terça-feira, 24 de outubro de 2017

Por uma frente de esquerda socialista, para unir os trabalhadores e derrotar o projeto da burguesia!


PCB
 

A crise política brasileira se agrava a cada dia com a emergência de uma
conjuntura típica dos períodos em que o velho ciclo está morrendo e o novo ainda
não se consolidou. Nesse intervalo, aparecem os fenômenos mais bizarros, as
aberrações inesperadas e os fatos mais imponderáveis, como o renascimento do
fascismo, do fundamentalismo religioso, os pronunciamentos de militares da ativa
e da reserva querendo a volta da ditadura militar, além de grupos de extrema
direita reivindicando a intervenção das Forças Armadas para resolver a crise e
realizando ações obscurantistas, invadindo salas de aula, bem como realizando
censura a manifestações artísticas em várias regiões do país.
Mesmo com apenas 3% de popularidade, odiado pelo povo, com o próprio presidente,
ministros e centenas de parlamentares e auxiliares diretos envolvidos
diretamente com a corrupção, esse governo, ou melhor, essa quadrilha que tomou
conta do Planalto vem realizando obstinadamente uma ofensiva generalizada contra
os salários, direitos e garantias dos trabalhadores e da juventude, mediante o
ajuste fiscal predatório e diversas contrarreformas, promovendo a destruição da
legislação trabalhista, aprovando a lei das terceirizações e a mudança no ensino
médio para impor uma educação tecnicista e formadora de mão de obra barata para
o mercado. Além disso, o Congresso, em sua imensa maioria subserviente aos
interesses da burguesia e mancomunado com o governo golpista, elabora uma
reforma eleitoral para isolar a esquerda e consolidar os partidos conservadores,
que vem se somar ao conjunto de leis criadas para favorecer o agronegócio, os
latifundiários e o grande capital, além da criminalização e da repressão contra
os movimentos sociais.
A agenda da burguesia e do imperialismo está quase toda aprovada, num tempo
recorde, impossível em outra conjuntura de normalidade institucional. Trata-se
de um governo antinacional e antipopular, apoiado por um parlamento
majoritariamente de direita e corrupto, onde realizam essas ações tanto para se
credenciar junto ao capital quanto para se safar da cadeia. Uma quadrilha que
perdeu completamente todos os escrúpulos e agora transforma abertamente o
governo em um despudorado balcão de negócios para garantir seu mandato frente a
graves denúncias e saciar o apetite fisiológico de uma base parlamentar também
corrupta.
Mas não podemos nos render ao senso comum, segundo o qual a corrupção é
realizada apenas pelas autoridades governamentais ou pelo parlamento. A
corrupção é funcional ao capitalismo, fruto da própria lei da concorrência, sem
a qual os capitalistas não poderiam desenvolver plenamente seus negócios. É
necessário enfatizar que as maiores empresas do país são as principais
responsáveis pela corrupção, seus diretores são os principais corruptores e não
apenas o lumpesinato político que os noticiários apontam diariamente. Também não
podemos esquecer que as eleições no Brasil são compradas pelos grandes bancos e
grandes empresas como agora ficou escancarado para toda a população. Portanto,
estamos diante de uma corrupção sistêmica praticada tanto pelos políticos
corruptos quanto pelos grandes empresários.
De outro lado, o movimento social, que vinha em ascenção desde as jornadas de
junho, agora está em compasso de espera em busca de novas alternativas para
voltar à cena com mais firmeza e organicidade. Vale lembrar que os
trabalhadores, a juventude e o povo pobre dos bairros lutaram bravamente nesse
período. As ocupações dos secundaristas em São Paulo, realizadas por
adolescentes, conseguiram derrotar pela primeira vez o governo Alckmin, um dos
mais conservadores do Brasil. Posteriormente, foram realizadas ocupações de
escolas e universidades em todo o país contra o governo Temer, manifestações
espontâneas no carnaval, nas olimpíadas e nos estádios de futebol. Também
ocorreram grandes manifestações de rua, mobilizações nos dias nacionais de lutas
e paralisações e a histórica greve geral de 28 de abril, culminando com a
passeata dos 150 mil em Brasília.
Esse movimento em ascensão sofreu uma grave derrota com a paralisação fracassada
do dia 30 de junho, em função da traição de algumas centrais e as vacilações e
corpo mole de outras, o que levou o movimento ao refluxo atual. Mas a luta de
classes é assim mesmo: tem avanços e recuos. O importante é constatar que há uma
indignação generalizada contra esse governo e que esta indignação precisa ser
transformada em luta concreta e organizada. A tarefa dos revolucionários é
ampliar seus vínculos com os trabalhadores e a população em geral, mediante um
trabalho de base e agitação e propaganda no sentido de esclarecer o caráter do
governo e seus patrocinadores, denunciar o desemprego, as contrarreformas, a
corrupção e o sistema de exploração capitalista.
É nessa conjuntura complexa e difícil que segue a luta de classes no Brasil. Os
comunistas entendem que, ao mesmo tempo em que a burguesia avança sobre nossos
direitos e garantias e entrega o país ao capital privado nacional e
internacional, este momento também abre possibilidades para uma resposta firme,
organizada e unitária da nossa classe contra as investidas do capital e esse
governo degenerado. Não é hora de cair em prostração ou no desânimo. Pelo
contrário, esse é o momento de lutarmos pela construção de uma grande frente de
esquerda, anticapitalista e anti-imperialista, com um programa claro em defesa
dos interesses e necessidades da classe trabalhadora, que busque resolver os
principais problemas imediatos e de longo prazo dos setores populares, que fale
direto aos corações e mentes daqueles que ganham o pão com o suor do rosto,
demarcando de forma clara o programa popular do programa da burguesia.
Para contribuir com o debate, o Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro
(PCB), reunido nos dias 7 e 8 de outubro, em São Paulo, apresenta às forças de
esquerda socialista, aos movimentos sociais, à juventude e ao povo pobre dos
bairros um programa para o Brasil como contribuição ao debate para a unidade das
forças populares, intitulado “Derrotar o Projeto da Burguesia e Construir a
Alternativa Popular – Por Pão, Terra, Trabalho e Moradia”. Trata-se de uma
iniciativa para se somar a outras que estão sendo realizadas por organizações
políticas e movimentos sociais em busca de um programa unitário que poderá ter
sua formulação final num grande encontro nacional dos trabalhadores e do
movimento popular, a ser realizado no momento mais propício da luta de classes e
da unidade das forças populares.
De nossa parte estamos dispostos a realizar todos os esforços para contribuir
com essa unidade e nos comprometemos a realizar conversas, debates, trocas de
opiniões com todas as organizações políticas e movimentos sociais que estejam
dispostos a participar dessa empreitada. O momento exige disposição para
unidade, ousadia na ação e luta concreta de todos os revolucionários que buscam
a construção do Poder Popular e das transformações sociais no rumo do
Socialismo.
Comitê Central do PCB
 Outubro de 2017

