Daniel Vaz de Carvalho [*]
Destruição da agricultura na UE.
*1 – A UE segue o seu destino*
E segue-o sem honra nem glória num inevitável declínio da economia à
cultura. Nem algo diferente era de esperar. Aquilo a que se chama UE é
apenas a entidade encarregada da gestão económica e (anti)social da área
UE/NATO europeia. Segue uma doutrina económica totalmente errada, mais
que evidenciado na teoria e na prática: o neoliberalismo. Em termos
geopolíticos identifica-se como os interesses de uma potência a 10 000
km de distância, funcionando como um espaço colonizado ou um protetorado.
Fez da democracia uma farsa dominada por burocracias federalistas, meros
agentes da finança e do poder hegemónico. Uma burocracia desligada dos
interesses das populações, que alojada na CE e no BCE controla as
políticas dos Estados com poder de aplicar sanções. Contudo nada mais
produz que medidas desadequadas, agindo atrás dos acontecimentos e
crises na tentativa de remediar os erros das suas decisões, mas sem
alterar os procedimentos. Quanto ao PE é um espaço de poder virtual, bom
para os respetivos membros obterem prebendas.
Nos Estados apenas são governantes os que aceitam o poder hegemónico
transatlântico e o da burocracia. Uma ou outra exceção é sujeita a
constantes pressões, ameaça de sanções ou equivalente, discriminação e
descredibilização mediática.
Outro aspeto fundamental da UE é a incompetência dos seus principais
dirigentes. É difícil encontrar algo no mínimo com bom senso, dito pela
sra. von der Leyen. O mesmo se aplica genericamente aos demais elementos
da burocracia europeia. O Stoltenberg da NATO é incapaz de articular uma
frase consequente. Fica-se a duvidar da sua lucidez militar e
geopolítica. Os governos acabam nas mãos de trafulhas como Macron ou
Scholtz. A incompetência geral é disfarçada com propaganda e alardear de
ilusões sem qualquer sentido realista. A extrema-direita aproveita este
contexto para desacreditar e vir a liquidar o que resta de democracia e
direitos sociais.
Os debates centram-se na mediocridade de se falar de pessoas ou relatos
dos media, sempre dentro dos dogmas instituídos. É o resultado do
combate à cultura, ao sindicalismo de classe, à formação integral dos
indivíduos. O proletariado levado por estas políticas, prosseguidas por
décadas, foi colocado ao nível de lumpen e levado a aceitar a demagogia
que reforça este sistema destrutivo. É um círculo vicioso.
Para garantir a “unidade” do complexo divergente de Estados que é a UE/
NATO, foram instituídos inimigos: a Rússia, a China, etc. Todos para os
quais os neocons de Washington apontarem. Azar – o nosso, claro – o tal
país que é suposto defender em nome da “democracia e valores do
ocidente”, é um reduto de neonazis em que Stepan Bandera e outros
criminosos nazis, responsáveis pelo assassinato de milhares de judeus,
russos e polacos, foram transformados em heróis nacionais, com estátuas
e ruas em sua homenagem. Um regime em que militantes realizam desfiles
neonazis, glorificam criminosos da 2ª Guerra Mundial, usam insígnias e
emblemas da divisão SS ucraniana e colocam símbolos da Wehrmacht em
equipamento militar fornecido pela NATO. Um regime assim, nascido de um
golpe, organizado pelos EUA em 2014, tinha obviamente ser apoiado pela
UE/NATO.
Apartamento de Zelensky no Dubai.
Uma das características do fascismo e dos regimes de extrema-direita é
além do terrorismo de Estado, a corrupção, por muito que se apresentem
como “regeneradores” quer raciais quer da moral pública. O regime de
Kiev está neste caso, é considerado um mundo de corrupção e os exemplos
vêm dos chefes: são os desvios de dezenas de milhões que vêm UE/NATO
para munições. São as mansões de Zelensky, a última registada no Dubai
por 16 milhões de dólares em 22 de dezembro. (Geopolítica ao vivo
<https://t.me/geopolitics_live/15710>, Telegram, 07/02)
Em conformidade com o que exibem, nos serviços de segurança (SBU) a
prática de prisões arbitrárias e tortura é corrente desde o início do
regime, tudo abafado na censura mediática e negação. O que poderia ser
um escândalo ou rebate de consciência dos defensores dos “valores do
ocidente”, ocorreu recentemente com o jornalista cidadão dos EUA,
Gonzalo Lira, morto em janeiro de 2024 depois de torturado nas masmorras
do regime de Kiev por publicar textos críticos sobre Zelensky.
Outro aspeto negro do que a UE/NATO apoia intransigentemente é o site
Mirotvorets (onde Gonzalo Lira estava listado como “propagandista anti-
ucraniano”). O Mirotvorets, fundado em março de 2014 é um banco de dados
na internet, com extensas informações sobre pessoas classificadas como
"inimigos da Ucrânia", chefiado por Roman Zaitsev, ex-funcionário da
SBU, e supostamente controlado pelo SBU. Contém imagens de cadáveres e
mutilados e apelos ao massacre dos russos e de outros “inimigos” da
Ucrânia, inclui jornalistas ucranianos e estrangeiros, políticos,
figuras da oposição, bloguistas e nada menos que 327 menores de idade,
conforme relatado pela Foundation to Battle Injustice <https://
dcweekly.org/2023/12/01/the-ukrainian-governments-misuse-of-myrotvorets-
an-investigation-by-the-foundation-to-battle-injustice/>. Entre os
indivíduos assassinados que estavam na "lista de mortes" constam o
publicitário ucraniano Oles Buzina, o legislador Oleg Kalashnikov,
jornalistas russos como Zemfira Suleimanova, Anton Voloshin, Andrey
Stenin, Vladlen Tatarsky e a jovem Daria Dugina. A foto-jornalista
italiana Andrea Rocchelli também foi alvejada e morta. Entre os
numerosos cidadãos americanos na “lista de morte” do regime de Kiev
estão Tucker Carlson, Scott Ritter, Tulsi Gabbard, Oliver Stone, Douglas
McGregor, Ray McGovern, Roger Waters (dos Pink Floyd), etc. (Geopolítica
ao vivo <https://t.me/geopolitics_live/15759>, Telegram, 08/02)
*2 - Um sistema em colapso*
As “regras” do Pacto de Estabilidade e Crescimento, não trouxeram nem
estabilidade nem crescimento sendo retomadas com ligeiras “adaptações”:
os excedentes orçamentais terão de ser utilizados para reduzir a
dívida pública até 60% do PIB, com uma fase mais rigorosa até a 90% do
PIB. *A austeridade é o lema e os trabalhadores e seus direitos
continuam a ser a variável de ajustamento económico, enquanto /o império
impõe mais despesas militares./ Compete aos políticos do sistema e aos
media irem mantendo ilusões e “jogo democrático”, de acordo com decisões
tomadas longe da plebe, como nas reuniões semestrais do Institut
International d'Etudes Bancaires <https://en.wikipedia.org/wiki/
Institut_International_d%27Etudes_Bancaires>, com dirigentes dos
principais bancos europeus. Trata-se de uma organização cujo secretismo
é de norma, não mantém um site nem divulga os seus membros.*
*Ao “país excecional” não se aplicam as mesmas regras que aos vassalos.*
Nos EUA a dívida federal é de 122,7% do PIB e incluindo a dos Estados e
locais 136%, tendo crescido nos últimos quatro anos, 1,6 milhões de
milhões de dólares ao ano, embora aumente a pobreza, as desigualdades e
a insegurança e prossigam a queda do nível de vida, a degradação das
infraestruturas, a par das guerras sem solução.
O BCE não consegue controlar a inflação, 6,2% em 2023, muito acima da
meta nunca explicada de 2%, persistindo em taxas de juro que levam a
economia para a estagnação ou mesmo em alguns países à recessão. Mas a
banca agradece.
Não se trata de uma conjuntura: a estagnação económica é persistente.
De 2000 a 2023, o crescimento anual em valores constantes foi na UE de
1,4%, Zona Euro 1,15%, Alemanha 1,2%, França 1,12%, Portugal 0,8%, na
Itália e Grécia ainda menos. As perspetivas são sombrias, sem energia
abundante e barata não será possível reverter o processo de
desindustrialização nem garantir a competitividade dos seus produtos,
mesmo os agrícolas dependentes de combustíveis e fertilizantes
encarecidos pelo clima de guerra e sanções, além da sabotagem do Nord
Stream que garantiu aos EUA a exportação de gás natural liquefeito, com
preços 30-40% mais elevados que o gás natural russo.
Desindustrialização alemã.
O RU, o mais assanhado militarista do bloco UE/NATO encaminha-se para a
recessão. A Alemanha – considerada economia líder da UE – tenta sair da
recessão, com a *produção industrial a cair meses consecutivos, como a
do importante sector químico alemão que entrou em crise em 2023,
atingido pela crise energética na sequência das sanções. Segundo a
Bloomberg: “Os dias da Alemanha como superpotência industrial estão a
chegar ao fim”. Industriais e responsáveis económicos partilharam esta
perspetiva sombria. “Já não somos competitivos”, admitiu o ministro das
Finanças alemão. Muitas empresas fecham ou mudam-se para o estrangeiro”.
Mas a Alemanha continua a pagar quantias absurdas pelo gás natural
liquefeito americano, ao mesmo tempo que mantém as sanções ao gás
russo.* (Geopolítica ao vivo <https://t.me/geopolitics_live/16014>,
Telegram, 10/02).
Numa coisa os políticos do sistema e burocratas são férteis: na
prosápia. Como vão obter fundos para as despesas militares impostas pelo
império, onde está a fanfarronada da economia digital iludindo a
desindustrialização, quando *a UE produz apenas 10% <https://
commission.europa.eu/strategy-and-policy/priorities-2019-2024/europe-
fit-digital-age/european-chips-act_fr>, dos semicondutores a nível
mundial; produzia 40% há trinta anos.*
*Mas há mais problemas que a burocracia dirigente é incapaz de resolver,
agravando-os todos. Não existe uma real estratégia de desenvolvimento,
além de palavreado inconsequente face a concorrentes como a China ou a
Índia. Que solução têm para resolver os problemas energéticos ou de
matérias-primas e componentes para equipamentos eletrónicos necessários
para praticamente todas as atividades, ou lítio para baterias de
viaturas elétricas? /O bloco UE/NATO tem ainda de enfrentar o problema
do tráfego de navios no Mar Vermelho que caiu para metade./ Com isto as
indústrias enfrentam interrupções nos fornecimentos, cortes na produção,
aumentos de preço. Até agora as prioridades políticas reduzem-se a
apoiar guerras, favorecer a finança ou os oligopólios da grande
distribuição e que os governos não incomodem o grande capital.*
Sobrepreço do GN adquirido pela UE.
Segundo o vice-ministro russo das Relações Exteriores, as perdas totais
da UE devido às sanções à Rússia atingiram 1,5 milhão de milhões /
(trillion) /de dólares. (Geopolítica ao vivo <https://t.me/
geopolitics_live/9043>, Telegram, 03/11/2023). A partir dos dados do
Eurostat, os países da UE tiveram de pagar cerca de 185 mil milhões de
euros adicionais em gás natural nos últimos 20 meses, ao cortarem o
acesso ao gás russo. (Geopolítica ao vivo <https://t.me/
geopolitics_live/12834>, Telegram, 02/01)
As sanções criaram pelo contrário um dinamismo económico na Rússia e na
China que atraiu países de todos os continentes estabelecendo com eles
relações preferenciais, em detrimento do ocidente. A Rússia apresentou
recordes de exportações estratégicas, como combustíveis e cereais,
tornando-se um país fundamental na oferta mundial destes bens. Em 2023 o
orçamento russo apresentava um excedente equivalente a 2 300 milhões de
dólares. (Geopolítica ao vivo <https://t.me/geopolitics_live/5092>,
Telegram, 08/09/2023)
Expulsa da plataforma de trocas financeiras SWIFT, fundamental para o
comércio internacional, a Rússia criou um sistema alternativo, à qual
cerca de 159 participantes estrangeiros de 20 países tinham aderido em
2023, estando em curso o alargamento da adesão à plataforma financeira
russa.
