O inquérito que apura a tentativa de autogolpe de Jair Bolsonaro para manter-se no poder indica que o ex-presidente só não avançou em seu plano criminoso porque não houve consenso entre os comandantes das Forças Armadas, que temiam, entre outros pontos, a repercussão que um ataque à democracia geraria na comunidade internacional. Faltou aos bolsonaristas, entre outros ingredientes, algo que foi concedido aos militares que deram o golpe no Brasil em 1964: apoio dos Estados Unidos.
Entre documentos sigilosos que a CIA (Agência Central de Inteligência), dos EUA, trouxe à tona décadas depois do golpe de 1964, está uma reportagem do jornal The Washington Post, que narra o apoio naval dado aos militares que derrubaram o governo de João Goulart, além do papel crucial do general americana Vernom Walters, que fazia a ponte entre o general golpista Humberto Castello Branco e a Secretaria de Estado americana.
A reportagem começava com a sentença: os Estados Unidos estavam prontos “para apoiar a deposição do último governo civil do país pelas forças armadas brasileiras, de acordo com documentos oficiais dos EUA.”
Os EUA deslocaram/“uma força-tarefa naval, com um porta-aviões, um porta-helicópteros, seis contratorpedeiros e petroleiros”/ e aguardavam ordens para /“se posicionar na costa brasileira durante o golpe de Estado de 1964 contra o governo de esquerda do presidente João Goulart, conforme mostram os documentos.”/
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As ordens deveriam vir do então embaixador, Lincoln Gordon. Em entrevistas à imprensa americana, Gordon chegou a negar que os EUA tivessem qualquer participação no golpe brasileiro. Quando os documentos foram revelados, no entanto, ficou patente que Gordon recomendou a criação da força-tarefa logística que ficou conhecida como *“Operação Irmão Sam.”*
Cinco dias antes do golpe no Brasil, em 27 de março de 1964, Gordon avisou ao secretário de Estado, Dean Rusk, que o provável líder dos militares no levante golpista, general Humberto Castello Branco, tomaria o poder no lugar de Goulart.
/“O adido militar de Gordon era o General Vernon Walters, um amigo próximo de Castello Branco. Walters reconheceu ter tomado café da manhã com Branco na manhã seguinte ao golpe e o incentivado a assumir a presidência”/, diz a reportagem.
Vernon Anthony Walters (1917-2002) foi um militar e diplomata dos Estados Unidos, conhecido por sua fluência em diversas línguas e por seu papel em eventos políticos importantes durante a Guerra Fria. Walters, tido como “muito bem informado” sobre o golpe no Brasil, se aposentou em meados de 1976 como o segundo no comando da CIA.
Além de seu envolvimento no Brasil, Walters teve uma longa carreira no serviço público dos EUA, ocupando cargos como:
* Vice-diretor da CIA (1972-1976) * Embaixador dos EUA nas Nações Unidas (1985-1989) * Embaixador dos EUA na Alemanha Ocidental (1989-1991)
Em um comunicado ao secretário de Estado americano, Walters justificou o golpe dizendo que Goulart estava atravessando um momento de “turbulência” e buscando *“poderes ditatoriais” *ao se aproximar do Partido Comunista Brasileiro.
Na década de 1970, os documentos desclassificados foram publicados pelo Jornal do Brasil, que enviou um correspondente a Austin para ter acesso aos relatórios. Os documentos foram tornados públicos pelo próprio governo americano cerca de 10 anos após o golpe no Brasil.
Leia a matéria completa do jornal /The Washington Post /abaixo:
Para relembrar: os principais pontos de envolvimento dos EUA no golpe militar no Brasil em 1964
* *Apoio político e econômico:* o O governo dos EUA, sob a presidência de Lyndon B. Johnson, via com preocupação o governo de João Goulart, considerado de esquerda e com tendências nacionalistas. o Os EUA forneceram apoio financeiro e logístico a grupos de oposição ao governo Goulart, incluindo setores militares e empresariais. o A “Aliança para o Progresso”, programa de ajuda econômica dos EUA para a América Latina, foi utilizada para financiar políticos e organizações que se opunham a Goulart. * *Apoio militar:* o Documentos oficiais dos EUA revelam que uma força-tarefa naval americana, incluindo um porta-aviões, foi enviada para a costa brasileira durante o golpe, como forma de dissuadir possíveis resistências ao golpe. o A chamada “Operação Irmão Sam” foi uma operação logística dos EUA para fornecer apoio militar aos golpistas, caso houvesse resistência armada. o O adido militar dos EUA no Brasil, General Vernon Walters, manteve relações próximas com os militares golpistas, tendo inclusive incentivado o General Castelo Branco a assumir a presidência. * *Influência ideológica:* o A Guerra Fria e a luta contra o comunismo na América Latina influenciaram a política externa dos EUA em relação ao Brasil. o Os EUA viam o governo Goulart como uma ameaça à sua influência na região e um possível aliado da União Soviética.
/Este artigo foi escrito com auxílio de Inteligência Artificial./
Um dos políticos mais perseguidos da história do País expressa o sonho de um Brasil soberano. Os ataques que ele sofreu também explicam a campanha contra Lula
A liberação de documentos secretos da CIA <https://www.brasil247.com/ poder/arquivos-secretos-sobre-a-morte-de-kennedy-revelam-que-brizola- foi-um-dos-politicos-mais-espionados-do-pais> sobre o assassinato de John F. Kennedy, pelo governo de Donald Trump, trouxe à tona novas evidências sobre a intensa vigilância e perseguição dos Estados Unidos contra líderes nacionalistas brasileiros, como também ocorreu com Getúlio Vargas, João Goulart e Rubens Paiva. Mas, mais do que um mero capítulo da Guerra Fria, esses arquivos revelam algo essencial: Brizola ainda está aqui. Seu legado, sua luta e sua visão de país continuam sendo peças fundamentais para compreender o Brasil de ontem e de hoje.
A espionagem americana sobre Brizola <https://www.brasil247.com/poder/ arquivos-secretos-sobre-a-morte-de-kennedy-revelam-que-brizola-foi-um- dos-politicos-mais-espionados-do-pais> não foi um acaso. Desde os tempos da Cadeia da Legalidade, quando ele impediu um golpe militar que buscava barrar a posse de Jango em 1961, até suas campanhas presidenciais nos anos 1980 e 1990, Brizola sempre esteve na linha de frente da defesa da soberania nacional. Para o Império e suas forças associadas no Brasil, isso era inaceitável.
Os documentos liberados recentemente confirmam que Brizola foi monitorado pela CIA desde os anos 1960. Em um dos registros, a agência descreve como ele recusou a oferta de ajuda de Cuba e da China naquele período, temendo que isso justificasse uma intervenção americana no Brasil. Mesmo assim, sua defesa do nacionalismo econômico e sua luta contra a entrega das riquezas nacionais fizeram dele um alvo prioritário. O golpe de 1964, com apoio direto dos EUA, destruiu o projeto trabalhista de Jango e Brizola e impôs duas décadas de repressão política e um modelo de desenvolvimento marcado pelo alinhamento automático com os interesses imperiais.
*A mídia como arma contra o nacionalismo*
A perseguição a Brizola não veio apenas do exterior. No Brasil, a Rede Globo, aliada da ditadura, tornou-se um dos maiores instrumentos para difamar o líder trabalhista. A campanha contra ele foi implacável, tentando associá-lo ao caos, à violência e ao atraso. Mas, mesmo enfrentando um dos maiores monopólios de comunicação do mundo, Brizola venceu a eleição para governador do Rio de Janeiro em 1982 e impôs à emissora uma derrota histórica com o famoso direito de resposta em cadeia nacional.
A Globo e os militares sabiam que Brizola representava a continuidade do projeto interrompido com o golpe de 1964. Ele defendia um Brasil forte, independente, com um Estado capaz de garantir desenvolvimento e justiça social. Seus CIEPs, escolas em tempo integral, simbolizavam seu compromisso com a educação pública. Seu combate à privatização e à entrega das empresas estratégicas o tornava uma pedra no sapato dos que queriam transformar o Brasil em um quintal das multinacionais ou uma vaca-leiteira para a transferência de dividendos ao capital financeiro internacional.
*Brizola e a luta contra a interferência externa*
As novas revelações sobre o monitoramento da CIA mostram como a política externa dos EUA nunca esteve dissociada dos interesses econômicos e do controle da América Latina. O que começou com a desconfiança sobre a viagem de Jango à China em 1961 culminou no golpe de 1964 e na destruição do projeto nacionalista que poderia ter transformado o Brasil. Décadas depois, esse mesmo processo se repetiria, com novas estratégias e outras táticas de lawfare, como na guerra híbrida contra a presidenta Dilma Rousseff e durante a Lava Jato, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas sempre com o mesmo objetivo: impedir que o Brasil tenha autonomia e caminhe com as próprias pernas.
