sexta-feira, 17 de novembro de 2023

O Islão e o Marxismo

 


    Leila Ghanem [*]


Por que razão estamos hoje a debater este tema?

Porque o problema é muito atual e premente. Foi trazido à ribalta pelos
nossos inimigos de classe, que desde 2003 têm trabalhado com todo o seu
arsenal para manipular as sociedades do Médio Oriente, utilizando a
questão religiosa como aríete. No entanto, na minha opinião, o conceito
islâmico como ideologia de luta contra o poder central esteve sempre
latente nas sociedades islâmicas, mas ligou-se ao socialismo no final
dos anos 70, com a ascensão do movimento de libertação nacional nos
"3As" da Ásia, América Latina e África, culminando em Bandung com a
predominância do "discurso socialista".

Sucedeu-lhe uma nova fase a que chamarei (inspirado na caverna de Ali
Babá nas /Mil e Uma Noites/) "abre-te Sésamo". Por esta altura, a
"abertura económica" do mercado havia minado o sector público, a
indústria pesada e a soberania alimentar, derrotando a reforma
agrária... para entrar no ciclo infernal de McNamara do duo
dívida-pobreza. Neste preciso momento, começou o regresso pós-moderno ao
domínio do "discurso religioso".

O facto de hoje em dia os EUA e Israel designarem a resistência
libertada como "resistência religiosa" é um sinal do regresso
pós-moderno ao "discurso religioso". O facto de os EUA e Israel
designarem hoje a resistência libanesa, neste caso o Hezbollah, como um
inimigo estratégico a derrubar em primeiro lugar, e de o essencial da
sua política externa se dirigir contra o eixo Síria-Irão-resistência
libanesa, mostra que nós, marxistas, estamos atrasados na análise dos
problemas do mundo, estamos atrasados na análise dos atuais movimentos
de resistência que lutam com armas no Líbano, na Palestina, no Iraque e
no Iémen, contra o imperialismo americano em primeiro lugar, contra os
seus lacaios e contra o Estado colonial do apartheid israelita e as
monarquias petrolíferas do Golfo.

Citarei brevemente o exemplo do Hezbollah, que é a vanguarda destes
movimentos de resistência.

A questão que se coloca aos marxistas é a de saber como avaliar estes
movimentos de resistência anti-imperialistas e que atitude devemos
adotar com base nessa análise.

Notemos aqui que não se trata apenas de analisar as teologias islâmicas
da libertação, mas também de avaliar experiências que até agora têm
permanecido à margem dos nossos debates, mesmo no seio da esquerda
árabe, o que tem provocado atitudes de perplexidade sobre o assunto,
decorrentes em parte da influência das ideias anti-religiosas do
iluminismo no domínio dos intelectuais de esquerda.

O marxismo e a dimensão cultural

Partimos da premissa de que o marxismo não tratou da dimensão cultural
por razões que exigem uma análise separada das correntes de pensamento
da época e da dinâmica do movimento social; mas nem Marx (contrariamente
a uma leitura dogmática da sua obra) nem os marxistas anti-dogmáticos
defendem que as ideias, as religiões e as crenças não têm influência no
curso da história.

Maxime Rodinson, 1970.

Esta é uma das teses fundamentais defendidas por Maxime Rodinson
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Maxime_Rodinson> [NR] <#asterisco>, que
reivindica uma filiação marxista ao Islão, referindo-se a Karl Marx que
proclamou num texto famoso que "Não é a consciência dos homens que
determina o seu ser; é, pelo contrário, o seu ser social que determina a
sua consciência". (Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia
Política, Editions sociales, Paris, 1947). Por outras palavras, são as
condições materiais em que os seres humanos vivem e produzem que
determinam a sua forma de pensar (e de agir). Rodinson salienta que
"aqueles que discutem se o Islão foi favorável ou desfavorável ao
capitalismo partilham 'o mesmo pressuposto implícito', 'que os homens de
uma época e de uma região, que as sociedades obedecem estritamente a uma
doutrina prévia, constituída fora delas, seguem os seus preceitos,
impregnam o seu espírito, sem uma transformação essencial, sem o
adaptarem às suas condições de vida e às formas de pensamento
implicitamente sugeridas por elas'". (Maxim Rodinson: Islam and
Capitalism; ed.2014 . university press ;)

Rodinson analisa em pormenor não só a relação entre o Islão e o
capitalismo, mas também entre o socialismo e o Islão.

O carácter anticolonial é suficiente para analisar o impacto de certos
movimentos da teologia da libertação, incluindo os movimentos islâmicos
de resistência à obediência, na dinâmica da história e da luta de
classes, ou é necessário que estes últimos tenham um programa
socioeconómico favorável à distribuição da riqueza, como pretendem
muitos partidos comunistas?

A questão parece crucial hoje em dia, tendo em conta o quão distantes
parecem estar as perspectivas de uma revolução anticapitalista e que o
principal alvo do islamismo radical são os movimentos anticoloniais. Dou
aqui o exemplo da batalha assassina travada pelo Daesh, Al Nusra, os
waabitas, a Irmandade Muçulmana contra o Hezbollah e que ainda não
desapareceu. Por detrás de todos eles está o apoio financeiro e
logístico de uma aliança tripartida: o Ocidente imperialista, Israel e
as monarquias petrolíferas. Por outras palavras, será que a luta
anticolonial e anti-imperialista é independente da questão ideológica
que se insere na luta de classes? Esta é a essência do nosso debate aqui.

Aqueles que investigaram estas questões, especialmente os do terceiro
mundo, viram a necessidade de levantar uma outra questão já formulada no
século XIX pelo bolchevique tártaro Sultan Galiev
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Mirsaid_Sultan-Galiev>, à qual voltaremos
mais tarde. Esta questão é a seguinte:

*O marxismo era eurocêntrico?*

Em 1961, em /Os malditos da terra/, Frantz Fanon escreveu: "As análises
marxistas devem ser sempre ligeiramente distanciadas quando se aborda o
problema colonial".

Esta ideia é um excelente ponto de partida para reexaminar a
problemática pós-colonial no contexto daquilo a que o historiador
indiano Dipesh Chakrabarty chamou a "provincialização da Europa". Há,
por um lado, uma conceção segundo a qual a provincialização é sinónimo
de particularização, e portanto de relativização, do "pensamento europeu
eurocêntrico", e em particular do pensamento marxista.

Por outro lado, há uma concepção de "provincialização como
desanuviamento" que sublinha a necessidade de um alargamento e de uma
deslocação das fronteiras da teoria marxista para além da Europa como
condição de possibilidade de uma verdadeira universalização.

Por conseguinte, uma das questões a esclarecer é a da nacionalização do
marxismo, cuja identificação habitual com uma "simples" questão de
"adaptar o marxismo a condições singulares" não restitui a complexidade,
na medida em que, como Gramsci demonstrou, essa "nacionalização" envolve
processos reais de adaptação teórica e prática. O exemplo mais famoso
continua a ser o da "sinização do marxismo" empreendida por Mao Tse
Tung. De facto, como escreve Arif Dirlik – ele próprio um crítico
incansável dos estudos pós-coloniais –, "um dos maiores trunfos de Mao
como líder foi a sua capacidade de traduzir o marxismo para uma língua
chinesa".

*Sultan Galiev ou nacional-comunismo*

Sultan Galiev.

Neste quadro, analisando a trajetória do bolchevique tártaro Mirsaid
Sultan Galiev, é interessante referir uma experiência pouco conhecida: a
do "comunismo nacional muçulmano" tal como se desenvolveu na Rússia
soviética, e depois na URSS, de 1917 até ao final da década de 1920.

1 - Como o seu nome indica, trata-se de um comunismo muçulmano que
coloca, mais do que nunca, a questão da relação entre, por um lado, os
movimentos de emancipação europeus ou de "origem branca" e, por outro
lado, o Islão e os seus grupos constituintes, no que diz respeito às
suas reivindicações políticas;

2- Estamos perante um movimento de emancipação anti-imperialista que se
desenvolveu em ligação com um processo revolucionário no coração do
império (russo), situação histórica cujo precedente mais ilustre é o da
ligação entre as revoluções francesa e haitiana no final dos séculos
XVIII e XIX;

Nesta altura, Sultan Galiev lançou as bases teóricas e ideológicas do
comunismo nacional muçulmano, que podem ser divididas em três pontos:

  * O primeiro diz respeito às relações de classe e, correlativamente, à
    relação entre revolução social e revolução nacional. Reiterando a
    oposição leninista entre nações opressoras e oprimidas, apela à
    "vingança dos oprimidos contra os opressores" e declara que "todos
    os povos muçulmanos colonizados são povos proletários".
  * O segundo ponto diz respeito à relação entre a revolução socialista
    e o Islão. Se Sultan Galiev defende a ideia de que "como todas as
    outras religiões do mundo", o Islão está "condenado a desaparecer",
    sublinha, no entanto, que "de todas as "grandes religiões" do mundo,
    o Islão é a mais jovem, logo a mais sólida e a mais forte pela
    influência que exerce" e que a lei islâmica (a Sharia) apresenta
    prescrições verdadeiramente "positivas" e progressistas: "o carácter
    obrigatório da educação", "a obrigação de comercializar e
    trabalhar", "a ausência de propriedade privada da terra, da água e
    das florestas", etc. , – prescrições que, como sugere Sultan Galiev,
    sem o dizer explicitamente, poderiam ser incorporadas e estar na
    base de uma futura sociedade comunista.
  * Em terceiro lugar, para Galiev, a singularidade do Islão reside,
    além disso, no facto de que "durante o século passado, todo o mundo
    muçulmano foi explorado pelo imperialismo europeu ocidental". O
    Islão foi e continua a ser uma "religião oprimida e defensiva", uma
    opressão que gerou um profundo "sentimento de solidariedade",
    associado a um forte desejo de emancipação. Para Sultan Galiev, não
    há incompatibilidade entre a revolução socialista e o Islão: não se
    deve trabalhar para a destruição do Islão, mas sim para a sua
    desespiritualização, a sua "marxização".
  * A última abordagem diz respeito à exportação da revolução
    bolchevique ou, nas palavras do próprio Sultão Galiev, à canalização
    da "energia revolucionária" nascida na Rússia para além das suas
    fronteiras. Para o Sultão Galiev, o "foco revolucionário" europeu já
    se extinguiu, enquanto o Leste constitui "um material muito rico e
    muito 'inflamável'". Nesta perspetiva, a revolução anticolonial
    torna-se a condição de possibilidade da revolução europeia e
    mundial, e não o contrário: "Privado do Oriente e afastado da Índia,
    do Afeganistão, da Pérsia e de outras colónias asiáticas e
    africanas, o imperialismo ocidental perecerá e morrerá de morte
    natural".

*Lenine: os povos de Leste e a questão nacional*

Um cliché persistente afirma que, encurralado pelas derrotas da
revolução na Europa após 1917, Lenine se voltou para o Leste e abandonou
a ideia sagrada do "berço (europeu) da revolução mundial" por despeito.

