terça-feira, 7 de junho de 2016
Hillary Clinton, a Raínha do caos - um livro de Diana Johnstone
Miguel Urbano Rodrigues
Nas eleições presidenciais de 2008 nos EUA, a técnica de vender ao mundo um
presidente foi, desde início, um enorme logro coroado de sucesso.
Ao contrário, os candidatos que parecem estar destinados à disputa eleitoral de
2016, Hillary Clinton e Donald Trump, não só não suscitam qualquer entusiasmo no
mundo como levantam por todo o lado uma indignada interrogação: como é possível?
Neste texto, Miguel Urbano chama a atenção para um livro a lançar esta semana
em Portugal que, «apoiando-se numa documentação exaustiva, apresenta de Hillary
um perfil tão assustador que muitos eleitores norte-americanos podem concluir
que ela é mais perigosa do que Donald Trump.»
São poucos os escritores progressistas norte-americanos cujos livros denunciam a
estratégia de dominação planetária dos EUA como ameaça à Humanidade.
Diana Johnstone é quase uma exceção. Não é marxista nem revolucionária e
acredita nos valores da democracia ocidental. O que critica é o funcionamento da
engrenagem do poder, a ambição, a perversidade, a irresponsabilidade, o
belicismo da elite oligárquica que no seu país controla o sistema e define a sua
relação com o mundo.
Ligada aos Verdes, colaboradora de Counterpunch, especializada em temas
políticos europeus, Diana (81anos) reside em Paris e a maioria das suas obras
foi escrita em França.
O seu último livro, Hillary Clinton Rainha do Caos* tem entre outros o mérito de
chamar a atenção para a ameaça potencial que representa para a Humanidade a
candidata à Casa Branca que será provavelmente a próxima presidente dos Estados
Unidos.
Diana, apoiando-se numa documentação exaustiva, apresenta de Hillary um perfil
tão assustador que muitos eleitores norte-americanos podem concluir que ela é
mais perigosa do que Donald Trump. O multimilionário novaiorquino é um beócio
ignorante, xenófobo, racista, ultra reacionário. Conta com o apoio da
extrema-direita por d
efender projetos tão monstruosos como a construção de um alto muro eletrificado
na fronteira com o México e a
expulsão massiva dos imigrantes ilegais. É uma personalidade megalómana, um
irresponsável.
Mas, inesperadamente, Trump critica a corrida às armas, pretende reduzir o
Orçamento de Defesa, e melhorar as relações com a Rússia e a China. Discorda do
envolvimento dos EUA em novas guerras. Para ele a saída da crise passa pela
economia, pela expansão do comércio.
O escritor australiano John Pielger afirma que Hillary é favorável ao emprego de
armas nucleares táticas em algumas «guerras preventivas». Seria abrir a porta à
destruição da Humanidade.
FAVORITA DO COMPLEXO MILITAR INDUSTRIAL
O livro de Diana Johnstone transcende pelo seu conteúdo e significado os
problemas ligados à eleição presidencial.
Grande parte dos seus sete capítulos é dedicada a iluminar o funcionamento de um
sistema criminoso, montado por uma oligarquia que aspira a modelar o mundo sob a
égide dos EUA. No vértice dessa engrenagem situa-se o Complexo Militar
Industrial. O seu poder nocivo já era tamanho que Eisenhower, há mais de meio
século, no seu discurso de despedida alertou o povo americano para a sua
perigosidade.
O desaparecimento do «inimigo comunista» estremeceu os alicerces da poderosa
indústria que produz armas, considerada pelo sistema base da prosperidade
nacional.
O governo Truman recusou todas as propostas de desarmamento da União Soviética,
que aspirava a uma paz duradoura para reconstruir o país, devastado pela guerra.
A elite do poder estado-unidense decidiu que era imprescindível inventar novos
inimigos e desencadear em cadeia guerras para os destruir.
A estratégia agressiva de dominação universal foi o complemento da política
imposta pela sobrevivência e agigantamento do Complexo Militar Industrial.
Iniciou-se então um ciclo de agressões bélicas que perdura desde meados do
século XX: Coreia, Vietnam, Camboja, Laos, Iraque, Afeganistão, Somália, Iémen,
Líbia. O estado neofascista de Israel foi no Médio Oriente o aliado permanente
do imperialismo estado-unidense.
Diana Johnstone analisa em pormenor os mecanismos utilizados para anestesiar a
consciência dos povos de modo a viabilizar essa estratégia.
As agressões militares são apresentadas como iniciativas humanitárias em defesa
da liberdade e da democracia. A fórmula tem sido repetida com êxito, tendo como
instrumento um sistema mediático manipulado pelo imperialismo.
Campanhas massacrantes de deformação da história precedem as agressões
militares. As «guerras preventivas» são justificadas pela necessidade de
destruir ditaduras e tiranos que oprimem os seus povos e ameaçariam «a segurança
dos EUA». A demonização dos comunistas do Vietnam, de Sadam Hussein, de Khadafi
foi prólogo de intervenções militares que devastaram os países «libertados»,
matando centenas de milhares de pessoas.
HILLARY FAVORITA DO PENTÁGONO
Hillary aprova o famoso comentário da sua íntima amiga Madeleine Albright sobre
o poder das forças armadas dos EUA: «Para que ter toda essa força militar se não
a usamos?»
Apoiou, com entusiasmo por vezes, todas «as guerras preventivas» do seu país.
Na juventude foi admiradora do senador Barry Golwater, o caçador de bruxas,
ideólogo da campanha de perseguição a intelectuais e artistas acusados de filo
comunistas.
Em 1999 foi ela quem convenceu o marido, o presidente Bill Clinton, a iniciar o
bombardeamento da Sérvia pela NATO e a expressar solidariedade com a mafia do
Kosovo. O esfacelamento da Jugoslávia foi aliás o laboratório de «guerras
preventivas» posteriores.
Quando senadora, em 2009, deslocou- se às Honduras para impedir que Cuba fosse
readmitida na OEA. Semanas depois, o presidente Zelaya foi metido em pijama num
avião e expulso do país. Hillary, então secretária de estado, qualificou o golpe
militar de «crise», convidando «todas as partes» a resolver o problema «sem
violência». Posteriormente aprovou a fraude eleitoral que «legitimou» o golpe.
No seu livro de memórias Hard Choices (Escolhas difíceis) define o seu estilo
diplomático como «O poder Inteligente». Esse poder – escreve Johnstone –
significa para ela recorrer a todos os meios possíveis para promover a hegemonia
mundial dos EUA».
Sionista desde a adolescência, afirmou repetidas vezes que é inquestionável o
direito de Israel a assumir-se como «estado judeu».
Hillary defende a tese do «excecionalíssimo americano”. Para ela os EUA são uma
nação predestinada a salvar a humanidade, a «ultima esperança da humanidade». No
cumprimento dessa missão instalaram mais de 600 bases militares em 148 países.
Fiel a essa mundividência qualifica de criminosos os lideres de pequenos países
que não se submetem às exigências de Washington. No que toca a Julian Assange,
Edward Snowden e o soldado Maning, as suas revelações são para ela «ataques aos
Estados Unidos e à comunidade internacional».
Como secretária de estado de Obama, intensificou a ingerência dos EUA nos
assuntos internos de 50 países. Hillary Clinton – escreve Diana – parece estar
totalmente convencida de que o progresso do mundo depende de os EUA dizerem a
toda a gente como se deve comportar desde a oração até ao quarto».
É uma metodista fervorosa e gosta de rezar em público em grupos de estudo da
Bíblia no Prayer Breakfast (Pequeno almoço de oração).A participação nessas
iniciativas, promovidas pela Rede de direita Fraternidade, não é, porém,
gratuita: custa 400 dólares.
Hillary, com frequência, invocava o genocídio de «povos oprimidos» para
justificar as «intervenções humanitárias». Na realidade eram as agressões
militares imperialistas que assumiam um carácter genocida, provocando autênticas
hecatombes. Assim aconteceu no Afeganistão, no Iraque e na Líbia.
Washington recorreu algumas vezes ao Tribunal Penal Internacional, de cuja
jurisdição os EUA aliás se excluíram, para obter a condenação de políticos do
leste acusando-os de genocidas. Manipulado, esse Tribunal de farsa, criado ad
hoc, julgou entre outros o ex-presidente da Sérvia, Milosevic, acusado de crimes
que não tinha cometido, como sublinha Diana Johnstone.
A OBSESSÃO ANTI RÚSSIA
Hillary desenvolveu desde a juventude uma obsessão anti Rússia. O ódio que
sentia pela União Soviética sobreviveu à destruição do regime socialista. Foi
transferido para Putin.
