segunda-feira, 24 de junho de 2013

As mentiras de Khrushchev

Grover Furr
As mentiras de Khrushchev
Galiza: Benigno Álvarez, 2013

Há versão em inglês.

"As "Mentiras de Khrushev" é un traballo marabilloso, formidábel na súa investigación e no seu razoamento, claro e preciso na sua escrita e asombroso nas súas conclusións e implicacións. Revisando vellas fontes e botando man de novo material dos arquivos soviéticos, o libro de Grover Furr exixe unha completa reformulación da historia soviética, da historia do socialismo e, da realidade da historia do século XX".

Roger Keera, Empire State College.

24/06/2013

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Balas de goma, ¿hasta cuándo?


Esther Vivas
Público.es

A veces hay sucesos que marcan un punto de inflexión. Y el caso de Ester
Quintana, que perdió un ojo por el impacto de una bala de goma en la
manifestación de la última huelga general del 14 de noviembre del 2012, fue uno
de ellos. Ya antes se habían dado heridos graves por el uso de estos
proyectiles, pero no fue hasta entonces que, por vez primera, se encendieron las
luces de alarma y la información saltó a la opinión pública.

Las mentiras de Felip Puig, consejero de interior de la Generalitat por aquel
entonces, sin lugar a dudas, ayudaron. Comparecencia pública tras comparecencia
pública negó el uso de dichas armas en la zona donde Ester Quintana resultó
herida. Las imágenes tomadas, pero, indicaban todo lo contrario. La realidad de
los hechos se impuso y la presión al Gobierno de CiU fue máxima. Muchos
descubrieron, entonces, que las “pelotas de goma” no era sino balas que herían
gravemente a la gente.

El colectivo Stop Bales de Goma, que lleva ya tres años trabajando para que se
prohíban estos proyectiles, presentó ayer un informe contundente donde,
apoyándose en estudios científicos, demuestra el carácter letal y extremadamente
peligroso de estas armas. Los datos así lo rebelan. En los últimos tres años
ocho personas han perdido un ojo a causa del impacto de balas de goma sólo en
Catalunya. La cifra asciende a 22 en el conjunto del Estado, entre 1990 y el
2009. Y hasta dos han muerto, Rosa Zarra (1995) e Iñigo Cabacas (2013), por
balas de goma disparadas por la Ertzaintza.

A pesar de que las instituciones afirman que dichas armas son “menos letales”,
como si las armas pudiesen clasificarse entre aquellas que matan más o matan
menos, la experiencia demuestra que la mayor parte de veces en que han sido
utilizadas se han producido heridos de gravedad. La pregunta pertinente, si
dichos proyectiles no son prohibidos, es: ¿Quién será el próximo? Imagino que
ningún familiar de Felip Puig, que en su momento ya afirmó no recomendar a su
hijo pasarse por Pl. Catalunya el día del desalojo de los indignados.

Asimismo, la velocidad a la que son lanzados dichos proyectiles, 720km/hora, los
hace muy peligrosos, especialmente, al impactar en el pecho o la cabeza. Y no
son pocas las veces que, a pesar de la prohibición reglamentaria, se dispara de
cintura para arriba, como recoge el informe. Hematomas cerebrales, perforaciones
pulmonares, pérdida de un ojo, lesiones en las extremidades, perforaciones
intestinales y la muerte son las consecuencias de su uso en los últimos años.
Algunos, sin embargo, en el poder, prefieren mirar para otro lado.

Las balas de goma, pero, son tan sólo la punta del iceberg de la violencia
policial contra aquellos que no callan. La intensificación de la crisis y el
auge de la protesta indignada ha mostrado, sin cortapisas, la brutalidad
policial, amparada siempre por el poder político. Numerosos son los ejemplos que
han escandalizado, en los últimos años, a amplios sectores de la opinión
pública. Recordemos, sino, el desalojo de los indignados en Pl. Catalunya,
Barcelona, el 27 de mayo del 2011, y tantos otros. Violencia policial,
acompañada siempre de impunidad. ¿Cuántos casos de “extralimitación en sus
funciones” -según el argot oficial- se han admitido, sus autores condenados y
las sentencias cumplidas? No conozco ninguno.

A más crisis, pobreza y malestar, más criminalización de la protesta, violencia
policial e impunidad. El Estado español tiene una de las tasas de policías por
habitante más altas de Europa, unos cinco agentes por cada mil habitantes,
cuando en la Unión la cifra es de unos tres agentes y en Estados Unidos unos dos
por cada mil personas, según datos del Eurostat. La cifra no ha hecho sino
aumentar en los últimos tiempos. Mientras se recorta en educación y sanidad
pública, se aumenta la partida securitaria. Nos dicen que a más policía, más
seguridad. Ester Quintana, Nicola Tanno, Carles Guillot y tantos otros que han
perdido un ojo o han sido heridos por impacto de balas de goma nos demuestran lo
contrario. Gracias a su perseverancia, y a la de aquellos que les apoyan, el
silencio sobre dichos proyectiles, finalmente, se ha roto.
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http://rebelion.org/noticia.php?id=169836
17/6/2013

domingo, 16 de junho de 2013

A semana em que uma nuvem de bombas cobriu o céu de SP

Carta Maior - Movimentos Sociais -
A semana em que uma nuvem de bombas cobriu o céu de SP

Quarta manifestação contra o aumento da tarifa do transporte público reuniu
milhares nas ruas da capital paulista. Com um saldo de mais de 250 detidos, a
escalada de repressão chegou à imprensa sob a forma de balas de borracha contra
os seus jornalistas. Apesar das cenas de guerra, o governo estadual e o prefeito
da cidade não cedem: a tarifa e a “ordem” serão mantidas. Por Xenya Bucchioni e
Tulio Bucchioni, Esquerda.net
Xenya Bucchioni e Tulio Bucchioni - Esquerda.net
Enviar ! Imprimir ! São Paulo - Eram cinco horas da tarde. Trabalhadores,
estudantes, idosos e famílias ganhavam, pouco a pouco, as ruas, exercendo o
direito de manifestar livremente as suas opiniões em um ato contra o aumento da
tarifa do transporte público de São Paulo. Juntos, somavam 15 mil pessoas – algo
raro para um país pouco habituado às ruas, legado de seus vinte e um anos de
ditadura civil-militar. Deslegitimados pela grande imprensa desde o começo das
mobilizações, sob a alcunha de “baderneiros” e “vândalos”, os manifestantes
gritaram em coro pela não-violência e, mesmo assim, receberam, na noite de
quinta-feira, 13 de junho, um tratamento exemplar: à base de bombas de gás
lacrimogêneo, balas de borracha e muito cassetete – espetáculo promovido pela
Polícia Militar e pela Rota, polícia especial subordinada à PM. O resultado de
tal atuação contabiliza até o momento um saldo de mais de 250 presos, entre eles
cerca de dez jornalistas.

Algumas horas antes, no início da manifestação, o major Lidio Costa Junior, do
Policiamento de Trânsito da PM, já havia confessado que a situação tinha saído
do controlo e advertiu: “Não nos responsabilizamos mais pelo que vai acontecer”.
As palavras de Lidio tornaram-se realidade antes mesmo da concentração tomar
fôlego, quando a polícia militar fazia revistas em jovens e os detinham na
sequência. O motivo? Porte “ilegal” de vinagre – sim, no Brasil, andar com
vinagre, agora, pode dar cadeia. Nem mesmo os jornalistas saíram imunes. Piero
Locatelli, repórter da revista Carta Capital, teve o seu “artefato” confiscado e
seguiu para a prisão. Há relatos de jovens presos por formação de quadrilha
(crime inafiançável), fichados em presídios da capital, onde, após a nefasta
noite de quinta, passam a ter um número no cadastro de criminosos – sem sequer
terem sido submetidos a qualquer julgamento. Além disso, a criminalização do
movimento contra o aumento repercute, também, nos bolsos: a fiança para os
presos na manifestação é de inacreditáveis 20 mil reais – valor que, em uma
rápida pesquisa na internet, demonstra-se incompatível com as fianças cobradas
em atropelamentos culposos ou em casos de porte de arma ilegal no Brasil, entre
outros exemplos.

Enraízado na história do país, o autoritarismo presenciado na capital paulista
não se limita à ação policial e é, sobretudo, endossado pelas autoridades
estaduais e municipais e pela grande imprensa, sendo também compartilhado por
amplos setores da classe média. Um dia antes do ocorrido, no dia 12 de junho, o
governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do partido de oposição (PSDB),
elogiara o trabalho da polícia, enquanto o prefeito Fernando Haddad, do partido
do governo (PT), optara por declarações de “não diálogo em situações de
violência”. Apesar de supostamente atuarem em campos políticos opostos, ambos
viram os seus discursos convergirem para um ponto comum: a defesa da manutenção
da tarifa e da ordem contra as manifestações e o fecho de vias públicas.

Os títulos dos editoriais dos dois maiores jornais da capital paulista,
publicados no dia da manifestação, eram claros: “Retomar a Paulista” (Folha de
S. Paulo) e “Chegou a hora do basta” (O Estado de São Paulo). O repúdio à
postura da grande imprensa, de incentivo tácito à ação da polícia na repressão
aos manifestantes, foi sentido nas muitas mensagens que circularam pelo Facebook
ao longo do dia. Entretanto, foi apenas depois do primeiro estalo das balas de
borracha nos corpos de jornalistas destes dois veículos que o horror mostrou a
sua verdadeira face em uma capa de jornal. A partir daí, não havia mais como
manipular a opinião pública.

Vídeos e imagens capturadas por manifestantes e pessoas comuns invadiram as
redes e a notícia das muitas agressões contra os jornalistas vieram a público.
Uma coletânea significativa dessa produção pode ser vista no Tumblr Feridos no
Protesto em São Paulo. O caso mais emblemático, com repercussão internacional,
foi o da jornalista Giuliana Vallone, da Folha de S. Paulo, atingida no olho
direito por uma bala de borracha disparada por um policial da Rota enquanto a
jornalista prestava socorro a uma mulher durante as barricadas.

