Por António Azevedo
O /AbrilAbril/ esteve à conversa com Tiago Oliveira, o novo secretário-
geral da CGTP-IN. Na conversa foi abordado o novo quadro que saiu das
eleições do passado domingo, as repostas que se devem dar e os desafios
que se colocam. Intensificar a luta é o caminho.
Tiago Oliveira foi eleito secretário-geral da CGTP-IN há cerca de duas
semanas. A sua eleição ocorreu num quadro de correlação de forças
diferente do actual, que mudou radicalmente em pouco tempo. O recém-
eleito secretário-geral não nega que a nova composição da Assembleia da
República traduz perigos, mas assinala que é com os trabalhadores,
mesmo com aqueles cujas opções de voto não traduzem a sua situação
social, que se tem que intensificar a luta.
Desde a actual situação política, económica e social, os desafios que
estão colocados à CGTP-IN e as tarefas que se colocam, Tiago Oliveira
vinca que a solução passa pelo desenvolvimento da luta nos locais de
trabalho.
A tarefa não se avizinha fácil, mas é o próprio que relembra todo o
património histórico de luta, intervenção e resistência da central
sindical de classe que é a salvaguarda para todos os embates que se
aproximam.
Foste eleito há duas semanas e entretanto a correlação de forças
na Assembleia da República alterou-se com o resultado das eleições
de dia 10. Consideras que a CGTP-IN está preparada para dar
resposta ao perigo que se coloca?
Se há algo que a CGTP-IN afirmou ao longo dos seus 53 anos de
existência, é uma capacidade de resistência, de intervenção, de
persistência, de mobilização dos trabalhadores nos locais de trabalho,
que atestam que temos todas as condições para continuar a trilhar este
caminho em defesa dos interesses, das justas aspirações dos
trabalhadores. Não é a alteração do quadro político de domingo que irá
alterar a nossa postura, nem a nossa presença nos locais de trabalho,
que isso é que é fundamental.
Temos que fazer aquilo que sabemos, que é a discussão com os
trabalhadores, a mobilização dos trabalhadores, discutir o problema
concreto que aflige cada um no seu local de trabalho, e saber dar as
devidas respostas. E essa resposta dá-se com a participação deles, com a
discussão no coletivo, e no coletivo, encontrando as respostas necessárias.
Num quadro onde as forças reaccionárias ganharam bastante força, a
luta concreta e imediata ganha ainda mais importância nesta fase?
O quadro que saiu das eleições do passado domingo é um quadro
preocupante e a gente não pode escamotear isso, nem pode deixar de fazer
uma avaliação concreta daquilo que foram os resultados eleitorais.
Obviamente, remetendo isto para uma maioria de direita, e analisando
aquilo que foram as políticas de direita, sempre que estiveram no
governo. No período da Troika, aquilo que foi a retirada de direitos aos
trabalhadores, o ataque aos salários, o ataque às pensões, o ataque com
a retirada de feriados e de férias, achar que a direita alterou aquilo
que é o seu objectivo concreto, não alterou. Temos que estar preparados
para dar combate àquilo que são políticas de retirada de direitos,
àquilo que são políticas de ataque aos direitos dos trabalhadores,
àquilo que são políticas de ataque às funções sociais do Estado. Isto
vai exigir muito dos trabalhadores, deste coletivo, daqueles que no
domingo exerceram o seu direito de voto. Contamos com o seu poder para
continuar a trilhar este caminho.
Os votos que a direita conseguiu, a maioria que a direita
conseguiu obter, foi em grande parte também com votos de
trabalhadores. Isto é inegável. Foram os próprios trabalhadores a
dar esta maioria à direita. Como é que encaras este aspecto, até
do ponto de vista da luta, uma vez que, em última análise, é
sempre com ele que nós contamos nas fileiras da luta?
Acho que colocaste as coisas na formulação completamente correcta. Nós
temos que fazer uma avaliação do porquê deste resultado eleitoral e a
primeira avaliação que é feita é que de facto, se olharmos, nós temos
uma viragem à direita proveniente do governo de maioria absoluta do
Partido Socialista. E isto não é pequena esta observação. Não é pequena
porquê? Porque se nós olharmos para aquilo que foi a partir de 2015, com
os avanços que se alcançaram, com a recuperação dos direitos e
rendimentos, houve uma valorização dessa política por parte dos
trabalhadores e do povo português. Portanto, houve uma valorização dessa
política. Não vale a pena agora estar aqui a dar nota se o PS, na
altura, se apoderou de políticas que não eram deles, mas o facto é que o
povo, valorizando uma política de recuperação de rendimentos e de
direitos, soube valorizar aquilo que foi essa política, e por isso é que
o povo, obviamente, no contexto histórico da altura, e valorizando essa
recuperação, votou da forma que votou, dando a maioria absoluta ao
governo do PS.
A questão aqui é: porque é que falhou para agora haver esta viragem à
direita? E a falha tem que estar identificada. E está identificada. Nós
não podemos pensar que o povo não sente na pele aquilo que são as
políticas colocadas em prática. Nós tivemos, neste período, um conjunto
de problemas que recaíram sobre os trabalhadores e aos quais o governo
não deu resposta. A questão da crise da habitação e do aumento das taxas
de juros: como é que é possível termos trabalhadores com aumentos
brutais na sua renda e chegarmos ao fim do mês, vermos que não temos
dinheiro para pagar a casa e termos uma concentração de milhares de
milhões de euros diárias pelo sector da banca?
Como é que é possível estarmos perante um brutal aumento de custos de
vida e aqueles que nos vendem o azeite a 10 euros são os mesmos que
diariamente têm 2 milhões de euros de lucro? A Jerónimo Martins tem um
lucro diário de dois milhões de euros quando há gente que não consegue
comprar o azeite, fazer face às despesas diárias.
Como é que nós vemos uma política de completo desinvestimentos do
Serviço Nacional de Saúde, em que metade do orçamento do SNS vai para os
grupos privados e aquilo que fica para o sector do Estado, muito dele é
cativado pelo Estado? Depois, quer dizer, não há resposta do SNS, não
temos médicos, não temos enfermeiros, não temos equipamentos. Então as
pessoas não sentem isto? Claro que sentem isto.
Achas que é um sentimento de revolta mal direccionado?
Não diria mal direcionado. Sinto que é um sentimento de revolta, é um
sentimento de frustração, é um sentimento daqueles que diariamente
precisam de fazer face às suas dificuldades de vida e precisam de resposta.
Eu queria até dar aqui um exemplo concreto que acho que é importante. Na
empresa em que trabalho, há um mês atrás, estávamos a fazer um plenário
e houve um trabalhador, um jovem trabalhador, que disse que teve quase
400 euros de aumento na prestação da casa. E ele perguntou-me onde é que
se vai buscar esse dinheiro. Eu sou trabalhador e coloco isto assim
diretamente na empresa. Eu sou trabalhador, só posso ir buscar dinheiro
ao meu trabalho. Se eu só tenho como ferramenta o meu trabalho, tenho
que ir buscar dinheiro ao meu trabalho, tenho que ir buscar dinheiro à
empresa, com acção reivindicativa, à luta pelo aumento dos salários.
Quero dizer com isto o quê? Não é que seja mal direccionado. Nós também
não podemos esquecer aquilo que foi uma completa promoção mediática por
parte do capital, como é óbvio, aquilo que foi uma promoção mediática de
um partido como o Chega, que tem uma política completamente de vazio, no
vazio, sem proposta ou com propostas que não passam para fora as reais
intenções e que obviamente com esta promoção capitalizou muito o voto do
descontentamento. Medidas populistas, medidas de combate à corrupção
(obviamente com aquilo que a gente sabe que está por trás deste
partido), mas que acho que há um bocado colocaste as coisas no sentido
certo. São estes trabalhadores que hoje deram este passo, mas que amanhã
vão estar connosco à porta da empresa, na rua, a lutar por melhores
condições de vida e trabalho.
Só virando um bocado a página, ao longo destes últimos tempos, o
capital tem até acentuado uma linha narrativa sobre o movimento
sindical, especialmente a CGTP e o Movimento Sindical Unitário, de
não estar adaptado aos novos tempos. Vem até com o conceito vazio
do «sindicalismo moderno» que ninguém sabe bem descrever o que é.
Mas face a isto, consideras que, apesar de tudo, a CGTP tem de se
reforçar num conjunto de áreas? Pergunto-te isto porque há cada
vez mais trabalhadores em teletrabalho e em plataformas digitais.
Primeiro dizer-te que costuma-se utilizar muito o palavreado da
«cassete». Dizem muitas vezes «a vossa cassete é sempre a mesma». Também
estou à espera que um dia o capital mude de cassete, porque nós temos 40
anos de política de direita e a cassete do capital nunca mudou. Estão
sempre à procura de mais apoios do Estado, sempre à procura de
alterações da legislação laboral que supostamente respondam às
pretensões do patronato. E o que é certo é que passados 40 anos de
política de direita e a cassete é sempre a mesma. Os problemas dos
trabalhadores mantêm-se, nunca se alteraram - baixos salários, mais
precariedade, desregulação dos horários de trabalho, tentativa de
normalização do trabalho ao sábado, domingo e feriado… Com tantas
políticas que supostamente iriam permitir ao país alavancar para a
frente, passados 40 anos estamos exatamente num processo de regressão
naquilo que são os direitos dos trabalhadores.
Quanto às cassetes, a CGTP-IN que mantém a sua, estamos do lado certo.
Não mudaremos nunca a nossa cassete porque entendemos que temos que dar
resposta aos problemas concretos dos trabalhadores.
Relativamente às novas formas de trabalho, também não esquecer quem é
que as promove e com que intuito as promove. Se a gente olha para aquilo
que são as novas formas de trabalho, a questão do teletrabalho ou da
uberização, obviamente isto são ferramentas do capital com um objectivo
muito concreto de fragilização das relações de trabalho. A questão da
tentativa de individualizar a relação de trabalho, a tentativa de
desconstruir o espírito de colectivo e de unidade que está inerente aos
trabalhadores, e obviamente isto seria hipócrita da minha parte dizer
que isto não tem impacto na actuação sindical e no trabalho colectivo
que os sindicatos têm a obrigação de realizar.
Temos que ter a capacidade de chegar a esses trabalhadores e procurar as
melhores formas de chegar a esses trabalhadores, utilizando as mais
variadíssimas ferramentas, mas sempre com um objectivo muito concreto
que não é estarmos apenas a adaptar as novas formas de trabalho, mas sim
discutir com os trabalhadores o porquê que de elas existirem, qual é o
intuito dessas formas de trabalho e procurar, de certa forma, ganhar os
trabalhadores para a luta em prol de um futuro melhor para eles.
Um trabalhador que esteja hoje em dia numa plataforma digital é um
trabalhador que tem muitas mais dificuldades reivindicativas, é um
trabalhador muito mais explorado, que não tem horários de trabalho, não
tem um conjunto de salvaguardas no seu futuro que lhe permitam ter
perspectiva de vida. Aquilo que a gente defende é que esse trabalhador
deve estar integrado na empresa para a qual presta serviço, na empresa
para a qual trabalha. Portanto, há aí um conjunto de manobras do capital
que têm em vista, muito concretamente, a individualização das relações
de trabalho, a destruição do espírito coletivo. Na nossa parte o que
temos que fazer é estarmos presentes.
Estamos a ter esta discussão toda, já abordámos a alteração da
correlação de forças e estes desafios que se colocam. Agora, a
CGTP-IN tem a exigência de Salário Mínimo Nacional de 1000€ para
este ano, uma actualização de 150€ para todos os trabalhadores,
mas paralelamente nós vemos à esquerda um conjunto de cedências,
um recuar nestas reivindicações e até colocam reivindicações
abaixo do que é proposto. Como é que a CGTP vê isto? As exigências
mantêm-se para este ano?