Durante os mandatos do marido como presidente, empenhou-se na defesa de um
projeto de reforma da saúde. Mal concebido e estruturado, fracassou. Ao ser
nomeada chefe do Departamento de Estado, esqueceu rapidamente essa frente de
luta.
Acarinhada pelos neocons e pelos generais e almirantes do Pentágono, desempenhou
então um papel importante em todas as campanhas que precederam agressões
militares desencadeadas pelos EUA em defesa dos «direitos humanos». Ao receber a
notícia de que Kadhafi tinha sido torturado e mutilado, começou – segundo
Johnstone – «a rir em gargalhadas felizes» e exclamou: «Viemos, vimos, ele
morreu».
Apoiou com entusiasmo as provocadoras, grupelho russo das Pussy Riot que em
frente do altar-mor da Catedral de Cristo Salvador, em Moscovo, bolçaram
obscenidades e, cantando em coro, chamaram «puta» ao patriarca da Igreja
Ortodoxa Russa
Quando as moças foram condenadas pela justiça russa, Hillary assumiu a sua
defesa e em Nova York publicou no Twitter uma foto sua ao lado das Pussy Riot,
de visita à cidade, com uma mensagem: “É ótimo encontrar-me com as fortes e
corajosas jovens das Pussy Riot que recusam que as suas vozes sejam silenciadas
na Rússia».
Autêntica candidata do Pentágono, Hillary acompanhou com paixão os trágicos
acontecimentos da Ucrânia.
Ao saber que Victoria Nuland – «a minha querida porta-voz no Departamento de
Estado», como lhe chamava – fora nomeada para assumir o comando da agressiva
política de Washington na Ucrânia, Hillary congratulou-se com a escolha da
amiga. Posteriormente manifestou-lhe solidariedade ao explodir o escândalo da
sua conversa telefónica com o embaixador dos EUA naquele país, Geoffrey Pyatt.
Discutiam quem deveria ser colocado no poder em Kiev e Noland e desabafou: “A
União Europeia que se foda».
A reação de Hillary ao referendo em que o povo da Crimeia, por maioria
esmagadora, decidiu que a Península voltaria a integrar-se na Rússia foi
intempestiva e grotesca: qualificou Putin de «novo Hitler».
No conflito que levou à secessão das províncias russófonas do Leste da Ucrânia,
Hillary Clinton atribui a Vladimir Putin toda a responsabilidade da guerra civil
que assola o país. Não surpreende tal atitude vinda de quem não esconde a sua
simpatia pelo partido neofascista ucraniano Svoboda.
Na opinião de Diana Johnstone, «o desempenho de Hillary Clinton como secretária
de estado somente foi um grande êxito num aspecto: tornou-a a candidata favorita
do Partido da Guerra».
No seu importante livro esboça bem o perfil da mulher que segundo as sondagens
pode ser o próximo presidente dos EUA.
* Diana Johnstone, Hillary Clinton Rainha do Caos, Editora Página a Página,123
pág., Lisboa 2016 (Queen of caos: The Misadventures of Hillary Clinton, no
original inglês).
In
O DIARIO.INFO
http://www.odiario.info/?p=4037
6/6/2016
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Como a Rússia está a preparar-se para a III Guerra Mundial
por The Saker
Recentemente publiquei um artigo em que tentava desmistificar alguns
mitos populares acerca da guerra moderna . A julgar por muitos comentários
que recebi, tenho a dizer que os mitos em causa ainda estão vivos e
actuantes e que falhei claramente em convencer muitos leitores. O que me
proponho a fazer hoje é examinar o que a Rússia realmente está a fazer em
resposta à ameaça crescente do ocidente. Mas primeiro tenho de definir o
contexto ou, mais precisamente, redefinir o contexto no qual a Rússia está
a operar. Vamos começar por examinar as políticas anglo-sionistas em
relação à Rússia.
As acções do ocidente:
O primeiro ponto nesta lista é, obviamente, a conquista pela NATO de toda
a Europa do Leste. Falo em conquista porque é exactamente aquilo que é,
mas uma conquista alcançada de acordo com as regras da guerra do século
XXI, as quais defino como "80% informacional, 15% económica e 5% militar".
Sim, eu sei, os bons sujeitos da Europa do Leste estavam a fantasiar
acerca de serem subjugados pelos EUA/NATO/UE/etc – mas e daí? Qualquer um
que tenha lido Sun Tzu reconhecerá imediatamente que este profundo desejo
de ser "incorporado" dentro da "Família" ("Borg") anglo-sionista não é
senão o resultado de uma auto-identidade esmagada, um complexo de
inferioridade profundamente arraigado e, portanto, uma rendição que nem
mesmo tem de ser induzida por meios militares. No final das contas, não
faz diferença o que os habitantes locais pensam que estão a alcançar –
eles agora são sujeitos do Império e os seus países colónias mais ou menos
irrelevantes na beira do Império Anglo-Sionista. Como sempre, a elite
compradora local está agora a borbulhar com orgulho por ser, ou assim
pensa ela, aceite como igual pelos seus novos mestres (pense em
Poroshenko, Tusk ou Grybauskaite) – os quais lhes dão coragem para ladrar
a Moscovo por trás da protecção da NATO. Que lhes faça bom proveito.
O segundo é a colonização agora total da Europa Ocidental dentro do
Império. Enquanto a NATO se movia para o Leste, os EUA também ganhavam
controle mais profundo da Europa Ocidental a qual é agora administrada
para o Império através do que o antigo presidente da municipalidade de
Londres denominou as " grandes supinas protoplásmicas gelatinas
inverterbradas " – os burocratas sem rosto estilo François Hollande ou
Angela Merkel.
Em terceiro lugar, o Império tem dado apoio total a criaturas
semi-demoníacas que vão desde al-Khattab a Nadezhda Savchenko. A política
do ocidente é clara como cristal e simples ao extremo: se é anti-russo nós
apoiamos. Esta política é melhor exemplificada por uma campanha de
demonização de Putin e da Rússia a qual, na minha opinião, é muito pior e
muito mais histérica do que qualquer coisa vista durante a Guerra Fria.
Em quarto, o ocidente tem efectuado um certo número de movimentos
militares altamente perturbadores incluindo a instalação dos primeiros
elementos de um sistema anti-míssil na Europa do Leste, o envio de várias
formas de forças de reacção rápida, a instalação de algumas unidades
blindadas, etc. A NATO agora avançou com a instalação de postos de
comando, os quais podem ser utilizados para apoiar a actuação de uma força
de reacção rápida.
Qual é a lógica de tudo isto?
Neste exacto momento, não grande coisa realmente. Sim, o movimento da
NATO sobre as fronteiras russas é altamente provocatório, mas
primariamente em termos políticos. Em termos puramente militares, não só
isto é uma ideia muito má (ver clichê nº 6 aqui), como a dimensão das
forças reais instaladas é, na realidade, pequena: o sistema ABM
actualmente instalado pode, na melhor das hipóteses, esperar interceptar
uns poucos mísseis (10-20 conforme as suas hipóteses) quando para as
forças convencionais elas são da dimensão de batalhão (mais ou menos 600
soldados mais apoio). Portanto agora não há categoricamente nenhuma ameaça
militar à Rússia.
Então por que os russos estão tão claramente inquietos?
Porque os actuais movimentos dos EUA/NATO podem bem ser apenas os
primeiros passos de um esforço muito mais amplo o qual, com tempo
suficiente, pode começar a apresentar um perigo muito real para a Rússia.
Além disto, a espécie de retórica vinda agora do ocidente é não só
militarista como também russofóbica, muitas vezes absolutamente
messiânica. A última vez que o ocidente ateou a sua crónica "síndrome
messiânica" velha de 1000 anos a Rússia perdeu 20 (a 30) milhões de
pessoas. Assim os russos podem ser desculpados se estão a prestar uma
grande atenção ao que a propaganda anglo-sionista diz acerca deles.
Os russos estão ansiosos principalmente com a recolonização da Europa
ocidental. Longe estão os dias em que homens como Charles de Gaulle,
Helmut Schmidt ou François Mitterrand eram responsáveis pelo futuro da
Europa. Apesar de todas as suas falhas muito reais, eles pelo menos eram
patriotas e não simples administradores coloniais dos EUA. A "perda" da
Europa Ocidental é muito mais preocupante para os russos do que o facto
de ex-colónias soviéticas na Europa do Leste estarem agora sob a
administração colonial dos EUA. Por que?
Olhe para isto do ponto de vista russo.
