo-leninismo
renovado, com todos os novos problemas do século XXI, consiga dar
respostas aos desejos das massas. Ainda vai demorar muito a construir um
movimento revolucionário mundial e conseguir colocar na ordem do dia,
como já esteve, o fim do capitalismo.

*Não pode haver necessidade de uma adequação teórica aos novos tempos e
uma necessidade de identificar o que será hoje um sujeito revolucionário
para a transformação, e o que é hoje essa «classe
operária» revolucionária e ainda como criar um movimento revolucionário
a partir desse sujeito?*

Acho que sim, mas a resposta para isso não está em abandonar o
marxismo-leninismo, mas em renovar a teoria assimilando novos problemas,
acompanhando as transformações do sistema capitalista. Vou dar um
exemplo, há um processo claro no Ocidente de desindustrialização com a
deslocação de várias indústrias para a Ásia, com a recomposição da
economia do mundo em que a China é a fábrica do planeta. Isso faz com
que cresça, no chamado Ocidente, o trabalho informal e o assalariamento
nos sectores do comércio e serviços, uma mudança no perfil da classe
trabalhadora. Hoje faz muito mais sentido falar de assalariados urbanos
do que falar em classe operária, no sentido fordista. Isso é um problema
do ponto de vista organizativo e em relação às novas reivindicações. A
classe trabalhadora brasileira é maioritariamente feminina, mesmo a que
tem emprego formal; a classe trabalhadora informal para além de ser
maioritariamente feminina é muito negra. Então, a figura da mulher negra
e mãe solteira é muito presente no exército industrial de reserva.

*A ideia de classe operária estava ligada à produção de mais-valia, isso
só era possível em trabalhos que criassem valor. O marxismo excluía
desse quadro a distribuição, os serviços e o comércio. Hoje, ao
considerar-se que na nova classe trabalhadora estão, por exemplo, os
distribuidores da Uber Eats, não há uma mudança na teoria valor-trabalho?*

Não creio que haja uma mudança teórica, mas uma mudança nas formas de
exploração. Quando Marx escreveu o livro I de /O Capital/, a maioria da
população era explorada via colonialismo; o trabalho assalariado, como
forma dominante de exploração, é da segunda metade do século XX. Quando
a Internacional Comunista é criada, a maioria da população era
colonizada e vivia em formas de semi-escravidão. A teoria do
valor-trabalho e do fulcro do capitalismo com a exploração estava
valendo, agora nós temos outras transformações, só que o essencial da
coisa continua: a propriedade privada dos meios de produção, a
existência de um contingente gigantesco da população que não tem mais do
que a sua força de trabalho para vender e a apropriação privada da
riqueza socialmente criada. A partir daqui vamos pensar em novas
tácticas e formas de organização e comunicação para organizar os
explorados e oprimidos, mas eles continuam explorados e oprimidos. O
núcleo da questão continua a ser explicado pela teoria marxista.

*Num filme muito conhecido, /Matrix/, a humanidade estava presa numa
ilusão gerada por um programa computorizado e só era possível combater
essa ilusão desconectando-se dele. É possível fazer luta revolucionária
no quadro do capitalismo de vigilância e das tecnologias de comunicação
e redes sociais?*

Totalmente, mas é preciso uma política leninista séria. Hoje, no Brasil,
é mais fácil arrecadar dinheiro, do que era no tempo da ditadura
militar. Também é muito mais fácil a vigilância, mas escapar dela exige
um nível de planeamento e de organização e estrutura... Inclusive uma
organização revolucionária que se preze tem de ter um departamento
interno de /hackers/ e segurança da informação. Tem de aprender a
actuar, fazer guerrilha virtual, uma área que é muito dominada pelos
anarquistas, os cyber-punks, e os marxistas-leninistas estão a dormir
nessa área. Há algumas experiências existentes interessantes mas é
necessário voltar a ter a ideia leninista de uma política planeada e
organizada. O espontaneísmo, numa altura que se tem as maiores
capacidades de vigilância, é facilmente derrotado, aliás sempre o foi.

*Usa as redes para fazer política, mas foi uma acção espontânea. O PCB
nada teve a ver com isso.*

(Risos) Eu acho errado, isso devia ter sido discutido politica e
internamente. Acho que até partidos leninistas precisam de mais
leninismo. Há um conservadorismo muito grande. É muito difícil debater
uma política /hacker/ com qualquer comunista. Usou o termo de
«capitalismo de vigilância». Conheço várias pessoas que o usam, acho
interessante o debate, mas colocando a pergunta de Lénine, eu quero
saber é «o que fazer?» E aí não se vê uma reacção prática concreta.
Pode-se dizer que o capitalismo tem a maior capacidade de vigilância da
história, é verdade. Mas cadê o nosso sistema de comunicação
criptografado que não passe pelo Google? Qual é o nosso recrutamento
direccionado para pessoas das Tecnologias de Informação para que
possamos fazer uma guerrilha que impeça essa vigilância? Isso é um
problema, há um certo tradicionalismo, muito forte, que não percebe que
a mudança das relações de produção capitalistas e nas formas de
dominação exigem alterações tácticas, de organização e comunicativa. Do
mesmo jeito que Engels, no famoso prefácio a /As Lutas de Classes em
França/, defendeu que a táctica de barricadas já não era eficaz com o
desenvolvimento da ciência militar, e que era preciso outras formas de
acção, é preciso hoje encontrar essas novas formas. É difícil? É. Temos
de ter uma criatividade política sem sair do marxismo-leninismo, é esse
o 'x' da questão, sem andar com teorias eclécticas da moda.

In
ABRIL ABRIL
https://www.abrilabril.pt/internacional/jones-manoel-uma-organizacao-revolucionaria-tem-de-ter-um-departamento-de-hackers
15/6/2021

domingo, 13 de junho de 2021

Aposta do Brasil no agronegócio é um desastre econômico e ambiental, diz Ladislau Dowbor

 

   
Em entrevista ao programa Ecologizando 247, o economista, professor e
escritor Ladislau Dowbor discorre sobre a economia brasileira, sua
relação com o meio ambiente e o impacto do agronegócio na
descapitalização do país. Assista edit


*Por Victor Castanho


– * Em entrevista ao programa *Ecologizando 247* da
_*TV 247*_ <https://www.youtube.com/channel/UCRuy5PigeeBuecKnwqhM4yg> no
último domingo (06/06), o economista Ladislau Dowbor, professor titular
de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
consultor de diversas agências das Nações Unidas, enfrentou com coragem
um problema central da economia brasileira: a sua dependência em relação
ao agronegócio voltado para a exportação nos moldes atuais. “A
orientação do Brasil à agroexportação é um desastre ambiental, que não
rende nada para o País e entrega a política para o interesse global de
multinacionais de commodities”, diz o economista.

 

*Circuito do agronegócio e interesses de grandes empresas*

O também professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo aponta que o agronegócio atualmente depende de um circuito
insustentável que se perpetua nas bordas da Amazônia. O professor
detalha o passo-a-passo:

 1. “Inicialmente o garimpo se instaura em um local e promove a
    desagregação do sistema legal abrindo as portas para o
    desmatamento”, diz Ladislau. Nessa etapa, o professor afirma que a
    grilagem e o garimpo forçam a expansão ilegal dentro de áreas
    protegidas.
 2. A segunda etapa consiste na retirada de madeira e queimada da
    floresta: “Depois da extração ilegal da madeira, realiza-se uma
    queimada para que as cinzas sejam incorporadas ao solo, permitindo
    algumas safras muito boas de soja”, diz Ladislau. “Isso interessa
    aos grupos do agro e da comercialização da commodity de grãos
    internacional porque é um processo barato mas que esteriliza o solo
    pois se tem erosão hídrica, erosão eólica e erosão química e a
    formação dos solos amazônicos é frágil”, afirma Ladislau.
 3. Após as colheitas, recomeça-se o ciclo com o garimpo e “vai-se
    desmatando e queimando mais e mais”, diz o economista.

Os danos ambientais são claros e o crescimento do PIB é ínfimo. Por quê?
“No Brasil existe a _lei Kandir,_
<https://www.brasil247.com/blog/lei-kandir-revogar-em-nome-do-pacto-federativo-e-da-industria-nacional>
[que faz com que] a agroexportação não gere impostos”, responde o
professor. Ainda acrescenta: “Você precisa de 200 hectares de soja para
gerar um emprego. Ou seja, geram-se pouquíssimos empregos. Porém, são
gerados desastres ambientais, tanto pelo desmatamento quanto pela
contaminação por agrotóxicos”. Além disso, essa ênfase na primarização
da economia previne um projeto de industrialização que poderia ocorrer
no próprio agronegócio.

