terça-feira, 17 de outubro de 2023

A censura militar israelita esconde-vos a verdade

 

 

Thierry Meyssan

Era a informação mais importante da operação « Torrente de Al-Aqsa »,
mas, no entanto, escapou-nos. O ataque a Israel não foi conduzido pelos
jiadistas do Hamas, mas por quatro grupos armados unidos. É a primeira
vez, desde há cinquenta anos, que os Palestinianos de Gaza se juntam.
Queira-se ou não, os longos anos de indiferença ocidental pela sorte dos
Palestinianos terminaram. Agora, vai ser preciso começar à aplicar o
Direito Internacional.
Rede Voltaire | 14 de Outubro de 2023


Este artigo dá sequência a :

    • « Mudança de paradigma na Palestina
    <https://www.voltairenet.org/article219800.html> », /Rede Voltaire/,
    11 de Outubro de 2023.

Contrariamente àquilo que escrevi na semana passada, com base nos
despachos das agências de imprensa ocidentais e árabes, o ataque de
Israel de 7 de Outubro, de 2023 (Operação « Torrente de Al-Aqsa ») não
foi apenas perpetrado pelo Hamas. O seu desencadeamento foi decidido por
uma câmara de operações unitária do conjunto da Resistência
Palestiniana. O Hamas, que é de longe o principal componente, forneceu o
essencial das tropas, mas três outros grupos participaram :
a Jihad islâmica (sunnita e khomeynista),
a Frente popular de libertação da Palestina (marxista)
e a Frente popular de libertação da Palestina-Comando Geral (FPLP-CG).
A imprensa ocidental deu conta dos crimes bárbaros cometidos por alguns
dos atacantes, mas não da delicadeza de alguns outros. Este jornalismo
vesgo não deve espantar-nos.

Esta precisão modifica a interpretação do acontecimento. Já não se trata
mais de uma operação jiadista dos Irmãos Muçulmanos, mas de um ataque do
conjunto dos Palestinianos de Gaza. Apenas a Fatah da Cisjordânia, que
se mantêm à parte dos grupos citados acima e cujo Presidente, Mahmud
Abbas, está gravemente doente, não participou.

O objectivo desta operação não era de «matar judeus», mesmo que alguns
jiadistas do Hamas o tenham feito, mas sim fazer prisioneiros, civis e
militares, para os trocar pelos detidos árabes das prisões de alta
segurança israelitas (israelenses-br) [1 <#nb1>]. Estes nem sempre são
combatentes, mas por vezes civis. Eles foram levados sem poder trocar de
roupa, para lembrar o modo como o Exército israelita tratara os
prisioneiros egípcios no final da Guerra dos Seis Dias.

Lembremos que o conflito israelo-palestiniano não opõe dois Estados (o
de Israel ainda não tem fronteiras e o da Palestina ainda não é
reconhecido), mas sim duas populações. Esta é uma situação especial : os
Palestinianos não são representados por um Estado e os Israelitas têm
responsabilidades adicionais enquanto potência ocupante.

Estes eventos ocorrem quando, em 15 de Maio de 2023, o Conselho de
Cooperação do Golfo, o Grupo dos 77, a Liga dos Estados Árabes, a
Organização de Cooperação Islâmica e a China apelaram à suspensão de
Israel das Nações Unidas até que Telavive respeite os seus próprios
compromissos [2 <#nb2>] .


    1° A Operação « Torrente de Al-Aqsa » surpreendeu Israel ?

Contrariamente ao que pretendeu o Governo de coligação de Benjamin
Netanyahu, a « Torrente de Al-Aqsa » não surpreendeu Israel. Este ataque
estava planeado desde os enfrentamentos de Maio de 2021.

• Segundo a CNN, o Hamas treinou os seus combatentes tendo em vista
desta operação durante um ano e meio [3 <#nb3>]. Ele construiu seis
campos de treino em Gaza e gravou aí filmes promocionais. Vídeos destes
treinos foram publicados semanas antes do ataque [4 <#nb4>].

• Em Março de 2023, o Hamas enviou uma grande delegação à Rússia. Nesta
ocasião, fez saber ao Ministro russo dos Negócios Estrangeiros (Relações
Exteriores-br), Serguei Lavrov, que a sua paciência estava esgotada e
que a sua raiva vinha « a caminho ».

• Em 2023, o Irão organizou debates entre as diversas forças
anti-Israelitas da região, o Hezbolla, a Jihad islâmica e o Hamas. Elas
realizaram-se em Beirute (Líbano) sob a presidência do General Ismaïl
Qaani, Comandante das brigadas al-Qods dos Guardas da Revolução
iraniana. Elas tinha por fim reconciliar estes actores que tinham
travado uma guerra feroz em Gaza e depois na Síria. Estas reuniões foram
tornadas públicas, em Maio de 2003. Nesta ocasião a imprensa libanesa
evocou a preparação da operação unida de 7 de Outubro. O Irão é, pois,
responsável pela reconciliação das facções palestinianas.

• Em 30 de Outubro, o Ministro egípcio da Inteligência, Kamel Abbas,
telefonou ao Primeiro-Ministro israelita para o avisar de uma grande
operação do Hamas contra Israel [5 <#nb5>]. O Egipto que combate os
Irmãos Muçulmanos estava inquieto por ver Israel continuar a deixá-los
desenvolverem-se.

• Em 5 de Outubro, a CIA avisou a Mossad sobre uma grande operação da
Resistência palestiniana unificada. Os Estados Unidos estavam
preocupados com a sua amplitude. No entanto, segundo o /New York Times,/
os relatórios da CIA (28 de Setembro e 5 de Outubro), ainda
classificados, não mencionam a utilização de novas técnicas de combate
pela Resistência palestiniana.
Os Serviços de Inteligência israelitas realizaram então uma reunião para
avaliar a ameaça. O Shin Bet (contra-espionagem) e o Amman (Inteligência
militar) participaram nela.

Portanto, o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu e o seu Gabinete
mentiram aos seus cidadãos ao fingirem ter sido surpreendidos pelo Hamas.


    2° Porque é que Israel deixou matar os seus ?

Várias hipóteses são possíveis. Eis aqui quatro :
• Os colonos habitando ilegalmente na Cisjordânia são omnipresentes no
governo israelita de coligação. Estavam cegos e surdos ao que se tramava
em Gaza.
• Benjamin Netanyahu, retomando a ideologia de seu pai, Benzion
Netanyahu, e do mentor deste, o Ucraniano Vladimir Jabotinsky, pensava
acabar com a presença palestiniana tanto em Gaza como na Cisjordânia.
Era esse quem descrevia a Palestina geográfica como « Uma terra sem
Povo, para um Povo sem terra ».
• Benjamin Netanyahu, retomando um velho projecto, desejava criar um
pretexto para justificar uma guerra contra o Irão e estender a
influência de Israel no Médio-Oriente.
• Os discípulos norte-americanos do fascista alemão Leo Strauss,
prosseguindo aquilo que fazem já na Ucrânia, desejavam criar um pretexto
para justificar uma guerra mais ampla contra a Rússia.
Estas quatro hipóteses não se excluem umas às outras, nem são exaustivas.


    3° O paralelo com o 11-de-Setembro

Os dirigentes israelitas estabeleceram um paralelo entre a versão
oficial do ataque do Hamas e a versão oficial dos atentados de 11 de
Setembro de 2001 nos Estados Unidos. Trata-se, para eles, de sublinhar a
barbárie do adversário, a surpresa do campo do Bem e de justificar as
guerras que se seguirão.

Este paralelo alimenta-se do facto de o Hamas se reivindicar como o ramo
palestiniano da Confraria dos Irmãos Muçulmanos, enquanto Osama Bin
Laden fora treinado por Mohammad Qutb, irmão de sangue do cérebro da
Confraria, Sayyid Qutb.

Este paralelo não tem base : é impossível que os atentados do
11-de-Setembro tenham sido perpetrados pela Alcaida. As autoridades
norte-americanas jamais foram capazes de responder às minhas objecções
[6] da sua versão. Além disso, desde estes acontecimentos novos
elementos apareceram contradizendo a Administração do Presidente George
W. Bush. Hoje em dia, 54% dos Norte-Americanos não acreditam na versão
da Comissão de Inquérito Presidencial.

No entanto, embora continuemos a ignorar quem organizou exactamente os
atentados do 11-de-Setembro, identificou-se um grupo que está implicado,
o do Projecto para um Novo Século Americano (PNAC em inglês-ndT). Assim,
um dos seus principais membros, Elliott Abrams, é o organizador da
mudança de regime que Benjamin Netanyahu levou a cabo em Israel e que a
sua Oposição qualificou como « Golpe de Estado » [6 <#nb6>]. Ora, este
indivíduo tem um pesado passado criminoso (nomeadamente, ele está
implicado no genocídio de Maias pelo terrorista israelita Yitzhak Shamir
e o General guatemalteco Efraín Ríos Montt [7 <#nb7>]. Foi condenado nos
Estados Unidos pelas suas mentiras [8 <#nb8>] e o seu papel no escândalo
Irão-Contras), pode-se razoavelmente questionar o seu eventual papel na
passividade de Israel face à preparação do ataque do Hamas.

Em Julho último, o Presidente Joe Biden nomeou este controverso
Republicano para a Comissão consultiva bipartidária dos Estados Unidos
da diplomacia pública, ou seja, para a supervisão da propaganda dos EUA
no mundo.


    4° Quem armou o Hamas ?

Uma operação tão sofisticada implica recursos e informações dos quais só
um Estado dispõe. As armas que utilizou eram originárias dos Estados
Unidos, da União Soviética e da Coreia do Norte. Elas circulam no Líbano
e na Palestina.

Três hipóteses foram formuladas :

= A hipótese de responsabilidade iraniana deve ser rejeitada devido ao
acordo celebrado entre Hassan al-Banna, o fundador da Confraria dos
Irmãos Muçulmanos, e Rouhollah Khomeini, o fundador da República
islâmica do Irão. Além disso, o Irão desmentiu já nas Nações Unidas, com
veemência, qualquer responsabilidade. É esta, no entanto, a teoria
defendida por Elliott Abrams [9 <#nb9>]. O Irão não é responsável pela «
Torrente de Al-Aqsa », mas sim pela reconciliação das facções palestinianas.

= A hipótese da responsabilidade russa não assenta em nenhuma prova.
Quando muito pode notar-se que o conflito na Palestina absorverá os
meios dos Ocidentais e, portanto, diminuirá a sua pressão na Ucrânia. Da
mesma forma, pode-se antecipar uma alta dos preços dos hidrocarbonetos,
favorável a Moscovo (Moscou-br). No entanto, a Rússia não tem meios para
lançar uma nova frente quando já se bate na Ucrânia. Além disso, Moscovo
não parou de combater as milícias oriundas da Confraria dos Irmãos
Muçulmanos desde a criação da Federação da Rússia. É, no entanto, a
teoria que o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, defendeu perante
os 31 Ministros da Defesa da OTAN, em Bruxelas, no dia 11 de Outubro [10
<#nb10>]. O Ministro israelita da Defesa, Yoav Galant, interviu por
vídeo no mesmo senso [11 <#nb11>].

= A hipótese de uma responsabilidade turca, por outro lado, mantêm-se
sempre. Para além de o Presidente Recep Tayyip Erdoğan ter organizado o
último congresso do Hamas na Turquia, os principais dirigentes do Hamas
residem hoje em dia na Turquia, enquanto os membros da Confraria dos
Irmãos Muçulmanos, enquanto organismo internacional, partilham
residências entre o Reino Unido, o Catar e a Turquia. Ora, sabendo que a
CIA seguia a preparação da operação do Hamas, o Secretário de Estado dos
EUA, Antony Blinken, telefonou ao seu homólogo turco e antigo chefe dos
Serviços Secretos, Hakan Fidan, na noite de 6 para 7 de Outubro [12
<#nb12>], quer dizer no momento em que o Hamas lançava o seu ataque e
antes mesmo de o Exército israelita reagir. A seguir, Antony Blinken
telefonou aos seus homólogos em Israel e na Palestina, e novamente [13
<#nb13>] e ainda [14 <#nb14>] na Turquia.
Por fim, durante a cimeira dos ministros da defesa da OTAN, o Secretário
Loyd Austin revelou que os Estados Unidos haviam pedido à Turquia para
intervir a fim de fazer libertar os reféns dos EUA. No entanto, não
especificou se esta decisão tinha sido tomada antes ou depois do envio
do grupo naval /USS Gerald Ford/.


    5° Que diz o Direito Internacional a propósito do diferendo
    israelo-palestiniano ?

