Por *JOÃO PEDRO STÉDILE**
/Relatório de viagem realizada de 12 a 24 de abril de 2023/
*Apresentação*
Durante esse período foram realizadas muitas reuniões, com diversos
setores do partido, federação dos sindicatos, universidades e conversas
com pesquisadores e intelectuais da esquerda chinesa. Também realizamos
visitas a fábricas e comunas rurais.
As anotações não têm ordem, nem prioridade, foram feitas a partir das
reuniões e conversas, apenas procurei sistematizar por grandes temas e
agora compartilhadas para que nossa militância popular do Brasil, tenham
alguns elementos sobre a realidade chinesa, ainda pouco conhecida no Brasil.
*Economia*
A economia chinesa foi marcada por diversos períodos na sua história.
Com uma economia baseada na agricultura e no mercado local. O primeiro
período de 49-57 foi marcado pela implantação de uma indústria de base
(energia, siderúrgica, indústrias de base) com a transferência de
tecnologia da URSS, que transpôs fabricas inteiras. O primeiro trator
chinês foi fabricado em 1956, copiando um modelo soviético. O segundo
período de 1957-76 representou uma etapa de economia fechada voltada
apenas para o mercado interno, atendimento as necessidades da população
e início das indústrias de consumo.
No período de pré-reforma e abertura econômica de 29 anos (1949-1978),
sob a liderança do Mao Zedong até 1976, a expectativa de vida da China
aumentou 32 anos. Em outras palavras, para cada ano após a Revolução,
mais de um ano foi adicionado à vida de um chinês médio. Em 1949, a
população do país era 80% analfabeta, e em menos de três décadas o
analfabetismo foi reduzido para 16,4% nas áreas urbanas e 34,7% nas
áreas rurais; a matrícula de crianças em idade escolar aumentou de 20%
para 90%; e o número de hospitais triplicou.
Esse processo incluiu o estabelecimento de escolas de ensino médio para
trabalhadores e camponeses e o envio de milhões de agentes de saúde para
o campo. Avanços significativos foram feitos na participação das
mulheres na sociedade, desde a abolição dos costumes do casamento
patriarcal até o aumento do acesso à educação, cuidados de saúde e
creches. De 1952 a 1977, a taxa média de crescimento anual da produção
industrial foi de 11,3%.
O terceiro período de 1976-2013, foi marcado pela aliança com EUA, e
depois adoção de políticas neoliberais e de buscar de mercado externo.
Foi o período que a China se transformou a fábrica do mundo, com
implantação de alianças com empresas estrangeiras, que traziam suas
máquinas e tecnologia industrial para aproveitar a mão-de-obra barata
chinesa, que transferiu para as cidades mais de 100 milhões de
trabalhadores.
Uma das bases da industrialização foi a indústria automobilística, em
que fizeram parceria com os grandes grupos transnacionais para levar
tecnologia e depois a China ampliou a tecnologia, como a adoção para os
carros e ônibus elétricos. No ano 2000 produziam 1, 3 milhões de carros
por ano. No ano passado produziram 20 milhões de carros. A outra base do
crescimento da economia prolongado foi o investimento em construção
civil, milhões de novas moradias e da infraestrutura urbana. Metros,
estradas, e trens de alta velocidade. A China gastou, em menos de dez
anos, mais cimento e ferro, do que os EUA durante todo século XX!!
De 2000 para cá estão em curso novas mudanças, em que a China está
industrializada, tem 40% de sua economia voltada para o mercado externo,
e agora controla as políticas neoliberais e prioriza os investimentos em
tecnologia, buscando alta produtividade.
Neste último período houve a reativação e fortalecimento de empresas
estatais, o aumento da renda dos trabalhadores (o salário médio na
indústria é hoje superior ao do Brasil e México), e o controle absoluto
do capital financeiro. Todo sistema financeiro que controla as finanças
é formado por grandes bancos estatais, ainda que existam bancos privados.
Hoje a economia é formada por cinco setores de capital: Estatal,
empresas privadas (em especial na construção civil e comercio) empresas
coletivas de trabalhadores, empresas mistas, entre públicas e privadas e
empresas estrangeiras.
O setor privado representa: 60% do PIB da China, 70% da inovação, 80%
dos empregos urbanos e 90% dos novos empregos. Na década de 1990, diante
do declínio dos lucros e da competitividade, o governo central adotou
uma política deixar o capital privado entrar em muitos setores, mais
deixando os setores mais importantes nas mãos do estado (por exemplo,
energia, bancos, mineração, transporte aéreo e ferroviário,
telecomunicações e outros setores estratégicos). Por exemplo, das 109
corporações chinesas na Fortune Global 500, 85% são de propriedade
pública. Os quatro maiores bancos do mundo são chineses – e cinco dos 10
maiores bancos do mundo são chineses (ativos de US$ 5 trilhões), todos
estatais (ICBC, CCB, ABC, BoC, CMB).
Em cada grande cidade tem 20 a 30 empresas estatais que controlam a
produção e a economia. Já o setor privado fica com distribuição,
comércio, serviços e a construção civil.
Em 1991, não havia nenhuma empresa privada na construção civil
(estradas, moradias etc.). Em 1993, com a reforma neoliberal surgiram
553 empresas privadas. E ao longo do processo hoje são 122.706 empresas
privadas, 189 empresas de capital estrangeiro, 3.920 empresas estatais,
e 1928 empresas cooperativas os trabalhadores.
O PIB chinês cresceu 8,4% em 2021 e 3% em 2022, em consequência das
restrições do COVID. Nos próximos anos a previsão é de crescimento anual
de 5%. A China precisa crescer no mínimo 5% ao ano, segundo o governo
para poder gerar os empregos necessários para a população. Cada 1% de
crescimento do PIB gera 2,2 milhões de empregos. E precisam criar 11
milhões de empregos por ano.
A taxa de inflação atual é de 2% ao ano e a taxa de juros de 4% para
qualquer empréstimo, ou seja, uma taxa de 2% ao ano de juros reais.
A jornada de trabalho média é de cerca de 48 horas por semana! Mas há
ainda muitos trabalhadores que trabalham 60 horas por semana. E a renda
das famílias se divide, em 40% de consumo básico e 60% se transforma em
poupança.
Em geral as famílias investiram em moradia (cerca de 65% dos ativos das
famílias estão em imóveis), e agora guardam recursos para garantir
educação de qualidade para os filhos. Mas também estão começando a
investir em ações de empresas estatais, mistas e em ouro.
O maior problema da economia chinesa atualmente é a taxa de desemprego
de 5%, e de 19% entre os jovens de 18 a 24 anos (março de 2023). Outro
desafio da economia chinesa é como absorver o trabalho qualificado,
versus o trabalho manual. Há 9 milhões de jovens que se graduam todos os
anos, nas universidades e não estão sendo absorvidos pelo mercado de
trabalho.
Há falta de mão-de-obra na indústria. Parou a migração do campo, e os
jovens formados nas universidades não querem ir para a fábrica. Mas
também não querem mais ir para o Ocidente, nem estudar. Há muita
expectativa para trabalhar nas grandes empresas estatais. As vagas são
disputadas como verdadeiros concursos (houve uma empresa que ofereceu 20
vagas e apareceram 20 mil jovens se candidatando).
Os planos do governo são de aumentar os investimentos na indústria
(diminuir os investimentos em construção civil e infraestrutura que foi
a marca do crescimento no período anterior. E ao mesmo tempo aumentar o
mercado local, em detrimento da dependência do mercado externo. A maior
parte dos investimentos são de empresas estatais. E o governo está
buscando formas de canalizar a poupança das famílias para investimento
em indústrias (no período anterior as famílias compravam casas…).
A estratégia no plano externo, que une economia a estratégias de
geopolítica é a construção da /Nova Rota da Seda/ (ou /Iniciativa
Cinturão e Rota/) que implica em muitos investimentos em infraestrutura
e transporte pelos países que percorre na Ásia, África, América Latina e
até a Europa. E esses investimentos externos são feitos na moeda local
dos países que ajuda as economias locais.
As conquistas econômicas da China e seus resultados se devem
fundamentalmente ao componente de economia socialista, repartir a
riqueza produzida com os trabalhadores. Se ela abandonasse essa política
de priorizar o bem-estar da população, como querem setores neoliberais e
as empresas privadas chinesas, certamente iria colapsar econômica e
politicamente.
A China vem estimulando inúmeras iniciativas para combater a hegemonia
do dólar. Já fez acordo para comércio e investimento sem uso do dólar
com 25 países e regiões (como recentemente com o Brasil). Ela também
lidera iniciativas importantes de criação de fundos alternativos ao FMI
– como a Iniciativa Chiang Mai, com os países da ASEAN + Japão e Coréia
do Sul – e o Acordo de Reserva Contingente (BRICS). O yuan vem sendo
cada vez mais utilizado como moeda de referência entre diversos países.
O atual governo do Presidente Xi Jinping tem estimulado e fortalecido as
empresas estatais, que atuam em áreas estratégicas, na pesquisa, na
indústria etc., e são as mais poderosas. Procura combater a concentração
da riqueza entre os bilionários, que se formaram no período anterior.
Ainda que no país os ricos paguem relativamente pouco imposto de renda e
não haja imposto sobre propriedade imobiliária. Mas o controle é
político, para impedir – ou minimizar – o oligopólio de setores e
preços. Essa é a política clara para combater o fortalecimento da nova
burguesia e do surgimento de desigualdades sociais.
A atual situação da luta pela geopolítica mundial, trouxe como
contradição que os empresários chineses perderam a confiança nos EUA e
apenas procuram ampliar o comércio.
A sociedade chinesa vive agora a experiência de ter a primeira geração
de capitalistas chineses e por tanto ressurgimento de uma burguesia
industrial, de comercio e de serviços.
A China foi sempre historicamente “exportadora” de mão-de-obra com
muitos chineses que migravam todo ano. Agora sua economia está atraindo
migrantes, 1,5 milhão por ano, vindos das Filipinas e Sudeste Asiático,
para trabalhar em Hong Kong e Xangai, sobretudo, nas indústrias e serviços.
As perspectivas da política de investimentos para o futuro vão na
direção de substituir a atual matriz energética baseada em 60% no
carvão, e nos próximos 20 anos, baixar para 30% e investir em energias
renováveis, como eólica, solar, hidrogênio, e também investirem em novos
formatos de energia nuclear (cuja tecnologia a China dominou em 2021).
Há também muitos investimentos e novas tecnologias, a empresa Huawei vai
apresentar o 6G daqui a alguns anos, por exemplo. Também começa a ter
preocupação com biotecnologias e agroecologia.
*Economia agrária e meio rural*
A base da sociedade chinesa no meio rural foi constituída pela reforma
agrária de 1949-1950 que destruiu o latifúndio, os senhores feudais, e
distribuíram todas as terras para os camponeses. Havia no campo 555
milhões de pessoas, que representavam 88% da sociedade. Cada família
recebeu em média menos de um hectare. E o resultado principal é que
pararam de trabalhar para os fazendeiros locais e resolveram o problema
da fome (a medida popular utilizada no país é o MU = 0,15 hectares, na
literatura agrária chinesa só aparece o MU).
A primeira reforma agrária destruiu a burguesia agrária e garantia
terras a todas as famílias. Porém, nos anos 1960, se forçou a
coletivização do trabalho agrícola. Isso desorganizou a produção, e
trouxe um período inclusive da volta da fome. Na década de 1990 houve
uma nova reforma agrária, em que foi permitido que as comunidades rurais
que tinham a concessão de uso das terras pudessem “vender” a concessão
para as empresas colocarem indústrias. E ao mesmo tempo o plano de
industrialização do país, levou a migração de mais de cem milhões de
jovens do campo para as cidades, atraídos pelos empregos e salários.