A questão fundamental, deixa-me colocar as coisas assim, só para se ter
a noção da dimensão da responsabilidade da CGTP, foi a CGTP ter sido a
primeira força que avançou com a proposta de salário mínimo para 1000
euros para este ano, o que permitiu que, durante a própria campanha
eleitoral, este tema fosse um tema tangente na discussão entre os
partidos. Logo a partir daí, começaram a surgir diversas discussões em
torno do aumento do salário mínimo, obviamente partidos que avançam com
a sua proposta apenas de concretização para 2028, mas o que é certo é
que quem colocou a questão fundamental do aumento real dos salários foi
a CGTP e isto tem a sua dimensão.
Fundamentalmente a gente tem é que olhar para aquilo que é a realidade
no dia-a-dia das pessoas, da maioria das pessoas, não é olhar para a
realidade daqueles que são os muito poucos que ganham muitos milhões.
Temos que olhar para a realidade dos muitos milhões que têm muito pouco.
As dificuldades do dia-a-dia persistem. As pessoas têm dias a mais no
mês para o dinheiro que recebem, para o salário que recebem. As pessoas
que não têm resposta aos seus problemas concretos. As pessoas têm
dificuldades tremendas para ter uma vida digna.
Dizer que a nossa reivindicação vai mudar de alguma forma? Não, pelo
contrário. Mais razão ganha dela existir. A questão do aumento do
salário mínimo em 1000 euros ainda para este ano e a questão do aumento
geral dos salários de 150 euros para todos os trabalhadores. E isto tem
uma questão social profunda que é de responder aos problemas concretos
que existem.
Basta ir na rua, olhar para a cara das pessoas, falar com as pessoas,
sentir os problemas que são diários para perceber o real problema e a
real dimensão que existe na vida de cada um.
Para finalizar: o que é que se coloca agora? O que é que está em
perspectiva agora e para os próximos meses na agenda da CGTP-IN?
A perspectiva agora e para os próximos meses é a continuação da acção
reivindicativa, concretamente nas empresa e locais de trabalho e local
de trabalho, garantindo que vamos discutir com o máximo de trabalhadores
aquilo que são as linhas orientadoras que saíram do 15.º Congresso, as
reivindicações centrais da CGTP-IN, e impulsionar os trabalhadores para
a luta concreta na empresa. É aí que se dá o verdadeiro confronto de
classes, sem nunca esquecer uma questão fundamental: é na empresa que se
dá o verdadeiro confronto, mas se as empresas praticam o que praticam é
por força de políticas que foram instituídas e são implementadas pelos
governos. Por isso nós temos que ter essa ligação constante entre aquilo
que é a posição de uma empresa e aquilo que permitiu à empresa ter essa
posição.
Mas fundamentalmente é discutir com os trabalhadores a acção
reivindicativa e, no quadro que saiu das eleições do dia 10 e daquilo
que é a previsão da instabilidade futura, garantir que temos um grande
25 de Abril e 1º de Maio. São dois grandes momentos de afirmação dos
trabalhadores, dois grandes momentos de luta. São os 50 anos do 25 de
Abril, com todos os ataques que Abril tem sofrido, o 25 de Abril deste
ano tem que ter uma forte resposta e o 1º de Maio, um dia de luta, ser
de afirmação, não apenas um dia de festa, mas também um dia de luta e de
afirmação.
Os trabalhadores têm que se organizar nas suas empresas, pegar no seu
pano com as reivindicações concretas e têm que vir para a rua para
demonstrar a sua força.
Em
ABRIL ABRIL
https://www.abrilabril.pt/trabalho/e-na-luta-nas-empresas-que-se-da-o-verdadeiro-confronto-de-classes
13/3/2024
quinta-feira, 14 de março de 2024
«É na luta nas empresas que se dá o verdadeiro confronto de classes»
terça-feira, 12 de março de 2024
La izquierda de moda
DANILO RUGGIERI, ESPECIALISTA EN HISTORIA CONTEMPORÁNEA
/*Hablamos de la izquierda, o más exactamente de la izquierda europea,
que es neoliberal en economía, partidaria de la arquitectura política de
la UE y de la narrativa de la supuesta superioridad democrática y
civilizatoria del europeísmo, en política exterior proclive a los
satélites del atlantismo angloamericano, en sociedad partidaria de las
campañas de opinión sobre los derechos individuales, socia instrumental
del mundo feminista y ecologista. */
Ir contracorriente es una de las virtudes de Sarah Wagenknecht. La ya ex
dirigente del Die Linke alemán, tras una larga batalla interna, rompió
hace unos meses y abandonó el partido junto a otros, culpables de un
giro liberal y cosmopolita, ya no atento a las luchas sociales,
patrimonio tradicional de la histórica izquierda obrerista y
socialdemócrata alemana. Esta ruptura fue precedida por la publicación
en Alemania en 2021 de un libro suyo («Contra la izquierda neoliberal»)
que suscitó muchas discusiones y que se publicará próximamente en España.
Hay que decir de una vez que ha pasado mucha agua bajo el puente desde
que se escribió el libro.
Solo tres años después de su publicación, una alteración sistémica del
equilibrio geopolítico ha redibujado los mapas de la confrontación
internacional. El inicio de la operación militar especial de Rusia en
Ucrania en defensa de las poblaciones rusoparlantes del Donbass, la
extensión del conflicto a la OTAN, que dirige y supervisa el esfuerzo
bélico ucraniano, la destrucción de las líneas estratégicas de
suministro de gas entre Rusia y Europa, y la guerra de exterminio
israelí en Gaza en los últimos meses con escenarios de una posible
ampliación en Oriente Medio, marcan un cambio de época en la perspectiva
política, incluso interna, de los movimientos «antisistema» que se
mueven en el continente europeo.
El libro se detiene sólo en parte en los efectos nefastos de la crisis
pandémica que estalló en 2020 y se silenció en correspondencia con los
conocidos sucesos de febrero de 2022. Los rasgos generales del análisis
político y social que la autora hace de la situación alemana, y que
podrían extenderse a Europa Occidental, se confirman, incluso se
refuerzan, al observar las posiciones adoptadas por gran parte de las
clases políticas que lideran la izquierda liberal «progresista» y «radical».
Podemos decir que la guerra mundial en curso entre el mundo occidental y
el mundo oriental contempla a esta izquierda –baste pensar en los
socialdemócratas y verdes alemanes, pero sin olvidar a nuestro PD local
y arbustos varios– como activa partidaria de las opciones belicistas
atlánticas, y animada por un espíritu de presunta superioridad moral y
cultural hacia los otros mundos.
Dicho esto, el libro tiene el mérito de analizar concretamente y en un
lenguaje muy sencillo las contradicciones fundamentales del pensamiento
de la izquierda «de moda», correspondiente a nuestra izquierda reflexiva
de clase media que vive en la zona residencial de las grandes ciudades
metropolitanas. Hay que apreciar la valentía con la que una figura
histórica de la izquierda socialista alemana, animadora de batallas
históricas, ha decidido coger el toro por los cuernos.
Su tesis parte de la constatación de la mutación genética consumada de
gran parte de los grupos dirigentes de la izquierda histórica, que ha
conducido a la traición de su base social, constituida por los
trabajadores de los servicios de bajos ingresos y la clase obrera, que
en los últimos treinta años han sufrido todas las contrarreformas del
liberalismo económico y el progresivo desplazamiento de las batallas
políticas y culturales hacia los temas de los derechos individuales y
las minorías sexuales, abandonando por completo el campo de la lucha por
la defensa del trabajo público y privado, la sanidad y las condiciones
sociales generales de las clases subalternas.
Wagenknecht no sólo enumera muchos datos y ejemplos para demostrar esta
tesis, sino que dedica un capítulo a definir los nuevos sujetos sociales
que representan la base de consenso electoral de esta izquierda liberal,
cosmopolita y de moda.
Este punto es muy importante porque no se queda en la vaguedad, en una
crítica superficial, sino que analiza los grupos sociales que han ganado
posiciones económicas y prestigio con el liberalismo y que muy a menudo
tienen una actitud de presunta superioridad moral hacia los trabajadores
con baja formación, hacia esa parte del proletariado del sector
servicios que sufre la «modernidad» liberalista. Conviene citar este
pasaje que introduce la tesis del libro:
/«Dos personas que proceden de medios sociales diferentes tienen cada
vez menos que decirse, precisamente porque viven en mundos diferentes.
Si la burguesía acomodada y con estudios universitarios de las grandes
ciudades aún consigue encontrarse en la vida real con los menos
afortunados, sólo lo hace gracias a la valiosa labor de mediación del
sector servicios, que puede ofrecerles quien les limpie la casa, quien
les entregue los paquetes y quien les sirva sushi en un restaurante. Las
burbujas no sólo existen en las redes sociales. Cuarenta años de
liberalismo económico, desmantelamiento del Estado del bienestar y
globalización han dividido las sociedades occidentales hasta tal punto
que la vida real de muchos ya sólo se mueve en la burbuja en la que se
encuentra su clase. Nuestra sociedad, aparentemente abierta, está en
realidad llena de muros» /
Este pasaje subraya una pequeña verdad cotidiana que marca profundamente
la vida social y psicológica de una gran parte del proletariado
descompuesto y fragmentado que hoy prevalece en las grandes áreas urbanas.
La incomunicabilidad social, la división casi atomística del tejido de
las clases subalternas es una de las grandes cuestiones con las que
tendrá que contar una izquierda que quiera hablar al abigarrado mundo de
los trabajadores típicos y atípicos, por subalternos que sean, como su
principal punto de referencia.
Pero veamos qué entiende precisamente Wagenknecht por la izquierda de moda:
/«El imaginario público de la izquierda social está dominado por una
tipología que en adelante denominaremos izquierda de moda, en la medida
en que quienes la apoyan ya no sitúan los problemas sociales y político-
económicos en el centro de la política de izquierdas, sino las
cuestiones relativas al estilo de vida, los hábitos de consumo y los
juicios morales sobre el comportamiento. Esta oferta política de una
izquierda de moda muestra su forma más pura en los partidos verdes, pero
también se ha convertido en una corriente dominante en los partidos
socialdemócratas, socialistas y de izquierdas de casi todos los países.»/
Aquí habría que decir algunas cosas a modo de aclaración. Si bien el
razonamiento básico responde a la mutación real de la izquierda
socialista, socialdemócrata o ex comunista, los contextos nacionales
también marcan diferencias secundarias pero no irrelevantes.
Por ejemplo, en Alemania, los Verdes tienen una historia política y unas
raíces sociales que no son comparables a las de nuestro país, sino
también a las de otros como Francia. Por el contrario, en Italia la
izquierda ex comunista, ex socialdemócrata (depende del punto de vista)
ha hecho algo más que abandonar a sus propias clases de referencia, han
sido agentes activos de las peores contrarreformas sociales, del peor
liberalismo privatizador, gobernando en contra de las clases populares.
Al mismo tiempo que esta prolongada carnicería social, los grupos
dirigentes de la «izquierda» han recuperado su virginidad defendiendo la
imaginería europeísta, las batallas por las libertades sexuales y el
estilo de vida moderno como señas de identidad de la izquierda «moderna»
del siglo XXI.
La naturaleza de esta mutación es profundamente social antes que
política. Este aspecto queda bien esbozado en el libro de Wagenknecht,
en el que se dedica un capítulo a la base social de esta izquierda
cosmopolita, europeísta y «progresista».