Segundo as Nações Unidas, os Palestinianos têm direito a um Estado
soberano dentro das fronteiras de 1967 com Jerusalém Leste como capital.
Esta fórmula implica que :
• O Estado da Palestina tem o direito a dispor do seu próprio exército
(ao que Israel se opõe sem descanso) ;
• O conjunto das colónias judaicas post-1967 e Jerusalém Leste devem ser
restituídos ao Estado da Palestina.
• Cada Palestiniano, ou titular de direitos, terá o direito de regressar
a Israel e de aí se estabelecer (direito ao regresso). Israel deverá
indemnizar aqueles cujos bens foram reciclados ou destruídos.

De acordo com as Nações Unidas, os Israelitas têm direito a um Estado
soberano dentro das fronteiras de 1967, com Jerusalém Ocidental como
capital. Esta fórmula implica que:
• Israel tem o direito a dispor do seu próprio exército (de que dispõe já)
• O conjunto das colónias judaicas post-1967 e de Jerusalém Leste devem
ser restituídos ao Estado da Palestina. Não será impossível que
Israelitas aí continuem a habitar, mas isso será enquanto estrangeiros.
• Israel deverá conceder o direito de residência a cada palestiniano, ou
titular de direitos, expulso em 1948, que o solicite. Israel deverá
restituir-lhe os seus bens ou indemnizá-lo (direito de regresso).

Inicialmente, estes dois Estados (Palestina e Israel) deviam ser
federados no seio de um Estado supranacional binacional. Isto é
claramente impossível de momento. Pode-se imaginar que uma força de paz
internacional venha se interpor entre a Palestina e Israel. De novo,
isso parece difícil. Por um lado, porque ninguém vai querer fazer parte
dela e, por outro lado, porque não é o que previam as Nações Unidas
originalmente. Esta previa o envio de observadores de manutenção da paz,
mas não força militar de interposição. Por fim, pode-se imaginar
desmilitarizar os dois Estados e dar-lhes garantias de não-agressão
pelos vizinhos.

Todos compreendem claramente que o Direito Internacional impõe perdas
consideráveis de território e de bens para Israel, ao passo que apenas
envolve o abandono de reivindicações para a Palestina. Mas é o preço da
justiça e da paz.


    6° Qual é a reacção de Israel ?

A coligação de Benjamin Netanyahu, que inclui supremacistas judeus
comparáveis aos supremacistas muçulmanos do Hamas, mudou em Agosto as
leis fundamentais de Israel, um Estado sem constituição. Segundo a
opinião dos observadores, nomeadamente da imprensa norte-americana, o
governo procedeu a um «Golpe de Estado» ao suprimir a independência da
Justiça. Manifestações monstras sacudiram Israel durante vários meses.

Face ao ataque que está a sofrer, Israel só poderá sobreviver aceitando
unir a sua classe dirigente. O antigo Primeiro-Ministro Yair Lapid
exigiu que os ministros supremacistas judaicos se demitam para que ele
possa participar num governo de unidade nacional. Itamar Ben-Gvir
(Ministro da Segurança Interna) e Bezalel Smotrich (Ministro das
Finanças) apoiaram desde que estão no Governo três pogroms anti-árabes,
nomeadamente o de Hawarrah [15 <#nb15>]. No entanto, o antigo Ministro
da Defesa, o General Benny Ganz, não colocou a mesma condição. Em última
análise, o actual Primeiro-Ministro decidiu incluí-los ambos no seu
governo, sem demitir os supremacistas judaicos. Mas, criou um conselho
de guerra, do qual os supremacistas judaicos estão excluídos.

Nesse momento, a censura militar entrou em cena. Ela é tão forte que o
Ministro da Informação, Distel Atbaryan, se demitiu em plena guerra.

Não é possível conhecer a exacta composição deste conselho de guerra
cujas deliberações são muito acaloradas. Sabe-se apenas que o Ministro
da Defesa, o General Yoav Gallant, não está no mesmo comprimento de onda
que o seu predecessor, o General Benny Ganz. A tal ponto que o
Primeiro-Ministro chamou em socorro o antigo Chefe de Estado-Maior, o
General Gadi Eizenkot, partidário de bombardeamentos maciços de civis,
para que ele participasse nas deliberações do conselho a título de
observador. Em caso algum, devem os Israelitas e o resto do mundo saber
como uns e outros reagem à passividade de Benjamin Netanyahu face à
preparação da Operação « Torrente de Al-Aqsa » e às primeiras horas da
sua aplicação. Da mesma forma, ninguém sabe o que este conselho de
guerra decidiu. Até o próprio Presidente, Isaac Herzog, foi mantido fora
das deliberações.

Parece que os debates evocaram a expulsão para o Egipto ou o massacre
dos dois milhões de habitantes de Gaza. Foi por isso que o Secretário de
Estado dos EUA, Antony Blinken, foi de urgência a Telavive apelar à calma.


    7° Como é que as coisas podem evoluir ?

O Direito Internacional dá o direito a Israel de se defender face ao
ataque que sofre. Foi o que fez durante cinco dias ao perseguir os
atacantes que tinham introduzido no seu território. Em seguida, Israel
iniciou o cerco de Gaza, enquanto o Exército israelita bombardeava a
Cidade de Gaza (mas não o sul da Faixa de Gaza). Esta operação viola
mais uma vez o Direito Internacional. Se se pode admitir que Israel
dispõe de um direito perseguição dos combatentes palestinianos em Gaza,
o cerco à Faixa de Gaza e o bombardeamento de edifícios civis são crimes
de guerra. Durante uma conferência de imprensa, ficou claro que o
Presidente de Israel, Isaac Herzog, ignora o que o seu Exército prepara.

Reportando-se à posição da Liga Árabe desde a Guerra dos Seis Dias, o
Egipto fechou a sua fronteira com Gaza. A Liga entende apoiar as
reivindicações palestinianas e recusa, pois, qualquer transferência de
população e qualquer naturalização. Além disso, o Cairo não pretende
assumir a responsabilidade por 2 milhões de imigrantes e sobretudo do
Hamas, cuja casa-mãe, a Confraria dos Irmãos Muçulmanos, é interdita no
Egipto.
O Exército israelita está pronto para reocupar a Faixa de Gaza. Ele
coloca-se a toda a volta. A ocupação de Gaza constituiria uma violação
do Direito Internacional, enquanto uma guerra contra-insurreicional
seria, em si mesma, um crime de guerra.

Os Estados Unidos enviaram armas e munições para Israel. Eles deslocaram
um grupo naval para a costa de Gaza (o porta-aviões /USS Gerald Ford/, o
cruzador lança-mísseis guiados /USS Normandy/ e os quatro destróieres de
mísseis guiados /USS Thomas Hudner, USS Ramage, USS Carney/ e /USS
Roosevelt/), depois um segundo grupo naval (o porta-aviões /USS
Eisenhower/, o cruzador lança-mísseis guiados /USS Philippine Sea/ e os
três destróieres de mísseis guiados /USS Laboon, USS Mason/ e /USS
Gravely/). No entanto, apelaram Israel à contenção.

Parece impossível que Israel possa levar ao seu termo o projecto de
Vladimir Jabotinsky e esvaziar à força a Faixa de Gaza dos seus dois
milhões de habitantes, sem intervenção internacional, a começar pela do
Hezbolla. Uma retirada do Exército é o mais provável.

Em
Voltaire.net.org
https://www.voltairenet.org/article219849.html
11/10/2023

sábado, 14 de outubro de 2023

Alguns elementos de análise acerca da situação palestina

 
 


    CNC [*]

Cartoon Gaza, autor desconhecido.

Tudo o que publicam os grandes meios de comunicação, desde a primeira
letra até a última, e hoje mais do que nunca, é propaganda de guerra.
Sabemos, ou deveríamos saber, que seus proprietários são os grandes
fundos de investimento, as empresas multinacionais e os principais
bancos, todos eles em grande medida penetrados pelo grande capital
sionista. Por outro lado, os meios alternativos, muitos deles bem
intencionados, dão crédito a ficções propagadas por aqueles mesmos
meios, ou a análises falsas que contribuem para estender a confusão e,
em definitivo, tentar minar a solidariedade com a Palestina. Essas
“notícias” centram-se hoje em atribuir exclusivamente ao Hamas –
organização islamita e portanto pouco confiável – as ações militares
palestinas do dia 7 de Outubro contra o estado sionistas e em difundir
que o governo de Netanyahu estava a par de tudo e que teria facilitado o
ataque para distrair a atenção das suas dificuldades internas.

A confusão subjacente a estas análises e consequência dessa tendência
tão extensa de analisar os acontecimentos a partir do instantâneo do
momento, ignorando ou afastando os processos históricos que os explicam.

A linha geral que forjou o plano político implementado pelo imperialismo
sionista no Oriente Próximo foi aplicar o “divide e impera” para
submeter e dominar seus povos. Seu instrumento foi a instigação das
diferenças religiosas, étnicas ou estatais, em virtude de, nestas
últimas, de fronteiras desenhadas pelas potências coloniais. Além disso,
sua nova estratégia foi armar, organizar e por ao seu serviço o
islamismo mais integrista e retrógrado (Al Qaeda, ISIS, Boko Haram,
etc). Estas organizações funcionaram como milícias subcontratadas para
destruir e saquear esses países. Esta estratégia foi aplicada na guerra
Irão-Iraque, na ocupação do Iraque, Líbia, Iémen, Síria, muito antes na
Jugoslávia e agora na Ucrânia.

A vitória do Líbano, a primeira de um país árabe contra Israel, no ano
de 2006, marca um ponto de ruptura. O Hezbolá foi capaz de promover uma
aliança com forças cristãs, comunistas e de outros credos e ideologias
para confrontar e vencer o estado sionista. Além disso, começou a
erigir, na base desta vitória histórica, o Eixo da Resistência
Anti-imperialista e Anti-sionista, como Bloco Histórico – explicitamente
relacionaram-no com o conceito de bloco histórico gramsciano – laico, em
escala regional. Fizeram-no na base, profundamente inscrita no
sentimento árabe e muçulmano, de considerar a luta do povo palestino
contra o estado sionista, como coluna vertebral de toda a sua estratégia.

Sobre estes fundamentos, estritamente políticos, começou-se a articular
o Eixo da Resistência. Este posicionamento político levou-o a apoiar
militarmente a Síria, o Iémen e qualquer povo, sobretudo o palestino,
atuando como uma frente comum a partir da qual se lutava contra o
imperialismo sionista. Este processo permitiu algo inédito na Palestina,
que se foi forjando ao longo dos anos.

Forças que se haviam enfrentado, inclusive militarmente, como o Hamas, a
Jihad Islâmica ou a Frente Popular para a Libertação da Palestina, foram
superando suas diferenças para conseguir articular uma frente comum
contra o inimigo sionista e desmascarar a cumplicidade com o ocupante da
Autoridade Nacional Palestina praguejada de corrupção.

Foi esta nova perspectiva histórica que permitiu esta nova vitória da
Resistência Palestina. A unidade política e militar da Resistência é o
produto necessário do desenvolvimento deste caminho de confluência árabe
e muçulmana, anti-imperialista e anti-sionista que, obviamente, se vê
favorecido pelas mudanças no cenário internacional que representam o
apoio da Rússia ao governo sírio ou a nova incorporação aos BRICS do
Irão, Egito ou Emirados Árabes Unidos. Tal como o que ocorreu em 2006, e
como ocorre em qualquer vitória de um povo contra um inimigo
potencialmente mais poderoso, a capacidade da Resistência Palestina para
levar a cabo ações da envergadura que temos visto representa, sobretudo,
o mito da invulnerabilidade do inimigo. A demonstração prática de que é
possível vencer o exército mais poderoso da região, e um dos mais fortes
do mundo, é a maior potência que estrutura e se incorpora à luta de
massas, antes esmagadas pelo sentimento de impotência.

Mas qualquer um que assuma a determinação de lutar contra uma força
incomparavelmente maior, não o faz de peito descoberto, frontalmente. Um
dos elementos fundamentais é conhecer as contradições internas do
inimigo e atacar quando a sua debilidade é maior. O ataque da
Resistência Palestina preparado desde há tempos, que também tem seus
serviços de inteligência, verificou-se no momento mais adequado, quando
o Estado de Israel estava mais debilitado.

O massacre selvagem desencadeado pelo estado de Israel sobre a população
civil de Gaza que se seguiu foi acompanhado pelo infame apoio ao estado
sionista por parte dos EUA e da UE, bem como por todos os meios de
comunicação “ocidentais”.

Durante 75 anos o estado de Israel martirizou o povo palestino, apesar
de 60% das Resoluções da Assembleia da ONU desde 1948 serem de
condenação ao estado sionista e de apoio aos direitos do povo palestino,
inclusive o seu direito à defesa militar. Nenhuma foi cumprida, mas
cumpre-se sim o infame Acordo Comercial Preferencial entre a UE e Israel
de 1997, subordinado em teoria ao respeito dos Direitos Humanos do povo
palestino.