O professor aponta os maiores beneficiados por esse processo: “São 16
grupos que controlam no mundo o sistema de comercialização de
commodities”. Entre eles está o grupo BlackRock que vem investindo
fortemente no Brasil nos últimos anos. “Os ativos [desse grupo]
totalizam 8,7 trilhões de dólares, segundo dados de 2021. Isso é 5 vezes
o PIB do Brasil em uma empresa!”, aponta Ladislau.

Nesse contexto de exploração insustentável, o economista, que já
orientou setores da ONU, afirma: “Em termos propriamente econômicos, o
que a gente está fazendo é uma descapitalização”.

 

*Descapitalização do Brasil e os moldes atuais do agronegócio*
**“Quando perdemos, só nas regiões do semiárido, 73 mil quilômetros
quadrados de solo por ano, o está se perdendo? O capital. Estamos
reduzindo nossa capacidade de produção”, cauciona. Ao tratar da economia
como subsistema de um todo ecológico, o economista demonstra que é
impensável falar do campo econômico sem levar em conta a capacidade do
meio ambiente de recuperação. Como exemplo cita a sobrepesca: “quando
liquidamos a vida nos mares (os recursos haliêuticos) pescando mais do
que a capacidade de reprodução das espécies, estamos descapitalizando,
deixando de produzir no futuro”. Se continuarmos nesse ritmo, o
professor afirma que estaremos “comendo nosso futuro”. O economista cita
o livro _/Killing the Host: how financial parasites and debt destroy the
global economy/_
<https://dowbor.org/2017/04/hudson-michael-killing-the-host-how-financial-parasites-and-debt-destroy-the-global-economy-islet-baskerville-2015.html>
de Michael Hudson e traça um paralelo com a situação ambiental do País.
Embora o livro trate sobretudo da financeirização da economia, a ideia
the “killing the host”, ou seja, de morte do hospedeiro através de sua
exploração insustentável, exemplifica o processo insustentável do
agronegócio: estamos matando o solo, nossa maior fonte de capital
tentando extrair seus recursos.Segundo um _estudo_
<https://science.sciencemag.org/content/267/5201/1117> publicado no
periódico científico *Science* por pesquisadores da Universidade de
Cornell, cerca de 12 milhões de hectares são destruídos e abandonados
anualmente por causa de práticas agrícolas insustentáveis. A
esterilização do solo em escala frenética previne o crescimento de
lavouras, florestas e outros sistemas bióticos e descapitaliza o
território. Ainda, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a
Alimentação e a Agricultura, a produção per capita de grãos, que é
responsável pela alimentação de 80% do mundo, vem diminuindo desde 1984
devido à erosão insustentável do solo e, segundo o livro _/Land
Degradation/_
<https://www.cambridge.org/br/academic/subjects/life-sciences/ecology-and-conservation/land-degradation-development-and-breakdown-terrestrial-environments?format=PB&isbn=9780521466158>
de Christopher J. Barrow, só na América do Sul, entre 30 e 40 toneladas
de solo por hectare são erodidas por ano. Ladislau denuncia esse
processo e afirma: “isso aqui está indo para o brejo. É uma catástrofe
para os nossos filhos e nossos netos”.

*“A agroexportação em si não é ruim”*

Apesar das duras críticas ao atual /modus operandi/ do agronegócio, o
economista sustenta: “A agroexportação em si não é ruim”. “[No mundo],
estamos saindo da era da agroindústria nos moldes da Revolução Verde e
entrando na era da agricultura de precisão que leva em conta os impactos
sobre a água, os impactos ambientais e coisa do gênero”, acrescenta o
professor. A _Revolução Verde_
<https://www.brasil247.com/blog/a-revolucao-verde-ia-acabar-com-a-fome-no-mundo-mas>
a qual o professor se refere é o conjunto de inovações científicas dos
anos 1960 que permitiram o aumento na produtividade agrícola através do
uso intensivo de produtos químicos, modificação genética de sementes e
massificação de lavouras. Embora tenha permitido a diminuição do preço
de muitos alimentos, esse modelo causa uma exacerbada degradação
ambiental e desgasta exageradamente recursos hídricos.

“Os agricultores estão buscando outros rumos. Vale a pena refletir sobre
essa discussão que está se dando no planeta a respeito dos sistemas de
produção” diz Ladislau. Otimista, ainda diz: “Há, nesse setor, a
consciência de que nós estamos destruindo a principal base da economia”.

Ladislau pontua a alternativa para o circuito insustentável: “Uma coisa
é você produzir soja e exportar soja. Agora outra coisa é você produzir
soja [e] internalizar, substituindo importações, todos os insumos da
produção da soja para que sejam produzidos aqui”. O professor enxerga a
agroindústria ecológica como o futuro econômico desse setor: “Ao invés
de se exportar soja, podemos exportar óleo de soja, farelo de soja,
enfim, produtos derivados desse bem primário. É uma forma de nos
industrializarmos”.

O professor ainda cita _a lei Kandir_
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_Kandir> e demonstra que, embora
vários países se interessem por nossos grãos, “esse dinheiro não volta
para desenvolver o país, porque se transforma em lucros financeiros que
se podem transformar em mais desmatamento da Amazônia revestindo esse
sistema admnistrativo”.  Dando nome aos bois, o professor diz que “são
16 empresas grupos que controlam no mundo o sistema de comercialização
de commodities” e aponta a BlackRock como um desses. “Os ativos [desse
grupo] totalizam 8,7 trilhões de dólares, dados de 2021. Isso é 5 vezes
o PIB do Brasil em uma empresa”, diz Ladislau.

In
BRASIL 247
https://www.brasil247.com/meioambiente/ladislau-dowbor-priorizar-agroexportacao-como-se-faz-no-brasil-e-nos-entregar-ao-interesse-de-multinacionais-de-commodities
11/6/2021

sábado, 12 de junho de 2021

‘Nossa esquerda é liberal’, diz Alysson Mascaro ***

 


Alysson Mascaro

Filósofo e jurista critica ausência de uma estratégia de poder e
abandono da perspectiva socialista edit




No programa /20 MINUTOS ENTREVISTAS/ desta segunda-feira (07/06), o
jornalista Breno Altman entrevistou Alysson Mascaro, jurista, filósofo e
professor de Direito da Universidade de São Paulo sobre socialismo e a
luta dos partidos de esquerda no Brasil.

Na opinião de Mascaro, “temos uma esquerda liberal que defende a ordem
burguesa, de forma que está desconectada do marxismo”. Ele defendeu que
a esquerda, ao se preocupar demais com eleições, se dissociou da luta
real, perdendo as perspectivas de transformação efetiva da sociedade.

“Se o sistema me deu espaço, eu não me rebelo contra ele. Todos estamos
atravessados pela ordem do capital, mas existem aqueles que querem
mantê-la e a esquerda é assim. Louva a ordem às instituições, àquilo que
chama de democracia, ao republicanismo”, criticou.

Ele não rejeitou, contudo, a necessidade de eleições, pois, no caso de
vitória progressista, “servem para mudar objetivamente a vida de uma
pessoa que vive em condições horríveis”. Por outro lado, ponderou: “Com
eleição, eu sustento uma política de transformação de mundo? Não. Bato
nas estruturas, sei onde quero chegar? Não. Tudo que se ganha em
eleições, quando é eleito alguém de direita, se perde. Não deixo de
reconhecer o impacto das eleições, a questão é que não é por essas
formas que se sai da sociabilidade capitalista”, argumentou o professor.

Ele explicou que a democracia é um mecanismo de manutenção do Estado
que, por sua vez, é um mecanismo de manutenção do capital. Sem Estado,
não haveria, portanto, o capital, pois o sistema precisa do Estado para
garantir sua existência.

Nesse sentido, não adiantaria, por exemplo, convocar uma Assembleia
Constituinte no caso de eleger um governo progressista. “O Direito não
salva o mundo. Não é uma Constituição burguesa contra outra não
burguesa. Se há Estado, é um Estado do capital”, reforçou.


    Retomando as características revolucionárias

Para o professor, eleições podem servir, porém, para mexer com as bases
do Estado capitalista, “reestatizando o que foi privatizado,
revitalizando as Forças Armadas a favor da população e com projeto de
poder, reformando a educação”, por exemplo. No entanto, “como os
governos de esquerda só dão força para o capital, não chegamos a isso”.

Mascaro refletiu, então, sobre os elementos necessários para que a
esquerda recupere suas características revolucionárias, deixando de ser
liberal. Segundo ele, o primeiro passo seria entender, justamente, que o
poder não está nas instituições legais e que as pessoas não são todas
iguais perante as leis que regem a sociedade. "A ordem é do capital.
Portanto, é preciso superar o capital. Só o marxismo enxerga isso, então
precisamos voltar a nos aproximar dessa lógica", explanou.