Todos os russos vêem que o poder estado-unidense está em declínio e que o
dólar, mais cedo ou mais tarde, gradualmente ou subitamente, perderá o seu
papel como divisa principal de reserva e de intercâmbio no planeta (este
processo já começou). Dito simplesmente – a menos que os EUA encontrem um
meio para mudar dramaticamente a actual dinâmica internacional – o Império
Anglo-Sionista entrará em colapso. Os russos acreditam que aquilo que os
americanos estão a fazer é, na melhor das hipóteses, utilizar tensões com
a Rússia para ressuscitar uma adormecida Guerra Fria v2 e, na pior, para
realmente começar uma guerra real com tiros na Europa.
Assim, temos um Império em declínio com uma necessidade vital de uma
grande crise, uma Europa ocidental sem espinha para defender seus
próprios interesses, uma Europa do Leste subserviente a implorar para
tornar-se um campo de batalha maciço entre o Leste e o Oeste e uma
retórica messiânica, raivosamente russofóbica como pano de fundo para um
aumento de posicionamentos militares na fronteira russa. Será realmente
surpresa para alguém que os russos estejam a considerar tudo isso muito
seriamente ainda que neste momento a ameaça militar seja basicamente
inexistente?
A reacção russa
Assim, vamos examinar a reacção russa à posição do Império.
Primeiro, os russos querem deixar absolutamente certo que os americanos
não caiam na ilusão de que uma guerra em plena escala na Europa seria
como a Segunda Guerra Mundial, na qual os EUA sofreram apenas uns poucos e
minúsculos, quase simbólicos, ataques por parte do inimigo. Uma vez que
uma guerra em plena escala na Europa ameaçaria a própria existência do
estado e da nação russa, os russos estão agora a tomar medidas para
garantir de modo absoluto que, se isso acontecesse, os EUA pagariam um
preço imenso por tal ataque.
Segundo, os russos estão agora a assumir que uma ameaça convencional do
ocidente pode materializar-se no futuro previsível. Eles portanto tomam as
medidas necessárias para conter essa ameaça convencional.
Terceiro, uma vez que os EUA parecem ter a decisão firme de instalar um
sistema de mísseis anti-balísticos não só na Europa como também no
Extremo Oriente, os russos estão a tomar as medidas para derrotar ambos e
contornar este sistema.
O esforço russo é vasto e complexo. Ele cobre quase todos os aspectos da
força planeadora russa, mas há quatro exemplos que, penso eu, ilustram
melhor a determinação russa de não permitir que um 22 de Junho de 1941
aconteça outra vez:
A recriação do Primeiro Exército de Tanques da Guarda (First Guards Tank
Army) (em andamento)
A instalação do sistema de mísseis táctico-operacionais Iskander-M
(feito)
A instalação do ICBM Sarmat (em andamento)
A instalação do torpedo estratégico Status-6 (em andamento)
A recriação do Primeiro Exército de Tanques da Guarda
É difícil acreditar, mas o facto é que entre 1991 e 2016 a Rússia não
tinha nem uma única grande formação (do tamanho de divisão ou maior) no
seu Distrito Militar Ocidental. Umas poucas brigadas, regimentos e
batalhões os quais nominalmente eram chamados de um "Exército". Dito
simplesmente – a Rússia claramente não acreditava que houvesse uma ameaça
militar convencional do ocidente e portanto ela nem mesmo se incomodou em
posicionar qualquer espécie de força militar significativa para
defender-se de uma ameaça inexistente. A propósito, o facto também deveria
informar-nos de tudo o que é preciso saber acerca de planos russos para
invadir a Ucrânia, Polónia ou os países bálticos: é um absurdo total. Isto
agora mudou dramaticamente.
A Rússia anunciou oficialmente o Primeiro Exército de Tanques da Guarda
(uma formação com uma história prestigiosa e muito simbólica ). O
Exército de Tanques da Guarda agora incluirá a 4ª Divisão de Tanques
"Kantemirovskiaia" da Guarda; a 2ª Divisão "Taman" de Rifles
Motorizada da Guarda; a 6ª Brigada de Tanques; a 27ª Brigada Motorizada de
Rifles de Sebastopol e muitas unidades de apoio. O Quartel-General deste
Exército será localizado em Odinstovo, subúrbio de Moscovo. Actualmente o
Exército está equipado com tanques T-21B3 e T-80, mas eles serão
substituídos pelo novo e revolucionário tanque T-14 Armata enquanto os
actuais veículos de combate da infantaria transportadores de tropas serão
substituídos pelos novos APC e IFV . No ar, estas unidades blindadas
serão protegidas e apoiadas pelos Mi-28 e helicópteros de ataque Ka-52.
Sem dúvida isto será uma força muito grande, exactamente a espécie de
força necessária para esmagar atacantes inimigos (a propósito, a 1TGA
participou da batalha de Kursk). Estou certo de que no momento que a 1TGA
estiver plenamente organizada tornar-se-á a mais poderosa formação
blindada em qualquer lugar entre o Atlântico e os Urais (especialmente em
termos qualitativos). Se as actuais tensões continuarem ou mesmo piorarem,
os russos poderiam ainda aumentar a 1TGA para um tipo de "Exército de
Choque" do século XXI com mobilidade acrescida e especializando-a em
ruptura profunda das defesas do inimigo.
A instalação do sistema táctico-operacional de mísseis Iskander-M
O novo sistema de mísseis Iskander-M é uma arma formidável por qualquer
critério. Se bem que tecnicamente seja um míssil táctico de alcance curto
(alcance abaixo dos 1000km, o Iskander-M tem um alcance oficial de 500km),
ele também pode disparar o míssil R-500 que tem a capacidade de atacar num
alcance intermediário/operacional (mais de 100km, o R-500 tem um alcance
de 2000km). Ele é extremamente preciso, tem capacidades anti-ABM
avançadas, voa a velocidades hipersónicas e é praticamente indetectável
sobre o terreno (ver mais pormenores aqui ). Este será o míssil
encarregado de destruir todas as unidades e equipamentos que os EUA e NATO
posicionaram avançadamente na Europa do Leste e, se necessário, limpar o
caminho para a 1TGA.
A instalação do ICBM Sarmat
Nem a 1TGA nem o míssil Iskander-M ameaçarão de qualquer modo o
território dos EUA. A Rússia precisava portanto de alguma espécie de arma
que realmente infundisse temor ao Pentágono e à Casa Branca do mesmo modo
que o famoso RS-36 Voevoda (conhecido como SS-18 "Satan" na classificação
estado-unidense) o fazia durante a Guerra Fria. O SS-18, o mais poderoso
ICBM alguma vez desenvolvido, era bastante assustador. O RS-28 "Sarmat" (
SS-X-30 na classificação da NATO) traz o terror a nível totalmente novo.
O Sarmat é nada menos que espantoso. Ele será capaz de transportar 10-15
ogivas MIRVed as quais serão entregues numa trajectória dita "deprimida"
(sub-orbital) e que permanecerão manobráveis a velocidades hipersónicas. O
míssil não terá de utilizar a típica trajectória sobre o Pólo Norte mas
será capaz de atingir qualquer alvo em qualquer parte do planeta a partir
de qualquer trajectória. Todos estes elementos combinados tornarão
completamente impossível interceptar o próprio Sarmat e suas ogivas.
O Sarmat também será capaz de transportar ogivas convencionais
hipersónicas lu-71 capazes de um "ataque cinético" o qual poderia ser
utilizado para atingir um alvo fortificado inimigo num conflito não
nuclear. Isto será tornado possível pela espantosa precisão das ogivas
Sarmat as quais, graças a uma recente fuga russa, agora sabemos ter um
CEP de 10 metros:
Os silos do Sarmat serão protegidos por "medidas de protecção activa" sem
igual, as quais incluirão 100 armas capazes de disparar uma "nuvem
metálica" de 40 mil "balas" de 30mm a uma altitude de até 6km. Os russos
também planeiam proteger o Sarmat com seus novos sistemas de defesa aérea
S-500. Finalmente, o tempo de preparação para o arranque do Sarmat estará
abaixo dos 60 segundos graças a um sistema de lançamento altamente
automatizado. O que tudo isto significa é que o míssil Sarmat será
invulnerável no seu silo, durante o seu voo e na reentrada nas partes mais
baixas da atmosfera.
É interessante notar que enquanto os EUA fizeram um grande alarido quanto
ao seu planeado sistema Prompt Global Strike , os russos já haviam
começado a instalar a sua própria versão deste conceito.
A instalação do torpedo estratégico Status-6
Recorda-se da "fuga" cuidadosamente encenada em Novembro do ano passado
quando os russos "inadvertidamente" mostraram um impressionante torpedo
estratégico no horário nobre do noticiário ? Aqui está esta famosa imagem:
O que é aqui mostrado é um "veículo submerso autónomo", o qual tem
avançadas capacidades de navegação mas que pode também ser controlado
remotamente e pilotado a partir de um módulo de comando especializado.