O povo palestino e suas organizações compreenderam que o direito
internacional não existe e que só sua unidade, sua determinação de
combater a qualquer preço e sua inscrição num processo mais amplo de
luta regional contra a dominação e o saqueio dos seus recursos, abre
caminhos de vitória.

A resposta solidária que se está a verificar em todos os países do mundo
e, sobretudo nos povos árabes e muçulmanos, é um abalo e uma ameaça
contra os governos subornados cúmplices do imperialismo sionista. Agora
não se trata só de denunciar os reiterados massacres e de solidariedade
com as vítimas. Na base da demonstração de que é possível efetuar
ataques como o que foi efetuado pela Resistência Palestina, o qual
mostra que inimigo supostamente todo-poderoso não é invulnerável, a
solidariedade internacional tem um novo alcance. É o apoio à luta armada
de um povo contra a ocupação.

Compreender no seu conjunto, na sua totalidade, os processos históricos
é condição indispensável para que os povos não sejam cúmplices,
involuntários ou não, da propaganda do inimigo. Os tempos estão a mudar.
Regados com o sangue dos mártires que os povos demonstraram ao longo de
tantos anos de luta e de resistência, o palestino sobretudo, mas também
os de outros lugares, estão a abrir-se caminhos de esperança que só são
possíveis mediante a luta decidida – também frente à sua propaganda –
contra o imperialismo sionista.


        14/Outubro/2023


    [*] Coordinación de Núcleos Comunistas (Espanha),
    coordinadoranucleoscomunistas@gmail.com

Em
RESISTIR.INFO
https://www.resistir.info/palestina/analise_14out23.html#asterisco
15/10/2023

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

La ruptura del confinamiento de Gaza, el cadáver israelí y la izquierda ante Palestina

 


 



DANIEL LOBATO BELLIDO, COMISIÓN INTERNACIONAL PARTIDO COMUNISTA DE ESPAÑA

*/La resistencia en todas sus formas por los palestinos es un ejercicio
legítimo que la izquierda no se atreve a proclamar, a pesar de haber
aplaudido a Zelensky y apoyado el envío de armas a Ucrania. La lucha
armada contra la opresión y colonización está reconocida en la legalidad
internacional, de forma implícita en el mismo preámbulo de la
Declaración Universal de Derechos Humanos
<https://www.un.org/es/about-us/universal-declaration-of-human-rights>/*

Las imágenes del 7 de octubre de 2023 con los palestinos rompiendo el
cerco del gueto de Gaza en el que llevan encerrados a la fuerza 75 años
— tras ser desposeídos de todo — van a tener un efecto histórico en
acelerar el colapso del régimen colonial, que ya era inevitable.
Mientras tanto, meses atrás habían aparecido algunos términos novedosos
en el congelado discurso que la izquierda solía emplear sobre Palestina
desde hace décadas.

Está por ver cómo afecta el histórico /Prison Break/ del megacampo de
confinamiento de Gaza a ese discurso, pero los primeros síntomas son de
confusión en la izquierda institucional.

¿Tienen derecho a salir los palestinos de su encierro? ¿apoyamos la
causa palestina pero a la vez son terroristas? ¿sufren un apartheid y
colonialismo pero solo debemos concederles leche y azúcar a través de
nuestras ONG? ¿Era comprensible, aunque no deseable, que los nativos
norteamericanos atacasen las filas de carromatos de colonos blancos que
avanzaban por sus praderas del Oeste americano, e incluso les
secuestrasen? ¿Y qué debemos decir entonces de los nativos palestinos
que han secuestrado a colonos israelíes mientras bailaban en una rave
techno en las tierras de los encerrados en el gueto de Gaza?

La izquierda europea y la latinoamericana, salvo contadas excepciones,
han reproducido el lenguaje confuso impuesto por los opresores del
pueblo palestino: el vocabulario contenido en los Acuerdos de Oslo de
hace 30 años. Fraudulentos Acuerdos como luego se explicará. Este
fosilizado discurso parecía estar cambiando en algunos sectores de
izquierda junto a la precipitación de eventos en Palestina.

Parecía que parte de la izquierda era capaz de ver que el tiempo
histórico se aceleraba. Otra gran parte de la izquierda, no. No
asociaban los elementos: el incremento de la opresión desde 2021 y
especialmente el resultado del enfrentamiento con Gaza en mayo de ese
año, la resistencia armada palestina multiplicando acciones y el terror
en aumento dentro del régimen a un enfrentamiento total con Líbano y
otros actores regionales. Y, sin embargo, todo forma parte de un proceso
de avance hacia un horizonte. El derribo de la jaula de Gaza del sábado
7 de octubre deja a buena parte de la izquierda aún más descolocada y
desarticulada en el lenguaje. En este artículo se analizará más adelante
esto.

Y ello simultáneo a la crisis interna del aparato israelí: convulsiones
y espasmos en forma de reiteradas elecciones anticipadas, grandes
manifestaciones de la facción de la sociedad colona que defiende una
democracia supremacista contra la que defiende la autocracia
supremacista de Netanyahu, autogolpe institucional, etc. Todo esto ya
mostraba el inicio de la descomposición del régimen israelí, y con él
arrastrando a la élite de su departamento indígena subcontratado llamado
Autoridad Palestina.

¿En realidad Palestina está en la cuenta atrás como la Argelia
colonizada de los años 40 o 50, o la Sudáfrica de los años 70?, ¿a una
generación de distancia —o menos— del fin de su opresión?.


    *El cadáver israelí que todavía camina***

El régimen israelí aparenta mantener un rol protagonista en Asia
Occidental firmando acuerdos con los regímenes árabes de alrededor,
seguirá respaldado hasta el último día por EE UU y UE, posee un ejército
muy poderoso e incluso decenas de bombas nucleares. Se podría pensar que
la actual crisis institucional israelí no es diferente a la de muchos
países occidentales. Cinco elecciones en cuatro años o grandes
manifestaciones contra un gobierno que propone reformas institucionales
no debería alarmar sobre la solidez de un régimen.

Es significativo que la disputa política entre las facciones de
israelíes estriba en conservar o suprimir el barniz de democracia
liberal de su Estado, pero ambos sectores comparten un consenso en
proseguir la limpieza étnica y el apartheid a los indígenas. Asesinar
niños palestinos
<https://www.haaretz.com/opinion/2023-05-11/ty-article-opinion/killing-children-brings-israelis-together/00000188-0641-d522-a5ce-7fc1ee370000> —como reflexionaba el autor Yossi Klein en el periódico israelí /Haaretz /el pasado mayo— produce un hermanamiento en la sociedad colona israelí, y este pilar ideológico común teóricamente otorga una robustez añadida al aparato israelí. Demócratas supremacistas frente a autócratas supremacistas, con los nativos en sus guetos correspondientes.

Sin embargo, varios muros insalvables rodean Israel y le impedirán
convertirse en una entidad colonial triunfante contra los nativos, de
las que evolucionan a ‘democracia liberal’ como Australia, Canadá o EE
UU tras conseguir saquear todo el territorio a sus dueños autóctonos.
Ese no va a ser su camino y por eso lo que observamos es una sociedad
colonial israelí consciente de ello y que se revuelve contra sí misma.

“*/*/El proyecto supremacista de colonos en Palestina está destinado a
ser una empresa fallida antes de dos décadas como fueron Argelia,
Rhodesia, Angola o Sudáfrica/*/*”

El proyecto supremacista de colonos en Palestina está destinado a ser
una empresa fallida antes de dos décadas como fueron Argelia, Rhodesia,
Angola o Sudáfrica. Las bases de ese triunfo palestino se remontan a la
Nakba de 1948 cuando la población palestina sufrió un masivo
desplazamiento forzoso, desposesión y limpieza étnica. Sin embargo, la
gran mayoría de nativos, aunque expoliados y desplazados, consiguieron
quedarse dentro del territorio palestino y sentar las bases de la
victoria demográfica actual.

Ese es el primer muro y más decisivo, la demografía. A pesar de las
sucesivas oleadas de inmigrantes judíos durante cien años a Palestina,
renombrada estas décadas como Israel, los indígenas hoy son el 52% de la
población frente al 48% de sociedad colona israelí. Sumando los nativos
que poseen una ciudadanía israelí de tercera categoría, más los nativos
que sobreviven bajo dictadura militar de distintos grados en Jerusalén,
en los guetos de Cisjordania y en el de Gaza, su número sobrepasa a la
suma de colonos.

Aceptando el mejor censo-ficción israelí que sigue incluyendo a cientos
de miles de colonos que ya se han marchado
<https://www.middleeasteye.net/news/israel-judicial-crisis-plan-exit-growing-exodus> a vivir a occidente, 7,6 millones de palestinos <https://www.pcbs.gov.ps/portals/_pcbs/PressRelease/Press_En_InterPopDay2022E.pdf> (38% menores de 15 años) superan a 7,1 millones de israelíes judíos <https://www.jewishvirtuallibrary.org/latest-population-statistics-for-israel> (28% menores de 15 años). Incluso los demógrafos israelíes hablan de una proporción menor al 47% <https://www.timesofisrael.com/jews-now-a-minority-in-israel-and-the-territories-demographer-says/>. En menos de dos generaciones se alcanzará la proporción de dos tercios para los palestinos.

Estos números demográficos nunca se mencionan en los medios occidentales
porque es una fotografía que permite comprender al instante lo que
ocurre y lo que ocurrirá. Ante estos números, es obvio que el régimen
colapsará salvo que ejecute un genocidio masivo o una limpieza étnica de
millones de palestinos.

Además de la fuga de colonos, la fuga de capitales a bancos occidentales
por parte de israelíes alcanza niveles récord
<https://www.timesofisrael.com/report-bank-officials-believe-4-billion-moved-out-of-israel-in-recent-weeks/>. Ya se sabe que el dinero es el elemento más cobarde. En el futuro se alcanzará un punto crítico de pánico multiplicando ambas fugas: la económica y la demográfica.

Hay más muros que aprisionan al régimen israelí. Su superioridad militar
no es suficiente para proteger sus frágiles infraestructuras vitales y a
su sociedad colona que vive concentrada y vulnerable en una limitada
franja entre Acre y Jerusalén
<#/media/File:Demographic_map_of_Palestine_-_Israel_-_with_Legend.png>.
En 2021 Israel realizó un ataque a gran escala contra Gaza y a los diez
días tuvo que anunciar un alto el fuego. En 2022 y 2023 nuevos ataques
se redujeron a pocos días, a pesar de las familias enteras despedazadas
<https://www.haaretz.com/israel-news/2021-05-19/ty-article/gaza-israel-wiping-entire-palestinian-families-hamas/0000017f-eae3-d4cd-af7f-ebfbbb800000> intencionadamente mientras dormían.

Por el contrario hace casi diez años, en 2014, Israel no necesitó
detener sus bombardeos sobre Gaza durante dos meses de masacre y 2.300
personas asesinadas (500 niños y niñas). La diferencia de estos años
frente a 2014 se explica en las mayores capacidades de la resistencia
palestina. En 2021 las defensas antiaéreas israelíes se agotaron en diez
días contra los cohetes de Gaza, y EE UU tuvo que rellenárselas meses
después
<https://www.reuters.com/world/us/bill-provide-1-billion-israel-iron-dome-system-introduced-us-congress-2021-09-22/>. El espacio aéreo controlado por Israel estuvo cerrado, y puertos, aeropuertos y zonas industriales fueron alcanzados por cohetes palestinos. Por otro lado, desde 2014 los tanques y soldados israelíes tampoco se atrevían a entrar en Gaza.

“*/*/Los palestinos y sus cohetes no pueden derrotar militarmente al
ejército israelí, pero pueden hacer pagar un coste desorbitado a la
sociedad colona que los propios israelíes no estén dispuestos a
afrontar /*/*“

Ahora, la contraofensiva de la resistencia palestina rompiendo el cerco
de Gaza ha mostrado que no solamente los tanques israelíes ya eran
destruidos dentro del gueto, sino que los palestinos los destruyen
fuera, con misiles o drones. Todo ha cambiado respecto a 2014. Por
supuesto los palestinos y sus cohetes no pueden derrotar militarmente al
ejército israelí, pero pueden hacer pagar un coste desorbitado a la
sociedad colona que los propios israelíes no estén dispuestos a
afrontar, lo que /de facto/ equivale a una derrota.