Enxergando isso, a esquerda poderia começar a fazer seu trabalho
ideológico de maneira correta, “porque se eu não identifico e falo que o
problema é o capitalismo, eu nunca vou solucionar o capitalismo”. Mas
falar de socialismo, de acordo com Mascaro, “é a coisa que mais dói nas
pessoas”.

O professor citou o exemplo da Venezuela onde Hugo Chávez, ao dizer que
o capitalismo era o problema e o socialismo era a solução, gerou uma
energia revolucionária “impressionante”: “O pobre começou a ter a
dimensão de que a superação da condição dele passa por uma coisa que é o
socialismo, mesmo que ele não soubesse o que era socialismo naquele
momento”.

“Mas a esquerda não entende isso, aí tem impeachment, tem golpe… Lula
nunca vai dizer que foi preso por causa do capitalismo, então vai levar
outro golpe”, ressaltou.


    Centros socialistas

Mascaro propôs, como forma de aproximar a população do marxismo, a
criação de “centros socialistas”.

“A convivência das pessoas não se faz mais pelo ambiente de trabalho, as
pessoas estão em home office, em locais com equipes pequenas. O peso dos
sindicatos na abertura da consciência das pessoas ficou menor. As
pessoas se orientam pelo celular, redes sociais e seus núcleos de
sociabilidade imediata, família, vizinhança, bairro e igreja. Então como
podemos abrir um espaço de luta ideológica?”, contextualizou o professor.

Para ele, a resposta são os centros socialistas, pequenos espaços
comerciais ou culturais onde se fale de Marx, Engels, Rosa Luxemburgo,
entre outros.

“Vão falar errado, não vão ler /O Capital/, mas não é isso que importa,
não quero que formem cientistas. É pra dar impulso às pessoas, para que
saiam dizendo que precisam se mobilizar e mobilizar os seus por uma luta
transformadora. Para que vejam que o comunismo, diferentemente do que
diz a igreja, não é o demônio”, disse Mascaro.

In
BRASIL 247
https://www.brasil247.com/brasil/nossa-esquerda-e-liberal-diz-alysson-mascaro
11/6/2021


***
o campo de trabalho ficou irrelevante?
Em tudo por tudo, muito improvável.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

As balas de Washington: Uma história dos golpes e assassinatos da CIA

 


– Resenha do livro de Vijay Prashad, com prefácio de Evo Morales

por Jeremy Kuzmarov [*]

'Washington Bullets'Durante a audiência de confirmação da sua nomeação em fevereiro de 2020, o mais recente diretor da CIA, William J. Burns, continuou a longa tradição da CIA de ameaçar a Rússia e a China juntamente com a Coreia do Norte, disse também que o Irão não deveria ter permissão para obter uma arma nuclear.

O novo livro de Vijay Prashad, Washington Bullets: A History of the CIA, Coups, and Assassinations , (New York, Monthly Review Press, 2020) detalha como a invenção de ameaças do estrangeiro tem sido historicamente usada pela CIA para travar guerras contra o Terceiro Mundo, a fim de aumentar o domínio das transnacionais dos EUA. No prefácio, Evo Morales Ayma, ex-presidente da Bolívia que foi deposto por um golpe apoiado pelos EUA em 2019, escreve que o livro de Prashad é sobre "balas que assassinaram processos democráticos, que assassinaram revoluções e que assassinaram esperanças."

Vijay Prashad é um distinto analista político que escreveu importantes estudos sobre as intervenções imperialistas, as transnacionais e movimentos políticos do Terceiro Mundo. O seu último livro sintetiza a riqueza dos seus conhecimentos e inclui revelações pessoais de ex-agentes da CIA, como o falecido Charles Cogan, chefe do Directorate of Operations para o Próximo Oriente e Sul da Ásia (1979-1984), que disse a Prashad que no Afeganistão a CIA tinha desde o início "financiado os piores parceiros, muito antes da revolução iraniana e muito antes da invasão soviética".

Jacobo Arbenz.Washington's Bullets inicia-se na Guatemala com o golpe de 1954 que derrubou, Jacob Arbenz, cuja moderada reforma agrária ameaçava os interesses da United Fruit Company. A sociedade de advogados do secretário de Estado John Foster Dulles, Sullivan & Cromwell, havia representado a United Fruit, e tanto Dulles como seu irmão Allen, diretor da CIA entre 1953 e 1961, eram seus grandes acionistas.

O ex-diretor da CIA Walter Bedell Smith tornou-se presidente da United Fruit após a remoção de Arbenz e a secretária pessoal do presidente Dwight Eisenhower, Ann Whitman, era esposa do diretor de publicidade da United Fruit, Edmund Whitman. Depois do golpe, o sucessor de Arbenz, Castillo Armas, afirmou que "se for necessário transformar o país num cemitério para pacificá-lo, não hesitarei em fazê-lo".

A CIA ajudou no banho de sangue fornecendo a Castillo listas de comunistas e, como presente, o seu manual de assassinatos . Este manual foi posteriormente aplicado em operações dirigidas contra nacionalistas do Terceiro Mundo, como Patrice Lumumba do Congo (1961), Mehdi Ben Barka do Marrocos (1965), Che Guevara (1967) e Thomas Sankara do Burkina Faso (1987).

'.

Thomas Sankara.Sankara foi morto numa conspiração executada em estreita coordenação entre um agente da CIA da embaixada dos Estados Unidos em Burkina Faso e o serviço secreto francês, SDECE.

De acordo com Prashad, embora "muitas das balas dos assassinos tenham sido disparadas por pessoas que tinham seus próprios interesses paroquiais, rivalidades mesquinhas e ganhos mesquinhos, na maioria das vezes, foram 'balas de Washington'". O seu principal objetivo, diz, era "conter a onda que varreu o mundo a partir da Revolução de Outubro de 1917 e as muitas ondas que se desencadearam para formar o movimento anticolonialista".

Prashad, como indicam estes comentários, enraíza os crimes da CIA na história mais ampla do colonialismo e na hostilidade das elites capitalistas mundiais contra o aumento de poder da classe trabalhadora gerado pela revolução russa. O imperialismo, ele lembra-nos, é a tentativa de "subordinar as pessoas para maximizar o roubo de recursos, trabalho e riqueza". Os alvos das balas de Washington foram aqueles que, como Sankara e muitos outros, tentaram afirmar a soberania económica de sua nação.

O padrão de comportamento da CIA foi estabelecido logo após a Segunda Guerra Mundial, apoiando na Europa fações políticas que haviam colaborado com os nazis contra os comunistas que lideravam a resistência ao nazismo. O trabalho da CIA, como Prashad escreve, ajudou a trazer de volta o cadáver da política reacionária para o bloco europeu.

No Japão, isso significou a criação de um novo partido (Partido Liberal Democrático, LDP) para derrotar os socialistas, absorvendo velhos fascistas (Ichiro Hatoyama e Nobusuke Kishi) e desenvolvendo laços duradouros com as grandes empresas e o crime organizado (Yoshio Kodama). Nobusuke Kishi, um criminoso de guerra de classe A, tornou-se mais tarde primeiro-ministro do Japão graças ao apoio dos EUA.

Em 1953, a CIA conseguiu derrubar o primeiro-ministro do Irão, eleito democraticamente, Mohammed Mossadegh, que procedera à nacionalização da indústria petrolífera iraniana. De 1960 a 1965, a agência tentou assassinar o líder revolucionário cubano Fidel Castro pelo menos oito vezes, enviando mafiosos com pílulas de veneno, canetas de veneno, um charuto envenenado, um traje de mergulho com tuberculose, toxina botulínica e outros agentes bacterianos mortais. No total, foram feitas 638 tentativas de assassinato – todas falharam.

Ngo Dinh Diem, presidente do Vietname do Sul, era um favorito dos EUA. A CIA também orquestrou um golpe no Vietname do Sul em 1963 contra os irmãos Diem quando eles tentaram uma aproximação à Frente de Libertação Nacional [1] .

Um outro golpe foi levado a cabo na Indonésia contra o governo socialista de Achmed Sukarno, desencadeando em 1965 um banho de sangue anticomunista. O general Suharto, foi escolhido para liderar o golpe de 1965 apoiado pela CIA. Ele ordenou massacres contra o Partido Comunista da Indonésia (PKI) que resultou em cerca de um milhão de mortos.

O golpe indonésio de 1965 – como os precedentes na Guatemala e no Irão e o seguinte no Chile – seguiu um modus operandi envolvendo nove etapas diferentes:

1. Criar um grupo de influência para pressionar a opinião pública
2. Designar o homem certo no terreno
3. Certificar-se de que os generais estão preparados
4. Provocar uma crise económica
5. Garantir o isolamento diplomático
6. Organizar grandes protestos de rua
7. Dar o sinal verde
8. Assassinato
9. Negar

Aperfeiçoado e refinado ao longo dos anos, quase todas estas etapas foram aplicadas mais recentemente no golpe Maidan de 2014 na Ucrânia e no golpe de direita contra Evo Morales na Bolívia em 2019.