No Brasil, o transporte público coletivo urbano atende maioritariamente às
pessoas de média e baixa renda, o que torna o valor da tarifa desses serviços um
instrumento importante na formulação de políticas de inclusão social e também na
gestão da mobilidade urbana. De acordo com a inflação, com dados básicos de
correção pelo IPCA (IBGE), a passagem de ônibus que custava R$ 0,50 em 1994,
deveria custar R$ 2,16 em maio de 2013. De lá para cá, a alta da inflação foi de
332,22%. Já o valor do metrô, seguindo o mesmo índice, deveria ser de R$ 2,59.
Ambos custavam, em 2013, R$ 3,00 e passaram a custar, com o reajuste atual, R$
3,20 (aproximadamente 1,12 euros - 5 vezes maior do que a tarifa da vizinha
Buenos Aires e 4 vezes maior que na Cidade do México).

Segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), em relatório
publicado em 2011, entre 1995 e 2008 as tarifas dos sistemas de ônibus urbanos
nas nove maiores cidades brasileiras – Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza,
Goiânia, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo – tiveram um
aumento de cerca de 60% acima da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços
ao Consumidor (INPC). O estudo ainda aponta o sucessivo aumento na tarifa do
transporte público como um dos elementos que permitem explicar a perda da
capacidade de compra do salário mínimo, observada entre 1995 e 2003. E conclui:
a retomada do poder de compra do salário mínimo, ocorrida desde 2003, por si só,
não é capaz de manter um aumento sustentado do volume de passageiros capazes de
arcar com os custos do sistema de transporte urbano. Em outras palavras, parte
da população brasileira permanece excluída do uso do transporte público coletivo
no Brasil.

Frente a esse cenário, a mobilização segue. O próximo protesto, marcado para a
segunda-feira, dia 17, já conta com mais de 70 mil confirmações pelo Facebook -
40 mil a mais do que as obtidas na última mobilização.
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Carta Maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22196
15/06/2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Origem e declínio do capitalismo

por Jorge Beinstein [*]
Retorno à origem

Em certos rituais funerários de tempos remotos os mortos eram colocados em posição fetal. Encontraram-se por exemplo restos de homens do neandertal sepultados dessa maneira com a cabeça a apontar para o Oeste e os pés para o Leste. Algumas hipóteses antropológicas sustentam que essa disposição do cadáver se relacionava com a crença no renascimento do morto. A civilização burguesa à medida que avança a sua senilidade parece reiterar esses ritos. Preparando-se para o desenlace final aponta a cabeça para a sua origem ocidental e vai acomodando o corpo degradado procurando recuperar as formas pré-natais, tentando talvez assim conseguir uma vitalidade irremediavelmente perdida.

O fim e a origem aparentam convergir, mas o ancião não consegue voltar ao passado e sim, antes, reproduzi-lo de maneira grotesca e decadente. Rumo ao final do seu percurso histórico o capitalismo volta-se prioritariamente para as finanças, o comércio e o militarismo no seu nível mais aventureiro "copiando" seu início quando o Ocidente conseguiu saquear recursos naturais,sobre-explorar populações e realizar genocídios acumulando desse modo riquezas desmesuradas em relação ao seu tamanho. Isso lhe permitiu expandir seus mercados internos, investir em novas formas produtivas, desenvolver instituições, capacidade científica e técnica. Em suma, construir a "civilização" que levou Voltaire a dizer: "a civilização não suprime a barbárie, aperfeiçoa-a".

A decadência do mundo burguês de certo modo imita a sua origem, mas não o faz a partir de um protagonista jovem e sim decrépito e num contexto completamente diferente: o da gestação era um planeta rico em recursos humanos e naturais disponíveis, virgem do ponto de vista dos apetites capitalistas. O actual é um contexto saturado de capitalismo, com fortes espaços resistentes ou pouco manejáveis na periferia, com numerosos recursos naturais decisivos em rápido esgotamento e um meio ambiente global desarranjado.

Fim de ciclo. Decadência: do capitalismo industrial ao parasitismo.

Toda a história do capitalismo é atravessada por numerosas crises de curta, média e longa duração, de gestação, de nascimento, de crescimento, de maturidade, de decadência, sectorial, pluri-sectorial, geral, etc. A actual conjuntura global costuma ser descrita empregando o termo crise (do neoliberalismo, financeira, sistémica, do capitalismo, de civilização...). Trata-se realmente de uma crise ou de algo mais? Encontramo-nos perante uma turbulência devastadora ou não tão truculenta mas anunciadora de uma nova ordem mundial capitalista, ou seja, de uma regeneração sistémica ou antes do canto do cisne de uma civilização caduca? No primeiro caso cabia falar de crise de reconversão, de destruição criadora no sentido shumpeteriano, no segundo poderia em princípio ser definida com uma só palavra: decadência.

Os conceitos de crise e decadência são ambíguos, o seu uso não resolve completamente as interrogações que coloca a descrição da realidade actual. Em geral falamos de crise quando enfrentamos uma turbulência ou perturbação importante do sistema social. O conceito de decadência costuma ser associado à ideia de irreversibilidade, de trajectória iniludível, de caminho mais ou menos lento, acidentado ou calmo, rumo à extinção, rumo ao final. Contudo, a história mostra tanto longos processos de declínio que culminam com o fim de uma sociedade ou civilização como fenómenos vistos como decadências mas que em algum momento se convertem em renascimento, no início de uma segunda juventude. Sobretudo durante certos períodos de transição cultural onde se combina o velho dominante mas ainda hegemónico com o novo ascendente ainda que suportando derrotas, fracassos próprios das experiências demasiado jovens, demasiado dependentes do "senso comum" estabelecido pelas antigas verdades capazes de sobreviver durante muito tempo ao seu crescente divórcio com a realidade.

Muitas vezes uma crise prolongada atravessada por turbulências que se vão sucedendo umas após as outras formando uma continuidade de calamidades surge como um mundo que se arruína quando pode chegar a ser a oficina de forja de uma nova era. A chamada "longa crise do século XVII" que afectou a Europa e que se foi convertendo gradualmente na base de lançamento planetário da modernidade ocidental foi vista por boa parte dos seus contemporâneos mais lúcidos como uma época de desastres e decadência universal.

Essa visão prolongou-se até estar bem avançado o século XVIII, quando a emergência do iluminismo, da ideologia do progresso, do culto à Razão, combinaram-se nas elites do Ocidente com o fantasma da decadência, simbolizado pelo declínio do império romano. Em 1734 Montesquieu publicava suas "Considerações acerca das causas da grandeza e decadência dos romanos" e curiosamente, em 1776 na Inglaterra, onde começava a Revolução Industrial enquanto Adam Smith publicava a primeira edição de "A riqueza das nações" estabelecendo as bases teóricas do capitalismo liberal nascente, marcando o avanço optimista do racionalismo burguês, Edward Gibbon publicava a primeira edição da sua "História da decadência e queda do Império romano" dilatando o espaço das visões pessimistas das elites tradicionais da Europa angustiadas pelo declínio do universo cultural e institucional das aristocracias.

Não é excessivo recordar aquilo que poderíamos qualificar como obsessão e nostalgia plurisecular recorrente da cultura ocidental quanto à grandeza da Roma imperial, da sua duradoura "pax romana" ou dominação "universal" (do "universo" colonial possível nessa época com centro no Mar Mediterrâneo). Desde a tentativa de restauração do império vários séculos depois do seu derrube com a proclamação em Roma de Carlos Magno no ano 800 (e em consequência do extinto Império Romano do Ocidente ), seguindo com o Sacro Império Romano Germânico (o "Primeiro Reich") no século posterior, chegando aos delírios imperiais-romanos do imperador Napoleão, continuando com o Kaiserreich ("Kaiser" derivado do César romano) ou "Segundo Reich" da Alemanha a partir de 1871 radicalizado a seguir por Hitler como "Terceiro Reich", a Itália fascista proclamada por Mussolini como Terceira Roma (a "Terza Roma" herdeira da Roma Imperial e da Roma papal ) e naturalmente falangistas, nazi e fascistas a saudarem com o braço ao alto, a saudação romano imperial, para chegar finalmente (por agora) às elucubrações durante a década passada acerca da Pax Americana imaginada pelos falcões de George W. Bush como uma espécie de reedição em escala planetária do Império Romano tal como propuseram na altura textos influentes no primeiro círculo do poder dos Estados Unidos autores como Robert Kaplan [1] .

Mas a nostalgia imperialista não pode prescindir do temor oculto que esconde por baixo da euforia, porque o esplendor escravocrata anunciava a sua decadência, seus luxos parasitários que resultavam da incessante expansão do sistema converteram-se no veneno mortal, a droga alentou a sua ruína. Como assinalava Juvenal: "O luxo, mais insidioso que o inimigo estrangeiro, apoia-nos sua mão pesada, vingando o mundo que conquistámos" [2] . A extravagante literatura que proliferou nos princípios do século XXI alentada pelo triunfalismo dos falcões do Império desenvolvendo paralelos entre Roma (dos césares) e Washington (de Bush) fê-lo em paralelo com a aparição de numerosos textos relativos à decadência romana – muitos deles a estabelecerem semelhanças com as potências ocidentais, principalmente os Estados Unidos.

A longo crise do século XVII foi uma enorme trituradora histórica de velhas estruturas e mentalidades, gerando o declive das monarquias absolutistas do Ocidente e mais adiante favorecendo a ascensão do capitalismo industrial a partir de uma crise de nascimento, do parto turbulento, dramático, do mundo moderno, entre fins do século XVIII e princípios do XIX, marcado pela revolução industrial na Inglaterra, pela Revolução Francesa, pelas guerras napoleónicas, pela Restauração, etc.

Muito tempo depois a Europa viveu uma crise relativamente longa entre 1914 e 1945. Foi pensada pelos bolcheviques como o declínio universal do capitalismo que abrir as portas à sua superação revolucionária, socialista-comunista. Na realidade, tratou-se de um processo complexo que combinava elementos incipientes de decadência, significativos mas insuficientes para forma constituir uma avalancha global imparável, com outros de recomposição, de rejuvenescimento como a intervenção estatal na economia, a massa de invenções, de ideias técnicas que se foram transformando em inovações abrindo um novo horizonte social e sobretudo a presença dos aparelhos militares em expansão conjugando potência e acção destrutiva com multiplicadores do consumo, o investimento e a renovação tecnológica da produção civil (keynesianismo militar).