O caso de Rubens Paiva, resgatado no filme "Ainda Estou Aqui", vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2025, reforça essa triste realidade. A nova leva de documentos da CIA confirma que a repressão contra Paiva, Jango e Brizola foi fomentada pelos EUA. O objetivo era silenciar qualquer voz que defendesse um país soberano e socialmente justo.
*Por que Brizola ainda está aqui?*
Se Brizola foi perseguido, espionado e atacado com tanta violência, é porque ele representava uma ameaça real ao status quo e aos interesses da classe dominante. Ele encarnava um projeto de Brasil que assustava elites locais e potências estrangeiras: um país que não se curvaria aos ditames externos, que apostaria na educação pública, na industrialização, no desenvolvimento soberano e na distribuição de renda.
E é por isso que seu legado segue vivo. Brizola ainda está aqui na luta pela soberania nacional, nas políticas públicas que tentam resistir ao desmonte do Estado, na necessidade urgente de uma imprensa democrática e plural. Ele está aqui na valorização da educação como base do desenvolvimento e na resistência contra a entrega das riquezas nacionais.
Os documentos da CIA não apenas revelam o que foi feito contra ele — eles reforçam que é preciso manter vivos seus ideais. Se Brizola foi tão atacado, é porque estava no caminho certo. E se seu nome ainda assombra aqueles que querem um Brasil dependente, como ficou explícito na fala recente do banqueiro Rogerio Xavier, da SPX, que disse dias atrás ter desejado a morte de Brizola, é porque ele jamais foi apagado da história.
Além disso, compreender a perseguição das elites locais e internacionais contra Leonel Brizola também explica os ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e toda a atual campanha econômica e midiática que vem sendo organizada contra sua reeleição em 2026.
/** Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.*/
As características da geopolítica de Donald Trump e do capitalismo de catástrofe já estão delineadas:
* combate à globalização, entendida como livre fluxo de comércio; * destruição dos Estados nacionais; * disseminação do discurso de ódio e do individualismo como motores da ultra-direita; * a partir daí, controle do mundo pelas big techs e mercados financeiros, embora sujeito a fricções entre ambos os grupos.
Peça 2 – o controle do dinheiro mundial
A crise de 2008 consolidou, inicialmente, o poder dos grandes bancos globais.
Segundo a BBB News, os 28 maiores bancos do mundo passaram a dominar os mercados financeiros, com um controle significativo sobre o fluxo de capitais globais.
Ampliou a concentração de poder, houve poucas mudanças pós-crise e essas instituições continuam sendo estratégicas na alocação do crédito e na criação de crises financeiras. Ficou nítido o papel do JP Morgan na crise cambial brasileiro de dezembro passado.
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Ao mesmo tempo, os grandes fundos globais passaram a atuar sobre um universo cada vez maior de companhias, como tem alertado o economista Ladislau Dowbor.
Entrou-se em uma espiral financeira que impede qualquer aumento do investimento público ou privado. De um lado, os grandes fundos acionistas exigem aumento continuado dos dividendos, tendo como parceiros os CEOs, e sacrificando investimentos no crescimento, manutenção e consolidação das companhias. De outro, os spreads bancários tirando enormes volume da economia e dos investimentos.
O modelo exaure as empresas privadas, obrigando a vender o futuro para gerar dividendos; e o governo, obrigando a aumentar juros da dívida pública e cortar toda forma de gastos.
Peça 3 – padrão Jack Welch
O primado dos grandes fundos internacionais, exigindo cada vez mais dividendos e retorno do capital – em detrimento do próprio futuro da empresa -, consagrou-se no chamado padrão Jack Welch – o executivo que alçou a General Eletric às alturas e, depois, contribuiu decisivamente para sua derrocada,
São características desse modelo:
* Cultura dos cortes e pressão excessiva. * Desvalorização dos empregos tradicionais e terceirização excessiva * Foco excessivo no lucro de curto prazo * Cultura do medo e do stress * Impacto negativo na inovação * Falhas éticas e escândalos
Os ameaçados pela globalização são identificáveis:
Peça 4 – as limitações do governo
O governo Lula se vê acuado por três frentes:
* mercado-mídia, com o terrorismo fiscal e inflacionário; * Congresso, se apropriando do orçamento; * falta de um projeto claro de país, como principal fator da perda de popularidade, que acaba se manifestando nas críticas à carestia – que é apenas um subproduto da decepção com a ausência de sonhos.
Por outro lado, o modelo internacional em vigor, é ameaça clara a um conjunto de atores econômicos:
* os trabalhadores, pela consolidação do método Jack Welch; * as grandes empresas internacionais do setor produtivo, alvos fáceis de jogadas dois grandes fundos, através da mera manipulação do câmbio. Confira um exemplo hipotético: uma multinacional iniciando o ano com projeção de lucro líquido de R$ 15 milhões, com o câmbio a R$ 4.80. Basta um movimento especulativo jogando o câmbio em R$ 6,20 (como ocorreu em dezembro), para seu resultado, em dólares, ter uma queda de 22,6%.
* os grupos nacionais do setor produtivo – industriais e do varejo -, sendo espremidos pela competição internacional, especialmente das grandes plataformas; * as Pequenas e Médias Empresas, tendo que enfrentar cada vez mais a competição chinesa.
Peça 5 – o Plano de Metas de JK
Juscelino Kubitschek enfrentou cenário semelhante quando presidente: sob ataque constante da imprensa, ameaça de golpe militar, inflação, contas públicas e externas no pandareco.
Mesmo assim, com seu Plano de Metas virou o jogo.
Consistia, de um lado, na criação de um conjunto de Grupos Executivos.
O plano focou em 5 setores principais. Energia, Transportes, Alimentação, Indústria de Base e Educação eram essenciais. A interdependência desses setores impulsionaria o desenvolvimento. GTs foram formados para cada setor, com metas específicas:
* Energia: geração e distribuição. * Transportes: integração do território nacional * Alimentação: aumento da produção e distribuição.
Havia um setor exclusivo para a reestruturação industrial:
* GEIA – Grupo Executivo da Indústria Automobilística * GEICON – Grupo Executivo da Construção Naval * GEIMEPE – Grupo Executivo da Indústria da Mecânica Pesada * GEAMPE – Grupo Executivo da Assistência à Média e Pequena Empresa
Entre outros feitos, o plano lançou o Programa Nacional de Fabricação de Veículos a Motor, aprovou 17 projetos e implantou 12.
O plano focou em 5 setores principais. Energia, Transportes, Alimentação, Indústria de Base e Educação eram essenciais. A interdependência desses setores impulsionaria o desenvolvimento. GTs foram formados para cada setor, com metas específicas.
O programa atraiu pesos-pesados de diversos setores, obedecendo a condições impostas pelo governo: participação do capital nacional e fornecedores nacionais.
Peça 6 – a estratégia à disposição de Lula
Lula tem inúmeros instrumentos à mão para virar o jogo. Não vira, se não quiser. Há duas frentes prontas para serem acionadas, cujo objetivo final é o da construção da solidariedade nacional.
Frente 1 – a reestruturação industrial.
Já está em andamento, com alguns resultados palpáveis, mas sem ter se tornado peça central do governo. Atribui-se ao fator Rui Costa, que possui uma guilhotina pronta a cortar o pescoço de qualquer ministro que ouse se destacar.
Já há duas iniciativas prontas para serem turbinadas.
* Transição Energética, de Fernando Haddad * Nova Indústria Brasileira, de Geraldo Alckmin.
Ambas definiram metas, articulam ações, fazem o meio campo com outros ministérios e com agentes econômicos. E envolvem milhares de empresas dos mais variados setores
*Energia renovável* *Energia solar**Energia Eólica**Hidrelétrica**Outras – biomassa, geotermia, energia oceânica* *Armazenamento* *Baterias**Em larga escala* *Eficiência energética* *Soluções inteligentes**Eletrodomésticos e veículos eficientes* *Redes inteligentes* *Modernização da infraestrutura**Micro-redes* *Mobilidade sustentável* *Veículos elétricos**Biocombustíveis* *Captura e armazenamento de carbono* *Tecnologias de captura**Armazenamento subterrâneo* *Sustentabilidade e responsabilidade social* *Novos modelos de negócio*•*Certificações e selos** *
Frente 2 – o Arranjo Produtivo Digital
Um dos grandes ativos nacionais é a profusão de organizações públicos e privadas com distribuição nacional: sistema S, cooperativismo, confederações de empresas e de trabalhadores, evangélicos do bem, agricultura familiar, movimentos sociais, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Correios.