Este veículo pode mergulhar a uma profundidade de até 1000m, a uma
velocidade de até 185 km/h e tem um alcance de até 10 mil quilómetros.
Ele é entregue por submarinos especialmente configurados.
O sistema Status-6 pode ser utilizado para alvejar porta-aviões em grupos
de batalha, base navais dos EUA (especialmente bases SSBN ) e, na sua
configuração mais assustadora, pode ser utilizado para lançar bombas de
cobalto de alta radioactividade capazes de devastar enormes extensões de
terra. O sistema de disparo do Status-6 seria uma nova versão do torpedo
T-15, o qual teria 24m de comprimento, 1,5m de largura, peso de 40
toneladas e capacidade de lançar uma ogiva de 100 megatoneladas o que a
tornaria duas vezes tão poderoso como o mais poderoso dispositivo nuclear
alguma vez detonado, a bomba soviética Czar (57 megatoneladas). A de
Hiroshima tinha apenas 15 quilotoneladas.
Recordar que a maior parte das cidades e centros industriais dos EUA
estão ao longo da costa, o que os faz extremamente vulneráveis a ataques
baseados em torpedos (isto é a proposta de Sakharov da " bomba tsunami "
ou o sistema Status-6). E, tal como no caso do Iskander-M ou do ICBM
Sarmat, a profundidade e velocidade do torpedo Status-6 o tornaria
basicamente invulnerável à intercepção.
Avaliação:
Não há realmente nada de novo em tudo o que foi dito acima e os
comandantes militares dos EUA sempre souberam disto. Primariamente os
sistemas de mísseis anti-balísticos dos EUA sempre foram uma fraude
financeira, desde a "Guerra das Estrelas" de Reagan até os "ABM
anti-iranianos" de Obama. Em primeiro lugar, qualquer sistema ABM é
susceptível a "saturação local": se se tem um número X de mísseis ABM a
proteger um espaço de comprimento Y contra um número X de mísseis, tudo o
que é preciso fazer é saturar apenas um sector do espaço Y com um monte de
mísseis reais ou falsos disparando-os todos junto através de um pequeno
sector do espaço Y que o sistema de mísseis ABM está a proteger. E há uma
abundância de outras medidas que os russos poderiam adoptar. Eles poderiam
colocar apenas um único míssil balístico lançado de submarinos
(submarine-launched ballistic missile, SLBM ) no Lago Baikal tornando-o
basicamente invulnerável. Já há alguma discussão dessa ideia na Rússia.
Outra opção muito boa seria reactivar os ICBM movimentados por ferrovia
BzhRK soviéticos. Boa sorte para encontrá-los na imensa rede ferroviária
russa. De facto, os russos dispõem de abundantes medidas baratas e
eficazes. Querem que liste mais uma?
Aqui vai!
Tome-se o míssil de cruzeiro Kalibr visto recentemente na guerra da
Síria. Sabia que ele pode ser disparado de um típico contentor comercial,
como aqueles que encontra sobre camiões, comboios ou navios? Verifique
este excelente vídeo que explica isto:
Lembre-se simplesmente que o Kalibr pode alcançar qualquer lugar entre os
50km e os 4000km e que pode transportar uma ogiva nuclear. Quão difícil
seria para a Rússia instalar estes mísseis de cruzeiro mesmo junto à costa
do EUA em navios correntes de contentores? Ou apenas manter uns poucos
contentores em Cuba ou na Venezuela? Trata-se de um sistema que é tão
indetectável que os russos se quisessem poderiam posiciona-lo ao largo da
costa da Austrália para atingir a estação da NSA em Alice Springs, ninguém
chegaria a vê-lo.
A realidade é que a noção de que os EUA poderiam desencadear uma guerra
contra a Rússia (ou a China a propósito) e não sofrer as consequências no
território continental dos EUA é absolutamente ridícula. Ainda assim,
quando ouço toda essa conversa louca de políticos e generais ocidentais
fico com a impressão de que estão a esquecer este facto inegável.
Francamente, mesmo as ameaças actuais contra a Rússia dão um sentimento
de mau planeamento: um batalhão aqui, um outro ali, uns poucos mísseis
acolá, uns poucos mais para lá. É como se os governantes do Império não
percebessem que é uma ideia muitíssimo má empurrar um urso constantemente
quando tudo o que trazem consigo é um canivete de bolso. Por vezes a
reacção de políticos ocidentais recorda-me a dos bandidos que tentam
assaltar um posto de gasolina com uma arma de plástico ou sem munição e
que ficam absolutamente espantados por serem feridos com tiros pelo
proprietário ou pela polícia. Esta espécie de banditismo não é senão uma
forma de "suicídio pelo polícia", a qual nunca acaba bem para quem tenta
safar-se.
Assim, algumas coisas têm de ser ditas directamente e sem ambiguidades:
políticos ocidentais, é melhor não acreditarem na sua própria arrogância
imperial. Até agora, tudo o que as suas ameaças conseguiram foi que os
russos respondessem com muitos mas fúteis protestos verbais e um programa
em plena escala para preparar a Rússia para a Terceira Guerra Mundial.
Como já escrevi muitas vezes, os russos temem muito a guerra e farão tudo
o que puder para evitá-la. Mas eles também estão prontos para a guerra.
Isto é uma característica cultural especificamente russa a qual o ocidente
tem interpretado mal um número inumerável de vezes ao longo dos últimos
1000 anos. Repetidamente os europeus atacaram a Rússia só para se
encontrarem num combate que nunca teriam imaginado, mesmo nos seus piores
pesadelos. Eis porque os russos gostam de dizer que "a Rússia nunca começa
guerras, ela só as termina".
Há um profundo abismo cultural entre como o ocidente encara a guerra e
como os russos o fazem. No ocidente, a guerra é, realmente, "a
continuação da política por outros meios". Para os russos, é uma luta
implacável pela sobrevivência. Basta olhar para generais no ocidente: eles
são administradores polidos e com boas maneiras muito mais semelhantes a
executivos corporativos do que a, digamos, patrões da Mafia. Dê uma
olhadela a generais russos (observe por exemplo a parada do Dia da Vitória
em Moscovo). Em comparação com seus colegas ocidentais eles parecem quase
brutos, porque acima de tudo são matadores implacáveis e calculistas. Não
quero dizer isso de um modo negativo – eles muitas vezes são
individualmente muito honestos e mesmo gentis e, como todo bom comandante,
cuidam dos seus homens e amam seu país. Mas o negócio em que estão metidos
não é a continuação da política por outros meios, o negócio deles é a
sobrevivência. A todo custo.
Não se pode julgar um militar nem uma nação pela forma como se comporta
quando triunfa, quando está na ofensiva a perseguir um inimigo derrotado.
Todos os exércitos parecem bons quando estão a vencer. Só se pode
realmente julgar a natureza de um militar, ou de uma nação, no seu momento
mais sombrio, quando as coisas são horríveis e a situação pior que
catastrófica. Este foi o caso em 1995 quando o regime Eltsin ordenou a
militares russos totalmente despreparados, desmoralizados, fracamente
treinados, mal alimentados, mal equipados e completamente desorganizados
(bem, umas poucas unidades apressadamente reunidas) que tomassem Grozny
aos chechenos. Era o inferno na terra. Aqui está um trecho do filme do
general Lev Rokhlin num posto de comando organizado às pressas numa cave
dentro de Grozny. Ele está tão exausto, sujo e vulnerável como qualquer
dos seus soldados. Olhem a cara dele e olhem as caras dos homens em torno
dele. Isto é como se parece exército russo quando nas profundezas do
inferno, traído pelos traidores que se sentavam no Kremlin e abandonado
pela maior parte do povo russo (o qual, lamento recordar aqui, em 1995,
na sua maior parte, estava só a sonhar com McDonalds e Michael Jackson).
Pode imaginar, digamos, o general Wesley Clark ou David Petraeus a
combaterem como estes homens o fizeram?
Examine este vídeo do general Shamanova a ordenar a cessação de
actividades ilegais a um político checheno local (não é preciso tradução):
Shamanov hoje em dia é o Comandante em Chefe das Forças Aerotransportadas
cuja dimensão Putin silenciosamente duplicou para 72 mil homens , algo
que mencionei antes como altamente relevante, especialmente em comparação
com os tépidos níveis de aumentos de força anunciados pela NATO (ver "
Suicídio da UE pela negação da realidade "). Para ter uma ideia do que são
as modernas forças aerotransportadas russas, examine este artigo.