Com respeito à economia, Prashad descobriu um estudo da CIA do início dos anos 1950 sobre como prejudicar a indústria cafeeira da Guatemala a fim de minar o governo Arbenz. Este estudo foi o precursor da campanha mais conhecida do governo Nixon de "fazer sofrer a economia do Chile" depois de os chilenos terem tido a ousadia de eleger um socialista, Salvador Allende, que nacionalizou a indústria do cobre do Chile (indústria antes controlada por duas empresas americanas, Kennecott e Anaconda, que fizeram lóbi pelo golpe).

O chefe da estação da CIA na época do golpe chileno de 1973, que levou o general fascista Augusto Pinochet ao poder, era Henry Hecksher. Ele havia trabalhado clandestinamente como comprador de café na Guatemala na época do golpe contra Arbenz e subornou o coronel Hernán Monzon Aguirre, que se tornou o líder da junta que substituiu Arbenz.

Depois de ser promovido, Hecksher liderou as operações de subversão da CIA no Laos e na Indonésia no final dos anos 1950 e início dos 1960, antes de, no México, executar um projeto contra a revolução cubana. Hecksher era o equivalente a figuras sinistras como Lincoln Gordon, um anticomunista implacável que ajudou a orquestrar o golpe de 1964 no Brasil; Marshall Green, que ajudou a desencadear o golpe de 1965 na Indonésia; o agente da CIA Kermit Roosevelt ou o funcionário do Departamento de Estado Loy Henderson, que ajudaram a realizar o golpe contra Mossadegh.

As embaixadas dos EUA desempenharam um papel tão direto nos golpes em tantos países que durante a Guerra Fria era uma piada popular: "Por que nunca há golpes nos Estados Unidos? Porque lá não há embaixadas dos EUA".

Um truque destas ações era o recrutamento de ativistas sindicais que pudessem expurgar comunistas e organizar greves contra governos de esquerda que ajudassem a facilitar o seu fim [2] . "Tudo era aceitável", escreve Prashad, "para minar a luta de classe, tanto dentro da Europa quanto na libertação nacional de Estados".

A atenção de Prashad às divisões de classe apresenta um antídoto para as habituais histórias de liberais sobre a CIA – como o livro Legacy of Ashes de Tim Weiner – que apresenta boas informações, mas não consegue analisar o que motivou a atividade desonesta da CIA.

Prashad escreve que "seja na Guatemala ou na Indonésia, ou pelo Programa Phoenix de 1967 (ou Chien dich Phung Hong) no Vietname do Sul, o governo dos EUA e seus aliados incitaram os oligarcas locais e seus amigos das forças armadas a dizimar completamente a esquerda". O Programa Phoenix foi um desastre no Vietname como seria no Afeganistão – e o New York Times deveria saber isso.

Na América do Sul, a Operação Condor, dirigida pela CIA, matou cerca de 100 mil pessoas e prendeu cerca de meio milhão.

A CIA aliou-se com ex-nazis torcionários como Klaus Barbie, um agente altamente graduado dos serviços de segurança do General Hugo Banzer, presidente da Bolivia de 1971 a 1978, e figura chave da operação Condor. Muitas das vítimas da operação Condor eram defensores da teologia da libertação, que procurava aplicar o evangelho cristão às causas de justiça social.

A CIA ajudou também a liquidar o progresso em África apoiando atos como o golpe de 1971 no Sudão pelo coronel Gafar Nimiery, que depôs o major comunista Hashem al-Atta e resultou na execução do fundador do Partido Comunista do Sudão, Abdel Khaliq Mahjub.

No Médio Oriente, a cruzada da CIA contra o comunismo resultou numa preferência por fundamentalistas islâmicos como a família real saudita e o general paquistanês Zi-al-Huq (1978-1988), que mandou enforcar o seu antecessor Zulfaqir Ali Bhutto e armou violentos fundamentalistas jihadistas para no Afeganistão continuarem a guerra santa contra a União Soviética.

Quando um projeto do Terceiro Mundo surgiu na década de 1970 para promover a ideia de uma Nova Ordem Económica Internacional (NOEI) baseada no princípio do nacionalismo económico, Washington trabalhou para minar o seu avanço por meio da deslegitimação da Assembleia Geral da ONU, que havia apoiado a NOEI em 1974. Foi neste período que os EUA começaram a pressionar o FMI para vincular empréstimos a programas de ajuste estrutural que eliminavam serviços do Estado e eram benéficos para as empresas multinacionais.

No século XXI, Washington usou descaradamente sanções para tentar minar governos desafiadores. Também ajudou a fabricar escândalos de corrupção, como os que derrubaram os políticos progressistas Lula e Dilma Rousseff no Brasil, cujas políticas tiraram quase 30 milhões de brasileiros da pobreza.

Otto René Castillo.Prashad termina seu livro com uma citação de Otto René Castillo (1936-1967), poeta que levou os seus cadernos para as selvas da Guatemala na década de 1960 para lutar contra a ditadura imposta pelos EUA. Castillo escreveu:

"A coisa mais linda
Para aqueles que lutaram a vida inteira
É chegar ao fim e dizer
Acreditámos nas pessoas e na vida,
E a vida e as pessoas
Nunca nos dececionaram".
"Apolitical Intellectuals" de Otto Rene Castillo, poeta e ativista guatemalteco.

Estas palavras deviam perseguir todas as pessoas que trabalharam para a CIA; uma instituição do lado errado da humanidade desde a sua criação.

No cenário político cada vez mais autoritário de hoje, as críticas à CIA são poucas e raras. Muita gente que se considera de esquerda acredita na desinformação da CIA sobre a Rússia – especialmente quando Donald Trump foi acusado de ser um agente russo – e celebram um presidente, Barack Obama, que foi grande apoiante da CIA.

O presidente Obama selecionava com John O. Brennan da CIA, alvos a serem mortos em ataques de drones. Os dois são figuras reverenciadas em alguns círculos liberais (considerados de esquerda).

O livro de Prashad é neste sentido especialmente importante. Temos esperança, que provoque a emergência de um movimento, que há muito está a faltar, para abolir a CIA e suas ramificações como a National Endowment for Democracy (NED).

NT
[10] Ngo Dihn Dien : um criminoso utilizado por Washington. Foi afastado e morto no golpe de Estado militar fomentado pelos EUA quando pretendeu seguir uma política menos dependente.
[2] Recordemos a intenção de um dos impulsionadores da central sindical divisionista UGT: "quebrar a espinha à Intersindical" (CGTP).


[*] Editor executivo do Covert Action Magazine. É autor de quatro livros sobre a política externa dos EUA, incluindo Obama's Unending Wars (Clarity Press, 2019) e The Russians Are Coming, Again , with John Marciano (Monthly Review Press, 2018). Contacto: jkuzmarov2@gmail.com

O original encontra-se em covertactionmagazine.com/...


Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

In

RESISTIR.INFO

<i> As balas de Washington: Uma história dos golpes e assassinatos da CIA </i> (resistir.info) 

9/6/2021

 

segunda-feira, 7 de junho de 2021

2021: Año del final de la era del dólar.

 



*WIM DIERCKXSENS Y WALTER FORMENTO*

*La «perestroika» en EEUU*

*Introducción*

Todo demuestra que estamos en el año 2021 ante una crisis sistémica.
Crisis sistémicas hemos observado ya en la Antigüedad con la crisis y
caída del Imperio Romano, la vimos con la crisis y caída de la Unión
Soviética en 1989-91 y la estamos observando, por lo menos desde
septiembre del 2019, en los Estados Unidos.

Observamos también, que rara vez la gente percibe el borde del
acantilado e incluso el fondo del abismo, antes que éste se haya
“tragado” a un imperio por completo. Por ello tampoco se ve hoy que
Estados Unidos, en tanto imperio financiero -que se consolido como tal
en el periodo /1930-70 /–  se encuentra ya transitando su propia
¨Perestroika¨ o “Caída”, con la eminente crisis y fin del dólar como
moneda internacional de referencia.

Con la Gran Depresión del Siglo XXI se revela un momento particularmente
crítico del capitalismo. El capital financiero especulativo, basado en
trabajo improductivo, se impone hoy, más que nunca, sobre trabajo
productivo y puja por llegar a límites extremos. Nos encontramos en una
mega-burbuja especulativa en la bolsa de valores y todo hace prever que
el próximo colapso podría ser el último y, además, el cierre de este
periodo.

La pregunta central es: /¿el capital podrá revertir esta situación
imponiéndose una nueva forma (ej.: capital financiero global) para
retornar al ámbito productivo y poder seguir acumulando capital o, al
contrario seguirá buscando realizar ganancias sin fin a partir de la
redistribución y concentración de riqueza en cada vez menos
corporaciones financieras?/

Pero, si el escenario que se impone es el de “no poder regresar y
reconectarse al ámbito productivo”, entonces nos encontramos no solo
ante una crisis del modelo financiero neoliberal sino ante /la crisis
sistémica del capitalismo/ mismo.