O principal se tem. Falta apenas imaginação criadora para juntar todas essas peças em um grande programa de mobilização nacional.
Uma das idéias é criar uma grande plataforma de produção, com grupos de pequenos produtores divididos por tipos de produção: têxtil, vestuário, mobiliário etc.
Haverá uma campanha estimulando o cadastramento das PMEs em portais próprios.
Depois, cada uma delas será certificada pelo SENAI e pelo SEBRAE de sua região.
A certificação é o atestado de que ela tem condições de produzir de acordo com critérios de qualidade e rapidez.
Caberá ao projeto organizar os produtores para negociar com as grandes plataformas.
Eles poderão ser produtores para marcas conhecidas, ou – com assessoria do Sebrae e do BB – montar sua própria linha de produção e marcas próprias.
As Brigadas da Informação.
Para dar visibilidade midiática ao projeto:
1. Criação de Brigadas da Informação, formadas por técnicos do Senai, Sebrae, Banco do Brasil e governo.
2. Seleção de cidades e empresas para receber a visita das brigadas.
3. Evento público com as empresas e os arranjos, visando estimulá-las para a certificação e para o projeto.
4. Cada cidade será tratada como Polo de Desenvolvimento.
5. Inauguração do Polo, com presença da ABDI, CNI, da Federação de Indústria local, dos sindicatos e de autoridades do governo, como o Ministro do Desenvolvimento e o próprio Presidente da República
Peça 7 – à guisa de conclusão
Enfim, Lula tem à mão todos os ingredientes para marcar definitivamente o modelo Lula 3, preparando o país para o maior desafio da sua história: ou reencontrar a vocação de grandeza, que se perdeu nas dobras do tempo, ou entregar-se ao bolsonarismo-tarcisismo, que significará o fracasso final como projeto de nação.
Uma bandeira mobilizadora da sociedade, de trabalhadores, empresários, crentes de todas as religiões, terá o condão de fornecer ao presidente a força política para superar as restrições do Congresso e do mercado.
Desta forma o líder oligarca, Elon Musk qualificou a USAID, dizendo que "era hora de ela morrer". Compreende-se a irritação: gastam dinheiro sem resultados palpáveis em termos de lucros obtidos e a corrupção está instalada. Para o secretário de Estado Marco Rubio, administrador interino da USAID, "agora está bastante claro que parcelas significativas do financiamento da USAID não estão alinhadas com os principais interesses nacionais dos Estados Unidos". Numa entrevista à Fox News, Rubio disse que a USAID deveria desaparecer: "a atitude básica deles é que não trabalham para ninguém, trabalham para eles próprios. Nenhuma agência do governo pode dizer isto".
A USAID aparece como um dos sacos sem fundo do orçamento. Disfarçada de financiadora da "sociedade civil" e da "promoção da democracia", serviu para alimentar a agitação em favor de mudanças de regime em países que se distanciavam dos EUA. A USAID promoveu-se como lutando por “valores democráticos no exterior” e “um mundo livre, pacífico e próspero”, mas era utilizada através do “poder económico” para “persuadir adversários e aliados a modificarem o seu comportamento”. Um instrumento de guerras não convencionais dos EUA, basicamente com dinheiro e propaganda.
Robert Kennedy Jr. disse ao jornalista Tucker Carlson: "A USAID não faz democracia de verdade, a CIA não faz democracia, a CIA derrubou, acho, 83 governos entre 1947 e 1997. Isso é um terço dos governos na Terra, e a maioria eram democracias”.
Os funcionários da USAID são em grande parte agentes da CIA desempenhando um papel crucial na incitação à violência, tumultos e mudanças de regime por todo o mundo, mas ignorando os problemas das nações mais pobres, designadamente africanas, atingidas pela fome.
A USAID era um mecanismo central do poder unipolar. Uma poderosa máquina financeira associada a corrupção e poder. Os seus processos tinham em vista em primeiro lugar garantir a fidelidade aos ditames globalistas, afixando desde logo como totalitarismo, antidemocrático e ameaça aos interesses do "mundo livre" o que expressasse veleidades de independência e soberania. A tese de que era necessário corrigir as nações cujo povo "votava mal" era um princípio fundamental.
A administração Trump pretende eliminar cerca de 90% dos contratos estrangeiros da USAID. Após uma revisão ordenada por Trump, cerca de 5800 subsídios emitidos pela USAID, avaliados em aproximadamente 54 mil milhões serão cancelados, de acordo com um memorando do Departamento de Estado citado peloWashington Free Beacon.
2 – Financiamento de grupos terroristas
Desde que servissem os interesses que supostamente seriam os dos EUA, grupos mesmo agindo com práticas terroristas foram financiados. Um dos beneficiários dos fundos da USAID foi a Fundação Falah-e-Insaniat, uma organização dita de caridade ligada ao banido Jamat-ud-Dawa (JuD), uma fachada para o Lashkar-e-Taiba (LeT), o maior grupo terrorista do sul da Ásia. O LeT foi responsável pelos ataques de 26 de novembro de 2008 em Mumbai (Índia), que mataram 166 pessoas e deixaram mais de 300 feridos.
Tanto o LeT quanto o JuD são consideradas organizações terroristas pela Índia dado o seu envolvimento em vários ataques, incluindo em Jammu e Caxemira, alimentando a violência e a instabilidade. Apesar dos factos óbvios e investigações sobre aquelas ligações, a USAID continuou o financiamento, apesar de banidas como grupos terroristas pelos EUA.
Scott Perry, general retirado e congressista, afirmou que 697 milhões de dólares foram entregues anualmente como financiamento “mais as remessas de fundos em dinheiro” para apoiar grupos terroristas como Madrasas, ISIS, Al-Qaeda, Boko Haram, ISIS-Khorasan e campos de treino de grupos qualificados como terroristas pelos EUA.
Pelo menos 9 milhões de dólares em “ajuda humanitária” destinada a sírios deslocados acabaram nas mãos de grupos ligados à Al-Qaeda. Mahmoud Al Hafyan, comandava uma ONG síria que recebeu 122 milhões da USAID entre 2015 e 2018; 63 milhões foram para grupos afiliados à Al-Qaeda em Idlib ao longo de dois anos. De acordo com a influenciadora no X, Syrian Girl, mais de 12 mil milhões entre 2011 e 2020 foram dados a fações jihadistas na Síria.
3 – Outros instrumentos imperialistas
A USAID está longe de ser o único instrumento de intromissão de Washington. A National Endowment for Democracy (NED), apelidada por Musk de "o golpe", autodenomina-se uma ONG independente, privada e sem fins lucrativos, dedicada a "fortalecer instituições e valores democráticos" em todo o mundo. Na realidade, é um braço da CIA, financiada com 315 milhões de dólares por ano.
A USAID, a NED e a UE conspiraram para derrubar Viktor Orban em 2022. Orban venceu a reeleição apesar da ONG Action for Democracy, com ligações a George Soros ter canalizado cerca de 7,6 milhões de dólares para a oposição. Após a eleição a USAID, relançou programas na Hungria, alegando apoiar “instituições democráticas” e os media "independentes".
No início de 2023, Samantha Power, então líder da USAID, anunciou ter sido enviada à Hungria para “proteger os direitos humanos” e enfrentar os “desafios da democracia". Em dezembro de 2023, a Hungria criou o Gabinete de Defesa da Soberania após descobrir que partidos de oposição e meios de comunicação social tinham recebido fundos estrangeiros para influenciar eleições.
Na Eslováquia a oposição desencadeou protestos depois do primeiro-ministro Fico ter visitado Moscovo. Segundo o vice-líder do partido do governo, a oposição tem laços com os mercenários da Legião Georgiana da Ucrânia, culpados de crimes de guerra e financiados com dinheiro da USAID e de SOROS.
A USAID reconheceu abertamente o seu papel em operações de mudança de regime por meio de programas de "democracia" – "revoluções coloridas" – na Geórgia, Ucrânia, Quirguistão. Na Geórgia o valor da "ajuda" e "programas de democracia" dos EUA estão reportados como sendo 103 milhões (2002),141 milhões (2003) entre outras entregas, viaIRIeNDIpara ONG, ativistas e media. Em 2004, os EUA admitiram que "ajudaram" a preparar as eleições de 2003 na Geórgia, com ONGs financiadas pelos EUA a desempenharem um papel fundamental na mudança de regime. Para influenciar as eleições de 2024, segundo o presidente do Parlamento, a USAID aplicou cerca de 41,7 milhões de dólares.