Contribuição ao debate para a unidade das forças populares
Derrotar o projeto da burguesia e construir a alternativa popular.
Por Pão, trabalho, terra e moradia!
  Programa emergencial.
  Programa de transição para um novo Brasil.
Introdução
A atual crise política brasileira revela os limites da forma política até então
empregada para a garantia da governabilidade burguesa. Os conflitos aparentes
entre as esferas do poder (executivo, legislativo e judiciário), assim como a
estrutura partidária e o sistema eleitoral, revelam didaticamente, por um lado,
o grau de controle que os grandes grupos empresariais têm sobre o Estado
brasileiro e, por outro, a luta intensa das diversas frações das classes
dominantes pelos rumos do governo.
O PCB sempre denunciou os limites desta forma política e a armadilha da
governabilidade pensada nos limites desta institucionalidade. Os grandes
monopólios financiam as campanhas de forma legal ou ilegal e passam a controlar
as políticas realizadas pelo poder Executivo, da mesma forma que dirigem os
investimentos públicos através de lobbies no Parlamento, fazendo das eleições
uma mera formalidade que compõe os segmentos das casas ditas representativas e
dos governos comprados por seus financiadores.
Tal fato explica o motivo pelo qual um usurpador com apenas 3% de aceitação
popular pode governar com uma maioria parlamentar corrupta, sem maiores
problemas, contra a vontade e os interesses da grande maioria da população.
Deve-se somar a isso a legitimação de um poder judiciário que funciona como uma
casta privilegiada que encobre as ilegalidades com contorcionismos jurídicos
visando adequar a lei aos interesses dominantes e ao sabor dos acordos de
conveniência. A esse esquema se junta um poderoso sistema monopolista de
comunicação, absolutamente controlado pelas classes dominantes, que cumpre a
função de defender permanentemente os interesses dos ricos e poderosos e dos
setores mais reacionários do País.
Para o PCB esta crise revela claramente o esgotamento de uma forma política que,
em tempos normais, parecia apresentar os interesses das classes dominantes como
se fossem de toda a sociedade, mediante as armadilhas de eleições fundadas no
acesso desigual do tempo de TV, aos recursos também desiguais de financiamento
de campanha e às máquinas governamentais. Um sistema partidário e eleitoral que
opera a mágica de transformar a maioria social em minoria parlamentar para
legitimar o poder das classes dominantes. Por este motivo, para o PCB, as
eleições não são justas ou legítimas no quadro da dominação burguesa. A busca de
governabilidade no interior desta ordem institucional, em alianças com a
burguesia, só pode levar, como de fato ocorreu, à cooptação de segmentos
populares ou a derrota daqueles que um dia foram ligados aos interesses da
classe trabalhadora.
Nessas circunstâncias, a corrupção não é um desvio no interior de um sistema
virtuoso, mas um elemento constitutivo da forma política através da qual as
classes dominantes disputam o fundo público e o controle das esferas do governo
do Estado burguês. Aliás, a corrupção é da natureza do sistema capitalista, em
função da própria lei da concorrência e se torna cada vez mais um instrumento
funcional para o bom andamento dos negócios.
Diante desta compreensão sobre a natureza da crise política é que o PCB, há
bastante tempo, vem afirmando que a execução de um programa político, econômico
e social que queira representar os interesses dos trabalhadores e da maioria da
população, isto é, que desmercantilize a vida em todas as esferas essenciais
(educação, saúde, moradia, alimentação, transportes, assistência, etc.), que
recupere a capacidade do Estado em organizar a economia (reversão das
privatizações, auditoria da dívida, controle de setores estratégicos,
estatização do sistema financeiro, etc.); exige uma ruptura política e econômica
com a velha ordem e o estabelecimento de novas formas de governo e de
representação política.
Para tanto precisamos ir além das formas de representação que a
institucionalidade atual estabelece e que agora entra em crise. Ë necessário que
os trabalhadores se organizem com autonomia e independência, não apenas em suas
organizações populares, sindicais e políticas, mas em espaços cada vez mais
amplos, de forma a lutar por seus os interesses e necessidades da população
trabalhadora e apresentar, organizada e unitariamente, um programa político,
econômico e social dos trabalhadores para a sociedade brasileira para se
contrapor ao projeto da burguesia. Construir estes espaços como órgãos de poder
popular, eleitos entre os trabalhadores em locais de moradia, estudo e de
trabalho, podem e devem se tornar a sustentação de governos comprometidos com a
nossa classe, rompendo coma armadilha da governabilidade via compromissos e
acordos com as representações políticas dos interesses da ordem burguesa.
A reforma política. pactuada entre os grandes partidos da ordem e seus aliados,
reduz em muito a possibilidade de expressões populares e revolucionárias se
apresentarem como alternativa de governo. Por isso o PCB, sem se omitir da
disputa destes espaços, se empenha em construir uma alternativa de poder que
apresente a necessidade de uma nova forma de Estado, de organização da economia
e da sociedade e um verdadeiro Poder Popular que possa implementar um programa
que atenda os interesses dos trabalhadores e da maioria de nossa sociedade.
Uma crise dramática
Realmente, o nosso país vive um dos momentos mais dramáticos de sua existência
moderna, resultado de uma crise econômica, social, política e ética criada pelos
capitalistas e seus agentes políticos, os quais agora procuram descarregar todas
as consequências da crise nas costas dos trabalhadores. De um lado, temos uma
classe dominante truculenta, com ranços escravocratas, viciada no autoritarismo,
na superexploração dos trabalhadores, acostumada com a impunidade e com as leis
feitas para garantir seus privilégios. De outro, temos a maioria da população
vivendo em condições sociais difíceis, morando em habitações precárias, em
favelas e cortiços, sem saneamento básico, com baixos salários, desemprego em
massa, um serviço de transporte caro e deficiente, saneamento precário, com uma
saúde pública sucateada e uma educação de baixa qualidade, grande parte
privatizada e voltada para o mercado.
Apesar de toda a manipulação realizada pelos meios de comunicação para nos
alienar e confundir a população, é necessário enfatizar que os empresários
industriais, comerciais e de serviços, os banqueiros, especuladores, os
latifundiários, os grandes proprietários do agronegócio, do ensino e da saúde
privada, as multinacionais, enfim, as classes dominantes, são os principais
responsáveis pelo sufoco de nossa vida cotidiana. Estamos vivendo uma violenta
recessão, que já dura quatro anos, um desemprego que hoje atinge mais de 20
milhões de trabalhadores (13,5 milhões que perderam o emprego e mais 6,5 milhões
que já desistiram de procurar trabalho), além do corte das verbas para a saúde,
educação, saneamento e gastos sociais.
Juntem-se a isso as precárias condições de moradia de uma parcela imensa da
população, a saúde pública sucateada, a conspiração contra as aposentadorias, a
destruição dos direitos e garantias trabalhistas conquistados por nossos avós, a
violência, assassinato e encarceramento da juventude pobre e negra das
periferias, além da miséria e violência generalizada que impera nas periferias
das grandes cidades. Tudo isso para que os ricos fiquem mais ricos e o povo
continue na pobreza.
Desesperados diante da crise que eles próprios criaram, os ricos e poderosos
querem avançar ainda mais sobre os nossos pouquíssimos direitos, mediante um
desumano ajuste fiscal que congela os gastos públicos por 20 anos, o que é uma
aberração de qualquer ponto de vista econômico e social. Querem nos impor o
desmonte da previdência, depois de aprovarem as contrarreformas trabalhista e do
ensino médio, além de apresentarem uma reforma política para privilegiar os
grandes partidos que governam para os ricos e isolar a esquerda da disputa
política.
Acima de tudo, os empresários, banqueiros, especuladores e proprietários do
agronegócio querem saquear os cofres públicos, com o assalto aos recursos do
Tesouro Nacional mediante o pagamento dos juros obscenos da dívida interna, que
somente no ano passado custaram cerca de R$ 480 bilhões, recursos que dariam
para construir hospitais e postos de saúde nas várias regiões e bairros do país,
creches para todos, uma educação pública de qualidade, além da retomada do
crescimento e do emprego. Somem-se a isso a farra das isenções fiscais, o perdão
de dívidas empresariais com a receita federal e a corrupção generalizada.
A propósito, essa elite brasileira está podre: nosso país é considerado um dos
mais corruptos do mundo. A corrupção é um mal endêmico tanto no Executivo
federal, estadual e municipal, quanto na Câmara dos Deputados, no Senado, nas
Assembleias Estaduais e Câmara de Vereadores, além de vastos setores do
Judiciário, da burocracia estatal e das polícias militares. As instituições
nacionais se transformaram em balcões de negócios, onde os convescotes,
conchavos e negociatas realizados nos salões da burguesia representam o centro
da política nacional. Estamos cansados de conviver com essas quadrilhas e máfias
que há séculos dominam o nosso país e que transformaram as instituições públicas
em espaços para os negócios privados entre corruptores e corruptos.
Essa falsa democracia não nos interessa, porque é a democracia dos capitalistas,
dentro da qual a grande maioria das decisões tomadas representa um ataque contra
os interesses populares. Da mesma forma, esse sistema partidário também está
deteriorado e não representa a imensa maioria do povo brasileiro. Trata-se de um
sistema viciado, em que as eleições são definidas pelo poder econômico, e os
candidatos se elegem prometendo mundos e fundos para a população e quando chegam
ao poder governam para a burguesia, esquecem as promessas do passado, dão uma
banana para o povo e vão se locupletar com o dinheiro público – mantendo assim
um sistema apodrecido, antipopular a antinacional.
Um governo odiado pelo povo
Essa situação se tornou mais dramática com o golpe parlamentar realizado pela
quadrilha de Temer, pelo qual a burguesia descartou o Partido dos Trabalhadores,
porque este partido já não era mais funcional diante da crise, e colocou no
poder um governo puro sangue, constituído pelo que há de mais corrupto e
degenerado na política brasileira, um governo tipicamente mafioso, sustentado
pelo grande capital, pelas oligarquias regionais, envolvendo desde o presidente
da República, seus ministros, assessores, parlamentares da base aliada no
Congresso e no Senado, cujo objetivo é realizar o trabalho sujo para o grande
capital e se safar da cadeia, mediante as mais escandalosas manipulações
parlamentares, compra de votos e troca de favores.
O trabalho sujo realizado por essa quadrilha em sua ofensiva contra os direitos
e garantias dos trabalhadores, aposentados e a juventude não tem nada a ver com
a estabilidade da economia ou o combate à inflação. Em termos concretos, eles
querem reduzir o custo da força de trabalho, rebaixando os salários em todas as
áreas, aumentando a rotatividade no emprego, impedindo que os trabalhadores
recorram à Justiça do Trabalho para exigir seus direitos, precarizando ainda
mais as condições de trabalho mediante as terceirizações, diminuindo o tempo de
vida útil dos aposentados e evitando ao máximo as novas aposentadorias. Tudo
isso sem prestar contas a ninguém, a não ser os seus patrocinadores, o grande
capital urbano e rural.
Por tudo isso, esse governo e seus patrocinadores são inimigos dos trabalhadores
e precisam ser, no menor prazo possível, derrotados pelas mobilizações
populares. Quanto mais tempo esse governo permanecer em Brasília, maior será a
catástrofe econômica, social e política em nosso país. A ousadia dessa quadrilha
da burguesia demonstra também o desespero diante da crise econômica mundial e
seus impactos no Brasil. Eles querem resolver a sua crise de maneira rápida e
brutal, com golpes violentos, de forma a não dar tempo para uma contraofensiva
popular, além de tentar barrar o processo de reorganização do movimento operário
e popular em curso. Podem ser surpreendidos por um levante social muito mais
violento do que foram as manifestações de junho de 2013.
Mas é importante também enfatizar que o Partido dos Trabalhadores e sua base
aliada, muito semelhante à de Temer, têm grande responsabilidade por essa crise.
Primeiro porque, em função de suas alianças com o empresariado e com as
oligarquias tradicionais, realizou um processo de cooptação do movimento
sindical, popular e da juventude, afastando-os da militância, das lutas nas
ruas, nos locais de trabalho, moradia e estudo, desarmando-os politicamente,
apassivando as novas gerações e criando falsas expectativas de melhoria de vida
no capitalismo. Além disso, não realizou as mudanças necessárias para reduzir o
poder dos oligopólios de comunicação e dos milionários e poderosos. Em outras
palavras, amarelou diante da luta pelas transformações sociais e foi descartado
pelas classes dominantes de maneira humilhante, quando não servia mais. Desta
trajetória fica uma lição: a política de conciliação de classes, de alianças com
a burguesia, é o cemitério político dos lutadores que enveredam por esse campo e
serve de alerta para todos que querem realmente a revolução brasileira. A vida
mostrou que esse tipo de aliança não tem futuro.
O capitalismo está em crise no mundo inteiro
Mas essa crise e a degradação geral não ocorre apenas no Brasil. Nesse momento o
sistema mundial capitalista está em crise profunda. Hoje capitalismo e
humanidade são excludentes: a continuidade do capitalismo significa um risco à
vida no planeta. E a única forma pela qual a humanidade poderá construir uma
saída é superando o capitalismo e caminhando para construir uma nova sociedade:
a sociedade socialista.
A destruição da natureza, o desemprego, a concentração de riquezas e
propriedades, a mercantilização da vida, a guerra contra os povos para saquear
recursos e viabilizar o complexo industrial militar das grandes potências, a
guerra diária da miséria e da violência urbana contra o povo, o desemprego, a
morte de imensos contingentes da população causada pelas epidemias e pela fome,
os milhões de imigrantes perambulando em várias partes do mundo, vítimas das
guerras imperialistas, são as manifestações mais visíveis da lógica do capital
contra a vida.
Em outras palavras, o capitalismo é a própria crise e não cairá de podre se os
trabalhadores não o derrotarem. Faz tudo o que for possível para adiar sua morte
e, como animal ferido, investe de todas as formas contra os salários, direitos e
garantias dos trabalhadores, contra as já precárias condições de vida da
população, contra a biodiversidade do planeta e contra as organizações
populares. Cada vez mais depreda o meio ambiente, provoca conflitos bélicos,
joga os povos uns contra os outros e saqueia os cofres do Estado para salvar um
sistema falido.
Trata-se, portanto, de um sistema em contradição com os interesses e as
necessidades da humanidade. Uma das principais manifestações dos limites
históricos do capitalismo é a atual crise econômica mundial, aberta em 2008, que
revelou de maneira profunda e didática todos os problemas deste sistema de
exploração de um ser humano por outro. Desvendou suas contradições, debilidades,
capacidade destruidora da riqueza material e social e seu caráter de classe, uma
vez que, enquanto os governos capitalistas injetaram trilhões de dólares para
salvar os banqueiros, os especuladores e a elite parasitária, os trabalhadores
estão perdendo suas moradias, seus empregos e seus salários, e uma quantidade
expressiva passa a viver na miséria absoluta.
Mesmo ferido pela crise, o imperialismo afia suas garras para manter essa ordem
envelhecida e desumana. Promove a guerra contra os povos, como no Iraque e no
Afeganistão, Líbia e Síria, arma Israel para continuar a sua política genocida
no Oriente Médio e expulsar os palestinos de suas terras. Realiza provocações e
campanhas permanentes contra os povos que decidem resistir aos seus interesses,
como é o caso da América Latina, onde foram instaladas bases militares em vários
países para cercar os governos que não rezam por sua cartilha. Promove o embargo
criminoso contra Cuba e reativa a IV Frota para ter o poder de intervenção
rápida em nosso continente, tentando garantir o controle sobre as riquezas
naturais, como o petróleo da Venezuela, o pré-sal brasileiro, o Aquífero Guarani
e a biodiversidade da Amazônia.
As massas estão se movendo, ainda sem direção
Mesmo diante de toda a crise, das dificuldades de organização, da dispersão e da
fragmentação que existem entre os trabalhadores e a juventude, as massas estão
completando sua experiência com as organizações que foram criadas e que
cresceram no velho ciclo que está se encerrando no Brasil. Estão se movimentando
em luta por seus direitos e garantias, despertando para a necessidade de
mudanças a partir das lutas nas ruas, nos locais de trabalho, moradia e estudo.
Não podemos esquecer que o ciclo de lutas que se abriu em junho de 2013, com a
juventude e o proletariado precarizado das grandes cidades, abriu um novo espaço
para as lutas populares, apesar das tentativas dos setores conservadores em
confundir e direcionar as manifestações contra a esquerda classista, na defesa
de seus interesses imediatos e mesquinhos.
O que se pode observar após junho de 2013 é um aumento das lutas sociais, que se
expressaram nas ocupações secundaristas em São Paulo e vários Estados do país,
que impuseram uma derrota clara aos governos reacionários, especialmente em São
Paulo, que há mais de 20 anos vinha reprimindo todas as lutas dos trabalhadores.
Podemos ainda contabilizar nesse processo as ocupações de escolas e
universidades contra o governo Temer, as diversas manifestações de ruas, as
vaias uníssonas nas olimpíadas ao presidente usurpador, os dias nacionais de
manifestações, as manifestações do oito de março, as paralisações e
manifestações do dia 30 de março e a grande greve geral de 28 de abril, seguida
posteriormente da marcha a Brasília, onde mais de 150 mil pessoas participaram
da manifestação.
Como todos os ciclos históricos, as lutas não são lineares. Há momentos de
ascensão, momentos de derrotas, momentos de impasses. O importante é compreender
o curso mais geral do movimento, sem se prender ao resultado de uma ou outra
batalha específica. Nesse sentido, podemos dizer que os trabalhadores estão
começando a perder a paciência contra esse estado de coisas, especialmente
agora, quando esta quadrilha tomou de assalto o poder em Brasília. Vale lembrar
que, ao estoque de descontentamento que existia em 2013, se somaram mais 20