Hablamos de la izquierda, o más exactamente de la izquierda europea, que
es neoliberal en economía, partidaria de la arquitectura política de la
UE y de la narrativa de la supuesta superioridad democrática y
civilizatoria del europeísmo, en política exterior proclive a los
satélites del atlantismo angloamericano, en sociedad partidaria de las
campañas de opinión sobre los derechos individuales, socia instrumental
del mundo feminista y ecologista.
Aquí, todo esto ya no tiene nada que ver con el viejo mundo de la
izquierda del siglo XX, comunista o socialdemócrata, obrera y
asalariada, aunque nos encontremos con que a menudo los grupos
dirigentes, al menos en Italia, proceden de ese mundo. He aquí otro
pasaje esclarecedor de Wagenknecht, que en sus líneas generales define
un paradigma, un tipo social y un carácter político:
/«El representante de la izquierda de moda vive en un mundo
completamente distinto y se define por otros temas. Evidentemente, es
proeuropeo y cosmopolita, aunque cada cual entienda estas palabras de
moda de forma ligeramente diferente. Le preocupa el clima y está
comprometido con la emancipación, la inmigración y las minorías
sexuales. Está convencido de que el Estado nación es un modelo moribundo
y se considera un ciudadano del mundo y sin demasiados lazos con su
propio país…»/
/y otra vez:/
/«Como el izquierdista de moda apenas entra en contacto directo con las
cuestiones sociales, éstas le interesan muy poco. Por supuesto, el
objetivo sigue siendo una sociedad justa y sin discriminación, pero el
camino para llegar a ella ya no pasa por las viejas cuestiones de
economía social, es decir, salarios, pensiones, impuestos y subsidios de
desempleo, sino principalmente por los símbolos y el lenguaje./
/Pero volvamos a las clases sociales de referencia, quedándonos en la
situación alemana de la que habla Wagenknecht./
El consenso activo y pasivo de esta izquierda está arraigado entre
licenciados de clase media que trabajan en la administración pública, en
puestos medios-altos, profesionales de la comunicación y el marketing,
en servicios financieros que trabajan en obra social, en empresas de
movilidad verde, piezas de la burocracia sindical y del abigarrado mundo
del ecologismo y las culturas alternativas.
En este medio crece y prospera una narrativa posmoderna, de mil
lenguajes, de vago pacifismo, de odio hacia cualquier recuperación de
una soberanía nacional y popular, etiquetada siempre y en todo caso como
un remanente reaccionario y de derechas, y abanderados convencidos de un
europeísmo abstracto que no significa otra cosa que un apoyo consciente
e interesado a las políticas neoliberales de Bruselas.
En resumen, esta izquierda ha cambiado de forma y de contenido desde sus
orígenes. Ha optado por representar los intereses, expectativas y
sentimientos de aquellas clases que han salido victoriosas y/o
aseguradas de las transformaciones sociales de las últimas décadas.
Hechas estas breves incursiones en la deriva del mundo de la izquierda
políticamente correcta y compatibilista, el valor añadido de la
reflexión de la socialista alemana reside en las partes dedicadas a la
cuestión del Estado-nación y su recuperación en la lucha política y en
el imaginario colectivo por la emancipación social de las clases
subalternas.
Si no se aborda también hoy claramente esta contradicción, se permanece
inevitablemente, voluntaria o involuntariamente, consciente o
inconscientemente, de buena o mala fe, en la subordinación total a los
intereses del gran capital.
Si bien es cierto que la vulgata de la izquierda, incluso y sobre todo
de la izquierda radical, según la cual la invocación de la soberanía
nacional sería antihistórica, por no decir otra cosa, e ideológicamente
decididamente de derechas, cuando no fascista, esta manera de ver las
cosas es a menudo el producto de una ignorancia total de la historia del
movimiento obrero y socialista internacional.
Y eso sería lo de menos, dada la tendencia general en nuestras partes.
La cuestión es que referirse a un internacionalismo vago y genérico de
los pueblos es, en el mejor de los casos, un signo de extremismo senil
incurable y, en el peor, significa trabajar para el enemigo.
El nudo es absolutamente contundente, sobre todo en nuestras latitudes,
y la guerra de la OTAN contra Rusia confirma la necesidad de reabrir un
debate serio en las filas de una izquierda popular, si es que existe.
Sobre todo si tenemos en cuenta que nuestros países son naciones de
soberanía limitada, no sólo porque hay decenas de bases militares
estadounidenses en nuestros territorios, sino esencialmente porque toda
decisión digna de relevancia es aprobada y ratificada primero por las
oligarquías anglosajonas y el poderoso lobby israelí-sionista. ¿Podemos
encogernos de hombros ante esta realidad o limitarnos a vagos eslóganes
sobre un internacionalismo sin fronteras?
Dicho esto, no faltan debilidades en el marco propositivo de
Wagenknecht. En primer lugar, se queda mucho en la superficie sobre la
cuestión de la Unión Europea y su carácter estructuralmente
antidemocrático y antipopular, una jaula que durante décadas ha
aprisionado todo posible proyecto de emancipación popular y de
recuperación de una soberanía basada en los intereses de la mayoría de
las clases trabajadoras. El texto carece de una idea de fondo, de una
vía programática radical que profundice y enfatice el potencial
antisistémico.
Al tiempo que expresa una dura crítica al capitalismo financiero y de
libre mercado, en Wagenknecht existe la idea, en mi opinión ingenua e
infundada, de proponer o aspirar a una vuelta a un capitalismo
«diferente», «verdaderamente meritocrático», no monopolista (que nunca
lo fue), sino en los deseos de la ideología reformista de la
socialdemocracia, hija de un mundo que ya no existe y al que no es
posible, aunque se quisiera, volver.
Cuando se afirma que «la propiedad privada y la búsqueda del beneficio
sólo pueden fomentar el progreso tecnológico y aumentar así el potencial
de bienestar de la economía allí donde existe una auténtica competencia
y unas normas y leyes claras que velan por no gravar a los asalariados y
al medio ambiente», el autor se desliza hacia la narración nostálgica de
un capitalismo con rostro humano que, si existió, fue el producto
histórico y determinado de dos corrientes históricas fundamentales, la
existencia de un bloque socialista opuesto al mundo capitalista y una
lucha de clases que tenía en la clase obrera y en el proletariado en
general una fuerza relativamente homogénea capaz de ganar posiciones y
mejoras progresivas.
A pesar de algunas debilidades programáticas y, como dirían algunos, de
una visión fragmentada de la tarea antisistémica, sigue siendo un libro
que ofrece una visión crítica y hunde el cuchillo en el mundo de la
izquierda. Lo necesitamos, pero aún queda mucho camino por recorrer.
Em
OBSERVATORIO DE LA CRISIS
https://observatoriocrisis.com/2024/03/13/la-izquierda-de-moda/
12/3/2024
terça-feira, 5 de março de 2024
A ideologia da guerra na Ucrânia e em Israel
Thierry Meyssan
As guerras da Ucrânia e de Gaza assemelham-se mais do que se possa
pensar, pelo menos se conhecermos a sua História. A da Ucrânia não
começou com a operação militar russa, mas com os massacres no Donbass,
enquanto a de Gaza não começou com a operação « Torrente de Al-Aqsa »,
mas 75 anos antes com a Nakhba. Com o decorrer do tempo, os responsáveis
pelas duas guerras afinam pela mesma ideologia.
De um maneira geral, qualquer guerra define quem somos « nós » e quem
são« eles ». « Nós » somos o Bem, enquanto « Eles » são o Mal.
Os dirigentes ocidentais, embora declarem que a guerra em si é má,
afirmam que agora ela é indispensável face às agressões da Rússia e do
Hamas. Segundo eles, a Rússia, ou melhor, o seu Presidente Vladimir
Putin, sonha apoderar-se dos nossos bens e destruir o nosso sistema
político. Depois de ter invadido a Ucrânia, ele invadirá a Moldávia e os
países Bálticos; depois continuará para o Ocidente. O Hamas, esse, é uma
seita cheia de ódio que começa por violar e decapitar os judeus por
causa do anti-semitismo e que irá continuar invadindo o Ocidente em nome
da sua religião.
É de notar que Israel e os Estados Unidos foram fundados pelos seus
exércitos, a Haganah e o Exército Continental. Actualmente, a grande
maioria dos seus dirigentes políticos passaram as suas carreiras no
Exército ou nos Serviços Secretos. Mas não são os únicos, já que Xi
Jinping é um militar e Vladimir Putin é um antigo membro dos Serviço
Secreto soviético (KGB).
Pergunta-mo-nos sobre o que alimenta as fantasias do Ocidente político e
como é que elas os impedem de captar a realidade. A Rússia não invadiu a
Ucrânia, tal como a França não invadiu o Ruanda. Moscovo e Paris
impediram o massacre dos Ucranianos do Donbass e dos Ruandeses tutsis.
Ambas foram movidas pela sua «responsabilidade de proteger» e aplicaram
as Resoluções do Conselho de Segurança. Os Palestinianos não violam nem
decapitam ninguém por prazer, embora alguns deles pertençam a uma
sociedade secreta que o faz. Eles não lutam contra os judeus por anti-
semitismo, excepto o braço histórico do Hamas, mas sim contra o sistema
de apartheid do qual são vítimas.
Talvez a cegueira colectiva tenha por função principal apagar os nossos
crimes anteriores : foram as «democracias» dos Estados Unidos e de
membros da União Europeia que organizaram o derrube do Presidente
ucraniano eleito, Viktor Yanukovych, em 2014. Foram a Alemanha e a
França que assinaram os Acordos de Minsk para garantir a paz aos
Ucranianos do Donbass (2015), mas que nunca tiveram a intenção de os
aplicar e, segundo as confissões da Chancelerina Angela Merkel e as do
Presidente François Hollande, utilizaram-nos para armar a Ucrânia contra
a Rússia. Esta corrupção da palavra e da assinatura constitui, segundo o
Tribunal de Nuremberga, o mais grave de todos os crimes, aquele que é
cometido « contra a paz ».
Da mesma forma, foi a «maior democracia do Médio-Oriente», Israel, quem
roubou por ocupação, e pela contínua apropriação, metro após metro, a
maior parte dos Territórios palestinianos fixados pela Resolução 181 do
Conselho de Segurança (1947).
A menos que se dê o contrário : a nossa cegueira colectiva talvez tenha
a função de nos permitir perpetrar os nossos próximos crimes. Neste
caso, não nos devemos espantar por estarmos à procura de desfazer a
economia russa e, em última análise, reenviar a Rússia para à Idade da
Pedra. Muito menos nos devemos espantar com discursos apelando à limpeza
étnica da Palestina geográfica e, por fim, à expulsão de um milhão de
Palestinianos.
<https://www.voltairenet.org/IMG/jpg/220512-2.jpg>
*Benjamin Netanyahu e Volodymyr Zelensky prestam homenagem em Babi Yar
onde 33. 000 judeus foram massacrados pelos nazis e seus colaboradores
ucranianos. A hipocrisia da cerimónia nota-se : acede-se ao memorial
pela avenida Stepan Bandera, o nome do "Providnyk" (guia) da Organização
dos nacionalistas [integralistas] ucranianos. *
Estes conflitos não visam a apropriação de recursos, mas sim de
territórios. Os nacionalistas integralistas ucranianos de Dmytro Dontsov
nunca deixaram de reivindicar, desde 1917, a soberania sobre a
Novorossia anarquista de Nestor Makhno e o Donbass e Crimeia
bolcheviques. É claro que estes territórios foram fundidos na Ucrânia
Soviética pelo Ucraniano Nikita Khrushchev, mas Kiev não pode invocar a
história recente para se apropriar deles. De forma idêntica, os
sionistas revisionistas de Vladimir Ze’ev Jabotinsky reivindicam, desde
1920, a soberania sobre toda a Palestina e, a prazo, sobre o Sinai
egípcio, o Líbano, a Jordânia e a Síria, em suma, todos os territórios
que vão do « Nilo ao Eufrates ». É claro que o antigo reino de Jerusalém
era constituído pela cidade e pelos seus arredores, mas isso não lhes
permite invocar a História para reclamar todas estas conquistas.