En enero de 2021, fue claro el hecho que entramos en un nuevo momento de
la crisis sistémica[1] <#_ftn1> del capitalismo, cuyo inicio ya habíamos
caracterizado en marzo-abril del 2020. Después de cuatro años sin
guerras militares, hubo todos los tipos, formas y modos de
contradicciones internas entre las tres facciones de capital
financiero[2] <#_ftn2> en EEUU: la Globalista transnacional (la red de
bancos centrales y megabancos de inversiones integrados con el Banco
Central de los bancos centrales en Basilea, Suiza), la Continentalista
multinacional (bancos relacionados con el NAFTA) y el capital financiero
localista que se expresa en un nacionalismo oligárquico (representado
por Trump durante su administración 2016-2020).

Luego, en las elecciones de noviembre de 2020 logra imponerse Biden como
presidente (2020-2024), en una elección tan “opaca” y cuestionada por
muchos dentro y fuera del país, como “manipuladas”, etc. En 2016 la
elección de Hillary Clinton, como presidenta de EEUU, hubiera conducido
a una confrontación directa y casi segura con Rusia. La administración
Trump ha resultado expresarse en un período de cuatro años sin guerras
militares, lo cual ha debilitado al capital financiero unipolar
globalista y su brazo militar la OTAN, durante 2017-2020, en su
capacidad ofensiva. Este período sin verdaderas amenazas de guerra se
cerró al finalizar la administración Trump.

Con la administración Biden 2021-2024 /(que bien puede no terminar su
mandato por razones de “salud”) /como representante de los intereses
transnacionales globalistas, vuelve un /gobierno estadounidense/ que
tiene la necesidad y posibilidad de poner en riesgo al mundo al poder
darle, mediante su control de la OTAN, un carácter bélico a su política
exterior. Agudizado, además, por la situación de pérdida de capacidades
de maniobra /durante la administración Trump, durante la crisis del
Brexit en la UE y durante la crisis de Hong Kong/, en el terreno de la
guerra económico financiera y en el terreno de la política internacional
en el Consejo de Seguridad, tanto como en la Asamblea General de la ONU.

*El fin del dólar como moneda de intercambio internacional*

Han pasado escasas semanas desde la asunción de su administración en el
gobierno de Estados Unidos y Biden ya ha bombardeado Siria e Irak. Putin
 describió acertadamente esta amenaza en enero de 2021 en el Foro
Económico Mundial de Davos (virtual en esta oportunidad), al afirmar que
“existe la posibilidad de encontrar un colapso real en el desarrollo
mundial, plagado de una lucha de todos contra todos, con intentos de
resolver contradicciones urgentes mediante la búsqueda de enemigos
´internos y externos´, con la destrucción no solo de los valores
tradicionales (…) ´como la familia´ sino también las libertades básicas,
incluida la de elección y la privacidad”.

La respuesta de las fuerzas globalistas, que hoy conducen a los Estados
Unidos, al creciente éxito económico y político de China y los países de
la Nueva Ruta de la Seda, que en décadas recientes eran sus antiguas
colonias, es reorganizar a sus propios aliados “históricos”,
especialmente a los países de habla inglesa, pero ahora para poder
convertirse en una alianza comercial y militar global que pueda resistir
y oponerse al proyecto multipolar y obligar a todas las naciones no
alineadas, incluyendo a la Unión Europea, a tener que elegir entre
aliarse con Estados Unidos, ser conquistadas o destruidas. Los
principales «enemigos» /(los «Ellos»)/ son, principalmente, los mismos
países que se opusieron a Estados Unidos durante la Guerra Fría de
/1950-a-1999/, Rusia y China.

El método de conquista cada vez más utilizado por Estados Unidos es el
método que se utilizó por primera vez contra Irak a partir de 1991:
sanciones internacionales, seguidas de intentos de golpe de estado que,
si no
<http://content.time.com/time/nation/article/0,8599,6902,00.html> tienen éxito
<http://content.time.com/time/nation/article/0,8599,6902,00.html> , son
seguidos por bombardeos masivos y luego, una invasión militar directa,
con o sin la aprobación de la ONU. Más recientemente, este método
escalonado (sanciones, golpe fallido, luego invasión) se utilizó contra
Siria
<http://thesaker.is/americas-boots-on-the-ground-fighters-in-syria-are-kurds-and-al-qaeda/>.
Claro que Estados Unidos ya no “instrumenta” a sus propias tropas
militares, en su lugar, utiliza fuerzas contratadas (mercenarios) y que
aparecen con diferentes nombres, en Siria por ej.: /Isis, Estado
Islámico, Al Qaeda/, etc. Que son contratados en todo el mundo y pagados
por fondos que provienen del /“petróleo saudí”/. También se instrumenta
a kurdos <http://archive.is/4Qb6w> que han querido establecer su “propio
territorio o país” en lo que hoy es Irak, Siria y Turquía, para
establecer su propia nación en lo que fue el Kurdistán, pero en ese
“camino” pasan a estar “controlados” e “instrumentados” como base de
maniobras y choque por la OTAN, más directamente desde Washington y/o
Londres.

En este momento, Estados Unidos está asumiendo una posición defensiva,
forzando a todas las demás naciones a unirse a ellas (como nación
vasalla) o sino a “convertirse” en enemigo iniciando su destrucción,
como ya lo han intentado y/o hecho con Siria, Yemen, Palestina, Ucrania,
Venezuela, Bolivia, Irán, Irak, Libia, Afganistán, Colombia, Argentina,
Perú, Chile, etc. Ahora las excusas son “defensa nacional” (que también
fue la principal excusa de Hitler), “democracia” o “derechos humanos”.
En otras palabras: “Estados Unidos” como nación está tratando de no
caer, ser degradado y convertirse en un país de segunda clase en
términos de poder frente a los objetivos que tiene el poder
transnacional globalista.

Las transnacionales del complejo de Inteligencia Artificial que componen
las GAFAM (Google, Amazon, Facebook, Apple y Microsoft) con megabancos
detrás como Blackrock, HSBC, Citibank, etc. están detrás de esto.
Incluso la administración Biden está controlada por ellos,
particularmente /Kamala Harris, Pelosi, Clinton, Obama/ son del staff
político de esta fracción de poder del /Deep State o Estado Profundo/.
El planteo de fondo que opera en modo de “justificación o
fundamentación” es que /solo/ Estados Unidos es «indispensable»: todas
las demás naciones son «prescindibles». Claro que este discurso no
coincide con los intereses globalistas. Es relevante saber que Hitler
también se expresaba de esa manera con respecto a todas las demás
naciones. Así como la mayoría de las fracciones de poder en Alemania (y
otros) respaldaron ese supremacismo entonces /(1929-1950)/, la mayoría
de los estadounidenses lo apoyan hoy (Zuesse, 15 de mayo 2021).

Lo anterior nos lleva a una Nueva Era que se anuncia y que comenzó en la
práctica con la inauguración de la Nueva Ruta de Seda. Que coincide con
el momento del golpe de estado de la OTAN en Ucrania, llamado el
Maidan[3] <#_ftn3>, organizado por las fuerzas globalistas y la OTAN, su
brazo armado (Escobar 14 de mayo 2021). A partir de Maidan en Kiev en
2014, China está en condiciones de reevaluar como EEUU ha “utilizado” su
alianza, para poder operar en la Perestroika Soviética desde los
setentas, en tiempos de Mao Tse Tung, y ahora contra Rusia y en
proyección contra China. Pero no sólo reevaluar sino también de evaluar
la /proyección de las implicancias que/ tiene el Maidan sobre el
proyecto nacional en China.

En los mismos tiempos (2014) del golpe de estado contra Yanukovich y el
proyecto nacional en Ucrania, la flota estadounidense se lanza a
controlar las rutas comerciales de China por mar. En 2014, China no solo
anuncia la Nueva Ruta de la Seda y la nueva arquitectura financiera
multipolar de los BRICS, sino también es el momento cuando China
estrecha  relaciones con Rusia, año que probablemente será considerado
como el inicio real del siglo XXI.

El siglo XIX inicia a partir de la derrota de Napoleón en Waterloo en
1815. La batalla de Waterloo fue el último gran evento que marcó el
final del Imperio napoleónico y se restauró la monarquía francesa, a la
cual Napoleón había derrotado. Según Eric Hobsbawm, el tardío siglo
XX comenzó con el estallido de la Primera Guerra Mundial en 1914, la que
finalmente causó la caída o el hundimiento de los imperios alemán,
otomano, austrohúngaro y dio origen a la revolución bolchevique en Rusia.