Por eso Israel ha tratado de mantener dormido el frente de Gaza mientras
se ha enfocado más en su sueño de intentar expulsar a los casi cuatro
millones de palestinos de Jerusalén y Cisjordania. Esa estaba siendo su
estrategia: elevar al máximo la opresión en Cisjordania y Jerusalén y
controlar el frente norte de Líbano. Intentar dejar congelado
eternamente el campo de confinamiento de Gaza no ha dado resultado: los
nativos confinados en Gaza han dado una patada al tablero, y a los
diputados del partido de Netanyahu solo les queda clamar desesperados
por otra imposible Nakba
<https://twitter.com/dlobatob/status/1710936568452825176>, otra
imposible limpieza étnica masiva como en 1948.


    *“Israel está en guerra”… desde hace 75 años, contra los palestinos***

El sábado Netanyahu dijo que Israel estaba en guerra, aunque omitió
decir que está en guerra desde hace 75 años contra los nativos
palestinos, y expuso los tres puntos de su respuesta
<https://twitter.com/netanyahu/status/1710631847879717236>: encerrar de
nuevo en el gueto a los nativos armados que habían logrado humillar a
Israel, ejecutar una venganza arrasando Gaza y advertencia a Líbano de
que no se involucrase.

El segundo y tercer puntos son una expresión de deseo y no de realidad,
y eso muestra su debilidad. Después exigió a los palestinos del gueto
que abandonasen Gaza si no querían morir todos. Una promesa de genocidio
aceptable para Europa y EE UU, que tampoco se cumplirá aunque necesite
aliviar a su aterrorizada sociedad colona.

Si Israel ya no puede abrir un enfrentamiento total con el campo de
concentración de Gaza, menos aún con Líbano. Los túneles libaneses de
cientos de kilómetros
<https://www.israelhayom.com/2021/08/13/new-report-digs-into-hezbollahs-vast-land-of-tunnels/> esconden una potencia de fuego en cohetes, misiles, drones y antitanque miles de veces superior a la de Gaza. Estas amenazas a pocos kilómetros de las urbes coloniales israelíes no las pueden resolver las bombas atómicas.

Uno de los momentos más descriptivos de esa incapacidad contra su frente
del norte ocurrió en abril de 2023 cuando recibió varios cohetes desde
Líbano como respuesta a su opresión en Jerusalén. Israel no se atrevió a
culpar a Hezbollah
<https://www.aljazeera.com/news/2023/4/7/who-fired-rockets-into-israel-from-southern-lebanon> y por tanto tampoco se atrevió a iniciar un enfrentamiento a gran escala contra Líbano por el precio a pagar para los israelíes. Realizó una operación de distracción bombardeando de forma limitada el gueto de Gaza, no Líbano.

“*/*/La encrucijada israelí es irresoluble y no conseguirá apaciguar el
terror de los israelíes. Cada cohete y misil de los palestinos que
impacta significa un incremento en el número de colonos que desean huir
hacia otros países/*/*”

En la próxima respuesta del régimen contra Gaza durante estos próximos
días, en la que seguramente asesinará a cientos de palestinos, el límite
lo marcarán los misiles y drones que desde Líbano vayan siendo lanzados
hacia la sociedad colona israelí. La encrucijada israelí es irresoluble
y no conseguirá apaciguar el terror de los israelíes. Cada cohete y
misil de los palestinos que impacta significa un incremento en el número
de colonos que desean huir hacia otros países.

Si se suma la llegada de misiles desde Líbano eso supondrá el pánico en
los colonos. Escalar hasta una vía militar desenfrenada solo conduce a
un dolor desconocido para la sociedad colona israelí, que nunca ha
pagado un precio de sufrimiento como el que sí han pagado los civiles de
los países de la región por las agresiones israelíes.

<https://observatoriocrisis.com/palestina/gaza-historia-interminable-ataques-israel-tumbas-ninos-palestinos>Las estrategias militares han fallado y también las estrategias de fragmentar y aislar a unos palestinos de otros. En 2021 su opresión en Jerusalén activó no solo la resistencia armada de Gaza, sino una resistencia civil global en toda Palestina <https://al-shabaka.org/commentaries/defying-fragmentation-and-the-significance-of-unity-a-new-palestinian-uprising/> en movilizaciones y huelga general, incluidos los dos millones de palestinos con ciudadanía del régimen de tercera categoría.


    *El callejón sin salida israelí***

Israel está en un callejón sin salida militar y se ha movido en
estrategias al filo de la navaja: masacres específicas de líderes de la
resistencia en Gaza y sus familias sin llegar a la guerra total (agosto
2022, mayo 2023) y ejecuciones incesantes de combatientes en
Cisjordania. Todo medido sin activar demasiado la resistencia armada
palestina. Junto a esto, intentar impedir el reforzamiento militar
regional bombardeando territorio sirio.

La geopolítica tampoco juega a favor de Israel con la progresiva
debilidad de EE UU-UE en Asia occidental y en el resto del planeta,
junto al reposicionamiento de los actores regionales. Los regímenes
árabes no son estúpidos a pesar de ser cómplices en la opresión al
pueblo palestino.

Aunque sus regímenes entablen relaciones oportunistas con Israel y le
concedan fotos en los enterrados y vacíos Acuerdos Abraham. Los
regímenes árabes no recibirán los F35 y misiles de EE UU que esperaban
con estos acuerdos, y el artefacto colonial ha fracasado en la creación
de una OTAN árabe-israelí que actuase como escudo protector de Israel.
Aún más, las oligarquías árabes históricamente subordinadas a EE UU y a
Israel, ahora se reposicionan a la contra en lo regional y en lo global.

A los gigantescos acuerdos económicos que firman con China y Rusia se
une la diplomacia de estos dos países, que ya ha logrado el impensado
reencuentro entre Arabia Saudí e Irán. La Liga Árabe ha tenido en las
últimas décadas una actuación infame pero de un día para otro las
declaraciones, palabras y términos pueden cambiar.

Eso se ha visto en el comunicado del régimen saudí 
<https://twitter.com/KSAMOFA/status/1710604311703466451>sobre la
operación palestina rompiendo el confinamiento de Gaza, en el que
responsabiliza inequívocamente a Israel en su política de opresión y
colonización: “Es el resultado de la continua ocupación y privación del
pueblo palestino de sus derechos legítimos por Israel”.

En estos giros de la historia, las mismas oligarquías árabes que han
sido enemigas del pueblo palestino y de otros pueblos de la región serán
las primeras en presentarse en Jerusalén en el futuro para felicitar a
los palestinos el día después de la caída del régimen. EE UU y Reino
Unido también lo hicieron así con Mandela tras considerarle terrorista
hasta 2008 y apoyar el régimen de apartheid sudafricano durante décadas.


    *El extremismo israelí es la naturaleza de un régimen colonial** ***

Por último, hay que entender que todo esto no es producto de que Israel
haya derivado en un descarnado extremismo por Netanyahu o Ben Gvir
<https://twitter.com/dlobatob/status/1659597986077327375>. Toda
colonización de colonos contra nativos en su tierra es extremista y
fascista, aunque se disfrace de democracia como los EEUU del siglo XIX.
La desposesión y expulsión por las armas es fascismo. Que se revele la
auténtica ideología fascista de un régimen colonial es la consecuencia,
no la causa, de un fracaso.

No es diferente al extremismo final de los colonos franceses en Argelia
(OAS <https://i.ebayimg.com/images/g/NPAAAOSw8jFhQxC5/s-l1600.jpg>) o de
la sociedad de colonos blancos europeos en Sudáfrica (Movimiento de
Resistencia Afrikáner)
<https://samilhistory.com/2018/08/27/the-largest-act-of-terrorism-in-johannesburgs-history-a-lesson-learned/>. Argelia y Sudáfrica padecieron colonizaciones mucho más largas que Palestina y en los últimos años de opresión sus indígenas sufrieron una violencia añadida de grupos paraestatales, como la nueva milicia de colonos extremistas <https://thecradle.co/article-view/23216/israeli-government-approves-ben-gvirs-private-militia> del ministro Ben Gvir.


    *Las encrucijadas de la resistencia palestina** ***

La resistencia palestina también se ha movido en dilemas hasta la
secreta y masiva operación militar de ruptura del cerco de Gaza. El
mayor de ellos es cómo minimizar el coste humano. Aunque un pueblo
decidido a descolonizarse, como el palestino, argelino o vietnamita, no
hace cálculos de cuál será la factura final de su sufrimiento en esa
lucha de décadas, es obvio que siempre se intenta minimizar ese precio.
No se debe caer en los extremos de fetichizar la resistencia del pueblo
palestino, ni desde nuestra comodidad pensar que los palestinos son unos
irresponsables y locos por las vidas palestinas que ahora se perderán.

Hasta ahora se trataba de presionar a la sociedad colona en la
consciencia de su fragilidad e inducirla a pensar, a temer, que cada vez
es más próxima esa guerra total y del coste que tendrá que pagar. Que
eso incremente su pánico para que prosiga su descomposición
multiplicando la huida de colonos y al mismo tiempo intentando pagar el
menor coste posible de sangre palestina. Dentro de la tragedia y la
rabia por las masacres israelíes, también hay estrategia. La operación
de la ruptura de la cárcel de Gaza elevará a niveles nunca vistos la
sensación de fragilidad y terror de los israelíes aunque conlleve un
coste muy alto.


    *La izquierda y su lenguaje con Palestina***

Este escenario del ocaso israelí y la histórica operación de la
resistencia en Gaza es coincidente con el desmoronamiento del decorado y
el lenguaje construidos hace 30 años con los fraudulentos Acuerdos de Oslo.

A principios de los 90, en los primeros años de la corta hegemonía
mundial de EEUU se produjeron tres derrotas simultáneas de las luchas
descolonizadoras: los Acuerdos de Oslo para Palestina, el incumplimiento
de la autodeterminación del pueblo saharaui y el arreglo negociado de
la no descolonización
<https://criticallegalthinking.com/2018/04/06/the-proposed-amendment-to-the-south-african-constitution/> de Sudáfrica, ya que mantiene la forma estatal y las estructuras económicas y de propiedad heredadas del apartheid blanco. La izquierda occidental no analizó correctamente el caso palestino mientras que mantiene un aparente apoyo a la descolonización del Sáhara.


    *Los Acuerdos de Oslo atrofiaron el discurso de la izquierda***

El evidente proceso de colonialismo por asentamiento de colonos y
reemplazo demográfico forzoso contra los indígenas palestinos fue
transformado por los Acuerdos de Oslo en un falso acuerdo entre
supuestas partes iguales. Con ello también se transformó el lenguaje
manejado internacionalmente a través del cual se definía la relación
entre opresor y oprimido.

Todo el vocabulario de la izquierda utilizado en la segunda mitad del
s.XX como invasión, liberación nacional, descolonización, lucha,
apartheid, desposesión, reemplazo demográfico forzoso, limpieza étnica,
resistencia, combatientes, reclusión en guetos, tortura, crímenes contra
la humanidad, crímenes de guerra, derecho al retorno, e incluso el
derecho internacional, fue abandonado en su mayor parte.

En su lugar se reemplazó por conceptos como reconocimiento, ambas
partes, mesa de negociación, diálogos, acuerdos, proceso de paz, dos
Estados, gobierno palestino, compromiso, garantías de seguridad para el
colonizador, petición de moderación a colonizador y colonizado,
coordinación, terrorismo, islamismo, antisemitismo, derecho de Israel a
existir y defenderse, ocupación referida sólo a Cisjordania y Gaza,
enfoque exclusivo sobre derechos humanos, omitir sistemáticamente el
derecho al retorno de los millones de palestinos, etc.

“*/*/Ghassan Kanafani estableció que la oligarquía reaccionaria indígena
era uno de los tres enemigos del pueblo palestino, porque una
colonización también tiene una dimensión interna de lucha de clases/*/*”

Para imponer el nuevo lenguaje, los Acuerdos de Oslo contaron con la
complicidad de la élite política palestina que buscó resucitarse a sí
misma tras estar desplazada de todo liderazgo durante la Primera
Intifada al estar exiliada a miles de kilómetros en Túnez, junto a otros
factores. La parte firmante palestina poseía una trayectoria histórica
que aparentemente la validaba para firmar esa traición a los derechos
del pueblo palestino.

Esa élite política palestina de la OLP fue apoyada, o presionada, por la
oligarquía interior palestina deseosa de normalizar las transacciones
económicas y negocios con los colonizadores israelíes. La conjunción de
ambas oligarquías palestinas —la política ausente del territorio y la
económica presente— otorgaba el consentimiento gramsciano de los pueblos
sometidos. Ghassan Kanafani
<http://pflp-documents.org/documents/PFLP-Kanafani3639.pdf>estableció
que la oligarquía reaccionaria indígena era uno de los tres enemigos del
pueblo palestino, porque una colonización también tiene una dimensión
interna de lucha de clases.

A raíz de ese erróneo análisis, la izquierda otorgó una legitimidad a
esa cúpula nativa y al departamento subcontratado que se creó, Autoridad
Palestina, que nunca se dio a la camarilla indígena sudafricana que
sostenía el apartheid de Pretoria gobernando bantustanes creados por el
régimen supremacista blanco.

