A elite brasileira, ignorante e ensandecida, empobrece
Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.
O jornal Monitor Mercantil em 12/06/2021 (Ano CVII, nº 28.891) coloca a
seguinte notícia na primeira página /Brasil é o País Que Mais Perdeu
Milionários em 2020/. E, no texto, encontramos:
A elite brasileira, ignorante e ensandecida, empobrece. 35554.jpeg
"Houve a diminuição de 81 mil milionários no país. O número total de
milionários no Brasil (adultos com patrimônio acima de US$ 1 milhão)
passou de 375 mil para 294 mil".
*Antes de verificarmos as razões da queda, vamos refletir um pouco sobre
estas quantidades.*
Em 2020, de acordo com o IBGE, o Brasil tinha 211.755.692 de habitantes,
logo 0,14% da população teve patrimônio, na cotação do dia da
publicação, igual ou maior do que R$ 5.280.000,00.
Neste mesmo dia, estava anunciado para venda, no Leblon, bairro dos mais
valorizados na cidade do Rio de Janeiro, à rua Cupertino Durão, com 192
m², quatro quartos e duas vagas na garagem, apartamento por seis milhões
e 300 mil reais, inatingível para os menores destes milionários.
Que elite é essa? Poderia parodiar o roqueiro carioca Renato Russo
(Renato Manfredini Júnior, 1960-1996), onde "ninguém respeita a
Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação" (/Que país é
esse?/, 1987).
*O Monitor Mercantil aponta a razão do portal /Cupom Válido/, que
computou dados da OCDE e do Credit Suisse sobre distribuição de riqueza,
para este declínio, em tempo de concentração de renda: a desvalorização
do real perante o dólar estadunidense (USD). E informa também que o
México, a África do Sul e o Chile seguem, após o Brasil, na ordem de queda.*
Também informa este jornal que 70% da população brasileira têm
patrimônio menor que R$ 50 mil, praticamente quatro anos do salário
mínimo em 2020 (R$ 1.045,00/mês). Entre R$ 50 mil e R$ 500 mil estão 27%
dos brasileiros e, acima dos R$ 500 mil, 3%, onde estão os
recém-empobrecidos milionários.
Compare agora o caro leitor estes insignificantes valores de patrimônios
e salários com a imensa riqueza brasileira. Apenas para ilustrar, vejamos.
*ÁGUA* - Possuímos dois dos maiores aquíferos do mundo: Guarani e Alter
do Chão. Outros também merecem destaque: o Cabeças, o Urucuia-Areado e
Furnas. Considerado o maior do mundo, o aquífero Alter do Chão é o maior
em extensão de água e compreende a região dos estados Amazonas, Pará e
Amapá. Segundo estimativas, seu volume seria suficiente para abastecer
toda a população mundial por 100 vezes, pois alcança 86 mil km³. Em
termos comparativos, o Alter do Chão tem quase o dobro do volume de água
potável que o Guarani, que passa também pela Argentina, Paraguai e
Uruguai. Sua extensão territorial, porém, é menor que a do aquífero que
abastece os outros países sul-americanos - o Guarani se encontra em
alarmante estado de degradação, por estar localizado em uma região
populosa e poluída, a Centro-leste do continente.
Quando o assunto é a reserva do Alter do Chão, é importante enfatizar o
seu alcance: para se ter uma ideia, a região de Manaus tem cerca de 40%
do seu abastecimento de água proveniente da formação, e a reserva
fornece ainda 30% da água consumida na cidade de São Paulo. As águas
deste aquífero, em paralelo ao recurso oriundo do Guarani, são bem menos
poluídas porque se encontram na região amazônica, em que a concentração
populacional é significativamente menor. No Guarani há excesso de flúor,
metais pesados e inseticidas agrícolas, mas a ação do homem também é
acelerada pelas características naturais da formação: as rochas ali
presentes filtram menos a água da superfície. A formação rochosa do
Alter do Chão é mais arenosa, o que permite uma filtragem de recarga de
água na reserva subterrânea.
*Temos a mais extensa rede fluvial do mundo, dispondo do maior potencial
hídrico do planeta. São 12 as regiões hidrográficas brasileiras:
1. /Amazônica/ - a maior bacia hidrográfica do mundo;
2. /Tocantins-Araguaia/, a segunda maior do Brasil - ocupa
aproximadamente 11% de todo território nacional; 3. /Atlântico Nordeste
Ocidental/, localizada nos estados do Maranhão e Pará, possui grande
diversidade de biomas*: Caatinga, Cerrado e Floresta Amazônica, sendo os
principais rios: Gurupi, Turiaçu e Pericumã; 4. /a bacia do Rio
Parnaíba/, localizada nos estados: Ceará, Piauí e Maranhão;
5. /Atlântico Nordeste Oriental/, está localizada na Caatinga. Como é a
região hidrográfica que está mais presente neste bioma, é a que
apresenta a menor disponibilidade hídrica. Abrange os estados: Ceará,
Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas; 6. /São
Francisco/ que ocupa cerca de 7% do território brasileiro; 7. /Atlântico
Leste/, também situada no semiárido brasileiro, o que faz com que tenha
o segundo menor potencial hídrico do país. Está localizada nos estados:
Bahia, Minas Gerais, Sergipe e Espírito Santo; 8. /Atlântico Sudeste/,
abrange as bacias do Rio Doce, Rio Ribeira e do Paraíba do Sul, nos
estados: Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e
Paraná. É a região hidrográfica da área mais povoada do país;
9. /Paraná/, terceira maior região hidrográfica do país, ocupando
aproximadamente 10% do Brasil. É a região hidrográfica que mais
aproveita seu potencial hidrelétrico. Seus rios principais são: Paraná,
Paranaíba, e Tietê; 10. /Paraguai/, localizada no pantanal brasileiro;
11. /Uruguai/, a menor região hidrográfica do país, localizada no Rio
Grande do Sul e Santa Catarina. Compõe parte da bacia do Rio Uruguai, em
território brasileiro, com os rios Uruguai, Chapecó e Passo Fundo; e
12. /Atlântico Sul/, localizada nos três estados dos Sul e São Paulo.
Seus rios principais são: Itajaí e Jacuí.
*Além da geração de energia hidrelétrica, as bacias são importantes como
meio de transporte, projetos de irrigação, saneamento básico,
empreendimentos turísticos e outros aproveitamentos.*
*MINÉRIOS* - Nem deveríamos tratar do minério de *ferro*, uma vez que
estas elites acabaram com a siderurgia nacional, fazendo do Brasil, como
qualquer colônia, um exportador de matéria prima. Temos a maior mina de
ferro de alta qualidade, a céu aberto, do mundo, Carajás (Pará), que
produz cerca de 150 milhões de toneladas anuais. Temos o *manganês* que
serve de matéria-prima para a produção do aço. Ele é o responsável em
dar liga aos componentes do aço. A maior parte do manganês extraído
destina-se a essa finalidade. No Brasil, ele está sobretudo no estado do
Amapá. Mas também é encontrado no Quadrilátero Ferrífero, em Minas
Gerais, e na Serra dos Carajás, no Pará. Outro mineral importante para o
país é a *bauxita*, matéria-prima do alumínio. O Brasil detém a terceira
maior reserva do mundo. Suas jazidas são encontradas, principalmente, em
Minas Gerais e no Pará.
Riqueza que não gera recursos para o país é o *nióbio*. Carros, turbinas
de avião, aparelhos de ressonância magnética, mísseis, marca-passos,
usinas nucleares, sensores de sondas espaciais, praticamente tudo o que
é eletrônico, ou leva aço, fica melhor com nióbio. A Companhia
Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) vende o minério bruto, uma
liga chamada ferronióbio, que contém 2/3 de nióbio e 1/3 de ferro. Além
desse produto, seu carro-chefe, ela também comercializa dez outras
formulações à base de nióbio A empresa tem 1.800 funcionários e lucra R$
1,7 bilhão por ano. O processamento do nióbio envolve mineração,
homogeneização, concentração, remoção de enxofre, remoção de fósforo e
chumbo, alguma metalurgia, britagem e embalagem. Para produzir o nióbio
metálico, por exemplo, é necessário realizar uma última etapa em um
forno de fusão por feixe de elétrons, que atinge temperaturas superiores
a 2.500ºC. A grande reserva do planeta, em produção, está em Araxá, a
360 km de Belo Horizonte, e há outra, em Catalão, Goiás. Também há
nióbio na Amazônia, mas ainda não começou a ser minerado. *Só o que
temos em Minas Gerais e Goiás já é suficiente para abastecer a demanda
mundial pelos próximos 200 anos, nos volumes hoje demandados. China, EUA
e Japão pagam em média US$ 26 mil pela tonelada de nióbio. Brasil só
exporta o nióbio sem o processar e não fabrica produtos derivados.*
É um caso parecido com do *silício*. Nós temos as maiores reservas de
areia do planeta (é da areia que o silício é extraído), mas só
exportamos silício com 99,5% de pureza, menos dos 99,99999% exigidos
pela indústria eletrônica.
Brasil cobra pouco, quase nada, aos produtores privados . Aqui o Estado
fica com 2% do valor das exportações de nióbio, por exemplo, bem menos
do que a Austrália, que exige 10%.
*PETRÓLEO* - Poucos países do globo são autossuficientes em reservas de
petróleo. O Brasil é um deles. Isto deveria, e a Petrobrás tem
tecnologia para isso, nos fazer autossuficientes no suprimento de
derivados. No entanto com a política antinacional e contrária aos
interesses da população, que o digam os caminhoneiros, não só importamos
derivados de petróleo, como cobramos um valor absurdo para quem não tem
um centavo a pagar ao exterior por qualquer derivado, aí incluídos
petroquímicos e fertilizantes. Para robustecer nossa miséria, as elites
empobrecidas estão vendendo as reservas do melhor petróleo existente,
que estão nas camadas do pré-sal.
*TERRAS AGRICULTÁVEIS* - Juntamos à agua e ao sol por todo ano, em todas
as estações, a área agricultável estimada em 152,5 milhões de hectares
ou 17,9% do território, sendo que 62,5 milhões de hectares, ou 7,3 %
deste território, constituem-se de terras já utilizadas. Ou seja,
podemos dobrar nossa produção agrícola, basta ter política
desenvolvimentista. O avanço da agricultura no Brasil não necessita
ocupar reflorestamentos, nem desmatar áreas. Utilizando áreas degradadas
ou intensificando o cultivo nas áreas já disponíveis já poderíamos
expandir consideravelmente a agricultura, aumentando a produção e
empregos, além de elevar a receita de exportações.