Os comunistas dos anos 1920 subestimavam a capacidade de recomposição do mundo burguês mas a extrema-direita, os fascistas dessa época, super-estimavam-na pois atribuíam-lhe uma esperança de vida demasiado prolongada. É assim que Mussolini proclamava triunfalista num artigo de Janeiro de 1921: "o capitalismo está agora apenas no início da sua história", capítulo no qual o novo autoritarismo fascista projectava cumprir um papel decisivo, refundador, recuperando as raízes mais brutais do sistema. O Duce assim o sintetizava perante a Câmara de Deputado italiana alguns meses depois: "a verdadeira história do capitalismo começa agora... há que abolir o Estado colectivista, tal como a guerra nos transmitiu pela necessidade das circunstâncias e voltar ao estado manchesteriano" [3] . Disciplinamento ditatorial da força de trabalho e liberdade total para os capitalistas.

Contudo, o sistema não podia regressar ao século XIX. Seus bloqueios estruturais obrigavam-no a utilizar a intervenção estatal na economia para desenvolver novos espaços de rentabilização como a indústria de guerra e as grandes obras públicas. O que se começava a instalar não era o velho capitalismo liberal do século XIX e sim a sua tábua de salvação militarista, intervencionista, que na sua primeira etapa europeia durante os anos 1920-1930 assumiu a forma de mutação ideológica do liberalismo para o totalitarismo fascista sob o guarda-chuva legitimador da "comunidade nacional" esmagando os "interesses sectoriais" dos de baixo. Como assinalava Horkheimer, "a ideia de comunidade nacional (a "Volksgemeinschaft" dos nazis), erguida como objecto de idolatria não podia em última análise ser sustentada senão por meio do terror. Isto explica a tendência do liberalismo a derivar rumo ao fascismo" [4] .

A recomposição estatista (keynesiana) do capitalismo central, emergida da Segunda Guerra Mundial, teve uma era dourada de apenas um quarto de século (aproximadamente 1945-1970). A seguir iniciou-se uma sucessão de turbulências que duram até o presente.

Mais adiante, a partir dos anos 1980, surgiu o que os meios de comunicação anunciavam como recomposição neoliberal do sistema. Contudo, os dados frios demonstram que para além do barulho mediático optimista se verificava uma deterioração sistémica que se aprofundava com o decorrer dos anos. As taxas de crescimento produtivo global, principalmente nos países centrais, foram-se reduzindo em termos de tendência a longo prazo, a economia mundial foi-se financiarizando até que em finais da primeira década do século XXI a massa financeira global equivalia a vinte vezes do Produto Bruto Mundial. Os estados, as empresas e os consumidores dos países ricos endividavam-se vertiginosamente até ficarem esmagados pelas dívidas.

Esta longa degradação tem todas as características de uma decadência – lenta se a medirmos segundo os ritmos do século XX. Trata-se de uma trajectória de aproximadamente quatro décadas cujo arranque pode ser situado no período 1968-1973/74. A partir daí a expansão do capitalismo global combina-se com a deterioração das suas componentes fundamentais que vão sendo encobertas pelo parasitismo financeiro e consumista, por uma militarização desestruturante e onde a dinâmica tecnológica está no centro de uma depredação sem precedentes dos recursos naturais. O percurso não atinge um ponto de regeneração e sim, muito pelo contrário, por volta dos anos 2007-2008-2009 produz-se um verdadeiro salto qualitativo e a decadência radicaliza-se convertendo-se num fenómeno de auto-destruição.

Decadência geral do sistema e não crise longa nem de crescimento como ocorreu na Europa no século XVII e entre fins do século XVIII e princípios do XIX. Tão pouco aparecem, como no período 1914-1945, manifestações de declínio mescladas com outras de recomposição marcadas pelo declínio da Europa centro-ocidental e a ascensão dos Estados Unidos.

Em relação a este último é necessário assinalar que do ponto de vista da dinâmica do capitalismo mundial a China dos princípios do século XXI não é o equivalente dos Estados Unidos da primeira metade do século XX. A economia chinesa é periférica em relação às potências centrais, seu desenvolvimento depende da sua estrutura industrial-exportadora atada aos seus principais clientes: os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão, compradores do grosso das suas exportações que constituem aproximadamente a metade da sua produção industrial e em consequência cerca de 25% do seu Produto Interno Bruto.

Ela o faz a partir da sua mão-de-obra barata, o que permite a essas potências sobre-explorar de maneira directa e indirecta uns 230 milhões de operários industriais e um leque ainda mais vasto de trabalhadores chineses. Acumula mais de 3,5 milhões de milhões de dólares de reservas, montanhas de papeis de valor futuro incerto, o endividamento estatal e empresarial cresce vertiginosamente e sua economia está plenamente integrada no emaranhado financeiro global que provoca impacto no seu interior, gerando bolhas especulativas, distorções inflacionárias, corrupção institucional [5] .

O seu desinchar actual, em acordo com o estancamento dos centros imperiais, é inevitável e as tentativas das autoridades para suavizá-lo, contê-lo dentro de limites manejáveis, chocam-se cada vez mais com uma configuração social elitista que bloqueia a expansão do mercado interno. A isto acrescenta-se a rigidez de estruturas transnacionais transnacionalizadas, incorporadas a redes comerciais e financeiras globais, tecnologicamente modeladas pela procura dos países ricos cuja reconversão à procura local constitui uma espécie de quadratura do círculo.

Enquanto isso a China saiu da existência marginal e miserável a que a havia condenado a decadência do velho império e a colonização ocidental e hoje dispõe de um potencial industrial, científico-tecnológico, militar, etc (produto dos processos de desenvolvimento iniciados há pouco mais de seis décadas) que a converte num protagonista decisivo das futuras turbulências internacionais.

A visão de uma China " mais desenvolvida" pode ser estendida ao conjunto da periferia, em especial seus grandes países como a Índia, Brasil ou Rússia e a outros de menor porte como a África do Sul, Argentina ou Venezuela, o que conduz inevitavelmente em direcção ao campo das ilusões em torno da renovação do capitalismo global a partir da periferia, do seu arranque positivo em relação à decadência ocidental (e japonesa). Mas os dados sobre a China, Índia, Brasil, Rússia, etc, mostram a integração dessas economias à rede financeira global centrada nos espaços especulativos do Ocidente. E apesar de ser certo que as economias periféricas emergentes continuam a crescer, não é menos certo que o seu crescimento se vai desinchando. Isso acontece com uma defasagem temporal que se vem sustentando durante o último lustro, mas que poderia ser corrigida proximamente de maneira abrupta.

Ainda que este esclarecimento deva ser associado ao facto de que se verificou uma mudança significativa na geografia económica mundial, sobretudo ao longo da última década. Portanto, agora uma parte significativa da periferia apresenta níveis relativos de desenvolvimento industrial, militar, urbano, etc que a tornam menos submissa à hierarquia global tradicional do capitalismo, mais independente do ponto de vista político. Medida em "paridade de poder de compra", a soma dos PIB de três países periféricos – Brasil, Índia e China – hoje é equivalente à das grandes economias ocidentais (Inglaterra, França, Canadá, Itália, Alemanha e Estados Unidos) e o comércio entre os países do Sul é quase igual ao que existe entre os países do Norte.

O futuro agravamento da deterioração do capitalismo global abre portanto importantes espaços de autonomia na periferia, que agora conta com bases produtivas e culturais que lhe poderiam permitir atravessar com maior facilidade as barreiras burguesas e defender-se de eventuais agressões externas. Pensemos por exemplo na onda de movimentos sociais e nos crescimentos produtivos da América Latina na última década, na China passando de 50 milhões para 230 milhões de operários industriais num quarto de século, numa periferia onde as comunicações expandiram-se exponencialmente: a massificação da Internet em princípios da década passada era uma marca característica dos países centrais, mas actualmente na periferia os utilizadores de Internet superam as 1500 milhões de pessoas contra pouco mais de 600 milhões nos países centrais.








Isto nos leva ao primeiro indicador da decadência global: o declínio sem substituição à vista do centro dominante (ocidental) do sistema. A integração (política, militar, financeira, etc) das grandes potências capitalistas em torno dos Estados Unidos moldou uma espécie de imperialismo colectivo que só um grau muito avançado da decadência poderia chegar a desfazer. Por outro lado, nenhuma das economias importantes da periferia está em condições de ser converter em super-potência imperialista planetária. Fica colocada a possibilidade teórica de um capitalismo mundial sem centro imperialista, ou seja, sem um amo capaz de impor regras de jogo ao conjunto do sistema diante do qual estas regras seriam o resultado de uma espécie de idílica harmonia universal. Desse modo, uma formação social essencialmente autoritária conseguiria funcionar de modo democrático no plano internacional estabelecendo regras de jogo minimamente estáveis: um verdadeiro milagre histórico. A outra alternativa seria a do funcionamento do sistema sem regras de jogo estáveis a reproduzir-se positivamente em meio ao caos: um milagre histórico ainda maior.

A este indicador decisivo é possível acrescentar outros como a tendência (desde os anos 1970 até o presente) à desaceleração do crescimento global, a hipertrofia (hegemónica) as redes financeiras cuja expansão entrou no nível da metástase invadindo-degradando a totalidade do sistema global, a evidência de rendimentos produtivos decrescentes da revolução tecnológica que submetida à dinâmica do capitalismo parasitário vai-se convertendo num factor de destruição líquida de forças produtivas, o estancamento ou declínio na extracção de recursos naturais não renováveis decisivos (como por exemplo o petróleo), a decadência do estado burguês, sua transformação nos países centrais num aparelho manipulado por bandos mafiosos, a desintegração social no centro, principalmente nos Estados Unidos.