Para Matthieu Renault, que se interessou muito por esta questão, esta
perceção não tem fundamento. Se é verdade que o pensamento de Lenine
sobre os limites da revolução manifestava uma afinidade singular com
aqueles que afirmam intransigentemente a necessidade de uma "revolução
colonial", ele apostava, de facto, nas nações oprimidas, nos camponeses
pobres, na rutura das relações coloniais, como condição de sinergia com
a revolução socialista.

O interesse de Lenine pelas lutas de libertação nacional remonta aos
seus primeiros escritos sobre o desenvolvimento do capitalismo na
Rússia, marcados, como ele muito bem assinalou L. R. James – e não é por
acaso que foi um teórico marxista não europeu (neste caso um caribenho)
que o salientou – pela imperativa e progressiva descentralização
revolucionária, de uma tradução do marxismo num contexto diferente do da
Europa Ocidental, sem lhe ser radicalmente estranho.

É o itinerário dessa descentralização que deve ser explorado através de
duas fontes: a primeira diz respeito às reflexões de Lenine, antes de
1917, sobre a questão da autodeterminação nacional e das lutas pela
independência, e a segunda, à forma como, depois de 1917, tentou
responder à exigência de descolonização do Império Russo com base no
caso das colónias muçulmanas da Ásia Central.

*As lutas de libertação nacional, ou a revolução impura*

Em julho de 1903, nas vésperas do Segundo Congresso do Partido Operário
Social-Democrata da Rússia (SDPWR), Lenine publicou um artigo no
/Iskra,/ "A Questão Nacional no Nosso Programa", que tratava da defesa
do direito à autodeterminação das nações, o direito à separação política
de um Estado, a não confundir com o (alegado) direito à autonomia
nacional-cultural dentro de um Estado, a que Lenine se opunha
veementemente. O "Direito das Nações à Autodeterminação" é uma crítica
poderosa ao eurocentrismo que rege a abordagem da questão nacional por
Rosa Luxemburgo e seus seguidores.

Para Lenine, "afirmar que o imperialismo exerce atualmente o seu domínio
sobre o mundo inteiro, transgredindo todas as fronteiras territoriais
estabelecidas" não deve conduzir a uma negação, mas antes a uma
insistência na urgência do problema das "fronteiras dos Estados
estabelecidos sobre a opressão nacional".

Se Lenine nunca põe em causa o papel de vanguarda do "proletariado
avançado", não nega, dialeticamente, que as guerras nacionais e
periféricas têm o poder de introduzir germes de contágio revolucionário
no próprio seio das potências imperialistas: "A dialética da história
faz com que as pequenas nações... desempenhem o papel de um dos
fermentos, de um dos bacilos, que favorece a entrada da força
verdadeiramente capaz de lutar contra o imperialismo, a saber: o
proletariado socialista".

*Lenine e os muçulmanos da Rússia*

Em 20 de novembro de 1917, no dia seguinte à tomada do poder pelos
bolcheviques, Lenine apelou a "todos os trabalhadores muçulmanos da
Rússia e do Leste" para que se juntassem a eles na revolução em curso:

    "Muçulmanos da Rússia, tártaros do Volga e da Crimeia, quirguizes e
    sártaros da Sibéria e do Turquestão, turcos e tártaros da
    Transcaucásia, chechenos e montanheses do Cáucaso! Todos vós, cujas
    mesquitas e casas de oração foram destruídas, cujas crenças e
    costumes foram espezinhados pelos czares e opressores da Rússia! A
    partir de agora, as vossas crenças e costumes, as vossas
    instituições nacionais e culturais são livres e invioláveis.
    Organizem a vossa vida nacional livremente e sem entraves! É um
    direito vosso. Saibam que os vossos direitos, como os de todos os
    povos da Rússia, são protegidos pelo poder da Revolução, pelos
    Sovietes de deputados operários, soldados e camponeses".

Se as relações entre o poder soviético e as populações muçulmanas do
império russo, durante e após a revolução, se revelaram muito mais
tumultuosas do que este apelo a uma união livre (revolucionária) sugere,
ele exprime o desejo profundo de Lenine de uma rutura radical com as
políticas de opressão das minorias nacionais e religiosas que tinham
marcado toda a história do czarismo. O símbolo inaugural deste desejo é
a restituição, ordenada por ele, do Corão de Othman, uma das mais
antigas cópias do texto sagrado, aos muçulmanos da Rússia.

Lenine desempenhou depois um papel importante nos processos mais ou
menos tempestuosos da criação das primeiras repúblicas soviéticas
muçulmanas, nomeadamente na crise de Bashkir de 1919-1920, mas
interessou-se particularmente pelo caso do Turquestão russo (Ásia
Central), conquistado na segunda metade do século XIX pelos exércitos
czaristas e sujeito a uma exploração colonial em sentido estrito. Aí se
observa o desenvolvimento de monoculturas (nomeadamente de algodão), a
divisão espacial entre as cidades e aldeias de nativos, por um lado, e
de colonos, por outro – cujo número aumentou consideravelmente após a
conclusão, em 1906, da construção da linha ferroviária que ligava
Moscovo a Tashkand – e ainda uma oposição frontal entre uns e outros –
os ocupantes russos, ucranianos, alemães (étnicos) e judeus, divididos
nacionalmente no resto da Rússia, aparecendo aqui sobretudo unidos, como
brancos contra muçulmanos. Lenine apercebeu-se progressivamente de que,
mais do que em qualquer outro lugar, era no Turquestão que o desafio da
descolonização do Império Russo devia ser enfrentado.

Em 22 de abril de 1918, Lenine e Estaline enviaram uma mensagem de
saudação "Ao Congresso dos Sovietes do Território do Turquestão em
Tashkand", assegurando-lhe o apoio do Conselho Geral.

Na opinião de Lenine, o processo revolucionário na Ásia Central deve
servir de modelo, de fonte de inspiração e de "importação", para os
movimentos de libertação nacional a nível internacional, especialmente
no Oriente muçulmano. É um laboratório da combinação indispensável da
revolução socialista e das lutas anti-coloniais. Não se trata apenas do
derrube do poder burguês existente, mas também da destruição final de
todos os vestígios do legado deixado pelas práticas colonialistas.

Estes são elementos teóricos que nos devem permitir analisar um
movimento de luta armada anti-colonial com obediência islâmica: o
Hezbollah, como anunciei no início.

*O Hezbollah, a última resistência armada *

O Hezbollah nasceu em 1982, após a ocupação israelense do Líbano. Os
seus membros são muçulmanos xiitas que povoam o sul do Líbano e o Bekaa,
que são as regiões do Líbano que fornecem a maioria absoluta da
mão-de-obra da indústria agrícola e do terceiro sector. Os xiitas
libaneses são predominantemente de origem proletária ou camponesa. A
revolução islâmica iraniana conduzida pelo Ayatollah Khomeini contra o
Xá do Irão, fantoche do imperialismo e membro da NATO, deveria
desempenhar um papel de trampolim para os militantes xiitas, até então
marginalizados e desorganizados.

Recorde-se que esta mesma população constituía a base dos militantes da
esquerda libanesa. Infelizmente, estes últimos não tinham um verdadeiro
programa de luta armada contra o ocupante. Em 1982, por ocasião da
invasão colonial israelense do Líbano e da partida forçada do braço
armado da resistência palestina dirigida por Yasser Arafat para a
Tunísia, exigida pelos Estados Unidos e por Israel, enquanto os
militantes da esquerda libanesa atiravam as suas armas para a rua a fim
de escapar às represálias, os militantes do Hezbollah pegavam nessas
armas para se prepararem para a luta.

O Hezbollah apresentou-se desde o início como um movimento de libertação
nacional e não como um partido religioso, embora o seu discurso se
inspire na história do movimento xiita, nomeadamente na revolta de
Hussein que se insurgiu contra o califa omíada com base em três grandes
orientações:

1. A posse da terra;
2. A gestão das finanças e a tributação do comércio;
3. A distribuição equitativa da riqueza.

O xiismo é contra a propriedade privada e a favor de uma gestão colegial
das finanças que permita uma distribuição equitativa da riqueza por
todos os muçulmanos, sem distinção de classes. Para os Omíadas, ceder
terras aos insurretos era ir contra o desenvolvimento da sociedade e do
comércio. Hussein e os seus homens foram horrivelmente massacrados em
Karbala, no Iraque, num confronto heroico, porque o equilíbrio de forças
não estava a seu favor no Iraque: desde esse acontecimento, a batalha de
Karbala entrou na mitologia de todos os xiitas. Quando Nassrallah
anuncia com firmeza nos seus discursos que "não baixaremos os braços
mesmo que todos os imperialistas se juntem contra nós", evoca no
espírito dos seus combatentes e da população que protege a resistência o
exemplo do mártir Hussein.

A carta fundadora do Hezbollah contém fragmentos das exigências de
al-Imam Hussein em matéria de justiça social e de proteção dos
"desfavorecidos". Mas o Hezbollah radicalizou-se no terreno, adaptando
os seus princípios às necessidades da época. O conceito religioso
tornou-se mais flexível (entre as cartas de 1985 e 2009). A última carta
reorienta os objetivos e a visão do Hezbollah para "o papel das mulheres
na sociedade, a independência do poder judicial, a defesa do
multicomunismo, a luta contra a corrupção, a descentralização e a
preservação de todas as liberdades públicas".

Atualmente, é praticamente o único movimento de resistência armada
anti-imperialista de grande envergadura à escala internacional, em
condições difíceis marcadas pela mobilização total dos serviços de
espionagem para desarmar esta resistência ou mesmo para lhe pôr fim.

Este movimento de resistência conseguiu reunir à sua volta organizações
marxistas, incluindo a FPLP, que colaboram estreitamente com ele. Para o
povo palestino, o Hezbollah é o verdadeiro portador da esperança da sua
libertação do jugo colonial. Os discursos de Nassrallah são seguidos nas
fileiras dos militantes do Hamas, da Jihad e do Fath.

O Hezbollah está consciente de que um movimento revolucionário não pode
limitar-se a um único país, daí a necessidade de atuar para enfrentar o
imperialismo em todas as frentes. É por isso que enviou tropas para
combater o exército mercenário do Daesh e da Al Nusra, treinado e
financiado pela CIA e pelas monarquias petrolíferas do Golfo.

Em 2006 e 2009, o Hezbollah organizou dois fóruns internacionais para
apelar à convergência de causas entre as lutas anticoloniais armadas no
Líbano, na Palestina e no Iraque, e a luta dos povos da América Latina
contra o capitalismo e a hegemonia dos EUA, as lutas contra o sistema
capitalista que designa na sua gíria como "fonte do mal"; estiveram
presentes mais de 400 delegações.

O Hezbollah não pôde reagir a tempo durante as grandes manifestações de
2019 por razões de segurança. O deputado manteve-se cético em relação a
uma mistura díspar de uma verdadeira revolta social e da presença ativa
de ONGs pagas por embaixadas, nomeadamente americanas, para afastar o
Hezbollah do governo: "Isto provocou um grande debate entre os apoiantes
da resistência.