*A grande falta no Brasil é a elite nacionalista, interessada em
enriquecer com o desenvolvimento do país, e não ficar esperando as
gorjetas e comissões vindas do exterior, receber da corrupção para
aprovar legislações nefastas à Nação, pois a especulação cambial, como
foi observada pelo analista, sempre a levará ao empobrecimento.*
E, voltando ao roqueiro e seu sucesso musical com "/Que país é esse?/":
"Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão".
Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.
Foto: Por Fonte, Conteúdo restrito,
https://pt.wikipedia.org/w/index.php?curid=3485858
In
PORT.PRAVDA.RU
https://port.pravda.ru/cplp/52979-elite_brasileira/
15/6/2021
quarta-feira, 11 de agosto de 2021
A elite brasileira, ignorante e ensandecida, empobrece
domingo, 8 de agosto de 2021
Igualdade e escassez
por Prabhat Patnaik [*]
Muitos recordarão que a União Soviética e outros países socialistas da
Europa do Leste costumavam ser caracterizados por longas filas de
consumidores de várias mercadorias. Isto foi motivo para muita
ridicularização no ocidente e era atribuída à ineficiência do sistema
socialista de produção, em comparação com o capitalismo onde bastava ir a
um supermercado e comprar tudo o que se quisesse.
Na realidade, longe de serem um sintoma de ineficiência, as longas filas
de consumidores eram um reflexo da natureza altamente igualitária das
sociedades socialistas. Analogamente, o livre acesso a bens sob o
capitalismo é fundamentado na extrema desigualdade de rendimento que
prevalece sob este sistema. Este ponto pode ser ilustrado por um exemplo
em que deliberadamente escolhemos números que são idênticos em todos os
aspectos excepto na distribuição do rendimento.
Tomem-se duas economias S (sob o socialismo) e C (sob o capitalismo).
Cada uma investe 20 unidades e pode fabricar 100 unidades de produto. Os
20 por cento superiores em S (consistentes de funcionários socialistas)
têm 30 por cento do produto e os 80 por cento mais baixos (consistentes de
trabalhadores) têm os restantes 70 por cento. Em contraste, os 20 por
cento superiores em C (consistentes de capitalistas e funcionários) têm
60 por cento do produto e os restantes 80 por cento (consistentes de
trabalhadores) têm 40 por cento. O segmento de topo em cada economia
consome a metade do seu rendimento e os trabalhadores em cada economia
consomem a totalidade do seu rendimento.
Agora, se a plena capacidade de produção dos 100 for atingida em S, então
o total da procura para consumo será 85 (consistindo de metade de 30 mais
70) e a procura agregada total (inclusive de investimento de 20) será 105.
Em contraste, o total da procura para consumo em C será 70 (metade de 60
mais 40) e a procura agregada total (inclusive de investimento de 20) será
90. Por outras palavras, se a plena capacidade de produção de 100 for
atingida, então haverá um excesso de procura de 5 em S e uma procura
deficiente de 10 em C.
Portanto a economia capitalista não produzirá em plena capacidade devido
à procura deficiente. Em vez disso produzirá apenas 66 2/3, uma vez que
com esta produção e as mesmas fatias distributivas os capitalistas obterão
40 e os trabalhadores obterão 26 2/3, de modo que o consumo total será 46
2/3, os quais juntamente com o investimento de 20 será exactamente igual à
produção verificada, 66 2/3. O emprego real portanto será apenas dois
terços do que teria sido se a produção em plena capacidade estivesse a
verificar-se. Em suma, haveria desemprego maciço. Uma vez que não se trata
de qualquer falta ou excesso de procura (bem pelo contrário) nesta
economia, os consumidores podem simplesmente entrar em qualquer
supermercado e comprar o que quiserem; não há quaisquer filas de espera
por bens.
Em contraste, na economia socialista, onde a produção de 100 causa um
excesso de procura de 5, será produzida a capacidade total de produção de
100; mas a questão é como é que uma tal economia irá lidar com o excesso
de procura de 5? A forma fácil de o fazer seria simplesmente deixar os
preços subirem, até que os rendimentos reais de alguns consumidores tenham
sido suficientemente esmagados para reduzir as suas compras em 5; mas
tipicamente isto significaria um esmagamento desproporcionalmente grande
dos trabalhadores que terão muito pouco dinheiro para reduzir, a fim de
manter o consumo. Todo o excesso de procura de 5 será então reduzido a
expensa dos trabalhadores. Mas comparado a isto, uma redução proporcional
no consumo de toda a gente será melhor; isto é o que as economias
socialistas faziam, mantendo os preços ao nível antigo mas instituindo o
racionamento, para que a redução da procura em 5 pudesse ser mais
igualmente repartida. Este racionamento significava que as pessoas tinham
de fazer fila para as suas compras.
Assim, o facto de que as economias socialistas eram caracterizadas por
filas de espera não era causado por qualquer ineficiência do sistema. Ao
contrário, era um reflexo da preocupação do sistema em manter baixa a
desigualdade na distribuição dos rendimentos. Assim fazia de duas formas
distintas: uma, mantendo o nível base de distribuição relativamente mais
igual; e a segunda, assegurando que se no entanto surgisse um excesso de
procura, então que a sua resolução assumisse a forma não de um aumento de
preços que teria sido regressivo, mas de um racionamento a preços
determinados. As filas de espera eram um resultado deste racionamento.
Sem dúvida houve muitos problemas na implementação efectiva de uma tal
política na economia socialista, tais como o acesso privilegiado de alguns
(funcionários do Estado ou do Partido) a bens escassos, e a violação do
princípio da igualdade de rações para todos pela instituição de um
princípio de "primeiro a chegar, primeiro a ser servido", o qual tinha o
efeito de distribuir o bem escasso arbitrariamente. Mas isto não nega o
ponto básico de que a escassez observada de bens numa economia socialista
foi o resultado de uma distribuição mais igualitária do rendimento. Do
mesmo modo, a plenitude observada de bens sob o capitalismo é o resultado
do facto de vastas massas de trabalhadores terem demasiado pouco poder de
compra nas suas mãos para comprarem estes bens, o que é tanto uma causa
como uma consequência do desemprego em massa que invariavelmente
caracteriza este sistema.
O bem conhecido economista húngaro Janos Kornai, um crítico do sistema
socialista que existia no seu país, tinha dito: "o capitalismo clássico é
limitado pela procura enquanto o socialismo clássico é limitado pelos
recursos", o que significa que este último utiliza plenamente todos os
seus recursos, incluindo a mão-de-obra disponível. A razão que ele deu
para este fenómeno foi que sob o socialismo, uma vez que as empresas têm
subsídios governamentais assegurados elas enfrentam uma "restrição
orçamental branda" que as faz gastar em excesso em projectos de
investimento, sem serem demasiado calculistas quanto à taxa de retorno
esperada. Sob o capitalismo, pelo contrário, as empresas enfrentam uma
"restrição orçamental dura" que as torna cautelosas na realização de
investimentos.
Se bem que isto possa ser verdade, há uma poderosa razão adicional que
temos enfatizado para o capitalismo ser constrangido pela procura e o
socialismo constrangido pelos recursos – e esta é a maior igualdade na
distribuição do rendimento sob o socialismo. Dito de modo diferente, uma
vez que o nível da procura agregada em qualquer economia (ignorando o
comércio externo) consiste de dois elementos, o nível de investimento e o
nível de consumo tal como determinado pelo rácio médio do consumo em
relação ao rendimento (ou propensão da economia a consumir nas palavras de
Keynes), a explicação de Kornai para a diferença entre capitalismo e
socialismo refere-se só ao primeiro elemento, embora também haja uma
diferença muito importante em relação ao segundo. A maior igualdade na
distribuição de rendimento sob o socialismo significa na média um rácio
consumo-rendimento mais elevado e, portanto, um nível de procura agregada
mais alto para qualquer dado nível de investimento (o que os economistas
chamam um "multiplicador" mais alto para o investimento). Este aspecto
chave das economias socialistas foi omitido por Kornai.
Qual o interesse, poder-se-ia perguntar, em dizer tudo isto agora, quando
o socialismo na União Soviética e na Europa do Leste entrou em colapso?
Bem, uma razão parcial é recordar-nos que, apesar de todas as suas
limitações, as economias socialistas constituíram um grupo que alcançou o
pleno emprego, em contraste com o que tem acontecido com todas as outras
economias nos últimos duzentos anos. Isto acontece porque o capitalismo,
pela sua própria natureza, não pode alcançar o pleno emprego, ao passo que
economias socialistas têm dinâmicas muito diferentes que lhes permitem
assim fazê-lo. Que tais economias existiram deveria ser sempre recordado.
A outra parte da resposta reside no facto de que o contraste agudo entre
capitalismo e socialismo também se refere numa menor extensão à diferença
entre o regime dirigista e os regimes neoliberais em países do terceiro
mundo como a Índia. Não que estes países tenham alcançado algo como o
pleno emprego, mas os regimes dirigistas tinham maior igualdade na
distribuição do rendimento razão pela qual eles enfrentavam problemas de
excesso de procura agregada e tinham de recorrer ao racionamento de vários
bens. Isto estava em contraste com a fase neoliberal destas mesmas
economias que assistiram a um enorme aumento na desigualdade de rendimento
e, portanto, a um esmagamento do poder de compra nas mãos das massas
trabalhadoras, a qual dá uma impressão totalmente enganosa de plenitude
nos supermercados.
Na Índia por exemplo, segundo Chancel e Piketty, a fatia do rendimento
nacional dos um por cento do topo da população era tão baixa quanto seis
por cento em 1982, antes de ser introduzida a "liberalização" iniciada em
1985, mas aumentou para 22 por cento em 2013, a mais alta em quase um
século. Portanto a inflação sob o regime neoliberal geralmente não é
causada pelo excesso de procura; ela é tipicamente administrada pelos
governos através da elevação de impostos sobre bens de uso comum ao invés
de sê-lo sobre a riqueza dos capitalistas ou os lucros.
