terça-feira, 20 de agosto de 2019

Alucinações circulatórias da moeda e do capital fechando o ciclo




por José Martins, da redação.



Marx lembrava com satisfação, na Introdução à Crítica da Economia Política, a
inspiradíssima frase de lorde Gladstone – o mais poderoso político e
primeiro-ministro inglês da imperialista era vitoriana: “… nem mesmo o amor
levou tanta gente à loucura como as cogitações sobre a essência da moeda…”
Acontece que, na última semana, mais de cento e cinquenta anos depois da morte
do poderoso lorde britânico, sua frase reapareceu com cintilante atualidade nas
cogitações dos economistas do sistema sobre estranhos movimentos ocorridos na
variação dos “preços do dinheiro” (juros) na maior economia do planeta.
O foco do mercado saiu momentaneamente da política monetária e da popular taxa
básica de juros do Federal Reserve Bank (Fed, banco central dos EUA). Ou mesmo
das oscilações das principais moedas globais, do preço do ouro, etc.
Nesta semana aconteceram coisas mais preocupantes para a ordem e o progresso
capitalista em todo o mundo. De repente, todas as atenções dos homens do mercado
deslocaram-se para as curvas de juros (yelds) dos títulos de dívida dos governos
nas principais economias do mundo; dos EUA, principalmente.
Da moeda para a quase-moeda. Ora, trata-se aqui justamente de um território da
acumulação do capital como um todo (produção e circulação) em que a essência da
moeda está mais longe do entendimento dos capitalistas e seus limitados
economistas que em todas suas outras formas de aparecimento.
Muito mais distante ainda do entendimento das pessoas comuns em todo o mundo,
que não têm a menor ideia nem do que sejam essas quase-moedas dos governos e
outras misteriosas formas do valor.
Mesmo assim assistiram atônitos, no decorrer desta nesta semana, nos noticiários
de televisão do horário nobre, os apresentadores informarem em tom grave de voz
e testas franzidas de preocupação que estava ocorrendo uma inversão na curva de
rendimentos dos títulos de 10 anos e de 2 anos do tesouro dos EUA !!!
Infelizmente, para o grande público da cidade global os movimentos materiais
envelopados em categorias da economia política são muito mais difíceis de serem
didaticamente esclarecidos que as encenações da política e de outras formas
religiosas da civilização.
De todo modo, o mundo não para. Às vezes até acelera. Como nesta semana, quando
aconteceu uma sucessão de fatos incríveis no processo de circulação do
dinheiro-capital para a definição da data e da profundidade da explosão da
próxima crise de superprodução do capital global.
Observemos inicialmente a superficialidade dos fenômenos. Por volta das 14 horas
de quinta feira (15) o rendimento da nota de 10 anos do Tesouro, que se move
inversamente ao seu preço de venda, atingiu uma baixa de três anos na marca de
1,467%, abaixo do rendimento dos títulos a 2 anos de 1,475%, seu nível mais
baixo desde outubro de 2017.
Ocorria então aquela incomum e perigosa inversão da curva de rendimentos de um
título de longo prazo (10 anos) e de um de curto prazo ( 2 anos). Isto
representa no fechado mundo da economia um paradoxo no fluxo natural do capital
produtor de juros e, claro, uma grande preocupação no mercado.
Não é nem um pouco natural que os capitalistas passem a ser mais bem remunerados
por emprestar ao governo dos EUA pelo prazo de 2 anos do que pelo prazo de 10
anos.
Essa inversão da curva de rendimentos não foi um fato isolado. Ocorreu
simultaneamente a outra sinalização também muito importante para a definição do
próximo choque periódico e crise do capital.
Além das peripécias dos títulos de 10 e de 2 anos, pela primeira vez na história
os títulos de 30 anos do Tesouro dos EUA estavam pagando um rendimento abaixo de
2,0%, cravando 1,961%, após cair para até 1,941%. Veja no gráfico abaixo a
evolução de longo prazo deste rendimento dos títulos de 30 anos.
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Em 1989, os títulos de 30 anos do tesouro dos EUA pagava 10%. Na semana passada
estava pagando menos de 2%. Essa queda histórica nos rendimentos dos títulos de
longo prazo dos EUA é observada com muita preocupação pelos capitalistas. Por
duas razões principais.
A primeira, porque a inversão dessa parte-chave da curva de juros tem sido
historicamente um indicador que se repetiu e que antecipou a aproximação de
todos (absolutamente todos) os choques cíclicos do pós- guerra, chamados de
“recessão” pelos economistas vulgares.
A segunda preocupação é com o fato de que crescentes pressões cíclicas sobre o
processo de produção e acumulação mundial levaram os capitalistas a tanto medo
do seu futuro, no curto-prazo, que o estoque mundial dos títulos dos governos
negociados a taxas negativas de rendimentos elevou-se exponencialmente em todo o
mundo para um novo recorde dos últimos setenta anos.
O normal do mercado é que os capitalistas emprestem seu dinheiro ao governo com
a promessa de ser pago de volta, acrescidos com juros, na data do vencimento.
Juros positivos, portanto. Mas agora, à medida que os capitalistas se tornam
cada vez mais desesperadas por um “porto seguro” para sua propriedade privada
ameaçada pela próxima crise são os governos de grandes economias que são
remunerados ao tomar dinheiro emprestado. Com juros negativos!
Essa história de juros negativos é muito menos normal do que aquela inversão da
curva de rendimentos entre títulos de longo e de curto prazo observada acima.
Mesmo alguns bancos privados europeus já oferecem empréstimos aos seus fregueses
com juros negativos. Você toma emprestado 10 euros agora e paga 9 euros daqui 10
anos. Dá para acreditar? Mesmo assim, pouca gente aparece para aproveitar essa
“generosidade”.
Assim, se aprofunda velozmente e se amplia neste final de ciclo econômico a
clássica armadilha da liquidez , na qual as taxas de juros cada vez mais baixas
tornam-se, ao mesmo tempo, as maiores do mundo. O sistema de crédito desaparece.
Esse bizarro fenômeno ocorre na medida em que as pressões deflacionárias nos
preços e lucros mundiais das mercadorias-capital dão o sinal de alerta aos
capitalistas sobre uma nova e iminente interrupção da acumulação em todas as
esferas da circulação capitalista.
A armadilha da liquidez, o desaparecimento do crédito e, finalmente, o
derretimento da moeda, é resultado de um processo deflacionário de preços que se
alastra por todo o mercado mundial.
Cerca de US$ 15 trilhões de títulos do governo em todo o mundo, ou 25% do
mercado, já são negociados a taxas negativas, segundo o Deutsche Bank. Este
número quase triplicou desde outubro do ano passado.

Acontece, neste exato momento, um processo inédito de armadilha da liquidez e
deflação global no período pós-guerra. Nota-se no gráfico acima o importante
fato que esse processo de entrada do capital produtor de juros no território dos
rendimentos negativos inicia-se mundialmente no mês de agosto de 2014.
Timidamente, até o início de 2016, acelerando-se nos anos seguintes. Finalmente,
como já observado acima, o volume deste entesouramento é triplicado desde
outubro do ano passado.
Deve ser devidamente registrado o seguinte: o fato de este fenômeno ser inédito
nos últimos setenta e cinco anos ter ocorrido apenas recentemente, a partir de
2014, é muito importante para a análise da forma e magnitude específicas da
iminente crise global.
Os bancos centrais globais têm afrouxado sua política monetária em níveis sem
precedentes nos últimos setenta anos, com a dívida pública se expandindo
descontroladamente na Europa e no Japão com taxas de juros zero ou negativas.
Uma superprodução de moeda e de crédito para segurar os preços de produção das
mercadorias-capital.
O montante da dívida global com rendimentos negativos continua a crescer e, à
medida que os bancos centrais tentam reagir e se proteger da grande crise global
que se aproxima eles contribuem para um declínio ainda maior nos rendimentos dos
títulos.
Na Alemanha e sua poderosa economia industrial os títulos do governo de 30 anos
foram negativos pela primeira vez na semana passada.
Agora, com a mais do que provável entrada dos títulos públicos estadunidenses
nesta contabilidade da massa de títulos negociados com taxas de juros negativas,
pode-se imaginar que essa bastarda massa de capital passaria a representar
instantaneamente não mais apenas 25%, mas de 50 a 70% do total deste títulos
públicos em todo o mundo.
Além desta gigantesca e inédita migração de massas de capital com taxas de juros
negativas para os títulos públicos de longo prazo das principais economias
vislumbra-se também a extensão e a violência da destruição de capital que deve
ocorrer no período de crise que se aproxima. Uma massa de capital de
aproximadamente US$ 30 trilhões a ponto de ser instantaneamente incinerada.
Em outras palavras, é bastante elevada a probabilidade da próxima reversão do
período atual de expansão do ciclo para o próximo período de crise desembocar
diretamente em uma crise geral ou catastrófica, como descrita por Rosa de
Luxemburgo.
Uma crise catastrófica da economia mundial também seria inédita no período pós
guerra dos últimos 75 anos. O mundo viraria de ponta-cabeça. Tudo se tornaria
possível.
No mês passado, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi botou mais
lenha na fogueira. Sinalizou, do mesmo modo que o Fed vem sinalizando nas duas
últimas semanas, que o BCE reduzirá ainda mais as taxas de juros antes do final
do ano, já que “um grau significativo de estímulo monetário continua sendo
necessário para garantir condições financeiras favoráveis ​​e apoiar a expansão
da zona do euro”.
Ao tentar salvar as condições financeiras do sistema ameaçadas pela derrocada
econômica na produção de valor e de mais-valia os capitalistas destroem antes o
seu sistema monetário e de crédito público.
É por isso que todas as crises periódicas de superprodução de capital são
abertas por uma crise financeira, antes mesmo de alcançar a esfera produtiva e
comercial. Este roteiro da realização da crise mistifica ainda mais as suas
causas. Para os economistas em geral a crise econômica será sempre apenas mais
uma crise meramente financeira ou de crédito.
Na maneira mais sofisticada desta mistificação, no caso dos marxistas
keynesianos, será sempre uma crise de sobre-acumulação, não de superprodução de
capital. Tudo é um problema circulatório. Relembrando mais uma vez Rosa de
Luxemburgo, estes “epígonos de Marx” estacionaram no livro 2 de O Capital (o
Processo de Circulação do Capital) e esqueceram de ler a sequência no Livro 3
(Processo de Conjunto da Produção e Circulação do Capital).
Na raiz destas dificuldades teóricas (com danosas consequências práticas)
encontra-se a confusão que todos esses economistas vulgares fazem da relação
orgânica entre dinheiro-capital, de um lado, e, de outro lado, capital-dinheiro.
O primeiro é capital produtor de juro, o segundo é capital produtor de lucro.
Daí todos esses revisionismos teóricos dos marxistas do século 21 como
“financeirização do capital” e outras asneiras.
Acontece que na dinâmica econômica, estritamente delimitada pelo ciclo periódico
de superprodução e crise do capital, a lei da gravidade (ou do valor) da
economia sempre se impõe sobre a desmesurada superprodução de juros ocorrida no
período de expansão. Como deflação dos preços mundiais e abrupta redução da
autonomia relativa da esfera financeira, além da sagrada autonomia igualmente
relativa da política econômica dos governos.
Em um ciclo econômico completo, a grande massa da superprodução de capital
criada no período expansivo consiste deste dinheiro-capital ou
(capital-fictício) que, nas fases finais de encerramento do ciclo, como agora,
perde progressivamente sua autonomia relativa frente à produção de valor e de
mais-valia e se desvaloriza abruptamente.
Antecipa-se assim, na forma de uma crise de crédito e de uma gigantesca queima
de capital, que ora se avizinha, a paralização da produção e a depressão
econômica propriamente dita.
A maior parte deste entesouramento de mais de US$ 15 trilhões detectado pelo
Deutsche Bank é de dinheiro-capital, capital produtor de juros, que migra em
quase sua totalidade de uma infinidade de ativos financeiros do mercado de
capitais, sistema bancário, etc., para o “porto seguro” dos títulos públicos.
Neste mês de agosto de 2019, este corrosivo processo de superprodução do
conjunto do capital se aproxima de seu desenlace na medida exata em que os
rendimentos ainda positivos dos títulos públicos dos EUA também se aproximam,
como vimos acima, das taxas negativas que já toma conta das principais economias
mundiais.
Anuncia-se inédita e planetária queima de capital. É exatamente nesta tão
esperada revelação que reside a grande importância dos fatos ocorridos nesta
semana com os enlouquecedores e essenciais movimentos da moeda na maior potência
econômica do planeta e no resto do mundo.
In
CRÍTICA DA ECONOMIA

https://criticadaeconomia.com/2019/08/alucinacoes-circulatorias-da-moeda-e-do-capital-fechando-o-ciclo/
18/8/2019

sábado, 17 de agosto de 2019

China, el Canal de Panamá y la geopolítica - [CEPRID]

                       
   
 


Julio Yao

IELA

1. TIEMPO Y FAENA

Durante el Consejo de Seguridad de la ONU de 1973 en Panamá, el embajador de la
República Popular China, Huang Hua, posteriormente Ministro de Relaciones
Exteriores y presidente de la Asamblea Popular China, me leyó el siguiente
telegrama firmado por el presidente Mao Tsé Tung: “La República Popular China
apoyará la expulsión inmediata de las bases militares de EE.UU. si Panamá lo
pide”. Era la respuesta a una interrogante que hicimos como Asesor del canciller
Juan Antonio Tack (un panameño hijo de chino) al gobierno de Pekín.

Recordamos a Mao hoy cuando es necesario tener presente quiénes son nuestros
amigos y quiénes nuestros enemigos. A quienes acusan a China como “imperialista”
en nombre de EE.UU., les decimos que la historia de 60 siglos de China demuestra
que ella casi siempre fue emporio y nunca imperio. Un emporio llamado el Imperio
Celeste o el Reino del Medio, que jamás tuvo fuerzas militares fuera de su
territorio, salvo cuando envió voluntarios (no a sus tropas regulares) en
solidaridad con la RPD de Corea, diezmada criminalmente por EE.UU. (1950-1953).

Para entrar en materia, aclaremos lo obvio: no es el Canal sino la condición
geográfica y la posición geoestratégica del Istmo lo que produce el valor
geopolítico de Panamá. Como le manifestamos al Secretario de Estado, Henry
Kissinger, en 1975, “no existe un Panamá por y para el Canal sino un Canal por y
para Panamá”.

Panamá fue el trampolín que le permitió a España descubrir y saquear los
recursos de Abya Yala y someter a los pueblos originarios, del mismo modo como
el ferrocarril de Panamá fue, desde 1855, el medio que EE.UU. explotó para
desarrollarse y borrar del mapa a los indígenas. Sin la vía férrea, que llevó a
millones de inmigrantes, EE.UU. no existiría y, por esa razón, Washington
consideró siempre que su frontera sur no era México sino Panamá.

Hagamos las siguientes preguntas:

¿Qué rol juega la historia en el resurgimiento de China como potencia? ¿Es China
una amenaza a la seguridad o a los intereses de EE.UU. en el Canal o en la
región? ¿Puede EE.UU. invocar contra China el Tratado de Neutralidad?

El presidente Xi Jinping ha dicho que China practica un desarrollo socialista
con características chinas. Más relevante sería conocer cuáles son las
constantes de su Historia, que marcan más que la ideología. Ellas pudieran ser:
paciencia, perseverancia, cooperación, diálogo, armonía y paz.

Cuando la historia supera 6,000 años, ella se proyecta con huellas indelebles
hacia el futuro.

En 2001 visité en X’ian el Ejército de Terracota del Primer Emperador Qin Shi
Huang (247 a. C.—221 a. C.) — el museo al aire libre más grande del mundo — y le
pregunté al arqueólogo jefe cuánto tiempo haría falta para excavar los
entierros. “500 años”, respondió. Cuatro años después, le hice la misma pregunta
y repitió: “500 años”. Le corregí: “Deben ser 496 años, porque 500 fue hace
cuatro años”. Respondió impasible: “¡500 años!”.