Mas o plano de industrialização trouxe também a mecanização do campo,
baseada em pequenas máquinas que os camponeses e suas associações
puderam comprar e utilizar. Há no país mais de 8 mil fábricas de
máquinas agrícolas, distribuídas por todo país, e praticamente por todos
municípios ou distritos.
Esse processo de mecanização do campo, dos últimos trinta anos, levou a
que hoje se tem 21.730.000 tratores utilizados na agricultura, em seus
120 milhões de hectares. (No Brasil temos quase a mesma quantidade de
terras utilizadas na agricultura, e apenas 1,3 milhão de tratores!!). Do
parque de máquinas existentes na agricultura, 16 milhões são de pequenos
tratores, 4 milhões de máquinas medias, em geral utilizadas por
cooperativas e apenas 700 mil máquinas utilizadas em grandes unidades de
produção.
Nos últimos 20 anos, e basicamente no governo de Xi Jinping, houve uma
prioridade de eliminar a pobreza, que aparecia basicamente no campo. E
neste período aplicaram políticas que tiraram da pobreza mais de 100
milhões de pessoas. Foi o maior programa de erradicação da pobreza do mundo.
Para desenhar o plano o governo deslocou para o campo mais de 3 milhões
de militantes do Partido, que foram morar nas comunidades pobres, pagos
pelo governo. Nestas comunidades eles tinham treinamento para fazer um
diagnóstico da situação de pobreza, das principais necessidades
familiares e coletivas. E a partir desse levantamento na sequência,
realizavam debates a nível de partido local, com suas lideranças para
desenhar que políticas o governo deveria aplicar para erradicar a
pobreza. (E pior, entre os militantes enviados, 1.800 deles morreram
durante a missão, em consequência de acidentes ou enfermidades graves!).
Esse foi o trabalho de dois a quatro anos, e em seguida o governo
começou a aplicar as medidas necessárias, que se adequavam a cada
região. Em 25 de fevereiro de 2021, o governo anunciou que a pobreza
extrema havia sido superada na China. Desde a reforma econômica, 850
milhões de chineses foram retirados e se retiraram da pobreza; ou seja,
70% da redução total da pobreza no mundo ocorreu na China.
Na fase “direcionada” mais recente, que começou em 2013, o governo
gastou 1,6 trilhão de yuans (246 bilhões de dólares) para construir e
asfaltar 1,1 milhão de quilômetros de estradas rurais, levar acesso à
internet a 98% dos vilarejos pobres do país, reformar casas para 25,68
milhões de pessoas e construir novas moradias para outras 9,6 milhões.
Desde 2013, milhões de pessoas, empresas estatais e privadas e amplos
setores da sociedade foram mobilizados para garantir que – apesar da
pandemia – os 98,99 milhões de pessoas restantes da China em 832
condados e 128 mil vilarejos saíssem da pobreza absoluta.
O plano de erradicação da pobreza desde a presidência do Xi Jinping
combinou várias iniciativas, como: (a) financiamento especial para as
cooperativas e associações locais aumentarem a produção de alimentos e
de bens (em média aplicavam 2 milhões de reais por cooperativas a juros
subsidiados); (b) empresas estatais de outras regiões foram induzidas a
colocarem fabricas nessas regiões, e ou comprarem seus produtos; (c)
construção e ou melhoria das casas; (d) construção de banheiros
coletivos nas comunidades; (e) garantia de energia elétrica e internet;
(f) organização de aplicativos gratuitos para que as famílias e
comunidades oferecessem seus produtos na sociedade e nas cidades
próximas; (g) estímulo para colocarem indústrias de frutas, verduras, e
moinhos de farinhas; (h) infraestrutura de estradas asfaltadas para
chegar até as comunidades; (i) melhoria no acesso a água potável
coletivo; (j) apoio na construção de escolas secundarias mais próximas
dos povoados.
(l) algumas comunidades as famílias foram induzidas a se mudarem para
distritos e cidades próximas, onde receberam moradias, capacitação para
trabalho urbano e industrial; (k) e trabalho de base. Em 2014, cerca de
3 milhões militantes do Partido foram organizados para visitar e
pesquisar todas as famílias em todo o país, identificando 89,62 milhões
de pessoas pobres em 29,48 milhões de famílias e 128 mil vilarejos. Mais
de dois milhões de pessoas receberam a tarefa de verificar os dados,
removendo posteriormente os casos identificados incorretamente e
adicionando novos. Mais notavelmente, três milhões de quadros
cuidadosamente selecionados foram enviados para os vilarejos pobres,
formando 255 mil equipes que lá residiram. Vivendo em condições humildes
por um a três anos de cada vez, as equipes trabalharam ao lado de
camponeses pobres, autoridades locais e voluntários até que cada família
fosse retirada da pobreza.
Passado esse período de eliminação da pobreza, agora o plano do governo
é garantir que as 550 milhões que vivem em comunidades rurais,
permaneçam no campo e tenham as mesmas condições de vida da cidade. Para
isso estão organizando um plano que chamaram de revitalização rural. A
taxa de urbanização da China era de 64% em 2020, e espera-se que chegue
a 70% até 2030.
As principais linhas do plano governamental de revitalização rural são:
Dar mais incentivos para novas agroindústrias; aplicar um plano de
reflorestamento. Estão plantando arvores em toda parte. A China foi
líder global em reflorestamento e foi responsável por 25% do crescimento
total da área foliar do mundo entre 1990 e 2020, impulsionada por 15
anos de política de “águas claras, montanhas verdes”; garantir o fomento
de novas tecnologias para agricultura, que aumentem a produtividade do
trabalho e das áreas; redução de impostos e mais incentivos do governo
em investimentos necessários.
Maior treinamento para adoção de mais mecanização agrícola; utilizar as
tecnologias para controle de desempenho dos tratores, consumo etc. 1,5
milhão de tratores já são monitorados em tempo real por satélite, sobre
como estão trabalhando, desempenho, consumo etc.; estimular o potencial
do trabalho das mulheres, em diversas atividades produtivas; estimular
atividades de turismo rural interno (com melhoria de instalações para
receber visitantes); criaram um plano por aplicativo de que os operários
migrantes podem investir sua poupança em investimentos produtivos das
cooperativas do campo; reformar as casas vazias no campo, para alugá-las
a visitantes; programa de proteção de rios e lagos para melhorias do
meio ambiente, financiando essas atividades para as comunidades.
Estímulo à produção de ervas medicinais; houve um crescimento
vertiginoso, nos últimos anos, da prática de venda de produtos agrícolas
(muitas vezes, orgânicos) para os habitantes das cidades mais próximas,
através de lives (o Tik Tok na China, chamado Douyin, tem a maior parte
do seu faturamento aí); estímulo à produção de bens que podem ser
vendidos na Rota da Seda. Estão treinando todos os líderes locais do
partido, para que se preparem melhor para aplicar essas políticas.
Para implementar esse plano, mudaram o método. Antes todas as políticas
eram coordenadas e repassadas para os presidentes das cooperativas e
associações das comunas. Eles centralizavam e muitas vezes tinha
corrupção. Agora, é o coletivo do partido na comuna que é o responsável
pela aplicação da política de revitalização rural. Ou seja, a política
agrária saiu do ministério da agricultura e agora é coordenada pelo
partido, a nível nacional e geral.
Eles têm apelidado essa política no campo de “como dançar com o lobo!
Ou seja, como estimular maior investimento em capital, maior capital
orgânico, sem, no entanto, desempregar as pessoas, para que permaneçam
no campo.
Já a política de reflorestamento e defesa do meio ambiente, eles têm
adotado o lema, de “Montanha verde e águas claras” que parece utilizar a
cultura chinesa, das frases e poesias, que refletem o espírito dos
objetivos políticos.
*Sociedade e política*
A sociedade chinesa está formada por classes e fracções de classe que
levam a ter ainda uma luta de classes permanentes. Hoje, a maioria da
população pertence à classe trabalhadora urbana, que atua nas fábricas,
comércio, serviços, e serviço público. E se mantem no campo 500 milhões
de pessoas que vivem como camponeses, organizados em comunas,
associações e cooperativas. Mas há uma nova burguesia industrial e
comercial, ainda que muito concentrada em bilionários (o que seria fácil
controlá-los!!!); e há uma pequena burguesia nas cidades formadas por
pequenos comerciantes e a juventude egressa das Universidades que no
passado recebeu muita influência do neoliberalismo americano, que levou
a um individualismo exacerbado. E há nove milhões de funcionários
públicos, que embora sejam filiados ao partido, muitos deles se
comportam como pequena burguesia.
Em 2022 a China tem 65% da população morando nas cidades e 35% no campo,
onde vivem ainda 550 milhões de pessoas. Tem 167 cidades com mais de um
milhão de habitantes cada uma, e mais de 30 cidades tem mais de 10
milhões de habitantes cada. Xangai é a sua maior cidade com 28 milhões
de habitantes e Pequim tem mais de 20 milhões de habitantes.
No campo todos são proprietários de suas casas. Em geral as pessoas
trabalham em empresas da cidade com aproximadamente 100 trabalhadores,
são raras as empresas que têm mais de mil operários.
Nos tempos da revolução e de Mao, havia 40 milhões de pessoas
organizadas no partido, sendo que quatro milhões eram soldados e atuavam
no exército. De uma população total de 500 milhões de pessoas. Hoje a
sociedade chinesa tem 1,4 bilhão de pessoas, e o partido organiza e tem
como filiados 97 milhões de membros. Destes apenas 10 milhões seriam
militantes e com formação marxista. Nos últimos anos foram expurgados
quatro milhões de filiados por desvios e corrupção, muitos deles foram
presos.
Há 40 mil quadros do partido que dirigem os cargos chaves nas empresas
estatais, e no controle das instâncias governamentais, das províncias.
A sociedade chinesa é hegemonizada pelas ideias de Confúcio (551- 479
a.C.) que como filósofo ordenou uma série de valores que são adotados
pela sociedade e até hoje orientam comportamento das pessoas e do
coletivo. Não é uma religião, são normas e valores de comportamento.
As ideias do socialismo foram muito atacadas desde trinta anos atrás
quando as ideias ocidentais e do neoliberalismo influenciaram amplos
setores da sociedade, em especial as universidades, a mídia e a
juventude. Hoje, o presidente Xi Jinping diz claramente que se deve
fazer um esforço para recuperar o espírito socialista na sociedade
chinesa, e que o partido deve ser o exemplo e zelador desta política.
A direção política do partido pelo Presidente Xi Jinping representa uma
retomada dos ideais socialistas e do papel do partido. Frente a
degeneração do partido, da corrupção e da influência dos americanos,
foram as bases sociais do campo, que recuperaram o partido.
Na China quem controla as forças armadas é o partido. E a linha política
do presidente Xi Jinping tem total hegemonia nos quadros que atuam nas
forças armadas, que são milhões de oficiais e soldados nas três armas e
na pesquisa tecnológica militar.
No congresso do partido de 1990 cerca de 50% dos delegados se
consideravam capitalistas. A partir da eleição do presidente Xi Jinping
e das mudanças e expurgos do partido, no último congresso estima-se que
apenas 15% se consideravam capitalistas. Antigamente havia a presença de
empresários capitalistas inclusive no comitê central.