Mas mesmo esta inflação pretende-se então que seja controlada através da
imposição de austeridade orçamental (como se a sua causa fosse excesso de
procura), o que por sua vez agrava a situação de desemprego sem reduzir a
inflação. O governo da Índia está agora a prosseguir um exercício tão
insensato.
08/Agosto/2021
[*] Economista, indiano, ver Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2021/0808_pd/equality-and-scarcity
Tradução de JF.
In
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/patnaik/patnaik_08ago21.html
8/8/2021
quinta-feira, 5 de agosto de 2021
Gemidos e agonia da indústria brasileira
por José Álvaro de Lima Cardoso
A Pesquisa Industrial Anual (PIA) 2019, divulgada no dia 21 de julho pelo IBGE,
mostra que, em 2019, o setor mais produtivo da indústria foi o de petróleo e
gás, e o segundo setor foi o de produtos derivados de petróleo. Isto possibilita
a geração dos empregos que pagam alguns dos melhores salários da indústria. Não
foi por acaso que a principal motivação econômica do golpe de 2016 foi o
petróleo. Na medida em que os poços vão sendo vendidos para fundos de
investimentos, estes liquidam salários e benefícios, aumentando suas margens de
lucratividade.
Com base na elevada produtividade, o setor pode gerar grandes investimentos,
como ocorreu em 2013, ano em que a Petrobrás investiu sozinha o equivalente a R$
150 bilhões em valores atuais. Esse era o período em que apesar de a Petrobrás
ser uma espécie de “nação amiga” (pois respondia por 10% de todo o investimento
no país), a mídia comercial, e o senso comum, afirmavam que a empresa estava
quebrada.
A participação do Brasil na produção industrial mundial caiu de 1,24%, em 2018,
para 1,19%, em 2019, atingindo o piso da série histórica que começa em 1990.
Apesar das perdas, o Brasil tinha conseguido se manter entre os 10 maiores
produtores no ranking mundial até 2014. Em 2019 recuou para a 16ª posição. Com a
recessão econômica brasileira, entre 2014-2016 o ritmo de perda de relevância
da indústria do país no mundo se intensificou. Em 2014, o Brasil era o 10º maior
produtor industrial do mundo, mas perdeu posições a cada ano e em 2019, foi
superado pela Espanha, caindo para a 16ª posição.
A crise da indústria, que já vinha ocorrendo de forma estrutural, desde a década
de 1980, foi colocada em um patamar mais profundo com o golpe, que foi também
contra a indústria. Os golpistas querem que o Brasil se torne em definitivo um
mero vendedor de matérias-primas agrícolas e minerais para o mundo rico. Afinal
de contas, neocolônia não precisa de indústria.
O desempenho das exportações da indústria de transformação brasileira no mundo
também revela a perda de competitividade do Brasil. A participação do Brasil nas
exportações mundiais da indústria de transformação chegou, em 2019, à cerca de
0,82%, igualando o menor percentual da série histórica, registrado em 1999. A
perda de relevância do Brasil nas exportações mundiais da indústria de
transformação ocorreu mesmo diante da depreciação do real nos últimos anos, que
deveria estimular exportações. Isso não ocorreu, em função da gravidade da crise
geral brasileira, incluindo a crise política trazida pelo golpe.
A indústria brasileira é uma das que mais apresentaram recuo no mundo em quase
50 anos. Levantamento encomendado pelo Instituto de Estudos para o
Desenvolvimento Industrial (IEDI), revela que o setor no Brasil teve a terceira
maior retração entre 30 países, desde o ano de 1970, ficando atrás apenas de
Austrália e Reino Unido. Os dados da pesquisa levam em conta o resultado da
produção industrial até 2017, de lá para cá o setor recuou mais ainda. Nos dois
países que apresentaram declínio na produção industrial mais forte que a do
Brasil (Austrália e Reino Unido) a renda da população estava subindo quando a
queda do desempenho da indústria começou a recuar em relação ao PIB. Quando o
peso da indústria em relação ao PIB cai porque as famílias estão consumindo mais
serviços, pode ser considerado uma trajetória natural, verificada nos países
ricos.
Mas no Brasil ocorreu uma desindustrialização prematura. A indústria começou a
perder peso na estrutura produtiva antes da renda da população subir. Nos
últimos anos, inclusive, a redução do peso da indústria no PIB ocorre
simultaneamente à queda da renda per capita. Mas temos que considerar que a
posição de países como EUA e Japão, assim como a Europa, ocupam posições na
divisão internacional do trabalho diferentes da do Brasil. O desenvolvimento dos
países imperialistas e dos países pobres é de fato desigual e combinado. Ou
seja, com a atual divisão internacional do trabalho, nunca iremos atingir o
patamar de vida que têm as populações dos países ricos. A nossa pobreza está
relacionada à riqueza deles.
Por exemplo, os EUA, para manter o padrão de vida que mantém para uma parte da
população – uma parte, apenas, já que o país tem 50 milhões de pobres – precisa
drenar riqueza do mundo todo. Os golpes recentes na América latina estão
relacionados a esse fenômeno. Um dos objetivos dos EUA, ao coordenar esse,
golpes, foi rapinar recursos dos países atrasados. Petróleo no Brasil, lítio na
Bolívia e assim por diante. Além das oportunidades que aparecem com as
privatizações (vejam o que está sendo a entrega da Eletrobrás, um verdadeiro
negócio da china para os países ricos, no qual a companhia será oferecida por
10% ou 15% do seu valor, conforme previsões).
Em geral, nos demais países onde houve desindustrialização, a perda da
participação da indústria no crescimento do país continuou sendo acompanhada do
crescimento do PIB per capita. A desindustrialização do Brasil é precoce não só
porque a indústria perdeu participação muito cedo no produto, mas porque a renda
per capita avançou muito pouco. Nos países onde a indústria perdeu participação
na produção de riqueza o capital industrial se deslocou para setores dinâmicos
dos serviços. São esses países que investem pesadas somas na indústria 4.0, que
integra diversas tecnologias. Nos EUA, por exemplo, a indústria perde
participação, mas os segmentos que conseguem se manter são os de elevado
desenvolvimento tecnológico, que surfam nas inovações da indústria 4.0. As
empresas que produziam computadores, por exemplo, agregaram mais tecnologia e
migraram para a área de softwares.
No Brasil, com um governo cujo projeto nacional é de ser capacho dos países
ricos, além de ser de economia subdesenvolvida, a desindustrialização ocorre de
forma anárquica, com grande perda tecnológica. No Brasil cerca de dois terços da
produção industrial é de baixa ou média tecnologia, tem baixo dinamismo. Boa
parte da indústria “aperta ainda muito parafuso”. Os capitais que migram para
serviços o fazem em serviços de menor qualidade, muitas vezes na economia
informal. É comum empresários abandonarem a fabricação de determinado produto e
passarem a importá-lo da Ásia, especialmente China. Se o governo, por seu turno,
tem projeto nacional subalterno, não tem senso de preservação da indústria, a
maioria do empresariado nem sabe do que se trata. Quem duvidar disso, analise
com calma a posição dos empresários (de todos os tamanhos) sobre a destruição da
Petrobrás perseguida pelos golpistas de 2016. É de um desinteresse pelos
destinos do Brasil, que chega a estarrecer.
Em 1980, o parque industrial brasileiro correspondia a 4,11% da indústria
mundial. A China, atual gigante industrial, na época tinha uma participação de
1,65% e ultrapassou o Brasil ainda nos anos 1990. O caso da China é único e foi
precedido de uma revolução popular, em 1949. É bastante diferente, claro, do
brasileiro. No Brasil, há sete anos consecutivos, desde a recessão iniciada em
2014, cai o número de indústrias no território nacional. Segundo um
levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
(CNC), entre 2015 e 2020 foram extintas 36,6 mil empresas industriais. O número
equivale a quase 17 estabelecimentos industriais liquidados todo dia.
Há seis anos, o país tinha 384,7 mil estabelecimentos industriais, porém no
final do ano passado, o número tinha caído para 348,1 mil.
A fatia da indústria da transformação no PIB, de 11%, é o patamar mais baixo da
série histórica iniciada em 1946 (75 anos atrás). O problema conjuntural, ligado
à crise, e o estrutural (desindustrialização), coincidem com um período no qual
o mundo atravessa a chamada Quarta Revolução Industrial. O Brasil precisaria
estar investindo bilhões em pesquisa e inovação industrial neste momento,
procurando pelo menos, congelar a histórica defasagem científico-técnica que tem
o país em relação aos países imperialistas.
Não será um governo de golpistas que irá se preocupar com pesquisa e
competitividade da indústria brasileira. O orçamento total previsto para o MCTI
neste ano é de R$ 8,3 bilhões. Só que o valor destinado a “despesas
discricionárias” (ou seja, efetivamente disponível para pesquisa), é de apenas
R$ 2,7 bilhões, 15% a menos do que em 2020 e 58% a menos do que em 2015.
Além do mais, os terraplanistas que estão no poder estão destruindo as
universidades públicas, que é quem faz pesquisa e inovação. No período mais
recente, o país voltou a apresentar o fenômeno chamado de “fuga de cérebros”,
que é a transferência de estudiosos de ponta, em todos os setores, para os
países ricos. Ou seja, o Brasil gasta dinheiro público para formar esses
“cérebros” e quem se beneficia do retorno que eles podem dar, após a maturidade
científica, são os países ricos.
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Autonomia Literária
Estamos em meio ao que se chama de uma “tempestade perfeita” com a pior crise
dos últimos cem anos. Na indústria essa tempestade perfeita se manifesta através
da desindustrialização, desemprego, precarização do trabalho, queda dos salários
reais, internacionalização do setor. Não sairemos dessa encalacrada sem gemidos
e ranger de dentes.
In
OUTRAS PALAVRAS
https://outraspalavras.net/crise-brasileira/gemidos-e-agonia-da-industria-brasileira/
5/8/2021
quarta-feira, 4 de agosto de 2021
La Internacional plutócrata-libertaria, del secesionismo a la privatización del Estado
Aram Aharonian, Álvaro Renzi Rangel
Fuentes: CLAE / Rebelión
La extrema derecha «moderna» es el movimiento liberal-libertario que hoy navega
con pabellón republicano, con el Freedom Caucus -la agrupación de miembros
republicanos ultraconservadores del Parlamento- a la cabeza y que basa su
accionar en una deliberada estrategia de desinformar a las mayorías para imponer
sus políticas plutocráticas. El impulsor de este movimiento es el […]
La extrema derecha «moderna» es el movimiento liberal-libertario que hoy navega
con pabellón republicano, con el Freedom Caucus -la agrupación de miembros
republicanos ultraconservadores del Parlamento- a la cabeza y que basa su
accionar en una deliberada estrategia de desinformar a las mayorías para imponer
sus políticas plutocráticas.