milhões de desempregados e suas famílias, a precarização ainda maior dos
serviços básicos, o corte nos gastos públicos e verbas sociais e uma indignação
geral contra a corrupção descarada de praticamente todos os envolvidos com o
golpe parlamentar realizado pela quadrilha de Temer. Não é à toa que as
pesquisas de opinião indicam que mais de 95% da população estão contra esse
governo.
Não se pode esquecer também que há uma contradição de fundo em nosso país, que
potencializa um processo explosivo de lutas: o Brasil é a sétima economia do
mundo, portanto, um capitalismo desenvolvido, mas em termos de desenvolvimento
humano está situado na 75ª posição, abaixo de muitos países paupérrimos da
África e da América Latina. Possui ainda uma das mais perversas distribuições de
renda do mundo. Esse conjunto de contradições não poderá conviver por muito
tempo, especialmente numa nação urbana onde a miséria e a riqueza convivem lado
a lado. Nessa perspectiva, não está descartada a possibilidade de um levante
social dos explorados e oprimidos contra a barbaridade e a selvageria imposta
pelas classes dominantes brasileiras.
Portanto, é fundamental e urgente a constituição de uma frente política das
correntes revolucionárias e classistas, dos movimentos sociais e populares e a
construção de um programa dos trabalhadores e trabalhadoras, da juventude e do
povo pobre dos bairros para se contrapor ao programa da burguesia e indicar um
caminho para as massas em movimento, de forma a que um possível levante social
não seja realizado de maneira anárquica, sem objetivos claros nem direção, como
ocorreu em junho de 2013. Ainda há tempo para a realização dessa tarefa: basta
que a esquerda revolucionária, os movimentos sociais e populares deixem de
privilegiar apenas a política de autoconstrução e trabalhem no sentido de
promover um grande encontro nacional dos trabalhadores e dos movimentos sociais
e populares, de onde deverá sair uma referência orgânica e um programa unitário
para um novo Brasil.
Uma alternativa dos trabalhadores
Com essa proposta aberta que agora apresentamos, o PCB procura dar sua
contribuição para a unidade de ação e programática desta frente e está disposto
a conversar e discutir com todas as forças revolucionárias e classistas, com os
movimentos sociais, uma alternativa para nosso país. Entendemos que é hora de os
trabalhadores fazerem uma reflexão sobre seu futuro e o futuro do Brasil. Nós
acreditamos que não haverá uma solução para os grandes problemas que afligem o
mundo do trabalho, a juventude e a população em geral se não houver uma mudança
radical na economia e na política que há séculos vêm sustentando o capitalismo
brasileiro. Os trabalhadores da cidade e do campo, aqueles que ganham o pão com
o suor do rosto, precisam tomar consciência da necessidade de construir uma
alternativa própria, socialista, independente e autônoma, capaz de disputar os
destinos da nação, um projeto que liberte os trabalhadores da opressão
capitalista.
Nós acreditamos que o Brasil é um país com imensas possibilidades para a
construção de uma sociedade humana, próspera, democrática e soberana. Temos a
base material necessária para a libertação econômica e política do país.
Portanto, a desigualdade, a miséria e a barbárie social em que vive a maioria do
povo brasileiro é fruto da brutalidade das classes dominantes que, desde o
descobrimento até hoje, sempre procuraram afastar o povo das decisões econômicas
e políticas. Esse quadro dramático precisa mudar, e somente o povo organizado
nos seus locais de trabalho, nos locais de moradia e estudo é capaz de dar um
novo rumo ao Brasil.
O PCB acredita que a revolução brasileira será obra dos milhões de
trabalhadores, da juventude e do povo pobre dos bairros e não será obra
exclusiva apenas de uma organização, mas de um conjunto de forças políticas,
sociais e populares, de caráter revolucionário e classista, reunidos numa grande
frente anticapitalista e antimperialista. É chegada a hora de iniciarmos a
caminhada conjunta para revertermos a catástrofe que está se abatendo sobre nós
e cremos que é chegada a hora de transformarmos a grande insatisfação que
envolve atualmente a maioria da população em luta concreta e organizada para a
construção da revolução brasileira e o poder popular.
Nesse sentido, elaboramos alguns apontamentos iniciais de um programa de
emergência e de um programa de transição para um novo Brasil, com vistas a um
debate franco e fraterno entre todos os setores comprometidos com as
transformações sociais e políticas em em nossa pátria.
Eles são poucos, nós somos milhões!
Ousar lutar, ousar vencer!
Programa de emergência
  Revogação de todos os atos do governo Temer, julgamento rápido de todos
  envolvidos com a corrupção e, caso condenados, prisão e confisco de seus bens
  para ressarcir a União e os Estados.
  Moratória e auditoria da dívida interna e criação de uma comissão especial
  para analisar todo o processo de constituição da dívida, ressaltando-se que
  durante esse período também estará suspenso o pagamento dos juros. Os recursos
  que atualmente são pagos pelo serviço da dívida deverão ser direcionados para
  custear os programas sociais, os investimentos em um vasto programa de
  habitações populares, em saúde, educação e saneamento, de forma a aumentar o
  emprego e a renda.
  Criação emergencial das Frentes de Trabalho Urbana e Rural para reduzir o
  desemprego, enquanto a dinâmica da economia não absorver toda a força de
  trabalho desempregada.
  Congelamento dos preços dos bens de primeira necessidade, como carne em geral,
  arroz, feijão, farinha, óleo, açúcar, sal, contas de energia elétrica, gás e
  água e telefone e transporte público.
  Criação de uma rede de restaurantes e mercados populares, a preço de custo,
  nos bairros, para atender emergencialmente os trabalhadores e a população de
  baixa renda
  Congelamento do preço dos aluguéis por um ano para todas as residências
  urbanas e rurais, expropriação de moradias ociosas e a construção de moradias
  nas regiões em que houver maior necessidade por meio das frentes de trabalho.
  Transporte gratuito para todos os desempregados e suas famílias, estudantes e
  para todos os componentes das frentes de trabalho.
  Abono salarial para todos os que ganham salário mínimo, inclusive Bolsa
  Família, aposentados e seguro desemprego.
  Desenvolvimento de uma política de garantia do emprego, com o fim de todas as
  demissões imotivadas e garantia de estabilidade de emprego para todos os
  trabalhadores e fim das terceirizações
  Revogação da Lei de Responsabilidade Fiscal, da DRU (Desvinculação das
  Receitas da União) e das desonerações e renúncias fiscais.
  Adoção de um plano de desenvolvimento industrial, tecnológico e agropecuário,
  com incentivo especial à micro, pequena e média empresa e à agricultura
  familiar, colocando o BNDEs e os Bancos Públicos como instrumento de fomento
  do desenvolvimento econômico, de forma a que o investimento alcance pelo menos
  25% do PIB.
  Implementação de uma reforma agrária, com a desapropriação de todos os
  latifúndios improdutivos, regularização dos assentamentos e titulação das
  terras indígenas, quilombolas e ribeirinhas.
  Criação de uma nova política tributária, com redução ou isenção da tributação
  sobre o consumo de bens e produtos de primeira necessidade e implementação de
  uma política de impostos progressivos de acordo com a renda de cada pessoa ou
  agente econômico, além de um imposto especial sobre as grandes fortunas,
  visando criar um Fundo Para Desenvolvimento Social, de forma a melhorar as
  condições de vida da população.
  Isenção da cobrança do imposto de renda para todos os trabalhadores que ganham
  até 5 mil reais e criação de uma nova tabela do imposto de renda onde os que
  ganhem mais pagarão mais impostos, dentro do princípio de que quem ganha mais
  paga mais, quem ganha menos paga menos e quem não ganha nada não paga nada.
  Nova política de comunicações, com revisão das concessões, quebra dos
  monopólios midiáticos e obrigatoriedade de espaço na grade das televisões e
  rádios para os partidos políticos, movimentos sociais e populares, enquanto
  não se elabora uma nova estrutura de comunicação.
  Combate firme a todas as formas de opressão, como o racismo, o preconceito
  étnico, religioso e a violência e o preconceito contra os LGTBs.
Programa de transição para um novo Brasil
Medidas políticas
  Convocação de uma Assembleia Constituinte Popular, com a metade eleita pelo
  movimento operário e popular da cidade e do campo e a outra metade pelo voto
  universal. Essa assembleia será exclusiva para construir um novo reordenamento
  institucional e não deve ser confundida com o trabalho regular do Parlamento.
  Estímulo à criação das instâncias do poder popular, com formação dos Conselhos
  Populares eleitos em todos os locais de trabalho, moradia, estudo, lazer e
  cultura, de forma a se instituir e desenvolver uma cultura de democracia
  direta no seio da população e fortalecer a organização do povo.
  Abertura do Parlamento aos movimentos sociais e garantia de realização de
  plebiscitos e referendos sobre temas relevantes de interesse nacional.
  Constituição de um Parlamento unicameral, com representatividade de acordo com
  o contingente da população dos Estados; extinção do Senado. Garantia de
  revogação dos mandatos por parte da população.
  Democratização e controle social dos meios de comunicação, com uma nova Lei
  das Comunicações, com fim dos monopólios e revisão das concessões e uma nova
  política de mídias digitais. Criação de uma poderosa rede pública de
  comunicação social, envolvendo todos os meios de difusão, e ampla liberdade
  para que os partidos políticos e organizações sociais e populares possam
  construir livremente seus meios de informação.
  Abertura imediata de todos os arquivos da ditadura, com o objetivo de mapear
  plenamente os atos de repressão, envolvendo prisões, torturas, mortes e
  desaparecimentos políticos ainda não revelados, com rigorosa punição aos
  torturadores e seus mandantes.
  Instituição de uma nova política militar, com democratização da formação nas
  Forças Armadas, modernização dos equipamentos militares e retomada do programa
  nuclear brasileiro, com o objetivo de garantir a soberania nacional contra
  agressões de qualquer tipo.
  Construção de uma nova política de segurança pública, desarmamento de
  traficantes, milicianos e demais quadrilhas de criminosos, fim da Polícia
  Militar e sua transformação em polícia civil, com a formação voltada para a
  proteção da vida, do convívio social pacífico e do patrimônio público.
Medidas econômicas
  Estatização e controle público das instituições financeiras, dos oligopólios
  ligados aos insumos e produtos essenciais básicos, além das empresas
  estratégicas e dos meios de produção essenciais à vida, como água, luz
  elétrica, transporte, saúde, educação petróleo e infraestrutura, passando sua
  direção para um Conselho de Trabalhadores e redução das remessas de lucro das
  multinacionais. Ou seja, colocar a espinha dorsal da economia a serviço da
  população brasileira.
  A partir da base estatal, estruturar uma nova política industrial e
  tecnológica com o objetivo de modernizar o parque industrial brasileiro,
  desenvolver ou criar setores de ponta, especialmente nas tecnologias da
  informação, eletro-eletrônica, robótica, biotecnologia, engenharia genética e
  nanotecnologia, de forma a possibilitar suprir o mercado interno de forma
  autossustentada e obter ganhos competitivos no mercado internacional;
  desenvolver uma agressiva política de incentivo à pesquisa e desenvolvimento,
  envolvendo os institutos de pesquisas governamentais, universidades e empresas
  públicas.
  Controle cambial e cancelamento do montante da dívida interna formada através
  do aumento abusivo dos juros e da ciranda financeira, a partir do entendimento
  de que a quantidade de juros paga pelo povo brasileiro aos banqueiros e
  rentistas foi mais que suficiente para quitar esse débito. Essa medida tem
  como objetivo estancar a sangria de recursos para os rentistas, resgatar a
  soberania econômica nacional em relação ao câmbio e estancar a sangria dos
  pagamentos de juros, cujos montantes vem sugando o orçamento público e
  reduzindo as verbas para as políticas públicas.
  Monopólio estatal do comércio exterior, de forma a garantir a soberania
  nacional e evitar as manipulações do mercado por parte dos agentes privados
  nacionais e internacionais.
  Reforma agrária sob o controle das entidades dos trabalhadores, com a
  desapropriação de todos os latifúndios improdutivos, das fazendas com trabalho
  escravo e as que não estejam cumprindo a função social. Criação de uma nova
  política agrícola sustentável ecologicamente, visando a produzir alimentos
  saudáveis. Estímulo à democratização da posse da terra mediante a constituição
  de grandes cooperativas agropecuárias para racionalizar o sistema produtivo e
  ampliar a oferta de produtos básicos.
  Programa de recuperação do poder de compra dos salários, discutido com os
  sindicatos, de forma a resgatar o valor do salário estipulado pelo Dieese.
  Redução da jornada de trabalho para 35 horas sem redução do salário, visando a
  ampliar o emprego e a renda da população.
  Formação de uma rede de transporte público e gratuito nos grandes centros
  urbanos, com ênfase na modernização da frota de ônibus, ampliação das linhas
  de trens e do metrô e produção de veículos leves sobre trilhos para as grandes
  metrópoles, bem como uma rede ferroviária e hidroviária para o transporte de
  produtos industrializados e mercadorias em geral.
  Criação do Banco dos Trabalhadores, que passará a controlar os fundos
  patrimoniais e previdenciários, dando novas diretrizes, novas orientações e
  novas prioridades para o extraordinário volume de recursos hoje geridos, no
  interesse do capital, por entidades paraestatais e estatais. Em outras
  palavras, os trabalhadores passarão a controlar os fundos patrimoniais e
  previdenciários e da seguridade social, para dar-lhe uma nova dinâmica, com
  maior eficiência produtiva e justiça social.
  Reforma urbana, com a desapropriação de todos os terrenos vazios para a
  construção de habitações populares, praças, parques e locais de lazer,
  acompanhada de uma campanha de plantação de árvores nas grandes cidades. Como
  se sabe, os gastos em habitação são indutores de importantes setores da
  economia, como cimento, aço, eletro-eletrônico, cerâmica, entre outros e, ao
  mesmo tempo, têm a capacidade de gerar uma extraordinária capacidade de
  criação de postos de trabalho, o que deverá se refletir no emprego, na renda
  das famílias e na dinâmica da economia.
  Estatização do sistema privado de saúde, incluindo rede assistencial
  (hospitais, serviços ambulatoriais, de apoio diagnóstico e terapêutico);
  setores de pesquisa e de produção de fármacos, imunobiológicos, hemoderivados
  e de insumos; e indústrias de material médico-hospitalar e de equipamentos.
  Organizar o Sistema de Saúde a partir da atenção primária à saúde, evoluindo
  até os níveis de maior complexidade, conjugando ações de promoção, prevenção,
  cura e reabilitação. Ampliação da rede assistencial, com construção de
  unidades básica de saúde e hospitais nos bairros populares, de modo a garantir
  a atenção à saúde a todas as pessoas o mais próximo de seus locais de moradia
  e trabalho. Exercício do Poder Popular com a criação de Conselhos Populares de
  Saúde para controle do Sistema de Saúde em todos os seus níveis.
  Estatização de todo o sistema de ensino nacional, especialmente das
  universidades privadas e escolas particulares e nova regulação para as
  entidades confessionais, com a implantação de uma ampla reforma na educação
  que possibilite, no médio prazo, a criação de uma escola de qualidade para
  todos, da educação infantil ao ensino superior, além da pós-graduação.
  Campanha nacional para a erradicação do analfabetismo no prazo de dois anos,
  utilizando-se dos métodos universalmente testados e exitosos em Cuba, na
  Venezuela e na Bolívia.
  Reestabelecimento do monopólio estatal do petróleo, da produção e distribuição
  de energia elétrica, com reestatização plena da Petrobrás e todas as empresas
  que foram privatizadas; extinção das agências reguladoras e anulação de todos
  os contratos de risco, leilões e parcerias público-privadas realizados em
  território brasileiro.
  Previdência social pública e universal, com teto de 60 anos para homens e 55
  para as mulheres; recuperação das perdas salariais e aumento real dos
  proventos e pensões, restabelecendo-se o princípio amplo da seguridade social.
  Desenvolvimento de uma política sustentável de meio ambiente, com garantia de
  demarcação e manutenção das terras indígenas, quilombolas e ribeirinhas.
  Defesa da Amazônia, dos aquíferos em território nacional e o Aquífero Guarani,
  em conjunto com países com os quais o compartilhamos; defesa da
  biodiversidade, dos diversos recursos naturais brasileiros e revitalização do
  Rio São Francisco como forma de garantir a transposição de suas águas.
  Desenvolvimento de uma política cultural para o país de resgate da identidade
  nacional, de forma a envolver os intelectuais e os artistas numa produção
  voltada para os interesses populares, para o incentivo às manifestações do
  povo, para a construção de um amplo movimento cultural com capacidade de
  inovar estética e politicamente o panorama cultural brasileiro, buscando
  romper com os interesses dominantes dos oligopólios nacionais e internacionais
  e da mercantilização da cultura e das artes.
 Soberania e solidariedade internacional
  Respeito à autodeterminação dos povos e a seu direito de resistência frente à
  opressão e à dominação estrangeira; luta pela retirada da 4ª Frota e das bases
  norte-americanas da América Latina e Caribe.
  Promoção de esforços no sentido de criação de espaços comuns voltados a
  fortalecer os vínculos econômicos, sociais e culturais e de comunicação entre
  os povos da região.
  Revogação do acordo militar Brasil/Estados Unidos; retirada das tropas
  brasileiras do Haiti e sua substituição por médicos, engenheiros e
  professores; luta pela democratização da ONU.
  Solidariedade irrestrita à Revolução Socialista Cubana e aos processos de
  mudanças na Bolívia, Venezuela e outros países; devolução do arquivo da Guerra
  do Paraguai ao seu povo.
  Luta pelo fim da agressão imperialista ao Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria e
  das ameaças ao Irã, Coréia Popular, Venezuela e outros países; apoio à
  construção do Estado Palestino democrático, popular e laico.
COMITÊ CENTRAL DO
PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO (PCB)

