quarta-feira, 14 de março de 2018

Tensão na Câmara dos Vereadores de São Paulo, PM trucida professores

Jornal GGN - Com a votação, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Vereadores de São Paulo, do Projeto de Lei (PL) 621, que dificulta o acesso de servidores municipais à aposentadoria e aumenta a contribuição previdenciária, funcionários públicos ocupam o espaço em protesto.
A situação está tensa, com a Polícia Militar reprimindo o protesto com gás de pimenta e muita truculência. A Polícia Militar de São Paulo só atua por ordem expressa do Presidente da Casa. Centenas de bombas foram jogadas em cima de professores fazendo manifestação pacífica.
Uma fonte, no oitavo andar do Palácio Anchieta, relata que o cheiro de gás pimenta já é insuportável.
Desde 2013, já houveram dezenas de manifestações na porta da Câmara Municipal de São Paulo. Nenhuma foi tão bestamente e desproporcionalmente reprimida como esta.
O projeto é do prefeito João Doria que, sem colocar a questão em discussão com os afetados diretamente, ou mais de 200 mil servidores do município, apresentou a proposta na véspera do Natal e está pressionando para que seja aprovado em abril.
Professores municipais já estão em greve, e cerca de 93% das escolas estão paralisadas.
 In
JORNAL GGN
14/3/2018

terça-feira, 13 de março de 2018

Unir a esquerda socialista com as pré candidaturas populares de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara!


imagemO Comitê Central do PCB vem a público anunciar a decisão de promover a coligação com o PSOL para as eleições deste ano. Declaramos o apoio político à pré candidatura à presidência da República dos companheiros Guilherme Boulos e Sônia Guajajara, aprovada na Conferência Eleitoral do PSOL. Trata-se de uma ampla aliança política e social entre o PCB, PSOL, MTST, os movimentos dos povos indígenas, movimentos feministas, negros, LGBTs, intelectuais progressistas, trabalhadores urbanos e rurais em torno de um programa que expresse a unidade mais consequente e combativa nas lutas contra os ataques da burguesia e do imperialismo aos direitos sociais, trabalhistas e democráticos desferidos pelo governo golpista.
O atual quadro histórico de aprofundamento da crise capitalista, acirramento das disputas interimperialistas no mundo e crescimento da extrema direita, com a continuidade da acumulação capitalista e suas expropriações, impõe cada vez mais limites e restrições às liberdades democráticas historicamente conquistadas pela classe trabalhadora. Nesse sentido, é fundamental que as pré candidaturas de lideranças dos trabalhadores sem teto e indígena também apontem para a necessária reconstrução e fortalecimento das organizações populares e suas lutas, antes, durante e depois das eleições.
O PCB construirá esta campanha nestes termos, ombro a ombro junto aos companheiros e companheiras. Somando-se às importantes iniciativas da plataforma Vamos, aos acúmulos das lutas dos movimentos populares e do PSOL, temos a apresentar o programa político do PCB, construído junto com a nossa militância, por meio de eixos programáticos de cunho popular, anticapitalista e anti-imperialista.
Para os comunistas brasileiros, na atual conjuntura, qualquer conquista política, social e econômica para as classes populares necessariamente irá contrariar os interesses das classes dominantes. Nesse sentido, a construção de candidaturas radicalmente populares passa longe de qualquer ilusão com a conciliação de classes. Igualmente devemos continuar a participar ativamente das lutas e resistências, para além das eleições, na Frente Povo Sem Medo, nos sindicatos, diretórios e grêmios estudantis, associações e movimentos populares.
O PCB conclama a sua militância partidária e dos coletivos, amigos e simpatizantes a não medirem esforços em participar da construção de uma ampla e combativa campanha na base da sociedade, capaz de se apresentar como alternativa a velhas ilusões estratégicas que permearam grande parte da esquerda brasileira até a história recente do nosso país.
Pelo Poder Popular! Pelo Socialismo!
São Paulo, 10 de março de 2018,
Comitê Central do PCB

In
PCB
https://pcb.org.br/portal2/19001/unir-a-esquerda-socialista-com-as-pre-candidaturas-populares-de-guilherme-boulos-e-sonia-guajajara
10/3/2018

segunda-feira, 12 de março de 2018

Cheque-mate As implicações dos novos sistemas de armas da Rússia



por Andrei Martyanov
Durante a Guerra Russo-Georgiana, em Agosto de 2008, as operações do 58º Exército da Rússia foram denominadas "coacção para a paz". É uma expressão apropriada pois recorda o que verdadeiramente estava em causa na altura. Os russos venceram aquela guerra e, na verdade, coagiram a Geórgia a adoptar um estado de espírito muito mais pacífico. Em termos Clausewitzianos, os russos alcançaram o objectivo principal da guerra ao obrigarem o inimigo a fazerem a vontade da Rússia. Os russos, como os acontecimentos dos últimos 19 anos mostraram, não têm mais quaisquer ilusões acerca da possibilidade de qualquer espécie de conduta civilizada razoável do conjunto do ocidente, ainda menos dos Estados Unidos os quais ainda continuam a residir na sua bolha que os isolam de quaisquer vozes de razão e de paz provenientes do exterior. O registo do comportamento global americano das últimas décadas não exige quaisquer elaborações especiais – é um registo de desastres militares e humanitários.

O discurso de Vladimir Putin no dia 1º de Março de 2018 à Assembleia Federal da Rússia não foi acerca das próximas eleições presidenciais, como sugeriram muitos obcecados por eleições no ocidente. O discurso de Putin foi acerca de como coagir as elites da América a, se não à paz, pelo menos alguma forma de sanidade, uma vez que elas estão completamente desligadas das realidades geopolíticas, militares e económicas agora a emergirem no mundo. Tal como no caso da Geórgia em 2008, a coacção foi baseada no poder militar. O Exército Russo pré-Shoigu, ainda que com todas as suas deficiências reais e visíveis, desfez-se da força georgiana treinada e parcialmente equipada pelos EUA numa questão de cinco dias – a tecnologia do Exército Russo, seu pessoal e a arte operacional eram simplesmente melhores. Obviamente um tal cenário não é possível entre a Rússia e os Estados Unidos; a não ser que o mito americano da superioridade tecnológica seja afundado na água.

As elites do poder americano, a maioria das quais nunca serviram nem um dia em uniforme e nem mesmo frequentaram instituições académicas militares sérias, têm uma perícia em questões militares-tecnológicas e geopolíticas limitada a um par de seminários sobre armas nucleares. No melhor dos casos, o Serviço de Investigação do Congresso, simplesmente não está qualificado para apreender a complexidade, a natureza e a aplicação da força militar. Eles simplesmente não têm pontos de referência. Mas, sendo um produto da cultura pop-militar americana, também conhecida como porno-militar e propaganda, estas pessoas – esta colecção de advogados, cientistas "políticos", sociólogos e jornalistas que dominam a cozinha estratégica americana, a qual elabora incessantes doutrinas geopolíticas e militares ilusórias – certamente podem entender quando os seus pobres seres queridos obtém um alvo gravado nas suas costas ou nas suas testas.