¿Cómo llego a su fin la Unión Soviética? El país contando con un PIB de
menos de la mitad de EEUU, ya no podía sostener la carrera armamentista
y menos aún con el bajón de ingresos por petróleo en 1985. El Estado
Profundo de EEUU decidió en los años ochenta derrumbar el precio del
petróleo, con el objetivo estratégico de debilitar económicamente a
Rusia.  El precio del crudo, que había alcanzado en 1980 los 35 dólares
por barril bajó a 27 dólares en 1985, cayendo luego a 8 dólares el
barril en 1986, con lo que redujo a la mitad el presupuesto soviético.
La economía del país mostraba una tasa negativa de crecimiento económico
con un espiral hacia abajo. Mijaíl Gorbachov, un mes después de que
asume el gobierno inicia, el 23 de abril de 1985, la Perestroika.
También conocida como la reforma económica destinada a desarrollar la
economía civil y a reducir el gasto militar. El desarrollo de la
economía civil requería una mayor soberanía de los estados que
integraban la URSS. Al obtener mayor autonomía, una buena cantidad de
naciones se separaron de la URSS, y el proceso conllevó a la
desintegración oficial de la URSS en 1991, que simbólicamente fue
representada por la Caída del Muro de Berlín en 1989, que en realidad
fue el principio de la caída.

El bombardeo de Belgrado en marzo de 1999 durante 78 días despertó a
Rusia y ya era obvio para Putin como jefe de gobierno que la intención
final era bombardear Moscú hasta destruir toda capacidad y reducirla
también a la condición de Estado Vasallo. A fines de diciembre de 1999,
Yeltsin renunció y Putin se convirtió en presidente interino,
conservando el puesto de jefe de Gobierno. Al inaugurarse el siglo XXI,
Rusia comenzó no solo una fuerte remilitarización sino también un
acercamiento a China que se consolida en 2014. Pero era también China,
que había comprendido estratégicamente los objetivos de la
OTAN-Globalista, en el Maidán en Ucrania, quién también tomo la decisión
de consolidar una relación estratégica con la Rusia presidida por Putin.

Pekín observo que la OTAN había cerrado sus accesos marítimos y la
“caída” de Rusia cerraría sus accesos al mundo por tierra. Por ello
Pekín comprendió también que Rusia podría ser el próximo en ser
bombardeado. La creciente presencia de barcos de guerra estadounidenses
en aguas chinas fueron argumentos contundentes para comprender que en
tal caso la OTAN, y los intereses unipolares globalitas, controlarían
todos los recursos naturales, razón suficiente estar juntos como sostén
del proyecto de la Nueva Ruta de la Seda.

La /Ruta de la Seda/ tendría como propósito el integrar el continente de
Eurasia para garantizar la obtención de recursos naturales por vía
terrestre (petróleo y gas natural en primer lugar con Rusia) y no
depender de la vía marítima en lo inmediato, controlada por buques de
guerra de EEUU. Con Rusia como principal productor de energía fósil,
China garantizaría el abastecimiento de su energía. Con la integración
progresiva de países a la Nueva Ruta de la Seda, China se aprovisionaría
no solo de recursos naturales para no solo lograr mayor soberanía, sino
incluso una posición estratégica para controlar Eurasia entera y poder
tener acceso al mundo. Pero éstos objetivos son solo posibles planteando
una concepción multipolar de las relaciones internacionales. Respetando,
integrando y potenciando a cada una de las naciones y regiones en un
todo /multipolar poliédrico, plurinacional y pluriversal./

La crisis provocada por la OTAN en Ucrania y la Crimea, deberían servir
también como una cortina de humo para obligar a la Unión Europea (UE) a
firmar el Tratado de Libre Comercio con EEUU e imponer a partir de esa
plataforma que rusos y chinos acepten, si o si el nuevo sistema
monetario global /“planteado”/ por la elite financiera globalista. Rusia
respondió muy hábilmente al golpe de Estado occidental en Ucrania,
tomando Crimea sin disparar un tiro y dejando a sus adversarios con los
serios problemas económicos y políticos de Ucrania. Con el referéndum en
Crimea, por vez primera un pueblo ex soviético decide libremente
reconocer la autoridad de Moscú. El regreso de Crimea a la Federación
Rusa y el voto masivo de la población a favor de ese paso han confirmado
el fracaso de los planes de Estados Unidos y su principal objetivo:
sacar a los rusos de Sebastopol y cerrarles, a la vez, la puerta al
Medio Oriente. Washington quedó en ridículo al ver que Bruselas no
adopto ninguna sanción económica significativa contra Moscú.
Presenciamos como la /élite financiera globalista de Wall
Street/Londres/Hong-Kong/ ha creado en /Ucrania su propio ´Waterloo´/.

En el siglo 21, China se transforma en el primer importador de petróleo
y Rusia como el mayor exportador de energía fósil. Rusia e Irán le
venden petróleo a China fuera del ámbito del dólar. A partir de 2014, el
control del precio del petróleo en particular y de la energía en
general, estaba cada vez más en manos de China y Rusia. China celebró
acuerdos “swap” /(contratos por fuera del dólar)/ con Rusia, Brasil, el
Reino Unido, Australia, Japón, Chile, los Emiratos Árabes Unidos, Corea
del Sur, y para finalizar, hasta con la Eurozona. De esa manera, Rusia y
China “impulsan” a la Eurozona a salir de la zona del dólar, que de
hacerlo estaría cayendo otro pilar occidental que aún lo sostenía. Estos
cambios anuncian ya el fin del petrodólar.

Los historiadores afirmarán que el siglo XXI se inició en el año 2014
con la cooperación entre ambos países y el anuncio de la integración de
Eurasia y la Nueva Ruta de la Seda. Significando el lanzamiento público
del proyecto multipolar en /Sudamérica-Latinoamérica*[4]* <#_ftn4>/, el
consecuente inicio del declive del imperialismo norteamericano y la
confrontación con el proyecto de imperio global ascendente. Por lo
tanto, podría considerarse que las fuerzas globalistas de la OTAN
cometieron un error estratégico al provocar el “golpe de Estado Global”
en Ucrania en 2014. Pero, tal vez, el mismo despliegue del proyecto
globalista unipolar ya no dejaba márgenes más que el de tener que lograr
una derrota estratégica sobre las capacidades nacionales de Rusia. Pues,
la derrota estratégica de Rusia también lo sería para la China
multipolar para el desarrollo de multipolarismo, observado en las
reuniones del BRICS[5] <#_ftn5>.

A partir de la crisis en Ucrania, Rusia y Alemania avanzan en construir
el gasoducto /Nordstream-2/ por el Mar Báltico. Evitando que el flujo de
gas sólo pueda llegar a Alemania y la UE, a través de Ucrania y Polonia.
Estados Unidos, particularmente los intereses globalistas en la OTAN,
implementan fuertes sanciones contra las compañías y países que
financian y/o construyeran el gasoducto, presionando sin mucho éxito a
la UE para que implemente sanciones contra Rusia. Sin embargo, en
realidad esta política no es sólo contra Rusia sino también contra la
propia UE, y Alemania en particular. Para destruir toda capacidad e
intereses para integrarse al proyecto multipolar en Eurasia. Es claro
que la Unión Europea pos Brexit ha fortalecido la decisión de
integrarse, por beneficios económicos, tecnológicos, de seguridad, etc.,
a China y a Rusia, al mundo multipolar y potenciarlo.

La Unión Europea post Brexit deja de nuevo solo al globalismo en EEUU y
en Gran Bretaña en 2021 con sus planes bélicos sobre Ucrania, al
entender que el continente podría ser de nuevo el escenario de una
guerra de gran envergadura con Rusia. Con esta decisión se aleja de EEUU
y se acerca aún más a Rusia. Putin a partir de la primera crisis de
Ucrania realizó una jugada acertada para acercar a la Unión Europea.
Solo la Rusia de Putin era capaz de frenar las oleadas de migraciones,
que todos los países europeos juntos no lograron: destruir el proyecto
de la OTAN de construir el “Califato” con tropas de mercenarios, a
partir de tomar y ocupar Siria, causando y organizando grandes oleadas
de migración de refugiados hacia la Unión Europea. Rusia al acabar en
buena medida con las fuerzas mercenarias de la OTAN en Siria, hizo
posible que el gobierno sirio de /Bashar al-Ásad/ controle, reduzca y
revierta notoriamente la oleada migratoria.

Son precisamente las sanciones de EEUU contra Rusia, las que han
acelerado al Multipolarismo en los años posteriores a 2014, hasta 2020.
En 2021, los globalistas /(el verdadero poder tras del trono de Biden)/
vuelven al gobierno y aparentemente no han aprendido la lección. Al
imponer en la presidencia a Biden, se despliega un nuevo intento de la
OTAN de provocar una guerra con Rusia, usando a /Ucrania y Polonia/ como
plataformas punto de apoyo. Provocaron al presidente de Ucrania a
iniciar una guerra contra las provincias del Este del país, del Dombás.
Rusia dejaba muy en claro que la administración Biden no /debería
“cruzar las líneas rojas” de Moscú/, ya que al hacerlo Rusia respondería
de manera desproporcional.