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O abismo brasileiro



 por Guilherme Boulos


A concentração de riqueza aprofunda a ferida nacional

"A riqueza dos seis maiores bilionários brasileiros equivale à dos 100 milhões
mais pobres"

Nas últimas semanas, foram publicados dois estudos reveladores do abismo social
brasileiro. O primeiro e mais completo deles foi o relatório da Oxfam Brasil,
tema da reportagem de capa da edição 972 de CartaCapital, sobre as desigualdades
em termos de riqueza, renda, gênero e raça em nosso país.
O outro foi um levantamento do mapa de homicídios publicado pelo jornal Folha de
S.Paulo na última segunda-feira 9. Duas faces do mesmo problema, concentração de
riqueza e violência aprofundam a ferida nacional.
Os números apresentados pelo estudo A Distância Que Nos Une, da Oxfam, são
chocantes: a riqueza dos seis maiores bilionários brasileiros equivale à dos 100
milhões mais pobres. Considerando o 0,1% mais rico, sua renda em um mês é a
mesma que um trabalhador com ganho de um salário mínimo receberia em 19 anos.
Difícil explicar pela meritocracia uma desigualdade tão gritante.
Leia mais:
Desigualdade atrapalha crescimento e corrói a coesão social, diz FMI
Pobreza, desigualdade e aspectos autoritários no Brasil de hoje
O trabalho da Oxfam tem a vantagem de operar não apenas com o conceito de renda,
mas também com o de riqueza, que inclui a propriedade imobiliária. Por aqui, a
terra historicamente foi o pivô da desigualdade.
No campo, os dados do último Censo Agropecuário mostraram o aumento da
concentração, medida pelo Índice de Gini, sendo os latifúndios mais da metade da
terra agrícola do País. Nas cidades não é diferente: em São Paulo, 1% dos
proprietários concentra 25% dos imóveis, o que, por sua vez, representa 45% de
todo o valor imobiliário municipal. Enquanto isso, o déficit de moradia na
cidade supera 470 mil famílias.
As disparidades entre homens e mulheres e entre brancos e negros são outra
faceta perversa desse cenário. Em relação à renda, 65% das mulheres brasileiras
ganham até 1,5 salário mínimo, ao lado de 52% dos homens. Na ponta oposta, com
renda superior a 10 salários mínimos, há dois homens para cada mulher.