*3 – O agravamento da degradação social*
Agrava-se a situação social na UE e aumentam as lutas económicas em
praticamente todos os setores, mas também protestos contra a hipocrisia
do conluio em relação aos crimes de Israel contra os palestinos,
exigindo um cessar-fogo na Faixa de Gaza.
As lutas económicas ainda não têm grande expressão política no sentido
de refletirem uma rejeição consciente das políticas discricionárias e
dogmas absurdos mantidos por uma burocracia zelosa. O aumento do
ativismo da classe trabalhadora é um facto, apesar da
desindustrialização, da promoção do individualismo e da propaganda
contra tudo o que é coletivo. São programas de que a oligarquia não
prescinde e que os defensores do liberalismo apoiam com a vacuidade dos
“equilíbrios automáticos do mercado”. Porém, conduzem à desestruturação
das sociedades, nas quais também o crime organizado prospera,
aproveitando a impotência, a solidão, a fragilidade dos seres humanos –
sociais por natureza – reduzidos a formas de isolamento e insegurança.
Com a desindustrialização, o grande capital pensava ter ganho o seu
“jogo democrático”, mas eis que o descontentamento se alarga por toda a
UE aos agricultores. Manifestações, bloqueios de estradas e cidades com
tratores e camiões na Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Polónia,
República Checa, Áustria, Suíça, também em Portugal. Os protestos têm
que ver com aumento dos combustíveis e fertilizantes, consequência
direta das sanções, corte de subsídios (a austeridade), políticas
ambientais inconsistentes ditadas pela burocracia, importação de cereais
ucranianos, pagamentos irrisórios face às despesas, que se refletem nos
lucros dos oligopólios da distribuição.
Os governos tentam fazer algumas concessões aos agricultores, mas como
habitualmente não tocam no essencial. A CE permite (!?) aos países que
fazem fronteira com a Ucrânia restringirem as importações de produtos
agrícolas ucranianos, o que mostra o estado de desorientação que reina
entre a burocracia. A sra. von der Leyen, fazendo jus à sua
irresponsabilidade culpou a Rússia e as alterações climáticas pelos
problemas dos agricultores!
No meio da degradação a todos os níveis da UE, desenvolve-se a extrema-
direita como parasita das crises. A extrema-direita sempre foi o recurso
do grande capital confrontado com a sua incapacidade de dar solução às
contradições e antagonismos que origina. É também, o recurso para
impedir que se evidenciem e desenvolvam soluções da esquerda.
O crescimento da extrema-direita é mais um símbolo da decadência da UE.
Os erros, as sucessivas crises, as medidas antissociais são a base da
sua promoção aproveitando a despolitização resultante de décadas de
desindustrialização, propaganda neoliberal e manipulação mediática.
Demagogia sem limites, *linguagem boçal e arruaceira, a extrema-direita
e o extremismo liberal, seu parente snobe*, aproveitam a corrupção e
disfuncionalidade gerada pelo sistema ao serviço do grande capital.
Exibem-se como querendo mudar o sistema, mas apenas para o tornar ainda
mais drástico. Procuram impor uma agenda fascizante entre a pura
aldrabice e a distorção de factos. Apesar das diferenças, a extrema-
direita na UE em certos casos aparentemente contra algumas políticas da
CE, alinha no essencial com a burocracia.
Como afirma Prabhat Patnaik <https://resistir.info/patnaik/
patnaik_18fev24.html>, "a crise produziu regimes fascistas /no interior/
de muitos países; mas está também a produzir uma ordem global
extremamente repressiva, em que tanto poderes capitalistas fascistas
como não fascistas se combinam para suprimir o povo trabalhador, tanto a
nível interno como externo. Não há lugar para qualquer moralidade nesta
repressão e as potências capitalistas estão unidas na defesa desta
barbárie, independentemente da potência específica que a perpetra".
O declínio da UE, exacerbado pela russofobia, colocou os países à beira
do colapso económico e social, que tentam iludir através da propaganda e
do colaboracionismo dos partidos alinhados com o sistema. Assim, na
Cimeira da UE, os líderes aprovaram 50 mil milhões de euros de ajuda
financeira à Ucrânia. Em conformidade com a lógica capitalista, cabe à
classe trabalhadora e aos sectores explorados da pequena burguesia, como
os agricultores, suportar os custos da guerra e do militarismo, defender
o império e apoiar a oligarquia… liberal. É este o sistema que está em
causa e tem de ser mudado.
Em
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/v_carvalho/ue_fio_da_navalha.html#asterisco
21/2/2024
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024
A UE no fio da navalha
É hora de Lula firmar pacto com a produção para enfrentar o golpismo, por Luís Nassif
Ou Lula se movimenta rápido e ampara-se no poder político das
indústrias. Ou, em breve, o Brasil voltará ao caos
O banzé montado em cima das declarações de Lula – invocando o Holocausto
como uma maneira de radicalizar as críticas contra o genocídio de Gaza –
tem o claro intuito de desestabilizar o governo. Não há outra explicação
para esse carnaval no qual colunistas se vestem com as lantejoulas da
adjetivação forte para aparecerem na passarela da mídia. Perto desse
show de vaidades vazias, o BBB parece uma reality de pessoas maduras.
Os fatos centrais são deixados de lado:
1. O genocídio de Gaza, que vitima mulheres e crianças, destroi
escolas, universidades e hospitais e deixa clara a intenção de
Israel de expulsar 2 milhões de pessoas de Gaza.
2. A inércia do mundo ocidental, a ponto de dezenas de países
interromperem ajuda humanitária porque supostamente se descobriu que
meia dúzia de funcionários da ONU seriam simpáticos ao Hamas.
3. A humilhação que a chancelaria de Israel submeteu o Brasil (o
Brasil, sim, seus viralatas!) ao levar o embaixador brasileiro ao
museu do Holocausto e gravar a humilhação a que ele foi submetido.
Com raras exceções, vira-latas mesmo! Na linha de frente, colunistas sem
nenhuma noção sobre soberania nacional, sobre os rituais da diplomacia,
analfabetos em geopolítica, colocando-se como um professor Girafalaes
arrotando lições a Lula e deixando passar em branco o ataque à soberania
nacional perpetrado pela chancelaria de Israel. Atrás, o coral dos
colunistas secundários aplaudindo a comissão de frente, rápidos em
engrossar o cordão dos puxa-sacos, porque conta pontos junto às
respectivas empresas de comunicação. No meio, vozes minoritárias
tentando exercitar um mínimo de jornalismo.
Qual a intenção dessa tentativa clara de desestabilizar o governo Lula?
O fator Milei. Não bastou o desmonte do Estado, perpetrado a partir de
Michel Temer. Não bastaram as 700 mil mortes na pandemia, a tomada do
poder pelas milícias de Bolsonaro e pelos golpistas de Braga Neto. Não
bastaram o desmonte de estatais, as negociatas com refinarias. Agora se
quer o fim da saúde pública, da educação pública. E o Holocausto serve
de állibi.
Não bastam as concessões ao mercado, o arcabouço fiscal e a missão
impossível do déficit zero, o extremo cuidado do BNDES para tirar leite
de pedra e montar fundos de investimento com capital privado, a
reconstrução da saúde e da educação. Dia desses, dois dos jornalões
saíram com editoriais criticando os gastos brasileiros com … educação!
* *No mundo:* O Brasil ocupa a 45ª posição entre 178 países, em gastos
com educação como proporção do PIB, de acordo com o Relatório
Mundial de Competitividade 2023 do IMD.
* *Na América Latina:* O Brasil ocupa a 6ª posição entre 18 países, de
acordo com o Panorama Social da América Latina 2022 da Comissão
Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).
* *Na OCDE:* O Brasil ocupa a 36ª posição entre 38 países, de acordo
com o Education at a Glance 2023 da OCDE.
E os jornalões criticando os gastos com educação.
Depois, abriram manchetes para o pedido de impeachment de Lula pelo
partido Novo, por ter enviado uma ajuda humanitária brasileira ao
departamento da ONU que ampara as vítimas de Gaza!
E por que isso? Porque querem uma Petrobrás privatizada, querem o fim do
ensino público, querem o fim do SUS, dos últimos bancos públicos. E não
se envergonham de compor uma frente com garimpeiros, millicianos,
militares golpistas, pastores neopentecostais que se apropriam das
verbas assistenciais.
Repito o artigo de ontem à tarde, no auge das manifestações contra Lula:
Há um conjunto de elementos para se acreditar em uma tentativa de pacto
entre o crime organizado, o garimpo e igrejas neopentecostais para
reorganizar a aliança que elegeu Jair Bolsonaro.
O presidente eleito Jair Bolsonaro recebe a visita do primeiro-ministro
de Israel, Benjamin Netanyahu, em Copacabana.
Os indícios são muitos:
1. O importante “De Olho nos Ruralistas” <https://tinyl.io/AJcB>
mostrou as conexões históricas entre Valdemar da Costa, presidente
do PL, e o garimpo.O artigo foi reproduzido no ICL <https://
tinyl.io/AJcp>. O mesmo fez a UOL <https://tinyl.io/AJcE>.
2. Há tempos, Aldo Rebelo vem defendendo <https://tinyl.io/AJcH>, junto
aos militares, a exploração do garimpo na Amazônia como um ato de
afirmação nacional. Hamilton Mourão já criticou <https://tinyl.io/
AJcf> o controle do garimpo em terras yanomami. General Heleno
autorizou <https://tinyl.io/AJcg> garimpo em Roraima. A Polícia
Federal confirmou o boicote <https://tinyl.io/AJch> do Exército em
ação contra o garimpo no Pará. A PF prendeu um general três estrelas
<https://tinyl.io/AJci> que extorquia garimpeiros. Em 2020, o
Ministério da Defesa <https://tinyl.io/AJcv>proibiu uma ação do
Exército contra o garimpo.
3. Leve-se em conta que o garimpo – e o jogo de bicho – foram os
setores oferecidos aos membros dos porões, quando veio a
redemocratização.
4. No momento, há um movimento que pretende formar uma frente PL-MDB-
PSD entre outros para fazer oposição a Lula. Segundo a Folha, o MDB
lotou de lideranças a posse de Aldo como Secretário do prefeito
<https://tinyl.io/AJcK> Nunes de São Paulo. Se essa frente se
consolida e elege o sucessor de Artur Lira – com David Alcolumbre
como presidente do Senado – acaba o governo Lula e qualquer
pretensão de normalização democrática.
5. Na outra ponta, o hoje inexpressivo Roberto Mangabeira Unger,
reeditando os velhos vendedores de Bíblias do Velho Oeste, coloca
seu projeto de país nas costas e sai vendendo – agora, para o
próprio Bolsonaro.
6. E a mídia avança em dois temas nítidos. O primeiro, a hiper-
dramatização da fala de Lula, comparando Gaza ao Holocausto. Só a
Folha de hoje traz 11 (onze!) <https://tinyl.io/AJcj> matérias sobre
o tema.
7. O segundo tema são os ataques diários dos jornalões – especialmente
nos editoriais – a Alexandre de Moraes. Jornais, como o Estadão, que
saudaram a prisão preventiva de Lula, hoje utilizam o garantismo
como arma de guerra contra o Supremo. Mesmo sabendo que Alexandre
foi o grande defensor da democracia, inclusive correndo riscos de
vida. Não fosse sua coragem e firmeza, Bolsonaro e seus militares
certamente já teriam imposto censura à imprensa. Mas a imbecilidade
brasileira é galopante.
É mais do que hora de Lula construir pontes políticas com a sociedade. O
caminho é óbvio: um pacto de desenvolvimento e de governabilidade com a
indústria e a produção – por tal entendendo-se a extensa rede de
federações empresariais (da economia real), cooperativismo, agricultura
familiar. A política industrial tem que ser conduzida diretamente pelo
presidente da República.