Não é minha intenção glorificar aqui a guerra nuclear ou as Forças
Armadas Russas. A razão para este e muitos outros artigos é tentar tocar o
alarme quanto ao que está a acontecer nos dias de hoje. Os líderes
ocidentais estão bêbados na sua própria arrogância imperial, países que
antes eram considerados como manchas menores num mapa sentem-se agora
fortalecidos para constantemente provocar uma super-potência nuclear,
americanos estão a ser enganados e é-lhes prometido que alguma alta
tecnologia mágica os protegeria da guerra enquanto os russos estão
seriamente a preparar-se para a III Guerra Mundial porque chegaram à
conclusão de que o único meio de impedir essa guerra é deixar absoluta e
inequivocamente claro aos anglo-sionistas que eles nunca sobreviverão a
uma guerra com a Rússia, mesmo que todos os russos sejam mortos .
Lembro bem da Guerra Fria. Fiz parte dela. E recordo que a vasta maioria
de nós, de ambos os lados, percebia que uma guerra entre a Rússia e o
ocidente devia ser evitada a todo custo. Agora fico horrorizado quando
leio artigos de oficiais superiores a discutirem seriamente tal
possibilidade.
Leia apenas este artigo, por favor: What would a war between the EU and
Russia look like ? Aqui está o que este garoto escreve:
Para aqueles com inclinação poética, os militares russos parecem mais como
uma gigantesca tripulação de piratas do que com um exército regular. Os
que dominam são os que têm as espadas mais afiadas e a boca maior,
tipicamente alguma escumalha infestada de assassinos que confiam no apoio
dos seus cúmplices para fazer qualquer "oficial" impopular marchar sobre a
prancha... Ou, mais apropriadamente, parecem os membros da horda cossaca,
dirigida pelos guerreiros mais impetuosos... Se bem que estas tropas
possam ser muito corajosas, algumas vezes, elas não são eficazes no campo
contra uma máquina militar moderna bem regulada e treinada. Em vista
disso, é improvável, mesmo impossível, para tropas comuns russas
conduzirem operações de consequências importantes a mais do que o nível
de pelotão contra quaisquer exércitos disciplinados, especialmente dos
EUA, Grã-Bretanha, Alemanha ou França.
Esta espécie de escritos assusta-me realmente. Não por causa da imbecilidade
e da estupidez racista, mas porque em grande medida não são contestados nos
media de referência. Não é só este, há uma multidão de tais artigos alhures
(ver aqui , aqui ou aqui ). Naturalmente, os autores desta espécie de
"análises" ganham o seu dinheiro precisamente com incentivos maníacos às
forças ocidentais, mas esta é exactamente a atitude mental que perturbou
Napoleão e Hitler e que acabou com forças russas estacionadas em Paris e
Berlim. Compare-se esta espécie de chauvinismo agressivo e, francamente,
insensatez irresponsável com o que um comandante militar real, Montgomery,
tinha a dizer sobre este tópico:
A próxima guerra será muito diferente da última, teremos de combatê-la de um
modo diferente. Ao tomar uma decisão sobre essa matéria, devemos primeiro
ser claros acerca de certas regras de guerra. A regra 1, na página 1 do
livro de guerra, é: "Não marchar sobre Moscovo". Vários o tentaram, Napoleão
e Hitler, e não é bom. Essa é a primeira regra.
Assim, em quem acreditar? Em profissionais de animação de torcidas ou em
soldados profissionais? Acredita realmente que Obama (ou Hillary), Merkel e
Hollande farão melhor do que Napoleão ou Hitler?
Se o "estado profundo" anglo-sionista estiver realmente bastante iludido para
desencadear uma guerra contra a Rússia, na Europa ou alhures, o narcisista e
hedonista ocidente, bêbado com a sua própria propaganda e arrogância,
descobrirá um nível de violência e guerra que não pode sequer imaginar e se
isso afectasse somente aqueles responsáveis por estas políticas temerárias e
suicidas seria uma grande coisa. Mas o problema naturalmente é que muitos
milhões de nós, pessoas simples e comuns, sofrerão e morrerão em consequência
do nosso fracasso colectivo em impedir esse resultado. Espero e rezo para que
minhas reiteradas advertências pelo menos venham a contribuir para uma
crescente percepção de que esta loucura tem de ser travada imediatamente e de
que a sanidade deve retornar à política.
26/Maio/2016
O original encontra-se em
www.unz.com/tsaker/how-russia-is-preparing-for-wwiii/ e em
thesaker.is/how-russia-is-preparing-for-wwiii/
In
RESISTIR.INFO
http://resistir.info/russia/iii_guerra_26mai16.html
6/6/2016
domingo, 5 de junho de 2016
Quem derrotou o Japão foi Stálin***
Ward Wilson, Foreign Policy
Japão não foi derrotado por uma bomba, nem por duas bombas, nem pelos EUA: Quem
derrotou o Japão foi Stálin
Será que 70 anos de política nuclear norte-americana são baseados numa mentira?
O emprego de bombas atômicas pelos EUA contra o Japão na 2ª Guerra Mundial há
muito tempo é objeto de discussão apaixonada. De início, alguns questionaram a
decisão do presidente Truman, de despejar duas bombas atômicas sobre Hiroxima e
Nagasaki. Mas em 1965, o historiador Gar Alperovitz argumentou que, por mais que
as bombas tenham apressado o fim da guerra, os líderes japoneses já havia
decidido render-se com bomba ou sem, e provavelmente o teriam feito antes da
invasão norte-americana planejada para 1º de novembro. A bomba portanto não foi
fator decisivo e pode ter sido desnecessária. Obviamente, se as bombas não
fossem necessárias para vencer a guerra, não há como 'salvar' a ideia dos
ataques atômicos contra Hiroxima e Nagasaki. Nos 48 anos seguintes, muitos
outros embarcaram na discussão: alguns ecoando o argumento de Alperovitz e
denunciando os bombardeios; outros a repetir apaixonadamente que os bombardeios
teriam sido morais e necessários, e "salvaram vidas".
Contudo, ambas as escolas de pensamento assumem, isso sim, que os bombardeios
de Hiroxima e Nagasaki com armas novas e mais poderosas, forçaram o Japão a
render-se logo dia 9 de agosto. Mas não questionam, em primeiro lugar, a
utilidade 'necessária' das bombas, vale dizer, não perguntam, em essência, se as
bombas 'funcionaram'. A ideia ortodoxa é que, sim, claro que funcionaram. Os EUA
bombardearam Hiroxima dia 6 de agosto; e Nagasaki dia 9 de agosto, quando o
Japão finalmente sucumbiu à ameaça de novos bombardeios e rendeu-se. Essa
narrativa tem encontrado apoio profundo.
Mas sempre subsistem três problemas graves nessa narrativa, os quais,
considerados em grupo, minam consideravelmente a credibilidade dessa
interpretação tradicional da rendição japonesa.
O timing
O primeiro problema quanto à interpretação oficial é o momento do bombardeio, o
timing. E é problema sério. A interpretação tradicional segue um cronograma
simples: a Força Aérea dos EUA bombardeou Hiroxima com uma bomba nuclear dia 6
de agosto, três dias depois bombardeou Nagasaki com outra bomba e, dia seguinte,
os japoneses sinalizaram a intenção de se renderem. Nem se podem culpar os
jornais norte-americanos por terem estampado manchetes como: "Paz no Pacífico:
nossa bomba conseguiu!"
Sempre que a história de Hiroxima é repetida na maioria das histórias dos EUA,
o dia do bombardeio - 6 de agosto - é o clímax da narrativa. Todos os elementos
da história apontam aquele momento: a decisão de construir a bomba; as pesquisas
secretas em Los Alamos, o primeiro e impressionante teste; e a culminação em
Hiroxima. Há, em outras palavras, toda uma história da bomba. Mas não se pode
analisar a decisão do Japão, de render-se, no contexto dessa história da bomba.
Apresentar as coisas numa "História da Bomba" é pressupor que a bomba teria sido
protagonista.
Do ponto de vista dos japoneses, o dia mais importante naquela segunda semana
de agosto não foi 6 de agosto, mas 9 de agosto. Foi quando o Conselho Supremo
reuniu-se - pela primeira vez naquela guerra - para discutir a rendição
incondicional. O Conselho Supremo era formado dos seis mais altos membros do
governo - uma espécie de gabinete interno -, que efetivamente governava o Japão
em 1945. Antes daquele dia, os líderes japoneses nunca haviam considerado
seriamente a possibilidade de o país render-se. A rendição incondicional (como
os Aliados estavam exigindo) era remédio amargo de engolir. EUA e Grã-Bretanha
já estavam organizando julgamentos de crimes de guerra na Europa. O que
aconteceria se resolvessem pôr o Imperador - divino, para muitos japoneses - no
banco dos réus? E se se livrassem do Imperador e mudassem completamente a forma
de governo? Mesmo considerando a gravidade da situação no verão de 1945, os
líderes do Japão não estavam dispostos a ceder todas as suas tradições, crenças
e o próprio modo de vida. Isso, até 9 de agosto.