A resistência está ativa no domínio social através de hospitais, escolas
e orfanatos. No início de 2006, de acordo com um relatório da IRIN
<https://en.wikipedia.org/wiki/The_New_Humanitarian> , o movimento
financiava 4 hospitais, 12 clínicas, 12 escolas, 2 centros de
equipamento agrícola, programas sociais e ambientais, prestando serviços
gratuitos ou a baixo custo a algumas das regiões mais desfavorecidas do
país. Uma das suas instituições Jihad al-binâ desempenhou um papel
importante na reconstrução do Sul de Beirute e dos bairros xiitas.


        16/Novembro/2023


      [NR] A edição francesa do /Mahomet,/ de Maxime Rodinson, pode ser
      descarregada em resistir.info/livros/livros.html
      <https://resistir.info/livros/livros.html>.   Em Portugal o livro
      foi editado pela Caminho
      <https://caminho.leya.com/pt/literatura/biografias-memorias/maome-ebook/>.


    [*] Antropóloga, dirigente comunista libanesa, Coordenadora do Fórum
    Social de Beirute e coordenadora de vários tribunais populares
    contra os crimes de guerra de Israel, Sabra e Chatila e contra a
    Monsanto no Iraque. Este artigo está incluído no livro /Marxismos y
    pensamiento crítico en el sur global/, coordenado por Néstor Kohan e
    Nayar López Castellanos e publicado pela Akal em 2023.

Em
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/moriente/islao_e_marxismo.html
17/11/2023

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Xadrez do renascimento, rumo à civilização do século 21, por Luís Nassif

 


 

O País com potencial para ser a grande civilização do século já existe,
à espera de ser convocado por um estadista, ou pelo Sr. Crise


Peça 1 – Lula, El Campeador

Assim como o mundo, o Brasil vive um fim de ciclo. São curiosos esses
momentos, e precedem o início de um novo ciclo, que pode levar à
restauração ou à destruição de um país.


O início de um novo ciclo sempre é caracterizado por um sentimento
nacional de reconstrução, que faz com que intelectuais deem publicidade
às suas idéias, gestores públicos tirem projetos das gavetas, a vontade
de reconstrução controla os interesses particulares, submete os poderes
a um objetivo maior, nacional. É como uma ordem unida impessoal, um
sentimento unificador que, em geral, aparece somente após grandes
desastres, quando baixa à terra o Sr. Crise e coloca juízo no país.

O Brasil pós-ditadura passou por esse processo no início do governo
Fernando Henrique Cardoso e no primeiro governo Lula. FHC desperdiçou
com a estratégia da teoria do choque, de abrir completamente a economia,
privatizar sem critério e desregulamentar todos os setores, sem
avaliação prévia. Plantou sementes de financeirização que cresceram nos
seus dois governos e nos dois governos de Lula, promovendo um desastre
similar ao do fim da ex-URSS.

Mesmo submetendo-se a essa financeirização, o governo Lula abriu espaço
para experiências de municipalismo e para políticas sociais que ganharam
reputação internacional. Mas não logrou articular um projeto de
desenvolvimento.

Nesse longo trajeto pós-ditadura, houve dois momentos em que parecia que
a maldição da financeirização seria rompida. O primeiro, no período
2008-2010, no qual o Sr. Crise obrigou Lula a romper com dogmas e se
consagrar mundialmente. O segundo, no curto período em que Dilma
trabalhou para redução da taxa Selic e dos spreads bancários – ousadia
que precipitou a campanha de descrédito contra seu governo.

As últimas eleições foram as mais relevantes da história. Nela, um Lula
quase octagenário sai da prisão e, tal e qual El Cid, o Campeador,
conduz as forças democráticas para a batalha decisiva contra a ultradireita.

Peça 2 – o fim de ciclo

O momento atual tem todos os ingredientes de um fim de ciclo, com a
manutenção de vários vícios do ciclo que se encerra e nenhuma
perspectiva sobre o ciclo que virá:

 1. Falta absoluta de uma ideia aglutinadora, uma utopia capaz de
    despertar corações e mentes. É como se o bolsonarismo fosse uma
    página superada – e não é – e se pudesse voltar impunemente às
    velhas práticas que chocaram o ovo da serpente. É resultado do
    período pós-impeachment, em que o objetivo único de políticas
    públicas era abrir possibilidades de negócios.
 2. Uma discussão econômica totalmente mediocrizada, polarizada em torno
    de temas insignificantes, presos à ideologização financeira mais
    tacanha, sem a menor capacidade de se alinhar com a revisão que está
    sendo feito mundialmente dos dogmas financistas..
 3. A incapacidade dos órgãos corregedores nacionais de disciplinar
    abusos de tribunais regionais e ministérios públicos estaduais. Há
    uma multiplicidade de pequenas ditaduras se implantando em
    municípios pelo Brasil afora, com pactos entre prefeitos filhotes de
    Bolsonaro e procuradores filhotes da Lava Jato.
 4. ncapacidade de desenvolver um conjunto mínimo de ideias que
    caracterize uma política de desenvolvimento.
 5. Incapacidade dos partidos políticos de desenvolverem programas
    políticos mínimos ou de recuperarem capacidade mínima de mobilização
    das bases.
 6. O presidente do Supremo Tribunal Federal praticando voltando a
    praticar proselitismo político, mostrando que nem a tragédia
    consegue burilar a vaidade.
 7. Como resultado, incapacidade generalizada de enxergar o potencial do
    país, com a predominância ampla do complexo de vira-lata e da
    síndrome do cada um por si.
 8. Enquanto isso, as grandes empresas nacionais estão sendo massacradas
    pela competição externa, caso das empresas de varejo, siderurgia e
    setor automobilístico, com incapacidade total das representações
    empresariais de enfrentar politicamente os grandes interesses
    financeiros.
 9. Uma transição energética cheia de promessas e sem um plano definido,
    sem que se saibam quais as regras de transição, quais as
    contrapartidas a serem exigidas das empresas estrangeiras (se é que
    haverá).

A rigor, a única medida concreta contra a onda foi a imposição de um
imposto de importação para carros elétricos, como forma de defender a
produção interna e de estimular a vinda de montadoras para cá.

Peça 3 – Lula e o Sr. Crise

Os próximos meses serão de dúvidas e indagações.

Há duas maneiras de romper os impasses e inaugurar um novo ciclo, ambas
dependendo de um choque de realidade e de bom senso, que pode chegar de
duas maneiras.

– A primeira, com o advento da crise sem um norte condutor. Instala-se o
caos e o preço a pagar será extremamente elevado. Seria a eventual
eleição de um candidato bolsonarista em 2026. Aí, se teria que passar
por um novo pesadelo, antes de um novo reinício – se existir ainda Nação
para ser reconstruída.

– A segunda, com a crise, mas com uma liderança capaz de apontar o novo
e colocar ordem na transição.

Em período democrático, só se teve esse momento no governo JK, mas
alicerçado nas grandes reformas e grandes estatais nascidas no período
Vargas.

O país tem um ativo imenso, a liderança de Lula. E uma dúvida enorme:
Lula ainda terá energia, vontade e ideias para apontar o novo. No início
de carreira política, Lula tinha o entorno de sindicatos fortes, uma
Igreja atuante, movimentos sociais embarcando no ônibus PT, e a gana
política. E agora, com os novos tempos, as novas circunstâncias e a
velha idade?

Recentemente, Lula explicou que sua ausência do debate interno se devia
aos problemas na coluna, que exigiriam uma intervenção cirúrgica. E
daqui para a frente? Tem-se, hoje em dia, um Ministério ainda
desconjuntado, um Estado destruído pelos 6 anos de irresponsabilidade de
Michel Temer e Jair Bolsonaro. E Lula cedendo nas três frentes
relevantes: Congresso, mercado e Forças Armadas.

A demora em escolher o novo Ministro do Supremo e o Procurador Geral da
República demonstra medo e falta de bússolas. Aliás, as bússolas que
orientaram as escolhas nos governos anteriores do PT falharam
redondamente. Antes, tinha-se um Lula desarmado nas relações com a
Justiça, por não entender seu poder demolidor; agora, se tem um Lula
temeroso, que não sabe por onde caminhar.

Por enquanto, as apostas de Lula estão no Bolsa Família e na entrega de
obras do PAC. Se for só isso, não preencherá o vácuo político. A crise
exige muito mais, a criação de uma utopia, que mostre do que o país é
capaz, que explicite as potencialidades, que eleve a auto-estima e que
venha acompanhada de um plano abrangente e inclusivo de desenvolvimento.

Peça 4 – a busca do novo ciclo

O período pós-ditadura foi pródigo em novas experiências, muitas que não
tiveram sequência, mas que deixaram boas lições.

Agora, a máquina pública foi destruída. Centros de excelência do
funcionalismo público foram desmontados, casos do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística), ENAP (Escola Nacional de
Administração Pública), Conab (Companhia Nacional de Abastecimento),
quadro de gestores públicos, de planejadores.

A reconstrução não pode ser em cima das antigas bases.

Nos anos 90, com a entrada da Internet, houve um grande movimento no
serviço público, de estímulo a novas experiências, com resultados
animadores. Funcionários públicos atuavam como verdadeiros
empreendedores, trazendo soluções que, depois, eram incorporadas ao grupo.

Depois, com os programas de qualidade, houve uma competição inicial
virtuosa entre os diversos atores públicos. Essas experiências eram
compartilhadas nacionalmente em um Conselho Nacional de Secretários de
Planejamento.

A máquina pública tem que ser reconstruída sob os ecos da inovação, da
desburocratização. O gestor define os objetivos a serem alcançados, as
métricas de acompanhamento, e confere autonomia aos executores, para a
busca de melhores soluções. Foi o que ocorreu em momentos brilhantes do
INSS.

O modelo federativo do SUS tem que ser estendido a todas as áreas, com a
recuperação dos Conselhos de Secretários de Educação, de serviço social.

Os bancos públicos têm que recuperar a vocação pública, depois da
lavagem cerebral dos últimos anos. Para tanto, há que se criar
indicadores de participação social, de estímulo, de participação na
criação de arranjos produtivos, de articulação das pequenas empresas em
seus locais de atuação. Têm que recuperar o sentido de público.

Os institutos federais – que permitiram a grande revolução regional do
país – têm que aprofundar a sua vocação de agente da modernização em
suas respectivas regiões, de desenvolvedores de tecnologia para empresas
locais, de identificação das vantagens comparativas.

Enfim, há um exército que poderá ser mobilizado com vozes claras de
comando e um plano de desenvolvimento bem elaborado, com objetivos
claros e pactos a serem firmados com cada setor:

– a rede de instituições acadêmicas;

– o sistema das federações empresariais;

– o cooperativismo;

– a administração pública em suas diversas instâncias;

– o sistema de inovaçãoi com a rede de amparo à pesquisa;

– as associações comerciais;

– os movimentos sociais.

– as associações de prefeitos.

Peça 6 – a civilização do século 21

Ontem, na Igreja de São Domingos, em São Paulo, houve um ato religioso
em defesa da paz na Palestina.