O presidente Xi Jinping tem defendido que o partido precisa melhorar
muito seu funcionamento e apreender com o povo, e voltar a ser humilde
para se fortalecer seguir dirigindo o estado e o governo na direção do
bem-estar de todo povo.
Recuperou-se o método de direção coletiva das instancias do partido. E o
fortalecimento das quatro grandes escolas de formação de quadros do
partido. O processo de promoções é feito a cada quatro anos, e segue
critérios rigorosos, de avaliação de cada militante. E há uma política
de aposentadoria compulsória dos cargos aos 65 anos.
A classe trabalhadora está satisfeita com a melhoria das suas condições
de vida que melhorou muito nos últimos dez anos. Ainda que a saúde não
seja ainda totalmente socializada, mas a educação é mais de 90% pública,
inclusive as universidades.
O governo e o partido tiveram ótimo desempenho no combate à poluição nas
cidades, que já era insuportável há dez anos, e ao tratamento e proteção
na COVID. Com isso, a população em 90% apoia ao partido e ao governo.
Há ainda muitos casos de desvios e corrupção sobretudo nas instancias de
governos das províncias, que, no entanto, são denunciados pela própria
população. Há alguns anos, as redes sociais difundiam e combatiam o
partido e geravam divisionismo dentro do governo. Mas isso fracassou.
Hoje com a política do partido sob comando do Presidente Xi Jinping, de
eliminação da pobreza, aumento dos salários e melhoria das condições
devida nas cidades, levou a que a classe trabalhadora e amplos setores
da juventude passassem a defender essa política e o partido.
No período do neoliberalismo e das reformas pró-ocidentais, cerca de
90%da mídia chinesa, incluindo a oficial, eram de ideias de direita. Os
quadros do partido ainda estão aquém das necessidades de realizar de
forma eficiente os programas de agitação e propaganda dos resultados da
China, tanto para o povo chinês, quanto e mais ainda para a classe
trabalhadora a nível internacional, que poderia ser aliada, dessas
políticas.
Há ainda uma luta de classes no campo ideológico. Uma elite minoritária
formada por grandes empresários, parte de professores universitários e
parte da juventude, criticam a linha atual e sonham com o modelo
americano. Mas são amplamente minoritários.
Há também um conflito geracional entre a militância do partido. Os que
tem entre 40 e 55 são frutos da reforma e continuam a maioria
neoliberais e burocratas, em sua maioria. A atual geração que conduz o
processo para revitalização do socialismo está entre quadros com mais de
60 anos e os quadros mais jovens. E a esperança dos socialistas é que a
gestão do Presidente Xi Jinping vá até ser substituído na presidência e
no comitê central por essa geração mais jovem. Para muitos, o ideal
seria Presidente Xi Jinping permanecer por mais um mandato além do
atual, até 2032.
O papel dos sindicatos na China é diferente do mundo ocidental, onde
sempre tiveram papel atuante na luta de classes. Na China seu papel está
relacionado com a organização no local de trabalho, sobretudo
organizando atividades culturais, de lazer e cultura, e espaços de
atuação coletiva, social.
Desde a revolução de 1949 se adotou um método de trabalho político que
persiste até hoje, em todas as unidades de trabalho. No primeiro horário
antes de começar o turno, todos os trabalhadores da sessão, se reúnem,
de pé, e em reuniões que vão até 30 minutos, diariamente, analisam o que
há de errado e o que devemos melhorar. É um método de crítica e
autocritica muito interessante, e esse processo é seguido de forma
disciplinar e coordenado pelo dirigente no partido na sessão laboral (Vi
algumas dessas reuniões e é impressionante!).
A atual direção do partido está recuperando a política da “linha de
massas”. Ou seja, de fortalecer as organizações do povo e a luta das
massas, e convocá-las sempre que necessário para as disputas da luta de
classe. O Partido tem recuperado também um método histórico do trabalho,
quando querem fazer uma mudança na política econômica, na organização da
produção e na aplicação política, primeiro aplicam numa região ou
distrito como projeto piloto. Analisam os pros e contras e aí passam a
aplicar a nível nacional.
*Geopolítica*
A China está no centro da disputa da luta de classes mundial. Passou
pelos cem anos de humilhação (1840- 1949) dedicou-se a superar a pobreza
de 1949-2020; e agora sendo a maior potência econômica mundial, ascendeu
na disputa pela nova ordem mundial. As bases da atual ordem mundial,
hegemonizada pelos EUA e pela Europa, como resultado da segunda guerra
mundial e da derrota da URSS, chegaram ao seu fim.
Os EUA tiveram uma vitória estratégica, histórica e fantástica ao
derrotarem e destruírem a URSS. Primeiro a derrotaram economicamente
induzindo a corrida armamentista que implicou em priorizar gastos
militares em detrimento das melhorias das condições de vida da população
soviética, dos avanços na tecnologia industrial, que melhoraria a
produtividade da produção em geral. Depois atacaram politicamente nas
alianças e cooptação de Gorbachev, que apesar das boas intenções de
combater os desvios do partido e da democratização da sociedade, se
rendeu a cantilena ocidental.
Agora os EUA estão usando as mesmas táticas para tentar derrotar a
China. Segue atacando na economia, criando bloqueios e impondo condições
no avanço da tecnologia, como tentaram com 5G e com o bloqueio do acesso
de empresas chinesas aos chips de tecnologia mais avançada. Porém, hoje
a economia americana depende mais da China, do que a China deles, e esta
contradição os impede de fazer uma verdadeira guerra econômica.
Na política tentaram criar adeptos entre os membros do Comitê Central do
partido, mas não conseguiram sucesso. Assim como tentaram transformar a
região dos Uigures (Xinjiang) e da dissidência de Hong Kong, como se
fosse um problema política interno grave da China, que poderia construir
um movimento de massas de oposição. Mas como não tinha base social real,
não prosperaram.
Na geopolítica internacional os EUA provocaram a Rússia e utilizaram a
OTAN e o governo títere da Ucrânia, para levar a guerra. Mas seu
objetivo era desgastar economicamente a Rússia, e trazer a China para a
guerra. No entanto, nenhuma das duas situações aconteceu. O povo da
Ucrânia e a economia europeia estão pagando um alto preço pela política
imperialista dos americanos, que certamente trará consequências, como
está visto nas visitas a Pequim, do governo da Alemanha e da França. E
na retaguarda que a China tem dado economicamente à Rússia, sem se
envolver na guerra.
Agora estão tentando criar conflito militar, ao redor de Taiwan. Mas a
China demonstrou que não vai cair em provocações militares e correr o
risco de entrar numa guerra. Os EUA provocaram uma contradição na
política chinesa, quanto mais ele ataca a China a nível internacional,
mais enfraquece seus aliados internos, as elites empresariais e os
setores universitários que antes os apoiavam internamente. Assim,
inviabilizou também uma possível contrarrevolução capitalista na China.
A China tem adotado uma série de iniciativas na política internacional,
que a tem fortalecido, como: (i) fortalecimento dos BRICS como espaço de
articulação econômica e política, formando um bloco econômico, mais
poderoso do que os EUA; (ii) construiu uma aliança entre Irã-Arábia
Saudita, que derrotou politicamente os interesses dos EUA no Oriente
Médio; (iii) A China está organizando diversas cadeias produtivas,
baseadas em alta tecnologia, em aliança com a Rússia; (iv) A China
ampliou seus laços políticos com os países da África.
A China precisa mudar sua política com o Sul global, para fazer
parcerias de mútua ajuda, para reindustrialização da região. Abandonar a
política de apenas comprar commodities agrícolas e minerais. E sobretudo
a china precisa mudar sua política e construir alianças com a classe
trabalhadora e os povos do sul. A verdadeira defesa da China virá do Sul
global e não dos governos do Norte. Esse desafio é visto como um enigma
a ser resolvido, por setores intelectuais do partido, de forma cada mais
acentuada.
Nos próximos anos, ou décadas, assistiremos a construção de uma nova
ordem mundial, agora fundada em outros princípios e certamente será
multipolar, com a participação de muitos países, do Norte e do Sul global.
*Desafios do próximo período*
A Economia chinesa tem uma base de economia mista entre o caminho chinês
ao socialismo e a empresas privadas capitalistas. Esse processo leva
ainda a concentração da riqueza e a desigualdade das classes. A médio
prazo aumentarão as contradições e a luta de classes dentro da sociedade
chinesa.
A “prosperidade comum” refere-se tanto a uma visão quanto a um ciclo de
reformas iniciadas pelo governo que visam conciliar a eficiência
econômica com o fortalecimento dos mecanismos de bem-estar. Também faz
parte do esforço para combater as “três montanhas” de altos custos de
educação, moradia e saúde enfrentados pelos chineses atualmente. O
objetivo é abordar a crescente desigualdade entre o campo e a cidade, as
classes sociais e as regiões por meio do desenvolvimento e da
distribuição de renda, das reformas tributárias e do bem-estar social e
da filantropia.
Em 2022, a riqueza dos bilionários chineses caiu 18%, a maior queda em
24 anos, e houve uma redução de 11% no número de bilionários, em grande
parte devido a medidas governamentais que limitaram os monopólios e o
setor de tecnologia. Mas a China ainda tem mais de 800 bilionários,
superando os Estados Unidos.
A China está se tornando uma sociedade envelhecida, com baixa taxa de
crescimento populacional, e teve o primeiro declínio da população em
números absolutos em 2022 (desde que o censo nacional começou em 1961).
Há 300 milhões de idosos com mais de 60 anos, o que traz problemas de
diminuição da força de trabalho, menos impostos para aposentadorias,
grande déficit previdenciário e pressão sobre a assistência médica.
A China tem se relacionado com o Sul-global em busca de commodities
agrícolas e minerais que sustentam as necessidades de seu
desenvolvimento. Porém, esse modelo representa no sul global uma aliança
e o fortalecimento das burguesias locais. Aumentando a exploração dos
trabalhadores e os crimes ambientais. Por outro lado na luta de classes
internacional e na construção, de uma nova ordem mundial, a China vai
precisar do apoio das populações do Sul global. Já as burguesias do sul
global sempre foram aliadas dos EUA, e assim seguirão, apesar de
venderem para a China.
Os EUA já estão em guerra fria contra a China, embora ela não queira.
Nesta guerra vai adotar todos os métodos possíveis, seja da economia,
comercio, mediático e ideológico. Para a China derrotar os EUA, mesmo
sem cair nas suas provocações, precisara necessariamente adotar uma
linha política anti-imperialista, não poderá mais conviver, dormindo com
o inimigo que quer derrotá-la.
Os EUA sempre usaram o dólar, como arma econômica de exploração de todos
os povos e países. E agora em crise, a moeda tem um papel ainda mais
relevante. A China terá que acelerar sua política de mudança do uso do
dólar, a nível internacional, e criar condições no plano dos BRICS ou
outras alianças para ter outros parâmetros de moeda no comercio
internacional.
O estágio atual da luta de classes a nível local e internacional é
fundamentalmente a luta ideológica, da batalha das ideias, sobre o
futuro da humanidade. Os EUA têm usado os meios de comunicação, a
cultural, as redes sociais nesta guerra ideológica. Porém, parece que a
China não está priorizando esse campo de atuação, em especial na sua
relação com os povos do Sul global.
O modo de produção capitalista em crise tem priorizado com suas empresas
imperialistas, uma verdadeira ofensiva contra os bens da natureza, se
apropriando de forma privada e espoliando as reservas em todo mundo.