La sofisticación de los guetos palestinos es mayor que la de los guetos
de Sudáfrica, contando con ministerios, embajadas, empleos que alivian
económicamente a multitud de palestinos y una virtual estatidad
internacional.

Además este departamento de los guetos, cuya principal función es la
represión interna
<https://al-shabaka.org/briefs/palestinian-authority-security-forces-whose-security/> gastando más que agricultura, educación y sanidad juntos, incorpora un cierto nivel de denuncia y críticas al régimen israelí, o incluso cuenta con un departamento para las presas y presos palestinos. Esto hace aumentar la confusión sobre lo que es en realidad la Autoridad Palestina. Gramsci analizó  <https://newleftreview.es/issues/17/articles/perry-anderson-fuerza-y-consentimiento.pdf>estos procesos de sumisión hace mucho tiempo, situando entre la fuerza y el consentimiento el elemento de la corrupción para neutralizar en este caso al pueblo palestino.

Y esa confusión es la que continúa hoy en la izquierda con el tipo de
relación que se debe mantener con la estructura colonial llamada
Autoridad Palestina, a pesar de que la representación
<https://www.proletarios.org/books/Fanon-Los_condenados_de_la_tierra.pdf> de los oprimidos debe estar en quienes resisten a la opresión, no en quienes se someten a ella o en intermediarios. El ejemplo claro se vio en Gaza. ¿Quién representa a los oprimidos? ¿los resistentes que rompieron el cerco o la camarilla de Mahmoud Abbas? En Argelia y Sudáfrica la izquierda lo tenía claro.


    *Discurso humanitarista y aceptación de los guetos***

Otro elemento que reforzó la adopción de este vocabulario por la
izquierda fue la transformación de la economía colonial en Palestina que
supusieron los Acuerdos de Oslo. A partir de ese momento irrumpieron en
la sociedad nativa un ejército de ONGs de EEUU y Europa cuyas
actividades y programas estaban financiados por esos países que a su vez
patrocinan a la colonia israelí.

Las ayudas se condicionaron 
<https://www.middleeasteye.net/opinion/international-aid-palestine-time-change-course>a que los palestinos suprimieran su lenguaje de liberación <https://www.middleeasteye.net/opinion/international-aid-palestine-time-change-course>, e incluso suprimieran el mero lenguaje de la legalidad internacional, a cambio de concederles algunos derechos humanos a través de esas ONGs. Esta ley del silencio  <https://www.infolibre.es/opinion/plaza-publica/agencia-refugiados-palestinos-unrwa-trabaja-intereses-israel_1_1211335.html>impuesta por occidente a los nativos incluye a la UNRWA, la agencia de la ONU para los refugiados palestinos. Para recibir fondos tuvo que mutilar su lenguaje que incluso era de mera legalidad internacional, y su mandato existencial de ayudar a los refugiados palestinos ahora está condicionado a la posición política que tengan los nativos si quieren recibir leche o tratamiento médico.

Muchas de las personas europeas pertenecientes a esas financiadas ONGs a
su vez han participado en occidente en redes de solidaridad con
Palestina, o incluso han formado parte de partidos de izquierda. Por
tanto, estas personas vinculadas a ONGs traían de vuelta a Europa o EEUU
el lenguaje que ellas sobre el terreno imponían a los palestinos, y ha
sido el vocabulario que han utilizado en occidente en artículos,
informes o reuniones relacionadas con Palestina.


    *El miedo a la acusación de antisemitismo***

Otro elemento que ha maniatado a la izquierda occidental sobre Palestina
ha sido el temor a una posible acusación de judeofobia o, más
comúnmente, el término manipulado de antisemitismo. A la inseguridad
discursiva en muchos partidos de izquierda sobre la causa palestina por
la confusión, ignorancia, o la creencia de que la cuestión colonial se
zanjó en el siglo XX, se une el sentimiento de culpa inoculado
culturalmente a todas y cada una de las personas occidentales, y no sólo
a ellas, por el genocidio alemán contra las personas judías hace 80
años. Un sentimiento de culpa selectivo que se ha impuesto de forma
universalizada y con su propio término, Holocausto.

Esto no existe en el caso del mismo genocidio perpetrado por Alemania
contra millones de civiles soviéticos o personas gitanas, por ejemplo, a
pesar de que estos tres grupos sociales (soviéticos, gitanos y judíos)
estaban en el mismo nivel de infrahumanidad y de máximo exterminio para
aquellos dirigentes alemanes. Israel obviamente sabe cómo opera esta
acusación en el subconsciente occidental y ha establecido el
antisemitismo como su última trinchera defensiva.

Ha lanzado a sus lobbies por todo el mundo para que intenten imponer un
contrato de lealtad con el régimen israelí. Instituciones, parlamentos,
gobiernos, ayuntamientos, administraciones públicas y hasta la propia
ONU
<https://www.amnesty.org/es/latest/news/2023/04/global-un-must-respect-human-rights-while-combatting-antisemitism/> están siendo presionadas por los agentes israelíes para que adopten la definición de antisemitismo IHRA, que no es más que un intento de censura, persecución de la solidaridad con Palestina y blindaje del régimen ante los crímenes que comete.

Estos treinta años han sido un largo período de retroceso de posiciones
de la izquierda occidental aceptando los marcos impuestos por el poder,
y en la cuestión palestina también. No sólo hay que estar explicando de
forma reiterada que no es antisemitismo ni judeofobia combatir al
sionismo <https://youtu.be/FStuyUJdE3U> y a su artefacto colonial en
Palestina. Es peor aún. Hemos pasado de que la Asamblea General de la
ONU declarase el sionismo como una ideología criminal y racista
<https://en.wikipedia.org/wiki/United_Nations_General_Assembly_Resolution_3379>, a la posibilidad de que la ONU adopte el sionismo a través de la IHRA, y que se extienda la prohibición de la solidaridad con la causa palestina que ya impone Alemania.

La izquierda occidental es la izquierda de la metrópoli colonial de
Palestina. Europa y EEUU son la metrópoli del régimen israelí y eso nos
obliga a tener una responsabilidad mayor en el análisis y el lenguaje.


    *Uso del marco narrativo impuesto por los colonizadores***

La socialdemocracia ya se rindió al colonialismo israelí en su
conferencia internacional de la Internacional Socialista de 1960 en la
ciudad de Haifa. La ciudad había sido limpiada étnicamente doce años
antes, con espantosas masacres
<https://www.palestine-studies.org/en/node/41048> y con los escasos
indígenas palestinos que quedaban en Haifa bajo una dictadura militar a
escasos metros del cónclave.

En aquel evento la Internacional Socialista emitió una declaración final
 
<https://www.alamy.com/apr-04-1960-socialist-international-conference-in-haifa-israel-m-sharet-image69363808.html>defendiendo las descolonizaciones en el mundo, pero validando la colonización de Palestina. Por eso el sábado Pedro Sánchez llamó repetidamente terroristas <https://twitter.com/sanchezcastejon/status/1710615985126822068> a los nativos palestinos que se atrevieron a forzar su salida del gueto de Gaza pisando nuevamente sus tierras robadas.

Al margen de aquella socialdemocracia devenida hoy social-liberal, todo
el espacio a su izquierda ha caído en mayor o menor medida en el error o
ignorancia de utilizar gran parte del vocabulario de los Acuerdos de
Oslo o el fabricado por la hegemonía mediática y cultural de occidente,
que incluye conceptos fraudulentos y mitológicos como pueblo judío.

Aún peor es el relato que hacen algunos sectores de la izquierda
occidental con un repetido lamento trágico y doliente sobre las niñas y
niños palestinos masacrados, pero vacío de denuncia colonial. Es una
narrativa idéntica a las ONGs que buscan aliviar con algunos derechos
humanos a los nativos. De la misma manera es dañino el abuso en la
utilización hueca del término ocupación, ya que ésta debería hacer
referencia a algo temporal, y evidencia una incomprensión, u ocultación,
del proceso gradual de invasión permanente de Palestina en su totalidad.

Además, en multitud de proclamas desde la izquierda occidental que
pretenden ser el culmen de la reivindicación escuchamos la exigencia del
“fin de la ocupación” y “reconocimiento del Estado de Palestina”.
Quienes dicen esto nunca explican en qué consistiría ese Estado de
Palestina: ya fueran los centenares de guetos nativos inconexos, o como
mucho, un estado basado en dos macroguetos como Cisjordania y Gaza si se
diera un ilusorio abandono de Cisjordania de los 600.000 colonos.

Es decir, lo que escuchamos en esos discursos es la petición por parte
de la izquierda de que se identifique como Estado de Palestina a unos
guetos menores o unos guetos mayores, en definitiva unos guetos, como
enclaves indígenas dentro del régimen que ha colonizado toda Palestina.
Significa haber perdido el concepto esencial de que Palestina sigue
siendo todo el territorio desde el río Jordán hasta el mar Mediterráneo,
aunque durante unas décadas haya sido renombrada por los colonos como
Israel, tal como Zimbabwe fue renombrada por los colonos como Rhodesia.

Por todo ello, es una vergüenza que ONGs israelíes
<https://www.btselem.org/publications/fulltext/202101_this_is_apartheid> y occidentales <https://www.amnesty.org/en/latest/news/2022/02/israels-apartheid-against-palestinians-a-cruel-system-of-domination-and-a-crime-against-humanity/> hayan adelantado a numerosos sectores de la izquierda occidental en la definición del artefacto israelí como un régimen de apartheid y, por tanto, de crimen contra la humanidad. Incluso el apelativo de apartheid se queda corto en la descripción de Israel y llega demasiado tarde cuando los palestinos llevan muchas décadas utilizándolo <https://www.freedomarchives.org/Documents/Finder/DOC12_scans/12.zionist.colonialism.palestine.1965.pdf>, y aún así la izquierda no lo usa masivamente.


    *La no violencia como axioma absoluto***

Esos lastres en la izquierda siguen operando en otras categorías.

Una es la acción del boicot completo al Estado israelí que a muchas
organizaciones de izquierda les sigue dando pavor plantear y sólo lo
admiten de forma muy concreta. Por supuesto que se debe hacer boicot, no
sólo a una selección restrictiva de empresas sino a todo el artefacto
colonial. Es una demanda que ya lanzaron las mujeres palestinas en 1929
<https://www.jstor.org/stable/2676453> e incluso nació antes, pero sigue
siendo desoída en occidente y, por ejemplo, partidos políticos y
sindicatos mantienen foros conjuntos 
<https://www.elsaltodiario.com/mapas/ruptura-alianzas-ccoo-organizacion-israeli-histadrut-deber-sindical-politico-etico>y encuentros con organizaciones racistas israelíes equivalentes.

Otra es el tótem de la no violencia arraigado por décadas en occidente.
Pero una cosa son las guerras capitalistas y otra las luchas de
liberación y autodefensa. A esto hay que sumar el concepto de salvador
blanco que mantenemos, por ejemplo creyendo que nuestro boicot de
personas blancas europeas fue lo que consiguió derribar al régimen de
apartheid de Sudáfrica.

Esto es un desprecio a la resistencia indígena en Sudáfrica, Palestina,
Vietnam, Angola, etc. y una amnesia de las lecciones del s.XX. Se ha
olvidado que toda colonización es violenta
<https://www.proletarios.org/books/Fanon-Los_condenados_de_la_tierra.pdf> y, por tanto, el proceso histórico de descolonización también lo es. Se debe recuperar la comprensión de que la ingobernabilidad de un régimen colonial frente a la resistencia en todas sus formas de una mayoría nativa es lo que derriba a estas construcciones en tierras de ultramar.

No se trata de una sublimación o fascinación por la violencia
<https://archive.org/details/concerning-violence-documentary>, se trata
de entender que es el lenguaje de la realidad diaria que han impuesto
los colonizadores israelíes con la ayuda de EEUU y la UE. Se trata de
entender que si la sociedad colona israelí no paga un precio en miedo y
es obligada, entonces no renunciará a su privilegio y supremacismo.

“*/*/La resistencia en todas sus formas por los nativos palestinos es un
ejercicio legítimo que la izquierda no se atreve a proclamar, a pesar de
haber aplaudido a Zelensky y apoyado el envío de armas a Ucrania/*/*”

La resistencia en todas sus formas por los nativos palestinos es un
ejercicio legítimo que la izquierda no se atreve a proclamar, a pesar de
haber aplaudido a Zelensky y apoyado el envío de armas a Ucrania. La
lucha armada contra la opresión y colonización está reconocida en la
legalidad internacional, de forma implícita en el mismo preámbulo de la
Declaración Universal de Derechos Humanos
<https://www.un.org/es/about-us/universal-declaration-of-human-rights> y
de forma explícita en diferentes textos, como la Resolución 3070 de la
ONU
<https://www.dipublico.org/4029/resolucion-3070-xxviii-de-la-asamblea-general-importancia-de-la-realizacion-universal-del-derecho-de-los-pueblos-a-la-li%C2%ADbre-determinacion-y-de-la-rapida-concesion-de-la-independencia-a-los-pa/>.