As diferentes "crises" das últimas quatro décadas ficam portanto inscritas num processo de decadência sistémica de longa duração. A última crise iniciada em 2007-2008 inaugurou uma etapa em que a decadência experimenta um gigantesco salto qualitativo. A tendência iniciada nos anos 1970 para a redução das taxas de crescimento económico global começa a bater no piso: o fatídico crescimento zero. Ele já chegou para a União Europeia, para o Japão que depois de atravessá-lo agora navega na recessão e para os Estados Unidos, esgotam suas últimas artimanhas financeiras. As reactivações são cada vez mais custos e menos eficazes.

Os países centrais já se encontram a percorrer uma nova etapa em que o desemprego em grande escala, a concentração acelerada de rendimentos e o desmantelamento de tecidos produtivos passam a ser aspectos "normais" da sua vida económica e onde os discursos acerca de uma futura recomposição perderam toda a credibilidade. O que parecia ser uma fanfarronada de especialistas quando em Agosto de 2012 o banco francês Natixis anunciava que "a crise na zona euro pode durar até vinte anos" surge hoje como um prognóstico relativamente realista [6] . O que não parece realista é supor que a "zona euro" poderia sobreviver como espaço monetário comum durante duas décadas de contracção económica permanente, salvo se a referência futurista à "zona euro" limitar-se ao espaço geográfico.

É necessário ir mais além da economia integrando-a à totalidade social, o que nos permite descrever estratégias, interacções perversas entre estruturas militares, financeiras, mediáticas, religiosas, parlamentares, etc das potências centrais, ou seja, mecanismos de reprodução do sistema cujos manipuladores submergem-se no pântano do desespero, da psicologia do náufrago sem esperança. O capitalismo global bloqueado do ponto de vista económico elabora e põe em execução estratégias político-militares de rapina periférica destinadas a apropriar-se e explorar intensamente até ao esgotamento o conjunto de recursos naturais do planeta e espremer até a sua extinção os mercados periféricos compensando assim a redução dos benefícios produtivos e dos mercados internos centrais. A apontar contra a maior parte do território global e uma população de vários milhares de milhões de pessoas que o habitam, a referida estratégia ameaça provocar o maior desastre humano e ambiental da história.

Seria a liquidação a periferia, devorada numa poucas décadas. Mas a história do capitalismo, desde a sua origem, é a da articulação imperialista entre centro e periferia. Sendo esta última a base central na reprodução ampliada da civilização burguesa, a sua destruição integral equivaleria à anulação de um pilar decisivo do sistema. Mais ainda: se visualizarmos o "centro" e a "periferia" como formas específicas da totalidade capitalista mundial (não há desenvolvimento no centro sem subdesenvolvimento na periferia) a anulação do subúrbio global, sua transformação num caos não é o esmagamento de uma realidade externa e sim de um espaço inferior interno estreitamente inter-relacionado com os níveis superiores do sistema global através de um conjunto de redes visíveis e invisíveis, de infinitas inter-penetrações. A destruição [portanto] é a auto-destruição do mundo burguês, da sua história, de subsistemas decisivos para a sua reprodução.

A destruição do Iraque, do Afeganistão, da Líbia, da Síria, do México e das próximas vítimas pode chegar a ser pensada pelos membros mais duros das elites imperiais como uma auto-destruição parcial, sacrifício necessário para a sobrevivência do sistema. Nesse caso, encontramo-nos perante um pensamento delirante, uma profunda crise de percepção da realidade cindida artificialmente entre dois planetas: o próprio, humano, desenvolvido, e o outro, simiesco, inferior, subdesenvolvido, condenado a perecer. Mas as estratégias imperiais não se limitam a circular pelo mundo imaginário, golpeiam o mundo real e ao fazê-lo desestruturam o sistema na sua totalidade: a destruição da periferia converte-se em auto-destruição do capitalismo como totalidade universal.

As origens: do parasitismo ao capitalismo industrial

O Ocidente iniciou sua corrida imperial com uma primeira arremetida que terminou em fracasso. Ao despertar o segundo milénio produziram-se paralelamente fenómenos cuja interacção criou as bases para uma grande transformação social. As cruzadas foram a primeira tentativa séria, em grande escala, de ocupação e saqueio colonial de um espaço rico e o seu longo desenvolvimento engendrou mudanças e ampliações significativas das actividades militares. Por outro lado, redes de mercadores e banqueiros começaram a instalar-se implantando embriões de capitalismo.

Na mesma época, impulsionado por um sector "modernizador" da igreja, os monges cisterciences, desenvolveu-se um conjunto de inovações técnicas que alguns historiadores qualificam como "primeira revolução industrial". Elas causaram transformações da produção agrícola em espaços limitados da Europa ocidental (introdução do moinho hidráulico, do arado metálico, difusão de melhoras de sementes, etc). Também foram dados importantes passos estabelecendo elementos embrionários para futuros desenvolvimentos da ciência moderna. Um dos seus capítulos decisivos foi a dessacralização da "natureza", sua percepção como realidade externa, hostil mas que podia ser racionalizada, controlada, explorada, base das grandes revoluções tecnológicas do capitalismo... e do desastre ambiental que agora experimentamos [7] .

Encontramo-nos assim perante o desdobramento de uma grande transformação cultural apoiada no militarismo colonial e em emergências comerciais e financeiras, engendrando desenvolvimentos técnico-produtivos, ideológicos, etc. A ascensão do parasitismo colonial, militar, comercial e financeiro começava a produzir modernidade burguesa.

Mas as cruzadas foram derrotadas. A expansão colonial em direcção ao rico Médio Oriente foi contrariada pela resistência das vítimas, frustrando o saqueio. Por outro lado, os esforços e êxitos iniciais dos saqueadores havia desordenado a sua retaguarda: a cristandade ocidental (o espaço imperialista). A combinação desses processos gerou no Ocidente um retrocesso produtivo geral, lutas intestinas, a deterioração do sistema alimentar e do estado de saúde da população. Tudo isso culminou em meados do século XIV com a "peste negra", epidemia que se expandiu facilmente numa sociedade frágil atravessada pela fome e causou uma gigantesca queda demográfica.

Esse mega desastre significou a sepultura do feudalismo que vinha sendo desestabilizado pela sua expansão interna e externa. Isso incluiu o seu sistema militar: o ano 1348 é o do início da peste negra mas em 1346 verificou-se a batalha de Crecy onde a cavalaria francesa com as suas imponentes e pesadas armaduras, força blindada aparentemente invencível, foi derrotada pela infantaria inglesa assinalando o ocaso da velha configuração social [8] [NT] .

Mas a segunda arremetida colonial teve êxito. A sucessão de ondas de pilhagem e controle da periferia iniciada no século XV culminou, quase quinhentos anos depois, com a dominação total do planeta. Os pilares sobre os quais se instalou a modernidade foram em primeiro lugar a depredação periférica que potenciou a expansão comercial e financeira e, apoiado por esta última, o desenvolvimento das estruturas militares, sua renovação técnica, parte essencial do desenvolvimento de estados despóticos. Foi esse complexo colonial, estatal, militar, comercial e financeiro o pai da modernidade burguesa, acumulando riquezas, destruindo estruturas sociais internas e criando mercados prósperos, açambarcando terras, expulsando camponeses para as cidades, formando desde fins do século XVIII massas de pobres urbanos, mão-de-obra barata do capitalismo industrial. Historicamente não foi o capitalismo produtivo (e a cultura burguesa em geral) o berço do estado moderno, do militarismo e das finanças e sim exactamente o inverso.

Com toda razão, Robert Kurz referia-se às "origens destrutivas do capitalismo" colocando o desenvolvimento militar como o disparador da modernidade [9] . O "Arsenal de Veneza", fábrica militar avançada do século XVI sem cuja existência é impossível explicar o resultado da batalha de Lepanto, ou seja, a vitória estratégica do Ocidente sobre o Império Otomando, foi uma das escolas mais importantes de organização industrial. Suas inovações em matéria de divisão e programação do trabalho assentaram as bases da produção capitalista.

Mas junto ao senhor da guerra, à monarquia despótica, encontrava-se o banqueiro, por sua vez ligado a negócios comerciais. Exemplo: a Casa Fugger, facilitando fundos ao imperador Carlos I e seu descendente Felipe II, titulares de um vasto sistema colonial.

A revolução industrial chegará mais de dois séculos depois, disposta sobre um enorme excedente (surplús) histórico [10] que foi não só acumulação de riquezas coloniais como também disciplinamento social por parte do estado e do seu dispositivo militar.

Desta vez o parasitismo pôde parir capitalismo com tanto êxito que conseguiu ocultar a memória das suas origens e desse modo instalar armadilhas ideológicas destinadas não só a construir legitimidade produtivista como também para confundir tanto os seus partidários como os seus inimigos.

Uróboros.

O mito de uróboros, da serpente que se devora a si mesma atravessa várias civilizações desde a Grécia Clássica até o Antigo Egipto, chegando ao Ocidente medieval. Fundamenta-se na ilusão conservadora de que a serpente começa devorando sua cauda e ao fazê-lo vai regenerando seu próprio corpo num jogo infinito onde o começo é ao mesmo tempo o fim e vice-versa, consumando-se o eterno retorno, a imortalidade do mundo. O mito pareceria encontrar uma referência concreta em casos observáveis desse animal a alimentar-se e suicidar-se ao mesmo tempo. O espectáculo é aterrador.

A confrontação entre o mito e a sua referência real sugere a reflexão em torno do que poderia ser qualificado como "armadilha de uróboros": a civilização burguesa, tal como outras civilizações anteriores em decadência, considera que devorar uma parte mais longínqua, menos próxima da cabeça imperial, recupera forças e dinamiza seu funcionamento. Não experimenta nenhuma sensação de horror, não se angustia e sim, muito pelo contrário, provisoriamente sente-se melhor, melhora a sua auto-estima fundada no esmagamento e pilhagem dos fracos. Para que se ponha em marcha e avance o processo de suicídio é necessário que o suicida realize uma espécie de ruptura psicológica com a parte do seu corpo que está a ser sacrificada. A cauda deixa de ser cauda ou, talvez, passa a ser a cauda de outro animal. A periferia deixa de ser periferia do sistema e converte-se em outro universo, seus habitantes deixam de ser seres humanos. A realidade afasta-se da cabeça, a crise de percepção converte-se em loucura suicida.

