domingo, 1 de novembro de 2026

 

A extrema-direita na Europa:   quando a ira social é desviada

– O imigrante não determina os salários. Não decide sobre os despedimentos. Não fecha as fábricas nem deslocaliza as empresas. Não é dono dos grandes grupos industriais nem controla os bancos.
– A extrema-direita não cria necessariamente a raiva. Dá-lhe uma orientação reacionária.

El Hadj Mohamed Brahim [*]

Ventura atiça o ódio e procura bodes expiatórios para a crise.

A extrema-direita está a ganhar terreno na Europa. Na Alemanha, o peso eleitoral da AfD é uma das manifestações mais visíveis desse fenómeno. Em vários outros países, forças nacionalistas, xenófobas e autoritárias estão a ganhar terreno, explorando o descontentamento de uma parte crescente da população.

Esta ascensão é frequentemente explicada pelo aumento do racismo, pelo medo da imigração, pelo nacionalismo, pela desinformação ou ainda pela influência de líderes populistas. Estes fenómenos existem, sem dúvida. Mas não bastam para explicar por que razão a extrema-direita encontra hoje um terreno tão favorável. Para compreender esta evolução, é preciso partir da realidade social.

Há várias décadas que os trabalhadores europeus enfrentam uma deterioração das suas condições de vida: estagnação salarial, precarização do emprego, crise da habitação, enfraquecimento dos serviços públicos, encerramento de fábricas e desindustrialização de regiões inteiras. As políticas de austeridade, as privatizações, a flexibilização do trabalho e a concorrência entre os trabalhadores transformaram profundamente as sociedades europeias.

Estas políticas não foram conduzidas apenas por governos conservadores. Foram também aplicadas, com algumas nuances, por governos liberais e social-democratas, por vezes até por forças que se reivindicam da esquerda.

Esta é uma das razões da atual crise política. Uma parte das classes populares já não distingue claramente os partidos que se sucedem no poder. Os governos mudam, mas as mesmas exigências permanecem:   competitividade, rentabilidade, redução das despesas públicas e pressão sobre o mundo do trabalho. Esta situação gera uma raiva genuína. Mas essa raiva não tem automaticamente uma orientação política.

A PROCURA DE BODES EXPIATÓRIOS

Pode conduzir à solidariedade, à sindicalização e à luta coletiva. Pode também ser desviada para a procura de bodes expiatórios.

Quando um trabalhador vê o seu salário diminuir, a sua renda habitacional aumentar ou o seu emprego tornar-se precário, podem ser-lhe apresentadas duas explicações. A primeira leva-o a questionar-se sobre a distribuição da riqueza, a relação entre o capital e o trabalho e o poder económico. A segunda aponta-lhe um responsável mais próximo: o imigrante, o refugiado, o desempregado, uma minoria ou uma instituição estrangeira.

É assim que o conflito social é deslocado.

Em vez de questionarem quem detém a riqueza e toma as decisões económicas, os trabalhadores são levados a considerar-se concorrentes. O trabalhador nacional é oposto ao trabalhador imigrante, o trabalhador do setor público ao do privado, os jovens aos reformados, as cidades ao campo.

Enquanto os trabalhadores se opõem uns aos outros, as relações económicas que geram as desigualdades permanecem, em grande medida, fora do debate.

O racismo desempenha aqui um papel político importante. Não se trata apenas de preconceitos individuais:   pode tornar-se um instrumento de divisão social.

O imigrante não determina os salários. Não decide sobre os despedimentos. Não fecha as fábricas nem deslocaliza as empresas. Não é dono dos grandes grupos industriais nem controla os bancos.

No entanto, a extrema-direita procura responsabilizá-lo pelo desemprego, pela crise da habitação, pela queda dos salários ou pela saturação dos serviços públicos.

A questão social é assim transformada numa questão de identidade.

O trabalhador já não é convidado a considerar-se, em primeiro lugar, como um trabalhador com interesses comuns a outros trabalhadores. É chamado a definir-se, acima de tudo, pela sua nacionalidade:   alemão, francês, italiano, grego ou outro.

A solidariedade de classe recua em benefício da divisão nacional.

Esta evolução é tanto mais fácil quanto o movimento operário foi enfraquecido em muitos países europeus. Durante décadas, os sindicatos, os partidos operários e as organizações populares davam às reivindicações sociais uma expressão coletiva. Os trabalhadores sabiam que a sua força residia na sua capacidade de se organizarem.

Quando essa organização recua e as lutas se tornam principalmente defensivas, abre-se espaço para outras forças.

A extrema-direita sabe ocupar esse espaço. Alega falar em nome do "povo" contra as "elites" e apresenta-se como antisistema.

Mas é preciso olhar para além dos slogans.

Criticar os partidos tradicionais não significa pôr em causa o domínio do capital. Denunciar as elites políticas não significa atacar o poder económico dos grandes grupos.

Uma força política pode apresentar-se como próxima do povo, ao mesmo tempo que defende a propriedade capitalista e os interesses fundamentais das classes possidentes.

A verdadeira questão é, portanto, saber que interesses sociais defende.

MILITARIZAÇÃO CRESCENTE

Não à austeridade e aos orçamentos de guerra!

A ascensão da extrema-direita deve também ser enquadrada no contexto internacional. A Europa está envolvida em rivalidades económicas e geopolíticas crescentes em torno de mercados, recursos energéticos, matérias-primas, tecnologias e zonas de influência.

A crescente militarização do continente insere-se neste contexto.