No caso dos negros e negras, a situação é ainda mais grave: na faixa inferior a
1,5 salário mínimo estão 67% da população negra e 45% da branca. Entre os que
ganham mais de 10 salários, há quatro brancos para cada negro.
Esses níveis brutais de desigualdade só poderiam gerar uma sociedade
conflagrada. É o que mostra o mapa das mortes violentas, elaborado a partir de
dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. O que sobressai é como o
abismo social se expressa em segregação territorial, legitimando regiões
entregues à violência.
Em termos de renda, serviços públicos e violência há duas cidades em uma. Os
dados compilados referem-se a São Paulo, mas refletem uma realidade conhecida em
todos os centros urbanos do País.
O índice de homicídios na cidade equipara-se ao da Suécia ou ao do México, a
depender da região considerada. O Jardim São Luís, na Zona Sul, tem taxa de 16
mortes violentas por 100 mil habitantes, enquanto o elitizado e protegido Jardim
Paulista tem 1 morte por 100 mil, ou seja, 16 vezes menos.
O morador do São Luís tem mais chance de ser assassinado do que se estivesse no
Congo ou em Porto Rico; o dos Jardins tem menos chance do que se vivesse nos EUA
ou na França.
A situação torna-se ainda mais díspar se a comparação é feita em nível nacional.
Mesmo a taxa mais elevada de São Paulo está bem abaixo da média nacional, de
27,2 mortes por 100 mil habitantes.
Isso porque algumas capitais do Norte e Nordeste têm índices alarmantes, a ponto
de estarem acima de países em situação de guerra. É o caso de Fortaleza, a
capital mais violenta do País, com 63,7 mortes para 100 mil habitantes, de São
Luís, com 60,9, e Manaus, com 52,8.
A taxa de homicídios na capital cearense é superior à de El Salvador (62,4),
país com maior número de mortes violentas do mundo. Ou seja, o abismo brasileiro
permite que alguns poucos vivam como se estivessem na Suécia e muitos outros
morram como se estivessem em El Salvador.
Isso porque, na maioria das periferias, o Estado só se apresenta como polícia e,
neste caso, não como promotora de segurança pública, mas frequentemente como
agente da violência.
Esses dois estudos trazem ao centro do debate o tema da desigualdade social, o
grande dilema nacional. Enquanto coexistir por aqui uma espoliação selvagem das
maiorias com privilégios indecentes do 1%, teremos uma tensão perene na base da
sociedade. A polarização do País é o retrato dessa ferida aberta, que não
fechará sem uma agenda ousada de distribuição de renda e riquezas.

In
CARTA CAPITAL
https://www.cartacapital.com.br/revista/974/o-abismo-brasileiro
16/10/2017

sábado, 21 de outubro de 2017

Entrevista a William Engdahl

           

 Ludwig Watzal* 

Elucidativa entrevista com um estudioso das ONG norte-americanas, nomeadamente
as criadas durante a década de 80: “National Endowment for Democracy », “The
Freedom House” ou as de Soros, as “Open Society Foundations”, “Instituto para a
paz.” Nas palavras de um do seus criadores, tratava-se de «fazer o que a CIA
faz, mas de forma privada». Toda a conspiração imperialista desde então ilustra
como têm cumprido esse papel.