O fenómeno tem antecedentes na história do sistema, nos seus mecanismos de reprodução desde as suas origens mais longínquas, atravessando suas etapas mais prósperas.

Dito de outro modo, debaixo das revoluções culturais e produtivas da modernidade, do progresso no seu sentido mais amplo, podemos encontrar pistas que nos conduzem ao actual processo de auto-destruição sistémica global. A dissociação homem-natureza, fundamento das revoluções técnicas da modernidade, converte-se finalmente em degradação ambiental planetária. A exploração imperialista da periferia, interacção desenvolvimento-subdesenvolvimento como motor histórico da expansão global de forças produtivas tende agora ao extermínio de sociedade e recursos naturais, as finanças impulsionadoras de mercados e investimentos industriais transforma-se em devoradora de tecidos produtivos e capacidades de consumo, etc.

O mito de uróboros exprimiu-se na tradição europeia-nórdica como Jörmungander, uma gigantesca serpente cujo crescimento, numa das versões do tema, leva-a a rodear completamente o planeta até chegar à sua própria cauda iniciando-se a autofagia apresentada como o resultado inevitável do êxito do processo expansivo. Este encontra o limite superior, o máximo nível de expansão, não como fronteira externa ao monstro e sim como auto-bloqueio. A solução para a tragédia não passa por persuadir a serpente, totalmente decidida a seguir o rumo escolhido inscrito na sua dinâmica de desenvolvimento, e sim na metamorfose – a transformação radical da besta num ser diferente. Não há outro capitalismo possível, o que abre a perspectiva do pós-capitalismo e instala dramaticamente a sua necessidade histórica.

(1) Robert Kaplan, " El retorno de la Antigüedad" , Ediciones B, Barcelona, 2002.
(2) Juvenal, Satiras, Editorial Gredos, Madrid, 1991, Satira VI.
(3) Angelo Tasca, "El nacimiento del fascismo", pp. 152-153, Crítica, Barcelona, 2000.
4) Max Horkheimer, "Éclipse de la Raison", pp. 29-30, Payot, París, 1974.
(5) Os dados estatísticos aqui assinalados apoiam-se em números dos anos 2011 e 2012.
(6) Natixis, " The euro-zone crisis may last 20 years ", Flash Economics-Economic Research, August 16th 2012 - Nº 534
(7) Jean Gimpel, "La révolution industrielle du Moyen Age", Éditions du Seuil, Paris, 1975.
(8) A batalha de Crecy constituiu um acontecimento decisivo mas não foi a primeira da série. Em 1302 as milícias populares de Courtrai (Bélgica) haviam derrotado a pé, com chuços e lanças, a cavalaria feudal do Conde de Artois. A cavalaria feudal foi-se desmoronando gradualmente, golpeada por uma realidade social em transformação. Em 1415, a batalha de Agincourt, onde novamente a cavalaria francesa foi aniquilada pela infantaria inglesa, encerra definitivamente o ciclo militar do feudalismo. O processo desenvolveu-se ao longo do espaço europeu durante algo mais de um século. Exemplo: a infantaria suíça derrotou a golpes de machado (uma alabarda com mais dois metros de comprimento) a cavalaria austríaca em Morgarten (1315), Laupen (1339), Sempach (1386).
(9) Robert Kurz, "Los orígenes destructivos del capitalismo", 1997,
www.oocities.org/pimientanegra2000/kurz_origen_destructivo_capitalismo.htm
(10) Anouar Abdel Malek, "Political Islam", Socialism in the World, Number 2, Beograd 1978.

[NT] Caso análogo ao da batalha de Aljubarrota, em que a infantaria portuguesa derrotou a cavalaria castelhana. Ver artigo do General Vasco Gonçalves: A Revolução de 1383-85

[*] Professor da Universidade de Buenos Aires. Comunicação apresentada na jornada internacional "CHAVEZ SIEMPRE" Crisis mundial y agresiones imperialistas: Venezuela y las luchas emancipadoras en Nuestra América. Jueves 23 mayo, Auditorio Alcaldía Girardot, Maracay. Tradução de JF.

Este ensaio encontra-se em http://resistir.info/ .

13/Jun/13

Precários inflexíveis

http://vimeo.com/42102847

Vampiros: eles comem tudo, não nos deixam nada.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Austeridade, desemprego maciço e emigração na UE

por James Petras
Muitos milhares de milhões de euros estão a ser sugados às nações vassalo-devedoras da Europa – Espanha, Grécia, Portugal e Irlanda – e a ser transferidos para os bancos credores, para os especuladores financeiros e para vigaristas sediados na City de Londres, em Wall Street, em Genebra e em Frankfurt.

Ao abrigo do que foi designado por programas de 'austeridade' os regimes conservadores e social-democratas estão a arrebanhar grandes pagamentos tributários através de cortes orçamentais selvagens, sem precedentes, em salários, investimentos públicos, programas sociais e emprego. O resultado tem sido um crescimento catastrófico no desemprego, no subemprego e no trabalho precário, que atinge mais de 50% entre os trabalhadores jovens com menos de 25 anos e entre 15% e 32% da força de trabalho total. Os ordenados, salários e pensões têm sofrido cortes entre 25% e 40%. A idade de reforma foi alongada de 3 a 5 anos. Os contratos de trabalho (apelidados de 'reformas') concentram o poder exclusivamente nas mãos dos patrões e dos empreiteiros que impõem condições de trabalho que fazem lembrar o início do século XIX.

Para perceber em primeira mão a crise capitalista e as reacções dos trabalhadores, passei a maior parte de Maio na Irlanda e no País Basco encontrando-me com líderes laborais, militantes de base, trabalhadores desempregados, activistas políticos, académicos e jornalistas. Inúmeras entrevistas, observações, publicações, visitas a locais de trabalho e a lares familiares – em cidades e aldeias – constituem a base deste artigo.

Irlanda e País Basco: Crises comuns e reacções divergentes

As nações, sociedades e economias irlandesas e espanholas (que incluem o País Basco pendente de um referendo) – têm sido vítimas de uma prolongada e profunda depressão capitalista que tem devastado o nível de vida de milhões. O desemprego e o subemprego na Irlanda atinge os 35% e no País Basco ultrapassa os 40%, em que o desemprego juvenil atinge os 50%. Ambas as economias se contraíram em mais de 20% e não mostram sinais de recuperação. Os partidos no governo reduziram as despesas públicas entre 15% a 30% numa série de serviços sociais. Através de operações de salvamento aos bancos, do pagamento aos credores externos, e sujeitando-se aos ditames da 'troika' autocrática (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia), a classe dominante capitalista na Irlanda e na região basca impossibilitaram quaisquer possíveis investimentos para recuperação. O chamado programa de 'austeridade' é imposto apenas aos trabalhadores, empregados e pequenos comerciantes, nunca à elite. A 'troika' sediada em Bruxelas e os seus colaboradores locais reduziram ou eliminaram impostos empresariais e proporcionam subsídios e outros incentivos monetários para atrair empresas multinacionais e capital financeiro estrangeiro.

Os partidos políticos burgueses em exercício, no poder no início do colapso, foram substituídos por novos regimes que estão a assinar acordos adicionais com a 'troika' e os banqueiros. Estes acordos impõem cortes ainda mais profundos e mais selvagens no emprego público e enfraquecem ainda mais os direitos dos trabalhadores e a sua protecção. Os patrões passaram a ter poderes arbitrários para contratar e despedir trabalhadores sem aviso prévio, sem indemnizações por rescisão ou pior ainda. Alguns contratos na Irlanda permitem que os patrões exijam reembolso parcial de salários se os trabalhadores forem forçados a abandonar os seus empregos antes do fim do contrato, por abuso dos patrões. A economia espanhola – incluindo o País Basco – está sujeita a uma forma moderna de 'pagamentos tributários' ditados pela oligarquia imperialista dirigente em Bruxelas. Esta oligarquia não é eleita e não representa o povo que tributa e explora. Responde apenas perante os banqueiros internacionais. Por outras palavras, a União Europeia tornou-se um verdadeiro império – governado pelos e para os banqueiros com sede na City de Londres, em Genebra, em Frankfurt e na Wall Street. A Irlanda e o País Basco são governados por regimes vassalos colaboradores que implementam a pilhagem económica do seu eleitorado e impõem os ditames da oligarquia da UE – incluindo a criminalização dos protestos políticos de massas.

As semelhanças nas condições socioeconómicas entre a Irlanda e o país basco perante a crise, a austeridade e o domínio imperialista contrastam, no entanto, com as reacções profundamente divergentes dos trabalhadores nas duas regiões devido a estruturas políticas, sociais e económicas, a histórias e a práticas profundamente diferentes.

Enfrentando a crise: Luta basca, luta irlandesa

Perante a crise de longo prazo, em grande escala, a Irlanda tornou-se no estado vassalo 'modelo' para os estados credores imperialistas. A confederação sindical irlandesa mais importante e os partidos políticos dominantes – incluindo o Partido Trabalhista actualmente em coligação com o Partido Fine Gael governante – assinaram uma série de acordos com os oligarcas de Bruxelas para grandes cortes no emprego público e nas despesas públicas. Em contraste, a Comissão de Trabalhadores Bascos, ou LAB, de militância pró-independência, promoveu sete greves gerais com êxito com mais de 60% de participação de trabalhadores no país basco – incluindo a última em 30 de Maio de 2013.