Diz-se frequentemente que a pirâmide etária determina a agressividade
dos Estados. Estes, tendo uma maioria de jovens entre os 15 e os 30
anos, estariam por natureza virados para a guerra. Ora, não é este o
caso da Ucrânia, nem o de Israel. Mais ainda, é a Palestina e não Israel
que a pirâmide etária poderá empurrar para a guerra.
No fim, é provavelmente a questão ideológica a mais importante. Dmytro
Dontsov e o seu homem de mão, Stepan Bandera, glorificaram os
combatentes ucranianos, supostos “herdeiros” dos Vikings suecos, os
Varenges, que deviam massacrar os «Moscovitas» para poder festejar no
Valhalla. Agora, temos o «Führer Branco», Andriy Biletsky, que comandou
as tropas da Divisão Azov em Mariupol, a 3ª Brigada de Assalto em
Bakhmut/Artemovsk e recentemente em Avdeïevka/Avdiïvka. Da igual forma,
Benjamin Netanyahu, filho do secretário particular de Vladimir
Jabotinsky, não hesitou em comparar os Palestinianos aos antigos
Amalequitas (episódio do Êxodo na Bíblia-ndT). Está sub-entendido, é
preciso exterminá-los a todos tal como Yahweh ordena, caso contrário a
sua raça ressurgirá contra os Hebreus. Da mesma forma, as FDI destruíram
sistematicamente todas as universidades e escolas da Faixa de Gaza e
massacraram 30. 000 civis fingindo estar a lutar contra o Hamas.
Dmytro Dontsov fez uma aliança com Adolf Hitler, em 1923, quer dizer,
antes de este chegar ao Poder, tornando-se depois um dos administradores
do Instituto Reinhard Heydrich encarregue da execução da “solução final”
das questões judaica e cigana. Vladimir Jabotinsky, que tinha feito uma
aliança com Dontsov, em 1922, fundou a escola de quadros do Betar, em
Civitavecchi (Itália), com a ajuda do Duce Benito Mussolini, em 1935.
Ele não teve a possibilidade de jogar um grande papel durante a Segunda
Guerra Mundial, uma vez que morreu em Agosto de 1940. Não há, assim,
nenhuma dúvida possível sobre a adesão dos nacionalistas integralistas
ucranianos ao nazismo e a dos sionistas revisionistas ao fascismo.
Além disso, encontramos a lógica de apropriação territorial dos regimes
fascista e nazi no discurso actual do Presidente ucraniano, Volodymyr
Zelensky, e no do Primeiro-Ministro israelita, Benjamin Netanyahu.
Enquanto os Presidentes russo e palestiniano, Vladimir Putin e Mahmud
Abbas, não param de afirmar que defendem os seus respectivos povos.
• Para saber mais sobre o nacionalismo integralista de Dmytro
Dontsov, ler :
« Quem são os nacionalistas integralistas ucranianos ? <https://
www.voltairenet.org/article218410.html> », por Thierry Meyssan, Rede
Voltaire, 17 de Novembro de 2022.
• Para saber mais sobre os sionistas revisionistas de Volodymyr
Jabotinsky, ler :
« Rompe-se o véu : as verdades escondidas de Jabotinsky e Netanyahu
<https://www.voltairenet.org/article220335.html> », por Thierry
Meyssan, Rede Voltaire, 25 de Janeiro de 2024.
e « Em Jerusalém, a « Conferência para a Vitória de Israel » ameaça
Londres e Washington <https://www.voltairenet.org/
article220428.html> », por Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 13 de
Fevereiro de 2024.
Thierry Meyssan <https://www.voltairenet.org/auteur29.html?lang=pt>
Tradução
Em
VOLTAIRE.NET
https://www.voltairenet.org/article220523.html
5/3/2024
segunda-feira, 4 de março de 2024
Las redes sociales y la guerra de posiciones
CARLOS L. GARRIDO , PROFESOR DE FILOSOFÍA DE LA UNIVERSIDAD DEL SUR DE
ILLINOIS, EEUU
Visión materialista histórica de las ideas
Las ideas que sostenemos están históricamente condicionadas por el modo
de vida en el que existimos. Reflejan, en el ámbito de las ideas, las
limitaciones y posibilidades del modo de vida social que domina la
época, de las formas de relación social que prevalecen en la época.
nuestra vida cotidiana. Un campesino feudal no puede preocuparse por sus
perfiles en las redes sociales y: por los me gusta que reciben sus
publicaciones, y seguidores que ha acumulado. Sin embargo, estas son
preocupaciones centrales para la mayoría de la gente hoy en día.
Vivimos en la era de la profilicidad <https://www.midwesternmarx.com/
articles/imperialism-and-profilicity-by-carlos-l-garrido> como
tecnología de identidad dominante. Como es evidente, todas las ideas,
inquietudes, experiencias estéticas, deseos, creencias, etc. que están
ligadas al modo de identidad basado en perfiles dependen y se basan en
los desarrollos tecnológicos que nuestra era ha logrado.
En términos marxistas, estos desarrollos en el nivel de cómo pensamos
(sobre nosotros mismos y los demás) presuponen desarrollos en las
fuerzas de producción. Del mismo modo, en la mayor parte del mundo
occidental, ningún joven se preocuparía por con quién concertaría su
matrimonio. Estas preocupaciones pertenecen a una era que ya pasó, a un
modo de relación social que la humanidad ha superado.
Este es un componente central del materialismo histórico: la “ley del
desarrollo de la historia humana” que, según nos dice <https://
www.marxists.org/archive/marx/works/1883/death/burial.htm>Engels , Marx
descubre. Está, formulado concisamente , en el prefacio de 1859 a Una
contribución a la crítica de la economía política es según Marx :
“/La totalidad de estas relaciones de producción constituye la
estructura económica de la sociedad, la base real sobre la que surge una
superestructura jurídica y política y a la que corresponden determinadas
formas de conciencia social. El modo de producción de la vida material
condiciona el proceso general de la vida social, política e intelectual.
No es la conciencia de los hombres la que determina su existencia, sino
su existencia social la que determina su conciencia”.1/
Instituciones ideológicas y falsa conciencia
Las ideas que llegan a dominar una forma de vida no existen en un reino
trascendental. Más bien, se encarnan materialmente a través de
instituciones y personas. La influencia que tienen estas instituciones
varía. Su propósito, sin embargo, es el mismo: sostener el
consentimiento de las masas (los subalternos) para el orden dominante.
Tienen la tarea de garantizar la reproducción del modo de vida actual.
Al ser las instituciones dominantes que impregnan la vida cotidiana de
las personas, no simplemente logran que demos nuestro consentimiento (lo
que implica un acto consciente de aceptación), sino que moldean nuestras
visiones del mundo espontáneas y de sentido común hasta tal punto que
somos incapaces de reconocer, con la excepción de grandes momentos de
ruptura llamados » acontecimientos <https://www.youtube.com/watch?
v=pBJbFsM_2uw> » en la historia de la filosofía..
Al igual que los esclavos en la alegoría de la cueva <https://
classics.mit.edu/Plato/republic.8.vii.html> de Platón , desconocemos las
estructuras que contienen el horizonte de cómo vemos la realidad. Platón
no podría haber estado más acertado al enfatizar el carácter doloroso
del fugitivo de la cueva. No es fácil que nuestras nociones de la
realidad sean derribadas tan fácilmente, que nuestros deseos, creencias,
experiencias estéticas, etc., sean demolidos.
Al igual que el esclavo fugitivo, que necesita con dolor reajustar sus
ojos, la superación de la ideología burguesa es un proceso doloroso, no
un «momento» espontáneo e inmediato. Cuando nuestras condiciones de vida
están tan sistemáticamente impregnadas de mentiras y manipulaciones,
todas ellas destinadas a impedir que hagamos olas, la verdad es
dolorosa. La verdad es peligrosa.
La búsqueda de la verdad siempre ha tenido, como señala WEB Dubois
<https://www.jpanafrican.org/ebooks/3.4eBookSoulsofBlackFolk.pdf> , “un
elemento de peligro y revolución, de insatisfacción y descontento,
[pero] sin embargo, los hombres se esfuerzan por saber”. Desde el
asesinato de Sócrates <https://www.hamptonthink.org/read/the-real-
reason-why-socrates-was-killed-and-why-class-society-must-whitewash-his-
death> hasta el asesinato de King, la sociedad de clases ha demostrado
su propensión a contraatacar con saña cuando se ve amenazada por quienes
dicen la verdad. Esto ya fue descrito proféticamente por la alegoría de
Platón.
El capitalismo <https://www.midwesternmarx.com/articles/santa-claus-and-
the-contradictions-of-bourgeois-ideology-by-carlos-l-garrido> “/es un
orden social que requiere la aceptación general de una comprensión
invertida de sí mismo… La realidad [necesita] ponerse patas arriba. Pero
esto no es, como señala <https://www.bing.com/search?
pglt=41&q=vannessa+wills+racism+and+false+consciousness&cvid=62eff8268330496f8deda079310ba6b1&gs_lcrp=EgZjaHJvbWUyBggAEEUYOTIHCAEQRRj8VdIBCDcyODRqMGoxqAIAsAIA&FORM=ANNAB1&PC=HCTS> Vanessa Wills , un problema de “higiene epistémica”. La raíz del «error» no está en nuestra mente, es decir, en nuestro reflejo de los fenómenos objetivos en cuestión”./
Como señalaron <https://www.marxists.org/archive/marx/works/download/
Marx_The_German_Ideology.pdf> Marx y Engels hace mucho tiempo: /Si en
toda ideología los hombres y sus relaciones aparecen al revés como en
una cámara oscura, este fenómeno surge tanto de su proceso vital
histórico como la inversión de los objetos en la retina de su proceso
vital físico.La ideología capitalista es tan capaz de aceptar la verdad
como los vampiros de consumir ajo. La verdad, que casi siempre está del
lado de las masas, es su talón de Aquiles./
Cambio en los aparatos ideológicos dominantes
Sin embargo, no todas las instituciones que nos difunden y nos
inculturan en la ideología burguesa desempeñan un papel igual. Algunos
son mucho más influyentes que otros. En el mundo medieval la iglesia
era, sin duda, el “ Aparato Ideológico del Estado” (ISA) dominante
<https://www.marxists.org/reference/archive/althusser/1970/ideology.htm> .
En la transición al mundo moderno, como señala Louis Althusser <https://
www.marxists.org/reference/archive/althusser/1970/ideology.htm> , “el
Aparato Ideológico del Estado que se ha instalado en la posición
dominante en formaciones sociales capitalistas maduras como resultado de
una violenta lucha de clases política e ideológica contra el viejo
Aparato Ideológico es el aparato ideológico educativo. Las escuelas
vendrían a reemplazar a la iglesia como piedra angular institucional de
la ideología burguesa, la fuerza más dominante para la reproducción de
la hegemonía burguesa.