Olvidaba que el presidente Mao había dicho: “Dentro de dos mil años el mundo se
reirá de lo que hacemos ahora”. El gran Timonel estaba seguro de que en el año
3976 alguien estaría riéndose de Mao, así que me di por vencido.

China es el país más antiguo y a la vez continuo del planeta. Hace más de 40,000
años, los primeros protochinos cruzaron el Estrecho de Behring y dieron origen
al hombre americano. Muchos aborígenes tienen el ADN chino; los Ngabes y los
Wounaan, por ejemplo.

China tiene un concepto del tiempo radicalmente distinto al de Occidente, y ello
también se extiende a la magnitud de sus obras materiales. Las obras de China le
dan un toque de eternidad a su historia, que no se mide por años, generaciones y
siglos, sino por dinastías y eras, y es que China no es sólo un país sino una
constelación de pueblos, nacionalidades, etnias y culturas.

Mao le debió el triunfo de la Revolución a un pensador y estratega militar de
hace 27 siglos: Sun Tzu, quien nació seis años después (545 a.C.) que Confucio
(551 a.C.), y tanto el maestro Sun como el maestro Kung gozan de reconocimiento
después de 2700 años.

En los días de aquellos Sabios se construía el Gran Canal más largo del mundo
(1,800 kms.) entre Hangzhou y Pekín, con 24 juegos de esclusas y 60 puentes, y
en el que trabajaron seis millones de obreros, una suma superior a nuestra
actual población.

La Gran Muralla fue construida entre el siglo V a.C. y el siglo XVI (les tomó
2,100 años) para proteger la frontera norte del Imperio. Medía 21,200 kilómetros
desde el Río Yalú, fronterizo con Corea, hasta el desierto de Gobi.

(Dicho sea de paso, el Río Yalú, que divide y une a la vez a Corea y China,
simboliza la solidaridad entre estos pueblos porque en ese río congelado, 50,000
voluntarios chinos fueron ametrallados por la aviación estadounidense en la
Guerra de Corea. Mi hermano Yau A-Mak, de Hocksang (Cantón) peleó por el pueblo
coreano y fue declarado Héroe Nacional de China. Yalú es el nombre de mi hijo
menor, Yalú Enlai, el último en honor al Primer Ministro Chou Enlai).

La antigua Ruta de la Seda era una compleja red que unía a Eurasia con Europa y
Noráfrica, el más importante proyecto mercantil y cultural de la época, aunque
tuvo como antecedente a la Ruta del Jade, del siglo XVI a.C.

Pero un siglo antes de la Ruta del Jade, en el siglo XVII a.C., los chinos ya
habían llegado a lo que son hoy Canadá, Nuevo México y Veracruz (México). Ello
fue 3,192 años antes que Colón “nos descubriera” (1492), según petroglifos
encontrados con el mismo tipo de letra que se utilizaba al final de la Dinastía
Shang en el siglo XVIII a.C.

En el siglo V de nuestra era, un monje budista de nombre Hui Shen (o Fa Hsien)
exploró “La Tierra del Fusang”, una mítica civilización ubicada en el continente
Americano, y que algunos rastrean en Norteamérica, y los más, en Nicaragua.

Mil años después, en 1421, China envió una flota – llamada “La Flota del Tesoro”
— de 317 barcos y 28,500 marinos a explorar tierras desconocidas al mando del
almirante Zheng He (o Cheng Ho), un eunuco de origen árabe. Sus barcos eran los
más avanzados y ocho veces más grandes que las carabelas de Colón, mientras que
su tripulación superaba en 28,300 marinos a los 150 que venían con los
españoles.

Zheng He recorrió el Océano Índico, los mares meridionales de China, India,
Indonesia, Malasia, Tailandia y Vietnam hasta Australia, Oceanía y los mares
antárticos; bordeó el Cabo de Buena Esperanza, en Sudáfrica, ascendió por la
costa africana hasta Senegal, cruzó el Atlántico impulsado por la corriente y
descubrió nuestro continente entrando por Las Antillas Menores, 71 años antes
que Colón.

El almirante Zheng He actuó como embajador y respetó todas las culturas sin
someterlas, y esto ya traza una raya con el posterior colonialismo europeo y
estadounidense que esclavizó a tres continentes.

La expedición marítima terminó cuando el Emperador Zhu Di, protector de Zheng
He, falleció en 1424. Un hecho fortuito la ocasionó: un rayo que cayó sobre la
Ciudad Prohibida la incendió, y ello fue usado como pretexto por los mandarines
enemigos de Zheng He que quisieron hacer verla como una “señal del cielo” que
desaprobaba las exploraciones. Éstas fueron suspendidas; se quemaron los
informes, documentos cartográficos y bitácoras de Zheng He, y se destruyó la
flota imperial. Zheng He no volvió a viajar hasta 1431, cuando falleció,
cerrando así un capítulo luminoso en la historia marítima de China.
Descendientes de aquellos marinos se encuentran diseminados por Singapur,
Malasia, Vietnam, Tailandia, Indonesia y las Filipinas.

Al darle China la espalda al mar, surgieron las expediciones europeas que, ya
armados con mapas de Zheng He y China, redescubrieron América. Los españoles,
mayormente expresidiarios y delincuentes, contrario a los chinos, diezmaron a
decenas de millones de indígenas originarios.

China, el país más importante del planeta entre el siglo V y el XVI, fue
sometida en el XIX por Europa cuando, a partir de 1842, Inglaterra, Francia,
Alemania y otros países (incluso la pequeña Italia), infinitamente superiores a
China, le impusieron las Guerras del Opio y tratados desiguales que le
arrancaron Hong Kong, Macao y derechos extraterritoriales y comerciales. EE.UU.
pensó “más vale tarde que nunca” y se sumó a la gran piñata que hicieron de una
China feudal.

La caída de la Dinastía Qing trajo la guerra civil, y ésta culminó con la
revolución que derrotó a Chiang Kai Ser y fundó la República Popular en 1949.

2. EL PRIMER FERROCARRIL INTEROCEÁNICO DEL MUNDO

China volvió a impactar la geopolítica mundial poco después de las Guerras del
Opio. Mil trabajadores chinos fueron traídos por una compañía de Nueva York en
1854 para construir en Panamá el primer ferrocarril interoceánico del mundo.
Huían de las guerras, los Levantamientos Campesinos y la Rebelión Taiping.

Tratados como esclavos, fueron víctimas de enfermedades, reptiles y el maltrato
por parte de la empresa. Al mes de haber llegado, mil obreros se hicieron matar,
se suicidaron o fueron asesinados a un promedio de 33 diarios durante un mes.

La empresa sobreexplotó a los obreros chinos porque estaba a punto de vencerse
el contrato, en cuyo caso la compañía pasaría a manos de Nueva Granada o
Colombia. Pese a las adversidades, los chinos completaron la fase más difícil
(casi imposible) del proyecto, ya que el resto de los trabajadores irlandeses,
hindostanes, malayos y colombianos, había salido huyendo y abandonaron el
proyecto, por lo cual los sacrificios de los chinos los convirtieron en mártires
de la comunicación interoceánica.

Los chinos realizaron sin saberlo una drástica revolución en la logística y la
geopolítica del planeta. Sin ellos, ni el ferrocarril ni el Canal hubieran
existido porque la vía férrea, según los ingenieros, fue siempre apenas la
primera fase de la vía acuática.

 3. CHINA EN EL SIGLO XXI

China es, desde 2015, la segunda economía del planeta, aunque ayer nos informó
el embajador Wei Kiang que ya es la primera. China es la tercera o cuarta
potencia en términos militares, el único país en desarrollo que no tiene los
habituales cinturones de miseria en sus ciudades y donde todos tienen derecho a
un pedazo de tierra, gracias al Gran Timonel.

Contrario a EE.UU., en China la política gobierna la economía y la banca. Al no
estar sujetos a plazos cortos, su gobierno puede programar y planificar por
muchos años. En cambio, en Occidente, la política es controlada por la economía,
las finanzas y, especialmente, la banca.

El haberse librado de la humillación extranjera explica que China quiera ser una
nación “modestamente cómoda”, como dijo el presidente Xi Jinping. Entre 1981 y
2005, 600 millones de personas salieron de la pobreza según el Banco Mundial.
¡Pero es que la población total de China en la década de los sesenta era de 650
millones de habitantes! Se redujo la pobreza y aumentó la clase media, pero
también el número de ricos y superricos.

China es uno de los países más contaminados, pero también el que mejor combate
el cambio climático. Es el mayor productor de energías no renovables;
verbigracia, la eólica y la solar. El gobierno combate la corrupción; es abierto
a las críticas; es su primer fiscalizador; reconoce sus deficiencias y lacras y
está siempre listo para resolverlas. El objetivo es tener buen gobierno, algo
que se origina en la tradición de que al poder llegan los mejores tras una gran
selección.

(Ésta fue una contribución de Confucio, que creó la primera Carrera
Administrativa del mundo. Para ser funcionario – trabajar para el Estado — era
necesario formarse, en primer lugar, como poeta, tocar instrumentos musicales,
ser buen calígrafo, experto en artes marciales — Kung Fu, Win Chung - arquero,
buen jinete, conocer los Ritos y el Tao Te King. Gengis Khan aplicó los
principios administrativos de Confucio a su imperio, el más grande de la
historia).

Como ha dicho Rafael Poch, excorresponsal catalán en Pekín: “Pese a las
dificultades, los chinos nunca habían sido tan libres y prósperos, lo que
explica el optimismo que desprende la sociedad. China, aunque suene muy fuerte,
es de los países mejor gobernados del mundo.”

4. LA ANTIGUA Y LA NUEVA RUTA DE LA SEDA

Volvamos al pasado.

La antigua Ruta de la Seda se extendió entre el siglo I A.C. y XV d.C. (1,600
años) y conectaba a China con Eurasia, el Medio Oriente, los reinos hispánicos y
África Oriental. Por la Ruta, además de la seda — cuya elaboración era un
secreto chino — también transitaban piedras y metales preciosos, así como
científicos, filósofos, espías, poetas y escritores.

La Nueva Ruta de la Seda es el proyecto lanzado en 2013 por el presidente Xi
Jinping que quiere unir a Europa, Asia Sur-Oriental, Asia Central, el Oriente
Medio y África. Contempla el establecimiento de seis corredores ferroviarios y
una ruta marítima que conecta ambos lados del Pacífico. Es el mayor proyecto
comercial de la época.

La antigua Ruta protegía a Eurasia, cuyo control, según el geopolítico
británico, Harold McKinder, aseguraría el dominio del mundo. La Nueva Ruta se
propone justamente blindar esa gran masa de tierra para desarrollarla y desde
ella implementar un nuevo orden internacional multipolar.

 5. EL CANAL EN NICARAGUA Y PANAMÁ

Una controversia entre China y EE.UU. por la región es previsible, pero no
especularemos sobre las opciones. Más complicado pudiera ser un conflicto entre
EE.UU. y China por el Canal de Panamá o, algo mucho más relevante: entre la
hegemonía de EE.UU. en el Canal y la independencia de Panamá. La primera
controversia, entre China y EE.UU., no existe; el segundo, el conflicto entre la
hegemonía canalera de EE.U. Y la independencia de Panamá, sí. Veamos por qué.

En 1880, el presidente Rutherford Hayes declaró que un Canal sería “una parte de
la línea costanera de EE.UU.”; es decir, su frontera, y que, por ese motivo,
jamás permitiría que ninguna otra potencia lo construyera o controlara. EE.UU.
convirtió al Mar Caribe en su “Mare Nostrum” y expulsó a las potencias europeas.

Fue esa Declaración la que determinó la geopolítica del Canal.

El presidente Teodoro Roosevelt le añadió el “Corolario Roosevelt a la Doctrina
Monroe” para quitar y poner gobiernos a su antojo en Centroamérica y el Caribe.
A fines del pasado siglo, Washington aclaró que la Declaración de Hayes incluía
a cualquier país asiático (en referencia a China, ya que Japón había sido
eliminado con la invasión de 1989) como parte de la política de Washington de
impedir que una superpotencia surgiera en el Lejano Oriente, lo que explica por
qué tienen rodeada a China de bases militares.

Marquemos dos hitos que ilustran la obsesión de EE.UU. por el control del Canal.

Mientras la vía acuática no existía aún, EE.UU. se enteró de negociaciones
secretas en París en 1910-1911, entre Nicaragua y Japón para construir un Canal.
Para impedirlo, invadió a Nicaragua, derrocó al gobierno de José Santos Zelaya e
implantó una dictadura que dio lugar a la Dinastía Somoza.

Esto me lo confió en México en 2003 el excanciller de Nicaragua, el padre Miguel
D’Escoto, durante la Tercera Conferencia Internacional de Solidaridad con
Palestina.

En 1914, tres años después del derrocamiento de Zelaya, EE.UU. impuso el Tratado
Bryan-Chamorro a Nicaragua que le otorgó a perpetuidad el monopolio del Canal.

El actual proyecto de Canal por Nicaragua, financiado por un empresario, no es
iniciativa del gobierno de Pekín y está virtualmente en coma, de la misma manera
que el Canal francés tampoco era un proyecto del gobierno de París sino de
Ferdinand De Lesseps.

EE.UU. no pudo acusar a Francia, como tampoco puede hacerlo ahora con China, de
retar o violar la Doctrina Monroe, que de todos modos no tiene validez alguna.
EE.UU. se opuso diplomáticamente al Canal francés en 1873, y militarmente al
Canal japonés en Nicaragua en 1910 y al Canal japonés en Panamá en 1989. La
pregunta ahora es: ¿Se opondrá EE.UU. a la simple presencia de China en el Canal
de Panamá?

6. CHINA, JAPÓN Y EL CANAL

Los primeros contactos entre Panamá y la República Popular China estuvieron a
nuestro cargo en 1973. El canciller Tack me nombró su enlace con el embajador
Huang Hua durante el Consejo de Seguridad de las Naciones Unidas, así como su
enlace con el canciller del Perú, General Miguel Ángel de la Flor Valle, quien
nos coordinaba con los voceros del Tercer Mundo.

La China, y no la Unión Soviética, era en esa época una apuesta más factible
para Panamá, de tal suerte que tanto Huang Hua como yo redactamos sendas notas
para establecer relaciones diplomáticas, pero ese objetivo se malogró por
intervenciones exógenas de elementos antichinos.

El Canciller Tack me solicitó que le preguntara al embajador Huang Hua cuál era
la posición de China en torno a la neutralidad de los Canales internacionales.
En vez de una respuesta jurídica, fue el propio presidente Mao Tsé Tung quien
firmó el telegrama que mencioné al comienzo de esta ponencia, una respuesta
política en apoyo a la desmilitarización extranjera en el Canal, de EE.UU. en
primer lugar. Mao autorizó a Huang Hua apoyar el desmantelamiento inmediato de
las bases militares estadounidenses si Panamá lo solicitaba.

En este telegrama o télex, el presidente Mao se plantó firme frente a EE.UU. en
favor de nuestra soberanía y de paso enfatizó el principio clásico de que los
Canales neutrales no deben albergar bases extranjeras, una posición que el
canciller Tack siempre mantuvo conforme a la Declaración Tack-Kissinger, hasta
que fue sustituido en su doble condición como canciller y jefe responsable, y
que explica por qué él no negoció el Tratado de Neutralidad.

(A raíz de la agresión estadounidense el 9, 10 y 11 de enero de 1964, el
presidente Mao convocó una manifestación de varios millones en la Plaza
Tienanmen de apoyo a Panamá, la única convocada por parte de un jefe de Estado.
El exrepresentante comercial de China en Panamá, Wang Weihua, estuvo presente).