Ou Lula se movimenta rápido, encontra uma marca para seu governo,
reconstrói alianças com setor privado – depois da destruição das
empreiteiras pela Lava Jato -, ampara-se no poder político das
indústrias. Ou, em breve, o Brasil voltará ao caos e à destruição que
caracterizaram o governo Bolsonaro. O antipetismo visceral fez a mídia
bolsonarar novamente.
Em
JORNAL GGN
https://jornalggn.com.br/noticia/e-hora-de-lula-firmar-pacto-com-a-producao-para-enfrentar-o-golpismo-por-luis-nassif/
21/2/2024
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024
Guerra por procuração dos NeoCons "contra a Ucrânia": – A guerra nuclear está sobre a mesa – A privatização da Ucrânia
Prof Michel Chossudovsky [*]
Neste artigo, vou concentrar-me na agenda NeoCon, em grande parte inspirada no Project for a New American Century (PNAC).
Os neoconservadores exercem controle sobre a política externa. Eles estão envolvidos em subornar e manipular políticos e tomadores de decisão. Eles desempenharam um papel fundamental na definição da doutrina nuclear em nome de poderosos interesses financeiros.
O PNAC pediu o estabelecimento da "Superioridade em Armas Nucleares" (aplicada à Rússia) juntamente com uma expansão orientada para o lucro do complexo industrial militar.
A agenda NeoCon, tal como formulada pelo PNAC (2000) segue os passos da "Doutrina Truman" da Guerra Fria Nas palavras de George Kennan:
"Não está longe o dia em que teremos que lidar com conceitos de poder diretos. Quanto menos formos prejudicados por slogans idealistas, melhor"
Os NeoCons não pretendem "Vencer a Guerra".
Sua agenda é "destruir países".
É uma agenda voltada para o lucro: "Destruição" leva à "Reconstrução".
O que está em jogo é a destruição econômica e social arquitetada de Estados nacionais soberanos. Os credores estão lá para "recolher os pedaços" e "se apropriar da riqueza real".
A segunda parte deste artigo focalizará a agenda dos NeoCons de "privatizar países" em prol do establishment financeiro.
A privatização da Ucrânia como um Estado-nação empobrecido e abandonado já começou por meio da criação do Ukraine Reconstruction Bank (URB) pela BlackRock e JPMorgan.
A Ucrânia é um país com um vasto território e enormes recursos. O regime de Kiev tem uma dívida externa intransponível na casa dos milhões de milhões (trillions)que se vem acumulando desde o golpe de Estado neonazista EuroMaidan, em fevereiro de 2014, instrumentado por Washington.
Não estamos mais no reino da "medicina fortemente econômica" do FMI.
O que está se desdobrando é a tomada de controle e apropriação corporativa de um país inteiro.
O perigo da guerra nuclear
O uso de armas nucleares está na mesa de desenho do Pentágono. Tem o apoio do Departamento de Estado dos EUA.
Enquanto isso, está a ser apresentada no Congresso dos EUA uma legislação para iniciar a Terceira Guerra Mundial.
"Os senadores Lindsey Graham (R-SC) e Richard Blumenthal (D-CT) apresentaram em 22 de junho uma resolução que, se aprovada e assinada pelo presidente Biden, (...) comprometeria os EUA como chefe da OTAN a lançar, em nome da OTAN, guerra diretamente contra a Rússia (ver Eric Zuesse, Duran, 20 de junho de 2023)
A Agenda NeoCon: O Projeto para o Novo Século Americano
Os NeoCons estão firmemente por trás da agenda ucraniana.
O Projeto para o Novo Século Americano (PNAC) domina a política externa dos EUA em nome de poderosos interesses financeiros.
O PNAC afasta o planeamento de operações militares "consecutivas". Ele descreve da seguinte forma as "Longas Guerras" dos Estados Unidos :
"lutar e vencer decisivamente múltiplas guerras simultâneas em diferentes teatros"
A condução de "Guerras em teatros simultâneos" é a espinha dorsal da agenda hegemônica dos Estados Unidos.
É um projeto de guerra global. O PNAC controlado pelos NeoCons também afasta a realização de negociações de paz reais.
A Agenda Nuclear e a Guerra Global
O PNAC foi publicado no auge da campanha eleitoral presidencial em setembro de 2000, apenas dois meses antes das eleições de novembro de 2001. Tornou-se a espinha dorsal da política externa dos EUA. É a base para a realização de uma agenda hegemônica de guerra global, aliada à imposição de uma "Ordem Mundial Unipolar".
Victoria Nuland que tem assento no Departamento de Estado, atualmente a assessorar o presidente Biden, é a esposa de Robert Kagan, do PNAC.
Por que o governo Biden exige um programa de armas nucleares de US$ 1,3 milhão de milhões, que deve aumentar para US$ 2,0 milhões de milhões em 2030?
A superioridade na Guerra Nuclear é a espinha dorsal da agenda NeoCon, tal como exposta no PNAC.
O objetivo é "Manter a Superioridade Nuclear", especificamente em relação ao equilíbrio EUA-Rússia.
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A era do Pós-Guerra
Os EUA conduziram numerosas guerras desde o fim da eufemisticamente chamada era do pós-guerra:
Coreia, Vietname, Camboja, Laos, Afeganistão, Jugoslávia, Iraque, Líbia, Síria, Iémen... e agora a Ucrânia.
O objetivo não declarado não é "vencer a guerra", mas engendrar a destruição de países inteiros, criar caos político e social, tendo em vista finalmente "recolher os pedaços" e assumir o controle das economias nacionais de Estados nacionais soberanos.
Esta agenda também é conduzida por meio de "mudanças de regime", "revoluções coloridas" e da concomitante liquidação e criminalização do aparelho estatal, a par de "forte medicina econômica" e da imposição de uma dívida crescente denominada em dólar.
Foi o que aconteceu no Vietname. A destruição de um país inteiro, o qual foi então "privatizado" no início dos anos 1990:
"O Vietname nunca recebeu pagamentos de reparações de guerra dos EUA pela perda maciça de vidas e destruição, mas um acordo alcançado em Paris em 1993 exigiu que Hanói reconhecesse as dívidas do extinto regime de Saigon do general Thieu. Este acordo equivale, em muitos aspectos, a obrigar o Vietname a compensar Washington pelos custos da guerra".
E agora o que está em curso na Ucrânia é a privatização total de um país inteiro.
A privatização da Ucrânia
A BlackRock, que é a maior companhia de investimentos em carteira do mundo, juntamente com o JPMorgan, vieram ao resgate da Ucrânia. Eles estão conluiados para criar o Banco de Reconstrução da Ucrânia.
O objetivo declarado é "atrair milhares de milhões de dólares em investimento privado, para atender projetos de reconstrução num país devastado pela guerra". (FT, 19/junho/2023)
"... BlackRock, JP Morgan e investidores privados têm como objetivo lucrar com a reconstrução do país juntamente com 400 companhias globais, incluindo Citi, Sanofi e Philips. ... Stefan Weiler, do JP Morgan, vê como uma "tremenda oportunidade" para investidores privados. (Colin Todhunter, Global Research 28/junho/2023)
O regime neonazista de Kiev é um parceiro nessa empreitada. A guerra é boa para os negócios. Quanto maior a destruição, maior o sufoco da Ucrânia por parte dos "investidores privados":
"A BlackRock e o JPMorgan Chase estão a ajudar o governo ucraniano a estabelecer um banco de reconstrução para pilotar capital inicial público a projetos de reconstrução que possam atrair centenas de milhares de milhões de dólares em investimento privado." (FT, op cit)
A privatização da Ucrânia foi lançada em novembro de 2022 em ligação com a consultora McKinsey, da BlackRock, uma firma de relações públicas que tem sido a grande responsável por cooptar políticos e funcionários corruptos em todo o mundo, sem mencionar cientistas e intelectuais, em nome de poderosos interesses financeiros.
"O governo de Kiev contratou o braço de consultoria da BlackRock em novembro para determinar a melhor forma de atrair esse tipo de capital e a seguir, em fevereiro acrescentou o JPMorgan. O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, anunciou no mês passado que o país estava a trabalhar com os dois grupos financeiros e consultores da McKinsey.
A BlackRock e o Ministério da Economia da Ucrânia assinaram um Memorando de Entendimento em novembro de 2023.
No final de dezembro de 2022, o presidente Zelensky e o CEO da BlackRock, Larry Fink, acordaram uma estratégia de investimento.
Reconstrução da Ucrânia: O local da conferência em Londres
Sincronização cuidadosa (ver cronograma abaixo). O "Golpe Fracassado" Prigozhin-Wagner (23 e 24 de junho de 2023) foi iniciado no dia seguinte à Conferência de Reconstrução da Ucrânia em Londres, organizada pelo Regime de Kiev e pelo Governo de Sua Majestade em 21 e 22 de junho de 2023. Será uma coincidência?
"O Fundo de Desenvolvimento da Ucrânia permanece nos estágios de planeamento e não deve ser totalmente lançado até o fim das hostilidades com a Rússia. Mas esta semana os investidores terão uma visão prévia numa conferência em Londres coorganizada pelos governos britânico e ucraniano.
O Banco Mundial estimou em março que a Ucrânia precisaria de US$ 411 mil milhões para se reconstruir após a guerra e os recentes ataques russos elevaram esse número.
Nenhuma meta formal de arrecadação de fundos foi estabelecida, mas pessoas familiarizadas com as discussões dizem que o fundo procura levantar capital de baixo custo de governos, doadores e instituições financeiras internacionais e alavancá-lo para atrair entre cinco e 10 vezes mais investimento privado.
A BlackRock e o JPMorgan estão a doar os seus serviços, embora o trabalho lhes dê uma visão antecipada de possíveis investimentos no país. A missão também aprofunda o relacionamento do JPMorgan com um cliente de longa data.
O que a Ucrânia precisava, aconselhou a BlackRock, era de um banco de financiamento de desenvolvimento para encontrar oportunidades de investimento em setores como infraestrutura, clima e agricultura e torná-las atraentes para fundos de pensão e outros investidores e credores de longo prazo. O JPMorgan foi contratado em parte pela sua experiência em dívida.
... A maior parte dos investidores quer esperar o fim das hostilidades. "A parte importante é que a Ucrânia já está pensando no futuro", disse Weiler. "Quando a guerra acabar, eles vão querer estar prontos e iniciar o processo de reconstrução imediatamente". (FT, 19/junho/2023, sublinhado nosso)
O rei Carlos V organizou uma recepção no Palácio de St. James na véspera da Conferência de Recuperação da Ucrânia.
A cronologia da privatização da Ucrânia
- Novembro de 2022. Contrato com BlackRock e McKinsey, Ministério da Economia da Ucrânia
- Dezembro/2022. Acordo entre o CEO da BlackRock, Larry Fink, e o presidente Zelensky
- Fevereiro/2023. JPMorgan se junta ao projeto BlackRock Reconstruction Bank
- 18/junho/2023. Iniciativa de Paz da África em São Petersburgo, Declaração do Presidente Putin sobre as negociações de paz frustradas de março de 2022.
- 21-22/junho/2023. Conferência de Londres sobre o Banco de Reconstrução da Ucrânia coorganizada pelos governos britânico e ucraniano.
- 23-24/junho/2023. A "Rebelião" de Prigozhin Wagner
Considerações Finais
Todos os principais actores financeiros e políticos estiveram presentes na Conferência de Reconstrução da Ucrânia em Londres.
A Ucrânia está nas garras do Big Money. BlackRock e JPMorgan.
A destruição é a força motriz por trás da "Reconstrução".
A paz, bem como o "cessar-fogo" não são "bons para os negócios".
"O povo da Ucrânia precisa desesperadamente de um futuro baseado no bem-estar e na paz, mas na realidade a Ucrânia está a ser levada para o tipo de enorme endividamento que leva à subserviência e ao domínio." (Bharat Dogra, Global Research, 28/junho/2023)
O resultado é a pobreza em massa e a devastação social de um país inteiro, sob o pretexto de "reconstrução".