En cierto modo, esto sigue siendo así. Es en las universidades, por
ejemplo, donde se desarrollan por primera vez en su máxima coherencia
las ideas traficadas por la “cultura pop” . Es imposible concebir el »
wakeismo <https://www.youtube.com/watch?
v=GnUqrF9mAA8&pp=ygUId29rZWlzbSA%3D> «, la forma dominante hoy en día de
relación cultural liberal, sin el establecimiento de sus fundamentos
ideológicos hace décadas en la academia que instaló la CÍA con la
izquierda compatible <https://thephilosophicalsalon.com/the-cia-the-
frankfurt-schools-anti-communism/>.
La «política de identidad» y la «cultura de la cancelación» tan
popularmente debatidas <https://www.bing.com/ck/a?!
&&p=03f9e105b3acab53JmltdHM9MTcwNTk2ODAwMCZpZ3VpZD0zZDRiMTI2ZC03YTU2LTY1N2YtMjdkMS0wMTVhN2IxNjY0ODQmaW5zaWQ9NTU3OQ&ptn=3&ver=2&hsh=3&fclid=3d4b126d-7a56-657f-27d1-015a7b166484&u=a1L3ZpZGVvcy9yaXZlcnZpZXcvcmVsYXRlZHZpZGVvP3E9YmlsbCttYWhlcit3b2tlaXNtK2FuZCttYW9pc20mbWlkPTQzRTYzMzgyNjI1RDMwRkM0MkQzNDNFNjMzODI2MjVEMzBGQzQyRDMmRk9STT1WSVJF&ntb=1> en las mesas redondas de la televisión estadounidense están lejos de estar arraigadas en la tradición comunista. Todo lo contrario, lo que hoy los expertos de derecha llaman comunismo fue producido explícitamente para tergiversar los al marxismo. Se les asignó el papel de «recuperadores de radicales», como los llama <https://thephilosophicalsalon.com/the-cia-the-frankfurt-schools-anti-communism/> Gabriel Rockhill .
Su trabajo era (y es) recuperar las actitudes disidentes de las masas,
especialmente de los jóvenes, hacia el redil anticomunista
proimperialista. Como observó correctamente <https://
valleysunderground.files.wordpress.com/2020/04/blackshirts-and-reds-by-
michael-parenti.pdf> Michael Parenti , estos teóricos del ABC del
“despertar” (Todo menos la clase) tienen la tarea de desarrollar
“esquemas conceptuales que silencian el análisis de clase del marxismo”.
Sin embargo, en la última década un nuevo terreno ideológico ha obtenido
la posición dominante dentro de la hegemonía burguesa: las redes
sociales. . El estadounidense promedio hoy pasa entre dos y tres horas
<https://elitecontentmarketer.com/how-much-time-do-people-spend-on-
social-media/
#:~:text=As%20of%202022%2C%20the%20time%20spent%20by%20average,average%20of%20only%20two%20hours%20and%20three%20minutes.> en las redes sociales. Mientras que para unos pocos podría estar lleno de imágenes inocentes de lindos gatos, para la gran mayoría de las personas las redes sociales desempeñan un papel similar a una polis tecnológica: un lugar donde la batalla de ideas, o mejor aún, la difusión de las ideas dominantes, ocurre.
Si bien las escuelas pueden crear la base ideológica que se inculca a la
gente, a menudo se encuentran incapaces de explicar los temas
apremiantes del momento. A través de las redes sociales, por otro lado,
uno encuentra una manipulación activa e incesante de los acontecimientos
en curso, cuyo alcance y consistencia superan con creces la influencia
que puedan tener las discusiones universitarias sobre asuntos políticos.
Sin embargo, su impacto no puede entenderse simplemente a través de
métricas cuantitativas. Cualitativamente, estas redes sociales han
revolucionado la forma en que creamos nuestras identidades. Como se ha
documentado:
/Vivimos en una época de perfiles. Quiénes somos, nuestra identidad,
está profundamente arraigado en la selección de nuestros perfiles para
pares en general, esos ‘usuarios’ que validan nuestro contenido a través
de diversos medios interactivos (me gusta, compartir, retweets, etc.).
Nuestras publicaciones futuras están influenciadas por la reacción de
publicaciones anteriores. Las que tienden a repietirse y , las que no
menudo se eliminan por completo/.
La interdependencia dialéctica de lo individual y lo social adquiere una
nueva forma en la era de la profilicidad. A través de estos ‘bucles de
retroalimentación de validación social’ ( denominados <https://
www.theguardian.com/technology/2017/nov/09/facebook-sean-parker-
vulnerability-brain-psychology> así por el presidente de Facebook, Sean
Parker), ajustamos nuestro contenido a la recepción del público en
general. Nuestra identidad se elabora teniendo en cuenta cómo somos
«vistos como siendo vistos».
La observación o “espionaje” se convierte en la norma; Todo juicio está
sujeto a algún grado de mediación por la forma en que el par general ve
la cosa juzgada. Estas son algunas de las ideas centrales del libro de
Hans Georg Moeller y Paul D’Ambrosio, Tú y tu perfil: identidad después
de la autenticidad <https://cup.columbia.edu/book/you-and-your-profile/
9780231196017> . Si bien tiene algunos puntos ciegos (que trató de
aclarar en mi trabajo <https://www.midwesternmarx.com/articles/
imperialism-and-profilicity-by-carlos-l-garrido> ), es sin duda un texto
esencial para comprender el modo dominante de tecnología de la identidad
en nuestros días.
Redes sociales, profilicidad y manipulación ideológica
El potencial de manipulación ideológica provocado por el surgimiento de
la profilicidad es, en algunos aspectos, mucho más potente que nunca.
Después del golpe de 2019 en Bolivia, cuando se utilizaron 68 mil
cuentas de bots para hacer viral la narrativa imperialista en Twitter,
hice un estudio de caso sobre cómo se utilizó la manipulación de las
redes sociales para legitimar el golpe. Esto es lo que he escribí :
El uso imperialista de bots y cuentas falsas engendra un par general
artificial que funciona como condición para la posibilidad de que el
imperialismo controle uno real. Esto se debe a que, en un cierto punto
nodal, cuando las cuentas falsas y los robots de refuerzo hacen que algo
sea tendencia, la artificialidad de la reacción del par general pierde
su carácter artificial, un par general compuesto por personas reales
toma el testigo desde allí y barniza la reacción. con una vestimenta
‘orgánica’ y ‘espontánea’. En la era de la productividad, la capacidad
del imperialismo para controlar a sus pares en general es una
herramienta indispensable para lograr sus fines.
/Independientemente de cuán poderosas sean las fuerzas armadas de un
imperio, si no es capaz de hegemonizar el discurso sobre los
acontecimientos históricos y contemporáneos, su legitimidad (tanto a
nivel nacional como internacional) se tambaleará y lo hará susceptible
de ser derrocado. /
Empresas como CLS Strategies, junto con los monopolios cómplices de las
redes sociales de Silicon Valley, funcionan como herramientas
indispensables del capitalismo-imperialismo en la era de la profilidad.
En una época en la que la identidad se construye a través de perfiles
mediados por la observación de segundo orden y ciclos de
retroalimentación de validación social general impulsados por los pares,
la capacidad de manipular a los pares equivale a la capacidad sin
precedentes del capital y el Estado para controlar lo que piensa la gente
.
Además, el carácter abstracto de este par general oculta la manipulación
misma. Las personas construyen sus identidades de perfil sobre la base
de cómo les gustaría que las vieran, pero el par general que ve tiene
los ojos a través de gafas imperialistas de control . La censura es un
componente integral que trabaja en conjunto con el control de lo que se
ve mediante el uso de bots y otras formas de impulsar narrativas pro-
sistema.
En todas las principales plataformas de redes sociales (sí, incluso en
la llamada ‘X’ amante de la libertad de expresión de Elon Musk),
aquellas cuentas con un gran número de seguidores que desafían la
narrativa imperialista sobre temas clave a menudo están completamente
prohibidas. 2 Es una tecno-polis que funciona de manera muy interesante,
donde a ciertos activistas se les ofrece un micrófono para hablar por
encima de otros, y “ los otros” se les silencia o se les baja a un
volumen prácticamente inaudible, mientras que otros desaparecen por
completo.
<https://carlosgarrido.substack.com/p/social-media-and-the-war-of-
positions/comments>
El Instituto para el que trabajo no desconoce estas tácticas de censura.
Siete de nuestras cuentas de Tiktok, la plataforma en la que tenemos
cientos de miles de seguidores y millones de visitas, han sido
completamente prohibidas. Como hemos denunciado <https://mronline.org/
2023/06/02/the-u-s-censors-dissenting-voices/>Edward Smith, Noah
Khrachvik y yo mismo ,
Aquellos que mantienen a nuestra gente mal informada e ignorante, que
han hecho del propósito de su vida atacar a quienes dicen la verdad, lo
hacen bajo el disfraz insidiosamente categorizado de «combatir la
desinformación». En su retorcida realidad inventada <https://
archive.org/details/michael-parenti-inventing-reality-the-politics-of-
the-mass-media-1986-st.-martins-press_202012> , como la llamó Michael
Parenti, se postulan como los defensores de la verdad y la libertad de
expresión, una paradoja tan ridícula como un carnicero vegano…
En el modo de vida capitalista-imperialista, la libertad de expresión y
de medios de comunicación es, por lo tanto, en realidad la libertad de
expresión y de medios de comunicación procapitalistas . La descripción
que hace VI Lenin de los medios de comunicación en la sociedad
capitalista es más cierta que nunca <https://www.marxists.org/archive/
lenin/works/1919/aug/05.htm> en la década de 2020: están dominados por
una “atmósfera de mentiras y engaños en nombre de la ‘libertad e
igualdad’ del capital”..
Cualquier declaración absoluta sobre la libertad de prensa debe ir
seguida de la pregunta leninista <https://www.marxists.org/archive/
lenin/works/1921/aug/05.htm> : “libertad de prensa… ¿para qué clase?” La
libertad de los medios capitalistas para engañar a las masas en su
defensa del orden existente está en contradicción con los intereses de
las masas en buscar y publicar la verdad.
El poder de controlar el flujo de ideas a través de estos diversos
medios hace que las redes sociales, como terreno ideológico dominante
(o, al menos, uno de los dominantes) de nuestros días, sean virtualmente
(nunca mejor dicho) incomparables.
¿Qué deberían hacer los comunistas?
Algunos miembros de la izquierda comunista a menudo denigran el papel en
las redes sociales. «Estar sólo en línea, no tiene nada que ver con la
realidad», es un sentimiento expresado con frecuencia. A veces, el
trabajo ideológico en línea se contrasta desfavorablemente con las
protestas en las calles. Se dice que quienes están en las calles en
realidad están haciendo algo, mientras que quienes están en línea no lo
hacen”.
Hay un núcleo racional en este sentimiento general incorrecto. Es cierto
que las características antisociales de los ‘socialistas de
identidad’ (como los llamo en The Purity Fetish <https://
www.barnesandnoble.com/w/the-purity-fetish-and-the-crisis-of-western-
marxism-carlos-l-garrido/1143388399> ), aquellos que pasan todos sus
días en línea iniciando disputas y divisiones en Twitter, exigen un
reavivamiento espiritual con la realidad. Deben «tocar la calle” como
dice la expresión.