Isso tem causado crimes ambientais, com graves consequência que aparecem
nas mudanças climáticas e no desaparecimento de muitas, milhares de
formas de vida vegetal e animal, que podem colocar em risco a vida
humana no planeta. A China deu passos a nível interno para combater a
poluição e buscar fontes de energia alternativa. Mas a China teria
enormes possibilidades de usar seus avanços tecnológicos e ajudar os
povos do Sul, para buscar alternativas de energia, de combater os crimes
ambientais e reconstruir a defesa do meio ambiente em todo planeta. Isso
traria resultados ideológicos fantásticos para um projeto global de
socialismo.
**João Pedro Stédile*/é membro da direção nacional do Movimento dos
Trabalhadores Sem Terra (MST)/.
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Em
A TERRA É REDONDA
https://aterraeredonda.com.br/viagem-a-china/?utm_term=2023-05-14
13/5/2023
segunda-feira, 15 de maio de 2023
Viagem à China
segunda-feira, 8 de maio de 2023
O roubo da realeza britânica
Michael Roberts [*]
Hoje, na Grã-Bretanha, haverá a "coroação" do Rei Carlos III. Todas as
demais monarquias que restam na Europa (Escandinávia, Países Baixos,
Bélgica, Espanha) pouco se preocupam com a coroação, mas a monarquia
britânica teve um papel muito mais proeminente ao ajudar o Estado
britânico a construir o seu enorme império global no século XIX. A
coroação faz parte dos rituais desenvolvidos para cimentar esta relíquia
feudal na máquina do Estado.
O custo da coroação para o erário público está estimado em 100 milhões
de libras. A família real britânica poderia facilmente pagar esta festa.
Cálculos recentes situam a riqueza pessoal de Carlos em 1,8 mil milhões
de libras
<https://www.theguardian.com/uk-news/ng-interactive/2023/apr/20/revealed-king-charless-private-fortune-estimated-at-almost-2bn?CMP=Share_iOSApp_Other>. Algumas estimativas apontam para um valor ainda mais elevado. O monarca britânico é "um dos indivíduos mais ricos do mundo", de acordo com o /Financial Times,/ possuindo propriedades no valor de 15,6 mil milhões de libras, para além dos 1,8 mil milhões de libras detidos em terras chamadas Ducados da Cornualha e de Lancaster. A Brand Finance, uma consultora de avaliação de marcas, avalia a riqueza de toda a família em 44 mil milhões de libras!
Terras do Carlos.
Uma parte fundamental da riqueza dos monarcas britânicos é a terra que
afirmam possuir. A família real possui mais de 1% de todas as terras do
Reino Unido – em comparação, os 10 maiores latifundiários dos Estados
Unidos detêm em conjunto 0,7% das terras
<https://www.agriculture.com/farm-management/farm-land/2022-land-report-who-owns-the-most-land-in-the-united-states>.
O direito da família a estas terras e ao rendimento com elas obtido é
duvidoso. Certamente, estas terras deveriam fazer parte do património
nacional e não ser propriedade de uma só família. De facto, após a
guerra civil em Inglaterra, em meados da década de 1640, quando a
Inglaterra teve uma república durante dez anos sob o comando de
Cromwell, estas terras foram nacionalizadas. Com a restauração da
monarquia sob o último rei Carlos, a família real Stuart recuperou-as. A
política do Partido Trabalhista na década de 1930 consistia em torná-las
propriedade pública, mas o governo trabalhista após a Segunda Guerra
Mundial não conseguiu pô-la em prática.
A propriedade do Ducado da Cornualha aumentou para mais de 130 000 acres
[526 km^2 ] em 20 condados do sul de Inglaterra e do País de Gales. Os
ativos incluem terras agrícolas e florestais, bem como o campo de
críquete Oval em Londres, escritórios, alugueres para férias e
empreendimentos residenciais. A família também beneficia do Crown Estate
– mais uma coleção de propriedades de terra, esta com origem na
conquista normanda no século XI. Atualmente, este portfólio de 15,6 mil
milhões de libras esterlinas (19,4 mil milhões de dólares) inclui
propriedades importantes como a Regent Street, em Londres, o Windsor
Estate, centros comerciais, grande parte da costa e até o fundo marinho
até 12 milhas náuticas da costa. O arrendamento do leito do mar para
parques eólicos
<https://www.washingtonpost.com/world/2023/01/19/king-charles-crown-estate-wind-farms/> está a contribuir para o aumento dos lucros.
Ao contrário dos ducados, a propriedade da Coroa é gerida pelo governo e
os seus lucros revertem a favor do tesouro do Estado. Mas uma
determinada percentagem vai para a realeza, sob a forma de "Subsídio do
Soberano", destinado a viagens e espetáculos oficiais, manutenção da
propriedade e salários dos funcionários. Uma cláusula de "catraca
dourada"
<https://www.gov.uk/government/publications/sovereign-grant-act-2011-guidance/sovereign-grant-act-2011-guidance#determination-of-the-sovereign-grant> /(golden ratchet)/ significa que o subsídio anual não pode diminuir, mesmo que os lucros diminuam. O último Subsídio Soberano ascendeu a 86,3 milhões de libras – ou seja, 1,29 libras por pessoa na Grã-Bretanha (cerca de 1,60 dólares). Além disso, a segurança da família real é paga separadamente, a partir do orçamento da Polícia Metropolitana e estima-se que seja consideravelmente maior do que o subsídio soberano.
Outras partes da enorme riqueza do monarca britânico estão em posses
obscuras, como a coleção filatélica real, considerada a melhor coleção
de selos do mundo
<https://www.theguardian.com/uk-news/2023/apr/13/revealed-official-gifts-to-royal-family-contained-in-100m-private-stamp-collection>, contendo centenas de milhares de selos, alguns dos quais foram obtidos pelo bisavô de Carlos, Jorge V, nos Correios Britânicos e nas colónias, no valor de pelo menos 100 milhões de libras. Além disso, o pai de Carlos, Filipe, e a avó do rei, a rainha-mãe, eram ávidos colecionadores de arte e compraram muitas peças a preços de saldo que, se fossem vendidas hoje, teriam um valor muito superior ao preço original. Entre elas conta-se um Monet comprado pela rainha-mãe em Paris, pouco depois da Segunda Guerra Mundial, quando os preços eram baixos, por 2 000 libras. Um avaliador de arte estimou que poderia valer atualmente 20 milhões de libras. Além disso, quase 400 peças de arte conhecidas (pode haver mais) nas coleções reais "privadas" ou "pessoais" estão avaliadas em 24 milhões de libras. Muitas delas foram "presentes" de potentados estrangeiros.
A coroa que o rei Carlos III usará na coroação de hoje pesa cinco libras
[2,27 kg] de ouro maciço, veludo, arminho e pedras preciosas. Outra
coroa é adornada com 2.868 diamantes. A Carlos serão também entregues
cetros com joias, espadas, anéis e um globo. Depois, percorrerá as ruas
de Londres numa carruagem dourada. Na verdade, o valor de todas as 54
joias privadas "pertencentes" ao monarca está estimado em 533 milhões de
libras.
E há ainda outros direitos privados bizarros. O novo rei será
tecnicamente proprietário de todos os cisnes
<https://www.washingtonpost.com/world/europe/britains-queen-is-counting-her-swans-in-a-ritual-with-much-poop-and-circumstance/2018/07/19/8eb7d1be-7f01-11e8-a63f-7b5d2aba7ac5_story.html> da Inglaterra e do País de Gales e de uma série de criaturas marinhas, incluindo todas as baleias, golfinhos e botos das águas do Reino Unido.
Rolls Royce Phantom.
Estes são os ativos físicos, mas a realeza também recebe serviços
gratuitos, por exemplo, vive em palácios e outras casas financiadas pelo
Estado, mas para seu uso pessoal exclusivo. Na verdade, existe uma
dificuldade real em separar a riqueza privada da família da propriedade
pública. A família real tem uma frota de carros de luxo para uso em
atividades e eventos públicos. Mas estes "carros do Estado" são muitas
vezes utilizados em privado, como foi o caso da Princesa Eugenia, que
nunca foi uma realeza ativa, que chegou ao seu casamento num Rolls-Royce
Phantom VI
<https://www.royal.uk/wedding-princess-eugenie-and-jack-brooksbank-bridal-car> de 1977 "de Estado" no valor de 1,3 milhão de libras.
Uma política
<https://www.royal.uk/sites/default/files/media-packs/gifts_policy_2003.pdf> recente afirma que os presentes recebidos numa "capacidade oficial" não são "propriedade privada" da família real. Ainda assim, a ambiguidade do termo "oficial" permitiu que a falecida Rainha Isabel reivindicasse cavalos oferecidos por líderes mundiais <https://www.theguardian.com/uk-news/2023/apr/07/royals-made-almost-2m-from-sale-of-horses-received-as-gifts-from-prominent-figures> como presentes pessoais que não precisavam de ser declarados.
E depois há os impostos. Ou a ausência deles. Carlos não pagou um único
cêntimo
<https://www.theguardian.com/uk-news/2022/sep/13/king-charles-will-not-pay-tax-on-inheritance-from-the-queen#:~:text=King%20Charles%20will%20not%20pay%20tax%20on%20the%20fortune%20he,lead%20in%20paying%20income%20tax.> de imposto sucessório sobre a fortuna que a falecida Rainha lhe deixou no ano passado. O património do Ducado da Cornualha, no valor de mil milhões de libras – anteriormente herdado por Carlos e recentemente transferido <https://www.theguardian.com/uk-news/2022/sep/09/duchy-of-cornwall-estate-worth-1bn-passes-to-prince-william> para o seu herdeiro, o Príncipe Guilherme – não está sujeito ao imposto sobre as sociedades nem ao imposto sobre as mais-valias. O Ducado de Lancaster proporciona, a quem se sentar no trono, lucrativos pagamentos anuais de cerca de 20 milhões de libras por ano <https://www.theguardian.com/uk-news/ng-interactive/2023/apr/05/revealed-royals-took-more-than-1bn-income-from-controversial-estates-king-charles-queen-duchies-cornwall-lancaster>. Mais uma vez, sem impostos. Carlos "ofereceu-se" para pagar o imposto sobre o rendimento. Como diz o jornal /The Guardian:/ "Oferecer-se para pagar impostos é um pouco como um criminoso procurado que se oferece para se entregar às autoridades. Não parece ser algo em que o resto da população tenha escolha". É obrigatório para o resto de nós, como parte de um contrato social que não se aplica a esta família real.
A resposta habitual a estas questões é que o monarca britânico está a
prestar um "serviço público" ao país. E o rei Carlos aparentemente está
empenhado em garantir que seja visto a fazer isso
<https://www.theguardian.com/commentisfree/2023/apr/28/billionaire-king-crowned-charity-work-funding-public-services?CMP=share_btn_fb>. E ainda diz que todos nós deveríamos fazer a nossa parte. Carlos exortou toda a gente a celebrar a seu reinado ajudando o banco alimentar local.
A monarquia britânica é um exemplo particular de uma instituição feudal
arcaica que foi convertida numa instituição capitalista com o objetivo
de representar e reforçar a ideia de império. O império britânico,
construído a partir de meados do século XVIII até ao final do século
XIX, foi um dos maiores projetos imperialistas de sempre. A manutenção
de uma monarquia familiar herdada no topo foi um ingrediente vital para
sustentar o império.
A atual família real britânica chama-se Windsor. Tinham apenas uma ténue
pretensão de serem a presente família real. O sítio web real admite que
havia 52 candidatos com melhor pretensão ao trono do que o antepassado
dos Windsors, Georg Ludwig, Eleitor de Hanôver, quando este se tornou
Jorge I em 1714. Os Windsors são, portanto, de origem alemã e
chamavam-se originalmente "Saxe-Coburgo e Gotha" – até que a primeira
guerra mundial com a Alemanha obrigou a uma mudança de nome em 1917. A
família estava intimamente relacionada com as monarquias absolutistas
alemã e russa.