A mensagem de Putin aos Estados Unidos era extremamente simples:   ele recordou aos EUA a sua recusa em sequer considerar a posição da Rússia no Tratado ABM. Como disse Jeffrey Lewis, num surpreendente momento de sobriedade, na revista Foreign Policy :
A génese real da nova geração de armas nucleares bizarras da Rússia não se encontra na recente Nuclear Posture Review [dos EUA], mas sim na decisão da administração de George W. Bush em 2001 de se retirar do Tratado de Mísseis Anti-Balísticos, e no fracasso bipartidário tanto das administrações de Bush como de Obama em empenhar-se significativamente junto aos russos sobre suas preocupações acerca das defesas americanas de mísseis. Putin disse isso nas suas observações. "Durante todos estes anos desde a retirada unilateral dos EUA do Tratado ABM", explicou Putin, "estivemos a trabalhar intensamente em equipamento e armas avançadas, as quais permitiram-nos fazer um grande avanço no desenvolvimento de novos modelos de armas estratégicas". Estes grandes feitos tecnológicos agora estão aqui. Tristemente, nunca obtivemos os feitos diplomáticos de que precisávamos.
A mensagem de Putin foi clara: "Vocês não nos ouviram então, vocês nos ouvirão agora". Depois disso ele prosseguiu com aquilo que só pode ser descrito como um Pearl-Harbor militar-tecnológico comparável a Stalingrado. As ramificações estratégicas dos mais recentes sistemas de armas que Putin apresentou são imensas. De facto, elas são históricas pela sua natureza. Naturalmente, muitos sabichões americanos, como era de esperar, descartaram isso como fanfarronada – é expectável vindo da comunidade de "peritos" dos EUA. Outros foram não tão desdenhosos e alguns ficaram, na verdade, profundamente chocados. A impressão geral hoje, um dia após a apresentação de Putin, em termos simples pode ser descrita assim:  o fosso em matéria de mísseis é real e, de facto, não é um fosso mas sim um abismo tecnológico. Paradoxalmente, este abismo não está onde muitos o admitem – tal como o míssil balístico RS-29 Sarmat, cuja existência e características aproximadas eram mais ou menos conhecidas desde há anos. É, inegavelmente, um feito tecnológico impressionante ter um míssil balístico não só com alcance praticamente ilimitado como também capaz de trajectórias que tornam inútil qualquer espécie de Defesa Anti-Balística. No final das contas, ser atacado a partir do Pólo Sul, através da América do Sul, não é uma contingência que os militares dos EUA sejam capazes de enfrentar. Provavelmente não durante muitos e muitos anos.

Nem tão pouco o sistema da arma planador hipersónico (hypersonic glider) chamado Avangard, cuja produção em série já começou , é um desenvolvimento inesperado – os Estados Unidos têm o seu próprio, embora ainda não com êxito, programa para tais tipos de armamento e tais ideias têm estado a flutuar nos EUA desde meados dos anos 2000 sob a tutela do PGS (Prompt Global Strike). Sim, estes são feitos tecnológicos espantosos por parte da Rússia e o termo "bizarro" de Jeffrey Lewis é um eufemismo para "nós não temos qualquer coisa comparável", mas não era sequer aqui que o choque real deveria acontecer. Vários dos meus artigos sobre estes recursos têm sido centrados precisamente na área em que os Estados Unidos estavam mais atrasados – mísseis de cruzeiros, todas as espécies deles . Previ muitos anos atrás que o declínio militar real americano aconteceria precisamente neste caminho. Hoje é absolutamente claro que a Rússia possui uma esmagadora vantagem militar-tecnológica em mísseis de cruzeiro e aero-balísticos e neste campo crucial tem um avanço de décadas em relação aos EUA.

Enquanto comentaristas sabichões do ocidente estavam a discutir todos estes exóticos e, sem dúvida, espantosos sistemas de armas concebidos para atingir com armas nucleares qualquer ponto do globo com alta precisão, muitos verdadeiros profissionais estavam a arfar por respirar quando foi revelado o Adaga (Kinzhal). Trata-se de um completo divisor de águas geopoliticamente, estrategicamente, operacionalmente, tacticamente e psicologicamente. Era sabido desde há algum tempo que a Marinha Russa já estava a instalar um revolucionário Mach=8 míssil anti-navios 3M22 Zircon. Tão impressionante e virtualmente ininterceptável por quaisquer defesas aéreas é o Zircon, que o Kinzhal é simplesmente chocante nas suas capacidades. Isto, muito provavelmente com base na estrutura do famoso Iskander, com capacidade Mach=10+, altamente manobrável, míssil aero-balístico com um alcance de 2000 quilómetros, transportado por MiG-31BMs, simplesmente reescreveu todo o livro da guerra naval. Ele torna obsoletas grandes frotas de superfície assim como combatentes. Não, não está a ler mal. Nenhum sistema de defesa aérea ou anti-míssil no mundo de hoje (talvez com a excepção do S-500 que está para vir, concebido especificamente para a intercepção de alvos hiper-sónicos) é capaz de fazer qualquer coisa acerca disto e, muito provavelmente, demorará décadas descobrir o antídoto. Mais especificamente, nenhum sistema moderno ou em perspectiva instalado hoje por qualquer frota da NATO pode interceptar sequer um único míssil com tais características. Uma salva de 5-6 destes mísseis garante a destruição de qualquer porta-aviões e do seu grupo de batalha ou qualquer outro grupo de superfície – tudo isto sem utilização de munições nucleares.

A utilização de uma tal arma, especialmente desde que sabemos agora já estar instalada no Distrito Militar Sul da Rússia, é muito simples – o mais provável alvo dos mísseis, disparados por MiG-31s, será nas águas internacionais do Mar Negro, fechando portanto todo o Mediterrâneo Oriental a qualquer navio ou grupo de navios. A Rússia pode também encerrar o Golfo Pérsico completamente. Ela também cria uma maciça zona interdita (no-go) no Pacífico, onde MiG-31BMs de Yelizovo, no Cantchaka, ou da Base Aérea Centralnaya Uglovaya em Primosrky Krai serão capazes de patrulhar vastas extensões do oceano. É também notável que a actual plataforma para o Kinzhal seja o MiG-31 – indiscutivelmente o melhor interceptor da história. Obviamente, a capacidade dos MiG-31 para atingir velocidades supersónicas muitos altos (bem além de Mach=2) é um factor chave no lançamento. Mas não importa quais são os procedimentos para lançar esta arma terrífica, as consequências estratégicas imediatas do posicionamento operacional do Kinzhal são como se segue:

   1. Finalmente remove os porta-aviões para um nicho de pura projecção de poder contra adversários fracos e indefesos, e longe das zonas marítimas remotas da Rússia, seja no Mediterrâneo, Pacífico ou Atlântico Norte. Isto também significa uma completa interdição de voo para quaisquer dos destroyers e cruzadores da US Navy equipados com 33 Aegis, os quais são cruciais para a Defesa de Mísseis Balísticos americana;

   2. Torna os clássicos porta-aviões com grupos de batalha (CBGs) como força principal de ataque contra um igual (peer) ou quase-igual completamente obsoletos e inúteis, também torna indefesos navios de combate de superfície pouco importando as suas capacidades de defesa aérea ou anti-mísseis. Anula completamente um investimento de centenas de milhares de milhões de dólares naquelas plataformas e armas, as quais subitamente tornam-se nada mais do que gordos alvos indefesos. Todo o conceito de Batalha Ar-Mar, também conhecido como Joint Concept for Access and Maneuver in the Global Commons (JAM-GC) , o qual é pedra angular da dominância global americana, torna-se simplesmente inútil – isto é uma catástrofe doutrinária e orçamental.

   3. O Controle do Mar e a Negação de Mar mudam a sua natureza e fundem-se. Aqueles que dispõem de tais armas, simplesmente possuem vastos espaços do mar limitados pelo âmbito dos Kinzhal e seus portadores. Também remove completamente qualquer crucial apoio de superfície a submarinos na área, expondo-os portanto a patrulhas de aviação anti-submarina (ASW) e a navios de superfície. O efeito é multiplicativo e é profundo.

A Rússia tem muitos destes portadores – o programa de modernização dos MiG-31s para BM estava em pleno vapor a alguns anos atrás, com unidades da linha de frente da Força Aérea a receberem um considerável influxo destes aviões . Está claro agora porque tal modernização foi empreendida – ela tornou os MiG-31BMs plataformas de lançamento do Kinzhal. Como o general de divisão dos Fuzileiros Navais James L. Jones confessou em 1991, após a Primeira Guerra do Golfo: "É suficiente para por em pânico um grupo de batalha ver alguém a despejar na água um par de tambores de 50 galões [189 litros]". O Kinzhal remove eficazmente qualquer força de superfície não suicida para milhares de milhas de distância das praias da Rússia e torna as suas capacidades irrelevantes. Em linguagem vulgar isso significa apenas uma coisa – todos os componentes de superfície da US Navy tornam-se uma completa força esvaziada, boa apenas para paradas e demonstrações de bandeira nos litorais de países fracos e subdesenvolvidos. Isto pode ser feito por uma minúscula fracção dos custos astronómicos das plataformas e armas dos EUA.