No Afeganistão, a USAID esteve ligada ao comércio de ópio, através de financiamento de projetos de desenvolvimento fracassados, de acordo com um relatório de 2016 do Inspetor-Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão (SIGAR), tendo investido pelo menos 330 milhões de dólares entre 2005 e 2008, nesses programas. Fundos que serviram para impulsionar o cultivo de papoila de ópio, revelou John Sopko do SIGAR. As áreas para ópio atingiram 328 000 hectares e a produção de ópio e seu derivado a heroína, alcançou um valor de 6,6 mil milhões de dólares em 2017, aproveitado em parte para financiamento dos talibã.
A NED, canalizou fundos, alimentou protestos e manipulou narrativas para promover os interesses imperialistas em mais de 100 países. Atuou em atividades de “promoção da democracia”, desde a sua fundação em 1983, comprometendo milhões de dólares em projetos no Afeganistão, Cuba, Europa Oriental e União Soviética.
No Quirguistão a "revolução das tulipas" em 2005, foi fortemente financiada através de ONG locais. "Programas de democracia", ativistas e media, receberam antes das eleições de fevereiro de 2005, 56,6 milhões (2003) e 50,8 milhões (2004). OInstituto Open Societyde George Soros contribuiu com 5 milhões (2003) para a Universidade Americana da Ásia Central no Quirguistão.
No Líbano a "revolução do Cedro" em março de 2005, com 1 milhão de libaneses em protestos exigindo a retirada militar da Síria, abriu caminho para o líder pró-EUA Saad Hariri. O relatório da USAID de 2006 afirmou que anos de trabalho lançaram as bases para a revolta, triplicando a "ajuda" dos EUA de 15 milhões para 45 milhões.
A NED investiu 100 milhões de dólares para impulsionar a "democracia" no Paquistão, Nepal, Sri Lanka, Tailândia e Filipinas, treinando jornalistas e estabelecendo colaboração com determinados sectores da sociedade. Na Indonésia prepararam o terreno para uma "revolução colorida", financiando ativistas da oposição. No Paquistão (2022) Imran Khan alega que os EUA (com o envolvimento de Nuland) orquestraram a sua remoção por meio de um voto de desconfiança.
No Bangladesh, em 2024, a primeira-ministra Sheikh Hasina acusou Nuland de apoiar esforços para removê-la depois que ela recusou acesso militar dos EUA. O país foi então objeto das habituais ações de mudança de regime, protestos, conflitos religiosos, acabando por ser designado um governo pró-EUA. A principal razão, de acordo com o documento vazado, era minar a influência da Índia na região.
Na Índia, a NED financiou ONGs e media tentando minar o governo do Partido do Povo Indiano de Narenda Modi. Em 2016, a Índia colocou a NED numa lista de observação por violar a Lei de Regulamentação de Contribuições Estrangeiras sobre doações estrangeiras para entidades locais. De 2002 a 2022, a USAID terá destinado entre 16,23 milhões a 400 milhões a grupos como a Tides Foundation e o IREX, financiando interferência e desinformação anti-Índia, como revelado peloDisinfoLAb. Desde 2020, a Índia está na lista negra da Comissão dos Estados Unidos para a Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF), vinculada a indivíduos apoiados pelas ONG de Soros. AFreedom Housefinanciada pela USAID apoiou o movimento separatista da Índia, o sihkKhalistani, encobrindo as ações terroristas deste grupo e fez campanhas acusando a Índia de "repressão".
4 – A USAID e a Internews expostas pela WikiLeaks
A USAID é ou foi um instrumento fundamental para a influência global do imperialismo tendo financiado com 472,6 milhões de dólares aInternews Network. Fundada em 1982, a Internews diz ajudar veículos de comunicação a alcançar sustentabilidade financeira e promover “informações confiáveis”. A Internews, também recebeu financiamento da AOL-Time Warner Foundation, da Bill & Melinda Gates Foundation e de outros doadores privados. Apresenta-se como uma ONG destinada a apoiar, em cerca de 100 países, os media que considera independentes – não do seu financiamento, claro! – como estações de rádio e televisão, agências de notícias, cineastas, treino de jornalistas.
Em 2023, colaborou com 4291 órgãos mediáticos, produziu 4799 horas de transmissões, atingindo 778 milhões de pessoas, treinou mais de 9000 jornalistas, apoiou iniciativas de censura nas redes sociais. Tem escritórios importantes nos EUA, Londres, Paris e sedes regionais em Kiev, Bangkok e Nairóbi.
AAssociated Pressrecebeu em 2024, cerca de 1,2 milhão, em 2023, mais de 4 milhões, em 2022 mais de 3 milhões. ONew York Timesem 2024, 4,1 milhões em 2023, cerca de 2 milhões, tal como em 2022.Políticoem 2022, cerca de 700 mil dólares; em 2023, quase 600 mil; em 2024, cerca de 8,1 milhões. A "independente" BBC em 2024, mais de 3 milhões, tal como em 2023 e 2022. AReutersrecebeu 9 milhões, disponibilizados pelo Departamento de Defesa, para um programa de "engenharia social em larga escala" entre 2018 e 2022 sob o item de "defesa cibernética".
Por exemplo, para promover "jornalismo responsável de alta qualidade" foram dados 10,7 milhões da USAID à Libéria; 11 milhões para "media que viabilizam a democracia" na Moldávia; 19,5 milhões para a Internews “posicionar a sociedade jordana para defender os interesses dos cidadãos”. O Departamento de Estado dos EUA contribuiu com 1,48 milhões para estabelecer “serviços de informação seguros, acessíveis e que salvam vidas” no Sudão do Sul.
O jornalistaUdo Ulfkotte, ex-editor doFrankfurter Allgemeine Zeitunge conselheiro do governo Kohl no final dos anos 90, disse em 2014, ao promover o seu livro"Jornalistas de aluguer: Como a CIA compra as notícias": "Fui instruído para mentir, trair e não contar a verdade ao público". De acordo com Ulfkotte, a CIA e a inteligência alemã (BND), subornam jornalistas para escrever artigos de propaganda pró-OTAN, e "é bem sabido que alguém pode perder o emprego nos media se não cumprir a agenda pró-ocidental", tal como descreve no seu livro sobre o padrão de corrupção existente nos media. Admitiu ter espalhado propaganda anti-russa e manipulado notícias sob influência ocidental. Revelou que muitos jornalistas eram, na verdade, "cobertura não oficial" de agências de serviços secretos (inteligência). Acusou os media alemães e americanos de empurrarem a Europa para a guerra com a Rússia.
Com as revelações sobre como a USAID e outras ONG canalizaram milhões para bolsas de jornalismo, será possível acreditar que isso alguma vez foi sobre “jornalismo independente”? A questão é que todo este dinheiro vindo de uma forma ou outra (isenção de impostos) do OE dos EUA, traz magros resultados, caos, instabilidade, o que não agrada à oligarquia. Musk compara o custo do investimento com o lucro obtido e, com Trump, pretende pôr fim ou pelo menos, veremos, remodelar esta farsa, incluindo os Radio Free Europe, Radio Liberty e Voice of America: “são apenas pessoas falando sozinhas enquanto queimam mil milhões de dólares por ano". Musk já anteriormente tinha acusado o governo de Biden, de ter usado fundos orçamentais para financiar grandes media ocidentais na promoção dos interesses do Partido Democrata.
5 – USAID e Samantha Power
Samantha Power tem no seu currículo histórias muito comprometedoras. Em 2022, revelou como a sua agência interferia em assuntos internos de outros Estados, mas com as melhores intenções em mente. Ela explicou como a USAID visa de facto influenciar “eleições estrategicamente importantes” no exterior por meio do chamado “Fundo de Defesa das Eleições Democráticas” e como procura proteger jornalistas alinhados com os EUA de processos judiciais por meio do “fundo de seguros” daReporters Mutual.
Pressionou pela intervenção da NATO na Líbia, levando a anos de guerra civil, ascensão do ISIS e grupos extremistas, tráfico de pessoas em massa e escravidão. Samantha Power é considerada uma amiga de Israel cúmplice na crise humanitária de Gaza, embora tenha ganho um Prémio Pulitzer por um estudo sobre genocídio. Apoia a ajuda militar dos EUA a Israel, apesar das mortes de civis e do sofrimento humano. Teve interferência em governos estrangeiros como no Zimbabué (2024). Proporcionou ajudas de forma seletiva favorecendo setores politicamente alinhados, ignorando graves crises humanitárias.