Ali, estava o Brasil: padres católicos, mães de santo, evangélicos,
rabinos, pajés, padres muçulmanos, todos tendo em comum o desejo da paz
e a celebração da grande alma brasileira.

Este é o Brasil da diversidade, da convivência pacífica, da
solidariedade, o país que tem todo o potencial para ser a grande
civilização tropical do século 21. Esse país já existe, à espera de ser
convocado por um estadista, ou pelo Sr. Crise.

Juntos, ajudarão a destruir definitivamente a Hidra de Lerna do
bolsonarismo e da intolerância.

Em
JORNAL GGN
https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-do-renascimento-rumo-a-civilizacao-do-seculo-21-por-luis-nassif/
13/6/2023

domingo, 12 de novembro de 2023

50 years of dependency theory

 




Posted bymichael roberts
<https://thenextrecession.wordpress.com/author/bobmckee/>November 4,
2023November 7, 2023
<https://thenextrecession.wordpress.com/2023/11/04/50-years-of-dependency-theory/>Posted inmarxism <https://thenextrecession.wordpress.com/category/marxism/>    

/Over the next few posts, I aim to review a number of books published in
the last year on key aspects of Marxist economic theory./ /I start with
dependency theory./

Dependency theory emerged in the 1960s and 1970s as a critique of
‘modernisation’ theory, which argued that poor countries could develop
by following the same path as wealthy countries.  Dependency theorists
argued that this was not possible because poor countries are
systematically exploited by wealthy countries.  The theory was developed
mainly in Latin America, when the so-called Golden Age of booming
capitalist development after WW2 in the major advanced capitalist
economies came to an end.

It seemed that economic development as in the ‘West’ did not apply to
economies in South America, the Middle East or Africa.  In 1945, Latin
American countries like Argentina and Brazil had per capita incomes not
so far behind that of the weaker capitalist economies of southern Europe
and it was expected that under governments that looked to follow the
industrial economies of the North, Latin America would prosper.  That
hope evaporated in the downturn in profitability and investment that
ensued in the late 1960s and through the rest of the 20^th century.

<https://thenextrecession.files.wordpress.com/2023/11/dep1.png>

In his book, now published in English
<https://www.haymarketbooks.org/books/2025-dependency-theory-after-fifty-years>, Claudio Katz, a professor at the University of Buenos Aires and author of many books on economics and Latin American society, provides us with a comprehensive account of dependency theory as expounded mainly in Latin America over the last 50 years.  It won the Libertador prize for Critical Thought in 2018.

<https://thenextrecession.files.wordpress.com/2023/11/dep3.jpg>

I think we can start to consider dependency theory from a brief phrase
that Marx wrote in his 1867 preface to Volume one of Capital.  He wrote:
/“The country that is more developed industrially only shows, to the
less developed, the image of its own future.”/  Marx was writing when
Britain was at the pinnacle of its economic power and industrial might.
Capital was an analysis of such a capitalist economy.  And Marx thought
capitalism would spread globally so that other rival capitalist powers
would emerge – and he was right.  Germany, France and, above all, the US
caught up with Britain (in its own ‘image’) by the end of the 19th century.

But we now know that that it would only be a small group of industrial
and commercial capitalist economies that achieved Marx’s prediction.
Those powers were then able through military, financial and
technological prowess to block the progress of capitalists and their
workers in most of the rest of the world.  Lenin wrote in 1915 that
there were just a handful of countries that controlled the world’s
technology, finance and resources.  One hundred years later, those
‘imperialist’ economies are much the same and broadly still dominant.
<https://www.academia.edu/66353020/The_Economics_of_Modern_Imperialism>
And thus we can talk of a dominant imperialist bloc and a ‘dependent’
rest of the world.

But ‘dependency’ can take different meanings and Katz shows us that it
does with his discussion of the variants within the dependency school.
Dependency theorists identify two main groups of countries in the global
economic system: the core and the periphery. The core countries are
wealthy countries that control the global economy. The periphery
countries are poor countries that are dependent on the core countries
for trade, investment and technology.  Indeed, the word ‘periphery’
seems better to me than ‘dependent’.  The latter could imply that the
capitalist class in the periphery plays no independent role in
exploiting its own working class and exploitation is totally the result
of imperialist domination and foreign companies.

Where dependency theory plays a positive explanatory role is in the idea
that resources flow from a “periphery
<https://en.wikipedia.org/wiki/Periphery_countries>” of poor
and underdeveloped states
<https://en.wikipedia.org/wiki/Developing_country> to a “core
<https://en.wikipedia.org/wiki/Core_countries>” of wealthy states
<https://en.wikipedia.org/wiki/Developed_country>, enriching the latter
at the expense of the former. The theory rejects the mainstream theory
of ‘development economics’ upon which the international institutions of
the United Nations (UNCTAD – ‘trade and development’), the World Bank
and IMF stand, that all societies progress through similar stages of
development and that today’s underdeveloped areas are thus in a similar
situation to that of today’s developed areas at some time in the past.
Therefore, the task of helping the underdeveloped areas ‘out of poverty
<https://en.wikipedia.org/wiki/Poverty>’ is to accelerate them along
this supposed common path of capitalist development, by various means
such as investment
<https://en.wikipedia.org/wiki/Investment>, technology transfers
<https://en.wikipedia.org/wiki/Technology_transfer>, and closer
integration into the world market
<https://en.wikipedia.org/wiki/World_economy>.  The periphery is thus
described as ‘emerging’ or ‘developing’ economies.

It would be wrong to think that Marx adopted ‘development economics’ in
that sense as in the quote from Capital.  Then he was referring to the
immediate industrial capitalist economies of his day.  In his later
writings, he emphasised how the most populated countries like India,
Russia and China were exploited and eventually suppressed in their
ability to join the leading industrial nations.

Katz concentrates his account of dependency theory on its Marxist
variant, rather than the mainstream one that argues dependency can be
overcome by national policies of Keynesian-type state spending, import
substitution for foreign goods and financial regulation.  This variant
has shown to have failed in practice in taking countries like Argentina
or Brazil into the top tier of capitalist economies.  Instead, Marxist
dependency theory argues that these countries will remain ‘dependent’
because of the huge extraction of value from labour in their economies
to the imperialist bloc through trade, finance and technology.

‘Unequal exchange’ in international trade is a fundamental component of
Marx’s theory of value.  However, within dependency theory, differences
arise on the nature of that unequal exchange: is it due to wage
differences or technologically driven productivity differences?  Do the
imperialist countries through their multi-nationals gain surplus profits
from the cheap labour of the peripheral countries or from their superior
technology and lower unit costs in international trade?

Katz reckons that the most prominent of Latin American Marxist
dependency theorists, Ruy Mauro Marini /“had greater affinities with
those who ascribed unequal exchange to differences in productivities
rather than wages/.” This maintained that the wage gaps were explained
by disparities in the development of the productive forces rather than
vice versa. “/The wage is a result rather than a determinant of
accumulation, arguing that wage levels in each country depend on
productivity, cycles, capital stock, and the intensity of the class
struggle./”

If this was Marini’s position, then I agree.  My own empirical study
jointly with Guglielmo Carchedi on modern imperialism finds that the
transfer of value from the periphery to the core economies through
unequal exchange in trade is mainly due to productivity differences and
technological superiority (OCC in the graph below), and only to a lesser
extent due to higher rates of exploitation in the periphery (RSV.  And
it is not due to lower wages /per se/.

<https://thenextrecession.files.wordpress.com/2023/11/dep4.png>

However, Marini did propose the concept of super-exploitation, namely
where wages in the periphery fall below the value of labour power or
below the average international wage.  According to Katz, /“it was the
central thesis of dependency theory inspired by Marini.”/  But Katz
argues that ‘super exploitation’ cannot be the main determinant of value
transfer between rich and poor countries.  /“It dilutes the logic of
surplus value”/ and it suggests a Proudhonian concept of theft rather
than the /“objective logic of accumulation/”.  As Katz points out, super
exploitation also exists in neoliberal imperialist economies with
‘precarious employment’ and zero-hours contracts etc.

In my view, the point is that the value transfer to the imperialist
North takes place because of their superior technology and labour
productivity. That enables the imperialist North to sell its goods in
world markets at costs below the international average. The capitalists
of the periphery try to compensate for their lower technical level and
productivity by driving the wages of their workers down. So the higher
rate of exploitation in the South, whether by super-exploitation or not,
is a reaction to the failure to compete against the North.

Was monopoly power the main cause of the dominance of imperialist
companies?  Some dependency theorists claim so.
<https://thenextrecession.wordpress.com/2022/11/16/historical-materialism-conference-monopoly-imperialism-inflation-and-ukraine/>  However, Katz reckons that was not the case with Marini. “/Marini was always closer to the Marxist thinkers like Mandel who highlighted this dynamic of differentiated competition among monopolies. He maintained greater distance from theorists like Sweezy who stressed the unrestrained ability of large firms to manage prices.”/  But Marini did not go so far as Shaikh who Katz argues denies /“the clear existence of gigantic corporations that obtain extraordinary profits in certain markets at the expense of smaller companies.”/

Katz reckons that Marini had what I would call an eclectic understanding
of Marx’s value theory.  /“He belonged to a tradition in Marxist
economics that disagreed with the approaches centered exclusively on the
analysis of value in the sphere of production. That approach quantifies
value only in the initial phase of surplus value creation, insistently
pointing to the weight Marx put on the logic of exploitation and
deducing all the contradictions of capitalism from this sphere./”
 Marini wanted to include /“imbalances located in the sphere of
demand/”.  Katz summed up Marini’s view on economic crises as a
“/multicausal approach to crisis, combining imbalances of realization
with the falling rate of profit tendency”./  Readers of this blog will
know that as a proponent of a ‘monocausal’ analysis of crises,
<https://www.academia.edu/12861439/Tendencies_triggers_and_tulips> I
think that Marini’s view leaves us without a theory of crisis at all.

That is not the only weakness in Marini’s version of dependency theory.
He strongly promoted the idea of ‘sub-imperialism’, a category of
countries intermediate between the dominated periphery and the
imperialist core.  Katz spends several chapters discussing the relevance
of this category.  In summary he says that “/it helps to understand the
hierarchical structure of contemporary capitalism”/ with /“an apex of
central powers and a base of dominated countries… in between are these
subimperial powers trying to obtain regional hegemony/.”

I am dubious that sub-imperialism helps us to understand contemporary
capitalism.  It weakens the delineation between the core imperialist
bloc and the periphery of dominated countries.  If every country is a
‘little bit imperialist’, if it engages in war with a neighbour over
markets, resources and territory, then imperialism starts to lose its
validity as a useful concept.  So-called sub imperialist countries do
not have sustained and huge transfers of value and resources to them
from weaker economies.  In our own work on imperialism and in empirical
work by others, this hierarchical structure of value transfer is not
revealed.  India, China and Russia actually transfer much larger amounts
of value to the imperialist bloc than South America.  See the results of
Andrea Ricci on US transfers below.
<https://thenextrecession.files.wordpress.com/2021/09/wp_ricci_unequal_exchange_and_global_inequality-1-1.pdf>

<https://thenextrecession.files.wordpress.com/2023/11/dep2-1.png>

Take the BRICS, the best candidates for being ‘sub-imperialist’.  There
is no evidence of significantly large and long-lasting value transfers
to them from weaker and/or neighbouring economies.  They just don’t have
the financial, technological and military superiority to obtain such
transfers. Can wars between peripheral countries (eg Iran v Iraq,
Azerbaijan v Armenia) be considered imperialist in any useful way? Are
these not better seen as wars between weak capitalist countries for
economic and political gain?