Para reafirmar el monopolio que EE.UU. usurpaba sobre el Canal, el Secretario de
Estado, Henry Kissinger, principal responsable de las negociaciones, declaró en
1975, lo siguiente:

“Panamá jamás gozará de independencia en el manejo de la vía acuática y no debe
ilusionarse al respecto. Los panameños nunca serán los verdaderos dueños del
Canal, porque EE.UU. retendrá su control mucho más allá del año 2000.” Resultó
profético.

Las declaraciones de Kissinger violaban la Declaración Conjunta que había
firmado con el canciller Tack el 7 de febrero de 1974 (la cual redacté por
encargo de Torrijos y Tack), pero sí reflejaban la geopolítica de la Declaración
de Hayes de 1880.

Tan ofensivas y soberbias palabras produjeron gran disgusto e indignación en el
general Torrijos y en el canciller Tack, pero se las mantuvo en bajo perfil para
que no ocasionaran un revuelo. Pero, como le expresé al canciller, las
consideraba una provocación de Kissinger y Sol Linowitz para hacer naufragar las
negociaciones. Para no romper con éstas, el canciller y el general me
comisionaron para rechazarlas desde México en nombre del Gobierno Nacional.

Allí afirmamos, con abundantes razonamientos históricos y jurídicos, que “no
existe un Panamá por y para el Canal sino un Canal por y para Panamá” y que el
tratado del Canal (entonces no se hablaba de un segundo tratado ni de
neutralidad) debía reconocer la absoluta y efectiva soberanía al finalizar el
convenio, conforme a la Declaración Conjunta.

Cuatro años después de la firma de los tratados, EE.UU. asesinó al general
Torrijos el 31 de julio de 1981 y derrocó y secuestró al general Noriega con la
invasión de 1989.

Preguntemos, ¿por qué?

Hubo varias razones, pero una indiscutible es que Torrijos y Noriega negociaban
la construcción de un Canal a Nivel del Mar u otra alternativa con Japón:
Torrijos, entre 1977 y 1981; Noriega, de 1983 a 1989. ¡Diez años de
negociaciones! Otra razón, consignada en un Memorándum clasificado como SECRETO
del Consejo de Seguridad Nacional bajo Reagan, autorizó remover a Noriega para
abrogar los tratados Torrijos-Carter (ver: Julio Yao, El Monopolio del Canal y
la Invasión, Universidad de Panamá - EUPAN, 2019).

La llamada Cruzada Civilista parecía desconocer que Panamá, a través de Omar
Torrijos y Manuel Noriega, estuvo negociando con Japón entre 1977 y 1989, y le
hizo el juego a Reagan-Bush.

A un país que no tenía ejército y cuyas penetradas y debilitadas Fuerzas de
Defensa no disponían de una mínima capacidad antiaérea ni radares, EE.UU. — en
su mayor despliegue desde Vietnam – invadió y masacró entre 4,000 y 7,000
panameños, sin contar las decenas de miles de heridos y desaparecidos, y usó a
Panamá para experimentar nuevas armas que después emplearon contra Irak, Libia,
Afganistán, Siria y el Medio Oriente.

EE.UU. expulsó a Japón de Panamá, que era el centro financiero de Tokyo para
América Latina y que en los años ochenta amenazaba con desplazar a Washington
como primera potencia comercial, igual que ahora lo hace China 32 años después.
Japón se retiró y se llevó los miles de millones de dólares que mantenía en
nuestro Centro Financiero.

EE.UU. se apoderó de la Comisión Tripartita para el Estudio de Alternativas al
Canal – que el hegemón tenía boicoteada – e hizo que la misma seleccionara
antidemocráticamente la del Tercer Juego de Esclusas y descartara el Canal a
Nivel, bajo la airada reacción del embajador de Japón.

Pero China no es Japón y EE.UU. tampoco tiene ahora la hegemonía que gozaba en
1989. Así que preguntemos: ¿por qué una lucha pacífica por mercados habría de
convertirse en una guerra internacional, tal como se insinúa tras la actual
guerra comercial entre China y EE.UU.?

Las respuestas dependen de las siguientes preguntas: ¿Por qué EE.UU. le prohibió
siempre a Panamá establecer relaciones diplomáticas con la Unión Soviética o con
China Popular y nos permitió mantenerlas sólo con Taiwán? ¿Por qué EE.UU.
obstaculizó la participación de China en el Tercer Juego de Esclusas?
(https://mundo.sputniknews.com/politica/201710211073365334-pekin-relaciones-proyecto-washington/).

7. LA NUEVA RUTA DE LA SEDA Y EL CANAL

El 13 de junio de 2017, Panamá abrió relaciones diplomáticas con China. De los
19 acuerdos firmados, uno es relevante para nuestra región: el Memorándum de
Entendimiento sobre la Cooperación en el Marco de la Franja Económica de la Ruta
de la Seda y la Iniciativa Marítima de la Ruta de la Seda del Siglo XXI.

Es la primera vez que China firma un acuerdo para incorporar a un país
latinoamericano a esta iniciativa. El citado Memorándum dice que “Panamá se
adhiere a la iniciativa china de la Ruta de la Seda, potenciando su rol como la
gran conexión con el Canal de Panamá.” El Canal es visto como bisagra
interoceánica de la Nueva Ruta de la Seda, especialmente de cara a la Cuenca del
Pacífico, cerrada para China desde 2008 por el presidente Barack Obama.

Según la ministra de Asuntos de Ultramar de China, Qiu Yuanping, los acuerdos
con Panamá constituyeron el logro diplomático más importante para China durante
el año 2017.

Es indispensable revisar algunas peculiaridades geopolíticas entre China y
EE.UU.

8. APUNTES PARA UNA GEOPOLÍTICA DE EE.UU.

Es el principal usuario del Canal, hegemón en un mundo unipolar; la única
potencia imperialista y actúa por sí sola. Tiene acuerdos de seguridad con
numerosos países, domina la OTAN y tiene chaquiras con mil bases alrededor de su
cuello. Es la primera potencia nuclear, la mayor fuente de guerras y agresiones.
Sus gastos militares son más de un tercio del presupuesto militar mundial (35%).

EE.U. es negador por antonomasia del Derecho Internacional, actúa al margen de
la ONU y la controla. No ha suscrito o ratificado los tratados más importantes
de derechos humanos y el Cambio Climático. Busca por la fuerza la sumisión del
mundo y ensaya indiscriminadamente todo tipo de guerras, regulares, irregulares,
medios judiciales (lawfare) y psicológicos.

Se ha retirado de muchos tratados de la ONU; mantiene una guerra comercial con
China, Turquía y la Unión Europea, y una permanente actitud agresiva contra
Cuba, Corea del Norte, Irán y Siria. Es causante del mayor desplazamiento humano
del planeta; persigue el caos generalizado para destruir a los Estados, reducir
la población mundial y apropiarse de sus recursos energéticos y naturales, en
obediencia al gobierno secreto del mundo. Su política exterior trasunta el
racismo profundo de su sociedad.

EE.UU. está dispuesto a usar su poderío nuclear con cualquier pretexto, haya o
no guerra. Es la única potencia que ha usado la bomba atómica contra poblaciones
civiles. Para EE.UU., la guerra es un negocio, tanto para destruir como para
reconstruir.

E.UU. tiene bases convencionales y nucleares en torno a China en las Filipinas,
Guam, Japón, Isla Diego García y Corea del Sur. Sólo en Latinoamérica y el
Caribe, EE.UU. tiene más de 80 bases militares, disfrazadas o encubiertas,
además de la Cuarta Flota del Comando Sur. Además, tiene acceso militar a
numerosos países por aire, tierra o mar (Tratado Salas-Becker de Panamá). A la
inversa de China, en EE.UU. las finanzas y los bancos determinan la política.

En cuanto a Panamá, EE.UU. impidió su soberanía bajo un protectorado de facto;
objetó su desarrollo (por ejemplo, el ferrocarril de Panamá a Chiriquí) con el
pretexto del Canal; vedó a Panamá el uso de su espacio aéreo para
comunicaciones; disolvió el primer ejército nacional en 1904 y a las Fuerzas de
Defensa en 1989 para impedir a Panamá el cumplimiento de sus obligaciones según
el Tratado del Canal y el Tratado de Neutralidad. EE.UU. patea cuando quiere
nuestra independencia.

 9. APUNTES PARA UNA GEOPOLÍTICA DE CHINA

China es el segundo (virtualmente el primer) usuario del Canal y principal
sustento de la Zona Libre de Colón.

China no está emergiendo por primera vez sino resurgiendo como lo hizo durante
mil años. No es y nunca ha sido una potencia imperialista, como reconoce
Kissinger desde 1972. China nunca militarizó ninguna región del mundo; tiene
puertos en otros países que podrán ser un “collar de perlas”, algo mucho menos
peligroso que las bases militares y misiles que adornan el cuello de Washington.

China es una de las potencias más contaminantes, pero también la que mejor
combate el cambio climático. Actúa dentro del marco de la ONU, respeta la
independencia de los pueblos y condena el racismo. China intenta construir un
mundo multipolar a través de la armonía, el diálogo y la cooperación. Su
objetivo es el desarrollo y la coexistencia pacífica.

Su arsenal nuclear es modesto, pero suficiente. Ha dicho que no será la primera
potencia en lanzar un ataque nuclear y que sólo lo hará en caso de defensa.
Tiene una INSTALACIÓN NAVAL NO MILITAR, fuera de su territorio desde 2017, en
Djibouti, en el Golfo de Aden, con 300 miembros, para operaciones de paz y
misiones humanitarias y para prevenir la piratería en alta mar. Dicha base
humanitaria está al lado de bases navales MILITARES de EE.UU. y Japón. La
proyección de China no es geopolítica sino geoeconómica, y su herramienta es la
diplomacia.

China apoya la soberanía de Panamá y aspira a su desarrollo sostenible. No
pretende establecer presencia militar en Panamá ni controlar el Canal.

10. ¿AMENAZA CHINA LA SEGURIDAD O LOS INTERESES DE EE.UU. O LA REGIÓN?

Otro Canal en Nicaragua pudo ser un desafío para el Canal de Panamá, pero está
actualmente en coma.

El 16 de junio de 2018, el almirante Kurt W. Tidd, del Comando Sur, manifestó
ante el Senado que el deseo de Pekín de extender la Nueva Ruta de la Seda a
Latinoamérica, y su política de créditos a las naciones de la región, “dan una
amplia oportunidad a China para expandir su influencia sobre socios regionales
clave y promover negocios y prácticas laborales que son improcedentes. El mayor
alcance a puntos de acceso global cruciales como Panamá crea vulnerabilidades
comerciales y de seguridad para Estados Unidos”.

El almirante se hacía eco del “Wall Street Journal”, que había mencionado la
posibilidad de que “las terminales portuarias gestionadas por los chinos y
adyacentes al canal interoceánico pasen a integrarse al denominado ‘collar de
perlas’ (puertos operados por China en

Rutas estratégicas)
(https://www.abc.es/internacional/abci-eeuu-suspicacia-presencia-china-canal-panama-201806120350_noticia.html).

Aunque el Comando Sur no decide la política sobre Panamá, sí representa una
tendencia dentro de la rama militar. Para Tidd, el “proyecto de la Nueva Ruta de
la Seda”, es una amenaza regional. Pero, ¿desde cuándo son el libre comercio y
la libre competencia amenazas a la región? ¿No era EE.UU. el campeón de esas
libertades?

(http://laestrella.com.pa/panama/nacional/presencia-china-canal-vulnera-seguridad-eeuu/24068406).

En cambio, Mike Pompeo, Secretario de Estado, que sí es el responsable de la
política exterior, acaba de decir que China representa a mediano y largo plazo
la mayor rivalidad para EE.UU.

Pero EE.UU. no puede convertir su falsa percepción de China como amenaza en un
pretexto para violentar las relaciones entre China y Panamá o amenazarlos con el
Tratado de Neutralidad.

La presencia de China en el Canal no crea ninguna inseguridad ni vulnera
intereses comerciales de EE.UU. ya que los puertos manejados por China en el
Canal son apenas una pequeña parte de los que administra a nivel mundial,
incluyendo los puertos en California y en Miami.

No en vano el Foro de Sao Paulo acaba de hacer un llamado en su Declaración
Final para denunciar a EE.UU. por “impedir que la República Popular China
continúe su avance como potencia económica mundial con propuestas de paz y
cooperación en Latinoamérica.”

Sin embargo, a raíz de las recientes relaciones de El Salvador con China, el
pasado 23 de agosto, el gobierno de Washington declaró: “Alrededor del mundo,
los gobiernos están tomando conciencia de que las ofertas de China facilitan la
dependencia económica y la dominación, no una asociación. EE.UU. continuará
oponiéndose a la interferencia política de China en el Hemisferio Occidental.”
Como decimos, “sartén le dice a paila”.

11. ¿QUÉ HARÁN EE.UU., CHINA Y PANAMÁ?

Al confrontar los rasgos, el historial y las realidades de China y EE.UU., nos
acercamos a algunas conclusiones preliminares.

1. China no enfrentará militarmente a EE.UU. Las fuerzas armadas de China están
en el Lejano Oriente y no tienen acceso a Latinoamérica y el Caribe (LAC).

2. EE.UU. seguirá defendiendo sus intereses pero con “golpes blandos”, que
utilizan el poder mediático, el poder paramilitar (terroristas, mercenarios y
simples delincuentes) o el poder judicial, para desestabilizar a Panamá.

3. Si EE.UU. decide cortar los lazos entre Panamá y China, bastaría con
desestabilizar el escenario político con la cooperación de las élites y grupos
dominantes, siempre proclives a sus intereses.

12. ¿PUEDE EE.UU. INVOCAR CONTRA CHINA EL TRATADO DE NEUTRALIDAD?

EE.UU. no puede invocar el Tratado de Neutralidad por tres razones: primera,
porque la Condición DeConcini viola el Derecho Internacional por ser unilateral
y porque niega nuestra soberanía.

Segunda, porque dicha Condición fue anulada por una aclaración de Panamá
aceptada por el presidente Carter el 14 de junio de 1978, en el sentido de que
el Derecho Internacional y la Carta de la ONU obligan a respetar la soberanía y
la no intervención en Panamá, aunque Carter no la sometió al Senado de su país.

Tercera, porque la Condición DeConcini únicamente se refiere al supuesto derecho
de EE.UU. de reabrir el Canal cuando sea cerrado o haya amenazas al mismo (lo
cual requiere del consentimiento de Panamá), y China no amenaza al Canal.

13. CONCLUSIONES

En respuesta a las interrogantes con que iniciamos estas reflexiones, llegamos a
las conclusiones finales:

1. El resurgimiento de China como potencia en el siglo XXI reflejará su
historia: no buscará la hegemonía sino la cooperación multilateral, la no
intervención, la paz y no la guerra.

2. La participación de China en obras del Canal no es amenaza a EE.UU. ni a
Panamá y, por ende, la Condición DeConcini no es aplicable.

3. Panamá debe dejar de ser frontera y “patio trasero” de EE.UU., retornar a sus
raíces libertarias y perseguir un camino independiente.

4. Se sugiere que la República Popular China no suscriba el Protocolo de
Adhesión al Tratado de Neutralidad hasta que éste sea reemplazado por una nueva
negociación.

Ponencia en el Seminario de Relaciones entre Panamá y China. Escuela de
Sociología de la Universidad de Panamá, 11 de septiembre de 2018

 In
NODO50
https://www.nodo50.org/ceprid/spip.php?article2420
14/5/2019

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

O último Império ocidental?







The Saker, /Unz Review/

"Veem as árvores, mas não veem a floresta" é boa metáfora para muitos
dos comentários que circulam sobre os últimos vinte e poucos anos pelo
planeta. E o período é notável pelo número genuinamente *tectônico *de
mudanças pelas quais passou o sistema internacional.