Muitos membros da família têm opiniões políticas extremas. Um livro da
biógrafa norte-americana Kitty Kelley, cuja venda foi proibida na
Grã-Bretanha, conta que a Princesa Margarida, irmã de Isabel II, saiu do
filme /A Lista de Schindler/ a queixar-se de "filmes cansativos sobre o
Holocausto". Kelley: "Do que ela se ressentia era do fedor persistente
da ligação alemã no tempo da guerra que continuava a pairar sobre a sua
família. Os seus segredos de alcoolismo, toxicodependência, epilepsia,
homossexualidade, bissexualidade, adultério, infidelidade e
ilegitimidade não tinham paralelo com a sua relação com o Terceiro Reich".
Poucos se lembram do rei Eduardo VIII (tio de Margarida) que foi forçado
a abdicar em 1936 e que apoiou a Alemanha nazi como salvadora da Europa.
Há fotografias da futura Rainha Isabel a fazer a saudação hitleriana em
criança, em 1933, treinada pelo seu tio que apoiava o nazismo. O marido
de Isabel, o Príncipe Filipe da Grécia, tinha as suas próprias ligações
nazis. As suas irmãs casaram com nobres alemães, um dos quais, o
príncipe Christoph de Hesse, era um coronel das SS do pessoal de
Heinrich Himmler. Em homenagem ao Führer, deram ao filho o nome de Karl
Adolf.
As "tradições" reais que estão a ser representadas hoje em dia remontam,
supostamente, à história da Grã-Bretanha. Mas os rituais de coroações,
casamentos reais, aberturas do parlamento e funerais de Estado são, na
verdade, um produto artificial desenvolvido no século XIX para sustentar
o império britânico. Em 1952, quando Isabel II iniciou o seu reinado,
mais de 70 países e territórios faziam parte do "seu" império. Mas esse
império já estava a desaparecer. Aquando da sua morte, Isabel II
continuava a ser chefe de Estado em apenas 14 países para além da
Grã-Bretanha. E agora seis países das Caraíbas indicaram que tencionam
seguir o mesmo caminho que Barbados e pôr fim à ligação com o Estado
monárquico britânico e à sua exploração da escravatura nessas ilhas.
Já em 1844, Engels observava que: "Este culto repugnante do rei... a
veneração de uma ideia vazia... é o ponto culminante da monarquia". No
entanto, a coroação do novo monarca será amplamente celebrada e
acompanhada. A monarquia britânica mantém uma maioria de apoio. Segundo
a última sondagem
<https://yougov.co.uk/topics/society/articles-reports/2023/05/03/where-does-public-opinion-stand-monarchy-ahead-cor>, 62% dos inquiridos são a favor da manutenção da monarquia. Mas isso é menos do que os 75% de há apenas dez anos. E 25% querem que a monarquia seja substituída por um chefe de Estado eleito. Além disso, entre os britânicos mais jovens (18-24 anos), apenas 36% querem manter a monarquia. E a maioria dos britânicos não quer que o governo pague a coroação de Carlos.
Em
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/m_roberts/coroacao_06mai23.html
6/5/2023
sexta-feira, 5 de maio de 2023
Sudamérica con la fractura del mundo
PABLO GANDOLFO, PERIODISTA ESPAÑOL
*/Estados Unidos se prepara para la guerra contra China en todo el
mundo. La planificación bélica incluye a Sudamérica./* */Su estrategia
tiene dos espacios donde la obsecuencia debe ser total: Europa y América
Latina/…*
Frente al debilitamiento progresivo de su hegemonía mundial —con la
guerra que promovió en Ucrania— Estados Unidos inauguró una nueva fase
en su proyección geoestratégica, la fractura del globo para contener a
China. Equivale a reconocer que en una fracción del mundo, Estados
Unidos no será hegemónico, y China y sus aliados tendrán su parte. Lo
cual no es lo mismo que decir que el aparato de estado norteamericano se
vaya a resignar pasivamente.
Esa estrategia tiene dos espacios donde la obsecuencia debe ser total:
Europa y América Latina. En Europa, todo marchaba según lo planeado, la
guerra en Ucrania obró como fuerza centrípeta, la OTAN se muestra
revigorizada, las burguesías europeas no se desalinearon a pesar de que
el capital estadounidense utiliza el conflicto para ganar competitividad
respecto a ellas, y la posibilidad de que esa marcha se rompa no pasa
por las élites sino por la reacción de los pueblos, a medida que las
burguesías trasladan la factura —creciente— hacia sus propias clases
trabajadoras.
Sin embargo, en las últimas semanas aparecieron síntomas de
resquebrajamiento de ese orden. Un pueblo con larga tradición de
revueltas —el francés— se levantó contra una reforma jubilatoria. Cuál
será la jubilación que los franceses tengan es un tema sobre el cual
también influye —y mucho— cómo se resuelva el conflicto en Ucrania.
Como venimos desarrollando en artículos anteriores en El Salto, hoy
menos que nunca, podemos leer el acontecer como fragmentos inconexos,
sin vinculación. Pero, hoy más que nunca, los medios de comunicación
hegemónicos tienden a presentarnos la información de ese modo. Está en
curso una batalla por el reordenamiento del mundo, y cada movimiento
afecta a todos los demás. No solo a los países, también a las clases
sociales dentro de ellos, y a las fracciones de clase. Las relaciones de
fuerza entre clases sociales dentro de un país tienen un correlato en su
política exterior. Y viceversa.
El cambio de relaciones de fuerza en la sociedad francesa producto de
ese levantamiento es uno de los motores detrás de las declaraciones de
Emmanuel Macron durante su viaje de vuelta desde China, las más
disonantes hacia el alineamiento automático con Estados Unidos que un
alto funcionario europeo haya realizado en más de un año de conflicto.
Macron dijo que “Europa debe reducir su dependencia de Estados Unidos y
evitar verse arrastrada a una confrontación entre China y Estados Unidos
por Taiwán”. Agregó que de no hacerlo “el gran riesgo” es “quedar
atrapada en crisis que no son las nuestras, lo que le impide construir
su autonomía estratégica”. Y sacó una conclusión lapidaria: “Si las
tensiones entre las dos superpotencias aumentan… no tendremos el tiempo
ni los recursos para financiar nuestra autonomía estratégica y nos
convertiremos en vasallos”.
Uno de los tres periodistas a los cuales Macron concedió la entrevista
era del medio Político. Al final de la nota aclara que el contenido fue
revisado y pulido por los asesores de Macron. Y termina diciendo que
“algunas partes de la entrevista en las que el presidente habló aún más
francamente sobre Taiwán y la autonomía estratégica de Europa fueron
eliminadas por el Elíseo”. El presidente francés fue aún más crudo en la
realidad que en la versión lavada que nos llega.
*La guerra llega al cono sur*
En América Latina, el imperativo geoestratégico estadounidense aún no se
expresa con la claridad que lo hace al otro lado del Atlántico, pero ya
clarea en el horizonte. En el subcontinente las piezas decisivas son
Brasil y Argentina. Centroamérica carece de fuerza para marcar el rumbo,
y el margen de maniobra de México, dado los nudos de dependencia
respecto a la economía estadounidense, son limitados.
Además, el país azteca busca beneficiarse —¿ingenuamente?— de la nueva
geoeconomía que pretende construir Washington con el near, friend y
ally-shoring [cadenas de suministro], acortando las cadenas de valor, y
utilizando al país como plataforma cercana para mano de obra barata, en
reemplazo del Sudeste Asiático y China. El nearshoring tiene una faceta
comercial pero tiene otra militar, que es prepararse para una guerra de
una escala diferente a las que conocimos en las últimas décadas.
En Beijing —parece que la capital china insufla de valentía a los
mandatarios occidentales— Lula abordó un tema muy sensible para Estados
Unidos y se sumó a la pléyade de iniciativas tendientes a comerciar por
fuera del dólar: “¿Por qué todos los países necesitan hacer su comercio
respaldado por el dólar? ¿Por qué no podemos comerciar con nuestras
propias monedas? ¿Quién decidió que fuera el dólar?”. Lo hizo en una
circunstancia cargada de simbolismos, mientras Dilma Rousseff asumía
como presidenta del Nuevo Banco de Desarrollo (NDB) de los BRICS, que
pretende ser la contracara del FMI.
Lula también se refirió a la situación de Argentina: “No le corresponde
a un banco asfixiar la economía de una nación como lo está haciendo
ahora el FMI con Argentina, como lo hizo con Brasil durante tanto tiempo
y como lo hizo con los países del tercer mundo. Ningún gobernante puede
trabajar con un cuchillo en la garganta porque tenga deudas“. También
denunció que el FMI toma a los países como rehenes: “Cuando el Fondo
Monetario Internacional o cualquier otra institución presta a un país
del tercer mundo, la gente se siente en el derecho de mandar, de
administrar las cuentas de esas naciones, como si fueran sus rehenes”. Y
encomió a Dilma Rousseff a que el NBD “preste dinero con miras a ayudar
a los países en desarrollo y no sofocarlos”.
Las palabras de Lula encierran un diagnóstico. La deuda externa y el
Fondo Monetario Internacional son los instrumentos principales para
lograr un sometimiento pleno de Buenos Aires a los de Estados Unidos. La
acuciante necesidad de dólares sirve para ceñir la soga alrededor del
cuello. Lo curioso es que Argentina genera los dólares que necesita,
pero el capital financiero internacional encontró en la deuda externa,
con la complicidad de la lumpen-burguesía local, la manera de devolver
esos dólares a Wall Street y reciclarlos, sumiendo al país en una
escasez cíclica.
El Gobierno anterior, encabezado por Mauricio Macri, un empresario
especializado en negocios reñidos con la legalidad, tomó 100.000
millones de dólares de nueva deuda externa. No fueron utilizados para
realizar inversiones productivas sino para pasar de pesos a dólares las
ganancias de las empresas y girarlos al exterior.
La negociación que se cerró Argentina con el FMI en marzo de 2022,
contiene condicionalidades que ya tiene a la Argentina a las puertas de
la peor crisis económica, social y política de su historia
El actual Gobierno recibió un esquema de pagos que era imposible de
cumplir, que incluía 18.901 millones de dólares en 2022 y 19.144 en
2023. La imposibilidad de pago no era un error de cálculo, sino parte
del programa original. Esa incapacidad renueva la necesidad de
renegociar imponiendo al país nuevas condiciones. La negociación que se
cerró en marzo de 2022, contiene condicionalidades que ya tiene a la
Argentina a las puertas de la peor crisis económica, social y política
de su historia. Sin embargo, este acuerdo tampoco fue escrito para ser
cumplido sino para que llegado el momento, sea un nuevo instrumento para
imponer al país la condiciones que la situación haga pertinentes. En ese
punto, las finanzas dan paso a la geopolítica.
* “La tierra me quiere arrebatar”*
La ofensiva desarrollada en el último mes sobre la Argentina es
ostensible. Veinte días atrás, el presidente argentino, Alberto
Fernández, estuvo en las antípodas de Beijing —Washington— y sus
declaraciones fueron también la contracara de las de Macron y Lula. En
la comunicación oficial consignada por la Casa Blanca, señala que los
presidentes hablaron sobre “minerales críticos, cambio climático, el
espacio y la tecnología”. Hay que recordar esos temas.