Indeed, Katz makes the point that Brazil is not sub-imperialist as
Marini saw it.  It has not become a rising industrial power dominating
the sub-continent.  The great hope of the 1990s, as promoted by
mainstream development economics, that Brazil, Russia, India, China and
South Africa (BRICS) would soon join the rich league by the 21st
century, has proven to be a mirage. These countries remain also-rans and
are still subordinated and exploited by the imperialist core. And the
gap between the imperialist economies and the rest is not narrowing – on
the contrary. And that includes China, which also will not join the
imperialist club.
<https://thenextrecession.wordpress.com/2021/09/30/iippe-2021-imperialism-china-and-finance/>

Yet Katz wants to preserve the Marini concept: /“In this context,
intermediate formations occupy a significant place that breaks the
strict parallel between sub-imperial powers and economic semi-
peripheries, as the geopolitical weight of some countries differs from
the inte­gration into globalized production achieved by others.
Dependency theory is very useful for understanding that variety of
situations. It explains the logic of the underdevelopment and
marginalization of the periphery without limiting its analysis to global
polarities, and also analyzes the bifurcations and differences between
distinct intermediate formations/.”  I am not sure that it does.

What Katz’s comprehensive survey of 50 years of dependency theory does
show is that Marx’s value theory of /“productive globalization based on
the exploitation of workers remodels the cleavages between center and
periphery through transfers of surplus value.”/ And it is /“the omission
of that mechanism prevents the critics of dependency from understanding
the logic of underdevelopment.”  /

So/“reintegrating the theory of value into the explanation of dependency
is also vital for uncovering the hidden skeleton of present-day
capitalism. There is no invisible hand that is guiding markets, nor is
there a wise state institution steering the economy. The foundation of
the system is competition for profits arising from exploitation,
multiplying the wealth of minorities and the suffering of the
majorities. The same indignation and rebelliousness that drove the study
of underdevelopment in the past orients that inquiry in the present.”/

Em
Michael Roberts blog
https://thenextrecession.wordpress.com/2023/11/04/50-years-of-dependency-theory/
4/11/2023

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Qual ordem internacional?

 

 


      Thierry Meyssan**(Rede Voltaire)

*Nota Rede Voltaire: *Reproduzimos o texto do discurso de Thierry Meyssan em Magdeburg (Alemanha) na conferência organizada pela revista Compact, "Amitié avec la Russie" ("Amizade com a Rússia"), em 4 de novembro de 2023. Nele, ele explica o que, em sua opinião, constitui a diferença fundamental entre as duas concepções da ordem mundial que estão se chocando hoje, do Donbass a Gaza: a do bloco ocidental e aquela à qual o resto do mundo se refere. A questão não é se essa ordem deve ser dominada por uma potência (unipolar) ou por um grupo de potências (multipolar), mas se ela deve ou não respeitar a soberania de cada uma delas. O autor baseia-se na história do Direito Internacional, conforme concebido pelo czar Nicolau II e pelo vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Léon Bourgeois.



Nós vimos os crimes da OTAN, mas porquê afirmar a nossa amizade com a
Rússia? Não existe o risco de vermos amanhã comportar-se como a OTAN
hoje? Não vamos substituir uma escravidão por outra?

Para responder a esta questão, recorreria à minha sucessiva experiência
como conselheiro de cinco chefes de Estado. Diplomatas russos de todo o
mundo disseram-me: você está no caminho errado: você está se
comprometendo a apagar um incêndio aqui, enquanto outro começou em outro
lugar. O problema é mais profundo e mais amplo.
Gostaria, portanto, de descrever-lhes a diferença entre uma ordem
mundial baseada em regras e outra baseada no direito internacional. Não
é uma história linear, mas uma batalha entre duas visões de mundo; uma
luta que cabe a nós continuar.

No século XVII, os Tratados de Westfália estabeleceram o princípio da
soberania do Estado. Todos são iguais aos outros e ninguém pode
interferir nos assuntos internos dos outros. São estes Tratados que
regem, durante séculos, tanto as relações entre os atuais Länder como as
entre os Estados europeus. Foram reafirmadas pelo Congresso de Viena em
1815, durante a derrota de Napoleão I.

Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, o Czar Nicolau II convocou duas
Conferências Internacionais de Paz (1899 e 1907), em Haia, a fim de
“procurar os meios mais eficazes de assegurar a todos os povos os
benefícios de uma paz real e duradoura. Ele os preparou com o Papa Bento
XV com base no direito canônico e não na lei do mais forte. 27 Estados
assinaram o trabalho final, após dois meses de deliberações. O
presidente do Partido Radical [Republicano] francês, Léon Bourgeois,
apresentou as suas reflexões [1
<https://www.voltairenet.org/article219933.html%22%20/l%20%22nb1>] sobre
a dependência recíproca dos Estados e sobre o interesse que estes têm em
unir-se apesar das suas rivalidades.

Sob a liderança de Léon Bourgeois, a Conferência criou um tribunal
internacional de arbitragem responsável pela resolução de conflitos por
meios legais e não pela guerra. Segundo Bourgeois, os estados só
concordarão em desarmar-se quando tiverem outras garantias de segurança.
O texto final estabelece a noção de “dever dos Estados de evitar a
guerra”… recorrendo à arbitragem.

Sob a liderança de um ministro do Czar, Frédéric Fromhold de Martens, a
Conferência acordou que, durante um conflito armado, as populações e os
beligerantes devem permanecer sob a proteção dos princípios que resultam
“dos costumes estabelecidos entre as nações civilizadas, dos leis da
humanidade e as exigências da consciência pública”. Em suma, os
signatários concordaram em não continuar a comportar-se como bárbaros.

Este sistema só funciona entre estados civilizados que honram a sua
assinatura e são responsáveis perante a sua opinião pública. Fracassou,
em 1914, porque os Estados tinham perdido a sua soberania ao celebrar
tratados de Defesa que exigiam que entrassem em guerra automaticamente
em certas circunstâncias que eles próprios não podiam avaliar.

As ideias de Léon Bourgeois ganharam terreno, mas encontraram oposição,
incluindo a do seu rival dentro do Partido Radical, Georges Clemenceau,
que não acreditava que a opinião pública pudesse impedir as guerras. Nem
os anglo-saxões, o presidente dos EUA Woodrow Wilson e o
primeiro-ministro britânico Lloyd George. No final da Primeira Guerra
Mundial, estes três homens substituíram o Direito Internacional
incipiente pelo Poder dos Vencedores. Eles dividiram o mundo e os restos
dos impérios austro-húngaro, alemão e otomano. Culparam somente a
Alemanha pelos massacres, negando seus próprios massacres. Impuseram o
desarmamento sem garantias. Para evitar o surgimento de um rival para o
Império Britânico na Europa, os anglo-saxões começaram a colocar a
Alemanha contra a URSS e obtiveram o silêncio da França, assegurando-lhe
que poderia saquear o derrotado Segundo Reich. De certa forma, como
disse o primeiro presidente da República Federal, Theodor Heuss, eles
organizaram as condições para o desenvolvimento do nazismo.

Tal como tinham acordado entre si, os três homens remodelaram o mundo à
sua imagem (os 14 pontos de Wilson, os acordos Sykes-Picot, a declaração
Balfour). Criaram o lar judaico da Palestina, desmembraram a África e a
Ásia e tentaram reduzir a Turquia ao seu mínimo. Eles organizaram todas
as desordens atuais no Médio Oriente.

No entanto, foi com base nas ideias do finado Nicolau II e de Léon
Bourgeois que a Liga das Nações (SDN) foi criada após a Primeira Guerra
Mundial, sem a participação dos Estados Unidos que assim recusou
oficialmente qualquer ideia de direito internacional. No entanto, a Liga
das Nações também falhou. Não porque os Estados Unidos tenham se
recusado a participar, como é frequentemente alegado. Isso era um
direito deles. Mas, em primeiro lugar, porque ela foi incapaz de
restabelecer a igualdade estrita entre os Estados, com o Reino Unido se
opondo a considerar os povos colonizados como iguais. Em segundo lugar,
porque não tinha um exército comum. E, finalmente, porque os nazistas
massacraram seus oponentes, destruíram a opinião pública alemã, violaram
a assinatura de Berlim e não hesitaram em se comportar como bárbaros.

Já na Carta do Atlântico, em 1942, o novo Presidente dos EUA, Franklin
Roosevelt, e o novo Primeiro-Ministro britânico, Winston Churchill,
estabeleceram o objetivo comum de estabelecer um governo mundial no
final do conflito. Os anglo-saxões, que se imaginavam capazes de
governar o mundo, não concordaram, no entanto, entre si sobre como
fazê-lo. Washington não queria que Londres interferisse nos seus
assuntos na América Latina, enquanto Londres não pretendia partilhar a
hegemonia do Império sobre o qual “o sol nunca se põe”. Os anglo-saxões
assinaram um grande número de tratados durante a guerra com os governos
aliados, especialmente os exilados, que estavam abrigados em Londres.

Além disso, os anglo-saxões não conseguiram derrotar o Terceiro Reich;
foram os soviéticos que o derrubaram e tomaram Berlim. Joseph Stalin, o
primeiro secretário do PCUS, opôs-se à ideia de um governo mundial,
especialmente anglo-saxão. Ele só queria uma organização que pudesse
prevenir conflitos futuros. Em todo o caso, foram as concepções russas
que deram origem ao sistema: a Carta das Nações Unidas, durante a
conferência de São Francisco.

No espírito das Conferências de Haia, todos os estados-membros da ONU
eram iguais. A Organização tinha um tribunal interno, a Corte
Internacional de Justiça, responsável pela resolução de disputas entre
seus membros. Entretanto, à luz da experiência anterior, as cinco
potências vitoriosas têm um assento permanente no Conselho de Segurança
com direito a veto. Como não havia confiança entre elas (os anglo-saxões
haviam considerado a possibilidade de continuar a guerra com as tropas
alemãs remanescentes contra a URSS) e não se sabia como a Assembleia
Geral se comportaria, os vários vencedores queriam garantir que a ONU
não se voltasse contra eles (os Estados Unidos haviam cometido crimes de
guerra terríveis ao lançar duas bombas atômicas contra civis, enquanto o
Japão se preparava para se render aos soviéticos). Mas as grandes
potências não entendiam o veto da mesma forma. Para alguns, era um
direito de censurar as decisões dos outros; para outros, era uma
obrigação de tomar decisões por unanimidade dos vencedores.