É muito difícil por enquanto prever plenamente as consequências políticas do discurso de Putin nos EUA. O que é fácil prever, entretanto, é a utilização do surrado cliché da assimetria. A utilização deste cliché é errada. O que aconteceu no 1º de Março deste ano com o anúncio e demonstração das novas armas russas não é assimetria, foi o reconhecimento da chegada final de um paradigma completamente novo na guerra, na tecnologia militar e, em consequência, na estratégia e arte operacional. Antigas regras e sabedorias cessaram de se aplicar. Os Estados Unidos não estavam e não estão preparados para isto, apesar de muitos profissionais reais, incluindo dentro dos próprios EUA, advertirem acerca dos novos desdobramentos do paradigma militar-tecnológico e da completa miopia e arrogância americana em qualquer coisa relacionada com o militar. Como o coronel Daniel Davies foi forçado a admitir :
Por mais justificado que o orgulho possa ter sido ao tempo, ele rapidamente transmutou-se em arrogância desagradável. Agora, isto é um perigo absoluto para a nação. Talvez nada exemplifique melhor esta ameaça do que o disfuncional sistema de aquisição do Pentágono.
É prudente prever hoje, contra o pano de fundo de uma abordagem americana à guerra, que não haverá uma resposta tecnológica sensível dos EUA à Rússia no futuro previsível. Os Estados Unidos simplesmente não têm recursos, além de ligarem as impressoras e levarem a si próprios à bancarrota completa. Mas aqui está o ponto:   os russos sabem isto e o discurso de Putin não foi para ameaçar directamente os EUA os quais, para todos os efeitos, estão simplesmente indefesos contra a pletora de armas hiper-sónicas da Rússia. As acções da Rússia são ditadas apenas por uma causa:  sacar a arma a um brutamontes bêbado, brigão, a empunhar uma faca num bar de modo ameaçador, e levá-lo a prestar atenção ao que os outros podem ter a dizer. Por outras palavras, a Rússia levou a briga para um combate de facas e este parece ser o único meio de tratar os Estados Unidos nos dias hoje.

Se as advertências e a demonstração da superioridade militar-tecnológica russa terão um efeito, como foi a intenção russa desde o princípio, poderá ter início alguma conversação significativa entre actores geopolíticos chave acerca da nova ordem mundial. O mundo não pode permitir qualquer brutamontes vazio, pretensioso, auto-convencido e que não sabe o que faz que ameaçe a estabilidade e a paz mundiais. A auto-proclamada hegemonia americana está acabada naquilo que realmente importa para qualquer hegemonista real e assumido — o campo militar. Estava acabada desde há algum tempo, coube ao discurso de Putin demonstrar o bom e velho truísmo de Al Capone de que alguém pode obter muito mais com uma palavra gentil e uma arma do que apenas com uma palavra gentil. Afinal de contas, a Rússia tentou apenas a palavra gentil, mas isto não funcionou e os Estados Unidos têm de se culpar apenas a si próprios.
05/Março/2018
O original encontra-se em www.unz.com/article/the-implications-of-russias-new-weapons/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

11/Mar/18
In
RESISTIR.INFO
http://resistir.info/russia/martyanov_05mar18.html
5/3/2018

domingo, 11 de março de 2018

ACORDO UNITÁRIO ESTRUTURAL PSUV-PCV


Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV)-Partido Comunista da Venezuela
(PCV)


O PSUV e o PCV denunciam, perante o mundo, que o imperialismo – através do
governo dos EUA e com a subordinada cumplicidade de governos da América Latina e
da extrema direita venezuelana –, insiste em criar um expediente artificial em
organizações multilaterais contra o nosso país, para tentar justificar uma
intervenção internacional, com a possibilidade real de os governos direitistas
da Colômbia, do Brasil ou da Guiana criarem uma provocação nas fronteiras.
Para enfrentar a crise do capitalismo dependente e rentista da Venezuela com
ações políticas e socioeconómicas anti-imperialistas, patrióticas e populares

1) O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e o Partido Comunista da
Venezuela (PCV), como herdeiros do legado de Simón Bolívar e das lutas do povo
venezuelano nos seus anseios de independência, desenvolvimento soberano e
integração latino-americana, subscrevem o presente ACORDO UNITÁRIO ESTRUTURANTE,
com o compromisso comum de o aplicar na sua totalidade, entendendo que a
crescente, imoral, ilegal e criminosa agressividade e ingerência do imperialismo
norte-americano e seus aliados europeus contra o processo bolivariano
venezuelano põe em risco a perspetiva de libertação nacional que se desenvolveu
a partir da vitória popular encabeçada pelo Comandante Presidente Hugo Chávez
nas eleições presidenciais de 1998 e que, inclusivamente, põe em perigo a nossa
soberania nacional e integridade territorial.

2) O PSUV e o PCV denunciam, perante o mundo, que o imperialismo – através do
governo dos EUA e com a subordinada cumplicidade de governos da América Latina e
da extrema direita venezuelana –, insiste em criar um expediente artificial em
organizações multilaterais contra o nosso país, para tentar justificar uma
intervenção internacional, com a possibilidade real de os governos direitistas
da Colômbia, do Brasil ou da Guiana criarem uma provocação nas fronteiras.

3) O PSUV e o PCV expressam que a crise do capitalismo dependente e rentista da
Venezuela teve e tem graves consequências para a qualidade de vida de nosso
povo, especialmente no seu poder de compra e no abastecimento de bens e
serviços; esta situação foi agravada por ações e medidas do imperialismo e seus
agentes nacionais, potenciando a corrupção privada e pública, o burocratismo e a
fuga de divisas, num contexto de severa redução das receitas da exportação de
petróleo, fenómenos contra os quais o governo nacional deve manter e aprofundar
a luta frontal, como a empreendida na PDVSA [1] e outras entidades do Estado.

4) O PSUV e o PCV assumem que a saída da atual crise capitalista não deve ser a
favor da burguesia e das transnacionais, mas a favor dos interesses do povo, na
procura de um novo modelo produtivo pós-rentista, com desenvolvimento soberano,
tendendo à participação do protagonismo operário, camponês, comunal e popular,
que constitua uma grande frente anti-imperialista e avance na constituição de
uma instância orgânica de direção coletiva e unitária das organizações políticas
e sociais patriotas e revolucionárias, para a análise, construção e coordenação
de ações políticas e de gestão do governo.

5) A magnitude e gravidade da atual situação e a intensificação da luta de
classes a nível nacional e internacional justificam o incremento de ações
imediatas a nível económico, social e político, entre as quais se deve priorizar
medidas urgentes que deem resposta às exigências populares em alimentação e
saúde, que se consolidariam após o triunfo das forças patrióticas nas próximas
eleições presidenciais.

Direitos da classe operária e do povo trabalhador

6) O PSUV e o PCV enfatizam a importância de fortalecer o sindicalismo de classe
e as diversas expressões do movimento operário e revolucionário, como os
conselhos de produção dos trabalhadores, conselhos socialistas de trabalhadores
e trabalhadoras – aprovando a lei especial estabelecida na LOTTT [2] – e demais
formas organizativas operário-sindicais e revolucionárias, respeitando a sua
autonomia, desenvolvendo canais e mecanismos efetivos e oportunos para que as e
os trabalhadores de entidades públicas e privadas possam desempenhar um papel de
protagonismo no desenvolvimento do processo social de trabalho.

7) Tendo em conta a exacerbação da crise capitalista, que afeta amplos setores
da classe trabalhadora, é importante fortalecer e salvaguardar os direitos
laborais, a proteção do emprego e desenvolver a política de novos empregos.