O que pode ter acontecido, que levou os japoneses a mudar de ideia tão
repentinamente e tão completamente? O que os fez sentar e pôr-se a discutir
seriamente a rendição, pela primeira vez depois de 14 anos de guerra?
Não pode ter sido Nagasaki - que só foi bombardeada no final da manhã do dia 9
de agosto, depois de o Conselho Supremo já estar reunido para discutir a
rendição; e os líderes japoneses só foram informados do bombardeio no início da
tarde - depois que o Conselho Supremo já se reunira e todo o gabinete já fora
convocado para oficializar a decisão. Se se considera a cronologia real,
Nagasaki não pode ter sido fator que motivou os japoneses.
Mas Hiroxima também não é aposta em que se possa jogar. Aconteceu 74 horas -
mais de três dias antes da rendição. Que tipo de crise demora três dias para vir
à tona? Crise é evento sobre o qual necessariamente pesa o risco de desastre
iminente; e o desejo imperioso de agir depressa. Como os líderes japoneses
poderiam ter suposto que Hiroxima seria ponto final de uma crise... mas esperar
três dias para começar a discutir o problema?
O presidente John F. Kennedy estava sentado na cama lendo os jornais da manhã,
mais ou menos às 8h45 do dia 16/10/1962, quando McGeorge Bundy, seu conselheiro
de segurança nacional chegou para informá-lo de que a União Soviética estava
instalando mísseis nucleares, secretamente, em Cuba. Em duas horas e 45 minutos
já estava constituída uma comissão especial, membros escolhidos, trazidos todos
para a Casa Branca e sentados à volta da mesa do gabinete para decidir o que
fazer.
Dia 25/6/1950, o presidente Harry Truman descansava em Independence, Missouri,
quando tropas da Coreia do Norte ultrapassaram o paralelo 38 e invadiram a
Coreia do Sul. O secretário de Estado Acheson telefonou a Truman na manhã
daquele sábado para informá-lo. Em 24 horas Truman já atravessara metade dos EUA
e estava sentado na Blair House (Casa Branca estava em reformas), com os
principais assessores militares e políticos, decidindo o que fazer. (...) Todos
esses líderes tomaram decisões cruciais em curto período de tempo. Como imaginar
que os governantes japoneses agiriam de outro modo? Se Hiroxima realmente
enfrentava crise que eventualmente levaria o país a render-se depois de 14 anos
de guerra... por que demoraria três dias para sentar-se e começar a discutir o
problema?
Alguém poderia dizer que seria uma demora lógica. Talvez tenham demorado a
entender a importância do bombardeio. Talvez não soubessem o que seria uma bomba
atômica e, quando perceberam e compreenderam o tipo de arma que os estava
atacando e os efeitos que teria, decidiram render-se, mas não antes disso.
Parece lógico, mas não dá conta dos fatos que se conhecem.
Primeiro, o governador de Hiroxima informou Tóquio no mesmo dia em que Hiroxima
foi bombardeada, de que cerca de 1/3 da população fora morta no ataque, e que
2/3 da cidade estava em ruínas. Essa informação não mudou ao longo de vários
dias seguintes. Vale dizer que o efeito - o resultado final do bombardeio - já
era conhecido desde o começo. Os líderes japoneses sabiam dos efeitos do ataque
atômico desde o primeiro dia; mas mesmo assim não agiram na direção da rendição.
Segundo, o relatório preliminar preparado pela equipe do Exército que
investigou o bombardeio de Hiroxima, e que deu detalhes do que acontecera lá, só
veio à tona dia 10 de agosto. Também chegou a Tóquio depois que já estava tomada
a decisão de render-se. Embora dia 8 de agosto já circulassem relatos verbais
entre os militares, os detalhes do bombardeio só apareceram dois dias depois. É
o mesmo que dizer que a decisão dos japoneses, de render-se, não foi
consequência de alguma análise a fundo dos horrores em Hiroxima.
Terceiro, os militares japoneses sabiam, pelo menos em termos gerais, o que
eram bombas atômicas. O Japão teve programa de bombas nucleares. Vários
militares japoneses registram em diários, desde o primeiro dia, que Hiroxima
fora destruída em ataque por bomba atômica. O general Anami Korechika, ministro
da Guerra, chegou até a consultar o programa de armas nucleares do Japão, na
noite de 7 de agosto. A ideia de que os comandantes japoneses não soubessem das
bombas nucleares é absolutamente inverossímil.
Por fim, há mais um fato relacionado ao timing que gera problema grave. Dia 8
de agosto, o ministro do Exterior Togo Shigenori foi ao primeiro-ministro Suzuki
Kantaro e pediu que o Conselho Supremo fosse convocado para discutir o
bombardeio de Hiroxima, mas os membros não aceitaram a convocação. Assim se vê
que não é verdade que a crise ter-se-ia agravado dia a dia, até eclodir dia 9 de
agosto.
Qualquer explicação das ações dos governantes e militares japoneses que dependa
do "choque" ante o bombardeio de Hiroxima tem de dar conta do fato de que
consideraram reunir-se dia 8 de agosto e avaliaram que não era evento
importante; e depois, de repente, decidiram discutir a rendição, logo no dia
seguinte. Das duas uma: ou sucumbiram todos ao mesmo tipo de esquizofrenia
coletiva; ou alguma outra coisa aconteceu, que foi a causa real de os japoneses
terem decidido discutir a rendição.
A escala
Historicamente, o uso da Bomba pode parecer o evento isolado mais importante de
toda a guerra. Mas, do ponto de vista contemporâneo dos japoneses, não parece
muito fácil distinguir o evento "Bomba", de outros eventos da mesma guerra.
Afinal é difícil distinguir uma gota de chuva no meio de um furacão.
No verão de 1945, a Força Aérea dos EUA levava a efeito uma das mais intensas
campanhas de destruição de cidades habitadas de toda a história do mundo. 68
cidades japonesas estavam sendo atacadas e todas elas estavam ou parcialmente ou
completamente destruídas. Estimadas 1,7 milhão de pessoas tinham ficado sem
teto, 300 mil mortos e 750 mil feridos. 66 desses raids foram executados com
bombas convencionais, dois com bombas atômicas. A destruição causada pelos
ataques convencionais foi tremenda. Noite após noite, durante todo o verão,
cidades eram reduzidas a ruínas fumegantes. No meio dessa cascata de destruição,
não é surpresa que um ou outro homem ou mulher nem tenha percebido que algum
ataque fosse efeito de algum tipo novo de arma.
Qualquer bombardeiro B-29 que decolasse das Ilhas Mariana poderia transportar -
dependendo da localização do alvo e da altitude do ataque - algo entre 7
toneladas e 9 toneladas de bombas. Raid típico reunia 500 bombardeiros.
Significa que um raid convencional típico deixava cair 4-5 kilotoneladas de
bombas sobre cada cidade. (1 kilotonelada = 1.000 toneladas e é a medida padrão
do poder explosivo de uma bomba atômica. A bomba de Hiroxima media 16,5
kilotoneladas; a de Nagasaki, 20 kilotoneladas.) Dado que muitas bombas
distribuem uniformemente morte e destruição (o que significa "com mais
efetividade"), mas uma bomba só, mais poderosa, concentra a maior parte do
próprio poder no centro da explosão - com fragmentos que se espalham -, pode-se
dizer que alguns dos raids convencionais aproximaram-se muito da destruição que
seria causada pelas duas bombas atômicas.
O primeiro dos raids convencionais, um ataque noturno contra Tóquio em 9-10 de
março de 1945, ainda é o ataque único mais destrutivo contra uma cidade em toda
a história da guerra. Algo como 41,40 quilômetros quadrados da cidade viraram
cinza. Estimados 120 mil japoneses morreram - o maior número de baixas de todos
os bombardeios contra cidades, em todos os tempos.
Imagina-se frequentemente, por causa do modo como a história é contada, que o
bombardeio de Hiroxima tenha sido muito pior. Imaginamos que o número de mortos
tenha sido descomunal. Mas se se comparam os números de mortos em todas as 68
cidades bombardeadas no verão de 1945, descobre-se que Hiroxima aparece em
segundo lugar em termos de civis mortos. Se se mapeia o número de quilômetros
quadrados destruídos, Hiroxima aparece em quarto lugar. Se se considera a
porcentagem da cidade que foi destruída, Hiroxima foi a 17ª. Claramente Hiroxima
ficou rigorosamente dentro dos parâmetros de todos os ataques convencionais
levados a cabo naquele verão.