Exceto pelo fato de que, desde o início, os anglo-saxões não entraram no
jogo: declarou-se um estado israelense (14 de maio de 1948) antes que
suas fronteiras tivessem sido acordadas e, em seguida, o enviado
especial do secretário-geral da ONU para supervisionar a criação de um
Estado palestino, o conde Folke Bernadotte, foi assassinado por
supremacistas judeus sob o comando de Yitzhak Shamir. Além disso, o
assento no Conselho de Segurança alocado para a China, no contexto do
fim da guerra civil chinesa, foi concedido ao Kuomintang de Chiang
Kai-shek e não à Pequim. Os anglo-saxões proclamaram a independência de
sua zona de ocupação coreana com o nome de “República da Coreia” (15 de
agosto de 1948), criaram a OTAN/OTAN (4 de abril de 1949) e, em seguida,
proclamaram a independência de sua zona de ocupação alemã com o nome de
“Alemanha Federal” (23 de maio de 1949).

Considerando que tinha sido enganada, a URSS bateu a porta (política de
“assento vazio”). O georgiano Joseph Stalin acreditava, erradamente, que
o veto não era um direito de censura, mas uma condição de unanimidade
dos vencedores. Ele pensou que iria bloquear a organização boicotando-a.

Os anglo-saxões interpretaram o texto da Carta que redigiram e
aproveitaram a ausência dos soviéticos para colocar “capacetes azuis”
nas cabeças dos seus soldados e travaram guerra aos norte-coreanos (25
de junho de 1950) em o “nome da comunidade internacional” (sic). Por
fim, em 1º de agosto de 1950, os soviéticos retornaram à ONU, após 6
meses e meio de ausência.

Se o Tratado do Atlântico Norte for legal, os regulamentos internos da
OTAN violam a Carta das Nações Unidas. Ele coloca os exércitos aliados
sob o comando dos anglo-saxões. O seu comandante-chefe, o SACEUR, deve
ser necessariamente um oficial dos Estados Unidos. Segundo o seu
primeiro Secretário-Geral, Lord Ismay, o verdadeiro objetivo da Aliança
não é preservar a paz nem lutar contra os soviéticos, mas sim “manter os
estadunidenses dentro, os russos fora e os alemães sob controle” [2
<https://www.voltairenet.org/article219933.html%22%20/l%20%22nb2>] . Em
suma, é o braço armado do governo mundial que Roosevelt e Churchill
queriam criar. Foi em busca desse objetivo que o presidente Joe Biden
ordenou a sabotagem do gasoduto Nord Stream, que liga a Rússia à Alemanha.

Durante a Libertação, o MI6 e o OPC (ou seja, a futura CIA) instalaram
secretamente uma rede de permanência /(stay-behind) /na Alemanha. Eles
colocaram lá milhares de oficiais nazistas, a quem ajudaram a escapar da
justiça. Klaus Barbie, que torturou o coordenador da Resistência
Francesa, Jean Moulin, tornou-se o primeiro comandante deste exército
paralelo. Depois esta rede foi incorporada na OTAN, onde foi
consideravelmente reduzida. Foi então utilizado pelos anglo-saxões para
interferir na vida política dos seus supostos aliados, na realidade dos
seus vassalos.

Os antigos colaboradores de Joseph Goebbels criaram o Volksbund für
Frieden und Freiheit. Eles perseguiram os comunistas alemães com a ajuda
dos Estados Unidos. Mais tarde, os agentes remanescentes /(stay-behind)
/da OTAN conseguiram manipular a extrema esquerda para torná-la
detestável. Tome a gangue Bader, por exemplo. Quando seus homens foram
presos, os agentes infiltrados vieram e os assassinaram na prisão, antes
que pudessem ser julgados e levados a julgamento. Em 1992, a Dinamarca
espionou a chanceler Angela Merkel por ordem da OTAN, assim como em
2022, a Noruega, outro membro da OTAN, ajudou os Estados Unidos a
sabotar o Nord Stream…

Voltando ao direito internacional, as coisas foram voltando ao normal
até que, em 1968, durante a Primavera de Praga, o ucraniano Leonid
Brezhnev fez na Europa Central o que os anglo-saxões estavam fazendo em
todos os outros lugares: proibiu os aliados da URSS de escolher um
modelo econômico diferente do seu.

Foi com dissolução da URSS que as coisas começaram a piorar. O
subsecretário de Defesa dos EUA, Paul Wolfowitz, elaborou uma doutrina
segundo a qual, para continuar dominando o mundo, os Estados Unidos
deveriam fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir o
surgimento de um novo rival, a começar pela União Europeia. Foi em
aplicação dessa ideia que o Secretário de Estado James Baker impôs a
ampliação da União Europeia para incluir todos os antigos estados do
Pacto de Varsóvia e da URSS. Ao expandir dessa forma, a União estava se
privando da possibilidade de se tornar uma entidade política. Foi
novamente em aplicação dessa doutrina que o Tratado de Maastricht
colocou a UE sob a proteção da OTAN. E ainda é em aplicação dessa
doutrina que a Alemanha e a França estão pagando e armando a Ucrânia.

Depois veio o professor tcheco-estadunidense Josef Korbel. Ele propôs
que os anglo-saxões deveriam dominar o mundo reescrevendo os tratados
internacionais. Tudo o que eles precisavam fazer, argumentou, era
substituir a lei anglo-saxônica, baseada em tradições, pela
racionalidade da lei romana. Dessa forma, no longo prazo, todos os
tratados dariam vantagem às potências dominantes: os Estados Unidos e o
Reino Unido, ligados por um “relacionamento especial”, nas palavras de
Winston Churchill. A filha do professor Korbel, a democrata Madeleine
Albright, tornou-se embaixadora na ONU e depois Secretária de Estado. Em
seguida, quando a Casa Branca passou para as mãos dos republicanos, a
filha adotiva da professora Korbel, Condoleeza Rice, a sucedeu como
Conselheira de Segurança Nacional e depois como Secretária de Estado.
Durante duas décadas, essas duas “irmãs” [3
<https://www.voltairenet.org/article219933.html%22%20/l%20%22nb3>]
reescreveram pacientemente os principais textos internacionais,
alegadamente para os modernizar, mas na verdade para mudar o seu espírito.

Hoje, as instituições internacionais operam de acordo com as regras
estabelecidas pelos anglo-saxões, com base em violações anteriores do
direito internacional. Essa lei não está escrita em nenhum código, pois
é uma interpretação dos hábitos da potência dominante. Todos os dias,
substituímos o Direito Internacional por regras injustas que são
transgressões à própria assinatura.

Por exemplo:

• Os Estados Bálticos assumiram um compromisso escrito, quando foram
criados em 1990, de preservar monumentos em homenagem aos sacrifícios do
Exército Vermelho. A destruição destes monumentos é, portanto, uma
violação da sua própria assinatura.

• A Finlândia comprometeu-se por escrito em 1947 a permanecer neutra. A
sua adesão à OTAN é, portanto, uma violação da sua própria assinatura.

• Em 25 de Outubro de 1971, as Nações Unidas adotaram a resolução 2758
reconhecendo que Pequim, e não Taiwan, é o único representante legítimo
da China. Como resultado, o governo de Chiang Kai-shek foi expulso do
Conselho de Segurança e substituído pelo de Mao Tsé-Tung. Portanto, as
recentes manobras navais da China no Estreito de Taiwan não constituem
uma agressão contra um Estado soberano, mas um desdobramento livre das
suas forças nas suas próprias águas territoriais.

• Os acordos de Minsk tinham o objetivo de proteger os ucranianos de
língua russa das agressões dos “nacionalistas de raça pura”. A França e
a Alemanha garantiram isso perante o Conselho de Segurança. Mas, como
disseram Angela Merkel e François Hollande, nenhum deles tinha a
intenção de aplicá-los. Suas assinaturas não têm valor. Se fosse de
outra maneira, nunca teria havido uma guerra na Ucrânia.

A perversão do direito internacional atingiu o auge com a nomeação, em
2012, do estadunidense Jeffrey Feltman como diretor de assuntos
políticos. Do seu escritório em Nova Iorque, ele supervisionou a guerra
ocidental contra a Síria. Utilizou as instituições de paz para promover
a guerra [4
<https://www.voltairenet.org/article219933.html%22%20/l%20%22nb4>] .

Até o momento em que os Estados Unidos a ameaçaram com o armazenamento
de armas em sua fronteira, a Federação Russa honrou todos os
compromissos que havia assinado ou que a União Soviética havia assinado.
O Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) obriga as potências
nucleares a não espalharem o seu arsenal nuclear por todo o mundo. Os
Estados Unidos, violando a sua assinatura, armazenaram durante décadas
bombas atômicas em cinco países vassalos. Eles treinam soldados aliados
no manejo destas armas nas bases de Kleine Brogel na Bélgica, Büchel
aqui na Alemanha (Renânia-Palatinado), Aviano e Ghedi na Itália, Volkel
na Holanda e Incirlik na Turquia.

Então eles dizem, que em virtude de suas ações enérgicas, isso se tornou
um costume. No entanto, a Federação Russa, considerando-se sitiada, após
o sobrevoo do Golfo da Finlândia por um bombardeiro nuclear dos EUA,
também jogou com o Tratado de Não Proliferação e instalou bombas
atômicas no território da Bielorrússia. É claro que a Bielorrússia não é
Cuba. Colocar bombas nucleares russas ali não muda nada. É apenas uma
mensagem enviada a Washington: se querem restabelecer o Direito dos Mais
Fortes, também podemos aceitá-lo, só que, a partir de agora, somos os
mais fortes. Note-se que a Rússia não violou a letra do Tratado, porque
não treina os militares bielorrussos nestas armas, mas tomou liberdades
com o espírito do Tratado.

Para serem eficazes e duradouros, explicou Léon Bourgeois no século
passado, os tratados de desarmamento devem basear-se em garantias
legais. É, portanto, urgente regressar ao Direito Internacional, caso
contrário mergulharemos de cabeça numa guerra devastadora.

Nossa honra e nosso interesse é restabelecer o Direito Internacional. É
uma construção frágil. Se quisermos evitar a guerra, temos de
restaurá-la e temos a certeza de que a Rússia pensa como nós, de que não
a violará.

Ou podemos apoiar a OTAN que reuniu os seus 31 ministros da defesa em
Bruxelas no dia 11 de Outubro para ouvir por videoconferência o seu
homólogo israelita anunciar-lhes que iria arrasar Gaza. E nenhum destes
ministros, incluindo o alemão Boris Pistorius, ousou pronunciar-se
contra o planejamento deste crime em massa contra civis. A honra do povo
alemão já foi traída pelos nazistas, que ao final sacrificaram vocês.
Não se deixem trair novamente, desta vez pelo Partido Social Democrata e
pelos Verdes.

Nossa tarefa não é escolher entre dois senhores, mas proteger a paz, de
Donbass a Gaza, e, por fim, defender o direito internacional.

[ 1 <https://www.voltairenet.org/article219933.html%22%20/l%20%22nh1>] O
“solidarismo” tornou-se a ideologia dominante da Terceira República
Francesa.