Tudo começou durante o que chamo de a "/Kristallnacht/
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Noite_dos_Cristais> [Noite dos Cristais]
da lei internacional", dia 30 de agosto-setembro de 1995, quando o
Império atacou os sérvios-bósnios, em direta e total violação dos mais
fundamentais princípios do Direito Internacional. Depois foi o 11/9, que
deu aos neoconservadores, segundo eles, o "direito" de ameaçar, atacar,
bombardear, matar, violar, sequestrar, assassinar, torturar, chantagear
e todas as demais práticas para fazer o mal a qualquer pessoa, grupo ou
país em todo o planeta, 'porque' "/somos a nação indispensável/" e "/ou
você está conosco ou está com os terroristas".

/Durante esses mesmos anos, vimos a Europa tornar-se colônia de 3ª
classe dos EUA, incapaz de defender sequer os interesses geopolíticos
europeus mais fundamentais, ao mesmo tempo em que os EUA tornou-se
colônia de 3ª classe de Israel e igualmente incapaz de defender sequer
os interesses geopolíticos mais fundamentais dos EUA.

Ainda mais interessante, se se observa esse passado próximo, ao mesmo
tempo em que EUA e União Europeia colapsavam sob o peso dos próprios
erros, Rússia e China estavam em clara ascensão. Rússia, principalmente
em termos militares (ver aqui
<http://blogdoalok.blogspot.com/2018/03/the-saker-as-armas-da-russia.html> e aqui
<http://blogdoalok.blogspot.com/2018/03/implicacoes-dos-novos-sistemas-de-armas.html>),
e China principalmente em termos econômicos.

Mais crucialmente importante, Rússia e China gradualmente concordaram em
se tornar corpos simbiontes
<http://redecastorphoto.blogspot.com/2014/12/documento-dupla-helice-china-russia.html>,
processo pelo qual, na minha avaliação, tornaram-se ambos ainda mais
fortes e mais significativos do que se os dois países se unissem
mediante algum tipo de aliança formal: alianças podem ser partidas
(especialmente quando esteja envolvida uma nação ocidental), mas
relacionamentos de simbiose de modo geral duram para sempre (sim, sim,
nada dura para sempre, é claro, mas quando o tempo de vida mede-se em
décadas, uma relação simbiótica é o equivalente funcional de "para
sempre", pelo menos em termos de análise estratégica). */Os chineses
desenvolveram recentemente uma expressão oficial, especial e única para
caracterizar esse relacionamento com a Rússia. Falam de uma "Parceria
estratégica abrangente de coordenação para a nova era."/*

É o pior pesadelo dos anglo-sionistas, e a respectiva mídia sionista faz
de tudo para ocultar o fato de que Rússia e China são, sim, para todas
as finalidades práticas, aliadas estratégicas. Tentam até,
empenhadamente, convencer o povo russo de que a China seria ameaça à
Rússia (usam os argumentos mais ridículos, mas nada disso é importante).
A coisa não funcionará, mesmo que alguns russos tenham alguns medos
relacionados à China, porque o Kremlin sabe dos fatos e da verdade
desses assuntos e continuará a aprofundar cada vez mais o relacionamento
simbiótico da Rússia com a China. E não só isso.

Hoje já parece que o Irã está sendo admitido gradualmente nessa aliança.
Já temos disso a confirmação mais oficial possível, em palavras do
general Patrushev enunciadas em Israel
<http://oempastelador.blogspot.com/2019/07/para-derrubar-boatos-russia-nao-esta.html?q=saker+derrubar+boatos> depois
de se reunir com funcionários dos EUA e de Israel: "/O Irã sempre foi e
continua a ser nosso aliado e parceiro/."

Poderia estender muito a lista dos vários sinais do colapso do Império
Anglo-sionista, e dos sinais de que uma nova ordem paralela
internacional mundial está em processo de construção bem aí, diante de
nossos olhos. Já fiz isso muitas vezes e não repetirei aqui (os
interessados podem clicar aqui
<http://www.unz.com/tsaker/mr-maga-and-the-end-of-western-civilization/> e aqui
<http://www.orientemidia.org/como-o-oriente-pode-salvar-o-ocidente/>).
Direi então que os anglo-sionistas chegaram a um estágio terminal de
degeneração no qual o "se" da pergunta é substituído por "quando?". Mas
ainda mais interessante seria examinar o "quê?": o que realmente
significa o colapso do Império Anglo-sionista?

Raramente vejo essa questão ser discutida; e quando é, a discussão só
visa a repetir e repetir, para 'garantir' que o Império não, de modo
algum, jamais colapsará; que é poderoso demais, rico demais e grande
demais para desandar, e que as atuais crises políticas nos EUA e Europa
resultarão em mera transformação reativa do Império, tão logo os
problemas específicos que o atingem tenham sido devidamente resolvidos.
Esse tipo de irracionalidade delirante absolutamente nada tem a ver com
a realidade. E a realidade do que tem lugar agora, aí, diante de nossos
olhos é muito, muito, muito mais dramática e seminal do que alguns
poucos problemas simples, que ganhem remendos aqui e ali, e tudo possa
continuar alegremente como sempre foi.

Um dos fatores que nos induzem a uma espécie de relaxamento complacente
é que já vimos tantos outros impérios colapsar ao longo da história
para, em seguida, serem substituídos bem rapidamente por outro império,
que não conseguimos nem imaginar que o que acontece hoje é fenômeno
muito mais dramático: estamos vivendo o trânsito gradual rumo à
irrelevância, de uma civilização inteira!

Mas comecemos por definir nossos termos. Diferente do que ensinam
escolas ocidentais obcecadas com engrandecer o 'ocidente', a civilização
ocidental não tem raízes em Roma nem, e menos ainda, na Grécia antiga.
Fato é que a civilização ocidental nasceu da Idade Média em geral e,
muito especialmente, do século 11, o qual, coincidentemente assistiu à
seguinte sequência de passos empreendidos pelo Papado:


1054: Roma separa-se do resto do mundo cristão, no chamado Grande Cisma
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Cisma>;

1075: Roma adota os chamados Decretos Papais
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Dictatus_Papae>; e

1095: Roma lança a Primeira Cruzada
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Cruzada>.


Esses três eventos tão intimamente relacionados entre eles têm
importância absolutamente decisiva para a história do ocidente. O
primeiro passo que o ocidente tinha de dar era libertar-se da influência
do restante do mundo cristão. Tão logo foram quebrados os laços entre
Roma e o mundo cristão, foi fácil e lógico que Roma decretasse que o
Papa passava a ter os mais incríveis superpoderes, maiores que tudo que
qualquer bispo até então se atrevera a imaginar. E por fim, a nova
autonomia e a ânsia de controle absoluto sobre todo o planeta resultou
no que bem se pode definir como "a primeira guerra europeia
imperialista": a Primeira Cruzada.

Dito sucintamente: *os francos do século 11 foram os verdadeiros pais da
moderna Europa "ocidental"; e o século 11 marcou a primeira "guerra
estrangeira"* (para usar termo moderno) *imperialista.* Ao longo dos
séculos mudou o nome do Império dos Francos, mas não a natureza, a
essência ou o propósito. Hoje, os verdadeiros herdeiros dos francos são
os anglo-sionistas (para discussão realmente *soberba* do papel dos
francos na destruição da verdadeira, antiga civilização cristã romana do
ocidente, ver aqui
<https://thesaker.is/putin-the-pope-the-schism-franks-and-romans/>).

Ao longo dos mais de 900 anos seguintes, muitos diferentes impérios
substituíram o Papado dos Francos, e muitos países europeus viveram
"momentos de glória" com colônias no além-mar e alguma espécie de
ideologia que, por definição e axioma se autodeclarava o único bem (ou
mesmo "o único cristão"), com o resto do planeta vivendo em condições
não civilizadas e de modo geral terríveis, as quais só poderiam ser
mitigadas pelos que *sempre* acreditaram que /eles/, a religião /deles/,
a cultura /deles/ ou a nação /deles/ teriam algum tipo de papel
messiânico na história (chamem de "destino manifesto" ou de "a carga que
o homem branco tem de suportar às costas", ou de/Kulturträger/
<https://en.wiktionary.org/wiki/Kulturtr%C3%A4ger> [al. no orig.,
"portador de cultura"]), todos /eles/ sempre em busca de um /Lebensraum/
<https://en.m.wikipedia.org/wiki/Lebensraum> [al. no orig.,
aprox. "espaço vivo" <https://en.m.wikipedia.org/wiki/Lebensraum>,
"habitat"] muito perfeitamente merecido; "eles" aí, são os europeus
ocidentais.

Parece que a maioria das nações europeias tentaram a sorte na empreitada
de converter-se em império e em guerras imperialistas. Mesmo miniestados
modernos como Holanda, Portugal ou Áustria já tiveram seus dias como
temidas potências imperiais. E cada vez que caiu um Império Europeu, lá
estava outro para assumir aquele lugar.

Mas... e hoje?

Quem, imaginam vocês, poderia criar império suficientemente poderoso
para preencher o vazio resultante do colapso do Império Anglo-sionista?

A resposta canônica é "China." Para mim, não faz sentido, é nonsense.

Impérios não podem ser exclusivamente comerciais. O comércio, só ele,
não basta para manter viável um império. Impérios também precisam ter
força militar, mas o tipo de força militar que torna fútil qualquer
resistência. A verdade é que NENHUM país moderno está sequer próximo de
ter as capacidades necessárias para tomar o papel dos EUA na função de
Hegemon Mundial: nem se se somassem as forças militares russas e
chinesas se chegaria àquele resultado, porque esses dois países não têm:


1) suficiente rede mundial de bases (que os EUA têm, entre 700 e 1.000
bases, dependendo de como você conte);

2) capacidade importante para projetar poder estratégico por ar e por mar; e

3) suficiente rede dos chamados "aliados" (na verdade, fantoches
coloniais) que sempre ajudarão em qualquer deslocamento de força militar.


/Mas ainda mais crucialmente importante que isso:* China e Rússia não
têm desejo algum de voltar a ser império. *Esses dois países /finalmente
compreenderam a verdade eterna segundo a qual impérios são como
parasitas que se alimentam do corpo que os hospeda.

Sim, não apenas */todos/* os impérios
são *sempre* e *inerentemente* maus, como tampouco seria difícil
demonstrar que */as primeiras vítimas do imperialismo são sempre as
nações que "hospedam o império", /*por assim dizer.

Ah, sim, claro, chineses e russos desejam que o próprio país seja
realmente livre, poderoso e soberano; e compreendem que isso só é
possível quando o país conta com forças armadas realmente capazes de
conter um ataque, mas nem China nem Rússia tem qualquer interesse em
policiar o planeta ou em impor mudança de regime a outros países. A
única coisa que China e Rússia realmente querem é salvarem-se, os
próprios países, da agressão norte-americana. É isso.

Essa nova realidade é especialmente visível no Oriente Médio, onde
países como EUA, Israel ou Arábia Saudita (o chamado "Eixo da
Gentileza") só tem capacidade militar para massacrar civis ou destruir a
infraestrutura dos países, mas não tem suficiente capacidade militar
para lançar-se contra as duas reais potências regionais - Irã e Turquia
-,*porque essas potências regionais têm poder militar moderno e efetivo*.

Mas o teste crucial e mais revelador foi a tentativa dos EUA para
subjugar a Venezuela e forçá-la de volta à submissão. Apesar de todas as
ameaças fedendo a enxofre feitas por Washington, todo(s) o(s) "plano(s)
(?) de Bolton" para a Venezuela resultaram em muito embaraçoso fracasso.

Se a Única "Hiperpotência" do planeta não consegue subjugar nem um país
tremendamente enfraquecido e bem ali, no seu quintal, e país que
enfrenta crise gravíssima... fica provado que as Forças Armadas dos EUA
estão obrigadas a se conformar com só invadir pequenos países como
Mônaco, Micronésia e talvez o Vaticano (supondo que a Guarda Suíça
resista à tentação de dar uns tiros no traseiro dos representantes da
"nação indispensável").

Fato é que um número crescente de países de tamanho médio estão hoje
adquirindo gradualmente os meios para resistir a um ataque dos EUA.

A pergunta é: em que pé estamos, se já se lê escrito pelos muros que se
esgota o tempo do Império Anglo-sionista, e não se vê país à vista para
substituir os EUA como hegemon imperial mundial?

A resposta é que */1.000 anos de imperialismo europeu estão chegando ao
fim!/*

Dessa vez, nem Espanha nem Reino Unido nem Áustria tomarão o lugar dos
EUA nem tentarão tornar-se hegemon planetário. De fato, não há nenhuma
nação europeia que tenha capacidade militar sequer remotamente capaz de
promover ações do tipo "pacificação colonial", indispensáveis para
manter colônias em estado de permanente desespero e terror. Os franceses
emitiram o último vagido na Argélia; o Reino Unido, nas Falklands; a
Espanha não consegue nem recuperar Gibraltar; e a Holanda nem tem
Marinha de verdade, da qual valha a pena falar. Quanto a países da
Europa central, estão muito ocupados lambendo botas do império
agonizante e não lhes resta tempo para cuidar de se converterem em
império (ok, talvez com exceção da Polônia, que sonha com algum tipo de
Império Polonês entre o Báltico e o Mar Negro. Que sonhem; sonham com
isso há séculos, e continuarão a sonhar com isso ainda por muitos outros
séculos...).

Agora compare as forças armadas europeias e o tipo de forças armadas que
os EUA podem encontrar na América Latina ou na Ásia. Há uma suposição
tão irrefletida de superioridade na maioria dos anglos, que sequer veem
completamente que países de médio e pequeno porte podem desenvolver
forças armadas suficientes para tornar impossível uma invasão dos EUA;
ou, pelo menos, para tornar qualquer ocupação proibitivamente cara em
termos de vidas humanas e dinheiro (ver aqui
<http://www.unz.com/tsaker/debunking-the-flagwaving-myths-about-an-attack-on-north-korea/>, aqui
<http://www.unz.com/tsaker/debunking-popular-cliches-about-modern-warfare/> e aqui
<http://www.unz.com/tsaker/u-s-against-iran-a-war-of-apples-vs-oranges/>).
Essa nova realidade também torna quase completamente inútil a típica
campanha de mísseis e ataques aéreos dos EUA: destruirão muitos prédios
e pontes, converterão as estações de TV locais ("pontos de propaganda",
na terminologia imperial) em pilhas gigantes de escombros fumegantes e
cadáveres, matam muitos inocentes, mas nem assim obterão algum tipo de
mudança de regime.

O fato a observar é que se aceitarmos que a guerra seja a continuação da
política por outros meios, também temos que admitir, que sob essa
definição, as forças armadas dos EUA são totalmente inúteis, pois não
conseguem ajudar os EUA a alcançar quaisquer objetivos políticos
significativos.

Verdade é que, em termos militares e econômicos, o "ocidente" já está
derrotado. E não faz qualquer diferença que quem compreende isso não
diga, e que os que falam sobre isso (só para negar, é claro) nada
compreendam do que está realmente acontecendo.

Em teoria, poderíamos imaginar que algum tipo de líder forte chegaria ao
poder nos EUA (os outros países ocidentais são totalmente irrelevantes),
esmagaria neoconservadores, como Putin esmagou os neoconservadores na
Rússia, e evitaria o colapso brutal e repentino do Império. Mas não vai
acontecer. Se há coisa que as últimas duas décadas provaram para além de
qualquer dúvida razoável é que o sistema imperial é totalmente incapaz
de se autorreformar, apesar de gente como Ralph Nader, Dennis Kucinich,
Ross Perrot, Ron Paul, Mike Gravel ou, mesmo ,Obama e Trump - todos
esses homens que prometeram mudança significativa e que foram realmente
impedidos pelo sistema de alcançar qualquer resultado significativo.