As políticas colaboracionistas de classe dos sindicatos irlandeses levaram a uma profunda fractura geracional – com os trabalhadores mais velhos a assinar acordos com os patrões para 'preservar' os seus postos de trabalho à custa da segurança de emprego para os trabalhadores mais jovens. Sem meios organizados para a luta de massas, os trabalhadores irlandeses jovens têm vindo a sair do país em quantidades nunca vistas desde a Grande Fome de meados do século XIX: nos últimos quatro anos emigraram mais de 300 mil e prevê-se a saída de mais 75 mil em 2013, numa população trabalhadora de 2,16 milhões. Perante esta catástrofe do século XXI, o azedume e a 'fractura geracional' dos trabalhadores emigrantes exprime-se no nível muito baixo de remessas que são enviadas para 'casa'. Uma das razões por que a taxa de desemprego irlandesa se mantém em 14% em vez de 20-25% é a fuga espantosa de trabalhadores jovens para o estrangeiro.

Em contraste, não existe essa emigração em massa de trabalhadores jovens no país basco. Em vez da fuga, intensificou-se a luta de classes. A luta pela libertação nacional ganhou apoio entre a classe média e os pequenos comerciantes que enfrentam o fracasso total do regime de direita em Madrid (governado pelo auto-intitulado 'Partido Popular') em deter a espiral descendente. A fusão da luta de classes com a luta nacional no país basco tem combatido quaisquer acordos de resgate assinados pelos sindicatos 'moderados', pelas Comissões de Trabalhadores (CCOO) e pela União Geral de Trabalhadores (UGT). O LAB, a activa Comissão de Trabalhadores Bascos, tem uma influência muito maior do que o seu número de trabalhadores sindicalizados formalmente filiados pode sugerir. A capacidade do LAB para a mobilização está alicerçada na sua influência entre delegados de fábrica que são eleitos em todos os locais de trabalho e que ultrapassam em muito todos os membros sindicalizados. Nas reuniões de delegados em assembleias, os trabalhadores discutem e votam a greve geral – ultrapassando frequentemente ordens das sedes centrais em Madrid. A democracia directa e a militância de base libertam os trabalhadores bascos militantes da estrutura sindical burocrática e centralizada que, na Irlanda, tem imposto 'cedências' retrógradas às empresas multinacionais.

No País Basco, há uma poderosa tradição de cooperativas, em especial no complexo industrial de Mondragon, que criou uma solidariedade operária nas comunidades urbano-rurais que não existe entre operários irlandeses. Os mais importantes políticos e conselheiros económicos irlandeses ajoelharam-se perante as empresas multinacionais, oferecendo-lhes as taxas de impostos mais baixas, isenções de impostos a um prazo maior e regulamentações laborais mais submissas do que em qualquer outro país da União Europeia.

No país basco, o partido político nacionalista-socialista EH Bildu-Sortu, o jornal diário Gara e o LAB proporcionam apoio político e ideológico durante greves, actos eleitorais e mobilizações de massas com base na luta de classes. Em conjunto, contestam os programas de 'austeridade' numa força unida.

Na Irlanda, o Partido Trabalhista, supostamente ligado aos sindicatos, aderiu à actual coligação governamental. Acordaram numa nova vaga de cortes em despesas sociais, demissões de funcionários públicos e reduções de ordenados e salários de 20%. A liderança sindical pode estar dividida quanto a estes cortes drásticos mas mesmo assim a maioria apoia o Partido Trabalhista. O sindicato de trabalhadores retalhistas, mais militante, rejeita os cortes mas não tem alternativa política. Para além do apoio do Sein-Fein republicano-nacionalista e de partidos de esquerda mais pequenos – a classe política não oferece nenhum programa ou estratégia política progressista. O Sein Fein fez a 'transição' da luta armada para a luta eleitoral. Segundo as últimas sondagens (Maio de 2013), duplicou a sua taxa de aprovação eleitoral de menos de 10% para 20% devido à crise. No entanto, o Sein Fein está dividido internamente: a ala 'esquerda' pró-socialista procura intensificar a luta 'anti-austeridade' enquanto os líderes parlamentares 'republicanos' se concentram na unificação e desvalorizam a luta de classes. Em consequência da sua colaboração com a 'troika' e com as novas leis tributárias regressivas, o Partido Popular está a perder o apoio e o partido tradicional de direita, o Fianne Fail, que presidiu às vigarices maciças, à explosão especulativa e às cedências às empresas, está a conseguir uma recuperação eleitoral – e pode mesmo reconquistar o poder! Isso ajuda a explicar porque é que os trabalhadores irlandeses perderam a esperança em qualquer mudança política positiva e estão a fugir em debandada da perpétua insegurança quanto ao emprego, imposta pela sua elite: 'Vale mais um bilhete de avião para a Austrália do que a vida inteira de servidão por dívida, de leis de bancarrota regressiva e de contratos ditados pelo patronato aprovados por chefes sindicais que recebem salários de seis dígitos'.

A revolta do país basco contra o governo centralizado em Madrid baseia-se em parte no facto de ser uma das regiões de Espanha mais produtiva, mais avançada tecnologicamente e mais progressista socialmente. O desemprego basco é menor do que o do resto de Espanha. Os níveis mais altos de educação, um sistema de saúde regional abrangente, especialmente nas zonas rurais e uma rede alargada de assembleias locais eleitas, aliados às heranças únicas linguística e cultural, fez avançar a nação basca para uma maior autonomia política. Para muita gente é isto que marca os bascos como 'vanguarda' política na luta contra os ditames neo-liberais da UE e do decrépito regime em Madrid.

Conclusão: Perspectivas políticas

Se continuarem as actuais políticas de austeridade e as tendências de emigração, a Irlanda tornar-se-á um 'país esvaziado', com monumentos históricos, bares repletos de turistas e igrejas antigas, destituído dos seus trabalhadores mais ambiciosos, mais bem treinados e mais inovadores: um paraíso fiscal des-industrializado, as Ilhas Caimão do Atlântico Norte.

Nenhum país do seu tamanho e dimensões pode manter um estado viável confrontado com os actuais e continuados níveis de emigração dos seus trabalhadores jovens. A Irlanda será recordada pelos seus postais ilustrados e isenções fiscais temporárias. Contudo, ainda há esperança se os republicanos de esquerda do Sein Fein, os socialistas, os comunistas e os activistas anti-imperialistas se juntarem aos desempregados e aos trabalhadores mal pagos e formarem novas redes de base. Em determinada altura as portas giratórias dos políticos irlandeses que entram e saem dos cargos podem acabar por parar. Os jovens desempregados, educados e irritados podem decidir ficar em casa, defender o seu terreno e virar as suas energias na direcção de uma rebelião popular. Um líder socialista consequente resumiu assim: "O profundo pessimismo e a influência da falência da social-democracia e da ideologia imperialista no seio do movimento laboral são muito fortes. Como sabem, não podemos encetar uma viagem a não ser a partir do sítio em que estamos". A determinação e a convicção dos militantes sindicalistas irlandeses é na verdade uma razão para ter esperanças e para acreditar que a fuga actual se pode transformar numa luta futura.

No caso do país basco, a crescente luta de massas de classes e nacional, ligada à herança de poderosas cooperativa e das assembleias de trabalhadores com base na solidariedade, fornece a esperança de que o actual regime reaccionário em Madrid possa ser derrotado. A junta dirigente neo-fascista (o partido dirigente ainda presta homenagem à ditadura e às forças armadas de Franco) está cada vez mais desacreditada e é obrigada a recorrer a uma maior repressão. No que se refere aos movimentos militantes bascos, o regime tomou medidas provocadoras violentas: criminalizou os protestos legais de massas, prendeu defensores da independência sob acusações falsas e proibiu expressamente a exibição pública das fotos de prisioneiros políticos (a que Madrid chama 'terroristas'). É nítido que o governo está cada vez mais preocupado com a força das greves gerais, do crescente poder eleitoral da esquerda pró-independência – e tem estado a tentar provocar uma 'resposta violenta' como pretexto para proibir a imprensa, o partido e o programa do EH Bildu Sortu e do LAB.

A minha sensação é que Madrid não vai conseguir. A Espanha, enquanto estado centralizado, está a desintegrar-se: as políticas neoliberais destruíram os elos económicos, estilhaçaram os laços sociais e abriram a porta ao avanço dos movimentos sociais de massas. O sistema bipartidário está a desmoronar-se e as políticas colaboracionistas de classe das tradicionais confederações sindicais estão a ser contestadas por uma nova geração de movimentos autónomos.


30/Maio/2013

O original encontra-se em www.globalresearch.ca/... . Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

05/Jun/13

terça-feira, 4 de junho de 2013

España: El sueño igualitario de los campesinos de Huesca (1936-1938)

Pelai Pagès i Blanch (SIN PERMISO)

En el transcurso del verano de 1936 se inició en tierras aragonesas un proceso
inédito en cualquier otro momento de la historia, que sólo recordaba que en
muchas poblaciones las tierras comunales habían tenido un importante papel en la
economía doméstica del campesinado hasta que prácticamente desaparecieron con
las desamortizaciones del siglo XIX. Muy pocas poblaciones escaparon del
proceso, a pesar de que siempre existieron núcleos de campesinos
"individualistas" opuestos a la colectivización y al trabajo en común.

Los datos que disponemos parece que ofrecen pocas dudas: cuando los días 14 y 15
de febrero de 1937 se celebró en Caspe el Primer Congreso Extraordinario de
Colectividades de Aragón se hallaron representadas 275 colectividades, 456
delegados y 141.430 afiliados (1).

Es interesante destacar que de este Congreso surgieron no sólo la Federación
Regional de Colectividades Agrícolas de Aragón, sino también las federaciones
comarcales, que estructuraban las colectividades existentes a nivel comarcal.