A traficância de favores e corrupção não estão ausentes desta organização acarinhada pela UE/NATO. Por exemplo: pouco mais de 2% dos mais de 4,4 mil milhões destinados pela USAID para o Haiti chegaram ao país, 56% dos fundos foram depositados em empresas sediadas em Maryland, Virgínia, e em Washington DC, enquanto 41% foram para "outras organizações".
Musk, diz ter sido informado que existem atualmente mais de 100 mil milhões por ano em pagamentos a indivíduos que nem sequer têm um número de identificação temporário. Parece claro que estará aqui incluída muita gente cujo nome não deve ser divulgado por razões óbvias quanto à sua "independência" e "integridade". São muitas vezes os mais assanhados contra a corrupção...
Musk do alto dos seus 440 mil milhões de dólares, aponta casos de "modestos servidores públicos" como Liz Warren senadora que acumulou 12 milhões, Samantha Power 30 milhões e mais de 150 milhões para Nancy Pelosi ex-presidente da Câmara dos Representantes.
Com a cobertura dos grandes media controlados, grupos escolhidos e treinados para o extremismo e populismo, desencadeiam a agitação a partir de falsas notícias e o empolamento de problemas existentes, mesmo normais em qualquer país, transformando-os em graves crises com discursos de ódio, racismo, luta contra a corrupção, promoção da democracia em termos abstratos, na realidade neoliberalismo validado por Washington e apoiado pelos vassalos da UE/NATO.
Com esta atuação o mundo unipolar acabou por merecer a qualificação de "império do caos", mergulhado em permanentes crises políticas, económicas, militares. A oligarquia dos EUA verifica que nada lucra com esta situação, reconhecidamente insustentável política e financeiramente, dada a ascensão dos BRICS e a crise da dívida.
Foi assim detetada e evidenciada a falta de supervisão nos gastos da USAID e não só. Musk através doDOGEpretende uma redução de 92% nos gastos da USAID, interromper contratos e reduzir o pessoal da USAID de 10 mil para 300, com o restante da equipa e das responsabilidades transferidas para o Departamento de Estado.
Os gastos da USAID "são totalmente inexplicáveis" disse Trump, alargando esta verificação para o Pentágono, querendo uma redução de 8% no orçamento do Departamento de Defesa por ano. Também a NASA está sob revisão para “encontrar e consertar desperdícios, fraudes e abusos”. Uma auditoria será aplicada à USAID e à ajuda externa do Departamento de Estado, sendo identificados 4,4 mil milhões em subsídios a serem eliminados, pretendendo-se “reformar a maneira como os Estados Unidos fornecem assistência ao estrangeiro” e abordar “décadas de deriva institucional”.
A compreensão do que se tem passado ficaria incompleta sem analisar a ação da USAID e parceiros na Rússia e na Ucrânia. É o que propomos seguidamente.
Na semana passada, eu narrava os acontecimentos que envolvem o conflito ucraniano sublinhando que o Presidente francês, Emmanuel Macron, por muito brilhante que fosse, era incapaz de se adaptar às mudanças no mundo. Esta semana, retomo os mesmos elementos, e muitos outros que se seguiram, para mostrar que o divórcio dos Europeus entre si e da UE com os Estados Unidos se tornou uma realidade. Já não há tempo para tergiversar : o mundo antigo acaba de ser destruído. Se não nos posicionarmos imediatamente, seremos levados com ele. Ora, de momento, o Reino Unido e a França rivalizam para tomar o lugar dos Estados Unidos no continente não para se reformarem.
Christoph Heusgen, antigo representante permanente da Alemanha nas Nações Unidas e actual presidente da Conferência sobre a Segurança de Munique, chora ao descobrir o divórcio entre os Estados Unidos e os Europeus.
Nas duas últimas semanas, experimentamos uma viragem na História comparável à da Batalha de Berlim, em Abril a 1945, quando o Exército Vermelho tomou Berlim e derrubou o IIIº Reich : desta vez, foi a Administração Trump que atirou definitivamente a União Europeia às cordas.
Neste momento, o G7 , o G20 e a UE ainda não foram dissolvidas, mas estas três estruturas estão já mortas. Poderiam seguir-se o Banco Mundial e as Nações Unidas.
Regressemos a estes acontecimentos, que se desenrolaram tão depressa, que quase nenhum de nós os seguiu e compreendeu as consequências.
Quarta-feira 12 de Fevereiro
As principais potências europeias (ou seja, a Alemanha, a Espanha, a França, a Itália, a Polónia, o Reino Unido e a União Europeia), que temiam aquilo que a Administração Trump poderia decidir, reuniram-se em Paris, em 12 de Fevereiro, para elaborar uma posição comum sobre o conflito ucraniano. No caso, elas acordaram prosseguir aquilo que fazem desde há três anos : • negar ter violado os compromissos assumidos aquando da reunificação alemã de não estender a OTAN-NATO para Leste, • negar que a Ucrânia está nas mãos dos « nacionalistas integralistas » (quer dizer, do partido dos colaboracionistas dos nazis) • e prosseguir a Segunda Guerra mundial, já não contra os nazis, mas agora contra os Russos.
Enquanto isso, em Kiev, o Secretário do Tesouro, Scott Bessent, apresentava a factura da ajuda dos EUA : US $ 500 mil milhões (bilhões-br) de dólares e propunha resolvê-la explorando as terras raras de que o país se orgulhava. Já expliquei que esta proposta não passava de uma história da carochinha : a Ucrânia a fingir falsamente oferecer, a prazo, aos Ocidentais a exploração dessas riquezas que não existem. No entanto, de um ponto de vista Europeu, aquilo que se tramava era assustador : se os Estados Unidos se apoderassem destas supostas riquezas, eles excluíam os Europeus de aproveitarem a partilha que haviam acordado. Ora, sem revelar aos seus concidadãos, eles tinham divido a Ucrânia quanto à sua reconstrução : para os Britânicos, os portos, para os Alemães, as minas etc. Já tinham procedido do mesmo modo durante as invasões do Iraque e da Líbia e durante a guerra contra a Síria.
Mas, acima de tudo, enquanto Washington e Moscovo trocavam prisioneiros, os Presidentes norte-americano, Donald Trump, e russo, Vladimir Putin, falavam por telefone, durante uma hora e meia. Esta cimeira havia sido precedida por uma conversa, no Kremlin, entre o Presidente Putin e Steve Wilkoff, o enviado especial do Presidente Trump, que veio organizar a troca de prisioneiros. Wilkoff entregou ao seu Presidente um balanço da sua missão que deitava abaixo tudo aquilo que a OTAN alegava saber sobre a Ucrânia. Os dois chefes tinham agora as mesmas informações. A linha directa entre a Casa Branca e o Kremlin acabava de ser restabelecida.
Quinta-feira 14 de Fevereiro
Em 14 de Fevereiro, o Vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, dirigiu-se à nata diplomática e militar da UE na Conferência de Segurança em Munique. Lançou uma diatribe contra o autismo dos líderes europeus : eles recusam-se a responder às preocupações dos seus cidadãos em matéria de liberdade de expressão e de imigração. Ora, se têm medo dos seus povos, os Estados Unidos nada poderão fazer por eles, afirmou, levando às lágrimas o presidente da Conferência, o embaixador Christoph Heusgen.
Segunda-feira 17 de Fevereiro
Uma segunda reunião teve lugar, em 17 de Fevereiro, em Paris, com os mesmos participantes mais Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, e Mark Rutte, Secretário-Geral da OTAN. Eles acordaram em fazer frente a Donald Trump e não aceitar a mudança da política ocidental face à Rússia.
Olaf Scholz, Chanceler alemão demissionário, declarou a seguir à reunião : «Não deve haver divisão na segurança e na responsabilidade entre a Europa e os Estados Unidos. A OTAN assenta no base de que nós agimos sempre juntos e que nós partilhamos os riscos […]. Isso não deve ser posto em questão ».
Donald Tusk, o Primeiro-Ministro polaco, declarou : « Pouco importa aquilo que cada um possa dizer, mesmo que por vezes em linguagem rude […], não há nenhuma razão para que os Aliados não encontrem uma linguagem comum entre si sobre as questões mais importantes. [É] do interesse da Europa e dos Estados Unidos cooperar o mais estreitamente possível ».