De los tres niveles de resistencia del pueblo palestino —la exigencia de
derechos humanos, la movilización no violenta y la resistencia armada—
la mayor parte de la izquierda occidental sólo ha expresado su apoyo a
los dos primeros durante estas décadas. Declarar el apoyo a la lucha
armada significaba caer en el trampantojo del terrorismo. Hay que
recordar que el régimen israelí ha declarado como terrorismo a los tres
niveles de resistencia
<https://www.naiz.eus/es/hemeroteca/gara/editions/2021-10-23/hemeroteca_articles/israel-declara-terroristas-a-seis-importantes-ong-palestinas>, incluyendo a las ONGs palestinas de DDHH. La izquierda de la metrópoli colonial está en una contradicción con la lucha armada indígena en Palestina que todavía no ha resuelto, paralizada en la telaraña de “terrorismo”.

Por eso los Verdes Europeos hicieron un comunicado infame 
<https://twitter.com/GreensEFA/status/1710635613089644986>sobre la
operación desde Gaza llamándola terrorismo. Era de esperar habiéndose
convertido en el brazo izquierdo de la OTAN. Podemos cayó en utilizar
una equivalencia horrible entre los actores (Israel y Hamas) y la
equidistancia en la “escalada de violencia” que luego quiso ser
corregida en otras declaraciones. Las tibiezas de Sumar o CCOO en sus
cuentas de X/Twitter incluso resultaron más transgresoras. El PCE se
movió entre el claro mensaje anticolonial de sus juventudes y el
inconcreto mensaje humanitario de su Secretario General.

Sin embargo, como adelanté al inicio del artículo, el lenguaje parecía
que había comenzado a cambiar, tanto en espacios como el Parlamento
Europeo
<https://twitter.com/dlobatob/status/1635952799342051331> como en nuevos
medios de comunicación
<https://twitter.com/dlobatob/status/1651159433555091456>.

“*/*/Si los actuales colonos asumen la igualdad de derechos para los
nativos palestinos tendrán cabida en la futura Palestina con las
estructuras coloniales desmanteladas/*/*”

El lenguaje de la izquierda con Palestina se debe redirigir a este
marco, a recuperar la narrativa anticolonial. Hasta ahora, gran parte de
la izquierda occidental había silenciado a los nativos palestinos y su
mensaje político al aceptar durante 30 años el marco narrativo de Oslo
establecido por los colonizadores de Palestina y legitimando que la
representación de los colonizados está en la Autoridad Palestina, es
decir, en los que se sometieron, no en los que resisten.

La izquierda de la metrópoli occidental tiene una obligación aún mayor
de situar el discurso anticolonial en el centro de las explicaciones
sobre Palestina, y por tanto de las acciones a emprender. Es
imprescindible retomar la radicalidad, de raíz, en la comprensión y la
expresión de apoyo a la causa palestina.

La izquierda occidental debe asumir que no tiene derecho a existir la
última colonia europea de colonos en el mundo árabe tras Libia, Argelia,
Marruecos o Túnez, donde se asentaron millones de colonos europeos
<https://www.middleeasteye.net/opinion/france-algeria-israel-settler-colonies-arab-world> durante varias generaciones. Y los ciudadanos israelíes no indígenas seguirán siendo colonos en tanto en cuanto sigan sustentando su artefacto colonial contra los nativos, sin que importen sus disputas políticas internas en la medida en que la inmensa mayoría no cuestionan su régimen supremacista. No sólo los estados no tienen un derecho intrínseco a existir, los regímenes coloniales menos.

Son las personas que habitan un territorio, junto con las que fueron
expulsadas de él, las que tienen derecho a una existencia en igualdad de
derechos y obligaciones. Si los actuales colonos asumen la igualdad de
derechos para los nativos palestinos tendrán cabida en la futura
Palestina con las estructuras coloniales desmanteladas. Tal como
hicieron los escasos colonos franceses, Pieds Noirs, que
decidieron despojarse de su supremacismo y quedarse en la Argelia
independizada

Em
OBSERVATORIO DE LA CRISIS
https://observatoriocrisis.com/2023/10/12/la-ruptura-del-confinamiento-de-gaza-el-cadaver-israeli-y-la-izquierda-ante-palestina/
12/10/2023

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Mudança de paradigma na Palestina

 

 

Thierry Meyssan

O conflito sangrento que começou na Palestina geográfica acontece após
75 anos de mortíferas injustiças. Do ponto de vista do Direito
Internacional, os Palestinianos tem o direito e o dever de resistir à
ocupação israelita, tal como os Israelitas tem o direito e o dever de
responder ao ataque que sofrem. É da responsabilidade de todos ajudar a
resolver as injustiças de que os dois grupos são vítimas, o que não
significa apoiar a vingança cruel de alguns deles.
Além disso, o apoio que se possa dar aos povos palestiniano e israelita
não deve levar a amnistiar os seus respectivos dirigentes pelos crimes
que cometeram, nem as grandes potências que os manipularam.

*O Primeiro-Ministro israelita, Benjamin Netanyahu anuncia que Israel
está em guerra. Pela primeira vez na sua história, o Estado hebreu é
atacado no seu próprio território. Primeiro, ele vai “limpá-lo” , depois
lançará uma guerra contra-insurreição em Gaza, no do modelo da « batalha
de Argel » e da « operação Fénix » no Vietname : Tratar-se-á de uma
guerra muito suja, mortífera e ilimitada. Israel poderá restabelecer a
ordem em seu proveito, mas jamais poderá vencer. *

O Próximo-Oriente é um universo instável no qual muitos grupos se
enfrentam para sobreviver. Para simplificar, consideramos no Ocidente
que a sua população se compõe de judeus, cristãos e muçulmanos, mas a
realidade é muito mais complexa. Cada religião compõe-se ela própria de
uma infinidade de crenças. Por exemplo, na Europa e no Magrebe, estamos
cientes que os cristãos se dividem em Igreja Católica, Igrejas Ortodoxas
e Igrejas Protestantes, mas no Médio-Oriente existem dezenas e dezenas
de Igrejas diferentes. A mesma constatação é verdadeira no seio das
religiões judaica e muçulmana.

Cada vez que uma peça é modificada no tabuleiro, todos os outros grupos
têm de se reposicionar. É por isso que os aliados de hoje, serão talvez
os inimigos de amanhã, enquanto os inimigos de hoje eram os nossos
aliados de ontem. Ao longo dos séculos, todos se tornaram
simultaneamente vítimas e carrascos. Os estrangeiros que vão ao
Médio-Oriente identificam-se a priori com pessoas que têm a mesma
cultura que eles, a mesma fé, mas ignoram a sua história e não estão
preparados para a aceitar.

Se quisermos promover a paz, não devemos escutar unicamente aqueles de
quem nos sentimos próximos. Temos que admitir que a paz supõe resolver
não só as injustiças de que sofrem os nossos amigos, mas também as de
que sofrem os nossos inimigos. Ora, não é isso que fazemos
espontaneamente. Assim, nos meses precedentes, em França, ouvimos
exclusivamente o ponto de vista de certos Ucranianos face aos Russos, de
certos Arménios face aos Azeris e agora de certos
Israelitas(Israelenses-br) face aos Palestinianos.

Finalmente, entre as múltiplas fontes às quais podemos recorrer, devemos
distinguir aquelas que defendem os seus interesses materiais imediatos,
aquelas que defendem a sua pátria e aquelas que defendem princípios.
Contudo, as coisas são complicadas por grupos, não religiosos, mas
teocráticos. Estes últimos não defendem nenhum princípio superior, antes
utilizam uma linguagem religiosa para vencer.

Fixando estes pontos prévios, vamos aos factos.

O Hamas atacou Israel em 7 de Outubro de 2023, às 6 horas da manhã, quer
dizer, por ocasião do 50º aniversário da «Guerra de Outubro de 73»,
conhecida no Ocidente pelo nome israelita de «Guerra do Kippur». À
época, o Egipto e a Síria atacaram Israel de surpresa para ir em auxílio
dos Palestinianos. Mas Telavive, informada por Amã e apoiada por
Washington, esmagou os exércitos árabes. Anwar el-Sadat traíra os seus,
enquanto a Síria acabou perdendo o Golã.

A operação actual combina em simultâneo uma chuva de foguetes,
destinados a saturar a Cúpula de Ferro, e 22 ataques terrestres em
território israelita. Pela primeira vez na Palestina, os disparos de
foguetes foram dirigidos sobre centros de comando israelitas de maneira
a favorecer as acções dos comandos. Estas últimas são oficialmente
destinadas a fazer reféns de modo a poder negociar a sua troca com os 1.
256 detidos palestinianos em prisões de alta segurança. As infiltrações
tiveram lugar simultaneamente por via terrestre, marítima e aérea (com
ultraleves).

A preparação desta operação, a obtenção de Inteligência, a formação de
um milhar comandos e a transferência de armas exigiram meses, senão anos
de trabalho. Ora, cegos pela nossa convicção de superioridade, não o
vimos. Ela foi, portanto, concebida por Mohammad Daif, o chefe
operacional do Hamas, que havia desaparecido dos radares durante dois
anos e reapareceu ao lado do porta-voz do Hamas, « Abu-Obaida ».

Conseguindo detectar os foguetes, mas incapaz de os destruir a todos,
Israel encaixou pelo menos 3. 000 dos 7. 000 disparados. As redes
sociais e os canais de televisão árabes mostraram que o Hamas capturou
vários tanques e pelo menos o posto fronteiriço a Oeste da Faixa. Além
disso, ele atacou uma “rave party” no Kibutz Re’im, onde violou e
massacrou pelo menos 280 participantes. Por todo o lado, sequestrou um
grande número de reféns, incluindo generais. Os seus comandos penetraram
em várias cidades israelitas, disparando de metralhadora sobre os
moradores. Listam-se pelo menos 700 mortos e 2. 200 feridos graves do
lado israelita, o dobro do lado palestiniano.

Trata-se da mais importante acção palestiniana desde há meio século.
O que se passa é o fruto de 75 anos de opressão e de violação do Direito
Internacional. Dezenas de Resoluções do Conselho de Segurança das Nações
Unidas foram violadas por Israel, sem nenhuma sanção a respeito. Israel
é um Estado fora da Lei que não hesitou em corromper ou assassinar a
quasi-totalidade dos dirigentes políticos palestinianos.
Deliberadamente, ele impediu o desenvolvimento económico dos
Territórios, ao mesmo tempo favorecendo a criação de um Estado
palestiniano separado que controla parcialmente.

A frustração e o sofrimento acumulados ao longo de 75 anos traduzem-se
em comportamentos violentos e cruéis de alguns Palestinianos, cientes de
terem sido há muito tempo abandonados pela Comunidade internacional. No
entanto, os tempos mudam. A maioria dos membros das Nações Unidas, que
puderam constatar na Síria e na Ucrânia o falhanço militar dos
Ocidentais e a vitória da Rússia, já não se limitam a baixar a cabeça
perante os Estados Unidos. A Assembleia Geral reafirmou, por ocasião do
aniversário da autoproclamação da independência de Israel e do massacre
e expulsão dos Palestinianos (a Nakhba), que o Direito Internacional
está do lado dos Palestinianos e não dos Israelitas. O que não impede o
Hamas de cometer crimes de guerra.

A actual situação é uma situação sem saída para os dois campos. Após
três quartos de século de crimes, Israel já não pode fingir grande
coisa. A sua população está agora dividida. Durante os últimos meses, os
«sionistas negacionistas», isto é, os discípulos do Ucraniano Vladimir
Jabotinsky, favoráveis ao supremacismo judaico, tomaram o poder em
Telavive apesar da oposição de uma pequena maioria da população e de
gigantescas manifestações. Os seus jovens, que aspiram a viver em paz,
recusam servir nas Forças Armadas para brutalizar os árabes, mas ainda
assim juntaram-se a elas para defender as suas famílias que amam e o seu
país, no qual não acreditam.