El impulsor de este movimiento es el multimillonario Charles Koch, quien adoptó
la tesis de James McGill Buchanan -otro economista de la Universidad de Chicago
y Premio Nobel- para desarmar el Estado progresista, con una estrategia
operativa en defensa de la santidad de los derechos de la propiedad privada y
para doblegar al modelo de gobierno: para que prospere el capitalismo, sostenía,
hace falta ponerle cadenas a la democracia.
Nancy MacLean señala en en La democracia encadenada: Historia detallada del plan
furtivo de la derecha radical para Norteamérica, que hay una serie de razones
por las que Buchanan no trascendiera: los Koch no hacen publicidad de su trabajo
y prefieren promocionar los manuales de Friedrich Hayek, Milton Friedman, y
hasta Ayn Rand, cuando van reclutando gente. Su importancia para la derecha se
internacionalizó cuando aconsejó al dictador chileno Augusto Pinochet sobre una
constitución que protegiera al capital y pudiera sobrevivir al final de la
dictadura. Y después.
Koch puso el dinero y Buchanan las ideas, de la estrategia operativa, una
«tecnología» de pasos progresivos que se refuerzan mutuamente, que descubrió en
el pensamiento de Buchanan. El equipo de Koch ideó una hoja de ruta para una
transformación radical que pudiera llevarse a cabo por debajo del radar de
detección de la gente, pero de modo legal: actuar en tantos frentes
ostensiblemente separados a la vez que quienes sean ajenos a la causa no se den
cuenta de la revolución que está en marcha hasta que sea demasiado tarde como
para anularla.
Y logró que importantes sectores del gobierno, en Washington, cofinanciaran
algunas de sus fundaciones, centros de estudio, ONG, think tanks a lo largo y
ancho del mundo, pero en especial en Latinoamérica a través de la llamada Red
Atlas, en el plan de desestabilizar a gobiernos progresistas e imponer una
reestructuración económico-financiera a favor de las corporaciones y los
multimillonarios.
Buchanan, moldeado en el Sur racista, estudió el funcionamiento del proceso
político para descifrar qué es lo que era necesario para negar a la gente
corriente – blancos y negros – la posibilidad de presentar exigencias al
gobierno a expensas de los derechos de propiedad privada y los deseos de los
capitalistas. Y luego identificó de qué modo reajustar ese proceso político, no
sólo darle la vuelta a lo conseguido sino también impedir que el sistema
volviera alguna vez atrás, dice la historiadora Nancy MacLean.
Vayamos anotando: leyes para destruir los sindicatos, suprimir el voto de
quienes con mayor probabilidad vayan a apoyar un gobierno activo, utilizar la
privatización para alterar las relaciones de poder y, para coronar todo esto, la
«revolución constitucional» de Buchanan. Hoy, los operativos financiados por la
red de donantes de Koch operan a través de centenares de organizaciones,
inclusive en Latinoamérica, lo que da la impresión de que no se encuentran
relacionados cuando en realidad trabajan juntos.
Entre quince de las organizaciones más importantes financiadas por Koch están:
Americans for Prosperity, el Cato Institute, la Heritage Foundation, el American
Legislative Exchange Council, el Mercatus Center, Americans for Tax Reform,
Concerned Veterans of America, el Leadership Institute, Generation Opportunity,
el Institute for Justice, el Independent Institute, el Club for Growth, el
Donors Trust, Freedom Partners, Judicial Watch… A ellas hay que agregar las más
de sesenta organizaciones de la State Policy Network (Red de Políticas de los
Estados Unidos).
A partir de la idea de cómo constreñir la democracia con el fin de salvaguardar
la riqueza y el poder de una minoría económica elitista, Buchanan ofrecía
consejo estratégico a las grandes empresas acerca de cómo luchar contra la clase
de reformas e imposición fiscal que llegaba con una democracia más inclusiva.
Queriendo mantener vivo el pensamiento secesionista por esta utilidad práctica,
la derecha respaldada por multimillonarios conforta necesariamente a los
supremacistas blancos. El Instituto Ludwig von Mises, que honra a uno de los
filósofos austriacos favoritos de Koch, tiene su sede en Alabama y lo dirige
Llewellyn Rockwell, Jr., promotor del pensamiento racista neoconfederado, pero
al que se consideró adecuado para gestionar el Center for Libertarian Studies
financiado por Koch, recuerda MacLean.
Supone por tanto un error imaginar que Koch y las causas de la llamada alt-right
son algo completamente separado; hay una suerte de refuerzo mutuo si se entiende
lo que Koch aprendió de Buchanan y de qué modo operaban.
Tyler Cowen, el economista que preside con Charles Koch el campamento base
académico de la causa, señala que con la «reescritura del contrato social» en
marcha, «se ha de esperar que la gente se las arregle por sí misma mucho más de
lo que lo hace ahora». Mientras que alguna gente prosperará, reconoce, «otros se
quedarán por el camino». Puesto que los «individuos de valía» lograrán abrirse
camino y salir de la pobreza, «eso hará más fácil ignorar a los se quedan
atrás».
«Recortaremos el Medicaid de los pobres», preveía Cowen, y señalaba que «el
deficit fiscal saldrá de los salarios reales a medida que la carga de diversos
costos se haga recaer sobre los trabajadores», más allá de los patronos y de un
gobierno que hace menos cosas. Agregaba que la gente cuyas prestaciones del
Estado se hayan visto reducidas o recortadas debería hacer las maletas y mudarse
a estados de costos más bajos, con servicios públicos deficientes, como Texas.
Profetiza Cowen que habrá zonas de EEUU caracterizadas por sus bajos ingresos
que reproducirán un entorno semejante a México o Brasil, donde no faltarán
«favelas» , que satisfarán la necesidad de vivienda más barata a medida que
crezca la «polarización salarial» y el Estado se reduzca.
Hoy, en la administración de Donald Trump, varios de los altos funcionarios,
pertenecen a este entramado racista y ultraconservador, y tratan de exportar,
financiar (también con fondos de los contribuyentes estadounidenses a través del
Departamento de Estado, la NED y la USAID), e imponer el modelo en América
Latina.
Los autores son codirectores del Observatorio en Comunicación y Democracia y del
Centro Latinoamericano de Análisis Estratégico (CLAE).
Rebelión ha publicado este artículo con el permiso del autor mediante una
licencia de Creative Commons, respetando su libertad para publicarlo en otras
fuentes.
In
REBELION
https://rebelion.org/la-internacional-plutocrata-libertaria-del-secesionismo-a-la-privatizacion-del-estado/
4/8/2021
terça-feira, 3 de agosto de 2021
"Não é possível resgatar mais nada sob o capitalismo"
*por Eleutério F. S. Prado [*]
Para demonstrar empiricamente a tese contida no título deste artigo é
preciso considerar, primeiro, o fenômeno da financeirização que vem se
exacerbando desde os anos 80 do século passado. Eis que ele não se
apresenta como uma passagem episódica na história do capitalismo, mas
como um acontecimento decisivo. Faz ver que não se encontrou uma solução
virtuosa para a crise de acumulação engendrada no “período de ouro” do
capitalismo, ocorrido após o fim da II Guerra Mundial. Como se sabe,
essa crise se manifestou já nos anos 70 por meio de uma forte e longa
queda da taxa de lucro. Apontando para um impasse, a figura em sequência
apresenta esse fenômeno. E o faz mostrando uma discrepância crescente
entre o PIB global e a soma dos ativos financeiros globais. Por que isso
ocorreu?
PIB global e activos financeiros globais.
A crise de lucratividade dos anos 1970, que atingiu fortemente o centro
do sistema – mas também a periferia –, nunca foi plenamente resolvida
porque os principais Estados capitalistas optaram por evitar uma
recessão profunda. Como esta teria efeitos econômicos, sociais e
políticos devastadores – por causa das ondas de falências e do altíssimo
desemprego da força de trabalho que produziria –, preferiram uma
alternativa que evitasse a destruição e a desvalorização dos capitais
acumulados no passado. Ocorre que esse choque disruptivo é necessário
para que ocorra uma verdadeira restauração da taxa de lucro. Foi assim
que o capitalismo se recuperou várias outras vezes no passado. Mas desta
vez, não.
Fugindo desse trauma, buscaram restaurar a lucratividade por meio de um
processo mais lento de reformas, ditas neoliberais, as quais visavam em
última análise elevar a taxa de exploração numa economia globalizada.
Era preciso destruir o mais possível o que fora criado no passado, ou
seja, o estado de bem-estar social. Em linhas gerais, os Estados se
esforçaram para não elevar ou mesmo reduzir os salários reais no centro
do sistema, para mudar os processos de trabalho, para forçar a supressão
das proteções das economias nacionais existentes na periferia, para
deslocar as indústrias trabalho intensivas para a Asia etc. O
neoliberalismo reinventou de novo o capitalismo que fora transformado
pelo keynesianismo e pela socialdemocracia. Tudo isso, no entanto,
precisava de um complemento.
Para criar um sistema nacional e internacional de dominação financeira
e, ao mesmo tempo, para montar um mecanismo de estímulo à demanda
efetiva global, desregulou-se os mercados financeiros e se permitiu uma
enorme expansão do crédito mundialmente. O resultado dessa eleição foi o
empilhamento consecutivo de dívidas do qual resultou uma "exuberância
irracional" nos mercados de capitais em geral. Ora, isso não poderia ter
ocorrido sem que fosse criada também uma "magnífica" fonte de crises
financeiras.
O descolamento progressivo do montante de ativos financeiro em relação à
magnitude do PIB global, conforme visto na figura acima, não parou de
crescer desde 1980. Agora, ele aparece como um prenuncio do fenecimento
do capitalismo por meio de um colapso financeiro de grandes proporções.
Mas isto não é tudo.