A CIA recrutou os Irmãos Muçulmanos para fazer uma guerra por procuração à União
Soviética no Afeganistão, que levou à retirada dos Soviéticos da região do Hindu
Kuch. Desde então, a CIA utilizou mercenários em outras guerras por procuração
tais como na Chechénia, Azerbaijão e nos Balcãs. Para abrir caminho às guerras
de agressão contra Iraque, Líbia, Síria e Iémen, os Estados-Unidos e seus
Estados vassalos criaram violências sectárias que conduziram a guerras civis. Na
actualidade, a CIA e os Irmãos Muçulmanos estão presentes sob a forma de Estado
islâmico na Síria e no Iraque.
Ninguém ainda estudou esta tríade [CIA, Irmãos Muçulmanos, Estado islâmico] tão
escrupulosamente como William Engdahl, analista de renome em geopolítica,
consultor em gestão de riscos, autor e conferencista. Engdahl nasceu em
Mineápolis no Minnesota e cresceu no Texas. Depois de obter um diploma em
Ciências Politicas na Universidade de Princeton e estudos superiores em economia
comparativa na Universidade de Estocolmo, trabalhou como economista e como
jornalista de investigação nos Estados-Unidos e na Europa.
Foi nomeado Professor Convidado pela Universidade de Tecnologia Química de
Pequim e apresentou conferências e seminários privados sobre diferentes aspectos
de economia e da política pelo mundo inteiro, tendo sempre em vista a
geopolítica e seus acontecimentos. Nos últimos 30 anos Engdahl tem vivido na
Alemanha.
 Escreveu numerosos livros de sucesso sobre o petróleo e a geopolítica : «
Petróleo uma guerra de um século », « The Lost hegemon: Whom The Gods Would
Destroy », “Full Spectrum Dominance », « Les Semences de la destruction :
l’agenda caché de la manipulation génétique », sem esquecer « Target China »,
para se nomearem aqui apenas alguns. Os seus livros estão traduzidos em 14
línguas.
 O seu livro mais recente, sobre o papel das ONG, faz o ponto sobre a sua
participação nas “Mudanças de regime“ orquestradas pelos Estados-Unidos.
Organizando e agitando importantes manifestações, de forma à facilitar os
esforços de Império estado-unidense e da CIA visando substituir governos
resilientes de tendência nacionalista por outros mais obedientes que instalarão
localmente a agenda de Washington. Tudo isto desenrolando-se sob o pretexto da
democracia à americana. A entrevista que segue foca-se no último livro em alemão
de Engdahl: « Geheimakte NGOs [Os documentos secretos das ONG] ”. É conduzida
pelo Doutor Ludwig Watzal, jornalista e editor qui vive em Bonn na Alemanha e
dirige o Blogue bilingue: http://betweenthelines-ludwigwatzal.com/.
***
Pergunta de Ludwig Watzal: Penso que estamos de acordo sobre o facto de a CIA
ser a pior das organizações terroristas. Depois da 2ª guerra mundial,
praticamente nenhum golpe de estado ou sublevação organizada se produziu sem a
ajuda da CIA.
 Se compreendi bem o seu livro, no decurso dos 25 últimos anos a CIA recebeu
numerosas vezes “pequenas ajudas” daquilo que é comummente chamado as ONG. Será
que poderia dizer-nos algo mais sobre este assunto?
 Resposta de William Engdahl: Durante a presidência de Ronald Reagan vieram a
público lamentáveis escândalos relativos a sórdidas operações da CIA pelo mundo
fora. Chile, Irão, Guatemala, o projecto top secret MK-Ultra, o movimento
estudantil durante a guerra do Vietnam, para não referir senão alguns. De forma
a deixar de se encontrar na ribalta, o Director da CIA, Bill Casey propôs a
Reagan a criação de uma ONG “privada”. Ligeiramente à margem, ela pretendia-se
privada mas na realidade estava ali para, como disse um dos seus criadores, o
falecido Allen Weinstein numa última entrevista au Washington Post: « fazer o
que a CIA faz, mas de forma privada ».
Foi a criação, em 1983, da ONG denominada: “National Endowment for Democracy
[Dotação Nacional para a Democracia] ». Pouco tempo depois, dirigidas a partir
de Washington, outras ONG surgiram, tais como “The Freedom House” ou as de
Soros, as “Open Society Foundations”, “Instituto para a paz” e outras ainda. Os
fundos eram frequentemente encaminhados pelo Departamento de Estado via USAID
para ocultar a sua proveniência.
 Todas as tentativas de mudança de regime por parte do Governo norte-americano
desde essa época, tais como o Solidarnosc na Polonia, o golpe de estado russo de
Ieltsin apoiado pela CIA, a “revolução laranja“ de 2004 na Ucrânia, os motins de
2008 no Tibete, as primaveras árabes de 2011 até hoje, foram organizadas por
este grupo particular de ONG pregando a “democracia“. Não surpreende que países
como a Rússia e a China ou ainda a Hungria façam o necessário para as banir
enquanto ONG’s “indesejáveis“.
LW: Cita Allen Weinstein, co-autor do documento fundador da ONG National
Endowment for Democracy (NED), dizendo: « quase tudo o que nós fazemos hoje
fazia-o a CIA há 25 anos ». ONG tais como NED, CIPE, USAID, NDI sem falar das
redes Soros, não são elas a quinta coluna da CIA?
 William Engdahl : Como referi atrás, diria que a minha opinião é essa. Como
sempre, a agenda dessas ONG corresponde em cada momento à que é enunciada pela
política externa de Washington. Coincidência? Não penso que o seja.
LW: As suas críticas incidem essencialmente sobre algumas ONG norte-americanas,
ou juntar-lhes-ia todas as outras organizações não-governamentais de maneira
mais geral? Estas ONG não são todas elas orientadas por uma nobreza de espirito
e de boas intenções, no sentido de difundir a democracia e a liberdade em todo o
planeta?
 William Engdahl : É aí que reside o que existe de demoníaco no conceito de Bill
Casey. Esconder verdadeiras operações antidemocráticas e nauseabundas da CIA por
detrás das ONG políticas e privadas agitando a bandeira dos “direitos do homem”
foi muito eficaz para Washington e a sua agenda global de derrubamento de
regimes não-cooperantes por todo o lado no planeta. Na realidade, a CIA
militarizou os direitos do homem.
 Estranhamente, regimes uteis a Washington tal como a Arabia saudita mantêm-se
sem nunca serem incomodados por apelos à democracia. Os seus petrodólares
financiam a agenda global do terrorismo de Washington…
Repare no recente caso da falsa ONG “democrática“, os “Capacetes Brancos“ na
Síria, fazendo a sua propaganda em colaboração estreita com o Estado Islâmico,
para justificar uma guerra dirigida pelos EUA contra o regime democraticamente
eleito de Assad. Estes “Capacetes Brancos” recebem dinheiro das fundações de
Soros, dos governos norte-americano e britânico e foram criadas por um antigo
agente dos Serviços de Informações britânicos, James Le Mesurier. Foi numerosas
vezes provado que os seus atrozes vídeos foram fabricados, com representação
feita por actores. O seu dito vídeo sobre o gás Sarin mostrando capacetes
brancos sem protecção, prodigalizando os primeiros socorros e tratando as
supostas vítimas desse gás Sarin sem equipamentos de protecção individuais
contra substâncias toxicas [HAZMAT] é anedótico, é uma falsificação, tal como
foi amplamente demonstrado por diversos peritos em substâncias toxicas e gás
Sarin.
 As ONG políticas de Washington ou da Europa são em certos casos eficazes porque
podem atrair um número significativo de pessoas inocentes e de boa vontade.
Recebi recentemente uma carta pessoal muito tocante da parte de uma médica que
tinha trabalhado durante 18 meses, com as melhores intenções, para Médicos Sem
Fronteiras (MSF) no Sudão do Sul, antes da sua independência apoiada pelos EUA.
Estava muito agradecida, depois de ter lido o meu livro sobre as ONG, por
conseguir enfim compreender todas as instruções, aparentemente absurdas, dadas
pelos responsáveis americanos de MSF ao seu pessoal. Ela demitira-se devido ao
esgotamento e dizia agora compreender porquê. Médicos honestos eram utilizados
por Washington para a sua agenda secreta. O Sudão do Sul era o alvo porque a
China recebia uma grande parte do seu petróleo da zona via Cartum.
 Bem entendido, não são todas as ONG que fazem o trabalho da CIA. Concentro-me
sobre aquelas que têm uma agenda politica escondida e que, como descrevo no meu
livro, instrumentalizaram os “direitos do homem“ e a palavra “democracia“ para
fins que nada têm a ver com eles.
LW: Em 1984, o especulador milionário Georges Soros implanta a Fundação Soros em
Budapest. O seu primeiro objectivo foi a Polonia. O Papa João Paulo II e o
Presidente dos EUA Ronald Reagan encontraram-se em 1982 no Vaticano para
discutir a desestabilização do bloco Comunista. Houve uma participação da
Fundação Soros nesse empreendimento?
 WE : Em 1988 a Fundação Soros criou em Varsóvia a Fundação Stefan Batory, a fim
de através dela formar activistas que acabaram por fazer tombar o regime
comunista. Desempenharam um papel central na “ofensiva democrática” e,
imediatamente após a queda do governo do General Czeslaw Kiszczak em Agosto de
1989, Soros chamou à Polonia o economista da Universidade de Harvard Jeffrey
Sachs, especialista na “Terapia de Choque“, para fazer avançar a privatização
das empresas nacionais. Para criar uma hiperinflação e proporcionar a venda em
leilão dos activos do Estado polaco em benefício de investidores do Ocidente
como os amigos de Soros, por alguns pennies ou, à época, alguns pfennigs.
LW: Os dois capítulos sobre a pilhagem da ex-URSS pela CIA, Soros, e o seu bando
de Harvard em colaboração com o clã Ieltsin e veteranos do KGB são bastante
chocantes. Poderia explicar-nos esta mão-baixa quase mafiosa?
 WE : Devo remeter os leitores para o livro, porque o tratamento do tema foi
sintetizado e é exaustivo. Brevemente, a CIA, sob a direcção do Presidente
americano da época, Bush Sénior, conseguiu corromper pessoal de muito alto nível
do KGB que recrutaram os seus “protegidos” no seio da organização juvenil
Konsomol ou da organização da juventude comunista, tais como Boris Berezovsky e
Mikhail Khodorkovsky, para que estes se tornassem os seus “oligarcas”
preferidos, pilhando os activos do Estado por um punhado de rublos em lugar do
seu real valor. Foi o tristemente célebre escândalo das privatizações por
“vouchers” que avaliou a totalidade dos bens do Estado, incluindo petroleio e
gás, máquinas-ferramentas, alta-tecnologia, a um pouco menos de 16 milhares de
milhões de $. Desmantelaram literalmente a Rússia para seu proveito pessoal. E a
CIA e a sua rede de bancos ocidentais, como o banco Riggs em Washington,
permitiram-lhes fazer sair os capitais para fora da Rússia. Eu próprio fiquei
chocado ao constatar estes pormenores. Era criminoso. Ieltsin era o seu joguete.
Alguns diziam que desde que lhe fosse assegurado um aprovisionamento de vodka de
qualidade, ele fazia tudo o que Soros e seus economistas de Harvard lhe
pedissem.
 Um pormenor interessante sobre o qual é necessário reflectir é este: o
Presidente Bush Sénior, antigo Director da CIA, ordenou 3 operações de
desestabilização simultâneas através de ONG no mesmo ano de 1989. As três foram:
Rússia, China com a praça Tiananmen e a Jugoslávia. O livre explica tudo isso
com grande detalhe.
 LW: Depois de suceder a Boris Ieltsin como Presidente da Rússia, Vladimir Putin
travou de imediato a pilhagem da Rússia. Pensa que poderia residir aí uma das
razões porque a classe politica, em Washington, o odeia e diaboliza com tanta
insistência, o qui é irracional?
 WE : Putin provinha de uma facção nacionalista russa (oposta àquela a que
chamávamos a facção “cosmopolita“ ou “internacionalista“) do KGB e do seu
sucessor. Sabiam dever agir com discrição até que o seu controlo ficasse
garantido em 2000, quando Ieltsin foi forçado ou a retirar-se ou a ser
desmascarado, e foi obrigado a nomear Putin como Presidente interino.
 Houve, desde bem antes de 1917, uma guerra não declarada contra um Estado-Nação
estável na Rússia. O fundador de Statfor, Georges Friedman, um dos analistas
americanos melhor informado em geopolítica, antigo consultor do Pentágono e da
CIA entre outras, deu recentemente uma interview após o coup d’état da CIA na
Ucrânia, que designou como “o mais flagrante coup d’état na história do EUA.”
Este, se se recorda, em que Viktoria Nuland, Secretária de Estado adjunta, tinha
ido a Kiev, tinha distribuído barras de cereais aos manifestantes na praça
Maidan e telefonado ao Embaixador Americano em Kiev, para lhe exprimir o seu
desprezo pela União Europeia.
 Friedman observava aquilo que eu documentei em vários dos meus outros livros,
como em « petróleo, uma guerra de um século », a saber que a politica externa
dos EUA, pelo menos no século passado quando os Estados-Unidos emergiram em
detrimento do Império britânico, a prioridade da politica externa americana foi
a de impedir, a todo o custo, a reunião de interesses económicos e qualquer
cooperação sobretudo entre a Alemanha e a Rússia. O mundo sofreu 2 guerras
mundiais em consequência deste dogma geostratégico da politica externa dos EUA,
um dogma recolhido dos Ingleses e do pai da geopolítica inglesa, Sir Halford
Mackinder.
 Washington odeia e diaboliza Putin pela boa razão de que ele agiu de forma
deliberada para restabelecer a Rússia enquanto grande nação, o que é
efectivamente o caso como posso confirmar após quase 25 anos de experiência
pessoal. E como consequência da diabolização de Washington, a influência de
Putin no mundo parece não cessar de crescer – em primeiro lugar com a China,
depois com as nações da Eurásia, Africa, o Médio-Oriente, Asia, e mesmo com as
Filipinas e a América latina. O mundo está mais do que farto dos EUA, da sua
agenda guerreira, oculta ou não, sem fim e em toda a parte.
LW: O desmembramento da Jugoslávia foi uma catástrofe. Os Alemães, sob a
Chancelaria de Gerhard Schroeder e do seu infame ministro dos negócios
estrangeiros, Joschka Fisher, juntaram forças com Clinton para derrubar o
Presidente sérvio Slobodan Milosevic. Nesta operação, que tinha tudo de um golpe
de estado, havia ONG implicadas? E qual era a sua estratégia?
 WE : Sim. Siga a carreira subsequente do sr. Fischer : de rufia nas
manifestações de Frankfurt de 1968 até a ser coroado pelos EUA e sua imprensa de
grande circulação como homem de Estado, aparentemente como recompensa pelo voto
dos verdes a favor do bombardeamento da Jugoslávia em 1999. Depois do seu
mandato, Fisher obteve um lugar de Professor honorário em Princeton, a minha
Alma Mater. Mais tarde Georges Soros convidará o sr. Fisher para o seu novo LICI
[1] “Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros [European Council on Foreign
Relations – ECFR]”.
No que diz respeito ao derrubamento de Slobodan Milosevic, o Governo dos EUA e a
sua clique de ONG, incluindo o NED e as fundações de Soros, organizaram,
financiaram e formaram representantes de estudantes e outros para fomentar um
golpe de estado de sucesso, sob o nome de Otpor! (Resistência !), com o
omnipresente logo do punho erguido. Traduções sérvias dos escritos de Gene Sharp
sobre a não-violência activa eram utilizados e os activistas chave treinados
pelo associado de Sharp, o coronel Robert Helvey do exército americano, em
locais secretos de forma a evitar a polícia. O Movimento Otpor! recebeu, segundo
certas estimativas, até 30 milhões de dólares de organizações ligadas aos EUA
como o National Endowment for Democracy (NED), o International Republican
Institut (IRI), e a Agencia Americana para o Desenvolvimento Internacional
(USAID).
 A destruição da Jugoslávia fora planeada desde os anos 80 por Washington,
primeiro por Bush Sr. E depois por Clinton. Sendo o objectivo o de criar uma
guerra na Europa que iria justificar a presença contínua da NATO. Gastos que
teria sido difícil explicar aos contribuintes americanos depois da queda da ex.
URSS e aos Europeus que procuravam organizar uma defesa europeia autónoma fora
da NATO. Para Washington e o influente complexo militar-industrial americano,
uma tal Independência era Tabu! O objectivo seguinte iria ser estabelecer uma
presença americana massiva no Kosovo designada Camp Bond Steel.
LW: Quando os Árabes desceram à rua em Túnis, no Cairo e em Trípoli, os media
ocidentais e a classe politica ficaram em êxtase. Finalmente a democracia, a
liberdade e os direitos do homem tinham chegado ao mundo árabe. Estas revoltas
eram espontâneas ou será que eram orquestradas por forças exteriores?
 WE : A totalidade das Primaveras Árabes foi planeada e financiada por
Washington e pelas ONG financiadas pelos EUA. A Ministra dos Negócios
estrangeiros [Secretária de Estado] à época, Hillary Clinton, era um personagem
chave com o seu estranho assistente membro dos Irmãos Muçulmanos, Huma Abedin. A
RAND Corporation, uma LICI do Pentágono, responsável pelo desenvolvimento da
técnica do “enxameamento“ de massas como se de um enxame de abelhas se tratasse,
utilizando Facebook e outras redes sociais para atiçar os protestos, desempenhou
um papel central.
 Os grupos de estudantes contestatários no Egipto eram treinados pelos EUA,
utilizando de novo traduções de Gene Sharp, eram enviados à Europa para serem
secretamente treinados pelos leaders de Otpor.
 No caso da Líbia de Kadhafi, era considerada necessária e urgente uma mudança
de regime, como foi agora revelado por DCLeaks e Wikileaks com as famosas
mensagens electrónicas de Hillary Clinton ao seu conselheiro privado, Sidney
Blumenthal. Kadhafi que, contrariamente à sua imagem diabolizada, tinha
conseguido na Líbia os mais elevados níveis de vida de toda a Africa, estava na
iminência de revelar ao mundo a criação de uma aliança de Bancos Centrais
africanos e a criação de uma divisa, o Dinar-ouro, para a venda de petróleo,
abandonando o dólar americano. Fazia isso de acordo com Ben Ali na Tunísia e
Mubarak no Egipto. Tal como Hillary escreveu a Blumenthal, isso devia ser detido
sem olhar a meios. Os meios para o deter foram os bombardeamentos ilegais da
Líbia e o assassínio de Kadhafi e a transformação da Líbia num campo de ruinas.
 O plano original do Departamento de Estado, da CIA e do Pentágono era, logo
depois de Kadhafi, o imediato derrube de um outro renegado, Bachar el Assad na
Síria. Esta parte não funcionou muito bem para os planificadores de Washington,
e uma verdadeira tragédia humana, desnecessária, desenvolveu-se no decurso dos 6
últimos anos uma guerra dirigida essencialmente pelos EUA, que são por ela
responsáveis.
LW: Outrora, os conquistadores traziam os missionários na sua comitiva. Hoje, as
potências neocoloniais ocidentais vêm com uma pletora de ONG que ensinam às
populações indígenas como é suposto funcionar a democracia ocidental. Pensa que
as ONG servem os interesses dessas pessoas? Que existem ONG alemãs que veiculam
quantidades enormes de lastro ideológico com, por exemplo, a integração da
teoria do género? Que pensa disso?
 WE : Penso que a sua analogia, dos missionários “cristãos“ do passado e dos
“direitos do homem” ou da “democracia” defendidos pelas ONG de hoje, é
efectivamente apropriada. Não tenho competência para comentar as actividades das
diferentes ONG alemãs minha atenção principal está voltada para Washington, a
potência hegemónica de agora e a fonte, infelizmente, de tanta destruição.
LW: No início e no final do seu livro refere-se à dupla linguagem de George
Orwell que diz: «a guerra é a paz, a liberdade é a escravidão, a ignorância é a
força ». Vivemos nós uma época em que o significado original das palavras muda
de sentido? Será que o Império dos EUA e seus vassalos conduzem uma guerra em
nome da democracia e destroem Estados-Nação com a mesma retorica democrática?
 WE : É por isso que acho a citação de Orwell tão apropriada. O seu livro 1984
é, de diversas formas, uma descrição do que sucedeu às nossas democracias
ocidentais, sobretudo na Grã-Bretanha e nos EUA.
 LW: Se pudesse dar um conselho às ONG, o que é que lhes diria?
 WE : Às pessoas honestas que poderiam ter-se deixado enredar na teia desta
bonita retórica a propósito dos valores, dos direitos do homem etc.,
sugerir-lhes-ia que olhassem mais de perto quem sustenta financeiramente a sua
ONG. No que diz respeito à NED ou às fundações de Soros, sugerir-lhes-ia que
lhes fechassem definitivamente a porta prestando assim um grande serviço à
humanidade, que seria o de permitir às nações e aos indivíduos decidir o seu
próprio futuro sem a sua negativa intervenção. Diria, para parafrasear Cromwell
no seu Parlamento inglês: « Vós, ONG dos direitos do homem, ide-vos! Para o
benefício que era suposto ter-nos trazido, estais aqui há demasiado tempo.
Parti, digo-vos, e que nada mais haja entre nós, em nome de Deus, parti! »
LW: Sr. Engdahl, agradeço-lhe esta entrevista.
 WE : Obrigado pelo seu interesse e pelas suas excelentes perguntas.
 [1] Laboratório de Ideias e Círculo de Influencia, tradução de think tank.
*Publicada pelo American Herald Tribune, 17 Julho 2017.
 Fonte:https://ahtribune.com/in-depth/1789-william-engdahl-cia-ngos.html