Pelo Direito, os Palestinianos formaram um Estado, que obteve o estatuto
de observador nas Nações Unidas. À morte de Yasser Arafat, o chefe da
Fatah, Mahmud Abbas, foi eleito Presidente. Contudo, no seguimento da
vitória do Hamas nas eleições legislativas de 2007 e na impossibilidade
de fazer aceitar aos Ocidentais um governo do Hamas, os Palestinianos
envolveram-se numa guerra civil. Em resumo, a Cisjordânia é governada
pela Fatah, o Partido laico criado por Yasser Arafat. Mahmud Abbas e os
seus próximos são financiados pelos Estados Unidos, pela União Europeia
e por Israel. Enquanto a Faixa de Gaza está nas mãos do Hamas, quer
dizer, do ramo palestiniano da Confraria dos Irmãos Muçulmanos. Ela é
governada por indivíduos que não concebem o Islão do ponto de vista
espiritual, mas como uma arma de conquista. Eles são financiados
sobretudo pelo Reino Unido, Catar, Israel, Turquia, Irão e União
Europeia. Desde há 16 anos, os dois campos opuseram-se a quaisquer novas
eleições. Os seus dirigentes vivem num luxo mafioso que contrasta com as
condições de vida miseráveis do seu povo.

Aquando da sua criação, o Hamas era financiado pelo Reino Unido. Ele foi
apoiado pelos Serviços Secretos israelitas para enfraquecer a Fatah de
Yasser Arafat. Depois Israel combateu-o e assassinou o seu líder
religioso, o Xeque Ahmed Yassine. A seguir, de novo Israel usou o Hamas
para eliminar os dirigentes da Resistência palestiniana marxista, desta
vez. Assim, combatentes do Hamas enquadrados por agentes da Mossad e
jiadistas da Alcaida atacaram o campo palestiniano de Yarmuk no início
da guerra contra a Síria [1 <#nb1>]. Mas hoje, uma vez mais, o Hamas
combate o seu aliado de ontem, Israel.

Mohammad Daif é conhecido por ser o fundador das brigadas Izz al-Din
al-Qassam. Como todos os Irmãos Muçulmanos, ele é um supremacista
islâmico. Ele refere-se a Izz al-Din al-Qassam (1882-1935), um opositor
do mandato francês no Líbano e do mandato britânico na Palestina.
Portanto, ele não tem qualquer inspiração no antigo Mufti de Jerusalém e
aliado dos nazis, Amin al-Husseini, embora partilhe o seu
“anti-semitismo”. Em 2010 ele escrevia : «As Brigadas Izz ad-Din
al-Qassam... estão mais bem preparadas para continuar na nossa via
exclusiva onde não há alternativa, e é o caminho da jihad e da luta
contra os inimigos da nação e da humanidade muçulmana.... Dizemos aos
nossos inimigos : vós seguis pelo caminho da extinção (zawal), e a
Palestina ficará sendo nossa, incluindo Al Qods (Jerusalém), Al -Aqsa
(mesquita), as suas cidades e aldeias desde o mar ( Mediterrâneo) até ao
rio (Jordânia), do Norte até ao Sul. Vós não tendes direito a nem tanto
como um centímetro disso ». Mohammad Daif não é um militar, mas sim um
especialista em captura de reféns. A sua operação foi concebida para
este fim e não para libertar a Palestina.

No momento em que a saúde do Presidente Mahmud Abbas se deteriora, a
Fatah está dividida em três facções militares :
• a de Fathi Abu al-Ardate, o Chefe da Segurança Nacional
• a de Mohammad Abdel Hamid Issa (aliás « Lino »), comandante da Kifah
al-Mussallah (a luta armada). Ela insere-se na corrente de Mohamed
Dallan, 0 antigo chefe das Informações palestinianas que assassinou
Yasser Arafat. Ela é actualmente apoiada pelos Emirados Árabes Unidos.
• a de Munir Maqdah, antigo chefe militar da Fatah, que se aproximou do
Hamas, do Catar, da Turquia e do Irão.

No mês passado, confrontos opuseram estas três facções às dos islamistas
do Hamas, bem como do Jund el-Sham e do al-Shabab al-Moslem, dois grupos
jiadistas que combateram ao lado da OTAN e de Israel contra a República
Árabe Síria. Violentos combates tiveram lugar no campo de Aïn el-Héloué
(Sídon, Sul do Líbano). Na altura, eu interpretara-os à luz dos de Nahr
el-Bared (Norte do Líbano), em 2007 [2 <#nb2>], antes de perceber que
estavam ligados à agonia de Mahmud Abbas [3 <#nb3>].

Durante 75 anos, Telavive fez tudo o que estava ao seu alcance para
negar a igualdade entre todos, sejam judeus ou árabes. Pelo contrário,
desde o Apelo de Genebra, tem promovido « a solução de dois Estados »,
quer dizer, o plano colonial da última chance de Lord William Peel, que
os britânicos não conseguiram impor, nem no terreno, em 1937, nem nas
Nações Unidas, em 1948, mas que hoje em dia reúne consenso. Agora,
apenas os marxistas da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP)
pregam no deserto propondo criar um Estado único no qual cada homem
disporia de uma voz igual [4 <#nb4>].

Face ao que ele considera como uma invasão palestiniana, mas que do
ponto de vista palestiniano não é mais que um regresso a casa, o
Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu prometeu a vitória. Mas o que será
? Matar todos os combatentes do Hamas não resolverá 75 anos de
injustiça. Os seus filhos retomarão a sua chama tal como estes retomaram
a de seus pais.

Para atingir o seu objectivo, Benjamin Netanyahu deve primeiro unir os
Israelitas que ele dividiu. Seguindo o exemplo de Golda Meir durante a «
Guerra dos Seis Dias », ele deve fazer entrar a Oposição para o governo.
Assim encontrou-se com Yaïr Lapid e com o General Benny Gantz. No
entanto, o primeiro pôs como condição que os supremacistas judeus,
Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir, abandonem o governo, ou seja, que o
Primeiro-Ministro abandone o seu projecto político e o dos seus actuais
patrocinadores [5 <#nb5>], os straussianos da Administração Biden [6
<#nb6>].

Os dirigentes do Hamas apelaram aos refugiados palestinianos no
estrangeiro, a todos os árabes e a todos os muçulmanos para se unirem ao
seu combate. Os refugiados palestinianos, significa dizer primeiro a
maioria da população jordana e os do Líbano. Os árabes, quer dizer o
Hezbolla libanês e a Síria, dois poderes que renovaram com o Hamas no
decurso dos últimos meses. Os muçulmanos significa o Irão e a Turquia.

De momento, apenas a Jihad Islâmica, quer dizer, o Irão, e os diversos
grupos da Resistência da Cisjordânia se juntaram ao Hamas.

*Saindo da sombra, o Presidente Erdogan apelou, em 8 de Outubro, à
aplicação das Resoluções do Conselho de Segurança sobre a Palestina. *

Contrariamente ao que pretende o Wall Street Journal, não é o Irão que
dirige o Hamas. Isto é esquecer o acordo feito entre Hassan El-Banna, o
fundador dos Irmãos Muçulmanos, e Ruhollah Khomeini, o fundador da
República islâmica do Irão. Os dois grupos dividiram o mundo muçulmano
entre si e abstêm-se de intervir significativamente na esfera de
influência do outro. Teerão não para de afirmar ruidosamente o seu apoio
aos Palestinianos, mas a sua acção concreta na Palestina limita-se à
Jihad Islâmica.

Os dirigentes políticos do Hamas vivem na Turquia, sob a protecção dos
Serviços Secretos. É Ancara que dirige o Hamas e a operação « Dilúvio de
Al-Aqsa ». Inaugurando, no domingo, 8 de outubro, uma igreja ortodoxa
siríaca, o Presidente Recep Tayyip Erdoğan declarou, em tom meloso : «O
estabelecimento da tranquilidade, de uma paz duradoura e da estabilidade
na região através da solução da questão palestina de acordo com o
direito internacional é a prioridade absoluta sobre a qual nos
concentramos durante as nossas conversas com os nossos homólogos (…)
Infelizmente, os Palestinianos e os Israelitas, assim como toda a
região, pagam o preço do atraso na administração da justiça (…) Atirar
gasolina para a fogueira não beneficiará ninguém, incluindo os civis dos
dois lados. A Turquia está pronta a fazer a sua parte, da melhor forma
possível, para pôr fim aos combates o mais rapidamente possível e
aliviar a tensão crescente devido aos recentes incidentes ».

A escolha por Ancara em desencadear esta nova guerra depois de mal
esmagada a República de Artsakh, no Azerbaijão, e quando envia material
militar para a Rússia, em violação das medidas coercivas unilaterais dos
EUA, leva a pensar que os diplomatas turcos já não têm medo de
Washington, a qual, portanto, havia tentado assassinar o Presidente
Erdoğan, em 2016. Assim que esta operação estiver terminada, seguir-se-á
uma outra contra os Curdos, na Síria e no Iraque.

Se o Hezbolla entrar em cena, Israel não conseguirá repelir o ataque
sozinho. A sua existência só pode ser garantida com o apoio militar dos
Estados Unidos. Ora, a opinião pública dos EUA já não apoia Israel,
enquanto o Pentágono já não tem o poder para o defender. O que se passa
actualmente é uma das consequências da guerra na Ucrânia. Washington não
consegue fabricar munições suficientes para os seus aliados ucranianos.
Foi mesmo forçada a levantar munições dos seus stocks (estoques-br) em
Israel. E, já esvaziou lá os seus arsenais.

Nas primeiras horas do conflito, o Hezbolla disparou alguns foguetes
contra as quintas de Chebaaa, ou seja, sobre o território disputado
entre o Líbano e Israel. Mostrou assim que apoia a Resistência
palestiniana dento da retórica da «unidade de frentes». Mas não entrou
na guerra, porque desconfia do Hamas que teve de combater na Síria. E de
quem não partilha a ideologia, a da Irmandade.

Todos os dirigentes ocidentais garantiram que condenam as acções
terroristas do Hamas e que apoiam Israel. No passado, nada fizeram para
resolver as injustiças na Palestina e estas posições de princípio
atestam que não o farão agora. Por seu lado, a Rússia e a China,
recusando tomar partido pelos Palestinianos ou pelos Israelitas,
apelaram, não à aplicação das regras ocidentais, mas ao respeito pelo
Direito Internacional. Encontra-mo-nos agora face a uma situação onde
todos os intervenientes deliberadamente sabotaram antecipadamente cada
solução, de modo que é agora quase impossível evitar que tudo isto não
termine num banho de sangue.

Em
VOLTAIRE.NET
https://www.voltairenet.org/article219800.html
11/10/2023

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Bico calado

 



    Chris Hedges [*]



Houve uma década de revoltas populares de 2010 até à pandemia em 2020.
Essas revoltas abalaram os alicerces da ordem global. Denunciaram a
dominação corporativa, os cortes de austeridade e exigiram justiça
económica e direitos civis. Nos EUA houve protestos em todo o país
centrados nos acampamentos do Occupy, que duraram 59 dias. Houve
erupções populares na Grécia, Espanha, Tunísia, Egito, Bahrein, Iêmen,
Síria, Líbia, Turquia, Brasil, Ucrânia, Hong Kong, Chile e durante a
Revolução à Luz de Velas da Coreia do Sul. Políticos desacreditados
foram demitidos na Grécia, Espanha, Ucrânia, Coreia do Sul, Egipto,
Chile e Tunísia. A reforma, ou pelo menos a promessa dela, dominou o
discurso público. Parecia anunciar uma nova era. Depois veio a ressaca.
As aspirações dos movimentos populares foram esmagadas. O controle
estatal e a desigualdade social expandiram-se. Não houve mudança
significativa. Na maioria dos casos, as coisas pioraram. A extrema
direita emergiu triunfante.

O que aconteceu? Como é que uma década de protestos em massa que
pareciam anunciar a abertura democrática, o fim da repressão estatal, um
enfraquecimento do domínio das corporações e instituições financeiras
globais e uma era de liberdade se transformou num fracasso ignominioso?
O que correu mal? Como é que os odiados banqueiros e políticos
mantiveram ou recuperaram o controlo? Quais são as ferramentas eficazes
para nos livrarmos da dominação corporativa?

Vincent Bevins, no seu novo livro /“If We Burn: The Mass Protest Decade
and the Missing Revolution”,/ descreve como falhamos em diversas frentes.

Os “tecno-otimistas” que pregavam que os novos media digitais eram uma
força revolucionária e democratizante não previram que governos
autoritários, empresas e serviços de segurança interna poderiam
aproveitar estas plataformas digitais e transformá-las em motores de
vigilância generalizada, censura e veículos de propaganda e
desinformação. As plataformas de redes sociais que possibilitaram os
protestos populares voltaram-se contra nós.