Pero, sobre esta base, es incorrecto denigrar el trabajo en línea en su
conjunto o considerarlo «irreal» en relación con las protestas. Como he
sostenido, las redes sociales se han convertido en uno de los terrenos
ideológicos más importantes de nuestros días. Es un campo donde, como
diría Gramsci, se debe librar la guerra de posiciones. No importa cuánta
censura, prohibición en la sombra y manipulación se produzca en este
campo ideológico, sigue siendo uno de los lugares más importantes en los
que los comunistas deben participar, librando la lucha por los corazones
y las mentes del pueblo. Ignorar el trabajo en línea hoy en día equivale
a que los revolucionarios franceses ignoraran la institución de la
Iglesia en sus luchas contra el absolutismo feudal.
Por supuesto, aquí hay una diferencia clave. Mientras que en su apogeo
la Iglesia como aparato ideológico dominante tenía que ser combatida
desde fuera, hoy las redes sociales, como terreno ideológico dominante,
presentan un campo de lucha interno.
La guerra de posiciones en las redes sociales, por necesaria que sea, no
es, por supuesto, suficiente. Si cada cuenta de Twitter (perdón, ‘X’)
seguía al Instituto Marx del Medio Oeste, o cualquier otra organización
de la izquierda comunista, eso no significa que estemos cerca de tomar
el poder. No se puede evitar la verdadera organización en la vida.
Organizarse en sus lugares de trabajo y comunidades sigue siendo lo más
importante que uno puede hacer. Es ese trabajo básico el que Silicon
Valley no puede «prohibir”.
Para librar una guerra de posiciones exitosa en las redes sociales se
necesitan medios a través de los cuales las personas convencidas de
nuestro lado en línea puedan involucrarse en la organización de sus
comunidades. La gente debe pasar de estar simplemente de acuerdo con
estas ideas en línea a ayudar a construir organizaciones en el terreno,
a construir instituciones contrahegemónicas de la clase trabajadora.
La guerra de posiciones en línea debe ir acompañada de la preparación de
las bases materiales e institucionales (es decir, partidos y
organizaciones de masas) para la guerra de maniobras en el terreno. Por
supuesto, el hecho de que estas organizaciones estén «en el terreno» no
les permite evitar la guerra de posiciones en línea.
Guerra de posiciones en línea
¿Cuál es la mejor manera de librar la guerra de posiciones online?
¿Condenar a todos aquellos con quienes no estamos totalmente de acuerdo
es el camino a seguir? Claramente, este modo de compromiso fetichista de
la pureza, como he argumentado,i te deja rodeado sólo de aquellos con
quienes ya estás de acuerdo. Reduces las tareas pedagógicas y de
reclutamiento del comunista a alguien que simplemente canta en el coro.
La batalla de ideas, la guerra de posiciones, tiene su raíz
fundamentalmente en convencer . No puedes avergonzar a alguien para que
esté de acuerdo contigo. Hablar con desprecio a los trabajadores con
actitudes condescendientes de la clase media es literalmente lo opuesto
a lo que parece una guerra de posiciones exitosa. No querrás que los
departamentos directivos de RR.HH. sean lo primero en lo que alguien
piense cuando hable contigo. Todo lo contrario.
Vivimos bajo un modo de vida capitalista moribundo. Esto se reflejará en
algunas de las cosmovisiones espontáneas de sentido común de las
personas que este modo de vida produce. Debemos ser pacientes y
flexibles, no ágiles y rígidos. Nuestro objetivo es convencer . Para
ganarse los corazones y las mentes de las personas. Lo primero que hay
que reconocer, entonces, es que cualquier enfoque único que sirva para
todos fracasará. El punto de partida (es decir, la visión espontánea del
mundo) que tiene la gente difiere, a menudo más o menos dependiendo de
ciertas diferencias regionales, generacionales y de otro tipo. Debemos
tener esto en cuenta en todas las conversaciones.
Pero,¿cómo deberíamos empezar? ¿Que debemos buscar?
Bueno, Gramsci es aquí quizás nuestro maestro más importante. Si quiero
ir de A a B, no puedo simplemente teletransportarme directamente de A a
B. Tal vez algún día llegue la tecnología que me permita hacerlo. Por
ahora, si quiero ir de A a B, necesito encontrar un punto de contacto,
un camino o una serie de caminos, que conectados en mi trayecto me
permitan llegar a mi destino. El proceso de convencer no es diferente.
Si no hay un punto de contacto, no podremos «ganar» a alguien para que
se ponga de nuestro lado. El proceso de «conquistar», como el proceso de
llegar de A a B, es un viaje , una empresa o, en resumen, un proceso .
No sucede instantáneamente. Toma tiempo.
Para que este proceso pueda comenzar es necesario encontrar el punto de
contacto. Cada visión espontánea del mundo que sostienen las masas,
aunque esté profundamente arraigada en diversas formas de ideología
burguesa, debe contener algunos núcleos racionales, «puntos de contacto»
que podamos localizar e iniciar el viaje. Ésta es, para Gramsci, la
esencia de la guerra de posiciones.
La tarea de los comunistas, de la dirección intelectual del movimiento
de la clase trabajadora, es encontrar, en las interpretaciones y
sentimientos incoherentes, ambiguos y espontáneos del sentido común de
las masas, esos núcleos racionales que puedan desarticularse de su
visión actual del mundo y rearticularse hacia Marxismo. (Para más
información, consulte mi capítulo con JP Reed <https://
www.elgaronline.com/edcollchap/book/9781802208603/book-
part-9781802208603-16.xml> en la antología de Elgars sobre Gramsci).
Concretamente, ¿cómo se ve esto?
Bueno, por ejemplo, en Estados Unidos la gran mayoría de la gente está
de acuerdo con los valores de la Declaración de Independencia. Sin
embargo, los valores de la vida, la libertad, la búsqueda de la
felicidad, el derecho a la revolución, etc., no han sido realizados para
las masas bajo el orden dominante. ¿Cómo pueden actualizarse estos
valores igualitarios y emancipadores bajo un sistema que produce, por un
lado, una enorme riqueza controlada por unos pocos y, por el otro,
inmensa miseria, deuda y opresión para la mayoría? Es imposible.
Los ideales universales de la clase capitalista siempre se han limitado
a su clase; nunca ha sido, desde el principio, nada más que la libertad
del capital para explotar y la falsa «democracia» de los capitalistas
para elegir a los títeres políticos que gobiernan. sobre la masa de
gente. Por eso, lo he señalado antes <https://www.midwesternmarx.com/
articles/a-fraternal-hand-the-american-tradition-of-socialist-democracy-
and-chinese-socialism-by-carlos-l-garrido> ,
Frente a las crecientes desigualdades y disparidades, [en las décadas de
1820 y 1830] pensadores como Langdon Byllesby, Cornelius Blatchley,
William Maclure, Thomas Skidmore y otros, desarrollaron los ideales
jeffersonianos de la Declaración de Independencia en socialismo, lo que
consideraban su conclusión práctica y lógica…
A lo largo de los siglos, generaciones de socialistas estadounidenses
han apelado a la Declaración de Independencia para defender el
socialismo de una manera que conecte con el sentido común del pueblo
estadounidense. Los principales historiadores y teóricos de la tradición
socialista estadounidense, pensadores como Staughton Lynd, Herbert
Aptheker, WEB Dubois, Eugene Debs, William Z. Foster y otros, han
profundizado en el tema, señalando que, independientemente de las
limitaciones encontradas en la fundación de la Unión Americana,
experimento que fue un acontecimiento histórico progresista, cuyo
espíritu [sólo puede] ser llevado a cabo hoy por socialistas y comunistas.
Así que aquí tenemos un ejemplo de un punto de contacto, un núcleo
racional, dentro del sentido común de nuestro pueblo que puede ser y
rearticulado ( a pesar de sus orígenes burgueses).
Este es un ejemplo que se ha utilizado desde la década de 1820. Pero,
¿cómo podemos, en la era de la profilidad, hacer esto específicamente a
través de las redes sociales?
Los elementos esenciales siguen siendo los mismos. Encontrar a las
personas e instituciones que desempeñan los papeles más influyentes en
la configuración del sentido común de diversos sectores de las masas
estadounidenses. Dentro de las visiones del mundo que elaboran,
encontrar los núcleos racionales, los puntos de contacto con los que
puede establecer un terreno común en las discusiones con los
espectadores y lectores de estos ideólogos de la clase trabajadora.
Siempre habrá que comenzar las discusiones con esos puntos de contacto y
las ideaa que pueden ser utilizadas como un camino para la nueva
perspectiva. Estos núcleos racionales, por supuesto, diferirán según las
diferentes fuentes.
Por ejemplo, hace unas semanas comenté <https://www.youtube.com/watch?
v=W82K8FRPT1A> un vídeo de Andrew Tate, el hombre que alguna vez fue la
persona más viral de Internet. Se trata de alguien que tiene una gran
influencia ideológica en nuestras sociedades, específicamente en la
juventud, que encarna el futuro de cualquier proyecto revolucionario. El
vídeo que comento es uno en el que Tate describe el trabajo asalariado
como una forma de esclavitud asalariada. Para los marxistas, éste es
claramente un punto de contacto, un «núcleo racional» dentro de la
cosmovisión tateiana.
Sobre la base de este punto de contacto, el desarrolla la historia, a
menudo políticamente ambigua, de la crítica de la esclavitud asalariada
(por ejemplo, si bien fue un pilar de la crítica socialista del
capitalismo, también fue un componente central de la defensa de la
esclavitud por parte de los plantadores del sur). la esclavitud de
bienes muebles, que supuestamente era menos malvada y nefasta que la
esclavitud asalariada.
Luego, sobre la base del acuerdo con Tate sobre el carácter servil del
trabajo asalariado, desarrollo una crítica de cómo esta comprensión es
sofocada por la cosmovisión tateiana que acababa de formularla. Para
Tate, la crítica de la esclavitud asalariada y de la «matriz» no es la
base de un proyecto emancipatorio colectivo. No tiene sus raíces en una
comprensión científica y marxista de la economía política capitalista.
Por lo tanto, desconoce por completo las leyes internas del movimiento y
las contradicciones que empujan al sistema hacia su propia destrucción.
No es consciente del papel del proletariado como sepulturero del modo de
vida que lo produjo como clase.
Quizás sea menos una cuestión de ignorancia por parte de Tate, y más una
cuestión de conciencia de sus intereses de clase como parte de la (a
menudo objeto de burla) nueva burguesía. De cualquier manera, el
resultado es el mismo: una comprensión de ese fenómeno hacia el que
hemos gravitado como un «punto de contacto» y una formulación
individualizada de «escapar de la matriz» haciéndose rico uno mismo (un
trabajo que a través de la «Universidad de Hustlers» de lo que se
beneficia enormemente). Tate no creó esta forma de recuperación radical,
ni es el único que la predica hoy.
Es fundamental para lo que Dubois llamó <https://archive.org/details/
blackreconstruct00webu> la Asunción Americana, la noción de que a través
del trabajo duro uno puede elevarse y hacerse rico. La diferencia es que
en los siglos XIX y XX esta ideología se produjo dentro de los límites
de una apologética directa del capitalismo estadounidense.
El capitalismo posterior a 1848 entra en una etapa claramente
reaccionaria, en la que incluso el barniz de progresismo que dominó el
período anterior se deshace. En este mundo posterior a 1848, como señaló
hace mucho tiempo <https://archive.org/details/the-destruction-of-
reason-by-gyorgy-lukacs> Georg Lukács , la defensa del capitalismo tiene
que presentarse, de una forma u otra, como una “apologética indirecta”.
La crítica superficial y culturalista de un ‘capitalismo’ (o matriz) a
menudo mal identificado se ha convertido en un componente esencial para
la aquiescencia al sistema que la crítica toma como objeto de crítica.