En una entrevista posterior al encuentro, el presidente argentino
transparentó el núcleo de la relación, “ayuda” financiera a cambio de
que Argentina entregue recursos invalorables: “Somos grandes productores
de alimentos, somos grandes proveedores de gas, y el primer importador
de litio de Argentina es EE UU (…) Concretamos esta reunión con los
equipos para poder trabajar en estos asuntos, sabiendo que Argentina
está viviendo una situación particularmente difícil”. En la misma
entrevista el presidente dijo que Biden mencionó la presencia de
empresas chinas en obras de infraestructura.
Entre esas preocupaciones —esto no fue mencionado en declaraciones
públicas de ninguno de los presidentes, pero se puede reconstruir a
partir de documentos y declaraciones de otros personeros de EE UU, en
especial la jefa del Comando Sur, la generala de cuatro estrellas Laura
Jane Richardson— se cuentan cinco temas críticos:
1 – Que Huawei no se quede con el 5G. El crecimiento del ancho de banda
permitirá correr sobre ella sistemas militares, inteligencia artificial,
internet de las cosas y más.
2 – Que China no construya la central nuclear Atucha 3. Según
científicos argentinos la iniciativa permitiría realizar avances propios
en el sector atómico nacional.
3 – No realizar la compra de aviones caza chinos Jf-17 para la Fuerza
Aérea, mucho menos fabricarlos.
4 – Rechazar la participación China en el puerto de Ushuaia y Río
Grande, ubicados en el extremo sur, a pocos kilómetros del Estrecho de
Magallanes. El único lugar por donde pasar del Océano Atlántico al
Pacífico en el caso de que el canal de Panamá estuviera cerrado.
5 – Que no haya empresas chinas operando en la vía navegable del Río Paraná.
* “Me acosa con la gloria perdida de su dios”*
Una mención muy especial, por el tono amenazante y su insolencia,
merecen las palabras pronunciadas por la congresista republicana María
Elvira Salazar durante una audiencia legislativa en Washington el 1 de
abril: “Voy a usar este foro para mandar un mensaje a los argentinos,
específicamente a la vicepresidenta. Quiero hacerlo en español, porque
tal vez no te escuchen y tal vez me escuchen a mí. Para advertirles que
si deciden construir una fábrica de aviones, de cazas de guerra chinos
es una muy mala idea para ellos, y para todo lo que tiene que ver con la
relación con EE UU”. Dijo en inglés y cambió de idioma: “Lo voy a decir
en español para que quede muy bien claro a mis amigos argentinos. Su
presidenta y su presidente (sic) están haciendo un pacto con el diablo
que puede tener consecuencias de proporciones bíblicas. EE UU no se va a
quedar con los brazos cruzados, porque no se puede tener un aliado que
fabrique y exporte aviones militares chinos y que los venda a los
vecinos. Hay dos mundos, el mundo libre y el mundo de los esclavos,
espero que los argentinos se queden en el mundo libre”. A María Elvira,
la sororidad la tiene sin cuidado.
Gracias al Espíritu Santo y su capacidad de obrar milagros, el mensaje
de los evangelios de nuestra época —el sacrosanto capital financiero— se
expresó 30 días después y comenzó a descargar su furia contra el país de
esclavos que realiza pactos con Belcebú. Para hacerlo decidió apoderarse
en cuerpo y alma de la humanidad de Loretta Preska, una jueza del
distrito Sur de Manhattan que falló contra el Estado Argentino y a favor
de dos fondos de inversión en la expropiación de la petrolera nacional
YPF, la empresa más importante del país. Quiénes se beneficiaron
instantáneamente fueron los propietarios de acciones de Buford Capital
—uno de los dos fondos— que subieron un 67% en la semana con un pico
superior al 80%.
El Tribunal Superior de Reino Unido falló en favor de cuatro fondos
buitres y condena a Argentina a pagar 1.330 millones por modificar en
2013 la forma de medir el PBI
Con ese juicio, una espada de Damocles de entre 8.000 y 20.000 millones
de dólares, amenaza a la petrolera estatal que está sentada sobre Vaca
Muerta, el segundo yacimiento de shale gas más importante del mundo y el
cuarto en petróleo. Un diez en geopolítica para el Espíritu Santo.
Cinco días después de ese fallo llegó otro, esta vez desde Londres por
un monto de 1.330 millones de euros. El Tribunal Superior falló en favor
de cuatro fondos buitres por haber modificado en 2013 la forma de
medición del PBI, evitando que tenedores de bonos cobrarán un adicional
atado a esa variable. Mediante los tratados internacionales, el capital
financiero maniató a los países de tal forma que ni siquiera tienen
soberanía para modificar la forma de elaborar sus estadísticas.
La sumatoria de todos los elementos —estos últimos pero también los
mencionados por Biden y Fernández— cobran pleno sentido cuando se los
enfoca bajo la lupa de un trabajo escrito por Evan Ellis, quien oficia
de profesor e investigador en la Escuela de Guerra del Ejército de
Estados Unidos. Bajo esa mirada aparece que detrás de un velo comercial,
de lo que se trata para los estrategas estadounidenses es un tema
militar de cara a una Tercera Guerra Mundial, esta vez contra China.
*“Me acosa el carapálida con la guerra sutil”*
El trabajo de Ellis se titula “El papel estratégico de América Latina en
un conflicto global por Taiwán”. Vaticina que es factible que se
produzca una guerra en los próximos diez años y plantea la posibilidad
de que el subcontinente “se convierta en un campo de batalla en tal
conflicto”. En esa hipótesis China estaría trabajando para “garantizar
la continuidad de los suministros de alimentos”, “la colaboración con
Brasil para el acceso al niobio [utilizado para industria aeroespacial y
superconductores], y con Argentina, Chile, Bolivia y México para
garantizar los flujos de litio”.
Ellis parte del concepto que toda presencia civil china es
potencialmente un instrumento militar en caso de conflicto: “Las
empresas con sede en la República Popular China que operan en la región
podrían servir como un conducto lógico para albergar y apoyar a este
personal, así como a cualquier equipo especial que traigan. El personal
chino asignado a tales compañías, (…) apoyaría la información sobre las
condiciones locales, incluidas las relaciones con figuras políticas y la
población en general, información logística y técnica, y otras
características del terreno”.
Bajo la lógica estadounidense, si China ataca Taiwán, la responsabilidad
será de los gobernantes latinoamericanos, que permitieron que demasiadas
empresas chinas comercien con el continente
Ese personal podría actuar en “la preparación para la interrupción de
instalaciones clave o rutas de interés para los EE UU como el Canal de
Panamá”. Por eso es importante que China no participe en la construcción
de puertos en Tierra del Fuego debido al “valor estratégico de las
instalaciones para el control del Estrecho de Magallanes. Los incentivos
para que los chinos utilicen dicha instalación, y para que el Gobierno
argentino lo permita, se verían complementados por su relativa distancia
de EE UU y, por lo tanto, su seguridad frente a los ataques
estadounidenses”.
Las hipótesis incluyen un ataque biológico masivo contra la región: “La
creación de una crisis alimentaria mediante la realización de ataques
biológicos que puedan ser negados de manera plausible, contra las
plantas y los animales de la región, que abastecen a los EE UU”. Dada la
proclividad de los servicios secretos estadounidenses a los ataques de
falsa bandera, la frase también puede interpretarse como una sugerencia
operativa para ayudar a desatar el conflicto.
Una preocupación especial se sitúa en el dominio digital chino debido a
la “información recopilada por (…) Huawei, ZTE, Xiaomi, Oppo y otros
teléfonos inteligentes, datos gubernamentales, personales y comerciales
que viajan a través de las arquitecturas de telecomunicaciones”
El conocimiento que China posee, a través de sus empresas civiles de la
región, facilitaría ataques sobre “infraestructuras críticas en sectores
como las telecomunicaciones, la electricidad, las finanzas y los
puertos, entre otros”. Las acciones podrían incluir “la interrupción de
las cadenas de suministro que apoyan a las empresas clave de defensa” en
particular “minerales críticos”.
Una preocupación especial se sitúa en el dominio digital debido a la
“información recopilada por (…) Huawei, ZTE, Xiaomi, Oppo y otros
teléfonos inteligentes, datos gubernamentales, personales y comerciales
que viajan a través de las arquitecturas de telecomunicaciones de Huawei
y ZTE dominantes en la región, datos contenidos en los servidores en la
nube de Huawei y Alibaba (…) sobre la ubicación y las actividades clave
del Gobierno”. La competidora de Uber, Didi, es mencionada como fuente
de informaciones valiosas. También Hikvision y Dahua, que comercializan
cámaras para vigilancia. Esa información puede ser usada “para atacar a
los líderes políticos y del sector de la seguridad, (…) incluyendo el
chantaje aprovechando el conocimiento de sus vidas personales obtenido a
través del acceso digital anteriormente mencionado”.
Otro tanto vale para el dominio espacial: “El acceso de China a las
arquitecturas espaciales y al personal de América Latina podría darle
importantes oportunidades en tiempos de guerra para capturar señales de
inteligencia u otra información sobre objetivos estadounidenses”.
En particular, los satélites co-desarrollados que incluye cinco con
Brasil, tres con Venezuela y uno con Bolivia. En ese ítem aparece la
“construcción y operación del radar de espacio profundo en Neuquén,
Argentina, gestionado por personal del EPL” y también “la instalación de
búsqueda de alcance láser en el Observatorio de San Juan (…). El acceso
a estas instalaciones espaciales podría proporcionar datos de apoyo a
los ataques chinos desde el espacio contra los EE UU”.
El análisis de escenarios realizado por Evan Ellis incluye la
posibilidad de que en un primer momento del conflicto, China pueda
destruir las flotas navales de Estados Unidos en el Pacífico “a través
de sus misiles balísticos y de crucero antibuque” y pudiera “mantener a
raya las plataformas de proyección de poder de EE UU, como portaaviones,
anfibios y otras naves de superficie”.
Si la dinámica no se modifica radicalmente, Sudamérica pagará muy caro
sus debilidades expresadas diez años atrás, cuando no pudo constituir
una fuerte unidad alrededor de la Unasur
Este escenario es importante para Sudamérica porque el centro de
gravedad del conflicto, pasaría de manera creciente desde la costa
asiática a la de América. Como China no tendrá fuerza para avanzar sobre
la costa estadounidense debería hacerlo sobre áreas más alejadas, donde
Estados Unidos tenga menores posibilidades de proyectar su poder aéreo y
naval, para luego moverse progresivamente hacia el norte. Allí sería
clave la naviera comercial China Shipping, de la cual podemos ver sus
contenedores en cualquier puerto de Sudamérica, que permitiría
“familiaridad operativa” así como “la capacidad de hacer un uso militar
efectivo de cualquier instalación que se vería facilitada por el
conocimiento y las relaciones de trabajo con sus homólogos militares del
país en cuestión”.
El documento termina con una advertencia para a los gobernantes
latinoamericanos: “Es de interés para los líderes políticos y otros en
la región considerar cómo las interacciones militares con el EPL, así
como los proyectos comerciales con empresas con sede en la RPC por parte
de los gobiernos y socios latinoamericanos, en sectores estratégicos
como los puertos, el espacio y el dominio digital, pueden contribuir
indirectamente a la forma en que los chinos podrían buscar explotar las
oportunidades creadas por dichos proyectos en el caso indeseable de que
el creciente enfoque de la administración Xi en la incorporación forzosa
de Taiwán, desate un conflicto de alcance global”. Si China ataca
Taiwán, la responsabilidad será de los gobernantes latinoamericanos, que
permitieron que demasiadas empresas chinas comercien con el continente.