Ainda em 17 de Fevereiro, o Exército ucraniano atacou os interesses norte-americanos, israelitas e italianos na Rússia. Ele bombardeou instalações parcialmente detidas pela Chevron (15%), ExxonMobil (7,5%) e Eni (2%). Uma vintena de drones causaram graves danos ao Caspian Pipeline Consortium (CPC), que, nomeadamente, abastece Israel com petróleo russo. Os Europeus reagiram tanto a esta operação como quando a CIA sabotou o gasoduto Nord Stream (26 de Setembro de 2022), portanto propriedade não só da russa Gazprom russa (50%), mas também das alemãs BASF/Wintershall e Uniper, da francesa Engie, da austríaca OMV e da britânica Royal Dutch Shell. Esta sabotagem atirou a Alemanha para uma recessão económica, que não deixa de alastrar para o resto da UE, sem falar do aumento dos preços da energia para todas as famílias da UE. Nos dois casos (a sabotagem do Nord Stream e o ataque do CPC), os Europeus não foram capazes de defender seus interesses. Eles deixaram, continuamente, o seu principal aliado prejudicá-los, e depois os seus aliados baterem-se um contra o outro.
Terça-feira 18 de Fevereiro
As potências europeias ficaram a saber com espanto que, desde o seu primeiro encontro em Riade (Arábia Saudita), em 18 de Fevereiro, as delegações norte-americana e russa concordaram : – desnazificar e neutralizar a Ucrânia, – respeitar os compromissos subscritos aquando da reunificação alemã e retirar as tropas da OTAN de todos os países que aderiram à Aliança Atlântica depois de 1990.
O Presidente Trump abandonara de repente o plano do General Keith Kellog, seu enviado especial para a Ucrânia, tal como havia sido publicado pela America First Foundation, em Abril de 2024. Pelo contrário, ele tinha utilizado o plano do seu amigo Steve Witkoff, enviado especial para o Médio-Oriente, que se havia reunido com Vladimir Putin em Moscovo, graças à intermediação do Príncipe herdeiro saudita, Mohamed Bin Salmane (dito «MBS»), e daí a escolha de Riade para estas negociações. Kellog pensava com as ideias da OTAN, enquanto Witkoff ouviu, percebeu e verificou o bom fundamento da posição russa.
As potências europeias puderam verificar rapidamente que a ordem de retirada havia sido transmitida a certas tropas dos EUA, nos países Bálticos e na Polónia. A arquitectura de segurança na Europa, ou seja, o sistema que garantia a paz fora destruído. Claro, não há nenhuma ameaça imediata de invasão, russa ou chinesa, mas, a prazo, e tendo em conta o tempo que exige um rearmamento, todos devem, imediatamente, se preparar para o melhor ou para o pior.
Quarta-feira 19 de Fevereiro
Os embaixadores dos Estados membros junto da UE aprovaram, em 19 de Fevereiro, o 16º pacote de medidas coercivas unilaterais (abusivamente qualificadas de «sanções» pela propaganda atlântica) contra a Rússia. Ele devia ter sido oficialmente aprovado, em 24 de Fevereiro, pelo Conselho dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores-br), por ocasião do terceiro aniversário da “operação militar especial” russa na Ucrânia. Além disso, a UE decidiu desconectar 13 bancos do sistema SWIFT e proibir transações a três instituições financeiras. E mais, 73 navios russos da «frota fantasma» foram sancionados e 11 portos e aeroportos russos contornando o tecto do preço do petróleo foram alvo da proibição de transações. Por fim, 8 médias russos viram também a sua licença de difusão na UE suspensa.
Enquanto isso, no mesmo dia, 19 de Fevereiro, o Presidente Donald Trump deixara explodir a sua cólera contra o seu homólogo não-eleito ucraniano, qualificando-o de «comediante de sucesso modesto» e «ditador sem eleições», depois acusando-o de ter provocado a guerra. Por seu lado, o General Kellogg, enviado especial da Casa Branca a Kiev, cancelava a sua conferência de imprensa com Volodymyr Zelensky.
A Administração Trump rompera com o governo de Kiev que a Administração Biden havia incensado sem parar.
Quinta-feira 20 de Fevereiro
O Senador libertário Mike Lee (Utah) apresentou, em 20 de Fevereiro, uma proposta de lei ao Senado sobre a retirada completa dos Estados Unidos da Organização das Nações Unidas. O deputado Chip Roy (Texas) apresentou o mesmo texto à Câmara dos Representantes, no dia seguinte.
Se o Presidente Donald Trump é um «jacksoniano» (ou seja, um discípulo de Andrew Jackson —7º Presidente dos EUA, que queria substituir a guerra pelos negócios), Washington está agora virada para «o excepcionalismo americano». Trata-se de uma teologia política segundo a qual os Estados Unidos são uma nação eleita que devem levar a luz, que eles receberam, ao resto do mundo. Por isso, não têm que negociar seja o que for com os outros e sobretudo não tem que lhes dar explicações.
« O excepcionalismo americano» não deve ser confundido com « o isolacionismo» o qual levouo Senado, em 1920, a recusar aderir à Sociedade das Nações (SDN). Essa organização, ao contrário da ONU que lhe sucedeu, havia previsto uma solidariedade militar entre os Estados que reconheciam o Direito Internacional. Por conseguinte, os Estados Unidos deveriam possuir tropas para manter a paz na Europa e os Europeus deveriam poder intervir na América Latina (o quintal de Washington segundo a « Doutrina Monroe ») para aí manter a paz.
Sábado 22 de Fevereiro
Sem esperar, o Presidente polaco, Andrzej Duda, dirigiu-se sem convite a Washington, em 22 de Fevereiro. Conseguiu estar com o Presidente Donald Trump durante dez minutos, não na Casa Branca, mas à margem da Conferência de Acção Política Conservadora (CPAC). Ele pediu-lhe para não retirar as tropas dos EUA do seu país, pelo tempo suficiente para a Polónia terminar a sua reestruturação militar. Como Varsóvia já desencadeara uma profunda revolução interna, restabelecendo o serviço militar geral e formando um Exército muito numeroso, ele conseguiu levá-lo, não a anular, mas a adiar a sua ordem.
Andrzej Duda é o Presidente polaco, pelo menos até às eleições de Maio. Constitucionalmente, não é ele que exerce o Poder executivo, mas, ele não deixa de ser o Chefe das Forças Armadas. O seu Primeiro-Ministro, Donald Tusk, comprometera-se, em Paris, a não negociar separadamente com os Estados Unidos.
Portanto, diga-se o que se disser, a frente unida dos Europeus foi quebrada. Ela não durou mais do que dez dias.
Segunda-feira 24 de Fevereiro
Pelo terceiro aniversário da “operação militar especial” russa na Ucrânia, em 24 de fevereiro, Roberta Metsola, Presidente do Parlamento Europeu, António Costa, Presidente do Conselho Europeu e Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, publicaram uma declaração conjunta totalmente desequilibrada. Nela, eles pronunciavam-se por «uma paz completa, justa e duradoura, baseada na fórmula de paz ucraniana », quer dizer, agarravam-se à antiga narrativa : não há nazis na Ucrânia e a Rússia é o agressor. Ao fazer isso,eles contradiziam não apenas os factos, mas também as recentes declarações de seu suserano económico e militar, os Estados Unidos.
No mesmo dia, o Presidente francês, Emmanuel Macron, dirigiu-se a Washington, em nome de todos os Europeus atlântistas. Antes de o receber, o Presidente Donald Trump fê-lo encaminhar, pela sua chefe de gabinete, para uma ala da Casa Branca a fim de participar numa vídeo-conferência do G7 que ele presidia ... a partir de uma outra sala.
Durante duas horas, os Chefes de Estado e de Governo do G7, mais o Primeiro-Ministro espanhol e o Presidente não-eleito ucraniano, tentaram em vão fazer flectir o seu suserano. Este não vergou : o conflito ucraniano não foi lançado pela Rússia, antes unicamente pelos “nacionalistas integralistas” ucranianos, que se escondem por trás de Zelensky. De qualquer maneira, por princípio, não é possível defender pessoas que acabavam de atacar os interesses norte-americanos, mesmo que localizados na Rússia. Para deixar claro, Donald Trump recusou assinar o comunicado final preparado pelos Europeus e anunciou-lhes que, se esse texto fosse publicado (ele já havia sido distribuído sob embargo a jornalistas), ele desmenti-lo-ia e o seu país deixaria o G7.
Foi só após esta escaramuça que ele recebeu o Presidente Emmanuel Macron. Este escolheu não o afrontar, antes celebrar a amizade transatlântica. Durante a conferência de imprensa conjunta, interrompeu o seu anfitrião quando este repetiu que a Ucrânia, e não a Rússia, havia provocado a guerra, mas, definitivamente, ele não ousou contradizê-lo.