Muitos movimentos de massas, por não terem conseguido implementar
estruturas organizacionais hierárquicas, disciplinadas e coerentes,
foram incapazes de se defenderem. Nos poucos casos em que movimentos
organizados alcançaram o poder, como na Grécia e nas Honduras, os
financiadores e as empresas internacionais conspiraram para recuperar o
poder. Na maioria dos casos, a classe dominante preencheu rapidamente os
vazios de poder criados por estes protestos. Ofereceram novas marcas
para reembalar o sistema antigo. Esta é a razão pela qual a campanha de
Obama de 2008 foi nomeada campeã de marketing do ano pela Advertising
Age. Ganhou o voto de centenas de profissionais de marketing, chefes de
agências e fornecedores de serviços de marketing reunidos na conferência
anual da Associação de Anunciantes Nacionais. Venceu os vice-campeões
Apple e Zappos.com. Os profissionais sabiam. A marca Obama era o sonho
de um profissional de marketing.

Muitas vezes, os protestos assemelhavam-se a manifestações espontâneas,
com pessoas a invadir espaços públicos e a criar um espetáculo
mediático, em vez de se envolverem numa rutura sustentada, organizada e
prolongada do poder. Guy Debord captura a futilidade desses
espetáculos/protestos no seu livro /“Sociedade do Espetáculo”,/
observando que a era do espetáculo significa que aqueles fascinados por
suas imagens são “moldados às suas leis”. Anarquistas e antifascistas,
como os do bloco negro, muitas vezes quebravam janelas, atiravam pedras
contra a polícia e derrubavam ou queimavam carros. Atos aleatórios de
violência, saques e vandalismo foram justificados no jargão do
movimento, como componentes de “selvagem” ou “insurreição espontânea”.
Esta “pornografia de motins” encantou os media, muitos dos que nela se
envolveram e, não por coincidência, a classe dominante que a utilizou
para justificar mais repressão e demonizar os movimentos de protesto. A
ausência de teoria política levou os ativistas a utilizarem a cultura
popular, como o filme “V de Vingança”, como pontos de referência. As
ferramentas muito mais eficazes e incapacitantes de campanhas educativas
de base, greves e boicotes foram frequentemente ignoradas ou marginalizadas.

Karl Marx dizia a propósito: “Aqueles que não conseguem representar-se
serão representados”.

Vincent Bevins no seu novo livro /“If We Burn: The Mass Protest Decade
and the Missing Revolution”/ faz uma dissecação brilhante e
magistralmente relatada sobre a ascensão dos movimentos populares
globais, os erros autodestrutivos cometidos, as estratégias que as
elites corporativas e governantes empregaram para manter o poder e
esmagar as aspirações de uma população frustrada, bem como uma
exploração das táticas que os movimentos populares devem empregar para
contra-atacar com sucesso.

“Na década dos protestos de massas, as explosões nas ruas criaram
situações revolucionárias, muitas vezes por acidente”, escreve Bevins.
“Mas um protesto está muito mal equipado para tirar vantagem de uma
situação revolucionária, e esse tipo específico de protesto é
especialmente mau nisso.”

Ativistas experientes entrevistados por Bevins concordam com este ponto.

“Organizem-se”, diz Hossam Bahgat, o ativista egípcio dos direitos
humanos, a Bevin no livro. “Criem um movimento organizado. E não tenham
medo da representação. Pensávamos que representação era elitismo, mas na
verdade é a essência da democracia.”

O esquerdista ucraniano Artem Tidva concorda. “Eu costumava ser mais
anarquista”, diz Tidva no livro. “Naquela altura todos queriam fazer uma
assembleia; sempre que havia um protesto, tinha que haver uma
assembleia. Mas penso que qualquer revolução sem um partido trabalhista
organizado apenas dará mais poder às elites económicas, que já estão
muito bem organizadas.”

O historiador Crane Brinton, no seu livro /“The Anatomy of Revolution”,/
escreve que as revoluções têm pré-condições discerníveis. Ele cita o
descontentamento que afeta quase todas as classes sociais, sentimentos
generalizados de aprisionamento e desespero, expetativas não
concretizadas, uma solidariedade unificada contra uma pequena elite no
poder, uma recusa por parte de académicos e pensadores em continuar a
defender as ações da classe dominante, uma incapacidade do governo para
responder às necessidades básicas dos cidadãos, uma perda constante de
vontade dentro da própria elite no poder e deserções do núcleo duro, um
isolamento paralisante que deixa a elite no poder sem quaisquer aliados
ou apoio externo e, finalmente, uma crise financeira. As revoluções
começam sempre, escreve ele, fazendo exigências impossíveis que, se o
governo as cumprisse, significariam o fim das antigas configurações de
poder. Mas o mais importante é que os regimes despóticos colapsam sempre
primeiro por dentro. Quando sectores do aparelho governativo – polícia,
serviços de segurança, sistema judiciário, media, burocratas
governamentais – deixarem de atacar, prender, encarcerar ou atirar sobre
manifestantes, quando deixarem de obedecer às ordens, o velho e
desacreditado regime ficará paralisado e terminal.

Mas estas formas internas de controlo durante a década de protestos
raramente vacilaram. Podem, como no Egipto, virar-se contra as figuras
de proa do antigo regime, mas também trabalharam para minar os
movimentos populares e os líderes populistas. Eles sabotaram os esforços
para arrancar o poder das corporações globais e dos oligarcas. Eles
impediram ou demitiram os populistas. A campanha cruel travada contra
Jeremy Corbyn e seus apoiantes quando liderava o Partido Trabalhista
durante as eleições gerais do Reino Unido de 2017 e 2019, por exemplo,
foi orquestrada por membros do seu próprio partido, corporações, a
oposição conservadora, comentadores famosos, uma grande imprensa que
ampliou as difamações e assassinatos de caráter, membros do exército
britânico e os serviços de segurança do país. Sir Richard Dearlove,
antigo chefe do MI6, a secreta britânica, advertiu publicamente que o
líder trabalhista era um “perigo atual para o nosso país”.

Organizações políticas disciplinadas não são, por si só, suficientes,
como provou o governo de esquerda Syriza [NR] <#nr> da Grécia. Se a
liderança de um partido anti-sistema não estiver disposta a libertar-se
das estruturas de poder existentes, será cooptada ou esmagada quando as
suas exigências forem rejeitadas pelos centros de poder reinantes. Em
2015, “a liderança do Syriza estava convencida de que se rejeitasse um
novo resgate, os credores europeus cederiam face à agitação financeira e
política generalizada”, diz Costas Lapavitsas, antigo deputado do Syriza
e professor de economia na Escola de Economia Oriental e Estudos
Africanos, Universidade de Londres, em 2016.

“Críticos bem-intencionados salientaram repetidamente que o euro tinha
um conjunto rígido de instituições com a sua própria lógica interna que
simplesmente rejeitaria as exigências de abandono da austeridade e
amortização da dívida”, explicou Lapivistas. “Além disso, o Banco
Central Europeu estava pronto a restringir o fornecimento de liquidez
aos bancos gregos, estrangulando a economia – e com ela o governo
Syriza.” Foi precisamente isso que aconteceu.

“As condições no país tornaram-se cada vez mais desesperadas à medida
que o governo absorvia as reservas de liquidez, os bancos secavam e a
economia mal funcionava”, escreveu Lapivistas. “O Syriza é o primeiro
exemplo de um governo de esquerda que não só não cumpriu as suas
promessas, como também adotou o programa da oposição, por atacado.”

Não tendo conseguido obter quaisquer compromissos da Troika – Banco
Central Europeu, Comissão Europeia e FMI – o Syriza “adotou uma dura
política de excedentes orçamentais, aumentou impostos e vendeu bancos
gregos a fundos especulativos, privatizou aeroportos e portos, e está
prestes a cortar pensões. O novo resgate condenou uma Grécia atolada em
recessão a um declínio a longo prazo, uma vez que as perspetivas de
crescimento são fracas, os jovens instruídos estão a emigrar e a dívida
nacional pesa fortemente”, escreveu ele. “O Syriza falhou não porque a
austeridade seja invencível, nem porque uma mudança radical seja
impossível, mas porque, desastrosamente, não estava disposto e não
estava preparado para desafiar directamente o euro”, observou
Lapavitsas. “A mudança radical e o abandono da austeridade na Europa
exigem um confronto direto com a própria união monetária.”

O sociólogo iraniano-americano Asef Bayat, que viveu tanto a Revolução
Iraniana em 1979 em Teerão como a revolta de 2011 no Egito, distingue
entre condições subjetivas e objetivas para as revoltas da Primavera
Árabe que eclodiram em 2010. Os manifestantes podem ter-se oposto às
políticas neoliberais, mas também foram moldados pela “subjetividade”
neoliberal. “As revoluções árabes careciam do tipo de radicalismo que
marcou a maioria das outras revoluções do século XX”, escreve Bayat no
seu livro /“Revolução sem Revolucionários: Entendendo a Primavera
Árabe”./ “Ao contrário das revoluções da década de 1970 que adotaram um
poderoso impulso socialista, anti-imperialista, anticapitalista e de
justiça social, os revolucionários árabes estavam mais preocupados com
as questões gerais dos direitos humanos, da responsabilidade política e
da reforma jurídica. As vozes predominantes, tanto seculares como
islâmicas, consideravam o mercado livre, as relações de propriedade e a
racionalidade neoliberal como garantidas – uma visão de mundo acrítica
que apenas defenderia da boca para fora as preocupações genuínas das
massas pela justiça social e distribuição.”

Como escreve Bevins, uma “geração de indivíduos criados para ver tudo
como se fosse um empreendimento comercial foi desradicalizada, passou a
ver esta ordem global como ‘natural’ e tornou-se incapaz de imaginar o
que é necessário para realizar uma verdadeira revolução.” Steve Jobs, o
CEO da Apple, morreu em outubro de 2011 durante o acampamento Occupy no
Parque Zuccotti. Para minha consternação, vários dos que estavam no
acampamento queriam fazer um memorial em sua memória.

As revoltas populares, escreve Bevins, “fizeram um excelente trabalho ao
abrir buracos nas estruturas sociais e criar vácuos políticos”. Mas os
vazios de poder foram rapidamente preenchidos no Egipto pelos militares,
no Bahrein, pela Arábia Saudita e pelo Conselho de Cooperação do Golfo e
em Kiev, por um “conjunto diferente de oligarcas e nacionalistas
militantes bem organizados”. Na Turquia, acabou sendo preenchido por
Recep Tayyip Erdoğan. Em Hong Kong foi Pequim.

“O protesto de massas estruturado horizontalmente, coordenado
digitalmente e sem liderança é fundamentalmente ilegível”, escreve
Bevins. “Não see pode olhar para isso ou fazer perguntas e chegar a uma
interpretação coerente baseada em evidências. Pode-se reunir factos, com
certeza – milhões deles. Mas não seremos capazes de usá-los para
construir uma leitura confiável. Isto significa que o significado destes
eventos ser-lhes-á imposto de fora. Para compreender o que pode
acontecer após qualquer explosão de protesto, não devemos apenas prestar
atenção a quem está à espera nos bastidores para preencher um vácuo de
poder. É preciso prestar atenção em quem tem o poder de definir o
levante em si.”

Em suma, devemos opor o poder organizado ao poder organizado. Esta é uma
verdade que estrategas revolucionários como Vladimir Lenin, que viam a
violência anarquista como contraproducente, entenderam. A falta de
estruturas hierárquicas nos recentes movimentos de massas, feita para
impedir um culto à liderança e garantir que todas as vozes fossem
ouvidas, embora nobre nas suas aspirações, tornou os movimentos presas
fáceis. Na época em que o Parque Zuccotti contava com centenas de
pessoas participando das Assembleias Gerais, por exemplo, a proliferação
de vozes e opiniões significou paralisia.

“Sem uma teoria revolucionária, não pode haver movimento
revolucionário”, escreve Lenin. As revoluções exigem organizadores
qualificados, autodisciplina, uma visão ideológica alternativa, arte e
educação revolucionárias. Requerem ruturas sustentadas do poder e,
sobretudo, líderes que representem o movimento. As revoluções são
projetos longos e difíceis que levam anos para serem realizados,
destruindo lenta e muitas vezes imperceptivelmente os alicerces do
poder. As revoluções bem sucedidas do passado, juntamente com os seus
teóricos, deveriam ser o nosso guia, e não as imagens efémeras que nos
impressionam nos media dominantes.


        06/Outubro/2023


      [NR] A classificação é do autor. Resistir.info não tem de
      concordar com tudo o que publica. Recorde-se que o Syriza acaba de
      nomear um banqueiro como seu novo secretário-geral (supostamente
      "de esquerda").


    [*] Jornalista, Prémio Pullitzer.


    O original encontra-se em Scheer Post
    <https://scheerpost.com/2023/10/01/chris-hedges-why-our-popular-mass-movements-fail/> e a tradução em onda7.blogspot.com/2023/10/bico-calado_0973851776.html <https://onda7.blogspot.com/2023/10/bico-calado_0973851776.html>

Em
Resistir.info
https://www.resistir.info/crise/chris_hedges_06out23.html#asterisco
6/10/2023