Para demostrar, teoricamente agora, a tese resumida no título deste
artigo, é preciso começar por um recorte de conhecida tese de Karl Marx,
depositada no prefácio de /Para a crítica da Economia Política, /
escrito em 1859. No trecho abaixo transcrito, ele resume a sua
compreensão do processo de emergência, desenvolvimento e fenecimento dos
modos de produção em geral. Enquanto subsistem historicamente, esses
modos regulam as ações dos seus componentes individuais e coletivos,
condicionando a vida social como um todo; passam por longos períodos
progressivos que desembocam, ao fim e ao cabo, em impasses históricos.
Crescem, então, movimentos sociais que produzem instabilidades, rupturas
e transformações, no curso das quais são criadas novas formas de
sociabilidade.
/Na produção social da própria vida, os homens contraem relações
determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações
de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de
desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade
dessas relações de produção forma a estrutura econômica da
sociedade. (…) Em certa etapa de seu desenvolvimento, as forças
produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as
relações de produção existentes (…). De formas de desenvolvimento
das forças produtivas estas relações se transformam em seus
grilhões. Sobrevém então uma época de revolução social. [1] <#notas> /
Para reinterpretar esse trecho, sustenta-se aqui em primeiro lugar que,
implicitamente, Marx toma o sistema econômico como aquilo que atualmente
é chamado de um sistema complexo ou de um sistema social complexo. Como
tal, ele está internamente estruturado por determinadas relações de
produção e estas determinam-no como uma totalidade que tem
características próprias e que possui certas "leis" tendenciais de
desenvolvimento.
Tais sistemas não são descritíveis por quaisquer sincronias, já que se
caracterizam por existirem como processos contraditórios, abertos ao
futuro e dependentes do próprio modo como evolvem. Enquanto tais, essas
totalidades condicionam o modo de ser histórico dos próprios homens que
se situam em sua própria base e que se atribulam em seu interior para
sobreviver, buscando atender as suas próprias necessidades e realizar os
seus desejos mais profundos.
Dizer que o modo de produção capitalista é um sistema complexo é dizer
que possui a propriedade da auto-organização e que enfrenta
permanentemente problemas de sustentabilidade, sejam de ordem interna,
sejam de ordem ambiental. Eis que os sistemas complexos em geral
apresentam certa resiliência, mas não deixam também de possuir
fragilidades. Existem para sobreviver, mas podem falecer por causas
internas e externas.
O que caracteriza sobretudo os sistemas complexos são os nexos internos
que ligam entre si as suas partes constituintes e formam a sua
estrutura, mas eles podem e devem ser apreendidos também pelos nexos
externos, ou seja, pelos modos segundo os quais essas partes interagem
entre si e determinam o seu dinamismo no tempo. É desse modo que, numa
perspectiva de cientificidade positiva e vulgar, fala-se usualmente da
complexidade tendo apenas por referência à dinâmica de interação dos
múltiplos elementos do sistema em consideração, os quais estão
entretidos em processos de auto-organização.
Mesmo quando essa cientificidade – que ainda se atém apenas aos nexos
externos entre os fenômenos – transcende o determinismo que pretende
prever o futuro com base nos fatos passados, o reducionismo, ou seja, o
método característico da ciência moderna (Bacon, Descartes e Newton) que
pretende sempre explicar o todo a partir das partes, e a norma analítica
que manda isolar e separar as dificuldades na compreensão de tudo que se
afigura complicado, ela ainda não vai longe o suficiente. É preciso,
pois, dizer o porquê.
Apreende, assim, certas características dos sistemas complexos tais como
os seus ciclos de realimentação, as não-linearidades causais, as redes
de interação, mas não acolhe de modo adequado e suficiente a propriedade
da /emergência / – pois, esta não pode ser explicada apenas pelas
configurações engendradas pelas interações aparentes dos elementos do
sistema complexo. Eis que essa propriedade crucial não resulta apenas
das interações dinâmicas entre as partes, mas provém, fundamentalmente,
do evolver das contradições inerentes à sua estrutura na temporalidade
histórica.
Como o sistema econômico – um sistema social complexo – em sua
generalidade é sobretudo um sistema de produção de coisas objetiva ou
subjetivamente necessárias à vida humana, fica claro que as relações de
produção mencionadas por Marx se referem ao modo específico pelo qual se
organiza o trabalho socialmente necessário numa determinada etapa
histórica. No capitalismo, como se sabe, o atendimento das necessidades
está subordinado à acumulação de riqueza abstrata, ou seja, de valor. E
o "valor que se valoriza", isto é, o capital é – isso não se pode
ignorar – um sujeito automático insaciável.
Crucial aqui é interpretar a noção de força produtiva de um modo
adequado aos propósitos deste artigo que não vê o capitalismo nem em sua
juventude (século XIX) nem em sua maturidade (primeiros dois terços do
século XX), mas em sua velhice (do último terço do século XX em diante).
Numa leitura produtivista, "força produtiva" significaria simplesmente
capacidade de se apropriar da natureza e, nesse sentido, poderia ser
resumida pela noção técnica de produtividade do trabalho. Ora, essa
leitura seria bem insuficiente porque toma o sistema econômico como um
sistema determinado tecnologicamente que, em princípio, dura senão para
sempre, pelo menos indefinidamente.
Como não há produção sem apropriação – transformação e destruição – da
natureza, é preciso associar de imediato a noção de força produtiva à
noção de sustentabilidade. Eis que o sistema econômico mora no ambiente
formando pela natureza não humana e, ao se manter ou mesmo prosperar em
seu bojo, degrada-o de algum modo. E, ao fazê-lo, pode minar as
condições externas que dão sustentação ao movimento expansivo do sistema
econômico. Portanto, essa categoria guarda em si o seu contrário, a
insustentabilidade. Ora, essa contradição evolve com o próprio evolver
do modo de produção não apenas devido à destruição das condições
externas, necessárias que são ao próprio mover-se do sistema econômico,
mas também devido ao desenvolvimento de suas contradições internas,
assim como a todos os desdobramentos que delas decorrem.
O evolver das contradições internas ao sistema econômico gera conflitos,
embates entre classes sociais, os quais, mediante tensões crescentes,
podem eventualmente resolverem-se por meio de movimentos de massa,
revoltas agônicas e mesmo revoluções que mudam radicalmente a estrutura
do modo de produção. Assim, a contradição central inerente ao
desenvolvimento da sociedade de que fala Marx pode ser entendida como
uma contradição entre as forças que dão sustentabilidade ao modo de
produção e as relações de produção, dentro das quais aquelas forças se
desenvolvem. Nesse sentido, entende-se por força produtiva não mais,
simplesmente, a produtividade do trabalho, mas a capacidade do sistema
assim constituído de dar sustentação à vida humana.
Segue-se aqui a tese de Murray Smith em seu livro /Leviatã invisível /
[2] <#notas> segundo a qual se está, desde o começo dos anos 1980, na
presença do ocaso do capitalismo – um processo que não deixou de se
aprofundar desde então. Pois, nessa década, ele entrou – enquanto modo
de produção – numa crise estrutural da qual ainda não saiu e não poderá
sair incólume. O neoliberalismo, nessa perspectiva, não se afigura como
uma superação das dificuldades sistêmicas do capitalismo, as quais se
apresentaram já na década dos anos 1970, mas como um recurso derradeiro
para que possa continuar funcionando, ainda que cada vez mais
precariamente. Nesse ocaso, ciclos de alta e baixa aconteceram e
continuarão a acontecer, mas a tendência se apresenta como um declínio
persistente. Segundo ele – concorda-se com o que diz – apenas um
marxismo crítico resoluto pode apreendê-la adequadamente:
/Somente Marx oferece um arcabouço teórico necessário para apreender
a trajetória contraditória, irracional e crescentemente perigosa do
modo de produção capitalista – um conjunto de relações sociais e
capacidades humanas, organização societária e tecnológica que, mais
do que nunca, demanda ser compreendida num contexto global que, não
menos do que no passado, mantém-se prisioneira de suas relações de
produção que põem a lei capitalista do valor-trabalho. /
Como base nessa premissa, Smith sustenta que três contradições
"marxianas" estão na base dessa crise estrutural. Sabendo que aqui se
acrescentará uma quarta, é preciso explicitá-las:
A primeira delas está no fundamento de uma crise de superacumulação que
vem entravando o moto próprio do capitalismo globalizado desde a década
do anos 1970. Para aumentar continuamente a produtividade do trabalho na
produção de mercadorias, a concorrência capitalista tende a elevar a
razão entre o montante capital empregado na produção e o valor total
dessa própria produção – e isso tende a reduzir fortemente a taxa de
lucro. Como esse sistema – que nunca está desacoplado do Estado – não
pode mais permitir que as crises destruam irrestritamente o capital
acumulado, permitindo assim uma recuperação dessa taxa, ele próprio como
um sistema mundial passou a enfrentar uma crise permanente de
valorização, ou seja, uma crise estrutural originada da produção
"insuficiente" de mais-valor. [3] <#notas>
Só lhe restou o neoliberalismo; grosso modo, essa /práxis /
sócio-política procurou criar contratendências à queda da taxa de lucro.
Para tanto, buscou decompor mais e mais a sociedade em indivíduos,
liberar os movimentos do capital financeiro, transferir as indústrias
intensivas em trabalho para a periferia, reduzir os salários reais dos
trabalhadores etc.Ora, tudo isso gerou uma recuperação fraca
principalmente no centro do sistema, que durou entre 1982 e 1997,
aproximadamente. A partir dessa última data, a tendência de queda da
taxa de lucro se impôs novamente sem perspectivas robustas de que essa
situação depressiva possa mudar.
A segunda contradição consiste num desdobramento da contradição entre o
caráter privado da apropriação e o caráter social da produção. À medida
que o capitalismo se desenvolve, cresce a necessidade de bens e serviços
ofertados como bens públicos; eis que eles são necessários para prover a
infraestrutura e a proteção social comunitária que garante uma certa
unidade ao sistema. Ora, esse provimento onera o orçamento dos Estados
nacionais, os quais são alimentados em última análise por recursos
extraídos do setor produtivo das economias. Diante da crise de
valorização, não lhes restou senão cair numa política de privatização
que tende a tornar os bens públicos cada vez mais escassos. Ao erodir a
base comum da sociedade, o neoliberalismo difunde a pobreza e o
niilismo, concentra a renda e a riqueza, solapa a democracia liberal –
ou seja, certos fundamentos que dão sustentação social e política ao
próprio [4] <#notas> capitalismo.