Implica dizer que o sistema ainda é 100% eficaz, pelo menos dentro dos
EUA: os neoconservadores precisaram de menos de 30 dias para esmagar
Trump e todas as suas promessas de mudança. E já conseguiu, até agora,
que Tulsi Gabbard se curvasse e cedesse à ortodoxia e aos mitos
políticos absolutamente obrigatórios dos neoconservadores.

Assim sendo, o que acontecerá a seguir?

Simplificando: *a Ásia substituirá o Mundo Ocidental. Mas - e isso é
crucial - desta vez nenhum império aparecerá para substituir o Império
Anglo-sionista*. Em vez disso, uma coalizão fluida e informal de países
principalmente asiáticos oferecerá um modelo econômico e civilizacional
alternativo e imensamente atraente para o resto do planeta.

Quanto ao Império, ele se dissolverá muito efetivamente; e lentamente se
tornará irrelevante. Tanto os americanos como os europeus terão, pela
primeira vez na história, de se comportar como pessoas civilizadas.
Significa que o seu tal tradicional "modelo de desenvolvimento" (saquear
todo o planeta e roubar tudo de todos) terá de ser substituído por outra
coisa, alguma espécie de arranjo pelo qual norte-americanos e europeus
terão de trabalhar como todos os outros, para acumular riqueza. Essa
ideia horrorizará absolutamente as atuais elites dominantes imperiais,
mas aposto que será bem recebida pela maioria dos povos, especialmente
quando este "novo" modelo (para eles) provar que gera mais paz e
prosperidade do que o anterior!

De fato, se os neocons não explodirem o planeta num holocausto nuclear,
EUA e Europa sobreviverão, mas somente depois de um doloroso período de
transição, que pode durar uma década ou mais. Um dos fatores que
complicarão imensamente a transição do Império para a situação de país
"normal" é profunda influência que tiveram sobre as culturas ocidentais
os 1.000 anos de imperialismo, especialmente sobre os EUA já
completamente megalomaníacos (a série de conferências do Professor John
Marciano, "Empire as a way of life" [Império como modo de vida
<https://thesaker.is/a-most-interesting-series-of-lectures-and-a-real-treat-for-all/>] discute
magnificamente esse tópico - recomendo vivamente!). Um milênio de
lavagem cerebral não é coisa que se supere facilmente, especialmente
quando já penetrou no nível subconsciente.

Finalmente, a reação bastante desagradável que se vê contra o
multiculturalismo imposto pelas elites dominantes ocidentais, não é
menos patológica, para começar, este o próprio multiculturalismo
corrosivo. Refiro-me às novas teorias que "revisitam" a Segunda Guerra
Mundial e encontram inspiração em tudo que tenha a ver com o
Terceiro/Reich/, incluindo um renascimento das teorias
racistas/racialistas.

É especialmente ridículo (e ofensivo) quando vem de gente que tenta
fazer-se passar cristãos, mas cujos lábios, em vez de orações, só
bobagens semelhantes às de 1488. Essas pessoas representam precisamente
o tipo de "oposição" que os neoconservadores amam ter pela frente, e que
os neoconservadores sempre (e quando digo "sempre" é *sempre* mesmo)
acabam derrotando. Esta oposição (que se faz de oposição; de fato, são
idiotas úteis) permanecerá forte enquanto permanecer bem financiada (o
que ela hoje é). Mas assim que a atual megalomania ("/Nós somos a Raça
Branca! Nós construímos Atenas e Roma! Nós somos Evropa!!!/") cair de
cara inevitavelmente no chão, as pessoas recuperação a sanidade e
perceberão que o atual estado do ocidente não é coisa que se possa
atribuir a algum bode expiatório externo. A triste verdade é que o
ocidente fez tudo isso a si mesmo (principalmente por orgulho e
arrogância!).

As atuais ondas de imigrantes nada são além de 1.000 anos de carma de
sofrimento e dor sendo devolvidos para onde tudo começou. Não quero
sugerir que as pessoas no Ocidente seriam individualmente responsáveis
pelo que está acontecendo agora. O que digo é que todas as pessoas no
Ocidente vivem hoje com as consequências de 1.000 anos do mais
desenfreado imperialismo.

Será difícil, muito difícil, mudar de rumo, mas uma vez que essa é
também a única saída viável, é o que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde.

Mas ainda assim, há esperança. *Se* os neoconservadores não explodirem o
planeta, e *se* a humanidade tiver tempo suficiente para estudar a
própria história e entender onde enveredou pela trilha errada, então
talvez, apenas /talvez/, haja esperança.

Acho que todos podemos encontrar consolo no fato de que por pior, mais
feio, estúpido e maligno seja ainda o Império Anglo-sionista, é o
último. E não haverá outro império para substituí-lo.

Em outras palavras, se sobrevivermos ao império atual (o que
absolutamente não é garantido!), então, pelo menos, poderemos afinal,
olhar para um planeta sem impérios, feito só de países soberanos.

Entendo que esse é futuro pelo qual vale a pena lutar.

[assina] The Saker


In
PORT.PRAVDA.RU
http://port.pravda.ru/mundo/09-08-2019/48329-ultimo_imperio-0/#
1/8/2019

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A Operação Lava Jato e os objetivos dos Estados Unidos para a América Latina e o Brasil



 
Embaixador
 Samuel Pinheiro Guimarães


Colunista Samuel Pinheiro Guimarães afirma que a campanha dos EUA para
derrubar um governo contrário aos seus interesses ocorre em um processo
"autoritário", "perseguidor de inimigos políticos", "opressor da
população" e "violador da liberdade de imprensa"; segundo ele, a Lava
Jato teve papel decisivo para ajudar os norte-americanos com uma
condução processual no Brasil "altamente heterodoxa e ilegal"


1. Os objetivos estratégicos dos Estados Unidos para a América Latina e,
em especial para o Brasil, são importantes para compreender a política
externa e interna**brasileira, inclusive a Operação Lava Jato.

*** *** ***

2. A América Latina foi declarada zona de influência exclusiva de fato
americana pela Doutrina Monroe, em mensagem do Presidente dos Estados
Unidos ao Congresso americano, em 02/12/ 1823.

3. Esta Doutrina corresponde a uma visão e convicção histórica, nos
Estados Unidos, de direito ao exercício de uma hegemonia natural sobre a
América Latina, como o Corolário Roosevelt, de 1904, viria a explicitar.

4. A partir da Guerra de Independência (1775-1783) e depois da formação
da União em 1787-1789 os Estados Unidos passam a procurar excluir as
potências europeias de seu território continental (Louisiana - 1803,
Florida - 1819, Oregon - 1845, Alaska -1867) e a absorver esses
territórios na União Americana.

5. A expulsão pelos americanos dos povos indígenas de seus territórios
originais se realiza com intensidade após a revogação da Proclamation
Line de 1763, em decorrência do Tratado de Paz de Paris (1783) entre a
Grã-Bretanha e a Confederação, que separava o território das Treze
Colônias das terras indígenas além dos Apalaches, até o Mississipi.

6. A influência econômica, política e militar americana sobre a América
Central e os países do Caribe foi e é avassaladora, com intervenções e
ocupações militares, por vezes longas, e o patrocínio de ditaduras,
sanguinárias.

7. A Guerra contra o México (1848) levou à anexação de metade do
território mexicano e, com a chegada ao Pacífico, permitiu a
consolidação do território continental dos Estados Unidos do Atlântico
ao Pacífico.

8. A Guerra contra a Espanha (1898) levou à ocupação de Cuba, à anexação
de Porto Rico, das Filipinas e de Guam e afirmou os Estados Unidos como
potência asiática.

9. A “criação” do Estado do Panamá e da Zona do Canal, que foi
território americano até 2000, permitiu a ligação marítima rápida entre
a Costa Leste e a região do Golfo com a Costa Oeste da América do Norte,
tanto comercial como militar, através do Canal concluído em 1914, e
administrado soberanamente pelos EUA.

10. Pelas características de sua localização geográfica, a zona
estratégica mais importante para os Estados Unidos é o Caribe, a América
Central e o norte da América do Sul.

*** *** ***

11. Os objetivos estratégicos permanentes dos Estados Unidos para a
América Latina são:

/1./ /impedir que Estado ou aliança de Estados possa reduzir a
influência americana na região;/

/2./ /ampliar sua influência cultural/ideológica sobre os sistemas de
comunicação de cada Estado;/

/3./ /incorporar todas as economias da região à economia americana;/

/4./ /desarmar os Estados da região;/

/5./ /manter o sistema regional de coordenação e alinhamento político;/

/6./ /impedir a presença, em especial militar, de Potências Adversárias
na região;/

/7./ /punir os Estados que contrariam os princípios da liderança
hegemônica americana;/

/8./ /impedir o desenvolvimento de indústrias autônomas em áreas avançadas;/

/9./ /enfraquecer os Estados da região;/

/10./ /eleger lideres políticos favoráveis aos objetivos americanos./

*** *** ***

12. O principal Estado da região pelas dimensões de território, de
recursos naturais, de população, de localização geográfica é, sem
dúvida, o Brasil. Principal também pelos desafios que apresenta devido à
possibilidade de graves turbulências futuras, sociais, econômicas e
políticas.

13. Devido a este caráter principal, os objetivos dos Estados Unidos são
objetivos para a América Latina em geral, porém se aplicam em especial
ao Brasil.

14. O primeiro objetivo estratégico americano é impedir a emergência e
fortalecimento de qualquer Estado ou aliança de Estados que possam se
opor à presença ou afetar a influência política, econômica e militar
americana na região.

15. Para alcançar este objetivo tratam os Estados Unidos de aguçar e
reacender eventuais rivalidades (históricas ou recentes) entre os
maiores Estados da região, isto é, entre o Brasil e a Argentina, não
estimular o conhecimento de suas histórias e culturas, estimuladas as
rivalidades através da ação de lideranças locais que buscam obter
tratamento privilegiado para seus países junto aos Estados Unidos
(Carlos Menem e Jair Bolsonaro são exemplos desse comportamento).

16. O segundo objetivo americano é manter e ampliar sua presença
cultural/ideológica nos sistemas de comunicação de cada Estado da região
como instrumento para sua maior influência política, econômica, militar
e cultural.

17. Essa presença aumenta sua capacidade de obter melhores condições
legais (fiscais e regulatórias) para a ação de suas megaempresas
(petroleiras, por exemplo); para obter contratos de venda de
equipamentos militares; para lograr alinhamento e apoio às iniciativas
americanas em nível mundial; para promover a “simpatia” pelos Estados
Unidos na sociedade local; para obter o apoio da sociedade e dos
governos para seus objetivos estratégicos.

18. Este objetivo tem como instrumentos a defesa da mais ampla liberdade
de imprensa e de Internet e para a livre ação das ONGS “internacionais”
e “altruístas”; dos programas de formação de pessoal, desde os
institutos de língua aos intercâmbios; às bolsas de estudo; ao
recrutamento de talentos; à aquisição de editoras para publicaçãos de
livros americanos; a hegemonia na programação de cinema e de TV; os
programas de formação de oficiais militares e lideranças políticas; e
recentemente a aquisição de instituições de ensino, em todos os níveis.

19. O terceiro objetivo dos Estados Unidos é incorporar todas as
economias dos Estados da região à economia norte-americana, de forma
neocolonial, no papel de exportadores de matérias primas e importadores
de produtos industriais.

20. Após o fracasso do projeto regional “multilateral” da ALCA, lançado
em 1994 e encerrado em 2005 na reunião em Mar del Plata, os Estados
Unidos passaram a promover a negociação de acordos bilaterais com cada
Estado latino-americano com dispositivos semelhantes aos da ALCA e até
aos EUA mais favoráveis. Verdade seja dita que o acordo de livre
comércio com o Chile fora assinado em 1994 e com o México e o Canadá em
1994.

21. O instrumento para alcançar este objetivo são os acordos bilaterais
de livre comércio que levam à eliminação das tarifas aduaneiras e à
abertura dos mercados dos Estados subdesenvolvidos nas áreas de
investimentos; de compras governamentais; de propriedade intelectual; de
serviços; de crédito e, às vezes, incluem cláusulas investidor-Estado.

22. Por sua vez, os Estados subdesenvolvidos da América Latina que
atingiram certo grau de industrialização não ganham acesso adicional aos
mercados de produtos industriais, pois as tarifas americanas são baixas,
existe a escalada tarifária e as medidas de defesa comercial, e o acesso
a mercados agrícolas é restringido pela legislação agrícola, americana
de subsídios e de proteção.

23. O acordo Mercosul/União Europeia será instrumental para a abertura
de mercados para os Estados Unidos sem ônus político pois, após sua
entrada em vigor, estarão criadas as condições para os Estados Unidos
reivindicarem ao Brasil e ao Mercosul igualdade de tratamento. Outros
países altamente industrializados como o Japão, a Coréia do Sul, o
Canadá e a China farão o mesmo e o Brasil não terá mais a tarifa como
instrumento de política industrial. O Mercosul desaparecerá.

24. O quarto objetivo estratégico dos Estados Unidos é desarmar os
Estados da região.

25. Os instrumentos para atingir este objetivo são a promoção da
assinatura do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e de outros
tratados na área química e biológica, e mesmo sobre armas convencionais;
a venda de equipamentos militares defasados a preços mais baixos e o
“estrangulamento” de eventuais indústrias bélicas locais; os acordos de
associação à OTAN; a transformação das Forças Armadas nacionais em
forças de caráter policial, voltadas para o combate ao narcotráfico e a
crimes transnacionais e, portanto, necessitando apenas de equipamento leve.

26. O quinto objetivo estratégico americano é manter o sistema de
segurança regional, a Organização dos Estados Americanos, reconhecido
pela Carta da ONU, onde tradicionalmente os Estados Unidos podem exercer
sua influência, contam com o auxílio do Canadá e de países da América
Central e assim podem tratar das questões regionais sem ir ao Conselho
de Segurança das Nações Unidas.

27. Outro instrumento para alcançar este objetivo é promover a
dissolução da UNASUL, como foro de solução de controvérsias concorrente
da OEA e como organização de cooperação em defesa, da qual os Estados
Unidos não participam.

28. O sexto objetivo dos Estados Unidos na América do Sul consiste em
impedir a presença de Estados adversários de sua hegemonia, e como tal
nomeados pelos próprios EUA, quais sejam a Rússia e a China, na região
latino-americana, em uma versão atual da Doutrina Monroe.

29. Segundo documentos oficiais americanos recentes a “China é um poder
revisionista” e a Rússia é um “Ator Maligno Revitalizado” (Indo-Pacific
Strategic Report, do Pentágono).

30. A presença russa e chinesa é especialmente temida na área militar,
inclusive por ameaçar a Costa Sul do território americano e os acessos
ao Canal do Panamá, via comercial e militar estratégica.

31. Um sétimo objetivo americano, importante para demonstrar sua
determinação de exercício de hegemonia na América Latina, é**punir,
dentro ou fora do sistema da OEA, com ou sem o apoio de outros Estados
da região, aqueles governos que contrariarem, em maior ou menor medida,
os princípios da liderança mundial americana:

· /ter economia capitalista, aberta ao capital estrangeiro, com
intervenção mínima do Estado;/

· /dar tratamento igual às empresas de capital nacional e estrangeiro;/

· /não exercer controle sobre os meios de comunicação de massa (TV etc);/

· /ter regime político de pluralidade partidária e eleições periódicas;/

· /não celebrar acordos militares com os Estados Adversários, quais
sejam a Rússia e a China;/

· /apoiar as iniciativas dos Estados Unidos./

32. A campanha política/econômica/midiática para promover a mudança de
regime (regime change) de um Estado da região, isto é, para promover um
golpe de Estado para derrubar um Governo que os Estados Unidos
consideram hostil, inclusive com o financiamento de grupos de oposição,
se desenvolve em várias etapas (que depois se superpõem) de denúncia do
Governo “hostil” pela grande mídia regional e pela mídia mundial, com o
auxílio da Academia, como sendo:

· /autoritário;/

· /corrupto;/

· /traficante ou leniente com o tráfico de drogas;/

· /perseguidor de inimigos políticos;/

· /violador da liberdade de imprensa;/

· /ineficiente;/

· /opressor da população;/

· /ameaça aos vizinhos;/

· /ameaça à segurança americana./

33. Um oitavo objetivo estratégico americano é impedir o desenvolvimento
de indústrias autônomas nas áreas nuclear, espacial e de tecnologia de
informação avançada na América Latina, e em especial no Brasil, país com
as melhores condições para desenvolver tais indústrias.