Atualização: janeiro de 2024
Desenvolvimentos recentes, previstos para o início de 2024: o Fundo Imobiliário Estatal da Ucrânia planeia colocar cerca de 1.000 ativos para privatização
O plano foi delineado no Fórum Nacional dos Seis SMB intitulado
"Development of SMB 2023: opportunities, sustainability and recovery" (dezembro de 2023)
Não há oportunidades: os mecanismos descritos sugerem que esses 1000 ativos (ou mais) serão retomados. As pequenas e médias empresas, incluindo as PME agrícolas e industriais, serão dizimadas. Muitos desses ativos serão comprados a um preço negativo.
Vitaliy Koval, presidente do Fundo Imobiliário do Estado da Ucrânia, apresentou o plano SPFU 2024. Ele enfatizou que as pequenas e médias empresas seriam as principais beneficiárias desse processo.
"Consideramos que as pequenas e médias empresas devem estar no centro do processo de privatização.
Segundo Vitaliy Koval, em 2024 o Fundo planeIa colocar para privatização cerca de mil objetos que abrem novas oportunidades de negócios. Esses ativos serão leiloados, garantindo um processo justo e transparente.
O tal procedimento transparente, emparelhado com os leilões fraudados, é forjado na fraude e na corrupção. É semelhante a assaltos na estrada:
Ele convidou as empresas a cooperarem na busca de ativos para a privatização.
"Nós os convidamos a tornarem-se embaixadores na busca de ativos para a privatização.
Muitas cidades, vilas e aldeias têm ativos dormentes desde há 10-15 anos. Aguardamos vossas propostas de privatização e fazemos o melhor para que o caminho para o leilão transparente seja o mais curto", disse Vitaliy Koval. (State Property Fund of Ukraine, sublinhado nosso)
13/Fevereiro/2024
[*] Economista, Editor do Global Research.
O original encontra-se em www.globalresearch.ca/the-neocons-proxy-war-against-ukraine-nuclear-war-is-on-the-table-the-privatization-of-ukraine/5823896
Este artigo encontra-se em resistir.info
13/2/2024
https://resistir.info/chossudovsky/ucrania_13fev24.html
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024
¿Por qué el genocidio, por qué ahora?
Por William I. Robinson <https://rebelion.org/autor/william-i-robinson/>
| 15/02/2024 | Palestina y Oriente Próximo <https://rebelion.org/
categoria/territorios/palestina-y-oriente-proximo/>
“Los genocidios nunca se declaran de antemano”, advirtió Adila Hassim,
del equipo jurídico sudafricano, en sus declaraciones iniciales ante la
Corte Internacional de Justicia (CIJ), convocada en enero de 2024 para
conocer la acusación contra Israel por el crimen de genocidio, definido
por la Convención de las Naciones Unidas como un crimen cometido con la
intención de destruir a un grupo nacional, étnico, racial o religioso,
total o parcialmente.
Pero esto no es necesariamente cierto en el caso de
Palestina. La destrucción del pueblo palestino es quizás lo más cercano
que el mundo puede llegar a un genocidio anunciado. Las señales de que
el Estado judío estaba avanzando hacia el genocidio se han multiplicado
durante años. La posibilidad ha sido inherente al proyecto sionista, que
desde sus inicios a finales del siglo XIX fijó como objetivo el
establecimiento de un Estado exclusivamente judío en la tierra de Palestina.
El genocidio nunca podría llevarse a cabo sin el
respaldo, implícito o explícito, de los grupos gobernantes del eje
occidental del capitalismo transnacional que, bajo el liderazgo de
Estados Unidos, han servido como principales patrocinadores de Israel.
Lo que ahora puede haber hecho que el genocidio sea aceptable para estos
grupos gobernantes es la creciente crisis del capitalismo global. El
sistema enfrenta una crisis estructural de sobreacumulación y
estancamiento crónico. Pero los grupos gobernantes también enfrentan una
crisis política de legitimidad estatal, hegemonía capitalista y una
desintegración social generalizada, una crisis internacional de
confrontación geopolítica y una crisis ecológica de proporciones
trascendentales.
La campaña de Israel en Gaza constituye un espantoso
experimento sobre cómo los grupos gobernantes pueden moldear el
interminable caos político y la inestabilidad financiera en una nueva
fase más mortífera del capitalismo global destinada a abrir
violentamente nuevos espacios para la expansión capitalista e imponer
métodos políticos más coercitivos de control social, desde el
autoritarismo y la dictadura hasta el fascismo absoluto en un intento de
contener la rebelión popular y las filas del excedente de humanidad.
Las presiones genocidas se estaban acumulando contra los
palestinos mucho antes del asedio de Gaza que comenzó tras el ataque de
Hamás del 7 de octubre de 2023. En Israel ahora es perfectamente normal
abogar por el genocidio contra los palestinos, mientras que, por el
contrario, defender la vida palestina se considera una traición. En
Israel ya estaban llamando por una limpieza étnica y genocidio contra
los habitantes de Gaza en los días previos al anterior asalto a gran
escala contra el territorio, llevado a cabo en 2014 y denominado
Operation Protective Edge (Operación Margen Protector). Casi la mitad de
la población judía de Israel en ese momento declaró que apoyaba una
política de limpieza étnica de los palestinos, y una gran parte de la
población apoyaba la anexión completa de los territorios ocupados y el
establecimiento de un Estado de apartheid.
El periódico, /The Times of Israel/, por ejemplo, publicó
un editorial días antes del lanzamiento del operativo titulado “Cuando
el genocidio es permisible,” afirmando que “tendrá que llegar un momento
en el que Israel se sienta lo suficientemente amenazado como para no
tener otra opción que desafiar las advertencias internacionales”.
Continuó: “¿Qué otra manera hay entonces de lidiar con un enemigo de
esta naturaleza que no sea destruirlo por completo? El primer ministro
Benjamín Netanyahu declaró claramente al comienzo de Margen Protector
que su objetivo es restablecer una tranquilidad sostenible para los
ciudadanos de Israel… Si los líderes políticos y los expertos militares
determinan que la única manera de lograr su objetivo de mantener la
tranquilidad es ¿A través del genocidio está entonces permitido alcanzar
esos objetivos responsables?”
Haciéndose eco de estos sentimientos, el vicepresidente
del parlamento israelí en ese momento, Moshe Feiglin, miembro del
partido Likud del primer ministro Benjamín Netanyahu, instó al ejército
israelí a matar indiscriminadamente a los palestinos en Gaza y a
utilizar todos los medios posibles para lograr que se fueran. “El Sinaí
no está lejos de Gaza y pueden irse. Éste será el límite de los
esfuerzos humanitarios de Israel”, afirmó. “Las FDI [Fuerzas de Defensa
de Israel] conquistarán toda Gaza, utilizando todos los medios
necesarios para minimizar cualquier daño a nuestros soldados, sin otras
consideraciones. … La población enemiga que es inocente de malas
acciones y se separó de los terroristas armados será tratada de acuerdo
con el derecho internacional y se le permitirá irse”.
En un artículo que publiqué inmediatamente después de la
Operación Margen Protector de 2014, señalé que el hecho de que las
presiones estructurales para el genocidio se materialicen o no en un
proyecto de genocidio dependerá de la coyuntura histórica de la crisis,
la situación política y condiciones ideológicas que hacen posible el
genocidio, y un agente estatal con los medios y la voluntad para
llevarlo a cabo. Califiqué la situación en aquel entonces como “un
genocidio a cámara lenta”.
Entre 2014 y 2023, el clima político en Israel siguió
girándose tan bruscamente hacia la derecha que un discurso fascista se
hizo palpable en la vida cotidiana del país, y funcionarios del gobierno
pidieron nuevas rondas de limpieza étnica para ampliar los asentamientos
judíos en Cisjordania y promoviendo una escalada de la violencia de los
colonos y los ataques de las Fuerzas de Defensa Israelitas (FDI, por sus
siglas en inglés) . A raíz del ataque de Hamás en octubre de 2023, el
proyecto sionista, basado en la limpieza étnica sistemática y el
terrorismo contra los palestinos, pasó de una cámara lenta a una campaña
de genocidio en tiempo real y transmitido en vivo contra los habitantes
de Gaza.
*El proletariado palestino y la globalización de Israel*
La rápida globalización de Israel que comenzó a finales
de los años 1980 coincidió con las dos intifadas (levantamientos)
palestinos y con los Acuerdos de Oslo, que se negociaron entre 1991 y
1993 y luego fracasaron en los años siguientes. Respaldados y empujados
por Estados Unidos y las elites transnacionales a medida que la Guerra
Fría iba llegando a su fin, así como por poderosos grupos capitalistas
israelíes, los gobernantes israelíes entablaron negociaciones con los
dirigentes palestinos en la década de 1990, en gran parte como respuesta
a la escalada de la resistencia palestina en forma de la primera
intifada (1987-1991). Los Acuerdos de Oslo, firmados en 1993, entregaron
una autonomía similar a un bantustán a la Autoridad Palestina (AP). Sin
embargo, durante el período de Oslo de 1991 a 2003, cuando el proceso
finalmente fracasó por completo, la ocupación israelí de Cisjordania y
Gaza se intensificó enormemente. ¿Por qué fracasó este “proceso de paz”?
En primer lugar, el proceso no pretendía resolver la
difícil situación de la mayoría palestina desposeída. Su objetivo era
integrar a una elite palestina emergente en el nuevo orden global
dándole a la elite un interés en defender ese orden. Se esperaba que la
AP mediara en la acumulación de capital transnacional en los territorios
ocupados mientras vigilaba internamente a las masas palestinas. A
cambio, el “proceso de paz” permitió a la burguesía palestina participar
en un proceso de construcción de un Estado, sin importar cuán truncado y
castrado fuera ese Estado.
En segundo lugar, la economía israelí se globalizó sobre
la base de un complejo de alta tecnología, militar, seguridad y
vigilancia, cuya importancia quedará clara momentáneamente. Ha habido
una interpenetración cada vez más profunda del capital israelí con el
capital corporativo transnacional de América del Norte, Europa, Asia y
otros lugares. Oslo contribuyó a este proceso, facilitando una presencia
capitalista transnacional israelí en todo Oriente Medio y más allá, en
parte permitiendo a los regímenes árabes conservadores levantar el
boicot económico regional a Israel y en parte negociando la creación de
una Zona de Libre Comercio en Oriente Medio (MEFTA) que insertó la
economía israelí en las redes económicas regionales e integró a toda la
región mucho más profundamente en el capitalismo global.
Y tercero, estrechamente relacionado, si la burguesía
palestina ha visto su formación de clase frustrada por la ocupación
israelí y por su falta de acceso a un aparato estatal viable, lo que
ayuda a explicar su creciente postura colaboracionista, el proletariado
palestino se ha convertido rápidamente en un excedente de humanidad que
se encuentra en pie el camino del capital transnacional en Israel y el
Medio Oriente. El proletariado palestino de los territorios ocupados
constituyó hasta los años 1990 una mano de obra barata y un mercado
cautivo para Israel y la burguesía palestina. Pero a partir de la década
de 1990 y acelerándose en los últimos años, la economía israelí comenzó
a recurrir a mano de obra migrante transnacional de África, Asia y otros
lugares, a medida que el neoliberalismo y la crisis han desplazado a
millones de personas en las regiones del antiguo Tercer Mundo.
El surgimiento de nuevos sistemas de movilidad y
reclutamiento laboral transnacional ha hecho posible que los grupos
dominantes en todo el mundo reorganicen los mercados laborales y
recluten fuerzas laborales transitorias, privadas de derechos y fáciles
de controlar. Los trabajadores migrantes transnacionales en Israel no
necesitan estar sujetos al sistema de apartheid impuesto a los
palestinos porque su condición de migrantes temporales logra su control
social y su privación de sus derechos de manera más efectiva y, por
supuesto, porque no exigen la devolución de las tierras ocupadas y no
tienen un reclamo político. a un estado.
La Nakba de 1948 que estableció el Estado judío implicó
la expulsión violenta de los palestinos y la expropiación de sus
tierras, pero también la incorporación subordinada de cientos de miles
de trabajadores palestinos para trabajar en granjas, obras de
construcción, industrias, cuidados y otros trabajos de servicios y
servicios israelíes. Hasta que la globalización despegó a finales del
siglo XX, la relación de Israel con los palestinos reflejaba el
colonialismo clásico, en el que la potencia colonial había usurpado la
tierra y los recursos de los colonizados y luego explotaba su trabajo.