In
O DIÁRIO.INFO
https://www.odiario.info/o-imperio-eua-a-cia-e/
20/10/2017

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

      O petrodólar e a nova divisa chinesa com lastro ouro


       por Paul Craig Roberts 


       Leitores dos EUA e de todo o mundo querem saber o que concluir do anúncio
      de que a China doravante efectuará compras e vendas de petróleo em divisa
      chinesa com lastro ouro.
       Será isto um ataque da Rússia e da China ao US dólar? Será o dólar
      enfraquecido a ponto de entrar em colapso e ser descartado como a divisa
      em que o petróleo é transaccionado? Estas e outras perguntas estão nas
      mentes dos leitores.
       Segue-se a minha opinião:
       O valor do US dólares depende de se bancos centrais, corporações e
      indivíduos estão satisfeitos em possuírem seus activos ou riqueza em
      dólares. Se estiverem, não importa que divisa é utilizada para
      transaccionar petróleo. Se não estiverem, não importa se todo o petróleo é
      transaccionado em dólares. Por que?
       Porque se não quiserem possuir dólares, eles livrar-se-ão dos dólares
      assim que seja completada a transacção e irão para outras divisas ou o
      ouro. O que a China está a fazer é criar uma divisa que cuja posse pode
      ser mais atraente.
       É possível que a divisa chinesa com lastro ouro seja um movimento contra
      o poder dos EUA, mas vejo isto de modo diferente. Encaro-a como uma
       protecção contra o poder dos EUA. A China e a Rússia estão a
      desassociar-se do sistema dólar porque Washington, ao abusar do seu papel
      como divisa mundial, utiliza o mecanismo dos pagamentos em dólar para
      impor sanções a outros países e ameaçá-los com exclusão de pagamentos
      através do sistema de compensação  (clearing system). 
       Por outras palavras, Washington, ao invés de operar um sistema justo,
       utiliza o papel mundial da sua divisa para dominar outros países. A
       Rússia e a China são demasiado fortes para serem dominados e, portanto,
      estão a livrar-se do sistema dólar. Se outros países os seguirem, o dólar
      deixará de ser um instrumento de controle dos EUA sobre o resto do mundo.
       Dito de modo diferente: Bretton Woods atribuiu a Washington a
      responsabilidade pelo sistema financeiro mundial. Washington abusou do
      poder que lhe foi confiado ao utilizar o sistema dólar para desestabilizar
      outros países, tais como a Venezuela actualmente. O abuso de Washington do
       papel da divisa mundial a fim de avançar interesses financeiros e de
       negócios americanos e o poder de Washington sobre as políticas externa e
      interna de outros países activou forças que eliminarão o papel do dólar
      como a divisa de reserva mundial.
       O orgulho e a arrogância de Washington estão a destruir o poder
       americano.
In
RESISTIR.INFO
http://resistir.info/eua/roberts_18out17.html
18/10/2017

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Pedagogías del siglo XXI



En el centenario de la revolución rusa. 1. El proyecto educativo bolchevique: la
escuela única del trabajo.
¿Cuál es el sentido y el contenido de los debates, propuestas y realizaciones
para fomentar al "hombre nuevo" en la primera época de la revolución socialista?
¿Y cuáles sus logros y dificultades? Qué se hizo y qué quedó por hacer.

Jaume Carbonell

Marx y Engels sentaron las bases de la pedagogía socialista. Pero hay que
esperar al triunfo de la revolución soviética, liderada por Lenin al frente del
partido bolchevique, para que dichos principios se profundicen e intenten
plasmarse en una realidad concreta que se propone la transformación de una
sociedad regida por la explotación de las clases dominantes en una sociedad
comunista al servicio de las clases trabajadoras. Una oportunidad histórica y
hasta cierto punto inesperada -multitud de previsiones situaban este estallido
revolucionario en un país industrializado- y un reto mayúsculo.
Alfabetización y escolarización para una  nueva cultura y moral comunista
I.V. Lenin, se implica a fondo en los debates y decisiones en torno a la
educación, porque entiende su lugar estratégico y prioritario para dar
consistencia al cambio social revolucionario: “Sin ella el comunismo no será más
que un deseo”. Desde el principio se trabaja en dos frentes: a) la
escolarización y la alfabetización para sacar a la población de su ignorancia
secular; y b) la formación del “hombre nuevo”.  Aunque las estadísticas de la
época son poco fiables, las tasas de analfabetismo, se sitúan ente el 50% y el
80%. Las campañas dirigidas a la población de 8 a 50 años, a pesar de las
enormes dificultades en tiempos de guerra y de paz, logran reducir
sustancialmente este porcentaje hasta el 40% en 1929 y el 20% en 1937. Otros
datos muestran que entre los años 1920 y 1940, 60 millones de personas adultas
aprendieron a leer y a escribir. Por otro lado, en pocos años se duplica la
escolarización en el nivel primario. Para atajar este subdesarrollo se hace un
llamamiento a los obreros de las fábricas para la alfabetización de las zonas
rurales y más atrasadas de la URSS (Unión de Repúblicas Socialistas Soviéticas).
En las universidades se crean facultades obreras que facilitan el tránsito hacia
los distintos estudios superiores de carácter humanístico y politécnico, con una
progresiva política de becas para promover el acceso de la clase obrera y
campesina. A ello contribuye también la amplia red de  bibliotecas y otras
iniciativas complementarias de promoción cultural.

Si no lees libros, olvidarás la gramática / Wikimedia
El segundo frente se centra en el destierro de la ideología burguesa y su
sustitución por los valores de la nueva cultura revolucionaria. “Toda la moral
consiste en esta disciplina solidaria y unida y en esta lucha consciente de las
masas contra los explotadores”.  Ello supone una intensa lucha ideológica para
combatir y eliminar las culturas preburguesas, burocráticas y feudales, y
sustituirlas por las nuevas visiones, comportamientos y modos de vida
socialistas. El dirigente bolchevique aboga, al propio tiempo, por una
instrucción moderna que garantice la educación politécnica, y por la asimilación
del conocimiento acumulado por la humanidad, aunque superando el memorismo, el
autoritarismo y otras lacras de la vieja escuela zarista. “Sin trabajo, sin
lucha, el conocimiento libresco del comunismo, adquirido en folletos y obras
comunistas, no tiene absolutamente ningún valor, ya que no haría más que
continuar el antiguo divorcio entre la teoría y la práctica”.
La escuela única del trabajo
Las orientaciones generales del sistema educativo soviético, que se aplican de
forma contradictoria y parcial en el transcurso del período 1917-1931, se
plasman en el Decreto del 16 de octubre de 1918 que regula la Escuela Única del
Trabajo. Esta se basa en tres  premisas: la red única de enseñanza, la escuela
unificada y la relación de la escuela con la producción.  Se dispone que de
forma inmediata “todos los establecimientos de enseñanza existentes bajo
diferentes autoridades, pasarán a depender del comisariado del pueblo para el
progreso de la cultura”. Ello comporta, por tanto, la nacionalización de todos
los centros privados -mayoritariamente pertenecientes a la iglesia ortodoxa-,
mediante una planificación que asegure la escolarización de todos los niños de 6
a 17 años que deben ser escolarizados en esta modalidad de “escuela única del
trabajo”. Se divide en dos niveles: el primero para los niños de 8 a 13 años y
el segundo para los jóvenes de 13 a 17 años, con un anexo de un jardín de
infancia para niños entre 6 y 8 años. Estos tramos mantienen una orientación y
dirección común de acuerdo con los presupuestos reformadores del movimiento de
la escuela unificada. La gestión del centro -se habla de autogestión-
corresponde a un organismo representativo de los agentes de la comunidad y del
distrito escolar.
Se trata de una escuela obligatoria, gratuita, mixta y laica: “La enseñanza
religiosa, de cualquier credo, así como las prácticas religiosas están
prohibidas en los locales escolares”. Y se introducen algunas prácticas
innovadoras que rompen con el modelo educativo zarista: supresión de los
exámenes, pruebas de ingreso, promoción o salida; prohibición de deberes y otras
trabajos obligatorios para realizar en casa; abolición de las categorías y
situaciones discriminatorias entre el profesorado; sustitución, en la medida de
lo posible, de la división de las clases por edades, por la de grupos de acuerdo
al grado de formación en cada área específica; ratio  máxima de 25 alumnos;
apuesta por la educación mutua; y respeto al uso de la lengua propia y materna
en las distintas nacionalidades de la URSS.
La enseñanza en cada uno de los dos niveles de la escuela del trabajo tiene un
carácter de formación general y de formación politécnica, sin olvidar la
educación física y artística. La relación de la escuela con la producción es sin
duda la singularidad más emblemática de este proyecto. Esto no es baladí, pues
este binomio  de escuela única-unificada, despierta un prolongado e intenso
debate entre los clásicos marxistas, entre las vanguardias de los partidos
socialistas y comunistas de Europa capitalista, y en el seno de los movimientos
de renovación educativa. La escuela del trabajo constituye, en cierta medida,
una simbiosis entre la aportación marxista de la educación politécnica y la
escuela activa de Dewey, intentando mantener el equilibrio en el sentido de que
el trabajo, sin dejar de ser verdadero trabajo productivo, no pierde tampoco su
carácter pedagógico.
El debate en torno a la relación de la escuela con la producción
La concreción de esta propuesta tan ambiciosa genera un interesante debate que
se polariza en torno a tres estrategias: la leninista, que representa el ideario
del partido en el poder: la de los sectores comunalistas y anarco-comunistas,
más próxima a las iniciativas espontáneas y experimentalistas de la base; y una
tercera intermedia, encabezada por los responsables de la política educativa,
entre ellos A.V. Lounatcharsky, al frente del Narkomprós (Comisariado del Pueblo
para la Instrucción Pública) y, sobre todo, la influyente N.Kroupskaia, la
pareja de Lenin. Cabe recordar que Marx no había concretado en sus escritos de
qué modo debería articularse la relación de la escuela comunista con la
producción.
El dirigente bolchevique prioriza la iniciación en los fundamentos de la
industria moderna frente al trabajo y la experiencia práctica. “Es preciso
enseñar y explicar a nivel ideológico las nociones básicas, y no tanto pretender
hacer realidad la participación en la producción”. Un posicionamiento que lo
justifica por dos factores de la coyuntura soviética: las dificultades de llevar
a término un trabajo práctico generalizado en fábricas y talleres, debido a la
situación económica caótica y a su lento proceso de reestructuración; y la
vinculación del principio politécnico a las tareas específicas de la edificación
económica de la URSS: a la industria moderna y, mas particularmente, al Plan de
Electrificación. Lenin defiende esta opción productivista al entender que se
asiste a una fase de transición -y no de realización comunista- que precisa el
asentamiento y consolidación de la dictadura del proletariado y de sus
instituciones y aparatos político-ideológicos.
La segunda estrategia, impulsada por teóricos ucranianos y moscovitas como
Radovsky, Riappo y Xulguin, intentan forzar el proceso de transformación
socialista mediante la revolución cultural proletaria, con  la abolición del
Estado y de sus instituciones. Se proclama la muerte de la escuela,
convirtiéndola  en un apéndice de la fábrica en las ciudades y de la comuna en
las zonas rurales, sin libros ni lecciones, sin programación alguna. Asimismo,
se propugna la disolución de la familia y su sustitución por las comunas
infantiles de trabajo, mediante una regulación sobre el divorcio, el aborto y la
sexualidad.
En una posición intermedia se sitúan las aportaciones de los miembros del
Narkomprós (equivalente a nuestro Ministerio de Educación) y, particularmente de
Kroupskaia, partidaria de la hegemonía de la instancia pedagógica: “La educación
de los niños debe resolverse a un nivel pedagógico y no primariamente político”,
y de que la infancia experimente las más diversas conexiones con el mundo de la
producción, a fin de evitar especializaciones prematuras y adquirir las nociones
básicas del proceso y organización del trabajo. Es contraria a que la educación
politécnica se deje únicamente en manos de las fábricas, y alerta del peligro de
que los niños sean utilizados “para el trabajo más monótono imaginable” y vean
su horizonte prematuramente limitado por su “educación profesional”; o bien que
sean adiestrados para tareas muy precisas.