34. Um nono objetivo estratégico americano é enfraquecer politica e
economicamente os Estados da região.

35. Os instrumentos são estimular direta ou indiretamente (pela mídia) a
redução do poder regulatório em defesa dos consumidores, da população em
geral e dos trabalhadores, dos organismos do Estado, em especial aqueles
que limitam ou disciplinam a ação das megacorporações multinacionais,
entre as quais prevalecem as americanas.

36. Outro instrumento para alcançar este objetivo é a campanha contra o
Estado central como ineficiente e mais corrupto e autoritário, e a
defesa da descentralização regulatória e de auto regulação dos setores
pelas próprias empresas privadas.

37. Um objetivo americano importante é enfraquecer o único organismo do
Estado (brasileiro) que enfrenta, todos os dias, os interesses dos
demais Estados nacionais, em especial os interesses dos Estados Unidos,
de seus adversários, Rússia e China, e das chamadas Grandes Potências,
como Inglaterra, França, Alemanha e Japão, nas negociações para aprovar
normas internacionais que atendam seus interesses (e lucros).

38. Os instrumentos para atingir este fim são denunciar a ineficiência;
o corporativismo; o exclusivismo; o “globalismo”; a partidarização; a
visão ideológica “esquerdista” da Chancelaria.

39. O décimo objetivo estratégico dos Estados Unidos da América, e
talvez o principal objetivo, é impedir a eleição de líderes políticos em
cada Estado que manifestem restrições a seus objetivos estratégicos e
promover a eleição de líderes que a eles sejam favoráveis.

40. E aí entra o papel da Operação Lava Jato na defesa direta ou
indireta dos interesses americanos.

*** *** ***

41. A partir da eleição, em 2003, do Presidente Lula a política interna
e externa brasileira, se contrapôs, ainda que não de forma sistemática,
desafiadora ou revolucionária, a alguns dos objetivos estratégicos
americanos:

/a./ /ao não apoiar a invasão do Iraque de 2003;/

/b./ /ao estabelecer/ /o entendimento político e econômico estreito com
a Argentina;/

/c./ /ao promover a coordenação com a Argentina, a Venezuela, o Uruguai,
o Equador, a Bolívia e o Paraguai para a formação da UNASUL, em
substituição à OEA./

/d./ /ao resistir à ALCA e ao fortalecer o Mercosul;/

/e./ /ao fortalecer os instrumentos financeiros do Estado, como o BNDES,
e ao utilizá-los na politica externa;/

/f./ /ao fortalecer o programa nuclear;/

/g./ /ao exercer operações de aproximação autônoma com os países
africanos e árabes;/

/h./ /ao promover a criação do BRICS, com a China e a Rússia;/

/i./ /ao fortalecer a Petrobrás e ao estabelecer o regime de parceria
para exploração do pré-sal;/

/j./ /ao estabelecer a política de “conteúdo nacional” na indústria;/

/k./ /ao promover a indústria de defesa brasileira;/

/l./ /ao defender a regulamentação da mídia;/

/m./ /ao negociar, com a Turquia, um acordo nuclear com o Irã;/

/n./ /ao exercer o equilíbrio em suas relações com Israel e Palestina./

42. A partir dessa nova situação nas relações Brasil - Estados Unidos e
da crescente popularidade do Presidente Lula, que terminaria em 2010 seu
mandato com 87% de aprovação, a estratégia americana foi:

· /mobilizar os meios de comunicação de massa no Brasil contra as
políticas do Governo, e condenar sua ação através do Instituto
Millenium, fundado em 2005, para dar amplo apoio à Operação Mensalão,
que não conseguiu atingir o Presidente Lula,/ /mas/ /que veio a atingir
José Dirceu, chefe da Casa Civil, e provável sucessor de Lula;/

· /a partir do acordo de cooperação judiciária Brasil-Estados Unidos,
iniciar a Operação Lava Jato que viria a facilitar o alcance dos
objetivos estratégicos americanos em especial 2, 8, 9 e 10, listados no
parágrafo 11 acima;/

· /iniciar o processo político de preparação do impeachment da
Presidenta Dilma Rousseff;/

· /financiar direta e indiretamente a formação dos grupos MBL e Vem pra
Rua./

43. O principal objetivo da Operação Lava Jato não era a luta contra a
corrupção, mas sim impedir a eleição do Presidente Lula em 2018. Sua
ação partia das seguintes premissas:

· /a grande maioria da população, devido a sua precária situação
econômica e cultural, está sujeita a ser manipulada por indivíduos
populistas, socialistas, comunistas etc. que fazem aos eleitores
promessas irrealizáveis para conquistar e explorar o poder;/

· /a sociedade brasileira é intrinsecamente corrupta; /

· /todos os políticos e partidos são corruptos;/

· /os governos se sustentam através da corrupção e da compra de votos;/

· /a violação de direitos constitucionais e legais por membros do
Judiciário e do Ministério Público se justifica para/ /combater a
corrupção./

44. O juiz Sérgio Fernando Moro descreveu em seu artigo intitulado Mani
Pulite, publicado em 2004 na Revista CEJ – Justiça Federal N°26, a sua
decisão de violar a lei para combater a corrupção, em uma interpretação
de que “os fins justificam os meios”.

45. A “corrupção” foi enfrentada pela Operação Lava Jato, comandada por
Sérgio Moro, Juiz de primeira instância que contou com a conivência e
mesmo a cooperação de membros dos Tribunais Superiores e da grande
imprensa, para uma condução processual altamente heterodoxa e ilegal.

46. A divulgação quotidiana e seletiva de ações da Lava Jato através da
imprensa, em especial da televisão, foram essenciais para criar a
convicção de que a Lava Jato teria “revelado” que o partido que teria
promovido e se beneficiado da corrupção no sistema político teria sido o
PT, conduzido por Luiz Inácio Lula da Silva.

47. Formou-se um amplo movimento anti-petista e anti-Lula, e tornou-se,
assim, um objetivo não só político, mas ético e moral, para combater a
corrupção, apresentada como o principal mal da sociedade brasileira,
impedir por todos os meios que o ex-Presidente Lula pudesse se
candidatar e, iludindo o povo ingênuo, ser eleito e reimplantar os
mecanismos de corrupção.

48. Assim, foi Lula condenado, sem provas, em primeira instância por
Sérgio Moro e em segunda instância por uma turma de três Desembargadores
do TRF-4 (não pelo Tribunal pleno), Desembargadores que gozam de grande
familiaridade e amizade com Sérgio Moro, que condenaram Lula à prisão em
regime fechado, para não poder exercer qualquer atividade política, e
assim não poder nem competir nem influir nas eleições de 2018.

49. A decisão arbitrária do TRF-4 correspondeu à cassação dos direitos
políticos de Lula e do povo brasileiro que não pôde votar em Lula, o
candidato à frente em todas as pesquisas de opinião.

50. A nomeação do juiz Sérgio Moro como Ministro da Justiça por Jair
Bolsonaro e a declaração de Bolsonaro de que devia muito de sua eleição
a Moro indicam o alto grau de ilegalidade do comportamento de Sérgio
Moro e de Jair Bolsonaro e sua ação política.

*** *** ***

51. A primeira etapa para atingir o Objetivo estratégico 10 era promover
o impedimento da Presidente Dilma Rousseff, o que foi conseguido em
16/04/2016. O Vice Presidente Michel Temer assumiu com um programa
econômico intitulado “Ponte para o Futuro”, elaborado por economistas
liberais e perfeitamente compatível com os objetivos estratégicos dos
EUA, e que vem sendo aplicado de forma ainda mais radical por Paulo Guedes.

*** *** ***

52. A publicação pela grande imprensa dos diálogos entre Sérgio Moro, o
Procurador Deltan Dallagnol e entre os procuradores e três, até agora,
Ministros do Supremo Tribunal Federal: Luiz Fux, Edison Fachin e Luiz
Eduardo Barroso, podem acarretar a nulidade de todos os processos da
Operação Lava Jato devido a demonstrar:

· /a parcialidade e a íntima cooperação do juiz Sérgio Moro com os
procuradores, isto é, com a acusação;/

· /as delações extraídas sob pressão;/

· /as conduções coercitivas ilegais;/

· /a escuta ilegal de comunicações;/

· /a divulgação seletiva de trechos de delações à imprensa para obter
efeitos no processo eleitoral em 2018;/

· /a violação de direitos individuais, enumerados no Artigo 5° da
Constituição:/

/III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou
degradante;/

/X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem
das pessoas (...);/

/XII - é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações
telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas (...);/

/XXXIII - todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de
seu interesse particular (...); /

/e, em especial, /

/LVII - ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de
sentença penal condenatória./

*** *** ***

53. Os Estados Unidos da América atingiram seu principal objetivo
estratégico aquele de número 10 do parágrafo 11 acima:

eleger lideres políticos favoráveis aos objetivos americanos.

E com o Governo Temer e agora com o Governo de Jair Bolsonaro estão
alcançando todos os demais objetivos listados no parágrafo onze acima.

In
BRASIL247
https://www.brasil247.com/blog/a-operacao-lava-jato-e-os-objetivos-dos-estados-unidos-para-a-america-latina-e-o-brasil
2/8/2019

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Guerra económica dos EUA e prováveis defesas externas


por Michael Hudson
O mundo de hoje está em guerra em múltiplas frentes. As regras do direito internacional e da ordem posta em prática no fim da II Guerra Mundial estão a ser rompidas pela política externa dos EUA de escalar sua confrontação com os países que se abstêm de dar às suas empresas o controle dos seus excedentes económicos. Países que não dão aos Estados Unidos o controle dos seus sectores petrolíferos e financeiros ou não privatizam seus sectores chave estão a ser isolados pelos EUA através da imposição de sanções comerciais e de tarifas unilaterais que dão vantagens especiais a produtores estado-unidenses, em violação de acordos de livre comércio com países europeus, asiáticos e outros.

Esta fractura global tem uma componente cada vez mais militar. Autoridades estado-unidenses justificam tarifas e quotas de importação, ilegais de acordo com as regras da OMC, em termos de "segurança nacional", alegando que os Estados Unidos podem fazer o que quiserem como a nação "excepcional" do mundo. Autoridades dos EUA explicam que a sua nação não é obrigada a aderir a acordos internacionais ou mesmo aos seus próprios tratados e promessas. Este alegado direito soberano de ignorar seus acordos internacionais foi explicitado depois de Bill Clinton e sua secretária de Estado, Madeline Albright, terem quebrado a promessa do presidente George Bush e do secretário de Estado James Baker de que a NATO não se expandiria para o leste depois de 1991. ("Você não tem isto por escrito", foi a resposta dos EUA aos acordos verbais efectuados).

Da mesma forma, a administração Trump repudiou o acordo multilateral iraniano assinado pela administração Obama e está a escalar a guerra com seus exércitos por procuração (proxy) no Oriente Próximo. Políticos dos EUA estão a travar uma Nova Guerra Fria contra a Rússia, China, Irão e países exportadores de petróleo que os Estados Unidos procuram isolar se não puderem controlar seus governos, banco central e diplomacia externa.

O quadro internacional que originalmente parecia equitativo era a favor dos EUA desde o princípio. Em 1945 isto foi encarado como um resultado natural do facto de a economia dos EUA ter sido a menos prejudicada pela guerra e de possuir de longe a maior parte do ouro monetário global. Ainda assim, a estrutura comercial e financeira do pós-guerra era ostensivamente baseada em princípios internacionais razoáveis e equitativos. Esperava-se que outros países se recuperassem e crescessem, criando paridade diplomática, financeira e comercial entre si.

Mas na última década a diplomacia americana tornou-se unilateral ao transformar o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, o sistema de compensação bancária SWIFT [NR 1] e o comércio mundial num sistema de exploração assimétrico. Este conjunto de instituições centrado unilateralmente nos EUA está a ser amplamente encarado não só como injusto mas também como força de bloqueio do progresso de outros países cujo crescimento e prosperidade são encarados pela política externa dos EUA como ameaça à sua hegemonia unilateral. O que começou como uma ordem internacional ostensivamente para promover a prosperidade pacífica tornou-se cada vez mais uma extensão do nacionalismo estado-unidense, da extracção predatória de renda e de um confronto militar mais perigoso.

A deterioração da diplomacia internacional numa agressão financeira, comercial e militar mais claramente explícita em favor dos EUA estava implícita no modo como a diplomacia económica foi moldada no momento em que as Nações Unidas, o FMI e o Banco Mundial foram constituídos, sobretudo pelos estrategas económicos estado-unidenses. Sua beligerância económica está a levar países a retirarem-se da ordem financeira e comercial global, a qual foi transformada no veículo de uma Nova Guerra Fria para impor a hegemonia unilateral dos EUA. Reacções nacionalistas estão a consolidar-se em novas alianças económicas e políticas, desde a Europa até à Ásia.

Ainda estamos atolados na Guerra do Petróleo que escalou em 2003 com a invasão do Iraque e que rapidamente se propagou à Líbia e à Síria. Em grande medida, a política externa americana baseia-se desde há muito no controle do petróleo. Isto levou os Estados Unidos a oporem-se aos acordos de Paris para deter o aquecimento global [NR 2] . Seu objectivo é dar aos responsáveis dos EUA o poder de impor sanções energéticas que forcem outros países a "congelarem-se no escuro" se não seguirem a liderança estado-unidense.

Para expandir o seu monopólio petrolífero a América está a pressionar a Europa a opor-se ao gasoduto Nordstream II da Rússia, afirmando que isto tornaria a Alemanha e outros países dependentes da Rússia, em contraposição à dependência do gás natural liquefeito (GNL) dos EUA. Da mesma forma, a diplomacia petrolífera americana impôs sanções unilaterais contra exportações do Irão, até uma mudança de regime abrir as reservas de petróleo daquele país às grandes petrolíferas estado-unidenses, francesas, britânicas e outras aliadas.

O controle americano do dinheiro e do crédito dolarizados é crítico para esta hegemonia. Como disse o congressista Brad Sherman, de Los Angeles, na audiência de 9/Maio/2019 do Comité de Serviços Financeiros da Câmara:   "Grande parte do nosso poder internacional decorre do facto de o dólar americano ser a unidade padrão das transacções e finanças internacionais. Compensar através do Fed de Nova York é crítico para grandes transacções de petróleo e outras. É propósito anunciado dos defensores de criptomoedas retirar-nos este poder, a fim de nos colocar numa posição em que a maior parte das sanções mais significativas que aplicamos contra o Irão, por exemplo, se tornem irrelevantes". [1]

O objectivo dos EUA é manter o dólar como a divisa das transacções para o comércio mundial, poupanças, reservas de bancos centrais e empréstimos internacionais. Este status de monopólio permite aos Departamentos do Tesouro e de Estado dos EUA perturbarem o sistema financeiro de pagamentos e o comércio daqueles países com os quais os Estados Unidos estão em guerra económica ou abertamente em guerra militar.