Pero la integración de Oriente Medio en la economía y la sociedad
globales sobre la base de una reestructuración económica neoliberal
ayudó a desatar los movimientos sociales y de trabajadores y presiones
desde las bases populares para la democratización, reflejados en las
intifadas palestinas, el movimiento laboral en todo el norte de África,
y, más visiblemente, en los levantamientos de la Primavera Árabe de 2011.
Esta oleada de resistencia, que comenzó con la primera
intifada, agravó la tensión histórica entre el impulso hacia una
limpieza étnica del Estado judío y la necesidad que tenía de mano de
obra barata y étnicamente demarcada. A partir de la década de 1990,
Israel comenzó a resolver esta tensión entre desposesión/
superexplotación y desposesión/expulsión a favor de esta última. En la
década de 2000, cientos de miles de trabajadores migrantes –según
algunas estimaciones hasta 600.000– de Tailandia, China, Nepal, Sri
Lanka, India, Europa del Este, Filipinas, Kenia y otros lugares llegaron
a formar la fuerza laboral predominante en la agroindustria israelí
durante el gobierno israelí. las mismas condiciones precarias de
superexplotación y discriminación que enfrentan los trabajadores
migrantes en todo el mundo. A principios de 2024, incluso en medio de
la guerra, miles de trabajadores indios estaban llegando a Israel.
A medida que la inmigración ha reducido la necesidad de
Israel de mano de obra palestina barata, los palestinos se han
convertido en una población excedente cada vez más marginada. De 1993 a
2000 –supuestamente los años en los que se estaba implementando un
acuerdo de “paz” que pedía el fin de la ocupación israelí– los colonos
israelíes en Cisjordania se duplicaron a 400.000, luego aumentaron a
medio millón a mediados de la década de 2010 y llegó a 700.000 en 2023.
Mucho antes de que comenzara el genocidio israelí en octubre de 2023, la
desnutrición aguda en Gaza estaba en la misma escala que en algunas de
las naciones más pobres del mundo, con más de la mitad de todas las
familias palestinas comiendo solo una comida al día.
Entre los distintos tipos de estructuras racistas
observados en la sociología de las relaciones raciales/étnicas, se
destacan dos con respecto a Palestina. Uno es la superexplotación/
desorganización de la clase trabajadora. Se trata de una situación en la
que el sector subordinado y oprimido dentro de las clases explotadas
ocupa los peldaños más bajos de la economía y la sociedad particulares
dentro de una clase trabajadora racial o étnicamente estratificada. Lo
clave aquí es que el sistema dominante necesita el trabajo del grupo
subordinado –es decir, sus cuerpos, su existencia– incluso si el grupo
experimenta marginación cultural y social y privación de derechos
políticos. Esta fue la experiencia histórica post-esclavitud de los
afroamericanos y chicanos en los Estados Unidos, así como la de los
irlandeses en Gran Bretaña, los indios mayas en Guatemala, los africanos
en Sudáfrica bajo el apartheid y la mano de obra migrante étnicamente
demarcada actualmente en Estados Unidos.
La otra es la exclusión y apropiación de los recursos
naturales. Se trata de una situación en la que los grupos dominantes
necesitan los recursos del grupo subordinado pero no su mano de obra, es
decir, no sus cuerpos, ni su existencia física. Ésta es la estructura
racista que con mayor probabilidad conducirá al genocidio. Fue la
experiencia de los indígenas en América del Norte. Los grupos dominantes
necesitaban sus tierras, pero no su mano de obra ni sus cuerpos (ya que
los esclavos africanos y los inmigrantes europeos proporcionaban la mano
de obra necesaria para el nuevo sistema) y por eso experimentaron un
genocidio.
Ahora, al igual que los indígenas antes que ellos –y a
diferencia de los sudafricanos negros–, el Estado sionista, los colonos
y los aspirantes a colonos, y el capital transnacional necesitan los
recursos palestinos, específicamente la tierra y la riqueza en el
subsuelo, pero los cuerpos palestinos no son ya no son necesarios y
simplemente se interponen en el camino. Este cambio hacia un excedente
de humanidad parece ser más avanzado para los habitantes de Gaza, que
han sido relegados al campo de concentración que lo ha sido desde 2007,
cuando Israel encerró a los habitantes de Gaza en la franja e impuso un
bloqueo total.
*La economía política del genocidio del siglo XXI*
Si el problema del excedente de capital es endémico al
capitalismo, en las últimas dos décadas ha alcanzado niveles
extraordinarios. A medida que los mercados globales se saturan, las
principales corporaciones transnacionales y conglomerados financieros
han registrado ganancias récord al mismo tiempo que los ingresos de la
mayoría han disminuido y la inversión corporativa ha disminuido. La
clase capitalista transnacional (CCT) ha acumulado más riqueza de la que
posiblemente puede gastar, y mucho menos reinvertir. Cuanto más acumula
la TCC, más debe emprender búsquedas desesperadas de nuevas salidas para
descargar esta creciente masa de ganancias. La especulación financiera,
el crecimiento impulsado por la deuda y el saqueo de las finanzas
públicas están llegando a sus límites como soluciones temporales frente
al estancamiento crónico. Hay que abrir violentamente nuevas salidas
para descargar el excedente de capital acumulado.
El excedente de capital encuentra su alter ego en el
excedente de trabajo a medida que las crisis de sobreacumulación
expanden los dos polos antagónicos de esta unidad dialéctica. Décadas de
globalización y neoliberalismo han relegado a grandes masas de personas
en todo el mundo a una existencia marginal. En los próximos años, las
nuevas tecnologías basadas en inteligencia artificial combinadas con los
desplazamientos generados por los conflictos, el colapso económico y el
cambio climático aumentarán exponencialmente las filas de la humanidad
excedente. Gaza se convierte así en un potente símbolo de la difícil
situación de los desposeídos en todo el mundo, un espejo aterrador que
refleja posibles futuros para masas de personas a las que el capital no
necesita.
Sin embargo, Israel sigue siendo un caso especial con su propia
especificidad histórica de colonialismo, apartheid e ideología
fundacional fascista. En el siglo XX se produjo al menos cinco casos de
genocidio reconocidos y probablemente muchos más de cinco. El actual
genocidio israelí, sin embargo, puede ser más comparable al de los
nazis, ya que, en términos generales, ambos son respuestas a una crisis
general de colapso capitalista mundial. Las presiones genocidas se han
incorporado al proyecto sionista desde su nacimiento a finales del siglo
XIX, en la medida en que pedía un Estado exclusivamente judío libre de
palestinos.
La “hasbara” sionista, o maquinaria de propaganda, ha convertido tales
comparaciones entre sionismo y nazismo en un tabú, pero la comparación
es histórica y analíticamente importante. Tanto el sionismo como el
nazismo surgieron de la ola de nacionalismo racial que arrasó Europa a
finales del siglo XIX, según la cual todas las personas pertenecen a uno
u otro grupo “racialmente puro” que se remonta a orígenes míticos y que
corresponden a pueblo-nación racialmente puro. Alemania era
exclusivamente para la raza aria supuestamente remontándose a las tribus
teutónicas y antes, los franceses remontándose a la Galia, los
británicos a los anglosajones y los judíos a Palestina. Las campañas de
“sangre y tierra” debían organizar el mundo según esta ideología. En las
campañas de sangre y tierra que surgieron del nacionalismo racial
estaban la expulsión, el apartheid y el espectro del genocidio.
Para legitimar la conquista, la limpieza étnica y el
colonialismo de asentamiento, el programa sionista de sangre y suelo en
Palestina requirió la invención del “pueblo judío” que pertenece a una
antigua patria judía, un mito fundacional que convertiría una comunidad
de fe entre diversas culturas, lugares e historias en un pueblo-nación
judío racialmente puro que debe regresar a su patria ancestral. Para que
esto sucediera, los palestinos tenían que ser eliminados y borrados de
la historia.
Los sionistas y los defensores del Estado de Israel se
sienten muy ofendidos por esta analogía entre las acciones de los nazis
y el Estado de Israel, incluida la acusación de genocidio, en parte
porque el Estado de Israel y el proyecto político sionista utilizan el
holocausto judío como mecanismo de legitimación, por lo que establecer
tales analogías es socavar el discurso legitimador de Israel. Para que
los judíos sean arrastrados al sionismo, se les debe hacer sentir que
existe una amenaza existencial de la que sólo pueden protegerse mediante
la defensa ciega de Israel, incluso si esto significa apoyar el
genocidio de los palestinos junto con la criminalización de los críticos
de Israel.
Israel trae así a la luz la tensión mundial entre la
necesidad económica que tienen los grupos gobernantes de mano de obra
superexplotable y la necesidad política que tienen de neutralizar la
rebelión real y potencial del excedente de humanidad. Las estrategias
de contención de la clase dominante se vuelven primordiales y las
fronteras entre jurisdicciones nacionales se convierten en zonas de
guerra y zonas de muerte. Palestina es una de esas zonas de muerte,
quizás la más atroz, porque está ligada a la ocupación, el apartheid y
la limpieza étnica.
*El culto a la muerte del capitalismo global en crisis*
El asedio de Gaza y Cisjordania es una forma de
acumulación primitiva. A finales de octubre, cuando se intensificaron
los bombardeos israelíes, Israel se dispuso a conceder licencias a
empresas energéticas transnacionales para la exploración de gas y
petróleo frente a la costa mediterránea, parte de su plan para
convertirse en un importante productor regional de gas y centro
energético, así como una alternativa al gas ruso. para Europa
Occidental. Una empresa inmobiliaria israelí conocida por construir
asentamientos en territorios palestinos ocupados publicó un anuncio en
diciembre para la construcción de casas de lujo en barrios bombardeados
de Gaza, mientras que otros hablaban de resucitar el Proyecto del Canal
Ben Gurion que ha estado inactivo desde se propuso originalmente en la
década de 1960. Lo único que detiene el proyecto del Canal recientemente
revisado es la presencia de palestinos en Gaza.
La economía israelí está bien equipada para el genocidio.
Su economía se ha globalizado específicamente a través de la
militarización de alta tecnología de su economía. Al igual que la
economía global más amplia de la que forma parte, se alimenta de la
violencia, los conflictos y las desigualdades locales, regionales y
globales. La población palestina cautiva bajo ocupación sirve como
objetivo conveniente y campo de pruebas para sistemas de represión
masiva que luego se han exportado a todo el mundo para controlar
poblaciones inquietas y excedentes de humanidad.
Esta acumulación militarizada y acumulación por represión
se ha vuelto central para toda la economía y la sociedad global. Cada
nuevo conflicto en el mundo abre nuevas posibilidades de obtención de
ganancias para contrarrestar el estancamiento. Una ronda interminable de
destrucción seguida de reconstrucción alimenta la obtención de ganancias
no sólo para la industria armamentista, sino también para las empresas
de ingeniería, construcción y suministros relacionados, la alta
tecnología, la energía y muchos otros sectores, todos integrados con los
conglomerados transnacionales financieros y de gestión de inversiones
que ocupan el eje central de la economía global.
Existe una convergencia entre la necesidad política de
contener el excedente de humanidad y la necesidad económica de abrir
nuevos espacios para la acumulación. Puede que la paz no rinda frutos,
pero en el contexto de un capitalismo transnacional en crisis, el
genocidio se vuelve rentable y políticamente conveniente para los grupos
gobernantes. Gaza es una alarma en tiempo real de que el genocidio puede
convertirse en una herramienta política en las próximas décadas para
resolver la intratable contradicción del capital entre el excedente de
capital y el excedente de humanidad.
Es un error, muy grande, reducir el proyecto de genocidio
en Palestina a los Estados israelí y occidental. Los estados
capitalistas individuales y las elites transnacionales fuera de
Occidente pueden condenar el genocidio y retirar el apoyo político a
Israel, pero no están –y no pueden estar- en contra de los imperativos
de la acumulación global de capital que sustentan el impulso genocida.