8) O PSUV e o PCV trabalharão em conjunto – de acordo com o escopo e as
características de cada organização, a partir do Governo e dos espaços
sociopolíticos - para identificar e canalizar a restituição dos direitos
violados aos trabalhadores e trabalhadoras em casos já conhecidos ou que possam
surgir, em entidades de trabalho públicas e privadas.

9) Rever e aplicar, de imediato, as medidas corretivas necessárias às denúncias
feitas por organizações revolucionárias, sobre atuações de certos funcionários
públicos.

10) Avançar decididamente na adequada cadeia produtiva das empresas
nacionalizadas, que devem reforçar-se e reverter processos de desmantelamento e
deterioração que possam levar a paralisações prejudiciais ao desenvolvimento
produtivo nacional; além de proteger e apoiar institucionalmente os coletivos
camponeses que reativaram as fazendas estatais.

11) O PSUV e o PCV avaliarão as experiências de controle operário, como o “Plano
Guayana Socialista”, para o estabelecimento de um novo modelo de direção e
gestão múltipla das empresas estatais, sob controle operário e popular dos
processos de produção, administração e distribuição de bens e serviços, com base
na gestão coletiva, para banir permanentemente os flagelos da corrupção e da
ineficiência e os métodos autoritários e antidemocráticos na gestão.

12) Promover e implementar ações contundentes da SUNDDE [3] e da SUDEBAN [4], em
articulação com as organizações populares, a fim de proteger, de forma expedita,
os milhões de utentes dos serviços bancários, particularmente os assalariados,
pensionistas e pequenos empresários.

13) Consideramos pertinente e urgente a adoção ou o aprofundamento das medidas
destinadas a desmantelar o poder dos monopólios privados, definindo e promovendo
políticas para alcançar o desenvolvimento soberano e produtivo, castigando
exemplarmente os corruptos, especuladores e mafiosos. Promover o aprofundamento
e a promoção de políticas de desenvolvimento nacional, soberano e produtivo.

14) Hierarquizar o trabalho formal e com direitos como uma atividade que
dignifica o ser humano, assim como aumentar o salário e restituí-lo ao papel de
componente principal e maioritária do rendimento das e dos trabalhadores.

Medidas para analisar com maior profundidade

15) O PSUV e o PCV, em reuniões periódicas bilaterais, analisarão as propostas
estratégicas que estão a ser apresentadas pelo PCV para coadjuvar o bom
desenvolvimento dos planos e políticas do Estado e do Governo em benefício do
povo e da libertação nacional e, entre elas:

15.1) Matérias referentes à banca e ao sistema financeiro, comércio exterior,
finanças públicas e regime tributário.
Fortalecimento da ação político-organizativa

16) O PSUV e o PCV identificam áreas de ação comuns que devem fortalecer,
politicamente e organizativamente:

16.1) O PSUV e o PCV realizarão reuniões bilaterais, estabelecendo um cronograma
com a periodicidade de, pelo menos, uma vez por mês, entre representantes das
duas direções nacionais.

16.2) O PSUV e o PCV manterão o acompanhamento das administrações regionais e
municipais, para que desenvolvam políticas eficazes que tenham em atenção as
necessidades sentidas pela população.

16.3) Na área internacional, com base no âmbito de ação e atenção de cada
organização, fortalecer-se-ão as relações com as organizações que demonstraram
solidariedade consistente com a Venezuela e o processo bolivariano.

16.4) Na área produtiva, será garantido o apoio a propostas e projetos
industriais e agroindustriais, especialmente a todas as iniciativas do movimento
camponês e comunal.

16.5) O PSUV e o PCV comprometem-se com o fortalecimento do movimento operário e
sindical, facilitando às correntes revolucionárias de classe a sua articulação
com as entidades do Estado para a solução de problemas e conflitos laborais,
assim como para impor o respeito por todos os direitos das e dos trabalhadores.

16.6) Serão apoiados todos os projetos relacionados com os meios de comunicação
audiovisuais e impressos que sejam da iniciativa de ambas as organizações e dos
movimentos populares e dos trabalhadores e que colaborem no combate contra a
guerra mediática e as operações psicológicas.

16.7) As organizações políticas promoverão o relacionamento das suas
organizações juvenis – a Juventude do Partido Socialista Unido da Venezuela
(J-PSUV) e a Juventude Comunista da Venezuela (JCV) –, através da promoção de
propostas estudantis, culturais, desportivas e comunitárias, para o
aprofundamento dos direitos da juventude.
16.8) Com o objetivo de avançar no desenvolvimento da política de alianças do
PSUV-PCV e do movimento popular revolucionário, trabalharemos para garantir uma
fórmula unitária de caráter eleitoral, que garanta a efetiva presença e
fortalecimento das nossas organizações nas eleições legislativas a nível
nacional, estadual e municipal.

Eleições presidenciais

17) O PCV, com base no presente acordo e nos diversos pontos de concordância com
o PSUV, sobre aspetos da política nacional e internacional, assume a candidatura
do compatriota Nicolás Maduro Moros, de modo a que, à frente de uma ampla
coligação de forças políticas e sociais, patrióticas, populares e
revolucionárias – como germe da direção coletiva e unitária do processo –,
represente as aspirações populares da luta anti-imperialista, a unidade
latino-americana e o desenvolvimento soberano no interesse do povo venezuelano;
pelo que iremos trabalhar em conjunto, sem prejuízo da autonomia de cada
organização, para alcançar um contundente triunfo, no próximo dia 22 de abril de
2018.

18) Ambas as organizações se comprometem a divulgar o presente “Acordo Unitário
Estruturante PSUV-PCV”.

19) Este documento é feito em duplicado.

Nicolás Maduro M. - Jorge Rodríguez G. - Aristóbulo Istúriz A.
Oscar Figuera G. - Yul Jabour T. - Oswaldo Ramos H.
Caracas, 26 de fevereiro de 2018.

Notas

[1] A Petróleos de Venezuela (PDVSA) é uma empresa estatal venezuelana que se
dedica à exploração, produção, refinação, comercialização e transporte de
petróleo da Venezuela. https://pt.wikipedia.org/wiki/Petr%C3%B3leos_de_Venezuela
– NT

[2] LOTTT: Lei Orgânica do Trabalho, dos Trabalhadores e das Trabalhadoras – NT

[3] SUNDDE: Superintendência Nacional para a Defesa dos Direitos Socioeconómicos
da Venezuela, criada para velar pelo cumprimento da Lei Orgânica de Preços
Justos, através de fiscalizações e inspeções.
https://es.wikipedia.org/wiki/Sundde. – NT

[4] SUDEBAN: Superintendência das Instituições do Setor Bancário da Venezuela,
entidade encarregada de fazer com que os bancos e instituições financeiras com
balcões neste país cumpram as normas locais que se lhes referem.
https://es.wikipedia.org/wiki/Superintendencia_de_las_Instituciones_del_Sector_Bancario_de_Venezuela.A
– NT
Fonte: publicado em 2018/02/28, em
https://prensapcv.wordpress.com/2018/02/28/acuerdo-unitario-marco-psuv-pcv/
Tradução do castelhano de PAT

In
PELO SOCIALISMO
http://pelosocialismo.blogs.sapo.pt/acordo-unitario-estrutural-psuv-pcv-33808
9/3/2018

sexta-feira, 9 de março de 2018

O novo arsenal nuclear russo restabelece a bipolaridade do mundo

Volta ao ponto de partida : o mundo é de novo bipolar. Os Estados Unidos, convencidos da sua superioridade, não deram conta da recuperação militar da Rússia.  Thierry Meyssan