De nosso ponto de vista, Hiroxima parece singular, extraordinária. Mas se você
se põe na pele dos líderes japoneses nas três semanas que levaram ao ataque
contra Hiroxima, o quadro muda completamente. Se você fosse um dos membros
chaves do governo japonês no final de julho, início de agosto, sua experiência
do bombardeamento da cidade seria alguma coisa como a seguinte:
Na manhã de 17 de julho, você teria sido acordado por notícias de que, durante
a noite, quatro cidades haviam sido atacadas: Oita, Hiratsuka, Numazu e Kuwana.
Dessas, Oita e Hiratsuka tiveram destruída mais de 50% da área. Kuwana, mais de
75%; e Numazu foi atingida ainda mais severamente, com cerca de 90% da cidade
reduzida a montes de escombros.
Três dias depois, você seria acordado para ser informado de que mais três
cidades haviam sido atacadas. Mais de 80% de Fukui fora destruída. Uma semana
adiante, e mais três cidades teriam sido atacadas durante a noite. Mais dois
dias e mais seis cidades atacadas numa só noite, inclusive Ichinomiya, 75% da
qual foi arrasado. Dia 2 de agosto, você chegaria ao escritório, para ler
notícias de que mais quatro cidades haviam sido atacadas. E os relatórios
incluiriam a informação de que Toyama (cidade do tamanho de Chattanooga,
Tennessee em 1945), havia sido 99,5% destruída. Praticamente toda a cidade posta
abaixo. Mais quatro dias, e mais quatro cidades destruídas. Dia 6 de agosto, só
uma cidade foi atacada, Hiroxima; os relatórios falavam de grandes danos e de um
novo tipo de bomba. Por que esse ataque do dia 6 de agosto ganharia excepcional
destaque, no quadro de vasta destruição de cidades que já acontecia há semanas?
Nas três semanas antes de Hiroxima, 26 cidades foram atacadas pela Força Aérea
dos EUA. Dessas, oito - quase 1/3 - foram destruídas tão completamente ou até
mais completamente que Hiroxima (em termos de porcentagem de área da cidade
destruída). O fato de que o Japão teve 68 cidades destruídas no verão de 1945 é
desafio quase insuperável a quem deseje apresentar o bombardeamento de Hiroxima
como causa da rendição dos japoneses. A questão é: se se renderam porque uma
cidade fora destruída... por que não se renderam quando aquelas outras 66
cidades foram destruídas?
Se os líderes japoneses se fossem render por causa de Hiroxima e Nagasaki,
seria de esperar que o bombardeio de outras cidades em geral, que os ataques
contra tantas cidades os estivessem pressionando na direção da rendição. Nada
parece ter acontecido desse modo.
Dois dias antes de Tóquio ser bombardeada, o ministro de Relações Exteriores
aposentado Shidehara Kijuro expressou um sentimento que parecia ser partilhado
por todos os oficiais de alta patente naquele momento. Shidehara opinou que "as
pessoas gradualmente se habituarão a ser bombardeadas diariamente. Com o tempo,
a união entre todos e a coragem se fortalecerão." Numa carta para um amigo,
disse que era importante para os cidadãos suportar os sofrimentos, porque "ainda
que centenas de milhares de civis sejam mortos, feridos ou fiquem sem comida,
ainda que milhões de prédios seja destruídos ou queimados", ainda assim a
diplomacia precisava de mais tempo. E vale lembrar que Shidehara era ministro
moderado.
Nos mais altos níveis de governo - no Conselho Supremo - as atitudes eram
aparentemente as mesmas. Embora o Conselho Supremo discutisse a importância de a
União Soviética manter-se neutra, não tiveram discussão final sobre o impacto do
bombardeio das cidades. Nos registros que foram preservados, não há sequer
qualquer referência a cidades bombardeadas em discussões do Conselho Supremo,
exceto em duas ocasiões: uma, em maio de 1945, referência de passagem; e outra
na noite de 9 de agosto, durante discussão de temas gerais. Se se consideram as
provas que há, é difícil convencer-se e acreditar que algum governante japonês
entendesse que o bombardeio daquela cidade - comparado a outras questões
prementes de uma guerra em andamento - tivesse qualquer significado maior ou
excepcional.
O general Anami, dia 13 de agosto, observou que bombas atômicas não eram mais
ameaçadoras que bombas incendiárias que o Japão suportara durante meses. Se
Hiroxima e Nagasaki não eram piores que bombas incendiárias, e se governantes
japoneses não as consideravam importantes a ponto de serem discutidas em
profundidade, como é possível que Hiroxima e Nagasaki tivessem forçado os
japoneses a se renderem?
Significação estratégica
Se os japoneses não estavam preocupados com cidades bombardeadas em geral, ou
com o bombardeio de Hiroxima em particular, o que, afinal os preocupava? A
resposta é simples: a União Soviética.
Os japoneses estavam em situação estratégica relativamente difícil. O fim da
guerra se aproximava, e estavam perdendo a guerra. As condições eram péssimas.
Mas o Exército ainda permanecia forte e bem suprido. Havia cerca de 4 milhões de
japoneses em armas, e 1,2 milhão deles protgiam as ilhas japonesas.
Até os governantes mais linha dura no Japão sabiam que a guerra não podia
prosseguir. A questão não era continuar ou não, mas como levar a guerra a uma
conclusão sob as melhores condições possíveis. Os aliados (EUA, Grã-Bretanha e
outros) - a União Soviética, lembrem, ainda estava neutra) exigiam "rendição
incondicional". Os líderes japoneses tinham esperança de que conseguiriam
encontrar um modo de evitar tribunais de crimes de guerra, de manter a própria
forma de governo e de preservar alguns dos territórios que haviam conquistado:
Coreia, Vietnã, Burma, partes da Malásia e Indonésia, grande porção da China
oriental e numerosas ilhas no Pacífico.
Os japoneses tinham dois planos para conseguir melhores condições para a
rendição; tinham, em outras palavras, duas opções estratégicas. A primeira era
diplomática. O Japão havia assinado um pacto de neutralidade por cinco anos com
os soviéticos, em abril de 1941, que expiraria em 1946. Um grupo de líderes, a
maioria civis, e liderados pelo ministro de Relações Exteriores Togo Shigenori
tinha esperanças de convencer Stálin a mediar um acordo entre, por um lado os
EUA e seus aliados, e, por outro, o Japão. Ainda que esse plano fosse coisa de
longo prazo, refletia pensamento estratégico consistente e sólido. Afinal,
interessava à União Soviética garantir que os termos desse eventual acordo não
fossem excessivamente favoráveis aos EUA: qualquer ampliação na influência e
poder dos EUA na Ásia significaria diminuição na influência e no poder dos
soviéticos.
O segundo plano era militar, e a maioria dos proponentes eram também militares,
liderados pelo ministro do Exército Anami Korechika. Esses contavam com as
forças terrestres do Exército Imperial para infligir baixas pesadas nas forças
norte-americanas quando invadissem. Se fossem bem-sucedidas, sentiam os
japoneses, talvez conseguissem que os EUA oferecessem melhores termos. Essa
estratégia também era movimento de longo prazo. Os EUA pareciam profundamente
empenhados em obter rendição incondicional. Mas, dado que, sim, havia
preocupação nos círculos militares dos EUA, para os quais as baixas em grandes
números seriam fator impeditivo de qualquer invasão, a estratégia do alto
comando japonês não era completamente sem sentido.
Um modo de aferir se foi o bombardeio de Hiroxima ou a invasão e declaração de
guerra pelos soviéticos, que levou o Japão a render-se, é comparar o modo como
esses eventos afetaram a situação estratégica. Depois que Hiroxima foi
bombardeada dia 8 de agosto, as duas possibilidades continuavam abertas. Ainda
seria possível pedir que Stálin fizesse alguma mediação (e as entradas do dia 8
de agosto no diário de Takagi mostram que pelo menos alguns líderes japoneses
ainda cogitavam de tentar envolver Stálin). Também permanecia possível tentar
combater uma última e decisiva batalha, para infligir aos EUA número pesado de
baixas. A destruição de Hiroxima em nada reduziu a prontidão dos soldados
japoneses entrincheirados nas praias das ilhas japonesas. Havia, sim, uma cidade
a menos na retaguarda, mas os soldados continuavam em suas trincheiras, ainda
tinham munição e aquela força militar não sofrera qualquer redução relevante. O
bombardeio e a destruição de Hiroxima em nada alterou as opções estratégicas com
as quais o Japão trabalhava.