Lo que ocurrió en el comentario de la Tate es precisamente lo que
Gramsci espera de nosotros en la guerra de posiciones. Localizamos el
núcleo racional y, sobre la base de una comprensión superior del
fenómeno, lo dislocamos de la cosmovisión tateiana hacia una marxista.
En el proceso mostramos el papel que juega Tate como recuperador radical
de la ‘matriz’; él, de una manera muy sofista, encarga a las personas
que le ayuden a ‘escapar’.
Después, salieron hordas de liberales que piensan que la hoz y el
martillo en las redes sociales los convierte en comunistas, nos
persiguieron construir una «plataforma» a lo Tate y dar crédito a sus
ideas. Esta crítica, por supuesto, está desprovista de cualquier
apariencia de comprensión marxista de la guerra de posiciones. Ni
convencer al propio Tate ni compartir sus ideas es el objetivo. Lo que
intentamos es literalmente lo contrario: ser lo más eficiente posible
para alejar a la gente de Tate y acercarla al marxismo.
Se puede argumentar que he fracasado en esta empresa y que se podría
haber hecho un trabajo mejor. Pero no podemos negar, sin embargo, que
ésta es la mejor vía para combatir a los oponentes ideológicos. Produce
un doble golpe, la eliminación de un seguidor de tu oponente y la
adición de un seguidor a tu proyecto revolucionario. Este es el mismo
doble efecto que tuvo la huelga general del proletariado negro durante
la Guerra Civil (eliminando la base productiva de la economía del Sur
mientras agregaba soldados, espías y trabajadores a las fuerzas del
Norte), permitiéndoles ganar la batalla por las fuerzas de la humanidad.
liberación.
Tate está lejos de ser el único individuo con el que deberíamos hacer
esto. En el Instituto, todos los expertos importantes de la burguesía,
incluso aquellos que se presentan como «antisistema» y «anti-Estado
profundo», deberían recibir este tratamiento. Hemos opinado sobre
figuras de todo el espectro político burgués estadounidense, desde David
Packman hasta Ben Shapiro y Jordan Peterson.
En cada caso intentamos encontrar el punto de contacto (los núcleos
racionales) que pueden ser dislocados de estas visiones del mundo y
rearticulados hacia el marxismo. Interactuar con estas figuras también
es una excelente fuente para superar la insularidad algorítmica que
estructura los espacios en línea. Las personas que no encontrarían
posiciones marxistas en sus algoritmos se abren a la posibilidad de este
encuentro cuando discutimos los ideólogos que habitan sus algoritmos.
Naturalmente, las personas quieren darle sentido al mundo que las rodea.
“Todos los hombres por naturaleza”, como señaló Aristóteles hace mucho
tiempo <https://classics.mit.edu/Aristotle/metaphysics.html> , “desean
saber”. Ninguna cosmovisión es capaz de comprender mejor el mundo, de
ayudar a la gente a darle sentido, que el marxismo. Se trata, pues, de
una tarea que a menudo resulta bastante fructífera. Eso no significa,
por supuesto, que no nos encontremos con fanáticos que creen
religiosamente estas visiones del mundo de manera dogmática.
Pero a menudo son la excepción, especialmente entre los jóvenes. La
mayoría de las personas están dispuestas, si se les aborda
correctamente, a aceptar la transición hacia una perspectiva que les
ayude a comprender mucho mejor su entorno: una perspectiva que, como nos
enseña el gran Henry Winston <https://mltoday.com/the-50th-anniversary-
of-henry-winstons-strategy-for-a-black-agenda/> , nos da visión incluso
cuando la hemos perdido.
Para tener éxito en esta tarea es necesario ensuciarse las manos; tener
la voluntad de dialogar con algunos de los ideólogos burgueses más
repugnantes con la esperanza, no de convencerlos a ellos, sino a sus
oyentes de la clase trabajadora, de que una alternativa no sólo es
posible, sino necesaria. Ésta es la tarea que tienen entre manos los
comunistas dispuestos a librar la guerra de posiciones en las redes
sociales, uno de los campos ideológicos más importantes e influyentes
del mundo contemporáneo.
El articulista:
* Carlos L. Garrido es profesor de filosofía cubanoamericano en la
Universidad del Sur de Illinois, Carbondale. Es director del
Midwestern Marx Institute y autor de The Purity Fetish and the
Crisis of Western Marxism <http://www.midwesternmarx.com/books>
(2023), Marxism and the Dialectical Materialist Worldview <http://
www.midwesternmarx.com/books> (2022) y el próximo libro Hegel,
Marxism, and Dialectics (2024). Ha escrito para docenas de
publicaciones académicas y populares en todo el mundo y dirige
varios programas transmitidos en vivo para el YouTube del Midwestern
Marx Institute <https://www.youtube.com/midwesternmarx> .
Notas:
1. ↩ Mi artículo sobre cómo esta relación de determinación no es
fatalista: ‘ Crítica del malentendido sobre la metáfora espacial
base-superestructura de Marx <https://www.bing.com/search?
q=carlos+garrido+superstructure+&qs=n&form=QBRE&sp=-1&ghc=1&lq=0&pq=carlos+garrido+superstructure+&sc=6-30&sk=&cvid=67724CE6B9814605B5CF538693C0950F&ghsh=0&ghacc=0&ghpl=> ‘.
2. ↩ Una de las formas de solucionarlo es a través de informes masivos,
como los que hemos visto en los últimos meses en el movimiento
antigenocidio y pro Palestina. Sin duda, estas fuerzas han ganado la
guerra de la información, en gran parte gracias a la avalancha de
vídeos escalofriantes que dicen la verdad sobre la campaña genocida
israelí contra Gaza. Al igual que los bancos que nos dijeron que
eran «demasiado grandes para quebrar», estas imágenes que desafiaban
la narrativa imperialista eran demasiado populares y generalizadas
para censurarlas. Si bien Silicon Valley definitivamente ha
censurado a las principales voces que hablan a favor de Palestina,
no han logrado censurar los millones de cuentas relativamente más
pequeñas que se han encargado de documentar la verdad y exponer las
mentiras de la élite.
Em
OBSERVATORIO DE LA CRISIS
https://observatoriocrisis.com/2024/03/03/las-redes-sociales-y-la-guerra-de-posiciones/
3/3/2024
quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024
Para uma identificação dos partidos como forças de classe
Manuel Raposo
O jargão parlamentar e comunicacional impôs na opinião pública uma
identificação das forças partidárias segundo critérios de tipo
topográfico (esquerda, direita, centro) ou de tipo comportamental
(extremista, radical, moderado) que na verdade pouco ou nada nos dizem
sobre a sua natureza política. Importa lembrar que os partidos, todos
eles, representam classes sociais, mesmo quando a ligação entre aqueles
e estas se mostra obscura e difícil de estabelecer. Apagar esta matriz
significa esconder os interesses de classe que se alinham nas políticas
das diversas forças partidárias, não apenas no que por elas é proposto,
mas também no que respeita à sua acção prática.
As ideias políticas avançadas por cada partido só parcialmente permitem
identificar esses interesses, que se apresentam, na maior parte das
vezes, revestidos por uma roupagem de “interesse geral” pretensamente
dirigido a qualquer classe social. “O país”, “os cidadãos”, “os
portugueses” são termos que identificam essa roupagem enganadora. O
primeiro elemento de demagogia das campanhas de propaganda partidárias
está exactamente aqui: no obscurecimento da raiz de classe de um
partido, dos interesses que defende por debaixo das palavras que usa,
das propostas que faz, ou do público a que se dirige.
De um modo geral, numa sociedade que não atravesse uma situação
revolucionária, os partidos dominantes são os partidos das classes
dominantes. As classes trabalhadoras, massacradas pela propaganda
oficial, são convidadas a escolher entre eles sem alternativa. Torna-se
difícil, nessas situações, que uma via política de classe, independente
e radical, obtenha o apoio da maioria dos trabalhadores. Mas pode sempre
mobilizar uma minoria significativa de trabalhadores combativos.
Como as campanhas eleitorais são terreno propício para o adensamento
daquele tipo de nevoeiro, aqui se deixa uma contribuição para
identificar, em cada força partidária do espectro parlamentar, a
natureza de classe dos interesses que defende e que ligação isso tem com
as formulações políticas que avança.
*Chega*
É o partido dos despolitizados. Capta abstencionistas de longa data,
gente que está farta de viver mal e de ser ignorada, que nutre justo
desprezo pelo sistema dominante (político, social, económico, cultural)
mas que não tem visão política de como sair da situação, e decide
apostar às cegas.
As opiniões políticas e outras destas camadas sociais não resultam de
uma análise racional da realidade, mas sim de sentimentos de raiva e
inveja. Raiva contra os responsáveis pela sua má vida e inveja dos bem-
sucedidos cujo nível sentem nunca poder atingir. Por ignorância, são
facilmente levadas a identificar erradamente os culpados dos seus males:
viram-se contra os imigrantes que acusam de “roubar o nosso trabalho” e
de viverem “à pala do subsídio”, ou contra “os comunas” e “os xuxas” que
acusam de destruir a economia e os bons costumes, ou contra os grevistas
que acusam de “querer ganhar sem fazer nenhum”.
O Chega cumpre o papel histórico de todo o fascismo: arrastar para o
campo da burguesia a pequena burguesia arruinada, amedrontada e
desorientada, procurando colmatar a brecha que a decadência do
capitalismo abriu entre uma e outra. Atrás desta, seguem franjas das
classes populares. As promessas de “mudança”, com demagogia a rodos,
procuram colocar os que pouco ou nada têm a reboque dos que estão bem na
vida.
A despolitização da população trabalhadora abre campo e fornece apoios a
este novo fascismo. A sua política é uma amálgama de estatismo para
atrair a massa empobrecida e de liberalismo para contentar o capital e
suscitar o seu apoio. Os seus líderes vociferam contra “o sistema” para
ganharem um lugar no sistema. Os apoios financeiros que vão recebendo
mostram a quem servem. A crise da democracia burguesa parlamentar que
acompanha a falência do capitalismo fornece-lhes espaço de manobra e
argumentos.
O seu campo de recrutamento é a pequena burguesia desesperada, as forças
repressivas (às quais um poder “forte” beneficia), o proletariado mais
miserável empurrado para fora do regime do salariado, franjas dos
trabalhadores que não vêem ou desesperaram de ver soluções próprias da
sua classe. Cativa ainda faixas da população jovem que não se encaixam
numa única classe social – “a malta nova”, igualmente despolitizada,
atraída pela vozearia “anti-sistema” e pela rebeldia teatral do líder do
partido. Tem pés assentes em sectores da alta burguesia, bem
identificáveis pelos resultados obtidos em mesas eleitorais das
freguesias mais ricas.
O capital espera para ver o êxito da manobra. Entretanto, financia-a. A
burguesia acolhe sempre as organizações fascistas e de extrema-direita
como forças políticas de reserva.
*Iniciativa Liberal*
São os apóstolos da liberdade total para o capital. Representam os
interesses monopolistas arvorando a “iniciativa individual” como
bandeira. Defendem (com atraso de 40 anos) a ideia de que quanto mais
ricos forem os de cima, mais poderá sobrar para os de baixo. A prática
já mostrou que, por tal via, nem crescimento económico, nem diminuição
da pobreza – mas isso não lhes interessa. São os paladinos da
desigualdade de classes como motor da economia.
Constituem a resposta extremada da direita e do capital ao marasmo dos
negócios capitalistas: privatizar tudo o que possa dar lucro para que o
capital tenha mais pasto. Daí, transferir as verbas sociais do Estado
para bolsos privados. Daí, o favorecimento do negócio privado da saúde à
custa do SNS. Daí, a privatização da CGD, para as mãos da banca
espanhola e europeia. Daí, a privatização da TAP, para as mãos das
grandes transportadoras europeias.