Más allá de la cacofonía desinformativa de las plataformas
comunicacionales occidentales, existían firmados desde 2014 los
“Acuerdos de Minsk”[6] <#_ftn6> entre EEUU y Rusia sobre tres aspectos
fundamentales que constituyen la línea roja:/1) la redacción de una
nueva constitución en Ucrania, que definirá los siguientes parámetros:
el idioma ruso será oficial junto al ucranio y las dos regiones
dispondrán de amplia autonomía; 2) la federación rusa protegerá a los
rusófilos de la parte oriental de Ucrania, y 3) la neutralidad de
Ucrania entre Estados Unidos y Rusia. /Fue el momento en que la
administración Biden buscaba el conflicto con China en torno a Taiwán, a
pesar que bien saben de la existencia internacionalmente aceptada de
´Una sola China´

Desde los inicios mismos del siglo XXI, Rusia y China ya habían
comenzado un proceso de desdolarización en su comercio internacional.
Con el golpe de Estado de la OTAN en Ucrania en 2014, Putin ve la
oportunidad y percibe a partir de la experiencia propia en tiempos de la
URSS, para “desencadenar” la Perestroika en Occidente ya en marcha. La
Organización de Países Exportadores de Petróleo más Rusia (OPEP+1)
acordaron en 2014 inundar el mercado de petróleo, provocando una caída
de los precios por varios años. El resultado fue la quiebra de muchas
empresas norteamericanas relacionadas con la extracción de /gas de
enquisto (no fósil), bajo control de las transnacionales globalistas
(ej.: Chevron) y al ex presidente Obama/. En setiembre de 2017, el
presidente Vladimir Putin dio instrucciones para que el dólar deje de
ser moneda de pago en todos los puertos del Rusia.

Para esquivar las sanciones norteamericanas por medio de bloqueos a las
transferencias bancarias vía el sistema SWIFT (bajo control de las
transnacionales globales) Rusia, en 2021, anuncia tener instalado su
propio sistema de intercambios bancarios por fuera del dólar y ofreció
el uso del mismo a otras naciones incluso a México, vecino de EEUU. Esta
hazaña junto al sistema chino de transferencia bancaria (que desarrolló
incluso antes que Rusia) constituirán un golpe letal para el dólar.  Los
rusos y chinos ya tienen una respuesta financiera propia y multipolar al
sistema SWIFT y lograr así una desdolarización cada vez más generalizada
del comercio internacional. El dólar como moneda de intercambio
universal ya es cosa del pasado.

*Fin del dólar como moneda internacional de reserva*

El mundo que China y Rusia, con los países de la Nueva Ruta de la Seda,
plantean inaugurar no es chino, sino multipolar. El sistema monetario
internacional estabilizado que los chinos plantean es un sistema
multi-monetario en el cual las diferentes monedas estarían vinculadas al
oro con el respaldo del petro-yuan-oro, y sin a priori excluir al dólar
ni a ninguna otra moneda. Los bancos centrales chino, indio y ruso, que
se encuentran en pleno proceso de desdolarización de sus reservas
internacionales, han apostado fuertemente por la compra de oro. El oro
físico opera como valor de refugio ante la inminente devaluación del
dólar como moneda internacional de reserva. Cuanto más descienda el
dólar más subirá el precio del oro, así como la mayoría de las materias
primas. Igualmente cuando el apetito mundial de comprar bonos del Tesoro
tiende a la baja, como es el caso en la actualidad,  tiende a subir el
precio del oro. La manipulación del precio de oro hacia la baja lo han
logrado los grandes bancos, mediante la oferta de promesas de oro en
papel. Pero en los últimos años no han podido detener el precio de oro
físico, ya que China tiene mayor control sobre el precio del oro que
Occidente.

El flujo masivo de oro a China, desde hace más de una década, evidencia
que las autoridades chinas están en un esfuerzo de internacionalizar su
divisa y no solo evitar depender del dólar sino reducir su capacidad de
manipulación a partir del mismo. La venta cada vez más masiva de los
bonos del Tesoro indica la pérdida de confianza en el dólar.  China,
India y Rusia más otros países de la Nueva Ruta de la Seda han acumulado
grandes cantidades de oro. La desconfianza en el dólar se ha manifestado
también a partir de las apuestas al Bitcoin y otras cripto-monedas no
controladas por algún banco central. Al no aceptar el uso de Bitcoin
como moneda de intercambio, China propinó un fuerte golpe a las
cripto-monedas. La confianza en el dólar ha llegado al punto que
expertos en temas financieros /(Kaiser Report)/ han anunciado que el fin
de la era del dólar /(como moneda hegemónica de reserva internacional)
/podría darse este mismo 2021 e incluso algunos se atreven poner fecha
para el mes de agosto.

La respuesta de la administración Biden al creciente éxito económico de
China y otras naciones, que eran antiguas colonias empobrecidas hasta
décadas recientes, es organizar a sus propios aliados. Especialmente los
países e islas de habla inglesa, para convertirlos en una alianza
comercial y militar global totalmente separada /(recordar los Five Eyes
y el Commonwealth*[7]* <#_ftn7>)/, que se oponga a China como líder del
proyecto multipolar y obligar a todas /las/ naciones /no/ alineadas,
incluyendo a la Unión Europea, a tener que elegir entre aliarse con
Estados Unidos o ser conquistadas por Estados Unidos y sus aliados. Es
«Nosotros» o «Ellos»,

El 10 de abril de 2021, Strategic Culture publicó un
editorial: «Ucrania, Taiwán… Agresión estadounidense de dos puntas hacia
Rusia y China»
<https://www.strategic-culture.org/news/2021/04/10/ukraine-taiwan-two-prong-us-aggression-toward-russia-china>[8]
<#_ftn8>. Y señalo que señaló: “/Biden está impulsando (…) una
acumulación militar cerca del territorio de China. Esta semana, el
cuarto destructor de misiles guiados de Estados Unidos  //pasó/
<https://news.usni.org/2021/04/07/destroyer-uss-john-mccain-transits-taiwan-strait-as-chinese-carrier-strike-group-drills-nearby>/  por
el Estrecho de Taiwán desde que Biden asumió el cargo. Ese mar angosto
separa la isla separatista del continente de China. Beijing tiene un
reclamo territorial soberano sobre Taiwán, que es reconocido por la gran
mayoría de las naciones, incluido hasta hace poco por Estados Unidos
bajo su política llamada «Una China/» (Zuesse, 18 de mayo). Ya vimos que
con Rusia no pudieron imponer condiciones. Biden se reunirá con Putin en
Suiza, dejando en claro su derrota en Ucrania.

Biden ahora está erosionando deliberadamente la política de ´Una China´
al enviar delegados a la isla en visitas oficiales, aumentando las
ventas de armas y al hacer declaraciones públicas provocativas que
Estados Unidos «defenderá» a Taiwán en caso de «una invasión» por las
fuerzas chinas. La segunda semana de mayo, un alto funcionario  advirtió
<https://www.reuters.com/article/us-southchinasea-taiwan-idUSKBN2BU1CV>  que
las fuerzas de la isla derribarían los aviones chinos que se acerquen al
territorio. Esto no es más que un desafío flagrante a la integridad
territorial y la soberanía de China. Como en el caso de Ucrania y Rusia,
son las palabras y acciones de Washington las que están avivando las
tensiones entre Taiwán y China. Aquí hemos de entender que la movida de
China de no aceptar el Bitcoin como moneda de intercambio, podemos
esperar una fuga al Bitcoin como modalidad de fuga del dólar como moneda
de reserva. Estamos ante el momento que el dólar deja de ser moneda
internacional de intercambio y de reserva internacional y con ello
finaliza la era del dólar. Sin más aceptación de los bonos del Tesoro,
el complejo industrial y militar de EEUU carecería de financiamiento y
con ello no habrá otro camino que la Perestroika en Occidente en general
y de EEUU en particular.

Objetivamente no hay ninguna razón por la que Estados Unidos no pueda
ser amigo de Rusia y China para resolver las diferencias.  Sin embargo,
un imperio en decadencia busca salvarse como imperio totalitario y lo
primero de un régimen totalitario, junto con la confiscación y
mutilación de la realidad, es la confiscación de la historia y la
confiscación de la cultura y todo ocurre casi simultáneamente. Lo que
parecía ser inimaginable está ahora sucediendo en Estados Unidos. Se
observan ya aspectos del totalitarismo /tipo nazifascista/ afirma Evelyn
Markus.