Por el contrario, la oposición política al genocidio simultáneamente a
la promoción de la expansión capitalista mundial es una contradicción al
interior del capitalismo global. Los capitalistas transnacionales
israelíes, árabes y extrarregionales comparten intereses de clase
comunes que superan las diferencias políticas sobre Palestina más allá
de la coyuntura inmediata de la guerra de Gaza.
Palestina se ha convertido en un espacio ejemplar para
llevar a cabo el exterminio a una escala global más amplia, un lugar
para el ejercicio de nuevas formas de poder despótico absoluto que no
necesita legitimidad política. Esto es más que el anticuado colonialismo
de colonos; es la cara de un sistema capitalista global que sólo puede
reproducirse mediante el derramamiento de sangre, la deshumanización, el
sadismo y la aniquilación.
El destino de las clases populares y trabajadoras
globales, incluidas las arrastradas y expulsadas de los circuitos
globales de acumulación, puede depender del resultado del genocidio
israelí. El centro se está derrumbando. La total quiebra del liberalismo
burgués ha abierto espacio para que los fascistas populistas manipulen
la inseguridad masiva y la ansiedad sobre el futuro. Las líneas de
batalla que se están trazando en Medio Oriente reflejan las líneas de
batalla globales. Netanyahu, Trump, Milei, Bolsonaro, etcétera – estos
neofascistas no representan aberraciones sino formas políticas
emergentes de la gobernación despótica del capital.
*Una versión más extensa de este artículo será publicada en marzo en la
revista /Journal of World-Systems Research/.*
William I. Robinson, Distinguido Profesor de Sociología. Universidad de
California en Santa Barbara
Em
REBELION
https://rebelion.org/por-que-el-genocidio-por-que-ahora/
15/2/2024
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024
¿Qué pasa con el campo? ***
ANDRÉS PIQUERAS, PROFESOR DE LA UNIVERSIDAD JAUME I
*De la desposesión a la sobreacumulación*
*Consideraciones previas*
1) El trabajo productivo (y por extensión “capital productivo”) desde el
punto de vista de la /totalidad social /o la economía en su conjunto es
aquel que no sólo produce plusvalía, sino que además produce /nuevo
valor/, es decir, nuevos productos convertidos en mercancías. Esto es
propio exclusivamente del capital industrial o productivo. “Efectivo”
como lo llamara Marx.
Tal circunstancia es la que explica que fuera la parte obrera industrial
de la clase trabajadora la que albergara en sí la mayor potencialidad
revolucionaria del orden social, mediante su accionar consciente.
El proletariado lo constituye el conjunto de población que ha sido
desposeída de sus medios de producción. Obligada, por
tanto, a asalarizarse, convirtiéndose en “fuerza de trabajo” o clase
trabajadora. La clase obrera es la parte industrial de la clase trabajadora.
En las formaciones socioestatales de capitalismo primigenio o
avanzado, el desarrollo de las fuerzas productivas propició, sin
embargo, que el peso del sector servicios fuera haciéndose mayor,
reduciéndose el peso de la fuerza de trabajo obrera dentro de la clase
trabajadora. Con ello se fue diluyendo también la
conciencia identitaria de clase y por ende potencialmente
revolucionaria. Buena parte de la clase trabajadora experimentaría un
desclasamiento o primacía de identidades profesionales por encima de la
de clase, que la proporcionaban “nuevos estilos de vida”, muy diferentes
estatus y sin embargo una generalizada autoadscripción de “clase media”.
De ahí saldrían los “nuevos movimientos sociales”, separados del mundo
de la producción –y por tanto del movimiento obrero-, para centrarse en
aspectos socialmente importantes pero no centrales para la acumulación
de capital.
2) Las formas del capital, en su ciclo completo de acumulación, son
capital productivo, capital dinero y capital mercancía. A pesar de estar
inseparablemente imbricados en el movimiento total del capital, lo que
hace el capital-dinero autonomizado como capital a interés, y el
capital-mercancía autonomizado como capital comercial, es distribuirse
el monto total de plusvalía generada en la producción por el capital
productivo
Es decir, las otras formas funcionales del capital retraen parte de la
ganancia del capital productivo que éste consigue a través de la
plusvalía extraída en la producción mediante la explotación de la fuerza
de trabajo industrial. Partes de esa plusvalía derivan como ganancia en
favor del capital a interés y el capital comercial. La explotación de la
fuerza de trabajo por parte de los capitalistas comerciales y
bancarios no crea plusvalía pero permite a los capitalistas bancarios y
comerciales apropiarse de parte de la plusvalía total generada.
En ese reparto entre capitalistas hemos de contar también con las
actividades rentistas de la economía. La plusvalía que queda para las
tres formas de capital tiende a ser menor, al tener que pagar el
alquiler (renta) de terrenos o solares o, en general, de cualquier bien
no reproducible. Esto ha sido especialmente importante para el sector
agrícola.
*Caracterización del sector agrícola** y su dilución globo-industrial*
El sector primario de la economía, el agrícola, está en vías de ser
diluido en el sector industrial. Hoy se producen industrialmente cada
vez más parte de nuestros alimentos. No tanto por la utilización de
maquinaria para ello, sino por los procesos artificiales y de
laboratorio implicados en la “creación” y recreación de semillas,
insumos y toda clase de productos utilizados para la producción de
alimentos, ya no tan “naturales” (cada vez menos pueden ser vistos como
recursos dados y arrancados de la naturaleza –como las semillas
“terminator”-, incluida la propia ganadería una vez que la biogenética
empieza a extenderse por todo el sector agrícola). Todo ello hace que
tengamos que replantearnos cuestiones como el /valor/, la /
plusvalía/ y la /renta/ en el mundo agrario.
El sector agrícola es el que hasta hoy más ha aguantado el proceso de
proletarización o desposesión de medios de producción, no porque no se
haya venido desposeyendo a millones y millones de campesinos/as en todo
el mundo desde la Primera Revolución Industrial, sino porque buena parte
de la poca población activa que quedó en él ha sido propietaria, aunque
fuera de una pequeña parcela de tierra, con la consiguiente conciencia
no-proletaria, a menudo anti-socialista y, en todo caso,
renuente a lacolectivización. Esto siempre dio quebraderos de cabeza en
los procesos revolucionarios a la hora de intentar congeniar intereses
obreros y campesinos, como los bolcheviques tuvieron que aprender rápido.
Obviamente, jornaleros y asalariados agrícolas en general no entran en
esa categoría, pues sí son por lo general proletarios (a veces se
combinan formas de pequeña o muy pequeña propiedad con trabajos
asalariados temporales).
Con la industrialización del sector agrícola tenemos varios procesos
concomitantes (el referente aquí es sobre todo Europa, aunque en gran
medida lo dicho es extrapolable al conjunto del planeta):
1. Se acentúa de nuevo la expulsión de población activa –pequeños sobre
todo,pero también medianos propietarios-.
Entre los principales factores y procedimientos que contribuyen a ello
y, en general, a la despoblación rural, tenemos:
• La Agenda 2030 y sus inviables requisitos dentro de la ley del
valor del capital
• Las directrices de la UE que van en la misma línea de ahogar la
pequeña propiedad
• La Política Agraria Común, que transfiere sin parar fondos a los
grandes propietarios
• Los Tratados de Libre Comercio, en favor de las transnacionales
• El IPOD (índice de precios en origen y destino – ver cuadro más abajo,
para el Reino de España-), que reduce peligrosamente los márgenes de
beneficio en favor de la intermediación y distribución comercial –
como grandes cadenas de supermercados del estilo de Mercadona,
Carrefour, AuChan, Lidl…, que disparan sus márgenes para los alimentos
básicos hasta 10 veces más que el IPC-
• La destrucción del campo en pro de la “industria
ecológica” (con la “siembra” por doquier de placas solares y molinos de
viento, por ejemplo)
• Las sanciones a Rusia impuestas por EE.UU. a la UE, en favor de la
economía norteamericana, que están significando pérdidas millonarias
mensuales al sector agrícola europeo. Rusia era el 6º país destinatario
de sus exportaciones agrícolas.
Cuadro
El IPOD general, que incluye tanto los productos agrícolas como
ganaderos, se sitúa en 3.92. Además de productos agrarios como la
naranja, el plátano, el repollo, el ajo o la misma patata, que rompen
barreras, en el sector ganadero destacan productos como la ternera y el
cordero con incrementos de 286% y 310% respectivamente, como puede
apreciarse en el cuadro de la COAG.
2. La asfixia de la pequeña –y mediana- propiedad da paso a una
creciente concentración agraria. Transnacionales y sobre todo grandes
fondos buitre (que controlan la mayor parte de la propiedad del mundo,
incluida la de las mayores empresas transnacionales) pasan a ser los
grandes propietarios. Esto significa, entre muchas otras cosas, que cada
vez más los productores agrícolas-industriales son los propios
detentadores de la propiedad, con lo cual el factor renta pierde
relevancia para ellos. En cambio, pueden utilizar las tierras para
aumentar su ganancia rentista a costa de otros capitalistas que quieran
producir, o también a costa de la propia clase trabajadora mediante por
ejemplo la “chaletización” del campo, la conversión de territorios en
“parques temáticos”de aventuras, actividades deportivo-recreativas,
complejos turísticos en general, etc.
3. Se da un proporcional aumento de la asalarización en relación a la
población activa agrícola, que en total disminuye. En el Reino de
España la mano de obra en las explotaciones agrícolas pasó de 828.200
personas en 2008, a 774.800 en 2022, (Trabajadores por sector económico
en España 2008-2022 | Statista <https://es.statista.com/estadisticas/
475096/numero-de-empleados-en-espana-por-sector-economico/>); ya sólo
representa el 6,9% de la población activa total. En 2020 la mano de obra
del titular bajó un 3,7% y la referida a los familiares del titular un
49,8%. Por el contrario, la mano de obra contratada aumentó un 16,3% y
la subcontratada un 13,9%, según el INE (https://es.statista.com/
estadisticas/475096/numero-de-empleados-en-espana-por-sector-economico/
<https://es.statista.com/estadisticas/475096/numero-de-empleados-en-
espana-por-sector-economico/>).
.
4. La /sobreacumulación de capital/ (exceso de maquinaria en relación a
la fuerza de trabajo empleada por unidad de capital invertido -causa
principal de la caída de la tasa de ganancia, dado que la plusvalía sólo
se extrae de los seres humanos-) va llegando también al campo. Tal
proceso busca compensarse a través de una explotación extensiva y a
menudo una sobreexplotación de la fuerza de trabajo agrícola (cuando el
salario no cubre la propia reproducción del trabajador/a). Para ello se
deslocaliza la inversión en explotaciones agrícolas hacia lugares donde
la mano de obra sea más barata, o bien sirviéndose de
población inmigrante altamente precarizada. En el sector se da
asimismo con frecuencia una explotación de mano de obra servil
o semiservil e incluso esclava, a escala planetaria. Contra los precios
de esa explotación globalizada (a menudo llevada a cabo por el
empresariado connacional) la pequeña y mediana propiedad no
pueden competir. La globalización de fuentes de plusvalía y beneficios
se da, pues, como en cualquier otro sector.
5. Técnicas nocivas empeladas por la agroindustria se acompañan de
productos dañinos para la salud, cada vez más genéticamente modificados,
los cuales forman parte de la continuación de la desposesión o /
acumulación tardía// de capital/ en el campo. Monocultivos en gran
escala, pérdida masiva de variedadesagrícolas y de especies vegetales,
deforestación extensiva e intensiva, pérdida de formas de vida y
culturales, son algunas de las peores consecuencias, las cualesademás
arrastran consigo otras de la misma terrible condición, como la mayor
recurrencia de plagas y enfermedades, más utilización de químicos y
productos nocivos para intentar compensarlo, menor resistencia y
adaptación natural al estrés climático que padecemos, así como a los que
quieren llamar “desastres naturales”, mayores hambrunas, mayor pobreza y
migraciones en masa, etc…
Así que lo que tenemos es una ofensiva en toda la regla para terminar la
desposesión en el mundo rural, con una gran concentración de la
propiedad en él. Quien de momento están protestando contra ello no es la
clase asalariada agrícola [que en todo caso lucha por sus condiciones
laborales (¿alguien recuerda todavía cuándo fue la última huelga de
jornaleros –magrebís- en Andalucía, por ejemplo?)], sino los pequeños
propietarios en vías de proletarización y hasta medianos
propietarios que ven menguar más y más sus beneficios.