Em nome da segurança nacional ou da defesa dos interesses do país, pede-se aos povos que aceitem novos sacrifícios. Mas os interesses de um povo e os dos grupos económicos dominantes não são necessariamente os mesmos.

O trabalhador a quem se pede que suporte a austeridade para financiar mais despesas militares não tem os mesmos interesses que as empresas que beneficiam dessas encomendas. O trabalhador a quem se pedem sacrifícios em nome da competitividade não tem necessariamente os mesmos interesses que os acionistas que lucram com essa competitividade.

O nacionalismo pode, assim, mascarar as contradições de classe por detrás das fronteiras.

A história recente da Alemanha permite avaliar as consequências destas transformações.

Em várias regiões da antiga Alemanha Oriental, a reunificação de 1990 foi seguida de reestruturações brutais, encerramentos de empresas e um desaparecimento significativo de atividades industriais. Perderam-se postos de trabalho, as populações partiram para o Ocidente e alguns territórios viveram um sentimento duradouro de degradação social.

Esta memória social pode ser explorada pela extrema-direita.

Em vez de questionar as causas económicas desta degradação, a extrema-direita propõe uma outra interpretação:   alguém teria "tirado" às populações aquilo que estas possuíam no passado. Os estrangeiros, as minorias, as instituições europeias ou outros grupos são então apontados como responsáveis.

A extrema-direita não cria, portanto, necessariamente a raiva. Dá-lhe uma orientação reacionária.

A questão essencial continua a ser a do poder económico:   quem detém as riquezas? Quem detém os meios de produção? Quem decide sobre a utilização do trabalho e dos recursos produzidos pela sociedade?

A democracia não pode ser reduzida às eleições. Uma sociedade em que uma minoria detém grande parte das riquezas e exerce uma influência considerável sobre as decisões políticas continua a ser atravessada por relações de dominação.

É por isso que a luta contra a extrema-direita não pode limitar-se a apelos morais ou a orientações eleitorais.

Não se pode pedir aos trabalhadores que votem contra a extrema-direita e, ao mesmo tempo, deixar intactas as condições sociais que alimentam o seu desenvolvimento.

É preciso defender os salários, as pensões, a habitação, os serviços públicos, o emprego e os direitos sindicais. Mas, acima de tudo, é preciso reconstruir a capacidade de organização coletiva dos trabalhadores.

O trabalhador alemão e o trabalhador imigrante não têm de ser adversários. Podem ter línguas, histórias e nacionalidades diferentes, mas estão sujeitos às mesmas relações de dependência em relação ao capital.

A sua divisão beneficia aqueles que têm interesse em impedir a sua unidade.

É por isso que o internacionalismo mantém toda a sua força. Os capitais circulam para além das fronteiras. As grandes empresas organizam a sua produção à escala internacional. Também os trabalhadores devem poder construir a sua solidariedade para além das fronteiras.

A resposta ao nacionalismo não pode ser a indiferença perante as realidades nacionais, mas sim a solidariedade entre os trabalhadores de todos os países.

A extrema-direita propõe outro caminho. Promete proteger o trabalhador nacional, colocando os povos uns contra os outros. Transforma uma questão social numa questão de identidade e apresenta o estrangeiro como uma ameaça.

Esta política pode permitir-lhe aproveitar parte da ira popular, mas não elimina nenhuma das causas profundas dessa ira.

Enquanto os salários continuarem sob pressão, a habitação estiver sujeita à especulação, os serviços públicos forem reduzidos e os trabalhadores forem colocados em concorrência, o descontentamento continuará a existir.

A verdadeira questão é, portanto, saber qual a força política que será capaz de lhe dar uma outra direção.

Se as organizações populares continuarem fracas e se o movimento operário não conseguir reconstruir uma perspetiva coletiva, a extrema-direita continuará a encontrar terreno fértil.

A luta contra ela deve, portanto, ser travada em duas frentes:   combater sem ambiguidades o racismo, a xenofobia e o nacionalismo reacionário, mas também atacar as condições sociais que permitem que essas ideologias avancem.

Isso significa defender os trabalhadores, os seus direitos e as suas condições de vida. Significa reconstruir as solidariedades coletivas. Significa recusar que o imigrante seja apresentado como inimigo do trabalhador, que o desempregado seja responsabilizado pelo desemprego ou que os povos sejam colocados uns contra os outros.

Significa também defender a paz e recusar que os trabalhadores paguem o preço das rivalidades entre potências.

Pois o que está em jogo vai muito além da AfD ou de tal ou tal partido nacionalista. Diz respeito ao futuro político e social da Europa.

Existem duas respostas possíveis à crise.

A primeira consiste em desviar a raiva para o racismo, o nacionalismo, o autoritarismo e a procura de bodes expiatórios.

A segunda consiste em transformar essa raiva em consciência, em organização e em luta coletiva.

Quando os trabalhadores perdem a confiança na sua própria capacidade de mudar a sociedade, outras forças oferecem-lhes um futuro. A extrema-direita promete-lhes então uma comunidade nacional livre dos seus supostos inimigos.

Cabe ao movimento operário opor outra perspetiva: a da solidariedade entre todos aqueles que vivem do seu trabalho, para além das fronteiras, das origens e das nacionalidades.

Combater a extrema-direita não é apenas defender a democracia contra uma ameaça política. É devolver aos trabalhadores a confiança na sua própria força e reabrir a possibilidade de um outro futuro.

15/Setembro/2026

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