No segundo trimestre de 2012, a Rússia e os seus aliados comprometeram-se à colocação de uma força de paz na Síria assim que o acordo de Genebra fosse concluído.
Mais tudo se passou de outro modo quando a França relançou a guerra, em Julho de 2012. Muito embora a Rússia tenha feito reconhecer a Organização do Tratado de Segurança Colectiva pela ONU afim de colocar soldados muçulmanos, principalmente do Cazaquistão, nada se alterou. Apesar dos apelos de Damasco por ajuda, Moscovo ficou muito tempo silenciosa. Só três anos mais tarde é que a Força Aérea russa chegou e bombardeou as instalações subterrâneas dos jiadistas.
Durante os três anos seguintes, diversos incidentes militares opuseram a Rússia aos Estados Unidos. O Pentágono queixou-se, por exemplo, da estranha agressividade dos bombardeiros russos que se aproximavam das costas dos EUA. Em Damasco, havia interrogações sobre o silêncio de Moscovo (Moscou-br) e questionava-se se havia esquecido os seus compromissos. Mas, nada disso se passava. A Rússia preparava em segredo um novo arsenal e só desembarcou quando achou que estava pronta.
Desde o início da sua intervenção, o seu exército instalou um sistema, não de empastelamento, mas de desconexão dos comandos da OTAN, num raio de 300 quilómetros à volta de Latakia. Em seguida, implantou o mesmo sistema no Mar Negro e em Kaliningrado. Além dos seus novos aviões, a Rússia usou mísseis de cruzeiro mais precisos que os dos EUA, disparados pela sua marinha a partir do Mar Cáspio. No mês passado, ela testou no campo de batalha, aviões multi-tarefas possuindo várias capacidades desconhecidas até agora.
Parece que, segundo os generais dos EUA no terreno, o exército russo dispõe agora de forças convencionais mais eficazes do que as dos Estados Unidos. No entanto, os seus homólogos do Pentágono ainda duvidam desse progresso, tão convencidos estão de ser eternamente superiores militarmente. Segundo eles, é simplesmente ridículo comparar os dois exércitos, tendo o seu um orçamento oito vezes superior. Todavia, jamais na ciência militar se comparou o desempenho de dois exércitos rivais com base apenas no montante dos seus orçamentos, o que Vladimir Putin sublinhou evocando a qualidade excepcional dos seus soldados em comparação com a dos Estados Unidos.
Seja como for, se os Russos são um pouco melhores em matéria convencional, eles não podem implantar-se em vários teatro de operação simultâneos e Washington conserva a sua superioridade nuclear.
A entrada na guerra, a 24 de Fevereiro de 2018, da infantaria russa na Ghuta de Damasco é, claro, a consequência de um acordo com os Estados Unidos que se comprometeram a não se imiscuir mais na Síria e, portanto, a não repetir o assédio que montaram contra o Exército Vermelho no Afeganistão. É também um sinal que o Pentágono agora teme que o exército russo lhe dê o troco, por todo lado, a nível mundial.
E é precisamente neste contexto que o Presidente Putin questiona a superioridade nuclear dos EUA. Durante o seu discurso no Parlamento, a 1 de Março de 2018, ele anunciou que o seu país possui um arsenal nuclear impressionante.
Todos estes programas eram já mais ou menos conhecidos há longa data, mas os especialistas só os imaginavam operacionais ao fim de um longo prazo. Ora, a maior parte já o estão. Deve-se perguntar como é que os Russos conseguiram pô-los operacionais sem conhecimento dos serviços de Inteligência dos EUA. Portanto, foi o que eles conseguiram fazer com o Su-57, que testaram em combate há três semanas atrás, enquanto a CIA não o imaginava pronto antes de 2025.

Vladimir Putin revelou o seu novo arsenal. O míssil balístico intercontinental (ICBM) Sarmat (com o nome de um povo russo antigo para quem mulheres e homens eram iguais). Este retoma a técnica da «cabeça orbital« que já assegurara a superioridade russa durante os anos 70, e que a União Soviética tinha abandonado ao assinar e ao ratificar os acordos SALT II. Ora, o Senado dos EUA jamais ratificou esse Tratado, tornando-o obsoleto. Este tipo de míssil, cuja cabeça é em primeiro lugar colocada em órbita, depois reentra na atmosfera e mergulha sobre o seu alvo, tem um raio de acção ilimitada. Os Tratados proibindo a nuclearização do espaço interditam a colocação de uma carga nuclear de maneira perene em órbita, mas não de a fazer entrar no espaço durante uma parte do seu trajecto. No estado actual do conhecimento, ele não pode ser interceptado durante este período. O Sarmat pode surgir na atmosfera e atacar seja quem for, seja em que lugar for.

O míssil Dagger (Kinzhal em russo) que deverá ser lançado a partir de um avião bombardeiro para atingir na atmosfera uma velocidade hipersónica, quer dizer cinco vezes superior à necessária para atingir o limite do som. Esta velocidade vertiginosa torna-o evidentemente impossível de interceptar. Ele foi testado com sucesso há três meses atrás.

A Rússia dispõe também de um motor a energia nuclear (quer dizer de uma central nuclear) que foi miniaturizado ao ponto de poder equipar um míssil de cruzeiro com carga nuclear. Tendo os mísseis de cruzeiro um trajecto imprevisível e este motor possuindo uma autonomia quase infinita, torna-os de momento imparáveis.

Este motor, colocado num drone submarino, permite-lhe transportar a uma velocidade várias vezes superior à de um submarino convencional, uma carga nuclear considerável. Além dos seus efeitos radioactivos, a carga transportada poderia desencadear um tsunami de 500 metros de altura ao largo de qualquer costa oceânica.

Finalmente, a Rússia tenta desenvolver um projéctil hipersónico, o Vanguarda, que não somente assumiria as características da passagem no espaço do Sarmat e a velocidade do Dagger, mas cuja trajectória poderia além disso ser ajustada no decurso do seu trajecto.
As novas armas nucleares russas foram concebidas para tornar inoperante o «escudo» anti-mísseis que o Pentágono desenvolve, com base após base, em todo o mundo desde há uns quarenta anos. Não se trata de um problema de força superior, mas de concepção técnica. O princípio do escudo não providencia nenhuma defesa possível face a eles.

Pior, o Presidente Putin anunciou igualmente a concretização de uma arma laser da qual manteve as características em segredo. Parece que ela é capaz de interceptar uma parte dos vectores de lançamento dos EUA.
De momento, os estados-maiores dos países membro da OTAN não creem numa palavra destas alegações, uma vez que essas armas parecem a seus olhos ciência-ficção.
Ora, a história ensinou-nos que a Rússia, o país do xadrez, não do póquer manhoso, jamais faz “bluff” a propósito do seu arsenal. Ela fez crer variadas vezes que armas em desenvolvimento estavam já operacionais, mas, oficialmente, jamais anunciou em «prontidão de combate» armas que ainda não o estavam. As mais de 200 novas armas empregues na Síria convencem-nos do avanço tecnológico dos seus cientistas.
Os imensos avanços da Rússia fizeram perder aos Estados Unidos o privilégio do golpe de surpresa. De agora em diante, em caso de guerra nuclear, os dois Grandes poderão atingir-se em igualdade de circunstâncias. Os EUA disporão de um número consideravelmente mais elevado de mísseis com cargas nucleares, e a Rússia estará à altura de interceptar um grande número deles. Tendo cada um a capacidade de devastar o planeta várias vezes, os dois encontram-se teoricamente de novo em igualdade neste tipo de confronto.
Da parte dos EUA, o complexo militar-industrial está em pane desde há uma vintena de anos. O projecto mais importante de aviónica da história, o F-35, devia substituir, ao mesmo tempo, os F-16, F-18 e F-22, mas a Lockheed Martin foi incapaz de conceber os softwares anunciados. O actual F-35 é, na realidade, totalmente incapaz de preencher as suas especificações e a Força Aérea dos EUA encara retomar a produção das aeronaves antigas.
É certo que o Presidente Donald Trump e a sua equipe decidiram atrair novos cérebros aos Estados Unidos para relançar a produção de armamento e forçar o lóbi militar-industrial a responder às necessidades do Pentágono, em vez de continuar a vender-lhe as mesmas velhas carcaças. Mas precisará, pelo menos, vinte anos para recuperar o atraso acumulado.
Os progressos técnicos da Rússia não só mudam a ordem mundial, restaurando, contra toda a expectativa, um sistema bipolar, como forçam também os estrategas a repensar a guerra.
A história ensinou-nos que poucos homens concretizam no imediato mudanças de paradigma militar. No século XV, quando os exércitos francês e inglês travaram a batalha de Azincourt, os cavaleiros franceses, com pesadas armaduras, foram esmagados pelos arqueiros e besteiros ingleses a pé, embora inferiores em número. No entanto, os generais persistiram em privilegiar o corpo a corpo em vez do combate à distância com flechas e balas de canhão. Viu-se ainda durante um século cavaleiros em armadura deixarem-se massacrar nos campos de batalha.
Por exemplo, nenhuma batalha de tanques teve lugar depois da derrota do Presidente Hussein, em 1991, durante a Operação Tempestade do Deserto. Ora, a quase totalidade dos exércitos não soube interpretar o que se passou. A vitória, em 2006 de pequenos grupos de Resistentes do Hezbolla contra os os carros blindados Merkava israelitas mostrou de maneira indubitável a vulnerabilidade deste tipo de armas. Raros foram os Estados que daí tiraram conclusões, salvo a Austrália e a Síria por exemplo. A própria Rússia persiste em produzir enormes fortalezas rolantes que não resistirão aos seus próprios RPG correctamente manejados.
O arsenal russo é imbatível, pelo menos se alguém o tentar enfrentar com métodos antigos. É, por exemplo, impensável interceptar projéteis hipersónicos. Mas, talvez se possa controlá-los antes que eles atinjam essa velocidade. As pesquisas militares irão, pois, orientar-se para o controle de comandos e comunicações inimigas. Azar, também neste domínio os Russos estão à frente.