A terceira contradição diz respeito à transnacionalização da produção
por meio da financeirização, das empresas que operam em dezenas de
países, das cadeias mundiais de componentes, das plataformas digitais
etc. e o caráter nacional da regulação macrossocial e macroeconômica.
Como se sabe, o Estado é a instância de poder que põe a unidade que
falta num meio em que ocorrem frequentes disfunções sistêmicas e que
está permeado por antagonismos entre indivíduos, grupos e classes
sociais. É ele, ademais, que busca encontrar solução para os problemas
originados pelo próprio funcionamento do modo de produção. Contudo,
muitos problemas estão sendo gerados agora numa escala global, para além
do poder de intervenção dos Estados nacionais. Mais do que isso,
frequentemente, eles se encontram constrangidos pelos poderes que
prosperam internacionalmente e que se lhe sobrepõem.
Finalmente, é preciso mencionar a contradição entre o caráter
inerentemente predatório da produção capitalista e as exigências de
conservação e de regeneração do ambiente natural – nas quais se incluem
a reprodução da força de trabalho. Há um certo consenso no pensamento
crítico de que existe uma crescente "ruptura metabólica" entre a
produção mercadorias por meio da qual o capital se realiza enquanto tal
e as condições naturais da produção.
Eis que as condições ecológicas da sustentabilidade da civilização
humana vêm sendo erodidas com velocidade inaudita por um processo de
acumulação de capital que não pode parar e que, por isso, não pode
deixar de receber prioridade em cada uma das nações que compõem essa
civilização. Mesmo se são feitos acordos internacionais, por exemplo,
para reduzir as emissões de carbono, elas continuam crescendo; eis que
crescem mesmo se a geração desse tipo de poluição já se encontra em
nível bem crítico.
Ao não garantir a sustentabilidade da civilização humana no planeta
Terra, o capitalismo se tornou insustentável. É a partir dessa
consideração que Smith chega à tese do seu crepúsculo:
/Juntas, essas crises interrelacionadas sugerem que já se entrou na
era do ocaso do capitalismo – uma era na qual a humanidade encontra
os meios para criar uma ordem social e uma organização econômica
mais racionais ou na qual o decaimento progressivo do capitalismo
trará junto consigo a destruição da civilização humana. /
[1] Marx, Karl – Para a crítica da Economia Política. /Coleção Os
Pensadores: Marx / . São Paulo: Editora Abril, 1978, p. 130.
[2] Smith, Murray E. G. – /Invisible Leviathan – Marx's law of value in
the twilight of capitalism/
<https://www.bookdepository.com/Invisible-Leviathan-Murray-E-G-Smith/9781642590456?ref=grid-view&qid=1627945957688&sr=1-1>
. New York: Haymarket Books, 2018.
[3] Ver Prado, Eleutério F. S. – O futuro da economia mundial. In: /A
terra é redonda/
<https://aterraeredonda.com.br/o-futuro-da-economia-mundial/?doing_wp_cron=1627945811.3748888969421386718750>
, 8 de junho de 2021.
[4] Ver Brown, Wendy – Explicando nossos sintomas mórbidos. In: /Outras
palavras / , 30 de junho de 2021.
*[*] Professor titular e sênior do departamento de economia da FEA/USP.
Mantém o blog Economia e Complexidade
<http://eleuterioprado.wordpress.com/> . Correio eletrônico:
eleuter@usp.br. O seu vídeo está em
www.youtube.com/watch?v=6g9Ed7Qj65M&t=3s
<https://www.youtube.com/watch?v=6g9Ed7Qj65M&t=3s> .
O original encontra-se em outraspalavras.net/...
<https://outraspalavras.net/resgate/2021/07/23/nao-e-possivel-resgatar-mais-nada-sob-o-capitalismo/>
In
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/crise/prado_23jul21.html
3/8/2021
domingo, 1 de agosto de 2021
Três décadas de liberalização económica
– Uma análise indiana que pode ser estendida ao resto do mundo
*por Prabhat Patnaik [*]
Museu do neoliberalismo, em Londres. Fazem trinta anos desde a adopção
pela Índia das políticas neoliberais, em 1991 – embora alguns datem a
sua introdução ainda mais cedo, em 1985. Os jornais estão cheios de
avaliações dos impactos destas políticas sobre a economia e muitos
liberalizadores, desde Manmohan Singh
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Manmohan_Singh> até por aí abaixo,
subitamente tornaram-se visíveis a louvarem a sua obra. Na melhor das
hipóteses eles lamentam que os benefícios da liberalização tenham sido
desigualmente distribuídos. Manmohan Singh disse recentemente que "uma
vida saudável e dignificada para todos os indianos deve ser priorizada".
Alguém pode perguntar o que é que o impediu de fazer isso quando estava
ao leme do Estado.
Uma tal avaliação, de que a liberalização promoveu muito a taxa de
crescimento do PIB e portanto melhorou a vida de quase todo indiano,
levantando vastas massas das garras da pobreza absoluta, apesar de ter
aumentado a desigualdade de rendimento e riqueza no país, seria aceite
habitualmente não só pelos devotos da liberalização como também pelos
seus críticos, incluindo mesmo alguns na esquerda. As diferenças,
aparentemente, referem-se apenas ao peso que cada um dá à igualdade em
relação ao crescimento. Os liberalizadores argumentariam mesmo que os
malefícios da desigualdade desapareceriam se a taxa de crescimento na
economia reanimasse e aumentasse, pois os "espíritos animais" dos
capitalistas que determinam quanto investimento fazem têm de ser
promovidos. E o governo Modi afirmaria que promover os "espíritos
animais" dos capitalistas é precisamente o que está a fazer através das
suas políticas anti-laborais e anti-campesinato, algumas das quais o
Congresso, apesar de não ter uma análise diferente, curiosamente se
opõe. Assim, a alegação das instituições de Bretton Woods de que existe
um amplo "consenso" sobre as políticas neoliberais entre os principais
partidos políticos parece também estender-se à avaliação dos seus
efeitos na economia ao longo das últimas três décadas.
Contudo, toda esta percepção é errada devido a pelo menos duas razões. A
primeira, vê o sector capitalista da economia como sendo mais ou menos
independente, destacado do resto da economia, cujo principal efeito
sobre o seu ambiente circundante é simplesmente atrair cada vez mais
trabalho do mesmo – e o lamento é que não tenha feito isso
suficientemente. Na realidade, contudo, a acumulação dentro do sector
capitalista invariavelmente choca-se com mundo exterior existente de
múltiplas formas. Ele atrai não só trabalho do mundo ao mundo exterior a
si, o que numa economia com reservas maciça de trabalho é uma coisa boa,
como também terra e outros recursos incluindo recursos orçamentais
(exemplo: subsídios a capitalistas para promoverem os seus "espíritos
animais" ocorrem a expensas de subsídios para a agricultura camponesa
que tradicionalmente tem contribuído para a sua viabilidade). E o
crescimento do sector capitalista também puxa a procura para longe dos
sectores tradicionais.
Portanto, a acumulação de capital invariavelmente mina a economia de
pequena produção circundante (um processo a que Marx chamou de
"acumulação primitiva de capital"), mesmo quando retira pouco trabalho
da mesma. Ao contrário do que diz a teoria económica burguesa
convencional, nomeadamente que uma taxa rápida de acumulação de capital
simplesmente absorverá as reservas de trabalho, reduzindo dessa forma o
desemprego e a pobreza (e se assim não fizer então a panaceia está numa
taxa de acumulação de capital ainda mais rápida), tal acumulação mina a
economia circundante de pequenos produtores sem absorver muito trabalho.
Isto significa um aumento do desemprego e da pobreza. E se a taxa de
acumulação de capital for aumentada, então isso apenas piora esta
tendência ao invés de aliviá-la.
Isto é de facto exactamente o que tem acontecido, reflectindo-se mesmo
nas próprias estatísticas do governo. O enfraquecimento da agricultura
camponesa sob o regime neoliberal, o qual lhe retirou toda a protecção
dada durante o período dirigista anterior, é óbvio. Manifesta-se na
queda da lucratividade da agricultura camponesa; manifesta-se também no
facto de entre os censos de 1991 e 2011, o número de "cultivadores" (tal
como definido pelo censo) ter diminuído em 15 milhões; e é dolorosamente
evidente pelos suicídios de mais de 300 mil agricultores durante as
últimas três décadas.
Não surpreendentemente, a magnitude da pobreza, no sentido mais
elementar do acesso às calorias, e não apenas da desigualdade, aumentou
desde o início das reformas neoliberais. A percentagem de pessoas com
acesso a menos de 2200 calorias por pessoa por dia na Índia rural (que
era a referência oficial original para a pobreza rural), aumentou de 58
em 1993-94 para 68 em 2011-12 (ambos os anos do inquérito de grandes
amostras do NSS <http://www.mospi.nic.in/national-sample-survey-nss> ).
Os números correspondentes para a Índia urbana, onde a referência
original era de 2100 calorias por pessoa por dia, são respectivamente 57
e 65.
As questões tornaram-se ainda piores desde 2011-12. O inquérito por
amostragem de 2017-18 do NSS revelou números tão surpreendentes que o
governo Modi decidiu suprimi-los por completo e também descontinuar
estes inquéritos na sua forma antiga. No entanto, algumas informações
escaparam antes de os resultados serem suprimidos e estes mostram que
entre 2011-12 e 2017-18, a despesa de consumo per capita em todos os
itens em termos reais caiu 9% na Índia rural. Nada como isto havia
alguma vez acontecido em tempos normais (ou seja, exceptuando grandes
falhas nas colheitas) na Índia independente.
O assalto à agricultura camponesa sob o neoliberalismo está realmente a
intensificar-se. A sua manifestação mais recente, sob a forma de três
leis agrícolas destinadas a promover os interesses do grande capital à
custa dos camponeses, é tão prejudicial que trouxe grandes massas
camponesas dos estados vizinhos para Deli, exigindo a sua retirada.