La provincia de Huesca concentraba nada menos que un mínimo de 137
colectividades -la mitad de las existentes-, llevó al Congreso a unos 183
delegados -un 40% del total- que representaban a 85.472 colectivistas, el 60% de
todos los que estuvieron representados en el Congreso. Indudablemente, en las
comarcas oscenses el proceso colectivizador había avanzado más que en ningún
otro territorio aragonés y tuvo, sin ningún tipo de dudas una enorme incidencia
en la vida de los campesinos durante los meses en que estuvo vigente. Es cierto
que el proceso no fue automático y que las situaciones que se tuvieron que
resolver no siempre fueron sencillas. Cuando el 21 de marzo de 1937 se celebró
en Sariñena el Pleno de colectividades de la comarca aún no se había creado la
Federación comarcal, y justamente el objetivo de este Pleno era crear dicha
Federación. En dicha Asamblea estuvieron representadas las poblaciones de El
Tormillo, Salillas, Castejón de Monegros, la Estanosa, Lalueza, Sena,
Alcubierre, Capdesaso y Sariñena y cuando el representante de la Federación
Regional de Colectividades, Estivill, tomó la palabra para destacar “la
conveniencia de que todo el campesinado se aúna a la gran familia colectiva y a
su vez en la comarca de Sariñena se cree la Federación Comarcal de
Colectividades”, se inició un debate en el que no todos los delegados estuvieron
de acuerdo. Es cierto que la mayoría se decantaron por la creación de la
Comarcal, puesto que, como dijo el representante de la Estanosa, “así las
colectividades de esta comarca tendrán una garantía de sus medios económicos y
morales”, pero el delegado de Sena sorprendió a todos los asistentes cuando
destacó que “ellos tuvieron una asamblea y acordaron que antes de colectivizarse
era ganar la guerra y que por este motivo están sin entrar en la colectividad.
Aparte de que existe una pequeña colectividad en la cual sólo la componen
compañeros de la UGT”. La sorpresa, habida cuenta que el Pleno lo había
convocado el Comité Comarcal de Sindicatos de Sariñena adscrito a la CNT, fue
mayúscula. Y en las intervenciones posteriores todos destacaron la necesidad de
ir hacia la Federación, pero, habida cuenta del retraso que existía en la
comarca se decidió formar una comisión con el objetivo de que “se encargue de
destacarse por los pueblos de la comarca y organice las colectividades así como
oriente en este mismo sentido”. La comisión se formó con Eusebio Pinós y
Fulgencio Esteban de Sariñena, José Lucas de Sesa y el “camarada Villellas” de
la UGT de Capdesaso. Y la decisión final recabó en el hecho de que cuando la
comisión hubiese terminado sus funciones “entonces se entrará de lleno en la
estructuración de la Federación Comarcal de Colectividades” (2). Era claro que
de lo que se trataba era de iniciar un proyecto inédito en la historia de Aragón
y que planteaba muchas incógnitas para el futuro.

Los principios: La abolición de la "explotación del hombre por el hombre"

"Reunidos una porción de vecinos de esta localidad, se acordó formar una
Colectividad denominada campesina compuesta por afiliados a la F. de T. de la T.
(U.G.T.) y al Sindicato Único (C.N.T.) cuyos fines son los siguientes: 1º.
Mejorar moral y materialmente la vida de sus afiliados, no permitiendo bajo
ningún concepto la explotación del hombre por el hombre" (3).

Así empezaba de manera significativa el Acta de Constitución de la Colectividad
campesina de Capdesaso, firmada el 30 de septiembre de 1937, una fecha muy
tardía, aunque la colectividad se había iniciado mucho antes. De hecho, no es
por casualidad que la mencionada Acta de constitución fijase como el primer fin
que perseguía una declaración de principios y situase como primer objetivo la
desaparición de la dependencia económica de unos hombres con relación a otros.
En el campo, cabe recordarlo, la subordinación económica, basada siempre en la
propiedad de la tierra, había sido históricamente muy dura. La existencia de
jornaleros seguía siendo muy extendida en los años treinta, en un momento en
que, además, la subsistencia del campesino siempre dependía de la voluntad del
propietario.

No es por casualidad, por tanto, que el principio mencionado apareciese muy
pronto entre el campesinado aragonés. Disponemos de otro testimonio de la misma
población de Capdesaso muy elocuente. En este caso se trata de una gestión que
representantes de la población realizaron en noviembre de 1936 cerca del Comité
Provincial Revolucionario de Barbastro. Se trataba en este caso del ganado y de
quienes eran sus dueños. La resolución que redactó el Comité Provincial de
Barbastro no podía ser más concluyente:

"Haviendose (sic) presentado en este Comité Provincial una representación del
Comité Local y otra de las organizaciones C.N.T. y U.G.T. de Capdesaso, para
ponernos en antecedentes de la actuación de los que todavía son amos del ganado
lanar y de los pastores. Determinamos lo que a continuación exponemos:

1º Queda abolida la explotación del hombre por el hombre, por tanto los patronos
del ganado no pueden tener criados, y ser por tanto los que lleven a pastar el
ganado.

2º Queda requisado todo el ganado lanar por el Comité Local de Capdesaso.

3º Sólo el Comité Local dispondrá del ganado ya que representa la voluntad del
pueblo, poniéndolo a disposición de las necesidades de Guerra llevando siempre
un escrupuloso control, dejando para su reproducción a las de cría.

Sirvan estas líneas de satisfacción para los efectos correspondientes.

Os saludo el Comité Provincial

El Secretario
Barbastro 27 de Noviembre de 1936" (4).

El mensaje no podía ser más explícito. También en esta ocasión el principio
figuraba como primer punto. Y en este caso se hacía una referencia explícita a
los "criados". Algo parecido sucedía en la colectividad de Azanuy, en la comarca
de la Litera. Las bases con que se regía esta colectividad quedaban también muy
claras desde su mismo encabezamiento: "La Colectividad se desarrollará en la
forma que las circunstancias lo permitan pero siempre con los medios más
apropiados para impedir que nadie viva con el lucro de otro individuo y por ello
se impondrá la obligación por parte de todos de producir por parte de todos,
para cubrir las necesidades de cada uno" (5).

Era, de hecho, otra manera de decirlo, pero que en todo caso planteaba una
igualdad total y absoluta entre los miembros de la colectividad: "impedir que
nadie viva con el lucro de otro individuo" y obligar a todos a producir "por
parte de todos" era la nueva filosofía que debía regir en la colectividad de
Azanuy. Sin embargo, en las bases de la colectividad de Castejón de Monegros
–significativamente denominada Colectividad de “Hombres Libres”- se volvía al
principio genérico más explícito: "El fin principal de esta Colectividad es
hacer desaparecer la explotación del hombre por el hombre" (6).

Encontraríamos muchos otras referencias genéricas -desde el punto de vista
ideológico y de principios- a este fundamento básico. Pero es interesante
observar como, en algunos casos su aplicación estricta era realmente difícil.
Así sucedió, por ejemplo, en la localidad de Fonz, en la comarca del Cinca
medio, durante la asamblea que la población celebró el 23 de diciembre de 1936.
El segundo punto del orden del día era nada más y nada menos que la "supresión
total de la explotación del Hombre por el Hombre", y cuando se pasó a discusión
"el compañero Vicente Solano pide la palabra y expone que teniendo un hijo en el
Frente, si se le puede prestar un jornalero para efectuar la recolección de sus
cosechas". La respuesta se la dio el compañero Sopena, de la comarcal, que hizo
una referencia "sobre la necesidad que tiene la nueva Sociedad de abolir la
explotación del Hombre por el Hombre, pero no obstante, dice que para demostrar
el buen sentir de los revolucionarios, y en respeto a todos aquellos padres que
tienen sus Hijos en el frente y no quieren sumirse a la vida colectiva, la misma
colectividad le debe prestar algún jornalero, siempre que se considere legal,
pero nunca si se trata de una explotación" (7).

Esta fórmula, que acabó siendo aprobada por la Asamblea, pretendía poner en
evidencia las virtudes del trabajo colectivo, aunque respetando, naturalmente,
que hubiese campesinos que prefiriesen seguir trabajando individualmente su
tierra. En relación a este aspecto, es significativo también destacar el debate
que tuvo lugar en el tercer punto de la asamblea que, textualmente, planteaba la
necesidad de "evitar la vida parásita". Ante la afirmación que hizo el compañero
Prach, "diciendo que por parte de los que no han trabajado nunca no trabajan lo
que deben trabajar", volvió a intervenir Sopena que expuso "que todos,
absolutamente todos, tienen que trabajar, pero que se debe tener muy en cuenta,
que a cada uno se le asigne el trabajo que pueda realizar porque nunca
resultaría útil y menos libertad, el que un compañero sirva para una oficina y
se le mande labrar, eso no puede ni debe ser, y en los demás casos que cada uno
trabaje con arreglo a sus fuerzas". De nuevo la intervención de Sopena fue
aprobada por unanimidad en la asamblea (8). A cada uno, según rezaba una vieja
divisa anarquista, se le debía exigir en la sociedad del futuro según sus
posibilidades.

Abolir la explotación del hombre por el hombre, exigir un trabajo a todos de
acuerdo con las capacidades de cada uno eran, ciertamente, principios muy
antiguos en el seno del movimiento obrero español, que ahora, por primera vez en
la historia, se intentaban aplicar en el seno de unas colectividades agrarias
que representaban una experiencia innovadora y revolucionaria desde todos los
puntos de vista.

La complejidad de las colectividades agrarias.

La experiencia de las colectividades agrarias aragonesas fue breve, muy breve,
en el mejor de los casos duró diez y ocho meses. Además se produjo en el marco
de una guerra cuyo frente de combate estaba muy cerca y condicionaba enormemente
toda la actividad económica. Por lo demás había un sector de la sociedad
aragonesa y de la clase política de la España republicana contrario a las
transformaciones económicas, sociales y políticas que se estaban produciendo.
Todos estos factores, y seguramente algunos más, son imprescindibles para poder
entender y valorar un fenómeno tan simple, pero a la vez tan complejo, como
fueron las colectividades aragonesas.