In
VOLTAIRE-NET
http://www.voltairenet.org/article199997.html
5/3/2018

terça-feira, 6 de março de 2018

A receita de um país para poucos a serviço de estrangeiros.




Roberto Requião

“Os membros do Clube Militar, em nome dos mais santos princípios de humanidade,
esperam que o Governo não consinta que os oficiais e as praças do Exército sejam
desviados de sua nobre missão [para serem usados, como “capitães do mato” na
captura de escravos foragidos que se escondem nos morros do Rio de Janeiro]”.
[Além da desonra que esse papel implicaria ao Exército, não seria uma medida
eficiente, porque] “em todos os tempos os meios violentos de perseguição não
produzem nunca o efeito desejado”
Carta do Clube Militar do Brasil à Princesa Isabel, em outubro de 1887
................................................
Hoje, quero falar de um país para poucos.
Quero percorrer as sendas, os atalhos, os desvios, os mata-burros e as pinguelas
que, obrigatoriamente, deve-se tomar para a construção de um país para poucos.
Hoje, quero falar de um país que se aprumou e, como o homo erectus, ensaiou
passos com a cabeça erguida, orgulhoso de sua nova postura, mas que, logo
depois, regressou à mediocridade do país do possível, o país liliputiano de
Fernando Henrique.
Hoje, quero falar de um país que, em um instante de três anos, recuou às últimas
décadas do século 19 e primeiras do século 20, retirando da Constituição, das
Leis, do Orçamento e das obrigações do Estado mais de 90 por cento dos
brasileiros.
Quero falar de um país que em um piscar de olhos transmuda-se de protagonista a
figurante sem importância ou talento na cena internacional; um país que renuncia
a soberania sobre o petróleo, a energia, os minerais, as terras, a água,
indústrias, tecnologia, o espaço aéreo e aceita o papel de maior produtor
planetário de couve e cenouras.
Hoje, quero falar da elite suicida, que ao mesmo tempo em que acirra a luta de
classes, apertando ao máximo os torniquetes da exploração do trabalho, é ela
própria expropriada e espoliada pelo capital especulativo global e vê, a cada
dia que passa, sua importância política, econômica e social reduzida ao papel de
fantoche no teatro dos acontecimentos nacionais e internacionais.
Mas, como é que se faz um país para poucos?
 Não se trata de uma receita muito sofisticada.
Basta fazer uma gororoba, misturando as sobras do fim da feira do sistema
neoliberal.
Basta fazer uma xepa com aqueles produtos já em processo de deterioração, que
ninguém mais compra e o mundo rejeita.
Basta reunir o besteirol apregoado pela Globonews, CBN, Bom Dia Brasil, pelo
Otavinho, pelos Mesquita, pelos Civita e pelos Sirotsky, com as inestimáveis
contribuições do Kim Kataguiri, do Alexandre Frota, do Luciano Huck, do Ratinho
e do Danilo Gentili e do guru desses todos, o Armínio Fraga, que temos a exata
receita do grude para fazer do Brasil um país para poucos.
Se já éramos donos de algumas marcas notáveis, como a disputa com a Botsuana
pelo troféu do país com a pior distribuição de renda do planeta, et pour cause,
da maior concentração de rendas do mundo; se já éramos o campeão da desigualdade
planetária, onde apenas cinco pessoas – cinco, os dedos de uma mão: um, dois,
três, quatro, cinco – concentravam a mesma riqueza que a metade da população
mais pobre…… cinco contra cem milhões; se tínhamos, anualmente, mais brasileiros
mortos de forma violenta que, por exemplo, as vítimas dos tantos conflitos que
incendeiam o Oriente Médio, englobando aí Síria, Israel, Palestina, Turquia,
Iêmen, Iraque e Afeganistão; se mais de 90 por cento desses 60 mil brasileiros
anualmente abatidos são compostos por negros, mulatos e pobres; se o governo
federal e os governos estaduais haviam perdido a batalha contra o crime
organizado e, em consequência, o controle dos presídios, das favelas, de
periferia pobre das grandes, médias e pequenas cidades brasileiras.
Nada era tão ruim que não pudesse piorar.
 E piorou.
Degenerou com a incrível e nunca suficientemente amaldiçoada PEC dos Gastos.
Confesso que até hoje quedo-me estupefato com a aprovação no Congresso dessa
suprema sandice que é a emenda constitucional que congelou por 20 anos os gastos
públicos.
Busquei na literatura das crises econômicas mundiais decisões semelhantes e só
encontrei paralelo com iniciativas de débeis governantes terceiro-mundistas que
as colocaram em prática sob pressão de credores, dos rentistas, dos agiotas e
dos discípulos da mais tacanha doutrina econômica formulada pelo homem, desde
que o antecedente do homo sapiens desceu da árvore.
Em contrapartida, vejo o presidente dos Estados Unidos anunciar o investimento
deficitário de um trilhão e 500 bilhões de dólares em infraestrutura, para
alavancar a geração de empregos e reativar os negócios.
O Congresso de lá aprova investimento deficitário de um trilhão e 500 bilhões de
dólares em infraestrutura.
O Congresso daqui congela os gastos por 20 anos. Lá, pouco se importam com o
déficit público, aqui transformaram o déficit público em uma questão ideológica.
É assim que se faz um país para poucos.
O pior disso tudo, o kafkiano, o absurdo é que, diariamente, senadores e
deputados que votaram a PEC do congelamento de gastos por 20 anos ocupam a
tribuna e desfilam uma lista gigantesca de pedidos de recursos, para isso e
àquilo.
Será que não sabem no que votaram? Ou sabem perfeitamente e apenas jogam para a
plateia, para ludibriar os seus eleitores?
Adota-se uma política econômica recessiva, antinacional e antipopular, que
privilegia o pagamento dos juros da dívida, e choramingam dinheiro para os
municípios, lamentam o desemprego, deploram a violência, a qualidade do
atendimento à saúde e à educação pública, o encolhimento do programa
habitacional, as condições das rodovias e mais.
Vejam o caso da intervenção no Rio de Janeiro.
Com a aprovação da maioria de deputados e senadores, o governo cortou até talo
as verbas para a segurança. Apenas cinco dias antes da midiática e errática
ideia da intervenção, Temer e Meireles podaram 240 milhões da segurança.
Na sexta de carnaval, dia 9, passam o facão em 240 milhões de reais da segurança
pública, e, no dia 14, na quarta de cinzas anunciam a intervenção, para garantir
a segurança dos cariocas!!!
Será que a nossa capacidade de raciocinar, de somar dois e dois foi enublada por
alguma magia ou algum feitiço a tal ponto que o país não vê essa farsa?
Faz-se um país para poucos destruindo as Leis Sociais e o Estado Social,
flexibilizando (para usar um eufemismo bem sem-vergonha) a jornada de trabalho,
o descanso e as férias remuneradas, o 13° salário, o FGTS, o contrato assinado;
flexibilizando (para usar um eufemismo bem safado) as regras para o trabalho de
lactantes e grávidas em ambientes insalubres.
Abro outro parêntese para confessar de novo o meu espanto, para deixar o meu
queixo cair, mais uma vez: o que leva um ser humano a botar na lei e a defender
o trabalho de mulheres que amamentam ou de gestantes em ambientes prejudiciais à
saúde delas e das crianças?
Bom….. acabo por reconhecer a ingenuidade de minha pergunta, afinal se até
flexibilizaram – de novo o eufemismo cafajeste – as regras contra o trabalho
escravo, que mais esperar?
Faz-se um país para poucos destruindo a sua burguesia nacional, a indústria
nacional, a tecnologia nacional, o desenvolvimento nacional, a autoestima
nacional.
Mas, a nossa burguesia nacional que vestiu a camisa da CBF e foi às ruas
abraçada ao pato da Fiesp; que aplaudiu com entusiasmo a reforma trabalhista;
que invadiu Brasília para “convencer” parlamentares a votar a reforma da
Previdência; que apoia essa estupidez absoluta que é o plano de privatizações de
Temer, Meireles e Moreira que abarca desde a venda da Eletrobrás à autonomia do
Banco Central, essas elites não percebem que o pau que dá em Chico, dá em
Francisco; que o cipó que a compraz, quando vergasta o lombo do trabalhador,
também açoita as suas ilustres ilhargas, quando a luta de classes global a
atinge, contrapondo os seus interesses aos interesses imperiais.
E temos aí a liquidação do setor brasileiro de petróleo e gás; a extinção da
cláusula de conteúdo nacional para a aquisição de implementos para esse setor; a
destruição de todo o complexo nacional de engenharia de obras; a
desnacionalização do setor aeronáutico, com a absorção da Embraer pela Boeing.