Apoiam-se numa média burguesia urbana (universitários, quadros
qualificados de empresas privadas). A IL faz junto das classes altas e
dos quadros do capital politizados aquilo que o Chega faz junto das
camadas populares despolitizadas e desesperadas. Completam-se.
*PS e PSD*
São os dois grandes partidos da burguesia. Separa-os a forma de conduzir
a política do capital, particularmente difícil numa situação de crise
geral dos negócios que se prolonga sem fim à vista. A alternância de um
e outro no poder, sem que nada de essencial mude, prova o serviço comum
que prestam ao capitalismo e às classes dominantes.
São, por igual, serventuários do poder imperialista, sejam os monopólios
da UE, sejam os monopólios mundiais liderados pelos EUA. São
responsáveis por amarrarem o país aos propósitos bélicos dos EUA, da
NATO e da UE. As garantias que ambos dão de aumentar os gastos militares
vão traduzir-se num ataque ruinoso às políticas de apoio social.
*O PS*baseou a sua política dos últimos nove anos num tripé: 1) pagar a
dívida do Estado (na maioria, dívida do capital privado assumida pelo
Estado) com os recursos de todos; 2) distribuir migalhas aos
pensionistas e aos trabalhadores assalariados; 3) canalizar as colossais
verbas europeias (nomeadamente, do PRR) para reforço do capital. Assim,
a dívida do capital (que não tem fim) vai sendo saldada pela massa do
povo, que em troca recebe pequenos benefícios que lhe calam a boca.
O governo do PS beneficiou da devastação causada pela troika entre 2011
e 2014. Diante da brutalidade das medidas antipopulares do governo PSD-
CDS, qualquer pequena melhoria passou por ser um grande alívio. Não foi:
os desníveis sociais continuaram a aumentar, a pobreza avançou, o
trabalho precário proliferou, as medidas sociais pautaram-se pela busca
de um “equilíbrio” que não pusesse em causa os negócios privados (na
saúde, na habitação, na política salarial, na legislação laboral).
De 2015 a 2019, o PS tirou partido do apoio dado pelo BE e pelo PCP. As
lutas sociais (sindicais, etc.) em vez de crescerem, na sequência da
derrota da direita, foram amortecidas. Alimentou-se a esperança vã de
que o Governo resolveria os males dos trabalhadores pela via parlamentar
e negocial. Em vez de se ver apertado pelo movimento popular e laboral
(que tinha encurralado o governo da troika), o governo do PS ficou de
mãos livres. Resultado: a recuperação das perdas vindas do tempo da
troika não foi feita, nem na totalidade, nem no que era essencial. Por
exemplo, a legislação laboral permaneceu intocada na questão decisiva da
contratação colectiva, retirando poder negocial aos sindicatos.
No final de quatro anos, o PS obteve maioria absoluta à custa dos seus
apoiantes, canibalizando-os. O baixo nível das lutas sociais,
nomeadamente operárias, durante esses quatro anos explica o sucedido. E
vem igualmente daí – da falta de oposição popular de massas com voz
política própria – o à-vontade com que crescem a direita e a extrema-
direita.
O PS é o principal partido das camadas médio-burguesas e pequeno-
burguesas reformistas, o que lhe permite apresentar-se diante do
capital, grande e pequeno, como o partido da “estabilidade” e das
medidas “equilibradas”. Consegue, com este estatuto, neutralizar grande
parte da massa trabalhadora, a qual deposita esperanças no reformismo
que o PS apregoa abdicando da sua independência política. É isto que faz
dele o melhor instrumento político do sistema capitalista em momentos de
crise social – como se viu no verão de 1975 e recentemente com a
política terrorista da troika.
*O PSD*é o outro actor para a mesma política de fundo. Com uma
particularidade na situação presente: tira partido do marasmo das lutas
operárias e populares e da despolitização geral da população
trabalhadora. Acha por isso possível ir mais longe que o PS: privatizar
empresas estatais rentáveis, libertar de impostos o capital e diminuir
os apoios sociais, beneficiar abertamente o negócio privado da saúde,
sacrificar as políticas sociais de habitação aos interesses
imobiliários, agravar sempre que possível a legislação laboral dando
mais liberdade de manobra ao capital.
O seu modelo é a IL, só que um passo atrás. Admite abertamente uma
coligação com a IL e não a põe de lado com o Chega se isso for
necessário para formar governo.
Apoia-se no grande capital, nas classes médio-burguesas e pequeno-
burguesas proprietárias, urbanas e rurais, em quadros de empresas, nas
camadas assalariadas dos serviços com maiores rendimentos. A sua base de
apoio social e eleitoral cruza-se em larga medida com a do PS, e daí
serem intermutáveis para efeitos de governo.
*BE e PCP*
São a esquerda do regime político vigente. Ambos estão integrados no
sistema capitalista. É na qualidade de esquerda institucional que levam
a cabo a sua crítica dos males do regime. Criticam-no pelos seus
excessos e injustiças, mas não pela sua natureza de classe, não pela sua
natureza de sistema de exploração que deva ser abolido. A luta política
parlamentar, no quadro das instituições, é o centro da sua actividade.
Mobilizar as massas trabalhadoras contra o sistema capitalista numa
acção política independente está fora dos seus horizontes.
Vivem na dependência estratégica do PS. Qualquer uma das fórmulas de
“governo de esquerda” avançadas pelo BE ou o PCP depende inteiramente de
uma posição hegemónica do PS no eleitorado popular. O acordo governativo
de 2015 foi disso exemplo.
*O BE*tornou-se um simples apêndice de esquerda do PS, o grilo falante
que aponta os males que continuam por debelar. Sem bases seguras na
massa popular e trabalhadora – sindicatos, comissões de trabalhadores,
autarquias, que perdeu progressivamente ao privilegiar a acção eleitoral
e parlamentar – não tem hoje outra via de intervenção que não seja
constituir-se como a consciência crítica do reformismo (mal) corporizado
pelo PS.
Abandonou qualquer demarcação face à UE enquanto formação imperialista
do capital europeu. Abandonou igualmente a crítica à NATO enquanto braço
armado do imperialismo. O alinhamento pelo Ocidente na guerra da Ucrânia
coloca-o ao arrasto da política guerreira do imperialismo EUA-UE, a par
dos partidos da burguesia capitalista.
Pôs de lado qualquer ideia de luta pelo socialismo em favor de uma via
de “melhoramentos” do sistema capitalista. As causas sociais parcelares
a que se dedica não constituem, todas somadas, uma linha política
anticapitalista. Esqueceu que é a luta das massas populares pela
transformação social radical que dá sentido a cada luta particular e a
cada reivindicação.
A sua base de apoio cruza-se em parte com a do PS. Recruta entre as
camadas pequeno-burguesas reformistas mais à esquerda, principalmente
urbanas, meios universitários, sectores de trabalhadores precários,
trabalhadores que abandonaram a perspectiva da revolução social, camadas
de classe que pugnam por causas sectoriais (ambiente, direitos de
minorias, etc.). Muitas destas camadas, pela posição de classe e pela
ideologia, oscilam entre o BE e o PS, como se viu nas eleições de 2022.
*O PCP*é o único partido que mantém bases na classe operária, em
diversos outros sectores de trabalhadores assalariados, nos sindicatos e
noutras organizações de massas. Esta influência está em perda. Cada vez
mais, a intervenção do partido se reduz ao parlamento e à actividade
sindical. A sua política definha por isso mesmo.
Operou, sobretudo nos últimos anos, o que se pode chamar uma
sindicalização da actividade política – justamente o que Lenine apontou
como um sinal da secundarização da luta política, de classe, junto dos
trabalhadores. Reduzir a luta de massas à acção sindical e
reivindicativa conduz em linha recta à despolitização dos trabalhadores.
Esse efeito está hoje bem à vista: a maioria absoluta do PS obtida há
dois anos e o crescimento da direita são também resultado dessa
despolitização.
Na propaganda do PCP, o 25 de Abril é uma bandeira puramente
democrática, sem referência ao seu lado popular-revolucionário,
anticapitalista. A luta no quadro da Constituição é o limite a que as
acções de massas se subordinam. Aqui reside uma das principais razões da
perda de apoio eleitoral do partido, da degradação da sua política, do
seu esgotamento ideológico, do apagamento das suas palavras de ordem, da
perda de quadros, da dificuldade em recrutar apoios jovens.
Mantém, em relação à guerra na Ucrânia, uma demarcação das posições
oficiais que é única no quadro das forças parlamentares. Mas a sua
posição a respeito do papel da NATO e da atitude das autoridades
portuguesas sobre o assunto manifesta-se em surdina, limitando-se a
lembrar o preceito constitucional de dissolução dos blocos militares e a
clamar pela paz – apagando a crítica política directa aos desmandos do
imperialismo na situação concreta.
O PCP apoia-se em sectores do proletariado (operários e outros
trabalhadores assalariados), nos activistas sindicais, em estratos da
pequena burguesia mais pobre (assalariada ou proprietária), em camadas
democráticas saudosas do 25 de Abril sem ambições revolucionárias.
*Livre e PAN*
São o que se pode chamar adereços do regime político. Não cumprem nenhum
papel que seja distinto do dos demais partidos, apesar da especificidade
que reivindicam para si.
A aposta do*Livre*no “projecto europeu” e no “aperfeiçoamento” do regime
democrático não o diferencia dos partidos que promovem a mesma utopia
sem atacarem a natureza imperialista da UE e sem encararem uma alteração
radical do regime social. A sua base de apoio não se distingue da do BE
ou da esquerda do PS.
O *PAN*cultiva a aparência de partido insubstituível no que toca às
causas “do planeta”. Ignora que, sem tocar na raiz do problema, a
natureza predatória do capitalismo, nada no planeta se resolverá.
Afirmando-se nem de esquerda nem de direita, assume o papel oportunista
de buscar alianças sem princípios, em qualquer azimute político, numa
via de protagonismo fácil. Colhe apoios residuais em camadas pequeno-
burguesas “apartidárias”, principalmente urbanas.
*Abstenção e abstencionismo*
A abstenção atinge mais de metade do eleitorado nominal, mas não
constitui uma força política, como por vezes se pretende. É uma mistura
que reúne tanto simples desinteressados da política de todas as classes,
como estratos burgueses que acham desnecessário votar porque sentem o
regime seguro, como estratos proletários e populares que não se sentem
representados por nenhum partido. Reúne num mesmo saco tanto adeptos
passivos do regime político como opositores que o desprezam mas não lhe
vêem alternativa.
Deste saco podem sair votantes para qualquer força partidária quando as
circunstâncias os fazem decidir, como acontece em períodos de grande
agitação social ou quando uma força política nova parece abrir caminho.
Nessas alturas, o aparente bloco da abstenção divide-se segundo as
clivagens de classe ou as ilusões do momento.
A ideia, presente em alguma esquerda anticapitalista, de que uma
abstenção elevada “retira legitimidade” ao regime político burguês
esquece as razões muito diversas e as origens de classe distintas da
abstenção. Se a abstenção tivesse em si mesma tal virtude, há muito que
a maioria dos regimes parlamentares teria caído.Neste sentido, o
abstencionismo é uma outra forma de apoliticismo, directamente
resultante da fraqueza e da desorganização da esquerda anticapitalista.
Em
JORNAL MUDAR DE VIDA
https://www.jornalmudardevida.net/2024/02/26/para-uma-identificacao-dos-partidos-como-forcas-de-classe/
26/2/2024