[ 2 <https://www.voltairenet.org/article219933.html%22%20/l%20%22nh2>]
Observe: “Russos de fora”, não soviéticos.

[ 3 <https://www.voltairenet.org/article219933.html%22%20/l%20%22nh3>]
Condoleezza Rice nunca foi adotada legalmente, mas morava com o
professor Korbel. Madeleine Albright a considerava sua irmã mais nova.

[ 4 <https://www.voltairenet.org/article219933.html%22%20/l%20%22nh4>] “
A Alemanha e a ONU contra a Síria
<https://www.voltairenet.org/article190041.html>”, por Thierry Meyssan,
/Al-Watan /(Síria), /Rede Voltaire /, 28 de janeiro de 2016.

Texto original em https://www.voltairenet.org/article219933.html
<https://www.voltairenet.org/article219933.html>

Em
Sakerlatin
https://sakerlatam.org/qual-ordem-internacional/
9/11/2023

terça-feira, 7 de novembro de 2023

GLO, péssima ideia

 




   

Manuel Domingos Neto

Historiador, professor, pesquisador na área das Forças Armadas. Foi
deputado federal pelo Piauí

 

"Operações de GLO são de grande utilidade simbólica e política",
escrevem Manuel Domingos Neto e Luiz Eduardo Soares edit



*Por Manuel Domingos Neto e Luiz Eduardo Soares*

Mais uma vez, o Estado brasileiro faz o militar agir como policial.
Alimenta a permanente crise de identidade das Forças Armadas e das
corporações policiais.

Agora, o Exército não está nos espaços reservados aos sobreviventes da
escravidão, da matança dos povos originários e da “vadiagem”. Mas a
Marinha e a Aeronáutica atuam em portos e aeroportos, desperdiçando
recursos públicos em atividades distantes de sua destinação precípua.

continua após o anúncio

Em um mundo assombrado pela possibilidade de guerra generalizada, os
governantes parecem despreocupados com a proteção do Brasil ante
eventuais ameaças de forças estrangeiras hostis.

Essas duas obrigações do Estado, Defesa e Segurança Pública, são
rigorosamente distintas: exigem equipamentos, organização, preparo e
culturas diferentes. Enfrentar agressor estrangeiro nada tem a ver com
tarefas envolvidas no controle das violações às leis.


Confundindo funções diferentes, o governo fragiliza a Defesa do Brasil e
desprotege a cidadania. Alimenta a dependência externa e faz do cidadão
que transgrida a lei um inimigo a ser abatido. Reafirma o conceito de
“inimigo interno” propalado pelo Pentágono e assimilado pelas elites
dirigentes brasileiras. Com “inimigo” não se conversa, se anula de
qualquer forma.

Já o cidadão transgressor continua a ser cidadão e precisa ser levado ao
tribunal. A ideia de que deva ser abatido é traduzida pela consigna
“bandido bom é bandido morto”. A permanência dessa concepção (presente
no recurso às Forças Armadas para lidar com segurança pública) mostra
que a direita raivosa foi derrotada eleitoralmente, não politicamente.
Sobrevive entranhada na sociedade, na representação política e,
sobretudo, nas engrenagens do Estado.

continua após o anúncio

Operações de GLO são de grande utilidade simbólica e política. São peças
teatrais dispendiosas que servem para fingir que os problemas de ordem e
segurança pública estão sendo encarados. Passam a falsa noção de que o
governo reprime a criminalidade. Permitem ao militar “exibir serviço”,
quando, na realidade, diante do anúncio de conflagração mundial,
descuida da proteção do Brasil. Camuflam o fato de as Forças Armadas
estarem despreparadas para negar a terra, o mar, o ar e os espaços
cibernético e sideral ao estrangeiro ganancioso. Iludem a sociedade,
disseminando a ideia de que o militar é o derradeiro recurso diante de
problema doméstico crônico. Dissimulam o fato de as corporações não
encerrarem as atividades de seus dispendiosos escritórios em Washington.
Reafirmam a crença de que o militar é salvador da pátria e credenciado
condutor da sociedade.

O Constituinte escreveu os artigos 142 e 144 da Carta com o sabre na
garganta. Obedeceu a corporações estruturadas para combater “inimigos
internos”. Governos eleitos democraticamente, mostrando subserviência
aos comandantes, endossam essas aberrações constitucionais.

continua após o anúncio

Ao autorizar operações de garantia da lei e da ordem, executivos
públicos, em um só lance, mostram descaso diante da necessidade de
garantir voz altiva no cenário internacional e, internamente, desleixo
com a cidadania. Dobram-se às corporações armadas para perpetuar a
subordinação ao estrangeiro poderoso e às estruturas sociais que
contrariam aspirações democráticas e de soberania.

A bandidagem ganha com a GLO, na medida em que, mais uma vez, as
dinâmicas perversas que a fortalecem são mantidas. As facções criminosas
se alimentam do encarceramento em massa de jovens varejistas do comércio
de drogas, absurdo endossado pelo MP e abençoado pela Justiça.

continua após o anúncio

Dos 832 mil presos brasileiros, os acusados ou condenados por tráfico já
são mais de 30% (62% entre as mulheres). A maioria tem sido presa em
flagrante, porque a corporação que mais prende (a PM) está
constitucionalmente proibida de investigar. Resta-lhe responder à
pressão da sociedade encarcerando a arraia-miúda, que atua
ostensivamente, não interage com os grandes protagonistas das redes
criminosas nem se beneficia dos negócios bilionários.

Uma vez no cárcere, ao jovem pobre, em geral negro, morador de
territórios vulneráveis, resta comprar sua sobrevivência de quem a pode
garantir: a facção que manda no presídio, posto que o Estado não cumpre
a Lei de Execuções Penais, não exerce autoridade nem afirma a legalidade
no interior das prisões.

continua após o anúncio

O preço da sobrevivência do preso será o envolvimento futuro com a
facção. Em outras palavras: encarcerando em massa e abandonando o
sistema penitenciário às facções, o Estado contrata violência futura,
reproduzindo geometricamente a criminalidade organizada e destruindo a
vida de gerações e suas famílias. Além disso, aprofunda o racismo
estrutural e as iniquidades sociais. Não há exagero retórico quando se
diz que a guerra às drogas é a guerra aos pobres, uma guerra racista e
destinada ao fracasso.

Há um ponto decisivo, que nos remete aos artigos 142 e 144 da
Constituição e ao fato de que, na prática, por imposição dos militares,
não houve transição democrática na Defesa e na Segurança Pública:
qualquer avanço consistente e sustentável exigirá o enfrentamento do
crime no interior das polícias, o qual será impossível enquanto essas
instituições permanecerem refratárias ao comando da autoridade política
civil. Sem a afirmação dessa autoridade sobre as instituições que
mobilizam a força do Estado, a democracia, a vontade popular e a
soberania nacional permanecerão chantageadas.

continua após o anúncio

Ao postergar reformas na Defesa Nacional e na Segurança Pública, os
governos federal e estaduais prosseguem em marcha batida para o
desastre, alimentando as fogueiras do medo, do ódio e do ressentimento,
que preparam os espíritos para o fascismo.

Os governantes estão perdidos, temerosos de uma opinião pública
envenenada pela confusão entre justiça e vingança, ludibriada pela ideia
de que a única solução é fazer mais do mesmo, com mais intensidade (mais
prisões, mais proibicionismo, mais violência policial, penas mais
longas, cárceres mais cruéis).

É preciso coragem para trocar os jogos de cena pelo diálogo franco com a
sociedade. Até quando será negada a necessidade de uma reforma militar e
de uma profunda revisão do sistema de segurança pública?

Quando Lula começará a “cuidar do povo”, como prometeu? O povo não
precisa apenas de comida, diversão e arte. Sem segurança pública,
persistirá no inferno, que é como vive quem mora nas periferias das
cidades brasileiras. Sem Defesa Nacional, persistirá submetido à vontade
emanada do estrangeiro poderoso.
Em
BRASIL247
https://www.brasil247.com/blog/glo-pessima-ideia
7/11/2023

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

A esquerda ocidental e a contradição EUA-China

 


    Prabhat Patnaik [*] <#asterisco>



Segmentos significativos da esquerda ocidental não-comunista vêem a
contradição em desenvolvimento entre os Estados Unidos e a China em
termos de uma rivalidade inter-imperialista. Tal caraterização cumpre
três funções teóricas distintas do ponto de vista deles:   primeiro,
fornece uma explicação para a crescente contradição entre os EUA e a
China;   segundo, fá-lo utilizando um conceito leninista e dentro de um
paradigma leninista; e terceiro, critica a China como uma potência
imperialista emergente e, portanto, por inferência, uma economia
capitalista, o que está em conformidade com uma crítica
ultra-esquerdista da China.

Tal caraterização ironicamente torna esses segmentos da esquerda
implícita ou explicitamente cúmplices das maquinações do imperialismo
norte-americano contra a China. Na melhor das hipóteses, leva a uma
posição que sustenta que ambos são países imperialistas, de modo que não
faria sentido apoiar um contra o outro; na pior, leva a apoiar os EUA
contra a China como o "mal menor" no conflito entre essas duas potências
imperialistas. Em qualquer dos casos, leva à obliteração de uma posição
oposicionista em relação às posturas agressivas do imperialismo dos EUA
em relação à China; e uma vez que os dois países estão em desacordo na
maioria das questões contemporâneas, leva a um silenciamento geral da
oposição ao imperialismo dos EUA.

Há já algum tempo que sectores significativos da esquerda ocidental,
mesmo aqueles que professam oposição ao imperialismo ocidental, têm
apoiado as acções deste imperialismo em situações específicas. Isso foi
evidente no seu apoio ao bombardeamento da Sérvia quando esse país era
governado por Slobodan Milosevich; é evidente atualmente no apoio à NATO
na guerra em curso na Ucrânia; e é também evidente na sua chocante falta
de qualquer oposição forte ao genocídio que está a ser perpetrado por
Israel contra o povo palestino em Gaza com o apoio ativo do imperialismo
ocidental. O silêncio ou o apoio à posição agressiva do imperialismo em
relação à China por parte de certos sectores da esquerda ocidental não
é, sem dúvida, necessariamente idêntico a estas posições, mas está em
conformidade com elas.

Uma tal posição, que não se opõe frontalmente ao imperialismo ocidental,
está, ironicamente, em total desacordo com os interesses e as atitudes
da classe trabalhadora nos países metropolitanos. A classe trabalhadora
na Europa, por exemplo, opõe-se esmagadoramente à guerra por procuração
da NATO na Ucrânia, como é evidente em muitos casos de recusa dos
trabalhadores em transportar carregamentos de armas europeias destinadas
à Ucrânia. Isto não é surpreendente, pois a guerra também teve um
impacto direto na vida dos trabalhadores ao agravar a inflação. Mas a
ausência de qualquer oposição frontal da esquerda à guerra está a fazer
com que muitos trabalhadores se voltem para os partidos de direita pois,
mesmo que estes se alinhem com as posições imperialistas quando chegam
ao poder, como Meloni fez na Itália, são pelo menos críticos dessas
posições quando estão na oposição. A passividade da esquerda ocidental
face ao imperialismo do ocidente está assim a provocar uma deslocação de
todo o centro de gravidade político para a direita em grande parte da
metrópole. Encarar a contradição entre os EUA e a China como uma
rivalidade inter-imperialista faz parte desta narrativa.