Da mesma forma que na área do pré-sal não serão as empresas brasileiras que
fornecerão para a Shell, a Exxon, a Total, a British, é de se acreditar que a
nova dona da Embraer terá seus próprios fornecedores. Estrangeiros, é claro;
temos aí, como nunca em nossa história, a desnacionalização dos setores
industrial, agropecuário, comercial, educacional, de serviços.
Mas, com tudo isso acontecendo, a nossa burguesia nacional – as elites – não
refreia o impulso do salto para o suicídio.
Ela excita-se com qualquer iniciativa que retire direitos dos trabalhadores, mas
recolhe-se diante desse processo massacrante de desnacionalização da economia,
de alienação da soberania nacional, de apequenamento de seu espaço e
importância.
Um país para poucos se faz com o domínio absoluto do capital financeiro sobre
todos os setores de atividades e a destruição das empresas e do empresariado
nacional, da tecnologia nacional.
Um país para poucos se faz com a destruição da Previdência Social,
eufemisticamente chamada de “reforma”.
Faz-se com a restrição à aposentadoria dos trabalhadores e das classes médias.
Faz-se – supremo objetivo do mercado – com a privatização da Previdência.
A destruição do Estado Social, da República Social, intentada nos últimos anos,
não se completaria sem a aniquilação da Previdência.
Um país para poucos faz-se também com a transformação das Forças Armadas em
polícia interna.
Faz-se com a desmoralização das Forças Armadas, incumbindo-a da tarefa de
“capitão do mato” a perseguir pobres e negros nos morros do Rio de Janeiro,
enquanto a criminalidade, o tráfico e o consumo de drogas correm soltos nos
bairros da classe média na Zona Sul.
Vejam a que ponto chega a hipocrisia da mídia e dos governantes: enquanto as
Forças Armadas recebiam o mandato de “capitães do mato” nas favelas cariocas, o
PCC, em ações espetaculares e à vista de todos dava demonstração de poder e de
impunidade, ajustando contas para manter a unidade de comando do maior
agrupamento do crime organizado no Brasil e no continente.
Reprimir o tráfico de drogas e de armas sem combater o PCC? Afrontar o crime
organizado sem retomar o comando estatal do sistema penitenciário?
Com a cartelização do tráfico de drogas e armas e com a internacionalização das
suas operações, PCC é hoje, como já se disse, a nossa mais poderosa
multinacional.
O sucateamento das Forças Armadas, sonegando a elas os meios para bem guardar as
nossas fronteiras, dá-se passe livre para a expansão do crime organizado. Mas,
ao invés de prover as Forças Armada para bom desempenho de suas tarefas,
gastam-se 600 milhões reais na operação na favela da Maré, sem qualquer
resultado.
Em outubro de 1887, o Clube Militar, talvez o mais influente fórum de debates de
nossas Forças Armadas, mandou uma petição à Princesa Isabel, então regente do
Império, solicitando que o Exército não fosse usado com o “capitão do mato” para
a captura de escravos foragidos que se escondiam nos morros do Rio de Janeiro,
atemorizando a cidade.
Dizia a petição: “Os membros do Clube Militar, em nome dos mais santos
princípios de humanidade, esperam que o Governo Imperial não consinta que os
oficias e as praças do Exército sejam desviados de sua nobre missão”.
Além da desonra que o papel implicava, ponderavam que “em todos os tempos os
meios violentos de perseguição não produzem nunca o efeito desejado”.
Cento e trinta anos depois, com o fracasso da operação na Maré, eis aí a
comprovação do que diziam os militares à Princesa Isabel: “Em todos os tempos os
meios violentos de perseguição não produzem os efeitos desejados”.
Um país para poucos se faz também com o monopólio dos meios de comunicação, com
a manipulação e domínio da opinião pública.
O presidente Temer disse que decidiu intervir militarmente no Rio de Janeiro
depois de ver, pela TV Globo, os arrastões na praia de Ipanema, no Carnaval.
Realmente, as Organizações Globo, com a prestimosa colaboração dos parceiros que
açambarcam o jornalismo pátrio, deram aos arrastões uma dimensão apocalíptica.
Daí o raciocínio primário e preconceituoso da mídia e das autoridades: arrastão
é coisa de pobre, de favelado. Vamos então tomar as favelas do Rio.
Operações contra o crime organizado que domina o tráfico nos bairros chiques da
Zona Sul?
Operações contra os bicheiros que dominam o carnaval da Globo e o crime
organizado nos subúrbios cariocas?
Operações contra o crime organizado que domina os presídios brasileiros e o
tráfico nacional e internacional de drogas e armas?
Operações contra o crime organizado que repete em grande estilo, sem inibição ou
castigo o massacre de São Valentim, fazendo de Fortaleza, Rio de Janeiro e São
Paulo Chicagos quaisquer?
Não, isso não.
Isso não vem ao caso, como diria certo juiz federal.
Faz-se um país para poucos vendendo fantasias, mentiras e notícias falsas para a
opinião pública.
Faz-se um país para poucos escondendo a verdade, distorcendo a verdade, contando
meias verdades como faz a mídia comercial e monopolista.
Faz-se um país para poucos dizendo que o país está crescendo, que o desemprego
diminui, que as atividades industriais crescem, que as reformas da CLT e da
Previdência vão salvar o Brasil do buraco, que as privatizações vão destravar o
crescimento.
Faz-se um país para poucos quando a imprensa comercial monopolista vende a ideia
de que o Ministério Público, o Judiciário e a “Polícia Federal a Lei é Para
Todos” não precisam de provas para condenar quem quer que seja.
Em todo o mundo ocidental adotaram-se medidas para garantir a democratização da
informação, de tal forma a impedir que alguns poucos veículos, vinculados e a
serviço de grandes grupos econômicos e políticos dominassem e manipulassem a
opinião pública.
Em todo o mundo ocidental. Menos no Brasil.
Essas são algumas receitas para se fazer um país para poucos. Como não há mal
que sempre dure, essa xepa, essa gororoba será vomitada pelos brasileiros.