Enquanto isso, em Nova Iorque, a Assembleia Geral da ONU debatia uma Resolução proposta pela Ucrânia. Esta denunciava «a invasão total da Ucrânia pela Federação da Rússia» e exigia que ela retirasse «imediata, completamente e sem condições todas as suas forças militares do território ucraniano, no interior das fronteiras internacionalmente reconhecidas do país, e que cessassem imediatamente as hostilidades levadas a cabo pela Federação da Rússia contra a Ucrânia, em particular todos os ataques contra civis e os bens de carácter civil».
Pela primeira vez na história desde a Segunda Guerra Mundial, a delegação norte-americana votou contra um texto, junto com a da Rússia, contra as do Canadá, dos Europeus e do Japão que o aprovaram.
Depois, os próprios Estados Unidos apresentaram uma segunda Resolução a fim de que fosse «posto fim ao conflito no mais breve prazo». Este texto visava alinhar a Assembleia Geral com a posição dos negociadores norte-americanos em Riade. Mas a Rússia votou contra porque o texto «intercede por uma paz duradoura entre a Ucrânia e a Federação da Rússia» e não por uma «paz duradoura no interior da Ucrânia». De repente,os Estados Unidos, considerando que haviam redigido mal a sua proposta, abstiveram-se no seu próprio texto, enquanto o Canadá, os Europeus e o Japão o condenavam.
Terça-feira 25 de Fevereiro
Kaja Kallas, Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, foi a Washington a fim de se encontrar com o Secretário de Estado, Marco Rubio. A reunião, anunciada desde longa data, foi anulada no último minuto pelo secretariado de Rubio, oficialmente por razões de agenda sobrecarregada. Kallas fez saber que, em substituição, ela se encontraria com « senadores e (...) (...) membros do Congresso para discutir a guerra da Rússia contra a Ucrânia e as relações transatlânticas ». Depois dos membros da UE terem votado contra os Estados Unidos na ONU, o Secretário de Estado recusava agora reunir-se com o seu homólogo europeu.
Quarta-Feira 26 de Fevereiro
Durante uma conferência de imprensa em Kiev, Volodymyr Zelensky garante, em 26 de Fevereiro, que sem garantias de segurança dos Estados Unidos e da OTAN, qualquer acordo de paz será injusto e que não haverá verdadeiro cessar-fogo.
Quinta-Feira 27 de Fevereiro
Antes de deixar Washington, Kaja Kallas, Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, deu uma conferência no Hudson Institut, em 27 de Fevereiro. Aí, ela declarou : « É preciso fazer pressão sobre a Rússia para que ela queira também a paz. Ela está numa posição em que não quer a paz ».
Keir Starmer, Primeiro-Ministro britânico, esse, dirigiu-se à Casa Branca levando um convite do Rei Carlos III para uma segunda visita de Estado ao Reino Unido. Os diplomatas de Sua Majestade acreditam que o Presidente Trump apreciara muito a primeira e que, dado a sua vaidade, ele seria sensível aos faustos da Coroa.
Durante a conferência de imprensa dos dois dirigentes, o Presidente Trump alegou não se lembrar de ter qualificado Volodymyr Zelensky de « ditador » («Eu disse isso? Não consigo acreditar que o tenha dito !»). Além disso, ele mostrou-se aberto à ideia que o aumento das taxas aduaneiras de 25% não envolvia o Reino Unido e à devolução por Londres das Ilhas Chagos (incluindo a base de Diego Garcia) às Maurícias.
Neste cenário,Keir Starmer conseguiu renovar a «relação especial» do seu país com os Estados Unidos.Essa inclui o sistema de intercepção e de espionagem global dos «Cinco Olhos» e a delegação da Força de “golpe estratégico” (lembremos que a bomba atómica britânica não poderá funcionar sem o apoio dos cientistas militares norte-americanos).
Enquanto isso, os negociadores norte-americanos e russos reuniram-se durante seis horas e meia no Consulado Geral dos Estados Unidos em Istambul para uma segunda volta de negociações, a « nível técnico ». Não se tratava de avançar a fundo, mas de regular problemas que haviam sido abordados pelos ministros em Riade. A saber, as condições de funcionamento das embaixadas respectivas em Washington e em Moscovo, que o Presidente Joe Biden havia consideravelmente apertado e às quais Moscovo respondera de forma idêntica.
Sexta-feira 28 de Fevereiro
O Presidente ucraniano não-eleito, Volodymyr Zelensky, foi à Casa Branca, em 28 de Fevereiro. O Presidente Trump e o Vice-presidente Vance receberam-no, não para escutar a sua versão dos factos, mas para assinar um acordo sobre as “terras raras” que a Ucrânia afirma ter. É claro, não pôde ser, uma vez que elas não existem, mas foi um meio para a Administração Trump mostrar a este que já não se sabe se ela o considera como um «democrata» ou um «ditador» e que ele já não tinha mais nenhum trunfo nas mãos.
O brífingue de imprensa da recepção permanecerá gravado nas memórias. A imprensa ocidental ficou chocada pela barracada entre o Presidente Trump e o seu convidado. Aqui, deve-se ter cuidado com as imagens : elas não mostram a mesma coisa se nos resumirmos a um extracto escolhido ou se escutarmos a reunião inteira. Num extracto, apenas se fixa os argumentos enunciados, enquanto na totalidade se percebe porque é que eles são enunciados.
Durante os cinquenta minutos deste brífingue, o Presidente Donald Trump não cessou de lembrar que ele não estava alinhado com nenhuma das duas partes, russa ou ucraniana, mas que negociava com a Rússia para defender o interesse do seu país e, definitivamente, por toda a Humanidade. Como Presidente dos Estados Unidos, fala com todos, preocupa-se em não ofender ninguém e tenta reconhecer os pontos positivos de cada um. Pelo contrário, Volodymyr Zelensky não parou de acusar a Rússia de agressão, desde 2014, de mortes, de sequestros e de torturas. Chegou mesmo a afirmar que o Presidente Vladimir Putin havia violado 15 vezes a sua própria assinatura.
Contrariamente ao que viu a imprensa ocidental, este resumo de imprensa não se focou na ajuda militar, nem nas terras raras e ainda menos na partilha de territórios. Ele degenerou quando oVice-presidente Vance observou que a narrativa do seu hóspede era « a da propaganda », depois voltou à carga declarando a propósito das duas versões dos factos : « Nós sabemos que você está errado! ». Por fim, o Presidente Trump salientou que a Ucrânia estava em mau estado e que o seu convidado, não apenas não se mostrava agradecido pelo apoio dos EUA, mas não queria o cessar-fogo. Exasperado, observou que Vladimir Putin jamais havia violado a sua assinatura, nem com Barack Obama, nem com ele, mas apenas com Joe Biden por causa daquilo que este último lhe tinha feito. Então lembrou as repetidas acusações mentirosas lançadas contra a Rússia pelo Presidente Biden.
Domingo 2 de Março
Keir Starmer, Primeiro-Ministro britânico, declarou : A Europa está «na encruzilhada da história», ao acolher em Downing Street os dirigentes da Ucrânia, da França, da Alemanha, da Dinamarca, da Itália, dos Países Baixos, da Noruega, da Polónia, da Espanha, do Canadá, da Finlândia, da Suécia, da Checa e da Roménia, bem como o Ministro turco dos Negócios Estrangeiros, o Secretário Geral da OTAN e os Presidentes da Comissão Europeia e do Conselho Europeu.
O Reino Unido e a França competem para substituir os Estados Unidos e garantir a paz no continente europeu. Os dois países estariam prontos a garantir a segurança dos outros graças às suas armas nucleares. No entanto, ninguém pensa seriamente que essas chegariam para garantir a paz na ausência de forças convencionais a sério, das quais nem Londres, nem Paris dispõem. Quanto muito Varsóvia começou, há já mais de dois anos, a reorganização das suas Forças Armadas e a generalização do serviço militar dos jovens, mas ainda não dispõe de armas em quantidade.
No seguimento da reunião, que visava criar uma «coligação de voluntários», Keir Starmer declarou em nome de todos os participantes : «Hoje, acolhi em Londres homólogos de toda a Europa, incluindo a Turquia, bem como o Secretário-Geral da OTAN e os Presidentes da Comissão Europeia, do Conselho da UE e do Canadá, para debater o nosso apoio à Ucrânia. Juntos, reafirmamos a nossa determinação de trabalhar em favor de uma paz permanente na Ucrânia, em conjunção com os Estados Unidos. A segurança da Europa é antes de mais nossa responsabilidade. Nós vamos consagrar-nos a esta tarefa histórica e iremos aumentar os nossos investimentos na nossa própria defesa. Não devemos repetir erros do passado quando acordos fracos permitiram ao Presidente Putin invadir de novo. Iremos trabalhar com o Presidente Trump para garantir uma paz forte, justa e duradoura que garanta a soberania e a segurança futuras da Ucrânia. A Ucrânia deve estar à altura de se defender contra futuros ataques russos. Não deve haver conversações sobre a Ucrânia sem a Ucrânia. Concordamos que o Reino Unido, a França e outros trabalharão com a Ucrânia num plano visando pôr um termo aos combates, o qual discutiremos mais à frente com os Estados Unidos e que avançaremos juntos (...) Além disso, muitos de nós declararam-se prontos a contribuir para a segurança da Ucrânia, inclusive através de uma força composta por parceiros europeus e outros, e intensificaremos o nosso planeamento. Iremos continuar a trabalhar em estreita colaboração para fazer avançar as próxima etapas e tomar decisões nas próximas semanas ».