Deixem-me agora passar à segunda falha na percepção neoliberal. O
investimento dos capitalistas não depende apenas de alguma coisa
intangível chamada "espíritos animais", mas está enraizado em cálculos
tangíveis que fazem sobre as perspectivas de crescimento nos mercados. É
verdade que a resposta a tais cálculos dentro de limites pode depender
do seu estado de optimismo ou pessimismo (o qual é captado pela
expressão "espíritos animais"), mas claramente se o mercado não estiver
a crescer ou se o crescimento abrandar, então o investimento dos
capitalistas sofre, não importa quantos subsídios lhes sejam concedidos.
Agora, o neoliberalismo ampliou a desigualdade de rendimentos por toda a
parte, incluindo a Índia: de acordo com Piketty e Chancel, a percentagem
dos 1% de topo da população no rendimento nacional total era de apenas
6% em 1982, mas aumentou para 22% em 2013-14 (o valor mais alto desde há
quase um século). Como os trabalhadores consomem mais dos seus
rendimentos do que os ricos, uma ampliação da desigualdade de
rendimentos equivale a uma transferência de rendimentos do primeiro para
o últimos, o que tem o efeito de reduzir o consumo e, consequentemente,
a procura agregada, a qual por sua vez reduz o investimento e o
crescimento. Em suma, o neoliberalismo é afligido por uma tendência
estagnacionista, a qual, para o mundo capitalista como um todo, havia
sido mantida sob controle por "bolhas" na economia dos EUA, primeiro a
"bolha dotcom" nos anos 90 e depois a "bolha habitacional" na primeira
década deste século. Com o colapso da "bolha habitacional", a economia
mundial entrou numa crise prolongada que não tem solução sob o
neoliberalismo (que se opõe à intervenção do Estado na "gestão da
procura").
Isto afectou também a economia indiana onde, mesmo antes da pandemia, a
taxa de desemprego em 2019 era a mais alta já verificada durante 45
anos. Istto tem duas espécies de efeitos sobre o povo: uma, que agravou
consideravelmente as condições de vida dos trabalhadores, mesmo antes da
pandemia, os quais já estavam a ser prejudicados pelo perseguição do
neoliberalismo. A recente queda drástica do emprego e do consumo
sublinha este facto.
Em segundo lugar, a crise levou ao cimentar de uma aliança entre o
grande capital e grupos fascistas Hindutva, os quais apoiam o governo
Modi. Uma tal aliança não é específica da Índia. Em períodos de crise, o
grande capital promove e financia a ascensão política de grupos
fascistas com os quais forma uma aliança. Ele assim o faz como um meio
de alterar o discurso, destinado a difamar o "outro", a fim de distrair
o povo da sua difícil situação económica. Se bem que tais grupos no
poder cumpram as ordens do grande capital, eles derivam a sua força
política não de qualquer solução económica para a crise que ofereçam mas
sim de afastar a atenção para longe do âmbito económico.
O neoliberalismo, em suma, embora esmagasse os trabalhadores mesmo
quando experimentava um crescimento elevado, quando entrou em crise
aumentou o esmagamento e anunciou um arranjo que é inimigo das premissas
básicas da constituição indiana, tais como democracia, laicidade e
igualdade social.
Os devotos da liberalização não percebem que, embora possa ter aumentado
a taxa de crescimento do PIB, ela tem piorado as condições dos
trabalhadores e minado os princípios fundadores sobre os quais uma nação
indiana moderna pode ser construída.
01/Agosto/2021
*[*] Economista, indiano, ver Wikipedia
<http://en.wikipedia.org/wiki/Prabhat_Patnaik>
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2021/0801_pd/three-decades-economic-liberalisation
<https://peoplesdemocracy.in/2021/0801_pd/three-decades-economic-liberalisation>
Tradução de JF. *
In
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/patnaik/patnaik_01ago21.html
1/8/2021
domingo, 25 de julho de 2021
Desintegração: indicadores do próximo colapso do império americano (2)
*por Daniel Vaz de Carvalho [*]
* *
*As elites dos EUA e seus seguidores europeus consideraram que podiam
ser livres em relação à sociedade, em especial àquela que traíram. É
altura de deixarem o palco da História.
Andrei Martyanov (p. 146) [1] <#notas> *
'Disintegration', de Andrei Martyanov. *5 - Geopolítica *
Geopolítica num sentido abrangente tem que ver com expansão económica,
conquista de mercados, acompanhada frequentemente de extrema violência.
(p.42) Não pode deixar de se reconhecer que efetivamente os objetivos
geopolíticos dos EUA têm sido acompanhados de morte e destruição, não
tendo apenas uma motivação militar, mas também económica.
Trata-se de um termo inventado pelos EUA para polir todo um conjunto de
instrumentos que usam na política internacional, meios regulares e
irregulares, desde massivas operações militares a sabotagem económica,
guerra psicológica, etc. (p.155) Em resumo, geopolítica é um eufemismo
para mascarar os processos usados para travar o seu óbvio declínio.
Como diz o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia
<https://www.mid.ru/en/foreign_policy/news/-/asset_publisher/cKNonkJE02Bw/content/id/4801890>
, quando alguém age contra a vontade do Ocidente imediatamente respondem
com a alegação de que "as regras foram violadas" (sem se preocuparem em
apresentar qualquer evidência) e declaram ser seu "direito
responsabilizar os perpetradores". "A Carta da ONU é um conjunto de
regras, mas essas regras foram aprovadas por todos os países do mundo e
não – como neste caso – por um grupo fechado de amigos numa reunião
intima".
A arrogância dos EUA atinge o nível do ridículo, protegida pelo controlo
mediático, como Obama a declarar que a economia da Rússia "ficaria em
farrapos" após as sanções americanas. Não apenas a Rússia desenvolveu
com êxito um programa de substituição de importações, como contra-atacou
sancionando o Ocidente e desenvolveu tecnologias próprias. O /Financial
Times / escrevia: "A Rússia, adaptando-se às sanções, conseguiu uma
economia robusta. Analistas dizem que Moscovo tem agora mais medo do fim
das sanções que o contrário". (p.100) O que, diga-se deita por terra as
teses neoliberais do "mercado livre"…
As ilusões geoestratégicas baseiam-se num poder irreal e em teorias
económicas totalmente falseadas. A forma como lidam com a Rússia mostra
a extrema ignorância e incompetência para com o único país que pode
varrer os EUA do mapa. (p.127) Estabelecem, por exemplo, comparações
absurdas do PIB da Rússia com o da Itália ou da Espanha, como se estes
países, mesmo a Alemanha, possuíssem as capacidades científicas e
tecnológicas no sector aeroespacial, aeronáutica, informática, indústria
petrolífera, armamento sofisticado, da Rússia.
Do desastre no Iraque, à guerra perdida no Afeganistão, à Líbia, à
Síria, etc., tudo tem sido um desastroso registo de incompetência
geopolítica nos domínios diplomático, militar e de informações. (p.114)
Em 2007, Putin tornou evidente a irrelevância da geopolítica americana
ao rejeitar o comportamento supranacional dos EUA: "É inadmissível que
um país estenda a sua jurisdição para além das suas fronteiras." (p.116)
Estas e outras declarações, como as revelações sobre o armamento russo,
foram recebidas com desdém e objeto de censura para que a opinião
pública não chegasse a apreender o seu significado. As pessoas são desta
forma conduzidas para situações que põem os seus países à beira de
confrontos militares de incalculáveis consequências na perfeita
ignorância das opções tomadas. É esta a democracia da geopolítica vigente.
Gastos militares, 2019. *6 - Armamento [2] <#notas> *
Os EUA perderam todas as guerras do século XXI e a superioridade em
armamentos. AM salienta que o poder militar dos EUA é suportado pela
hegemonia do dólar e não por qualquer mítica competitividade da sua
economia. O dólar e o poder militar estão de facto numa relação
simbiótica, alimentando uma hipotética superioridade que as produções de
Hollywood se encarregam de difundir. (p.152)
Apesar dos enormes montantes do orçamento militar o seu poder reduz-se
drasticamente. Os misseis Tomahawk foram em 70% derrubados no ataque à
Síria em 2018, sem que este país sequer dispusesse dos mais avançados
mísseis defensivos russos. Na Arábia Saudita os sistemas defensivos dos
EUA não puderam evitar os ataques a refinarias por parte de drones dos
Houtis do Iémen.
Novas armas russas como o míssil Buresvestnik (Petrel) com alcance
ilimitado colocam os EUA num atraso de dezenas de anos. O Kinzhal com
alcance de 2 000 km, Mach 9, não é interceptável por qualquer sistema
antimíssil dos EUA. Os 3M22 Zircon excedem significativamente o alcance
da aviação dos porta-aviões. Os P800 ONIKS
<http://www.military-today.com/missiles/p800_oniks.htm> são considerados
dos mísseis anti-navio mais versáteis e perigosos da atualidade. Com
velocidade supersónica têm excelente resistência a contra-medidas
eletrónicas e podem voar pouco acima do mar, tornando-se praticamente
invisíveis ao radar. A Rússia dispõe também do míssil intercontinental
(alcance 18 000 km) RS-28 Sarmat
<https://en.wikipedia.org/wiki/RS-28_Sarmat> , Mach 20, e dos Avangard
<https://missilethreat.csis.org/missile/avangard/> Mach 20, míssil
planador com alcance de 6 000 km.
Os super porta-aviões morreram como instrumento militar viável para a
guerra moderna. Seriam destruídos antes de poderem concretizar qualquer
impacto sério à Rússia ou à China. Note-se que já nos anos 1980 aqueles
navios poderiam não sobreviver num combate real convencional com a União
Soviética. (p.162)
Os modernos S-400 e os revolucionários S-500
<https://www.rt.com/russia/529705-anti-aircraft-system-display/> de
defesa aérea fecham o espaço aéreo russo e de seus aliados a quaisquer
ataques aéreos, balísticos e armas colocadas no espaço. Os EUA não têm
meios contra o caça SU-35C russo, ou o novo SU-57. O radar do SU-35C
pode detetar aviões ditos invisíveis ao radar a 100 km, dispondo de uma
inultrapassável capacidade de manobra. A nova tecnologia radiofotónica
tornou os aviões "invisíveis" F-35 (em que os EUA gastaram cerca de 1,5
milhões de milhões de dólares) obsoletos.