El sector agrícola que ha permitido la vida laboral de una decreciente
población rural está seriamente puesto en peligro por el modo de
producción capitalista y su crisis no tiene solución dentro de él. Por
eso su defensa desde posiciones de transformación social sólo puede ir
acompañada de procesos de cooperativización y socialización de las
explotaciones agrícolas y de sus productos. No se trata de volver atrás
hacia el pequeño capital agrícola, ni de fomentar un nuevo
proteccionismo que se beneficie de la división internacional del trabajo
capitalista y sus relaciones de intercambio desigual, sino aprovechar el
descontento general y la falta de soluciones al mismo, para poco a
poco ir transformando las relaciones sociales agrícolas de producción.
Eso pasa por comenzar a revertir los procesos causales de su ruina
antes mencionados. Para empezar, rompiendo con la UE y denunciando los
Tratados de Libre Comercio.
Las organizaciones comunistas europeas (y del resto del mundo) dignas
de tal nombre tienen la enorme responsabilidad de estar a la altura de
las circunstancias y comenzar a actuar en ese sentido. El trabajo de
base en y con el sector agrícola es imprescindible. De él y a través de
él puede afrontarse el reto de que comience a levantarse una conciencia
de clase entre su población activa.
Lo cual a su vez es vital, pues sólo a través del socialismo se podrá
tener una base agrícola sustentable y sana como fuente de vida de una
parte importante de la población y como posibilitadora de vida del
conjunto de ella.
Publicado en: Artículos <https://observatoriocrisis.com/category/
articulos/>, Inicio <https://observatoriocrisis.com/category/inicio/>
Em
OBSERVATORIO DE LA CRISIS
https://observatoriocrisis.com/2024/02/11/que-pasa-con-el-campo/
11/2/2024
***
Artigo estratégico.
Inclusive para entender a quetão da reforma agrária.
Inclusive a questão da reforma agrária nos anos sessenta.
Aparentemente, esclarece as atividades do MST em sua luta pela reforma agrária
e pela transformação da propriedade privada agraária em cooperativização e TRAALHO ASSO-
CIADO.Igualmente, as políticas educacionais.
Seria necessária uma análise a partir dos dados do campo hoje.
Isso também mostra que, quaisquer que tenham sido os erros,
a luta aberta pela REFORMA AGRÁRIA nos anos sessenta estava
no mínimo tendencialmente certa.
Com relação a isso, o "no o sidicalismo", o "novo MO" e o PT, parece que
jogaram fora o bebê com a água do banho.
Digo, a tentavia de corte, de se dissociarem compeltamente de
velhas lutas, do chamado "velho" sindicalismo" e por aí vai.
A importância teórica de /O imperialismo/ de Lenine
– O centésimo aniversário da morte de Lenine, completado a 21 de
Janeiro deste ano, foi ocasião para recordar a importância teórica
e política do tema Imperialismo. Tanto mais quanto o estado de
guerra permanente em que o mundo está envolvido se agrava a olhos
vistos – na Ucrânia, na Palestina, no Oriente Próximo ou no
Extremo Oriente. Esta análise de /O imperialismo,/ obra publicada
em 1916, tem um duplo mérito: recorda de forma concisa o inovador
contributo de Lenine e, do mesmo passo, alerta para as mudanças
entretanto ocorridas no mundo – exorta-nos a desbravar terrenos
que são cruciais para a afirmação do socialismo no nosso tempo.
Prabhat Patnaik [*]
A importância de /O imperialismo/ [NT] <#nt> de Lenine está no facto de
ter revolucionado a percepção da revolução. Marx e Engels já haviam
admitido a possibilidade de países coloniais e dependentes terem
revoluções próprias antes mesmo da revolução proletária nas metrópoles,
mas esses dois conjuntos de revoluções eram vistos como desarticulados;
e tanto a trajetória da revolução na periferia como a sua relação com a
revolução socialista nas metrópoles permaneceram obscuras.
/O imperialismo/ de Lenine não apenas ligou os dois conjuntos de
revoluções, mas também considerou a revolução nos países periféricos
como parte do processo de transição da humanidade para o socialismo.
Ele via, portanto, o processo revolucionário como um todo integrado.
Visualizou um único processo revolucionário mundial que, a partir de uma
ruptura no elo mais fraco da cadeia, não importando onde esse elo
estivesse localizado, derrubaria todo o sistema.
E afirmava também que chegara o tempo de tal revolução mundial, pois o
capitalismo atingira um estágio em que enredara a humanidade em guerras
catastróficas: tinha “coberto” o mundo inteiro sem deixar “espaços
vazios”, dividindo-o completamente em esferas de influência de
diferentes potências metropolitanas, de modo que só poderia agora
ocorrer uma nova repartição; e essa redivisão só poderia ocorrer por
meio de guerras interimperialistas, das quais a Primeira Guerra Mundial
foi um clássico.
A posição teórica que informa /O imperialismo/ ampliou o marxismo em
pelo menos cinco direcções principais.
*Primeiro*, trouxe as “regiões periféricas” do mundo, países que Hegel
havia descartado como não tendo história, para o âmbito da revolução
mundial. De facto, com o passar do tempo e com o desaparecimento das
esperanças de uma revolução na Europa após a Revolução Bolchevique,
esses países passaram para o centro da revolução mundial.
Num dos seus últimos escritos, Lenine não apenas depositou as suas
esperanças numa revolução na China e na Índia para suceder à Revolução
Russa, mas sublinhou mesmo o facto de a Rússia, a China e a Índia em
conjunto representarem quase metade da humanidade, de modo que as
revoluções nesses três países mudariam decisivamente a balança em favor
do socialismo. Não por acaso, a Internacional Comunista que ele ajudou a
criar era diferente de tudo o que o mundo já tinha visto até então, onde
delegados da Índia, China, México e Indochina ombreavam com os da
França, Alemanha e Estados Unidos.
Em *segundo* lugar, e paralelamente, ampliou o escopo do marxismo de uma
teoria da revolução proletária nos países capitalistas avançados para
uma teoria da revolução mundial. É claro que reconhecer o alcance muito
mais amplo do marxismo – uma reflexão acerca da dominação mundial do
capital que /O imperialismo/ enfatizou – ainda exigia que a tarefa
específica de analisar a história das sociedades não europeias com base
na teoria marxista tivesse que ser realizada.
Mas a extensão e o florescimento do marxismo no terceiro mundo
forneceram a base para tais análises, estimuladas pelo Comintern mesmo
quando as leituras políticas específicas deste último se mostravam
erradas. /O imperialismo/ deu, assim, ao marxismo uma vitalidade sem
precedentes.
Na verdade, Lenine não foi o primeiro a falar de imperialismo. Antes
dele, Rosa Luxemburgo havia feito uma análise extremamente aguda e
perspicaz explicando por que razão o capitalismo precisava de usurpar os
mercados pré-capitalistas. Mas a análise de Luxemburgo sofreu com o
facto de considerar que tal usurpação resultaria numa assimilação do
segmento pré-capitalista pelo capitalismo. O segmento pré-capitalista
não permaneceria como uma entidade devastada: passaria a fazer parte
do segmento capitalista.
O foco da análise de Luxemburgo continuou, portanto, a ser a revolução
proletária europeia. Apesar de observações dispersas em contrário, não
via um mundo permanentemente segmentado a ser criado pelo capitalismo
metropolitano. /O imperialismo/ de Lenine, no entanto, visualizou um
mundo permanentemente segmentado e é aí que reside a sua força.
Em *terceiro* lugar, a teoria de Lenine proporcionou uma interpretação
radicalmente nova do conceito de “obsolescência histórica” do
capitalismo. Até então, com base nas breves observações de Marx no
prefácio de /Contribuição para a Crítica da Economia Política,/ o
entendimento era que um modo de produção se tornava historicamente
obsoleto e, portanto, maduro para ser derrubado, apenas quando o espaço
para qualquer desenvolvimento adicional das forças produtivas dentro
dele se esgotasse; e tal esgotamento deveria manifestar-se tipicamente
na forma de uma crise.
A ausência de qualquer crise desse tipo, de facto, levou à exigência de
Bernstein de “rever” o marxismo, colocando como desiderato do
proletariado não o derrube, mas uma reforma do sistema capitalista.
Aqueles que aderiram à tradição revolucionária, contra Bernstein,
procuraram provar que uma tal crise terminal, que talvez ainda não
tivesse surgido, era, no entanto, inevitável.
A teoria do imperialismo de Lenine abriu aqui caminhos completamente
novos. A manifestação da obsolescência histórica do capitalismo, a sua
maturidade para ser derrubado, não estava em qualquer crise económica,
mas no facto de ter entrado numa fase em que envolveu a humanidade em
guerras devastadoras, guerras em que os trabalhadores de um país foram
obrigados a lutar contra os trabalhadores de outro país, de trincheira
para trincheira. Quando isto se verificou, chegou o momento de converter
a guerra imperialista em guerras civis, de desviar as armas dos
camaradas de trabalho e apontá-las aos capitalistas de cada país.
*Quarto*, o socialismo seria agora o objectivo de todas as revoluções,
independentemente do local onde ocorressem. A ideia de a revolução
democrática não ser levada avante pela burguesia (que historicamente
desempenhou o papel de seu arauto) nos países que chegaram tarde ao
capitalismo tinha já aparecido na obra de Lenine /Duas táticas da
socialdemocracia./ Em tais sociedades, a tarefa de levar adiante a
revolução democrática cabia ao proletariado, que entraria em aliança com
o campesinato e, tendo liderado a revolução democrática, não pararia por
aí, mas continuaria no sentido de construir o socialismo.
Mas agora esta perspectiva de uma revolução numa sociedade periférica –
inicialmente contra o imperialismo e baseada numa ampla aliança de
classe de operários e camponeses no seu núcleo, e depois passando para a
fase socialista – tornou-se generalizada. Em suma, a tarefa de construir
o socialismo já não era uma preocupação apenas dos trabalhadores dos
países avançados: era uma tarefa /a ser alcançada através de etapas/
que tinha entrado na agenda de todas as sociedades.
*Finalmente*, surgiu uma questão fundamental: porque é que houve um tal
crescimento do “reformismo” no movimento da classe operária europeia a
ponto de tantos líderes da Segunda Internacional adoptarem posições
oportunistas ou completamente social-chauvinistas durante a guerra?
Lenine forneceu uma resposta a esta questão, com base numa sugestão
anterior de Engels, ao desenvolver o conceito de uma “aristocracia
operária” que tinha sido “subornada” pelos superlucros imperiais.
/O imperialismo/ foi uma grande conquista teórica. Lenine observou certa
vez que a força do marxismo reside em ser verdadeiro. Pode-se fazer uma
afirmação semelhante também sobre a teoria do imperialismo de Lenine.
Constituindo um notável avanço, forneceu respostas, com extraordinário
brilhantismo, a toda uma série de questões que tinham surgido na nova
conjuntura e clamavam por respostas. Poder-se-á discordar deste ou
daquele detalhe da argumentação de Lenine, mas a sua orientação geral
foi quase esmagadoramente correcta. E um indício da sua correcção é a
forma quase estranha como antecipou os desenvolvimentos no mundo no
período entre 1914 e 1939.
O mundo de hoje, porém, afastou-se daquilo que Lenine tinha escrito em /
O imperialismo/.
Uma característica importante desta diferença é que a centralização do
capital avançou muito mais do que no tempo de Lenine, dando origem a
um /capital financeiro internacional,/ no lugar dos /capitais
financeiros nacionais/ que então dominavam. Consequentemente, as
rivalidades inter-imperialistas foram abafadas, uma vez que o capital
financeiro internacional não quer que o mundo seja dividido em
diferentes esferas de influência. Quer, em vez disso, um mundo não
dividido para o seu movimento irrestrito. A questão das guerras causadas
pela rivalidade interimperialista já não se coloca.