Una década más tarde, la región asiste como un espectador privilegiado,
sin voz ni voto, a la planificación del choque en su propio territorio
por la reconfiguración del mundo
Más allá de la relación problemática que vincula a Evan Ellis con el
razonamiento lógico, si la dinámica no se modifica radicalmente,
Sudamérica pagará muy caro sus debilidades expresadas diez años atrás,
cuando no pudo constituir una fuerte unidad alrededor de la Unasur —que
hoy intenta resucitar— que permitiera blindar el subcontinente. Una
década más tarde, la región asiste como un espectador privilegiado, sin
voz ni voto, a la planificación del choque en su propio territorio por
la reconfiguración del mundo.
Em
OBSERVATORIO DE LA CRISIS
https://observatoriocrisis.com/2023/05/05/sudamerica-en-peligro-con-la-fractura-del-mundo/
5/5/2023
terça-feira, 2 de maio de 2023
Sobre a guerra que está para vir. Manifeste-se agora.
John Pilger [*]
Manifestação anti-guerra.
Em 1935, o Congresso de Escritores Americanos foi realizado na cidade de
Nova York, seguido por outro dois anos depois. Eles convocaram "as
centenas de poetas, romancistas, dramaturgos, críticos, roteiristas e
jornalistas" a discutir o "rápido desmoronamento do capitalismo" e o
anunciar de uma outra guerra. Foram eventos eletrizantes que, segundo um
relato, contaram com a presença de 3.500 membros do público, com mais de
mil recusados.
Arthur Miller, Myra Page, Lillian Hellman e Dashiell Hammett advertiram
que o fascismo estava em ascensão, muitas vezes disfarçado, e a
responsabilidade de se manifestar era dos escritores e jornalistas.
Telegramas de apoio de Thomas Mann, John Steinbeck, Ernest Hemingway, C
Day Lewis, Upton Sinclair e Albert Einstein foram lidos.
A jornalista e romancista Martha Gellhorn defendeu os sem-teto e os
desempregados e "todos nós sob a sombra de um grande poder violento".
Martha, que se tornou uma amiga próxima, disse-me mais tarde, tomando
seu habitual copo do /Famous Grouse/ com água soda: “A responsabilidade
que sentia como jornalista era imensa. Eu havia testemunhado as
injustiças e o sofrimento causados pela Depressão e sabia, todos nós
sabíamos, o que aconteceria se os silêncios não fossem rompidos”.
As suas palavras ecoam nos silêncios de hoje: são silêncios preenchidos
por um consenso de propaganda que contamina quase tudo o que lemos,
vemos e ouvimos. Deixe-me dar um exemplo:
Em 7 de março, os dois jornais mais antigos da Austrália, o /Sydney
Morning Herald/ e /The Age,/ publicaram várias páginas sobre "a ameaça
iminente" da China. Eles coloriram o Oceano Pacífico de vermelho. Os
olhos chineses eram marciais, em marcha e ameaçadores. O Perigo Amarelo
estava prestes a despenhar-se como se pelo peso da gravidade.
Nenhuma razão lógica foi dada para um ataque da China à Austrália. Um
"painel de peritos" não apresentou qualquer evidência confiável: um
deles é um ex-diretor do Australian Strategic Policy Institute, uma
fachada do Departamento de Defesa em Canberra, do Pentágono em
Washington, dos governos da Grã-Bretanha, Japão e Taiwan e da indústria
de guerra do Ocidente.
"Pequim pode atacar dentro de três anos", advertiram eles. "Não estamos
prontos". Milhares de milhões de dólares serão gastos em submarinos
nucleares americanos, mas isso, ao que parece, não é suficiente. “As
férias australianas da história estão acabadas”: o que quer que isso
signifique.
Não existe ameaça para a Austrália, nenhuma. O distante país "perfeito"
não tem inimigos, muito menos a China, seu maior parceiro comercial. No
entanto, criticar a China, que se baseia na longa história de racismo da
Austrália em relação à Ásia, tornou-se uma espécie de desporto para os
auto-denominados "peritos". O que os chineses-australianos acham disso?
Muitos estão confusos e com medo.
Os autores desta grotesca peça de mau gosto e subserviência ao poder
americano são Peter Hartcher e Matthew Knott, "repórteres de segurança
nacional", acho que são assim chamados. Lembro-me de Hartcher de seus
passeios pagos pelo governo israelense. O outro, Knott, é um porta-voz
dos engravatados em Canberra. Nenhum dos dois jamais viu uma zona de
guerra e seus extremos de degradação e sofrimento humano.
"Como se chegou a isto?" diria Martha Gellhorn se estivesse aqui. "Onde
diabos estão as vozes a dizerem não? Onde está a camaradagem?"
As vozes são ouvidas no samizdat deste sítio web e de outros. Na
literatura, nomes como John Steinbeck, Carson McCullers, George Orwell
estão obsoletos. O pós-modernismo agora está no comando. O liberalismo
subiu sua escada política. Outrora uma sonolenta social-democracia, a
Austrália, promulgou uma teia de novas leis protegendo o poder secreto e
autoritário e impedindo o direito de saber. Denunciantes são foras da
lei, a serem julgados em segredo. Uma lei especialmente sinistra proíbe
a "interferência estrangeira" daqueles que trabalham para empresas
estrangeiras. O que significa isto?
A democracia agora é fictícia agora; existe a elite todo-poderosa das
corporações fundida com o estado e as exigências de "identidade". Os
almirantes americanos recebem milhares de dólares por dia do
contribuinte australiano para "aconselhamento". Em todo o Ocidente,
nossa imaginação política foi pacificada por relações públicas e
distraída pelas intrigas de políticos corruptos e ordinários: um Johnson
ou um Trump ou um Sonolento Joe ou um Zelensky.
Julian Assange numa prisão britânica de alta segurança.
Em 2023 nenhum congresso de escritores se preocupa com o "capitalismo em
ruínas" e as provocações letais de "nossos" líderes. O mais infame
deles, Blair, um criminoso prima facie sob o Padrão de Nuremberg, é
livre e rico. *Julian Assange*, que desafiou os jornalistas a provarem o
que seus leitores tinham o direito de saber, está na sua segunda década
de encarceramento.
A ascensão do fascismo na Europa é incontroversa. Ou "neonazismo" ou
"nacionalismo extremo", como preferir. A Ucrânia, como colmeia fascista
da Europa moderna, viu o ressurgimento do culto a Stepan Bandera , o
apaixonado anti-semita e assassino em massa que elogiou a "política
judaica" de Hitler, que massacrou 1,5 milhão de judeus ucranianos.
"Colocaremos suas cabeças aos pés de Hitler", proclamava um panfleto
banderista aos judeus ucranianos.
Hoje, Bandera é venerado como herói na Ucrânia ocidental e dezenas de
estátuas dele e de seus companheiros fascistas foram pagas pela UE e
pelos EUA, substituindo as de gigantes culturais russos e outros que
libertaram a Ucrânia dos nazistas originais.
Em 2014, neonazis desempenharam um papel fundamental num golpe
financiado pelos americanos contra o presidente eleito, Viktor
Yanukovych, acusado de ser "pró-Moscovo". O regime golpista incluía
proeminentes "nacionalistas extremistas" – nazis em tudo, exceto no nome.
A princípio, isso era amplamente noticiado pela BBC e pelos media
europeus e americanos. Em 2019, a revista /Time/ apresentou as
" milícias supremacistas brancas " ativas na Ucrânia. A NBC News
informava que, "o problema nazi da Ucrânia é real". A imolação de
sindicalistas em Odessa foi filmada e documentada.
Liderados pelo regimento Azov, cuja insígnia, o "Wolfsangel", tornou-se
infame pelas SS alemãs, os militares da Ucrânia invadiram a região
oriental do Donbass, onde se fala russo. De acordo com as Nações Unidas,
14.000 foram mortos no leste. Sete anos depois, com as conferências de
paz de Minsk sabotadas pelo Ocidente, como confessou Angela Merkel, o
Exército Vermelho invadiu.
Esta versão dos eventos não foi relatada no Ocidente. Dizer isto é
suficiente para ser denunciado como um "apologista de Putin",
independentemente de o escritor (como eu) ter condenado a invasão
russa. Compreender a extrema provocação que uma fronteira armada pela
NATO, a Ucrânia, a mesma fronteira pela qual Hitler invadiu, apresenta a
Moscovo, é um anátema.
Jornalistas que viajaram para o Donbass foram silenciados ou até
perseguidos no seu próprio país. O jornalista alemão Patrik Baab perdeu
o emprego e uma jovem repórter freelance alemã, Alina Lipp, teve sua
conta bancária bloqueada.
Na Grã-Bretanha, o silêncio da intelectualidade liberal é o silêncio da
intimidação. Questões patrocinadas pelo Estado, como Ucrânia e Israel,
devem ser evitadas se você quiser manter um emprego no campus ou um
cargo de professor. O que aconteceu com Jeremy Corbyn em 2019 é repetido
nos campi onde os oponentes do apartheid de Israel são displicentemente
tachados de antissemitas.
O professor David Miller, ironicamente a principal autoridade do país em
propaganda moderna, foi demitido pela Universidade de Bristol por
sugerir publicamente que os "ativos" de Israel na Grã-Bretanha e seu
lobby político exerceram uma influência desproporcional em todo o mundo
– um facto para o qual a evidência é volumosa.
A universidade contratou um QC importante para investigar o caso de
forma independente. Seu relatório exonerou Miller sobre a "importante
questão da liberdade de expressão académica" e concluiu que "os
comentários do professor Miller não constituíam discurso ilegal". No
entanto, a Universidade de Bristol o demitiu. A mensagem é clara: não
importa o ultraje perpetrado, Israel tem imunidade e seus críticos devem
ser punidos.
Alguns anos atrás, Terry Eagleton, então professor de literatura inglesa
na Universidade de Manchester, afirmou que “pela primeira vez em dois
séculos, não há nenhum poeta, dramaturgo ou romancista britânico
eminente preparado para questionar os fundamentos do modo de vida
ocidental”.
Nenhum Shelley falou pelos pobres, nenhum Blake por sonhos utópicos,
nenhum Byron condenou a corrupção da classe dominante, nenhum Thomas
Carlyle e John Ruskin revelaram o desastre moral do capitalismo. William
Morris, Oscar Wilde, HG Wells, George Bernard Shaw não tinham
equivalentes hoje. Harold Pinter estava vivo na época, "o último a
levantar a voz", escreveu Eagleton.
De onde veio o pós-modernismo – a rejeição da política real e a
dissidência autêntica? A publicação em 1970 do best-seller de Charles
Reich, The Greening of America , oferece uma pista. A América estava
então em estado de convulsão; Nixon estava na Casa Branca, uma
resistência civil, conhecida como "o movimento", irrompeu das margens da
sociedade em meio a uma guerra que atingiu quase todos. Em aliança com o
movimento dos direitos civis, apresentou o mais sério desafio ao poder
de Washington em um século.
Na capa do livro de Reich estavam estas palavras: "Há uma revolução
chegando. Não será como as revoluções do passado. Terá origem no
indivíduo".
Na época, eu era correspondente nos Estados Unidos e lembro-me da
elevação, do dia para a noite, de Reich, um jovem académico de Yale, ao
status de guru. O /New Yorker/ havia serializado sensacionalmente seu
livro, cuja mensagem era que a "ação política e a verdade" da década de
1960 haviam falhado e apenas "cultura e introspecção" mudariam o
mundo. Parecia que a ideologia hippie estava reivindicando as classes
consumidoras. E em certo sentido estava.