Vemos autoritarismo a partir de la pandemia en el mundo Occidental
entero. En EEUU hay obsesión por la raza, declarar colectivamente a una
etnia culpable, avergonzar, humillaciones por etnia, saqueos, incendios
provocados, violencia racista, intimidación de opositores, cancelar
cultura, controlar la difusión de noticias y adoctrinamiento de los
niños en las escuelas. Abundan noticias falsas, teorías de la
conspiración, una revisión de la historia, un nuevo lenguaje impuesto y
un robo no procesado. Todo en nombre de una ´cultura más justa´. Los
Nazis reprimieron la disidencia, controlaron la difusión de noticias y
controlaron la cultura. La “noche de los cristales rotos» comenzaron los
saqueos, incendios provocados y la humillación pública, por motivos
étnicos.  

El paralelo con lo que está pasando en EEUU no deja de ser sorprendente.
Sin embargo, EEUU se aislará de esta forma cada vez más en el mundo y no
hablamos todavía de la desintegración interna en el país como hemos
señalado en otros artículos. Los estados republicanos están cada vez más
distanciados de los estados demócratas en muchos sentidos. Hay fuerte
migración hacia los estados republicanos e incluso de Silicón Valley de
personas y empresas hacia Texas. Las campañas de elecciones de término
media en 2022 se acercan y no hemos de excluir un escenario de un camino
hacia la secesión de los Estados republicanos, hecho que haría completa
la Perestroika en EEUU.    

*Bibliografía *

Coward Bryce, El USD es débil y lo que eso podría significar para el
resto de 2021, Zero Hedge, 29 de mayo de 2021

Dierckxsens Wim 1994, De la globalización a la Perestroika Occidental,
DEI, San José, Costa Rica

Dierckxsens Wim, Ucrania como el ´/Waterloo/´ del Imperio del dólar,
Observatorio Internacional de la Crisis. Marzo de 2014 **

Dierckxsens Wim y Formento Walter 2016, Geopolítica de la crisis
económica mundial, Ediciones Fabro, Buenos Aires, Argentina

Dierckxsens Wim y Formento Walter 2019, Prospectiva geopolítica para el
2020, Editorial FEDUN, Buenos Aires, Argentina

Dierckxsens Wim y Formento Walter 2019, Nuevo Imperio Global u Otra
Civilización Emergente, DEI, San José, Costa Rica

Dierckxsens Wim y Formento Walter junio 2020, Del choque al dialogo de
civilizaciones: De la globalización a la Perestroika en EEUU, ALAI,
Quito Ecuador

Dierckxsens Wim y Formento octubre 2020, Fascismo del Siglo XXI o nueva
civilización poscapitalista; EEUU, elecciones presidenciales y guerra.
ALAI, Ecuador.

Durden Tyler, Todo se está desplomando, acciones, bonos, cripto,
materias primas caen, Zero Hedge, 19 de mayo de 2021

Escobar Pepe, Una visión privilegiada de la tragedia del estado profundo
de EE. UU., The Strategic Culture Foundation, 14 de mayo de 2021

Hinchliffe Tim, Cronología de la agenda «El gran reinicio»,
www.GlobalResearch.ca <http://www.globalresearch.ca/>, 15 de mayo de 2021

Markus Evelyn, América está jugando con fuego …, The Gatestone
Institute, 12 de mayo de 2021

Zuesse Eric, Estados Unidos y sus aliados intentan dividir el mundo en
dos, https://moderndiplomacy.eu, 18 de mayo de 2021

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*NOTAS*

[1] <#_ftnref1> Crisis Sistémica sucede cuando el sistema en su conjunto
entra en crisis, esto es, cuando el sistema colapsa por incapacidad,
sobrepasamiento y/o por falta de instrumentos para resolver los
problemas o desastres creados por su propia dinámica.

[2] <#_ftnref2> Las tres formas de capital financiero son el Capital
Financiero Global, el Capital Financiero Multinacional (continental) el
Capital Financiero Local y sus tres personificaciones económicas de las
fracciones de Oligarquía Financiera: La Oligarquía Financiera Globalista
y su moderna aristocracia de CEO´s; la Oligarquía Financiera
Continentalista; y la Oligarquía Financiera Local-Nacionalismo oligárquico.

[3] <#_ftnref3> Golpe blando, Por Telma Luzzani,
https://www.pagina12.com.ar/diario/elmundo/4-241373-2014-03-09.html
<https://www.pagina12.com.ar/diario/elmundo/4-241373-2014-03-09.html>

[4] <#_ftnref4> *I Cumbre BRICS: Declaración de Fortaleza 15 de julio de
2014,* https://www.iri.edu.ar/
images/Documentos/CENSUD/boletines/46/cumbre_brics.pdf
<https://www.iri.edu.ar/%20images/Documentos/CENSUD/boletines/46/cumbre_brics.pdf>

[5] <#_ftnref5> *Los BRICS* (2009-2014),
http://www.memoria.fahce.unlp.edu.ar/tesis/te.1226/t.1226.pdf
<http://www.memoria.fahce.unlp.edu.ar/tesis/te.1226/t.1226.pdf>

[6] <#_ftnref6> *El Protocolo de Minsk* es un acuerdo para poner fin a
la guerra en el este de Ucrania, firmado por representantes de Ucrania,
la Federación Rusa, la República Popular de Donetsk (DNR) y la República
Popular de Lugansk (LNR) el 5 de septiembre de 2014.1​2​3​ Fue firmado
después de extensas conversaciones en Minsk, la capital de Bielorrusia,
bajo los auspicios de la Organización para la Seguridad y la Cooperación
en Europa (OSCE). https://es.wikipedia.org/wiki/Protocolo_de_Minsk
<https://es.wikipedia.org/wiki/Protocolo_de_Minsk>

[7] <#_ftnref7> *Commonwealth, el legado del Imperio Británico*.  El
Reino Unido sigue vinculado a sus antiguas colonias y promueve la
cooperación económica y cultural a través de este organismo
https://www.lavanguardia.com/
vida/junior-report/20200128/473199576860/commonwealth-historia-imperio-britanico.html
<https://www.lavanguardia.com/%20vida/junior-report/20200128/473199576860/commonwealth-historia-imperio-britanico.html>

[8] <#_ftnref8> Ucrania, Taiwán … Agresión estadounidense de dos puntas
hacia Rusia y China
https://translate.google.com/translate?hl=es&sl=en&u=https://www.strategic-culture.org/news/2021/04/10/ukraine-taiwan-two-prong-us-aggression-toward-russia-china/&prev=search&pto=aue
<https://translate.google.com/translate?hl=es&sl=en&u=https://www.strategic-culture.org/news/2021/04/10/ukraine-taiwan-two-prong-us-aggression-toward-russia-china/&prev=search&pto=aue>

In
OBSERVATORIO DE LA CRISIS
https://observatoriocrisis.com/2021/06/02/2021-ano-del-final-de-la-era-del-dolar/
2/6/2021

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Na contramão do mundo, Bolsonaro extingue estatal de tecnologia fabricante de chips

 



Enquanto países como China e Estados Unidos disputam protagonismo no
setor, Brasil fechará sua fábrica de chips, a Ceitec edit




*247 - *Em meio a uma crise mundial na produção de chips e
semicondutores, o governo de Jair Bolsonaro resolveu extinguir a única
fábrica desses componentes do Brasil, o Centro Nacional de Tecnologia
Eletrônica Avançada (Ceitec), inaugurada pelo ex-presidente Lula, em 2010.

Instalada em Porto Alegre (RS), a Ceitec é responsável pelo
desenvolvimento de tecnologia e pela fabricação dessas pequenas partes
de eletrônicos, utilizadas em larga escala no mundo todo para produção
desde  celulares até aviões. O governo Lula investiu muito na Ceitec com
o propósito de tornar o Brasil um país autossustentável, a longo prazo,
nas demandas por este produto e competir com mercados como o da China e
dos Estados Unidos. Em todos os lugares estão faltando chips por causa
da pandemia, que paralisou atividades industriais em todo o planeta,
escreve o jornalista André Accarini, no portal da *CUT*
<https://www.cut.org.br/noticias/na-contramao-do-mundo-bolsonaro-extingue-estatal-de-tecnologia-fabricante-de-chi-70c3>.

Para o ex-ministro Ricardo Berzoini, a extinção da Ceitec é “um atraso
monumental”. Ele explica que, desde a criação, a empresa vem ampliando
sua capacidade e já produz o suficiente para abastecer várias demandas
no Brasil, uma delas o mercado de etiquetas de sistemas de pagamento
automático de pedágios, além de chips de identificação de produtos e de
animais.

In
BRASIL247
https://www.brasil247.com/economia/na-contramao-do-mundo-bolsonaro-extingue-estatal-de-tecnologia-fabricante-de-chips
4/6/2021