O presidente russo Vladimir Putin respondeu rapidamente ao descrever como "a degeneração do modelo de globalização universalista [está] a transformar-se numa paródia, numa caricatura de si próprio, em que as regras comuns internacionais são substituídas por leis... de um país". [2] Esta é a trajectória que agora se verifica com a deterioração do antigo comércio aberto internacional. Ela tem-se agravado desde há uma década. Em 5/Junho/2009 o então presidente russo Dmitry Medvedev mencionou esta mesma dinâmica destruidora em funcionamento na sequência da crise de hipotecas lixo e fraudes bancárias nos EUA.

Aqueles cujo trabalho era prever acontecimentos... não estavam preparados para a profundidade da crise e revelaram-se demasiado rígidos, desajeitados e lentos na sua resposta. As organizações financeiras internacionais – e penso que precisamos declarar isto frontalmente e não tentar esconder – não estiveram à altura das suas responsabilidade, como tem sido dito bastante inequivocamente num certo número de grandes eventos internacionais tais como as duas recentes cimeiras do G20 das maiores economias mundiais.

Além disso, tivemos confirmação de que a nossa análise anterior à crise das tendências económicas globais e do sistema económico global estava correcta. O sistema unipolar mantido artificialmente e a preservação de monopólios em sectores económicos globais chave são causas raízes da crise. Um grande centro de consumo, financiado por um défice crescente, e portanto com dívidas crescentes, uma divisa de reserva outrora forte e um sistema dominante de avaliação de activos e riscos – estes são os conjuntos de factores que levam a uma queda geral na qualidade da regulação e da justificação económica das avaliações efectuadas, incluindo avaliações de política macroeconómica. Em consequência, não havia como evitar uma crise global. [3]

Esta crise é o que agora provoca a presente ruptura do comércio e pagamentos globais.

Guerra em muitas frentes, com a desdolarização sendo a arena principal

A dissolução da União Soviética em 1991 não trouxe o desarmamento que era amplamente esperado. A liderança estado-unidense celebrou a morte soviética como um sinal para o fim da oposição estrangeira ao neoliberalismo patrocinado pelos EUA e mesmo como o Fim da História. A NATO expandiu-se para cercar a Rússia e patrocinou "revoluções coloridas" desde a Geórgia até a Ucrânia, enquanto estilhaçava a antiga Jugoslávia em pequenos estadozecos. A diplomacia americana criou uma legião estrangeira de fundamentalistas wahabistas desde o Afeganistão até o Irão, o Iraque, a Síria e a Líbia para apoiar o extremismo da Arábia Saudita e o expansionismo israelense.

Os Estados Unidos estão a travar uma guerra contra a Venezuela pelo controle do petróleo, onde um golpe militar fracassou há poucos anos, tal como a façanha de 2018-19 de reconhecer um regime fantoche não eleito e pró americano. O golpe hondurenho sob o presidente Obama teve mais êxito pois conseguiu derrubar um presidente eleito que advogava a reforma agrária, continuando a tradição que remontava a 1954 quando a CIA derrubou o governo Arbenz na Guatemala.

Responsáveis dos EUA têm um ódio especial a países que eles injuriaram, o que vai desde a Guatemala em 1954 ao Irão, cujo regime foi derrubado para instalar o Xá como ditador militar. Afirmando promover a "democracia", a diplomacia dos EUA redefiniu a palavra para significar pró americano e oposição à reforma agrária, propriedade nacional de matérias-primas e subsídios públicos à agricultura ou indústria como um ataque "não democrático" a "mercados livres", o que significa mercados controlados pelos interesses financeiros estado-unidenses e proprietários absenteístas da terra, dos recursos naturais e dos bancos.

Um importante subproduto da guerra tem sido sempre os refugiados e a onda actual que foge do ISIS, Al Qaeda e outros apaniguados dos EUA no Oriente Próximo está a inundar a Europa. Uma onda semelhante está a fugir dos regimes ditatoriais, apoiados pelos Estados Unidos, das Honduras, Equador, Colômbia e países vizinhos. A crise de refugiados tornou-se um factor primordial para o ressurgimento de partidos nacionalistas por toda a Europa e para o nacionalismo branco de Donald Trump nos Estados Unidos.

A desdolarização como o veículo para o nacionalismo estado-unidense

O Padrão Dólar – dívida do Tesouro dos EUA a estrangeiros mantida pelos bancos centrais do mundo – substituiu o padrão divisas-ouro (gold-exchange standard) nas reservas dos bancos centrais do mundo para a liquidação de desequilíbrios de pagamentos entre si próprios. Isto permitiu aos Estados Unidos a [posição] única de incorrer em défices da balança de pagamentos durante aproximadamente setenta anos, apesar do facto de estes títulos do Tesouro (Treasury IOUs) terem pouca probabilidade visível de serem reembolsados – a não ser sob acordos em que os EUA buscam uma renda monopolista e um tributo financeiro directo de outros que lhes permita liquidar sua dívida externa oficial.

Os Estados Unidos são o único país que pode incorrer em défices constantes da balança de pagamentos sem terem de vender barato os seus activos ou elevarem taxas de juro para captar empréstimos em moeda estrangeira. Nenhuma outra economia nacional no mundo poderia permitir-se despesas militares no exterior em grande escala sem perder seu valor de troca. Sem as Letras do Tesouro (Treasury-bill) padrão, os Estados Unidos estariam na mesma posição dos demais países. Eis porque a Rússia, China e outras potências que os estrategas dos EUA consideram serem rivais estratégicos e inimigos procuram restaurar o papel do ouro como o activo preferencial para liquidar desequilíbrios de pagamentos.

A resposta dos EUA é impor mudanças de regime a países que preferem ouro ou outras divisas estrangeiras ao invés de dólares nas suas reservas cambiais. Um bom exemplo é o derrube de Omar Kaddafi, da Líbia, depois de ele ter procurado basear no ouro as reservas internacionais do seu país [NR 3] . A sua liquidação representa uma advertência militar a outros países.

Graças ao facto de que economias com excedentes de pagamentos investem suas entradas de dólares em títulos do US Treasury, os défices da balança de pagamentos dos EUA financiam seu défice orçamental interno. Esta reciclagem por bancos centrais estrangeiros de gastos militares dos EUA no exterior mediante compras de títulos do Tesouro dos EUA dá aos Estados Unidos um almoço gratuito (free ride), financiando seu orçamento – que também é sobretudo de carácter militar – de modo a que possa tributar seus próprios cidadãos.

Trump está a forçar outros países a criarem uma alternativa ao Padrão Dólar

O facto de as políticas económicas de Donald Trump estarem a demonstrar-se ineficazes para a restauração da manufactura americana está a criar uma pressão nacionalista para explorar os estrangeiros através de tarifas arbitrárias sem consideração pelo direito internacional e pela imposição de sanções comerciais e intromissões diplomáticas para desestabilizar regimes que sigam políticas não apreciadas pelos diplomatas dos EUA.

Aqui há um paralelo com Roma no fim do século I AC. Ela despojou suas províncias a fim de pagar o seu défice militar, o subsídio (dole) de cereais e a redistribuição de terra às expensas de cidades italianas e da Ásia Menor. Isto criou oposição estrangeira para expulsar Roma. A economia dos EUA é semelhante à de Roma:   mais extractivista do que produtiva, baseada principalmente em rendas da terra e juros monetários. Como o mercado interno está empobrecido, os políticos dos EUA tentam tirar do exterior o que não está mais a ser produzido em casa.

O que é extremamente irónico – e muito auto-derrotante para o almoço gratuito global da América – é o objectivo simplista de Trump de reduzir a taxa de câmbio do dólar para tornar as exportações norte-americanas mais competitivas em preço. Ele imagina que o comércio de commodities seja a balança de pagamentos inteira, como se não houvesse gastos militares, sem mencionar empréstimos e investimentos. Para reduzir a taxa de câmbio do dólar, ele está a exigir que o banco central da China e de outros países parem de apoiar o dólar reciclando os dólares que recebem pelas suas exportações através da compra de títulos do Tesouro dos EUA.

Esta visão em túnel deixa de lado o facto de que a balança comercial não é simplesmente uma matéria de níveis comparativos de preços internacionais. Os Estados Unidos dissiparam sua capacidade de fabricação de sobressalentes e de fornecedores locais de peças e materiais, enquanto grande parte da sua engenharia industrial e mão-de-obra qualificada aposentou-se. Um imenso défice deve ser preenchido por novos investimentos de capital, educação e infra-estrutura pública, cujos encargos são muito superiores aos de outras economias.

A ideologia da infraestrutura de Trump é uma Parceria Público-Privada caracterizada pelo alto custo financeiro exigido pelas altas rendas de monopólio a fim de cobrir seus encargos com juros, dividendos de acções e custos de gestão. Esta política neoliberal eleva o custo de vida para a força de trabalho dos EUA, tornando-a não competitiva. Os Estados Unidos são incapazes de produzir mais a qualquer preço que seja, porque passaram o último meio século a desmantelar sua infraestrutura, encerrando seus fornecedores e terciarizando sua tecnologia industrial.

Os Estados Unidos privatizaram e financiaram infraestrutura e serviços básicos tais como saúde pública e cuidados médicos, educação e transporte que outros países mantiveram no seu domínio público a fim de tornar suas economias mais eficientes em termos de custo ao proporcionar serviços essenciais a preços subsidiados ou gratuitamente. Os Estados Unidos também lideraram a prática da pirâmide de dívidas, desde a habitação até as finanças corporativas. Esta engenharia financeira e de criação de riqueza pelo enchimento de bolhas imobiliárias e do mercado de acções financiadas por dívida tornaram os Estados Unidos uma economia de alto custo que não pode competir com êxito com economias mistas bem administradas.

Incapaz de recuperar a dominância no sector manufactureiro, os Estados Unidos estão a concentrar-se nos sectores de extracção de renda que esperam monopolizar, encabeçados pela tecnologia da informação e pela produção militar. Na frente industrial, isto ameaça perturbar a China e outras economias mistas com a imposição de sanções comerciais e financeiras.

A grande aposta é se esses outros países irão defender-se juntando-se em alianças que lhes permitam contornar (bypass) a economia dos EUA. Estrategas americanos imaginam seu país como a economia essencial do mundo, sem cujo mercado outros países devem sofrer depressão. A administração Trump pensa que não há alternativa (There Is No Alternative, TINA) para outros países, excepto os seus próprios sistemas financeiros dependerem do crédito em US dólares.

Para se protegerem de sanções estado-unidenses, os países teriam de evitar utilizar o dólar e, portanto, bancos dos EUA. Isto exigiria a criação de um sistema financeiro não dolarizado para usarem entre si próprios, incluindo a sua própria alternativa do sistema de compensação bancária SWIFT. A tabela 1 mostra algumas possíveis defesas contra a diplomacia nacionalista dos EUA.

Como observado acima, o que também é irónico na acusação do presidente Trump de que a China e outros países manipulam artificialmente sua taxa de câmbio em relação ao dólar (ao reciclarem seus superávites comerciais e de pagamentos em títulos do Tesouro para conterem a valorização da sua divisa frente ao dólar) envolve o desmantelamento do padrão Letras do Tesouro. O principal modo pelo qual economias estrangeiras estabilizaram sua taxa de câmbio desde 1971 tem sido na verdade a reciclagem das suas entradas de dólares em títulos do Tesouro dos EUA. Deixar o valor da sua moeda subir ameaçaria a competitividade das suas exportações frente aos seus rivais, embora isso não beneficiasse necessariamente os Estados Unidos.

Acabar com esta prática deixa aos países como caminho principal para protegerem suas divisas da ascensão frente ao dólar a redução das entradas de dólares, através do bloqueio da concessão de empréstimos dos EUA aos seus tomadores internos. Eles podem cobrar tarifas flutuantes proporcionais ao valor em declínio do dólar. Os EUA têm uma longa história, desde a década de 1920, de elevação das suas tarifas contra moedas que estão a depreciar-se: o sistema American Selling Price (ASP). Outros países podem impor suas próprias tarifas flutuantes contra produtos norte-americanos.

A dependência comercial como um objectivo do Banco Mundial, do FMI e da USAID

O mundo enfrenta hoje um problema muito parecido com o enfrentado nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. Tal como a Alemanha então, agora os Estados Unidos representam a principal ameaça de guerra e destrutivos regimes económicos neoliberais impõem austeridade, retracção económica e despovoamento. Diplomatas americanos ameaçam destruir regimes e economias inteiras que procuram manter-se independentes daquele sistema, através de sanções comerciais e financeiras apoiadas por força militar directa.

A desdolarização exigirá a criação de alternativas multilaterais para as instituições "de primeira linha" dos EUA, como o Banco Mundial, o FMI e outras agências sobre as quais os Estados Unidos têm poder de veto para bloquear quaisquer políticas alternativas que supostamente não os deixem "ganhar". As agências de ajuda externa do Banco Mundial e dos EUA visam promover a dependência das exportações de bens alimentares dos EUA e de outros bens essenciais, enquanto contratam empresas de engenharia dos EUA para construir infraestruturas de exportação, subsidiando as suas empresas e investidores em recursos naturais. [4]

O financiamento é principalmente em dólares, fornecendo títulos sem risco para os EUA e instituições financeiras. A "interdependência" comercial e financeira resultante levou a uma situação em que uma interrupção repentina daquela oferta prejudicaria as economias estrangeiras, causando uma quebra na cadeia de pagamentos e produção. O efeito é trancar os países clientes na dependência da economia dos EUA e da sua diplomacia, qualificados com o eufemismo de "promoção de crescimento e desenvolvimento".

A política neoliberal dos EUA através do FMI impõe austeridade e opõe-se a reduções significativas da dívida. O seu modelo económico finge que os países devedores podem pagar qualquer volume de dívida em dólares simplesmente pela redução de salários para extrair mais rendimento da força de trabalho a fim de pagar credores estrangeiros. Isto ignora o facto de que resolver o "problema orçamental" interno, tributando a receita local, ainda enfrenta o "problema da transferência" na conversão em dólares ou outras moedas fortes, nas quais a maior parte das dívidas internacionais são denominadas. O resultado é que os programas de "estabilização" do FMI na verdade desestabilizam e empobrecem os países forçados a seguirem seus conselhos.

Empréstimos do FMI apoiam regimes pró EUA, como a Ucrânia, e subsidiam a fuga de capitais ao apoiarem as moedas locais durante o tempo suficiente para permitir que as oligarquias locais clientes dos EUA se desfaçam das suas moedas nacionais a uma taxa de câmbio pré-desvalorização em relação ao dólar. Quando a moeda local for finalmente autorizada a entrar em colapso, os países devedores são aconselhados a impor a austeridade anti-trabalhadores. Isso globaliza a guerra de classes do capital contra o trabalho enquanto mantém os países devedores sob uma curta trela financeira dos EUA.