Dentro de alguns anos, o culto do “eu-ismo” havia quase subjugado o
senso de ação conjunta de muitas pessoas, de justiça social e
internacionalismo. Classe, género e raça foram separados. O pessoal era
o político e os media eram a mensagem. Ganhe dinheiro, dizia.
Quanto ao "movimento", suas esperanças e canções, os anos de Ronald
Reagan e Bill Clinton acabaram com tudo isso. A polícia estava agora em
guerra aberta com os negros; Os notórios projetos de bem-estar de
Clinton quebraram recordes mundiais no número de negros enviados para a
prisão.
Quando aconteceu o 11 de setembro, a fabricação de novas "ameaças" na
"fronteira da América" (como o Projeto para um Novo Século Americano
chamou o mundo) completou a desorientação política daqueles que, 20 anos
antes, teriam formado uma oposição veemente.
*Nos anos seguintes, a América entrou em guerra com o mundo.*
De acordo com um relatório amplamente ignorado pelos Médicos pela
Responsabilidade Social, Médicos pela Sobrevivência Global e pelos
Médicos Internacionais vencedores do Prémio Nobel pela Prevenção da
Guerra Nuclear, o número de mortos na "guerra contra o terror" dos
Estados Unidos foi de "pelo menos" 1,3 milhão no Afeganistão, Iraque e
Paquistão.
Este número não inclui os mortos das guerras lideradas e alimentadas
pelos EUA no Iémen, Líbia, Síria, Somália e além. O número real, disse o
relatório, "pode muito bem ser superior a 2 milhões [ou] aproximadamente
10 vezes maior do que o público, especialistas e decisores têm
conhecimento e [é] propagado pelos media e pelas principais ONGs".
"Pelo menos" um milhão foram mortos no Iraque, dizem os médicos, ou
cinco por cento da população.
A enormidade dessa violência e sofrimento parece não ter lugar na
consciência ocidental. "Ninguém sabe quantos" é o refrão dos media.
Blair e George W. Bush – e Straw e Cheney e Powell e Rumsfeld e
outros – nunca correram o risco de serem processados. O maestro da
propaganda de Blair, Alistair Campbell, é celebrado como uma
"personalidade dos media".
Em 2003, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, o
aclamado jornalista investigador. Discutimos a invasão do Iraque alguns
meses antes. Perguntei-lhe: "E se os media constitucionalmente mais
livres do mundo tivessem desafiado seriamente George W. Bush e Donald
Rumsfeld e investigado suas alegações, ao invés de espalhar o que acabou
sendo propaganda grosseira?"
Ele respondeu. "Se nós, jornalistas, tivéssemos feito nosso trabalho,
haveria uma possibilidade muito boa de não termos ido à guerra no Iraque."
Fiz a mesma pergunta a Dan Rather, o famoso âncora da CBS, que me deu a
mesma resposta. David Rose, do Observer, que havia promovido a "ameaça"
de Saddam Hussein , e Rageh Omaar, então correspondente da BBC no
Iraque, me deram a mesma resposta. A admirável contrição de Rose por ter
sido "enganada" falou por muitos repórteres desprovidos de coragem para
dizê-lo.
Vale a pena repetir o ponto deles. Se os jornalistas tivessem feito seu
trabalho, tivessem questionado e investigado a propaganda em vez de
ampliá-la, um milhão de homens, mulheres e crianças iraquianos poderiam
estar vivos hoje; milhões poderiam não ter fugido das suas casas; a
guerra sectária entre sunitas e xiitas poderia não ter começado e o
Estado Islâmico poderia não ter existido.
Essa verdade das guerras predatórias iniciadas desde 1945 pelos Estados
Unidos e seus "aliados" e leva a uma conclusão de tirar o fôlego. Isso
já foi levantado nas escolas de jornalismo?
Hoje, a guerra dos media é uma tarefa fundamental do chamado jornalismo
tradicional, reminiscente daquele descrito por um promotor de Nuremberg
em 1945: "Antes de cada grande agressão, com algumas poucas exceções
baseadas na conveniência, eles iniciaram uma campanha de imprensa
calculada para enfraquecer seu vítimas e para preparar psicologicamente
o povo alemão... No sistema de propaganda... era a imprensa diária e o
rádio que eram as armas mais importantes."
Uma das vertentes persistentes na vida política americana é o extremismo
fanático que se aproxima do fascismo. Embora Trump tenha sido creditado
com isso, foi durante os dois mandatos de Obama que a política externa
americana cortejou seriamente o fascismo. Isso quase nunca foi relatado.
"Acredito no excepcionalismo americano com cada fibra do meu ser", disse
Obama, que expandiu um passatempo presidencial favorito, bombardeios e
esquadrões da morte conhecidos como "operações especiais" como nenhum
outro presidente havia feito desde a primeira Guerra Fria.
De acordo com uma pesquisa do Conselho de Relações Exteriores, em 2016
Obama lançou 26.171 bombas. São 72 bombas a cada dia. Ele bombardeou as
pessoas mais pobres e negras: no Afeganistão, Líbia, Iemen, Somália,
Síria, Iraque, Paquistão.
Todas as terças-feiras – informou o New York Times – ele selecionava
pessoalmente aqueles que seriam assassinados por mísseis Hellfire
disparados de drones. Casamentos, funerais, pastores foram atacados,
junto com aqueles que tentavam coletar as partes que enfeitavam o "alvo
terrorista".
Um importante senador republicano, Lindsey Graham , estimou, com
aprovação, que os drones de Obama mataram 4.700 pessoas. "Às vezes você
bate em pessoas inocentes e odeio isso", disse ele, mas eliminamos
alguns membros muito importantes da Al Qaeda.
Em 2011, Obama disse aos media que o presidente líbio Muammar
Gaddafi planeva um "genocídio" contra seu próprio povo.
"Sabíamos...", disse ele, "que se esperássemos mais um dia, Benghazi,
uma cidade do tamanho de Charlotte [Carolina do Norte], poderia sofrer
um massacre que teria repercutido por toda a região e manchado a
consciência do mundo. "
Isso era uma mentira. A única "ameaça" era a iminente derrota dos
fanáticos islâmicos pelas forças do governo líbio. Com seus planos de
reviver o pan-africanismo independente, um banco africano e uma moeda
africana, tudo financiado pelo petróleo líbio, Gaddafi foi lançado como
inimigo do colonialismo ocidental no continente no qual a Líbia era o
segundo estado mais moderno.
Destruir a "ameaça" de Gaddafi e seu estado moderno era o objetivo.
Apoiada pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, a NATO lançou
9.700 ataques contra a Líbia. Um terço visava infraestrutura e alvos
civis, informou a ONU. Ogivas de urânio foram utilizadas; as cidades de
Misurata e Sirte foram bombardeadas. A Cruz Vermelha identificou valas
comuns e a Unicef relatou que "a maioria [das crianças mortas] tinha
menos de dez anos".
Quando Hillary Clinton, secretária de Estado de Obama, soube que Gaddafi
havia sido capturado pelos rebeldes e sodomizado com uma faca, ela riu e
disse para a câmara: "Viemos, vimos, ele morreu!"
No dia 14 de setembro de 2016, o Comité de Relações Exteriores da Câmara
dos Comuns em Londres informou a conclusão de um estudo de um ano sobre
o ataque da NATO à Líbia, que descreveu como uma "série de mentiras" –
incluindo a história do massacre de Benghazi.
O bombardeamento da NATO mergulhou a Líbia num desastre humanitário,
matando milhares de pessoas e deslocando centenas de milhares mais,
transformando a Líbia do país africano com o mais alto padrão de
vida num estado falido devastado pela guerra.
Sob Obama, os EUA estenderam as operações secretas das "forças
especiais" a 138 países, ou 70% da população mundial. O primeiro
presidente afro-americano lançou o que equivalia a uma invasão em grande
escala da África.
Lembrando a disputa pela África no século XIX, o Comando Africano dos
EUA (Africom) desde então construiu uma rede de pedintes entre regimes
africanos colaborativos ávidos por subornos e armamentos americanos. A
doutrina de "soldado para soldado" do Africom incorpora oficiais dos EUA
em todos os níveis de comando, do general ao subtenente. Só capacetes de
miolo estão faltando.
É como se a orgulhosa história de libertação da África, de Patrice
Lumumba a Nelson Mandela, tivesse sido relegada ao esquecimento pela
elite colonial negra de um novo senhor branco. A “missão histórica”
dessa elite, alertou o sábio Frantz Fanon, é a promoção de “um
capitalismo desenfreado, embora camuflado”.
No ano em que a NATO invadiu a Líbia, 2011, Obama anunciou o que ficou
conhecido como o "pivô para a Ásia". Quase dois terços das forças navais
dos EUA seriam transferidos para a Ásia-Pacífico para "enfrentar a
ameaça da China", nas palavras de seu secretário de Defesa.
Não havia ameaça da China; houve uma ameaça à China dos Estados
Unidos; cerca de 400 bases militares americanas formaram um arco ao
longo da orla do centro industrial da China, que um funcionário do
Pentágono descreveu aprovadoramente como um "laço".
Ao mesmo tempo, Obama colocou mísseis na Europa Oriental voltados para a
Rússia. Foi o beatificado ganhador do Prémio Nobel da Paz que elevou os
gastos com ogivas nucleares a um nível superior ao de qualquer governo
dos EUA desde a Guerra Fria – tendo prometido, num discurso emocionado
no centro de Praga em 2009, “ajudar o mundo a livrar-se das armas
nucleares".
Obama e o seu governo sabiam muito bem que o golpe que sua secretária de
Estado assistente, Patricia Nuland, enviada em 2014 para supervisionar o
governo da Ucrânia, provocaria uma resposta russa e provavelmente
levaria à guerra. E assim foi.
Escrevo em 30 de abril, aniversário do último dia da mais longa guerra
do século XX, no Vietname, que denunciei. Eu era muito jovem quando
cheguei a Saigon e aprendi muito. Aprendi a reconhecer o zumbido
característico dos motores dos gigantescos B-52, que lançavam a sua
carnificina acima das nuvens e não poupavam nada nem ninguém; Aprendi a
não me virar quando me deparo com uma árvore carbonizada enfeitada com
partes humanas; Aprendi a valorizar a gentileza como nunca
antes; Aprendi que Joseph Heller estava certo em seu
magistral /Catch-22/ aquela guerra não era adequada para pessoas sãs; e
fiquei sabendo da "nossa" propaganda.
Durante toda aquela guerra, a propaganda dizia que um Vietname vitorioso
espalharia sua doença comunista para o resto da Ásia, permitindo que o
Grande Perigo Amarelo ao norte se espalhasse. Os países cairiam como
"dominós".
O Vietname de Ho Chi Minh foi vitorioso e nada disso aconteceu. Em vez
disso, a civilização vietnamita floresceu, notavelmente, apesar do preço
que pagaram: três milhões de mortos. Os mutilados, os deformados, os
viciados, os envenenados, os perdidos.
Se os atuais propagandistas conseguirem sua guerra com a China, isso
será uma fração do que está para vir. Fale alto.
02/Maio/2023
[*] Jornalista, realizador documentarista, www.johnpilger.com
<https://www.johnpilger.com/>
O original encontra-se em
www.globalresearch.ca/john-pilger-coming-war-speak-up-now/5817726
<https://www.globalresearch.ca/john-pilger-coming-war-speak-up-now/5817726>
Em
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/pilger/guerra_01mai23.html
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