Os participantes nesta reunião não evoluiram absolutamente nada quanto às suas análises do conflito ucraniano. Permanecem surdos aos Estados Unidos e, por isso, já não os compreendem.Eles conseguiram se unir não para colocar uma força de estabilização de paz na Ucrânia, mas para proteger as infraestruturas críticas no Oeste da Ucrânia, ou em domínios estratégicos similares. Eles acordaram em não realizar esforços nacionais fragmentados, mas em tirar partido do poder económico da União Europeia (UE), redirecionando os seus fundos de recuperação.Eles convocaram, pois, um Conselho Europeu Especial, em 6 de Março. Ora, para transformar a UE de um mercado comum numa aliança militar, precisarão de conseguir não uma maioria, mas a unanimidade dos 27 Estados membros, Hungria e Eslováquia incluídas.
Ora, desde logo, Viktor Orbán, Primeiro-Ministro húngaro, respondeu ao projecto de declaração final do Conselho Europeu, sublinhando que há «diferenças estratégicas» entre os Estados da UE. Ele pugnou pois que não houvesse conclusões escritas, porque « qualquer tentativa de lá chegar projectaria a imagem de uma União Europeia dividida ».
DONALD Trump’s foreign policy has left commentators in a real tizzy. His markedly differing positions with regard to Ukraine and Gaza, in the first case apparently pursuing peace, and in the second asking for ethnic cleansing of an entire population, have left them wondering whether his influence on world affairs is a “positive” one or not. The reason for such bemusement however lies not in anything that Trump has done, but in not cognizing the phenomenon ofimperialism.There can be little doubt that western imperialism led by the US had pushed itself into a corner, where the choice was between either a disastrous escalation of the war in Ukraine even to the point of a nuclear confrontation, or a gradual erosion of imperialist hegemony. Donald Trump is attempting to extricate imperialism from such an impossibly tricky corner. The point is not whether he is “for peace” or “for war” or whether he is mindful of European interests or not; the point is that he is pursuing an alternative imperialist strategy that would rescue imperialism from thiscul-de-sac, and he is in a position to do so because he is untainted by the earlier policy that created thiscul-de-sacin the first place.
His method for re-asserting imperialist hegemony that was getting gradually eroded is a combination of carrot and stick. The basic assumption that underlay the provocation that produced the Ukraine war, namely that Russia can be made to surrender to western dictates as a result of it, has been proven false. Not only is it the case that Ukraine has been steadily losing ground during the war, but the economic sanctions against Russia that were supposed to “reduce the rouble to rubble” were totally counter-productive; the rouble, after a brief temporary fall, recovered to a level vis-à-vis the dollar that was even higher than before the sanctions, and, what is more, these sanctions produced a reaction where a challenge to the hegemony of the dollar came onto the agenda.
The Kazan summit of the BRICS countries posed “de-dollarisation” as a serious possibility. Unilateral imperialist sanctions, as long as they are directed against a few small countries can be quite effective; but when they target a large number of countries and that too countries as large, as developed, and as resource-rich, as Russia, they not only lose their effectiveness as sanctions, but encourage the formation of a bloc of countries arrayed against the entire dominant imperial arrangement that passes as the international economic order, and this alternative tends to draw into its fold even non-sanctioned countries.
This is exactly what has been happening and what Trump faced when he came to office. The stick part of his carrot-and-stick method is well-known. He threatened to impose heavy tariffs against countries that went in for de-dollarisation, which is a blatant imperialist act and against all rules of the capitalist game; after all any country according to these rules has the freedom to trade in any currency it likes provided its trading partner is willing, and also to hold its wealth in any currency that it fancies. To curtail that freedom by imposing high tariffs against such a country is blatant arm-twisting that no international order can explicitly endorse; but Trump as an open and unrelenting imperialist had no qualms about exercising such economic coercion quite explicitly.
His attempt to bring about an end to the Ukraine war is the carrot in this carrot-and-stick method. Instead of an alternative power bloc being formed against the US and against western imperialism in general, an end to this war on terms that are not unfavourable to Russia will keep Russia out of any such alternative bloc. It will thereby undermine the on-going attempts at challenging imperialist hegemony.
Of course any end to the Ukraine war based on negotiations should be welcomed by all, but seeing this end as the outcome of a desire forpeace, or as the pursuit of US interests at the expense of European “security concerns”, is wholly erroneous. Trump is not on a peace mission, otherwise he would not have made the utterly belligerent remarks about Gaza; indeed capitalism is by its very nature against peace: as the French socialist Jean Jaures had famously remarked “Capitalism carries war within it, just like clouds carry rain”. It is a desire to put imperialist hegemony on a better footing that motivates Trump not a desire for peace. Likewise the question of European security is a complete red herring: European security was never threatened by Russia, and all talk of a threat of “Russian imperialism” overrunning Europe was just an excuse to justify NATO expansionism. So, there is no question of European security being undermined by Trump’s peace move.
Trump’s difference from the European ruling cliques arises on account of two different alternative strategies that imperialism can pursue at present. One is the old Biden strategy of aggression against Russia that had run into acul-de-sac; and the other is an alternative strategy of ending the Ukraine war and weaning Russia away from an oppositional bloc against the hegemony of western imperialism. European rulers are wedded to the former while Trump is attempting the latter. One has to see the opposition of the neo-Nazi AfD in Germany to the Ukraine war in exactly the same terms: its extreme aggressiveness vis-à-vis Palestine in contrast to its desire for an end to the Ukraine war, is symptomatic neither of any general desire for peace nor of an unconcern for “European security”, but of a certain strategic position.
Of course Trump’s project of extricating imperialism from the corner to which it has been driven, is simultaneously a project of assertion of US hegemony over the imperialist bloc as a whole. His slogan “Make America Great Again” is a project of recreating a world unquestioningly dominated by western imperialism with the US as its unquestioned leader. It is a continuation in this sense of the strategy of making Europe dependent upon American energy sources that had been represented by the blowing up of Nord Stream II gas pipeline from Russia to Europe, allegedly by the US “Deep State”.
There is however a major contradiction in Trump’s strategy. There is a price to be paid for “leadership” of the capitalist world; and Trump wants a “leadership” role for the US without paying this price. The price is the following: the “leader” must tolerate trade deficits vis-à-vis other major capitalist powers in order to accommodate their ambitions and prevent the capitalist world as a whole from sinking into a crisis. This is what Britain had done during the years of its “leadership” and this is what the US has been doing in the more recent period. Britain’s running a trade deficit vis-à-vis Continental Europe and the US who were the other major powers at that time did not hurt it because it balanced this deficit, among other things, by claiming a surplus of invisible earnings vis-à-vis its colonial empire, the bulk of which was a cooked up surplus against which it extracted a “drain” from these colonies of conquest, with which it settled its deficit with other major capitalist powers.
Post-war US however has not been in a similar “fortunate” position; its running a trade deficit vis-à-vis other major powers has made it sink deeper and deeper into debt. Its attempt to avoid getting even deeper into debt, which is a part of Trump’s “Make America Great Again” project and for which he is in the process of imposing tariffs against all its trading partners,in a situation where the overall demand in the capitalist world economy is not expanding because of the pressure from globalised finance capital to shun fiscal deficits and taxation of the rich for enlarging government expenditure everywhere,will only accentuate the world capitalist crisis, with a particularly heavy burden falling on the non-US capitalist world.
The Trump strategy for the revival of imperialism therefore amounts to having one’s cake and eating it too. His attempt to assert US leadership while seeking to impose tariffs on others amounts to a “beggar-thy-neighbour” policy vis-à-vis the rest of the world. Such a “beggar-thy-neighbour” policy, which amounts to ensuring growth for oneself by snatching markets from others, is fundamentally inimical to the project of reasserting imperialist hegemony. If Biden had pushed imperialism into one corner, Trump’s extrication of it from that corner will only lead to its being pushed into another corner.