He escrito en otros sitios que desde un punto de vista ideológico y político es
muy fácil arrojarlas al basurero de la historia y calificarlas como un
experimento pueril e ingenuo, además de violento y amenazador, tan fácil como
hacer de ellas una apología eterna para compararlas poco menos que con el
paraíso terrenal de la igualdad y la fraternidad. Soy consciente de que estoy
citando los dos extremos con que han sido valoradas las colectividades. Y que en
la historiografía existente hay además muchos matices. Pero, de entrada, es
evidente que la experiencia refleja la voluntad de cambio que existía en la
sociedad rural aragonesa, como en el conjunto de la española, después de un
período republicano -el de la República del 14 de abril- lleno de frustraciones.
Hay que recordar que la Reforma Agraria que impulsó la República durante el
primer bienio se acabó convirtiendo en un fracaso absoluto que, además, dio
argumentos a la derecha y al caciquismo, tan arraigado en el campo español, para
potenciar una reacción que irritó aún más los ánimos de los campesinos. Unos
campesinos, además, que desde hacía décadas vivían en el límite de la
subsistencia, sometidos a la violencia estructural de un sistema de la propiedad
totalmente injusto impuesto a lo largo del siglo XIX, cuando con las
desamortizaciones, además de expulsar a los campesinos de las tierras que
trabajaban, impusieron en el campo las nuevas relaciones capitalistas y el nuevo
sistema de propiedad basado en el capitalismo.

En estas condiciones, evidentemente, cuando los campesinos, sobre todo de
aquellas zonas latifundistas, vieron la posibilidad histórica de cambiar de raíz
el sistema, aprovecharon la ocasión. Es innegable que en un cierto sentido se
puede argüir que las colectividades vinieron impuestas por una determinada
ideología y que en el caso aragonés tuvieron un peso evidente las milicias
anarquistas procedentes de Cataluña, pero como ya dije al principio la
improvisación fue relativa: se trataba de impulsar un proyecto de sociedad cuyas
líneas generales se habían formulado desde hacía tiempo. Los campesinos
colectivistas sabían lo que querían y conocían también que la vieja consigna de
"la tierra para el que la trabaja" respondía a una necesidad que sólo se
contemplaba desde una perspectiva común y colectiva.

El "sueño igualitario", la utopía comunista en el sentido genérico de la
palabra, se intentó, pues, realizar, por convicción, con voluntad fraternal
-como hemos puesto de relieve en más de una ocasión- y por necesidad histórica.
Pero también es evidente que los anarquistas renunciaron a imponer el "comunismo
libertario" para conseguir la colaboración y participación en el proyecto
colectivo del conjunto de las fuerzas antifascistas. Y lo cierto es que también
en Aragón los socialistas de la UGT participaron intensamente en ellas, aunque
como se ha destacado a menudo hubo problemas en las relaciones entre la CNT y la
UGT aragonesas. Pero, como sucede siempre, los problemas se daban más entre
direcciones que en las bases militantes, y lo cierto es que a menudo hemos visto
colaboraciones fraternales entre los dos sindicatos.

Ciertamente, frente a los colectivistas casi siempre aparecían los
individualistas, los partidarios de trabajar la tierra a nivel individual y
familiar. Y si bien no es menos cierto que hubo momentos en que las relaciones
entre ambos colectivos fueron tensas, también al final se impuso la colaboración
mutua. El "sueño igualitario" pasaba asimismo por la aceptación de las
diferencias entre los distintos sectores del campesinado. En Aragón, como
igualmente estaba sucediendo en Cataluña, aquellas poblaciones donde predominaba
la pequeña propiedad fueron reacias a la colectividad. Por tradición, y también
por tradición laboral, el pequeño campesino ha sido siempre remiso a poner en
común su tierra y ha tendido a ser individualista.

Al inicio de la guerra la hegemonía anarquista forzó a muchos campesinos a
incorporarse contra su voluntad a la colectividad, pero más tarde pudieron
abandonarla.

Por otra parte, como han destacado algunos historiadores, las colectivizaciones
agrícolas fueron la alternativa productiva en el campo al iniciarse la guerra.
Como sucedió en la Cataluña industrial, al estallar la conflagración muchos
propietarios habían huido o habían sido asesinados, con lo cual de la misma
manera que en Barcelona los obreros industriales fueron los responsables de
poner en marcha la producción industrial, tras el estallido de la guerra, los
campesinos del conjunto de Aragón tuvieron entre sus manos la responsabilidad de
hacer productivos unos campos que, seguramente, difícilmente se hubiesen
trabajado si no llega a ser por su iniciativa. El trabajo en las colectividades
fue básico para que el territorio republicano dispusiera de los productos
necesarios para subsistir, aunque a veces fuera en condiciones precarias. Hemos
visto como incluso en las poblaciones rurales hubo problemas de abastecimiento
de productos básicos. Pero ello se explica por las condiciones bélicas y por el
hecho de que la mayoría del territorio español dedicado a la producción de
cereales había quedado bajo el bando del ejército insurrecto. Y sin embargo, no
faltaron muestras de solidaridad de los campesinos aragoneses, por ejemplo, con
los combatientes del frente de Madrid. "Madrid" se acabó convirtiendo, también
entre los campesinos de Aragón, en un símbolo de la solidaridad.

Hubo, ciertamente, violencias. Debo recordar en este punto que la mayor
violencia -la madre de todas las violencias que pudieron darse en la guerra-
vino provocada por los militares al propiciar el golpe militar que desencadenó
la guerra. En este punto no pretendo justificar nada, sino explicar
históricamente, cómo una "sociedad normal" de la noche al día se convirtió en
una "sociedad violenta". Muchos ciudadanos pacíficos se convirtieron en
violentos cuando las bases morales de la sociedad en la que desarrollaban sus
normas de convivencia se trastocaron con motivo de la guerra. Y de golpe,
desapareció la convivencia y se produjeron situaciones difíciles de explicar en
condiciones normales. Se asesinaron propietarios, ciertamente, se incautaron por
la fuerza tierras, ganado, propiedades de todo tipo y dinero. Y todo ello se
hizo con violencia. Pero en este punto -e insisto, sin querer justificar nada,
sólo con la pretensión de explicar las razones de la historia- quiero recordar
que el historiador australiano George Rudé hace años puso en evidencia que la
violencia había sido durante siglos patrimonio exclusivo de las clases
dominantes y que en España hasta principios del siglo XX la pena de muerte era
un espectáculo público (9).

Finalmente, el tema de las colectividades aragonesas, tal y como aparece en la
documentación que hemos utilizado, fue un intento voluntarista, serio y
consciente de construir una nueva sociedad más justa, fraternal e igualitaria.
Los debates que hemos ido reproduciendo, las normas de funcionamiento que iban
imponiendo, las resoluciones que se iban adoptando respondían a esta voluntad.
Es verdad que se cometieron errores, que en algunas ocasiones aparecen muestras
más que evidentes de ingenuidad, que tuvo que recurrirse a formas de comercio
-como el intercambio de productos o trueque- que en muchos casos nos retrotraía
a otras épocas de la historia. Y que, como empresa económica, a veces fracasó.

Todo ello es cierto. Pero si tenemos en cuenta el marco hostil en que nacieron,
vivieron e intentaron mantenerse, la corta duración de la experiencia, y los
numerosos problemas que tuvieron que afrontar, incluso sorprende cómo
sobrevivieron hasta marzo de 1938. Como vengo insistiendo ello sólo se puede
explicar por la voluntad tozuda y contundente de unos hombres y mujeres que no
querían perder la oportunidad de mejorar su futuro. Un futuro que sólo
contemplaban aboliendo para siempre jamás la explotación del hombre por el
hombre, imponiendo una sociedad en que todos los hombres fuesen iguales, en que
la fraternidad se impusiera por encima de toda consideración y en que la
justicia alcanzase por igual al conjunto de los humanos. En definitiva, los
campesinos de Huesca, como los del conjunto de Aragón y del resto de la España
republicana, también tenían derecho a hacer realidad el "sueño igualitario", y
es lo que intentaron construir al estallar la guerra y potenciar una auténtica
revolución económica y social.

Notas:
1) Ver Julián CASANOVA: Anarquismo y revolución en la sociedad rural aragonesa,
1936-1938. Siglo XXI. Madrid, 1985. Pág.179. También Alejandro R. DÍEZ TORRE:
Trabajan para la eternidad. Colectividades de trabajo y ayuda mutua durante la
Guerra Civil en Aragón. Malatesta Ed/Prensas Universitarias de Zaragoza.
Madrid/Zaragoza, 2009. Págs. 344-378, donde se publican las actas del Congreso.
2) Ver Comité Comarcal de Sindicatos de Sariñena. CNT-AIT, en "Pieza séptima de
Huesca. Actuación de las autoridades gubernativas locales", AHN, FC-Causa
General, Caja 1414, Exp. 5.
3) "Pieza séptima de Huesca. Actuación de las autoridades gubernativas locales",
AHN, FC-Causa General, Caja 1414, Exp. 5. 3
4) Ibid. Ibid. El oficio lleva un sello que dice: "Comité Revolucionario
Provincial. Secretariado. CNTFAI. HUESCA". La firma es ilegible.
5) "Pieza octava de Huesca. Delitos contra la propiedad e informes de las
Cámaras Oficiales de Comercio e Industria", AHN, FC-Causa General, Caja 1414,
Exp. 8.
6) "Pieza séptima de Huesca. Actuación de las autoridades gubernativas locales",
AHN, FC-Causa General, Caja 1414, Exp. 5.
7) "Pieza octava de Huesca. Delitos contra la propiedad e informes de las
Cámaras Oficiales de Comercio e Industria",AHN, FC-Causa General, Caja 1414,
Exp. 9.
8) Ibib. Ibid. 4
9) La pena de muerte se empezó a aplicar en recintos cerrados, dentro de las
cárceles, a raíz de la denominada "ley Pulido", promulgada el 9 de abril de
1900. Textualmente la ley establecía que "la pena de muerte se ejecutará en
garrote, de día, en sitio adecuado de la prisión en que se hallare el reo, y a
las diez y ocho horas de notificarle la señalada para la ejecución, que no se
verificará en días de fiesta religiosa o nacional" ("Gaceta de Madrid", 10 de
abril de 1900).

Pelai Pagès i Blanch, profesor de historia de la Universidad de Barcelona, es un
reconocido especialista en la historia del movimiento obrero catalán y español,
autor de varios libros de referencia sobre el tema. El presente artículo es un
extracto de su último trabajo, El sueño igualitario entre los campesinos de
Huesca (1936-38), que acaba de ser publicado por Sariñera Editorial.
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In
Argenpress
http://www.argenpress.info/2013/06/espana-el-sueno-igualitario-de-los.html
4/6/2013