       Autor: Roberto Requião, senador da República no segundo mandato. Foi
      governador do Paraná por três mandatos, prefeito de Curitiba, secretário
      de estado, deputado estadual, oficial do exército brasileiro, professor
      universitário, industrial, agricultor e advogado. É graduado em direito e
      jornalismo com pós-graduação em urbanismo e comunicação.
In
DINÃMICA GLOBAL
https://dinamicaglobal.wordpress.com/2018/03/05/a-receita-de-um-pais-para-poucos-a-servico-de-estrangeiros/
5/3/2018

segunda-feira, 5 de março de 2018

O discurso de Putin

por Paul Craig Roberts [*]
               
Discurso perante a Assembleia Federal da Rússia, 01/Março/2018. Putin efectuou uma notável intervenção perante a Assembleia Federal, o povo russo e os povos de todo o mundo .

No seu discurso, Putin revelou a existência de novas armas nucleares russas tornando indiscutivelmente claro que a Rússia tem vasta superioridade nuclear sobre os Estados Unidos e sobre os Estados vassalos da NATO.

Tendo em conta as capacidades russas, não está claro que os EUA ainda se qualifiquem como uma superpotência.

Há poucas dúvidas na minha mente de que se os enlouquecidos neoconservadores do complexo militar/securitário em Washington tivessem essas armas e a Rússia não, Washington lançaria um ataque à Rússia.

Putin, no entanto, declarou que a Rússia não tem ambições territoriais nem ambições hegemónicas e nenhuma intenção de atacar qualquer outro país. Putin descreveu as armas como a resposta necessária à firme recusa do Ocidente ano após ano em aceitar a paz e a cooperação com a Rússia e ao invés disso envolveu a Rússia com bases militares e sistemas ABM.

Putin disse: "Estamos interessados numa interacção construtiva e normal com os Estados Unidos e a União Europeia e esperamos que o senso comum prevaleça e os nossos parceiros escolham uma cooperação justa e equitativa. (…) A nossa política nunca será baseada em aspirações de excepcionalismo, estamos a defender os nossos interesses e respeitamos os interesses dos outros países."

Putin disse a Washington que os seus esforços para isolar a Rússia com sanções e propaganda e para impedir a capacidade de resposta russa ao crescente cerco militar do Ocidente fracassaram. As novas armas da Rússia tornaram a abordagem EUA/NATO totalmente "ineficaz do ponto de vista militar". "As sanções para restringir o desenvolvimento da Rússia, incluindo a esfera militar, não resultaram". As sanções não foram capazes de conter a Rússia. E eles precisam entender isso (...) Parem de balançar o barco em que todos nós nos sentamos".

Então, o que há a fazer? O Ocidente virá a ter bom senso? Ou o Ocidente, afogado em dívidas e carregado ao máximo de indústrias militares hipertrofiadas e ineficazes intensificará a Guerra Fria que Washington tem ressuscitado?

Não penso que o Ocidente venha a ter qualquer bom senso. Washington está totalmente absorvido no "Excepcionalismo americano". A arrogância extrema do “país indispensável" aflige a todos. Os europeus são comprados e pagos por Washington. Creio que Putin tinha esperança de que os líderes europeus compreendessem a futilidade de tentar intimidar a Rússia e cessassem de assumir a Russofobia de Washington que nos está a levar à guerra nuclear. Sem dúvida que Putin ficou decepcionado com a idiotice da resposta do ministro da Defesa do Reino Unido, Gavin Williamson, que acusou a Rússia de "escolher um caminho de escalada e provocação".

Meu palpite é que os neoconservadores vão minimizar a capacidade da Rússia, porque os neoconservadores não querem aceitar que haja qualquer restrição ao unilateralismo de Washington. Por outro lado, o complexo militar/securitário irá exagerar a superioridade russa e exigir um orçamento maior para nos proteger da "ameaça russa".

O governo russo concluiu, após anos de frustrante experiência com a recusa de Washington em considerar os interesses da Rússia e trabalharem juntos de forma cooperativa, que a razão era a crença de Washington de que o poder militar americano poderia obrigar a Rússia a aceitar a liderança dos EUA. Quebrar esta ilusão de Washington foi a razão para o enérgico anúncio de Putin sobre as novas capacidades russas.

No seu discurso, ele disse: "Ninguém queria falar connosco. Ninguém quis ouvir-nos. Escutem-nos agora". Putin sublinhou que as armas nucleares da Rússia são reservadas para retaliação, não para agressão, mas que qualquer ataque à Rússia ou a aliados da Rússia receberá uma resposta imediata "com tudo o que isso implica".

Tendo deixado claro que a política ocidental de hegemonia e intimidação está morta, Putin novamente estendeu o ramo de oliveira: Vamos trabalhar juntos para resolver os problemas do mundo.

Espero que a diplomacia russa seja bem-sucedida em pôr um fim para às crescentes tensões fomentadas por Washington. No entanto, a diplomacia russa enfrenta dois talvez inultrapassáveis obstáculos. Um é a necessidade que o complexo militar/securitário dos EUA tem de um grande inimigo como justificação para o seu orçamento anual de 1 milhão de milhões de dólares e o poder que isso representa. O outro obstáculo é a ideologia neoconservadora de hegemonia do mundo pelos EUA.

O complexo militar/securitário está institucionalizado em cada Estado dos EUA. É um empregador e uma fonte de contribuições para as campanhas políticas, o que torna quase impossível para um senador ou representante ir contra os seus interesses. Nos círculos de política externa está ainda por aparecer um contrapoder aos enlouquecidos neoconservadores. A Russofobia que os neoconservadores criaram agora afecta o americano comum. Estes dois obstáculos revelaram-se suficientemente poderosos para impedir o Presidente Trump de normalizar as relações com a Rússia.

Talvez no seu próximo discurso, Putin deva abordar os europeus directamente e perguntar-lhes em que é que os seus interesses são servidos, facilitando a hostilidade de Washington para com a Rússia. Se forem impelidos a fazer avançar e deixar estacionar sistemas ABM, armas nucleares e bases militares dos EUA, como podem esperar escapar à destruição?

Sem a NATO e as suas bases avançadas, Washington não pode encaminhar o mundo para a guerra. O facto fundamental desta matéria é que a NATO é um obstáculo à paz.
Ver também:
  • Tradução oficial para o inglês do discurso do presidente Putin à Assembleia Federal
  • Tradução não oficial para o francês do discurso do presidente Putin à Assembleia Federal
  • Putin's stunning revelations about new Russian weapons systems , Paul Craig Roberts
  • Is Washington Sufficiently Intelligent to Be Trusted with an Independent Foreign Policy? , Paul Craig Roberts
  • Despesas de guerra levam os EUA à bancarrota , por John W. Whitehead
  • La Russie exhibe ses nouvelles armes et dit aux États-Unis "Reviens sur terre" , Moon of Alabama

    [*] Ex-secretário de Estado assistente para política económica e editor associado do Wall Street Journal. Foi colunista da Business Week, Scripps Howard News Service e Creators Syndicate. Seus livros mais recentes: The Failure of Laissez Faire Capitalism and Economic Dissolution of the West , How America Was Lost e The Neoconservative Threat to World Order .

    O original encontra-se em https://www.paulcraigroberts.org/2018/03/01/putins-state-union/


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 05/Mar/18
    In
    RESISTIR.INFO
    http://resistir.info/russia/roberts_01mar18.html
    5/3/2018