A diplomacia dos EUA resume-se a impor sanções comerciais para perturbar economias que se afastem dos objectivos dos EUA. As sanções são uma forma de sabotagem económica, tão letal quanto uma guerra militar directa no estabelecimento do controle americano sobre as economias estrangeiras. A ameaça é empobrecer populações civis, na crença de que isso as levará a substituir os seus governos por regimes pró-americanos que prometem restaurar a prosperidade vendendo as suas infraestruturas internas aos EUA e outros investidores transnacionais.
Guerra dos EUA em muitas frentes
Defesa da desdolarização
Guerra militar (Oriente Próximo, Ásia) NATO e tratados bilaterais (saudita, ISIS, Al Qaida), revoluções coloridas e guerras por procuração Organização de Cooperação de Shangai e pressão para a Europa retirar-se da NATO a menos que os EUA aliviem suas ameaças de Nova Guerra Fria
Dolarização é guerra monetária. O padrão dos US Treasury-bill financia principalmente o défice da balança de pagamentos militar dos EUA. O SWIFT ameaça isolar o Irão e a Rússia. A desdolarização refreará bancos centrais estrangeiros de financiarem gastos militares além-mar dos EUA pela manutenção das suas poupanças em dólares. Criação de sistemas alternativos de câmaras de compensação de pagamentos.
O FMI financia regimes clientes dos EUA e procura isolar aqueles que não seguem a política estado-unidense. Organização de uma alternativa financeira global, tal como o INSTEX da Europa para contornar as sanções contra o Irão, bem como a alternativa ao SWIFT russo-chinesa.
Política do credor impondo austeridade a economias devedoras, forçando-as a privatizar e vender barato o seu domínio público para pagar dívidas. Um tribunal internacional com poderes para cancelar parcialmente (write down) em função da capacidade de pagar, com base nos princípio originais que guiaram a constituição do Bank of International Settlements (BIS) em 1931.
O Banco Mundial financia a dependência comercial às exportações alimentares dos EUA e opõe-se à auto-suficiência alimentar nacional. Uma organização de desenvolvimento alternativa baseada na auto-suficiência alimentar. Anulação da dívida ao Banco Mundial e FMI como "dívida odiosa".
Guerra comercial unilateral dos EUA baseada na cobrança de tarifas proteccionistas, quotas e sanções. Sanções compensatórias e criação de uma alternativa à OMC ou uma organização fortalecida liberta do controle dos EUA.
Ciber Guerra, spycraft via plataformas Internet dos EUA e sabotagem Stuxnet. Trabalhar com a Huawei e outras alternativas a opções de Internet dos EUA.
Guerra de classe: programa de austeridade para o trabalho Moderna Teoria Monetária (MMT, na sigla em inglês), tributação do rendimento do rentista e dos ganhos do capital.
Doutrina monetarista neoliberal da privatização e das regras orientadas para o credor. Promoção de uma economia mista com infraestrutura pública como um factor de produção.
Política de patentes dos EUA busca rendas de monopólio. Não reconhecimento de patentes monopolistas predatórias.
Controle de investimento. Desprivatização e buyouts de activos dos EUA no exterior
Lei internacional e diplomacia Os EUA como a "nação excepcional" do mundo não sujeita a leis internacionais ou mesmo aos próprios tratados que acordou.


Problemas globais causados pela política dos EUA
Resposta à política destrutiva dos EUA
EUA recusam-se a aderir a acordos internacionais para reduzir emissões de carbono, aquecimento global [NR 2] e meteorologia extrema A diplomacia dos EUA está baseada no controle do petróleo para tornar outros países dependentes da dominância energética estado-unidense. Sanções comerciais e fiscais contra exportadores e bancos estado-unidenses. Impostos sobre a evasão fiscal dos EUA pelas "bandeiras de conveniência" da indústria do petróleo (conveniente para evitar impostos). Tributação ou isolamento de exportações dos EUA baseadas na produção com alto teor de carbono.
Tentativa de monopolizar a nova tecnologia G5 da Internet, sancionamento da Huawei, insistência na prioridade dos EUA em alta tecnologia. Rejeição de patentes sobre TI, medicina e outras necessidades humanas básicas.
Leis de patentes em produtos farmacêuticos, etc. Tributação das rendas de monopólio.
Existem alternativas, em muitas frentes

Militarmente, a principal alternativa actual ao expansionismo da NATO é a Organização de Cooperação de Xangai (SCO), juntamente com uma Europa que seguisse o exemplo da França sob Charles de Gaulle e se retirasse da NATO. Afinal, não há ameaça real de invasão militar hoje na Europa. Nenhuma nação pode ocupar outra sem um enorme recrutamento militar e perdas tão pesadas de pessoal que os protestos internos destituiriam o governo que travasse essa guerra. O movimento anti-guerra dos EUA na década de 1960 sinalizou o fim do projecto militar, não apenas nos Estados Unidos, mas em quase todos os países democráticos. (Israel, Suíça, Brasil e Coreia do Norte são excepções).

Os enormes gastos com armamentos para um tipo de guerra improvável não são realmente militares, mas simplesmente para proporcionar lucros ao complexo industrial militar. O armamento não é realmente para ser usado. Ele é simplesmente para ser comprado e, finalmente, transformado em sucata. O perigo, é claro, é que essas armas possam ser usadas, apenas para criar uma necessidade de nova produção lucrativa.

Da mesma forma, títulos financeiros estrangeiros em dólares não devem ser realmente gastos em compras de exportações ou investimentos dos EUA. Eles são como colecções de vinhos caros, para guardar em vez de beber. A alternativa a tais haveres dolarizados é criar um uso mútuo de divisas nacionais e um sistema de pagamentos de compensação bancária alternativo ao SWIFT. A Rússia, a China, o Irão e a Venezuela já estão a desenvolver pagamentos em criptomoeda para contornar as sanções dos EUA e, consequentemente, o seu controlo financeiro.

Na Organização Mundial do Comércio, os Estados Unidos tentaram afirmar que qualquer indústria que beneficie de infraestruturas públicas ou subsídios de crédito merece uma retaliação tarifária nas exportações para forçar a privatização. Em resposta às determinações da OMC de que as tarifas dos EUA são impostas ilegalmente, os Estados Unidos "em protesto bloquearam todas as novas nomeações para o organismo de apelação de sete membros, deixando-o em risco de colapso dado que pode não haver juízes suficientes que lhe permita actuar em novos casos. [5] Na visão dos EUA, apenas o comércio privatizado financiado por bancos privados e não públicos é um comércio "justo".

Uma alternativa à OMC (ou a remoção de privilégio de veto dado ao bloco americano) é necessária para lidar com a ideologia neoliberal dos EUA e, mais recentemente, a farsa dos EUA alegando isenção dos tratados de livre comércio em nome da "segurança nacional", impondo tarifas ao aço e alumínio, e aos países europeus que contornem as sanções ao Irão ou ameacem comprar gás da Rússia através do gasoduto Nordstream II, em vez do gás natural liquefeito, "gás da liberdade", de alto custo dos Estados Unidos.

No campo dos empréstimos para desenvolvimento, o Banco da China, juntamente com a sua iniciativa "Nova rota da seda", é uma alternativa incipiente ao Banco Mundial, cujo principal papel tem sido promover a dependência externa de fornecedores aos EUA. O FMI, por sua vez, funciona como uma extensão do Departamento de Defesa dos EUA para subsidiar regimes clientes como a Ucrânia, enquanto isola financeiramente países que não são subservientes à diplomacia norte-americana.

Para salvar as economias endividadas que sofrem com austeridade ao estilo grego, o mundo precisa substituir a teoria económica neoliberal por uma lógica analítica de redução das dívidas com base na capacidade de pagamento. O princípio orientador da necessária lógica orientada para o desenvolvimento do direito internacional deveria ser que nenhuma nação fosse obrigada a pagar a credores estrangeiros tendo que vender património do domínio público e direitos de extracção de rendas a credores estrangeiros. O carácter definidor da soberania deveria residir no direito de tributar a exploração dos recursos naturais e respectivos retornos financeiros e criar o seu próprio sistema monetário.

Os Estados Unidos recusam-se a aderir ao Tribunal Penal Internacional. Para ser eficaz, ele precisaria [ter] poder de execução dos seus julgamentos e penalidades, culminando com a capacidade de apresentar acusações por crimes de guerra na tradição do tribunal de Nuremberg. Os EUA num tribunal assim poderiam ser julgados, de acordo com o seu crescimento militar que agora ameaça uma Terceira Guerra Mundial. Isto sugere um novo alinhamento de países tal como o movimento das nações não-alinhadas dos anos 50 e 60. Não alinhado, neste caso, significa estar livre do controlo ou de ameaças diplomáticas dos EUA.

Tais instituições necessitam de uma teoria económica e uma filosofia de operações mais realistas para substituir a lógica neoliberal anti-Estado, de privatizações, austeridade anti-trabalhadores e oposição a défices orçamentais e reduções de dívidas. A doutrina neoliberal de hoje conta os ganhos financeiros e o aumento dos preços da habitação como um acréscimo ao "produto real" (PIB), mas considera o investimento público como um peso morto, não como uma contribuição para a produção. O objectivo de tal lógica é convencer governos a pagarem aos credores estrangeiros através da venda das suas infraestruturas públicas e de outros activos do domínio público.

Assim como o princípio de "capacidade para pagar" foi a pedra fundamental do Bank for International Settlements, constituído em 1931, é necessária uma base semelhante para medir a capacidade actual de pagar dívidas e, portanto, cancelar maus empréstimos efectuados sem a correspondente capacidade de pagamento dos devedores. Sem uma tal instituição e corpo de análise, o princípio neoliberal do FMI de impor depressão económica e queda dos padrões de vida para pagar aos EUA e outros credores estrangeiros irá impor a pobreza global.

As propostas acima proporcionam uma alternativa à recusa "excepcionalista" dos EUA de integrarem qualquer organização internacional que tenha uma palavra a dizer sobre os seus assuntos. Outros países devem estar dispostos a virar a mesa e isolar bancos e exportadores dos EUA e a evitar o uso de dólares americanos e encaminhamento de pagamentos através de bancos dos EUA. Proteger a capacidade de criar um poder compensatório (countervailing power) exige um tribunal internacional e sua organização de suporte.

Resumo

O primeiro objectivo existencial é evitar a presente ameaça de guerra pelo atenuação da interferência militar dos EUA em países estrangeiros e a remoção das bases militares dos EUA como relíquias do neocolonialismo. O seu perigo para a paz e prosperidade mundial cria a ameaça de uma reversão para o colonialismo anterior à Segunda Guerra Mundial, dirigido por elites clientes segundo linhas semelhantes às do golpe ucraniano de 2014 por grupos neonazis patrocinados pelo Departamento de Estado dos EUA e pela National Endowment for Democracy. Tal controlo lembra os ditadores que a diplomacia americana estabeleceu em toda a América Latina nos anos 50. O terrorismo étnico de hoje promovido pelos EUA, apoiado pelo islamismo wahabi-saudita lembra o comportamento da Alemanha nazi na década de 1940.

O aquecimento global é a segunda grande ameaça existencial [NR 2] . Bloquear tentativas de reverter isso é um fundamento da política externa americana, porque se baseia no controle do petróleo. Portanto, as ameaças militares, de refugiados e de aquecimento global estão interligadas.

O militarismo dos EUA representa o maior perigo imediato. A guerra actual está fundamentalmente mudada em relação ao que costumava ser. Antes da década de 1970, as nações conquistadoras tinham de invadir os países e ocupá-los com exércitos formados por recrutamento militar. Mas nenhuma democracia no mundo de hoje pode reviver tal proposta sem desencadear a recusa popular generalizada de combater, votando pelo afastamento do governo do poder.

O único meio pelo qual os Estados Unidos – ou outros países – podem combater outras nações é bombardeá-las. E como observado acima, as sanções económicas têm um efeito tão destrutivo sobre as populações civis em países considerados adversários dos EUA quanto a guerra aberta. Os Estados Unidos podem patrocinar golpes políticos (como nas Honduras e no Chile de Pinochet), mas não podem ocupar países, nem têm vontade de reconstrui-los, para não falar em assumir a responsabilidade pelas ondas de refugiados que nossos bombardeamentos e sanções estão a causar desde a América Latina até ao Próximo Oriente.

Os ideólogos dos EUA vêem a expansão militar coerciva de seu país, a subversão política e a política económica neoliberal de privatizações e financeirização como uma vitória irreversível que assinala o "Fim da história". Para o resto do mundo, é uma ameaça à sobrevivência humana.

A promessa americana é que a vitória do neoliberalismo é o "Fim da história", oferecendo prosperidade ao mundo inteiro. Mas, sob a retórica da livre escolha e do livre mercado está a realidade da corrupção, subversão, coerção, servidão pela dívida (debt peonage) e neofeudalismo. A realidade é a criação e subsídio de economias polarizadas, bifurcadas entre uma classe privilegiada rentista com sua clientela e seus devedores e arrendatários. Permite-se aos Estados Unidos monopolizarem o comércio de petróleo e cereais e os monopólios de alta tecnologia extractores de rendas, vivendo às custas da dependência dos seus clientes.

Ao contrário da servidão medieval, as pessoas sujeitas a este cenário de "Fim da história" podem escolher onde querem viver. Mas onde quer que vivam devem endividar-se durante toda a vida a fim de terem acesso a uma casa própria e devem depender do controlo dos EUA sobre as suas necessidades básicas, dinheiro e crédito, aderindo ao planeamento financeiro americano das suas economias. Este cenário distópico confirma o reconhecimento de Rosa Luxemburgo de que a escolha definitiva que as nações enfrentam no mundo de hoje é entre socialismo e barbárie.
[1] Billy Bambrough, "Bitcoin Threatens To 'Take Power' From The U.S. Federal Reserve,"  Forbes , May 15, 2019. www.forbes.com/...
[2] Vladimir Putin, discurso no Economic Forum, June 5-6 2019. Putin prosseguiu para advertir contra "uma política de egoísmo económico completamente ilimitado e um colapso forçado". Esta fragmentação do espaço económico global "é o caminho para conflitos intermináveis, guerras comerciais e talvez não apenas guerras comerciais. Figurativamente, este é o caminho para a derradeira luta de todos contra todos".
[3] Discurso no St Petersburg International Economic Forum's Plenary Session, St Petersburg, Kremlin.ru, June 5, 2009, from Johnson's Russia List, June 8, 2009, #8,
[4] - www.rt.com/business/464013-china-russia-cryptocurrency-dollar-dethrone/ Já no final da década de 1950, o Plano Forgash propôs um Banco Mundial para Aceleração Económica. Concebido por Terence McCarthy e patrocinado pelo senador da Florida, Morris Forgash, o banco teria sido uma instituição mais voltada para o desenvolvimento, orientando o desenvolvimento estrangeiro para criar economias equilibradas e auto-suficientes em alimentos e outros itens essenciais. A proposta teve a oposição dos interesses dos EUA, alegando que os países que buscavam a reforma agrária tendiam a ser antiamericanos. Mais especificamente, eles teriam evitado a dependência comercial e financeira dos fornecedores e dos bancos dos EUA e, portanto, das suas sanções comerciais e financeiras para os impedir de seguirem políticas contrárias às exigências diplomáticas dos EUA.
[5] Don Weinland, "WTO rules against US in tariff dispute with China,"  Financial Times , July 17, 2019. 

25/Julho/2019

[NR 1] SWIFT: Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication. É uma entidade que gere os códigos de identificação de um banco, denominados Bank Identifier Code (BIC).   O código IBAN faz parte do sistema SWIFT.
[NR 2] As emissões de carbono são a resultante necessária e inevitável de qualquer processo de combustão de hidrocarbonetos.   Mais especificamente:  as demonizadas emissões de CO2 não são poluentes e este gás até é indispensável à vida no planeta terra.   O tão apregoado aquecimento global de origem antropogénica é uma impostura pseudo-científica .   Hudson, que não é climatologista, deixou-se influenciar pela gigantesca campanha de propaganda "aquecimentista" promovida pelo IPCC/ONU e pela UE.   Este pode ser um dos poucos assuntos em que o governo Trump (que se recusou a assinar o Acordo de Paris) tem razão.
[NR 3] As reservas-ouro do Banco Central da Líbia foram saqueadas pelos EUA após a agressão e derrube do governo líbio.   O mesmo aconteceu às reservas-ouro do Banco Central da Ucrânia , que foram transferidas secretamente para a custódia do Fed após o golpe do Maidan em 2014.


Ver também a entrevista de Michael Hudson:
  • Desdolarizando o império financeiro americano

    [*] Discurso pronunciado no 14th Forum of the World Association for Political Economy, 21/Julho/2019.

    O original encontra-se em thesaker.is/u-s-economic-warfare-and-likely-foreign-defenses/ e em www.unz.com/mhudson/u-s-economic-warfare-and-likely-foreign-defenses/
     
  • In
  • RESISTIR.INFO
  • https://www.resistir.info/m_hudson/hudson_25jul19.html 
  • 2/8/2019

  • 02/Jul/19