Não apenas a Rússia, também a China tem capacidade contra alvos dos EUA
ou NATO. O Irão, com armamento próprio, da China e da Rússia pode fechar
completamente o Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz. Atacar o Irão seria
um suicídio para os países ocidentais, mas apesar disto é um objetivo
incentivado pelos corruptos promotores de guerras. (p.169)
Nos EUA a produção de armamento é um negócio. A capacidade militar dos
EUA tem pouco a ver com a defesa do seu território – ao contrário da
Rússia e da China –, são forças armadas concebidas para policiamento
colonial. (p.182)
Sem dúvida que os EUA são capazes de desencadear uma guerra contra a
Rússia, mas se isto acontecer significa que os EUA deixarão de existir,
tal como a maior parte da civilização humana. Este horror é algo que
para alguns nos EUA representa um preço pequeno a pagar para satisfizer
o seu vício de poder. (p.229)
*7 – Elites *
As elites dos EUA deixaram de ter gente verdadeiramente competente,
capaz de prever mesmo ao nível mais geral as consequências das ações,
militares ou outras, que promovem. (p.140) São incultas,
insuficientemente preparadas e hipnotizadas por décadas de propaganda.
Também são arrogantes e corruptas. (p.228)
Estas elites escondem-se atrás de uma retórica escolástica, incapazes de
reconhecer a catastrófica situação económica, militar, política e
cultural, cujas raízes estão na crise sistémica do liberalismo. (p.43)
Em geral estão em completa negação do facto de que a crise capitalista
atingiu uma tendência muito mais profunda e perigosa, a nível económico
e político, que os meros ciclos capitalistas. (p.82)
Defendem uma economia baseada em teorias que resultam de abstrações do
real. Uma economia gerida pela elite financeira à qual comentadores e
políticos se prostram em patética admiração. Vários deles foram
responsáveis por estrondosas falências e fraudes, alguns apanhados nas
malhas da justiça, apesar de muito largas nestes casos.
As teorias da "vitória na guerra fria", do "fim da História" ou do
"choque de civilizações" mostram claramente as severas limitações da
ciência política dos EUA. Estes trabalhos provaram ser falsos nos seus
principais pontos de vista e mesmo no seu conjunto idiotas. (p.115) Não
deixaram por isso de ser propagandeados como súmulas da sabedoria
liberal, orientar a mentalidade de milhões de pessoas e acalentar as
ilusões dos belicistas dos EUA e seguidores deste lado do Atlântico.
Os intelectuais dos EUA aparecem como pouco convincentes se confrontados
com os factos, mesmo risíveis, incompetentes e vulgares. A degeneração
moral e intelectual da elite ocidental não é acidental ou episódica, é
sistémica, do mesmo modo que a crise liberal é sistémica. (p.145)
Por exemplo, no caso da Ucrânia a agitação fomentada pelos EUA e UE
resultou numa guerra civil, regiões que se desligaram de Kiev, a Crimeia
em referendo preferindo integrar-se na Rússia. A Ucrânia tornou-se um
Estado disfuncional dominado por grupelhos neonazis, atolado na pobreza
e na corrupção. "O facto das elites não reconhecerem as consequências do
que faziam e o que se iria desde logo desencadear mostra o seu completo
colapso intelectual." (p.121)
A objetividade deriva de bases científicas baseadas na realidade, não
pode operar em narrativas opostas à evidência empírica, mas isto está
dramaticamente em falta nos EUA. Aquilo que nos EUA se designa de
esquerda é apenas revolta e anarquia; tal como o conservadorismo é
revolta e anarquia. (p.133)
A democracia americana revela-se como um espetáculo político financiado
pela oligarquia que procura legitimar o seu poder enquanto evita por
todos os meios quaisquer reformas ao sistema económico. Apesar de muito
rica a oligarquia não percebe que os EUA já não são o superpoder global.
Podem aqui e ali ameaçar e chantagear políticos, estrangeiros, enviar
porta-aviões, mas ninguém no terceiro mundo está a tremer nas suas botas.
Tudo isto devia ser ponderado pelos políticos europeus, que pelo
contrário seguem os EUA, cegos arrastados por outros cegos, como no
quadro de Brugel, para o pântano das crises insolúveis e da insegurança
coletiva.
*8 – Colapso e desintegração *
Atualmente os EUA são confrontados com forças de desintegração. A
questão é quantos dos interesses vitais dos EUA são de facto verdadeiros
interesses nacionais. Quem define esses interesses são os lóbis do
complexo militar industrial, de Israel e outros. (200) O seu exército
tem estado envolvido em tarefas, imprudentes, mesmo miseráveis e
impossíveis de levar a cabo. É usado como instrumento de agressão e não
de defesa. A questão que se coloca é se representa a nação ou é um mero
instrumento das transnacionais. (p.192)
Como dizia um veterano da guerra do Vietname: "O procedimento normal nos
EUA é sobrestimar o poder americano, subestimar o inimigo e não
entenderem o tipo de guerra em que se metem". (p.160)
AM afirma que os EUA são cada vez mais vistos como um fanfarrão,
provocador e agressor, do qual há cada vez menos receio. As habituais
mentiras de espalhar a democracia não passam qualquer análise factual.
As suas análises são meras câmaras de ecos, que as grandes agências
mediáticas espalham pelo mundo, não deixando por isso de ser menos
perigosas. (p.125)
A hegemonia dos EUA baseia-se na convicção que outros países tenham da
sua capacidade de punir aqueles que duvidem da sua omnipotência militar
ou tenham visões alternativas sobre a economia e a finança dos seus
países e do mundo, nas quais o dólar não seja a única medida do valor do
trabalho humano. (p.156)
Esta agenda global colapsa porque são incapazes de vencer guerras. Isto
não quer dizer que não tentem e usem todos os meios: sanções, sabotagem,
bombardeamentos, mesmo invasões. Milhões de pessoas poderão ser mortas,
perecerem pela fome ou tornarem-se refugiados para satisfazer as elites
dos EUA e a ilusão de serem a nação mais poderosa do mundo. (p.157) E
tudo isto vale a pena, como disse Madeleine Allbright sobre as mortes de
crianças no Iraque devido às sanções.
Esta insensibilidade, ignorância e incapacidade de aprender fundamentam
a política dos EUA e leva-os ao seu dramático declínio. O debate sobre
política externa diz apenas respeito a conservarem a hegemonia, referida
como os seus interesses e a sua segurança, sem se aperceberem de quão
perigosa é esta falácia. (p.191)
A estrutura da ordem liberal global colapsa ante os nossos olhos.
Enquanto os EUA continuam a proclamar-se o poder hegemónico a sua
economia e a de outros países ocidentais afunda-se e amplas regiões da
Eurásia saem da sua influencia. (p.119)
Quando "comentadores" falam de Cuba como "uma das últimas ditaduras
comunistas" ou apoiam o Estado fantoche e nazificado da Ucrânia contra a
Rússia, vemos a que ponto a UE se afunda, dominada pela mentira e
ilusões do império, incapaz de uma atitude e um pensamento racional,
mesmo na defesa dos mais evidentes interesses dos seus países. O facto
dos mesmos nunca por nunca questionarem as atrocidades direta ou
indiretamente cometidas pelo império, em agressões militares,
conspirações, sanções sobre pequenos países, mostra a degeneração moral
e intelectual atingida pela elite ocidental.
Atualmente os EUA são confrontados com forças históricas e
antropológicas de desintegração. AM expõe as razões pelas quais os EUA
estão num processo que pode levar à sua desintegração como Estado
Federal por credos políticos, raciais, religiosos, fragmentação social e
desigualdades gritantes. Na base deste processo verifica-se porém que os
interesses a que a sua política está sujeita, pouco têm a ver com os
interesses da nação americana. (p.201)
Os EUA não são nem uma democracia nem uma república, são governados por
uma oligarquia, representada por dois clãs dirigentes. O perigo reside
em que têm capacidade para desencadear um conflito termonuclear global
na sua desesperada tentativa de preservar um imaginário estatuto de
excecionalismo. E se isto não assusta as pessoas, nada o fará. (p.113)
No "colapso da URSS", à parte fatores internos, as suas forças armadas
não eram inferiores às da NATO, nem a educação inferior e a população
soviética estava (pelo menos antes da perestroika) a viver melhor que em
qualquer outra época da sua História, no entanto grandes massas do povo
foram seduzidas pela riqueza exibida no Ocidente. (p.20) A Rússia sofreu
então os horrores da sombria experiência liberal e de um revisionismo
histórico que custou milhões de vidas. Paradoxalmente os EUA parecem
encaminhar-se para uma experiência semelhante. (p.235) E não é o seu
discurso de ilusória hegemonia global que pode travar a desintegração.
A UE é arrastada neste desastre e está a desintegrar-se ainda mais
rapidamente que os EUA. (p.214) Em todas as ações do império nem uma
única se pode dizer que beneficiou de alguma forma a Europa no seu
conjunto a começar pelo que realmente importa ao seu povo.
No final, conclui AM, é espírito da nação que decide o resultado quando
tudo parece perdido. Se a América vai encontrar este espírito para se
preservar como um país unido e inverter a sua desintegração, é o que se
espera para ver. E tudo decorrerá daqui. (p.235)
25/Julho/2021
A primeira parte encontra-se em
resistir.info/v_carvalho/desintegracao_martyanov_1.html
<https://resistir.info/v_carvalho/desintegracao_martyanov_1.html>
[1] /Disintegration, Indicators of the Coming American Collapse,/
<https://www.bookdepository.com/Disintegration-Andrei-Martyanov/9781949762341?ref=pd_gw_1_pd_gateway_1_1>
Clarity Press, 2021.
Esta e outras obras de Martyanov podem ser descarregadas na secção
livros <https://resistir.info/livros/livros.html> .
O capítulo 4 de /Disintegration, / sobre energia, está traduzido e
publicado em resistir.info/energia/martyanov_energia.html
<https://resistir.info/energia/martyanov_energia.html> .
[2] Sobre este tema ver: A perda da supremacia militar e a miopia do
planeamento estratégico dos EUA, aqui
<https://resistir.info/v_carvalho/martyanov_resenha_1> e aqui
<https://resistir.info/v_carvalho/martyanov_resenha_2> , bem como A
revolução nos assuntos militares
<https://resistir.info/v_carvalho/rev_militar_resenha.html>
In
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/v_carvalho/desintegracao_martyanov_2.html
25/7/2021