Cartel soviético sobre alfabetización para el trabajo. / Wikimedia.
Contra el mito de la escuela neutra
¿Cómo encaja la educación comunista de clase con la enseñanza neutra? ¿Puede el
niño recibir una educación socialmente neutra cuando jamás es posible llevar una
vida socialmente neutra fuera de la escuela? ¿Qué se esconde tras el discurso de
la neutralidad? A partir de estos  interrogantes se suscitan  encendidos debates
en el seno del movimiento socialista, aunque las dudas pronto se disipan en la
revolución de octubre. Kroupskaia desenmascara la falacia de la escuela neutra,
entendida como institución que pretende garantizar la máxima libertad: “La
escuela que desea ser neutra no es más que una escuela muerta, es la escuela del
silencio para el niño, que vive de espaldas a la realidad, que no cuestiona
nada, que no establece una relación real maestro-alumno.” Sostiene que toda
escuela transmite explícita e implícitamente un contenido de clase. La una -la
de la burguesía- intenta mantener los privilegios de clase; la otra -la del
proletariado- opta por la desaparición de las clases.
La existencia de huelgas, de guerras y de otros conflictos sociales penetran en
la escuela porque el niño los vive y habla de ellos en las aulas. Por supuesto
que el maestro puede cerrar los ojos frente a la realidad, dando muestras de
pasividad, indiferencia, absentismo, acriticismo,… Y no hay que olvidar que,
precisamente, sobre estas actitudes se construyen y se justifican las “delicias”
y las “purezas” de la enseñanza neutra. Kroupskaia lo ilustra con varios
ejemplos: “Se hace huelga en las fábricas. ¿De qué lado se pone la escuela? De
ninguno, ¡es neutral! El 9 de febrero, los soldados del zar fusilaron en
Petersburgo a cientos de obreros. Los niños, de cadáver en cadáver, caminaban
para encontrar a sus padres asesinados. ¿de qué lado estaban ellos? ¿puede
todavía la escuela permanecer neutra?
La cuestión pedagógica
Otro de los grades debates es el relativo al contenido y la innovación
pedagógica y, más en concreto, sobre el posicionamiento en torno al movimiento
de la Escuela Nueva. La ortodoxia-heterodoxia pedagógica experimenta importantes
vaivenes en los períodos 1917-23 (que podríamos calificar de anarco-comunismo y
de tanteo experimental); (1923-1927 (de transición); y 1927-1933 (de
configuración del estalinismo). En determinados períodos coyunturales, y en
relación a ciertas corrientes la condena a la corriente de la Escuela Nueva es
frontal y sin excesivas matizaciones.  En otros casos se recogen ciertos
elementos considerados progresistas que se incorporan dentro de la nueva
pedagogía marxista: el caso de J.Dewey es quizás el más emblemático  por sus
ideas en torno a la democracia educativa, la cooperación y la relación de la
escuela con el entorno. En otras situaciones se establecen claras diferencias
entre unas y otras concepciones del mencionado espectro pedagógico
Sin duda hay dos pedagogos soviéticos que brillan con luz propia: Makarenko (del
que, debido a su gran relevancia,  nos  ocuparemos la próxima semana) y
P.Blonskij. Éste es el primero que trata de llevar a la práctica los principios
pedagógicos de Marx pero siguiendo la huella de Rousseau y su visión un tanto
ingenua de la bondad natural infantil:  sostiene que ésta es por naturaleza
comunista y que “hay que desarrollar esta disposición que permita a los niños
construir su propio mundo comunista, sin imposiciones de los adultos”. Parte de
la idea que el trabajo útil, por medio del cual se producen objetos útiles, es
el fundamento de toda educación, coincidiendo con los planteamientos
comunalistas acerca de la desaparición de la escuela y de la fábrica como
espacio educativo más idóneo.  Otro de sus principios pedagógicos básicos es que
no son los libros y los profesores quienes educan sino la vida -la comuna, la
fábrica la economía y las relaciones sociales-; y estas unidades se le deben
ofrecer al alumnado como totalidades y complejos. Este método de los complejos
suprime la organización por materias.
La propuesta pedagógica de Blonskij obtiene un cierto reconocimiento en los
primeros compases de la revolución aunque no llegue a aplicarse nunca, salvos
algunas aplicaciones puntuales del método de proyectos que pronto son
reemplazados por las disciplinas clásicas. Pero con el estalinismo (a partir de
1924) sus concepciones son relegadas y  condenadas por considerarse
“pequeño-burguesas” y “pseudo-socialistas”. También las teorías acerca de la
decadencia y abolición de la escuela fueron tachadas de liberales.
Cinco reflexiones a modo de conclusión
En este breve recorrido por la educación soviética, tras el triunfo de la
revolución de octubre, nos hemos centrado en los primeros años: hasta la década
de los veinte y, más en concreto, en el período liderado por Lenin hasta su
muerte (1924) y su sustitución por I.V.Stalin. Una época muy convulsa y plagada
de obstáculos donde las condiciones objetivas de la realidad;  y las subjetivas,
relativas al nivel de preparación y conciencia, tanto de la clase dirigente como
del pueblo, frustraron o dejaron a medio camino la realización de ideas y
proyectos educativos de carácter transformador. ¿Cuáles fueron, más en concreto,
estos obstáculos?
1.Las consecuencias de la I Guerra Mundial y de la Guerra Civil. La destrucción,
la economía en bancarrota, los costes humanos, el hambre, la sequía, la falta de
recursos materiales y todo tipo de privaciones obligan a atender las necesidades
básicas de la población, aunque no por ello remite la movilización en torno a la
alfabetización y otros logros educativos.
  La reorientación de la Escuela Única del Trabajo. La época del comunismo de
  guerra y, sobre todo, la NEP, (“Nueva Política Económica”), que comporta
  acelerar a marchas forzadas el crecimiento económico y la productividad con
  los planificación centralizada de la industrialización obligan, por cuestiones
  de realismo en palabras de Lenin, a priorizar el carácter productivista de la
  educación atendiendo a las nuevas demandas económicas, en perjuicio de la
  cuestión pedagógica.
3.De la hegemonía de los sóviets a la hegemonía del partido. Uno de los rasgos
más destacados de la revolución rusa de 1917 es el protagonismo de los consejos
-“los sóviets”- de trabajadores, campesinos y soldados, que se presentan como la
base de una nueva organización social en el que el poder deben ir de abajo a
arriba. Ello permite en el terreno educativo la posibilidad de un debate
abierto,  elegir y autogestionar proyectos específicos o  decidir la mejor forma
de organizar la enseñanza. Pero muy ponto, tomando los dos puntos anteriores
como coartada, se impone la disciplina del partido en los sóviets. Así, la
dictadura del proletariado, en vez de avanzar hacia el Estado socialista, deriva
hacia la dictadura militar y partidista del proletariado, imponiéndose el
dirigismo burocrático del aparato político.
4.Cierre a la pluralidad ideológica y pedagógica. En los primeros compases de la
revolución, a pesar de las dificultades descritas, hay cierto grado de libertad
de pensamiento y acción que permite discutir, contrastar y hasta experimentar
tímidamente diversas tendencias y prácticas educativas. En este período se
buscan puntos de contacto entre la pedagogía marxista, los reformadores de la
Escuela Nueva y otras corrientes innovadoras. Esta apertura pluralista empieza a
restringirse ya en el mandato leninista y se cierra de cuajo con el ascenso de
Stalin al poder, en que se censuran las ideas y prácticas consideradas “impuras
y heterodoxos” y se castiga todo tipo de disidencia, salvo alguna loable
excepción.
5.El profesorado: entre lo viejo y lo nuevo. Se dice y con razón que el
profesorado es, con cierta frecuencia, el factor clave de resistencia a los
procesos de transformación social. Y así fue en la Rusia revolucionaria.
Escasean los profesores y un buen porcentaje de ellos, incluido el sindicato
docente, son hostiles al nuevo régimen. En el “Narkomprós” (Ministerio de
Educación) se purga a la mayoría del personal y se crea otro cuerpo de
inspectores. Pero, ¿cómo puede lograr Lenin, de la noche a la mañana,  un
propósito de tal magnitud: “Educar un nuevo ejército de personal pedagógico
enseñante que debe estar estrechamente ligado al partido y a sus ideas, que debe
estar impregnado de su espíritu? “El de formar al “hombre nuevo”.
 Un mundo rico y complejo de ideas, ilusiones, contradicciones y frustraciones
que se extendieron por muchos países, y que alimentaron otros procesos
revolucionarios con sus consiguientes variaciones, esperanzas, logros, desastres
y traumas. Historiadores y analistas de todos los colores han llenado miles de
páginas para contarnos los avatares de esta historia. En cierto modo, el fin de
esta historia: el certificado de defunción de este relato utópico.
PARA SABER MÁS
-Lounatcharsky; Kroupskaia; Hoernle, E y otros. (1978). La Internacional
Comunista y la escuela de clase. Barcelona: Icaria.
-Fontana, J. (2017). El siglo de la revolución. Barcelona: Crítica.
-Palacios, J. (1979).  La cuestión escolar. Barcelona: Laia.

Jaume Carbonell es pedagogo, periodista y sociólogo. Exdirector de la revista
Cuadernos de Pedagogía. Miembro del consejo editorial de El Diario de la
Educación. Su último libro publicado es: 'Pedagogías del siglo XXI. Alternativas
a la innovación educativa'. Este blog es un espacio abierto a las reflexiones,
debates e interrogantes que conforman la educación del presente-futuro. Contiene
teorías pedagógicas, prácticas innovadoras, políticas, agentes, escenarios y
producciones de todo tipo que ayudan a pensar, a soñar y a construir otra
educación más libre, justa y humanizada

In
REBELION
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=232802
16/10/2017