Isto, porém, não significa o início de uma era de paz. A ofensiva
implacável do capital financeiro internacional contra todos os esforços
nacionais no terceiro mundo que vão no sentido da independência
económica e da auto-suficiência económica (incluindo a alimentação) deu
origem a uma onda de conflitos locais, opondo um imperialismo unido a
determinados países.
Ao mesmo tempo, a exploração dos trabalhadores do terceiro mundo
intensificou-se enormemente, assim como a oligarquia empresarial-
financeira dentro dele se integrou com o capital financeiro
internacional. O resultado é um crescimento maciço da desigualdade no
terceiro mundo, a tal ponto que grandes sectores da população
testemunharam um aumento da pobreza absoluta em termos nutricionais.
Ao mesmo tempo, a maior disponibilidade do capital metropolitano para
deslocalizar actividades para o sul global enfraqueceu os sindicatos nas
metrópoles e levou a um aumento da desigualdade dentro das próprias
metrópoles. A hegemonia do capital financeiro internacional, expressa
numa ordem neoliberal, implicou, portanto, um agravamento significativo
em termos relativos, e mesmo absolutos, nas condições dos trabalhadores
do mundo.
Isto deu origem a uma crise de superprodução para a qual não há solução
dentro da ordem global neoliberal. E esta crise deu origem a um
recrudescimento do fascismo e do neofascismo em todo o mundo, com as
oligarquias corporativas-financeiras em vários países a entrarem em
alianças com grupos fascistas para manter a sua hegemonia.
A luta pelos direitos democráticos, a luta contra o desemprego e a luta
pelas liberdades civis passaram assim para a linha da frente, e esta
luta está ligada à luta pelo socialismo. O revolucionamento trazido por
Lenine à perspectiva da revolução mundial continua válido, embora o foco
imediato da revolução tenha mudado com o tempo.
21/Janeiro/2024
Em
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/patnaik/patnaik_21jan24.html
21/1/2024
terça-feira, 6 de fevereiro de 2024
A Rússia, um feito inédito na história da geopolítica do século 21
Há análises que fogem à questão central: a herança recebida da União
Soviética pela Rússia atual.
*Por Nivaldo Manzano (*) -
*No período de vinte anos, compreendido
entre o fim da União Soviética e a guerra dos EUA contra a Rússia na
Ucrânia, a Rússia, considerada em 1991 por um guru da Casa Branca como
uma mera “potência regional” despicienda, converteu-se numa
superpotência, somente comparável em poderio bélico aos EUA e à China.
Como explicar? Tenho lido explicações que fogem, por desconforto e
inconveniência ideológica, à questão central, que é a herança recebida
pela Rússia da cultura (em amplos termos) da União Soviética, que ainda
veste o manequim de seu líder Vladimir Putin, herança responsável,
talvez, pela sua aprovação, há vinte anos, de pelo menos 80% de seus
eleitores (um “tirano”, segundo a imprensa ocidental).
O francês Emmanuel Todd, demógrafo, antropólogo e historiador –
reconhecido pela imprensa nos últimos meses como um luminar na análise
geopolítica, pelo elevado número de suas previsões certeiras ao longo de
40 anos -, acaba de lançar em Paris o livro “La Défaite de l’Occident”,
que ganha manchetes em cadernos literários de todo o mundo e torna-se
tema assíduo em debates e entrevistas com o autor.
continua após o anúncio
Até então, Todd, autor de 20 livros, era um pesquisador (assim ele se
apresenta) ignorado e desprezado pela imprensa ocidental durante as
últimas três décadas, por razões ideológicas.
Emmanuel Todd nada tem de comunista e se defende dizendo que não é
russófilo, embora valorize os achados de Marx. Obviamente, o tema não é
novo, mas o que chama a atenção é o embate acirrado entre esquerda e
direita que o livro desperta, a propósito de suas ideias “heterodoxas”,
que vicejam ao largo das crônicas tanto profundas como ligeiras que
caracterizam o debate atual sobre geopolítica. Aqui,limito-me a
apresentar algumas de suas referências históricas e metodológicas sobre
as quais o autor fundamenta o conjunto de sua obra, que amadureceu ao
longo do tempo.
A sua originalidade: como demógrafo, Todd destaca a interface da
demografia no contexto das análises de geopolítica, ao lado de outras,
como a interface econômica, por exemplo, o que não quer dizer que a
desconsidere. Não há no pensamento de Todd uma “determinação em última
instância”, de ordem ontológica, uma ordenação hierárquica dos conceitos
e das atribuições de valor que se fazem à realidade sob escrutínio, em
prejuízo de outras, nem infraestrutura nem superestrutura, em que pese a
contingência histórica, por ele reconhecida, de um mundo dominado na
atualidade pelo Capital. À luz desse entendimento, faria sentido a
indagação sobre a diferença entre o contingente e o necessário, entre a
Lógica e a História, como ocorre no pensamento de Hegel? Como dissociar
a proposta metodológica de Todd das últimas reflexões de Marx, expressa
na carta (não enviada) à revolucionária russa Vera Zasulitch em 1882, na
qual ele afirma que a capacidade da imaginação é ilimitada e que é
preciso deixar de lado a estreiteza de nossos esquemas abstratos, como
condição para se enxergar o novo? E, como discípulo da École des
Annales, Todd valoriza os elementos quantitativos, associados ao estudo
das temporalidades longas, da qual procedem renomados historiadores
franceses, como Marc Bloch e Fernand Braudel.
Embora sinta ojeriza por toda classificação acadêmica, no papel de
antropólogo e demógrafo, na perspectiva da temporalidade longa Todd
detém-se na relevância que atribui ao papel da estrutura e organização
familiar na formação social. E daí ele retira as surpreendentes sacadas
originais, de superlativa atualidade, motivo de ter sido convertido
repentinamente em best seller. À estabilidade da estrutura e organização
familiar, Todd associa os processos de longa temporalidade, da coesão
comunitária, condição social que implica uma perspectiva de futuro
assegurado no horizonte. A essas interfaces demográficas, ele aproxima
outras, como os indicadores de escolaridade, fecundidade, mortalidade,
religiosidade e outras.
Munido desse instrumental, o pesquisador mergulha no estudo da crise da
formação social dos EUA, país que teria destroçado a sua herança
protestante (o sistema escolar que foi modelo para o Ocidente, a escrita
e leitura em massa, trabalho, disciplina, a vocação excepcionalista auto
assumida), daí resultando e provocando a catastrófica fratura social,
total ausência de espírito comunitário (cada um por si contra todos),
frustração coletiva, ausência da visão de futuro, ressentimento, estado
de guerra permanente, ruína da nação e do Império, “grau zero” da
civilização, nos seus termos. Não seria possível afundar ainda mais,
ante a iminência do colapso fatal. (Atenção: As análises de Todd
circunscrevem-se unicamente ao chamado Mundo Ocidental; daí o seu
desinteresse metodológico pelas questões referentes à unipolaridade e
multipolaridade da geopolítica mundial no seu todo).
Já a Rússia, em contraste, teria herdado tudo o que havia de virtuoso no
regime soviético, como a estrutura e organização familiar laicizada no
socialismo (trabalho e remuneração idêntica para ambos os sexos,
equivalência nas hierarquias sociais), estabilidade econômica e
política, expectativa positiva de futuro, forte senso de comunidade,
herdado das comunas camponesas e reforçado pelo regime soviético,
especialmente no pós-II Guerra Mundial, manifesto na bravura de seus
heróis e de suas heroínas e reavivado intensamente a cada ano, como pode
observar-se na grande afluência às comemorações do término da guerra na
Praça Vermelha frente ao Kremlin. (A União Soviética perdeu 20 milhões
de combatentes na II Guerra Mundial).
A isso deve associar-se o legado do excelente sistema educacional
soviético, evocado recentemente por Putin, ao proclamar a necessidade de
“voltarmos à qualidade que tínhamos antes”). Explica-se: Frente ao
inimigo externo que assediava a URSS de toda parte, no período da guerra
fria, o Estado soviético cuidou de formar legiões e legiões de técnicos,
engenheiros, físicos, geólogos, psicólogos, cientistas em geral,
diplomatas etc.). A busca da autossuficiência era imperiosa, e não havia
outra saída para a construção do socialismo e a reconstrução da URSS.
Mais gente capacitada do que se imagina teria decidido permanecer na
Rússia após o fim da URSS, atraída menos pelos salários do que pelas
expectativas oferecidas por Putin para conter a diáspora promovida pela
rejeição a Yeltsin e pelas promessas fantasiosas do Ocidente, hoje
ironicamente simbolizada pela grande placa do Mc Donald’s na Praça
Vermelha, agora invertida de cabeça para baixo pela empresa proprietária
da rede, para gáudio da clientela.
No empenho da recuperação, reconstrução e valorização cultural da
sociedade russa, Putin fez uso do profundo do sentimento de
nacionalidade, que vincou a sua história, um chamado de intensa
reverberação patriótica, em especial a lembrança do sacrifício, nas
guerras civis e nas batalhas de Leningrado (cerco de dois anos e meio e
dois milhões de russos mortos, de Kursk etc. Em matéria de manifestações
e comemorações de caráter histórico e símbolos remanescentes entranhados
na cultura, é quase impossível dissociar-se a nova Rússia da Rússia
soviética. Uma pesquisa recente mostra que supera em mais de 50% o
número de cidadãos que evocam os “bons tempos” da URSS. Observe-se que o
Partido Comunista da Rússia, que apoia Putin, é a segunda força política
na Duma, com 20% das cadeiras. No coração do russo da velha Rússia
soviética e do russo da nova Rússia pós-hecatombe Yeltsin pulsa o mesmo
sentimento de pertencimento, intuição que a sagacidade do estadista
Putin soube preservar e estimular, herança responsável, talvez, pela sua
aprovação, há vinte anos, de pelo menos 80% de seus eleitores (um
“tirano”, segundo a imprensa ocidental).
Assim é que, firmemente apoiado no que a Rússia tem de permanente no seu
imaginário, na perspectiva da temporalidade longa, para além das
contingências do capitalismo e do socialismo, sob o cerrado cerco das
sanções econômicas, o eleitorado russo celebra o desempenho econômico
superior a todos os países da Europa em 2023 e que deverá repetir-se em
2024, para a estupefação do OTANistão, como diz o jornalista Pepe
Escobar. Está aí a prova dos nove, que instiga a compreender o jogo das
temporalidades de Todd.
Em recente entrevista na primeira quinzena de janeiro à equipe do
programa diário The Duran na internet, produzido por Alexander
Mercouris, Gordon Hahn, um conhecido estudioso da Rússia e da Eurásia,
observou: “Para a Rússia, parece agora, o Ocidente já não é o seu
'Outro'.… A Rússia sempre se identificou, motivou-se, impulsionou-se em
relação à Europa. Agora Putin está se afastando disso. Disse que já não
devemos definir-nos, olhar para nós próprios, através do prisma europeu.
Por enquanto, colocaremos todos os nossos ovos na mesma cesta, e essa é
a Eurásia…. Esta estreita relação bilateral, da Europa como o Outro da
Rússia, está a terminar e, portanto, o ciclo [doconservadorismo à
ocidentalização e vice-versa] está provavelmente a terminar.”
No entendimento de Gordon Hahan, essas palavras de Putin deveriam ser
interpretadas como a manifestação diplomática mais importante até agora
no século XXI.
Isso posto, frente ao destrambelhamento da sociedade estadunidense - um
bólido desgovernado, à luz da antropologia de Todd -,junto as pinceladas
de minha responsabilidade no quadro desta crônica à “heterodoxia”
geopolítica do autor de “La “Défaite de L’Occident”, para afirmar a
minha crença na indiscutível capacidade da Rússia de fazer frente à
russofobia do OTANistão.
(*) Jornalista
Em
BRASIL 247
https://www.brasil247.com/ideias/a-russia-um-feito-inedito-na-historia-da-geopolitica-do-seculo-21-04e8n1p6
6/2/2024