Quanto ao facto de a China ser uma economia capitalista e, por
conseguinte, estar envolvida em actividades imperialistas em todo o
mundo em rivalidade com os EUA, os que defendem este ponto de vista
estão, na melhor das hipóteses, a assumir uma posição moralista e a
confundir "capitalista" com "mau" e "socialista" com "bom". A sua
posição equivale, de facto, a dizer:   Eu tenho a minha noção de como
uma sociedade socialista se deve comportar (que é uma noção idealizada)
e se o comportamento da China em alguns aspectos difere da minha noção,
então, /ipso facto,/ a China não pode ser socialista e, portanto, deve
ser capitalista. No entanto, os termos capitalista e socialista têm
significados muito específicos, que implicam a sua associação a tipos
muito específicos de dinâmicas, cada tipo enraizado em certas relações
básicas de propriedade. É verdade que a China tem um sector capitalista
significativo, nomeadamente um sector caracterizado por relações de
propriedade capitalistas, mas a maior parte da economia chinesa continua
a ser propriedade do Estado e a caraterizar-se por uma direção
centralizada que a impede de ter a auto-direção (ou "espontaneidade")
que caracteriza o capitalismo. Podemos criticar muitos aspectos da
economia e da sociedade chinesas, mas chamar-lhe "capitalista" e, por
conseguinte, envolvida em actividades imperialistas ao nível das
economias metropolitanas ocidentais, é uma farsa. Não só é
analiticamente incorreto como conduz a uma praxis que é palpavelmente
contrária aos interesses tanto das classes trabalhadoras das metrópoles
como dos trabalhadores do Sul global.

Mas a questão que se coloca de imediato é a seguinte:   se a contradição
EUA-China não é uma manifestação da rivalidade inter-imperialista, então
como podemos explicar a sua proeminência no período mais recente? Para o
compreender, temos de recuar até ao período pós-Segunda Guerra Mundial.
O capitalismo emergiu da guerra muito enfraquecido e enfrentando uma
crise existencial:   a classe trabalhadora nas metrópoles não estava
disposta a regressar ao capitalismo do pré-guerra, que tinha implicado
desemprego e miséria em massa; o socialismo havia feito grandes
progressos em todo o mundo; e as lutas de libertação no Sul global
contra a opressão colonial e semi-colonial haviam atingido um verdadeiro
crescendo. Por conseguinte, para a sua própria sobrevivência, o
capitalismo teve de fazer uma série de concessões:   a introdução do
sufrágio universal dos adultos, a adoção de medidas do
Estado-providência, a instituição da intervenção do Estado na gestão da
procura e, acima de tudo, a aceitação da descolonização política formal.

No entanto, a descolonização política não significou a descolonização
económica, ou seja, a transferência do controlo dos recursos do terceiro
mundo, até então exercido pelo capital metropolitano, para os países
recém-independentes; na verdade, contra essas transferências o
imperialismo travou uma luta amarga e prolongada, marcada pelo derrube
de governos liderados por Arbenz, Mossadegh, Allende, Cheddi Jagan,
Lumumba e muitos outros. Mesmo assim, o capital metropolitano não
conseguiu impedir que os recursos do Terceiro Mundo escapassem, em
muitos casos, ao seu controlo, para os regimes dirigistas que surgiram
nesses países após a descolonização.

A maré virou a favor do imperialismo com o aparecimento de uma fase
superior de centralização do capital que deu origem ao capital
globalizado, incluindo sobretudo as finanças globalizadas, e com o
colapso da União Soviética que, por sua vez, não foi totalmente alheio à
globalização das finanças. O imperialismo enredou os países na teia da
globalização e, por conseguinte, no vórtice dos fluxos financeiros
globais, forçando-os, sob a ameaça de saídas financeiras, a seguir
políticas neoliberais que significaram o fim dos regimes dirigistas e a
reaquisição do controlo, pelo capital metropolitano, de grande parte dos
recursos do Terceiro Mundo, incluindo a utilização da terra no Terceiro
Mundo.

É neste contexto de reafirmação da hegemonia imperialista que se pode
compreender o agravamento da contradição EUA-China e muitos outros
desenvolvimentos contemporâneos, como a guerra na Ucrânia. Há duas
características desta reafirmação que precisam de ser notadas:   a
primeira é que o acesso ao mercado metropolitano para bens de países
como a China, juntamente com a vontade do capital metropolitano de
instalar fábricas nesses países para tirar partido dos seus salários
comparativamente mais baixos para satisfazer a procura global, acelerou
a taxa de crescimento nestas economias (e apenas nelas) do Sul global;
fê-lo na China a um ponto em que a principal potência metropolitana, os
EUA, começou a ver a China como uma ameaça. A segunda caraterística é a
crise do capitalismo neoliberal que emergiu com virulência após o
colapso da "bolha" imobiliária nos EUA.

Por ambas as razões, os Estados Unidos gostariam agora de proteger a sua
economia contra as importações da China e de outros países do Sul global
em situação semelhante. Embora essas importações possam estar a ocorrer,
pelo menos em parte, sob a égide do capital americano, os EUA não podem
correr o risco de se "desindustrializarem". A vontade dos EUA de
"reduzir a China" tão pouco tempo depois de a terem saudado pelas suas
"reformas económicas" enraíza-se assim nas contradições do capitalismo
neoliberal e, portanto, na própria lógica inerente à reafirmação da
hegemonia imperialista. Não é a rivalidade inter-imperialista, mas a
resistência da China, e de outros países que lhe seguem o exemplo, à
reafirmação da hegemonia do imperialismo ocidental que explica o
agravamento das contradições entre os EUA e a China.

À medida que a crise capitalista se acentua, à medida que aumenta a
opressão dos países do terceiro mundo devido à sua incapacidade de pagar
o serviço da sua dívida externa através da imposição de "austeridade"
por agências imperialistas como o FMI, e que, por sua vez, suscita uma
maior resistência por parte desses países e uma maior ajuda da China, as
contradições EUA-China tornar-se-ão mais agudas e os requisitórios
contra a China no Ocidente tornar-se-ão mais estridentes.


        05/Novembro/2023
Em
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/patnaik/patnaik_05nov23.html
5/11/2023

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

“Si las luchas no se enmarcan en una estrategia de conquista del poder político por la clase obrera, desaparecen sin dejar rastro.”

 

Coordinación Núcleos Comunistas

La ofensiva de la burguesía contra el proletariado (todos y todas quien
necesitamos nuestra fuerza de trabajo para poder vivir) es brutal y en
todos los frentes: paro, precariedad laboral, carestía de la vida,
desahucios, destrucción y privatización de los servicios públicos.
Responde a la mayor crisis de la historia del sistema capitalista, una
crisis estructural y sin solución y que pretende cargar esa crisis sobre
nuestras espaldas.

Tras las movilizaciones populares de hace 10 años (15M y Marchas de la
Dignidad) que la burguesía supo canalizar electoralmente, la sustitución
de la lucha de clases por el pacto social que desde hace tiempo viene
propiciando el revisionismo se ha saldado en la clase obrera y demás
sectores populares con un incremento de la desmovilización y extensión
de un sentimiento de impotencia. El incremento espectacular de los
suicidios, del consumo de fármacos y el auge de la extrema derecha, son
buena muestra de ello.

La guerra de la OTAN contra Rusia, el belicismo feroz del imperialismo
encabezado por los EEUU y la pandemia Covid, además de estar produciendo
una masiva transferencia de recursos públicos de nuestro dinero, a
empresas privadas -armamentísticas y farmacéuticas- están siendo
utilizadas para incrementar los mecanismos de control social, de
represión y manipulación informativa.

Son precisamente las épocas de crisis y de guerras cuando el capitalismo
muestra su debilidad y más precisamente en la crisis actual, al tratarse
de una profunda crisis estructural de un sistema agónico que es incapaz
de garantizar las más mínimas condiciones de vida a la mayoría de la
sociedad y solo ofrece miseria, destrucción y guerra afectando de forma
especial a la mujer y a la juventud de extracción obrera.

Las luchas obreras tantas veces heroicas que se dan en diferentes
sectores, cuando no son directamente traicionadas por los sindicatos del
poder, surgen y decaen, sin dejar tras de sí un poso de nuevas formas de
organización, de modo que cada vez hay que empezar de nuevo. Además, en
tiempos de crisis el margen de maniobra es muy pequeño, lo poco que se
consigue por un lado (subidas salariales) se pierde por el otro (subida
de alquileres, de hipotecas, carestía de la vida, destrucción de
servicios públicos, etc.) siendo lo normal que se luche no para
conseguir algún logro, si no para mantener lo que ya se tenía.

El nuevo modelo de explotación capitalista se caracteriza por la
desaparición del trabajo fijo con contratos eventuales por días,
semanas, saltando de una empresa a otra, lo que hace muy difícil la
relación entre compañeros, convirtiendo a los trabajadores en
competidores entre sí para la mera conservación del puesto de trabajo.
Éstos rentan salarios de miseria con los que es muy difícil llegar al
final de mes y niegan a la juventud un futuro donde pueda tener una vida
digna.

En este contexto, la organización de la clase obrera más combativa debe
de ser el trabajo fundamental de los comunistas. El primer paso en esa
dirección se dio el pasado 17 de junio cuando varias organizaciones
comunistas convocamos una asamblea en Madrid, en que debatimos sobre la
situación actual y llegamos a un acuerdo de trabajo con las siguientes
directrices:

-Construir un instrumento de coordinación independiente de la afiliación
sindical, que sirva para el apoyo, la comunicación y la divulgación de
las diferentes luchas obreras que se están dando en la actualidad.

-Luchar por imponer en cada empresa el poder decisorio de la asamblea,
por encima de los propios comités de empresa.

-Trabajar para constituir con los y las compañeras más conscientes y más
comprometidas, comités, cuyas funciones más políticas que sindicales
sean: analizar los errores y los éxitos de cada lucha garantizando su
continuidad, elevar el nivel de conciencia y organización para preparar
la siguiente lucha, informar sobre las diferentes luchas que se están
dando y reforzar lazos de solidaridad entre ellas.

Y sobre todo trabajar por que los compañeros y compañeras sean
conscientes de los límites inevitables de la lucha sindical y que vean
la necesidad insoslayable de organizarse para la toma del poder político
por la clase obrera.

/Artículo de la Revista Conciencia de clase Nº 0 ( otoño )/

Em
COORDINACIÓN NÚCLEOS COMUNISTAS
https://cnc2022.wordpress.com/2023/11/02/si-las-luchas-no-se-enmarcan-en-una-estrategia-de-conquista-del-poder-politico-por-la-clase-obrera-desaparecen-sin-dejar-rastro/
3/11/2023