Muito diferente disso, contudo, foi o impacto da declaração de guerra e a
invasão, pelos soviéticos, da Mandchúria e da Ilha Sakhalin. Tão logo a União
Soviética declarasse guerra, Stálin deixaria de poder atuar como mediador -
passava a ser força beligerante. Equivale dizer que a opção diplomática foi
varrida do mapa pelo movimento dos soviéticos. O efeito sobre a situação militar
foi igualmente dramático. Muitas das melhores tropas do Japão haviam sido
deslocadas para a parte sul das ilhas japonesas. Os militares haviam estimado
corretamente que o primeiro alvo de uma invasão norte-americana seria a ilha de
Kyushu, no extremo sul. O orgulhoso exército Kwangtung na Mandchúria, por
exemplo, não passava de uma sombra do que fora, porque suas melhores unidades
haviam sido deslocadas para defender o próprio Japão.
Quando os russos invadiram a Mandchúria, cortaram como manteiga o que um dia
fora um exército de elite e muitas unidades russas só pararam de avançar quando
ficaram sem combustível. O 16º Exército Soviético - 100 mil soldados - invadiu
pela metade sul da Ilha Sakhalin. Tinham ordens para destruir a resistência
japonesa ali e depois - dentro de 10 a 14 dias - estar preparados para invadir
Hokkaido, a mais setentrional das ilhas japonesas. A força japonesa encarregada
de defender Hokkaido, o Exército da 5ª Área, fora reduzida para duas divisões e
duas brigadas, e ocupava posições fortificadas no lado leste da ilha. O plano de
ataque dos soviéticos mandava invadir Hokkaido pelo oeste.
Não é preciso ser gênio militar para compreender que, por mais que fosse
possível combater batalha decisiva com uma grande potência que invadisse de um
lado, jamais seria possível combater duas grandes potências que invadissem de
duas diferentes direções. A invasão soviética invalidou a estratégia da batalha
decisiva dos militares, tão completamente como invalidou também a estratégia
diplomática. Num só golpe, evaporaram-se todas as opções com que o Japão vinha
trabalhando.
A invasão soviética foi estrategicamente decisiva - derrubou as duas opções do
Japão. O ataque a Hiroxima nem tangenciou as estratégias japonesas, que
permaneceram, depois do ataque, exatamente como estavam antes dele.
A declaração de guerra pelos soviéticos também alterou o cálculo de quanto
tempo ainda havia para manobrar. A inteligência japonesa previa que as forças
dos EUA dificilmente invadiriam nos meses seguintes. As forças soviéticas, por
sua vez, podiam estar dentro do Japão em coisa de dez dias. A invasão soviética,
sim, tornou extremamente urgente a necessidade de decidir sobre o fim da guerra.
E os líderes japoneses já sabiam bem disso já alguns meses. Numa reunião do
Conselho Supremo, em junho de 1945, já haviam dito que "a entrada dos soviéticos
nessa guerra determinará o destino do Império". Kawabe, vice-comandante geral do
Exército, disse, naquela mesma reunião, que "para a continuação da guerra, é
absolutamente imperativo manter a paz nas relações entre O Império e a União
Soviética."
Os líderes do Japão, mostraram consistentemente absoluto desinteresse pelo
bombardeio que estava destruindo suas cidades. Ainda que isso possa não ter sido
bem verdade quando o bombardeio começou em março de 1945, certamente já era
plena verdade quando Hiroxima foi atacada: os estrategistas japoneses viam o
bombardeio de cidades como um show colateral sem importância, em termos de
impacto estratégico.
Quando Truman, em frase que ganhou fama, ameaçou lançar "uma chuva de ruína"
sobre cidades japonesas que não se rendessem, poucos, nos EUA, deram-se conta de
que, na verdade, restava praticamente nada por destruir. Dia 7 de agosto, quando
Truman lançou sua ameaça, restavam ao Japão apenas 10 cidades com mais de 100
mil habitantes que ainda não haviam sido bombardeadas. Depois que Nagasaki foi
atacada dia 9 de agosto, restaram só nove. Quatro delas localizavam-se na ilha
de Hokkaido, no extremo norte, difícil de bombardear por causa da distância em
relação à Ilha Tinian, onde estava a base dos aviões dos EUA. Kioto, a antiga
capital do Japão já havia sido retirada da lista de alvos por Henry Stimson,
secretário da Guerra, por sua importância religiosa e simbólica. Assim, apesar
do rugir da ameaça de Truman, depois que Nagasaki foi bombardeada só restavam
quatro cidades importantes que ainda poderiam servir como alvo de bombas
atômicas.
A amplidão da campanha da Força Aérea dos EUA no quesito bombardear cidades
pode ser aferida pelo fato de que já haviam bombardeado tantas cidades
japonesas, que só restavam 'cidades' com 30 mil habitantes, ou menos. No mundo
moderno, 30 mil habitantes é população de vilarejo.
Claro que sempre seria possível rebombardear cidades já bombardeadas com bombas
incendiárias. Mas essas cidades já estavam 50% destruídas, em média. Ou os EUA
poderiam ter usado armas atômicas contra cidades menores. Mas só havia seis
dessas (com população entre 30 mil e 100 mil habitantes), que ainda não haviam
sido bombardeadas. Dado que o Japão já sofrera danos graves causados por bombas
em 68 cidades e não se deixara abater, não surpreende que os líderes japoneses
tampouco se tenham deixado impressionar muito pela ameaça de mais bombardeios. E
não era ameaça estrategicamente crível.
Uma história conveniente
Apesar de haver essas três objeçõe poderosas, a interpretação tradicional ainda
domina o pensamento da maioria das pessoas, principalmente nos EUA. Há forte
resistência contra considerar os fatos. Mas, afinal, não se pode dizer que essa
resistência seja surpreendente. É preciso não esquecermos o quanto é
emocionalmente conveniente a versão tradicional para o ataque a Hiroxima - e
para os dois lado, para o Japão, como para os EUA. Há ideias que persistem por
serem verdadeiras, mas infelizmente também há ideias que persistem porque são
emocionalmente confortadoras, vale dizer, porque suprem alguma carência
psicológica importante. Por exemplo, ao final da guerra a interpretação
tradicional de Hiroxima ajudou os líderes japoneses a alcançar vários
importantes objetivos políticos, tanto no cenário doméstico como no cenário
internacional.
Ponham-se no lugar do imperador. Você acaba de conduzir o país através de
guerra desastrosa. A economia está em frangalhos. 80% das cidades foram
bombardeadas e incendiadas. O Exército sofreu uma cadeia de derrotas terrívies.
A Marinha foi dizimada e encurralada nos próprios portos. Há fome generalizada.
Em resumo, a guerra foi total catástrofe e, pior que tudo, você vem mentindo ao
seu povo, já há tempos, e escondeu a real gravidade da situação. O povo ficará
chocado com a notícia de que o país rendeu-se. O que você pode ainda tentar?
Admitir que fracassou miseravelmente? Emitir uma declaração de que você erros
espetacularmente nas suas previsões, repetiu incontáveis vezes os próprios erros
e causou dano monstruoso ao país? Ou você escolhe 'transferir' as culpas para um
terrível novidade científica, uma bomba que ninguém jamais vira e não poderia
prever? Num único passo, a possibilidade de transferir a derrota para o 'evento'
bomba atômica 'cancelou' todos os erros de cálculo e de comando dos japoneses
durante a guerra e varreu-os todos para baixo do tapete. A Bomba foi a desculpa
perfeita por ter perdido a guerra. Além do mais, cancelava todos os tribunais de
guerra e correspondentes investigações. Líderes japoneses encontravam na bomba
um modo de afastar deles mesmos todas as culpas e responsabilidades.
Mas atribuir à bomba a derrota do Japão também serviu a três outros específicos
objetivos políticos. Primeiro, ajudou a preservar a legitimidade do Imperador.
Se a guerra fora perdida, não por erros cometidos, mas por ação de uma arma
inimiga milagrosa invencível inesperada, nesse caso o povo japonês poderia
continuar a apoiar o imperador-instituição.
Segundo, a tragédia gerada pela bomba atômica mobilizou a simpatia
internacional. O Japão fizera guerra de agressão, com brutalidade terrível
contra povos conquistados - comportamento que as nações com certeza condenariam.
Mas poder apresentar o Japão como nação vítima - nação injustamente bombardeada
por aquele terrível, horrível, jamais antes visto instrumento de guerra -
ajudaria a apagar alguns dos feitos moralmente repugnantes dos militares
japoneses. Desviar todas as atenções para as bombas atômicas ajudou a apresentar
o Japão sob luz mais simpática e a esvaziar movimentos que pregassem outras
punições por crimes de guerra.
E por fim, a versão de que a Bomba vencera a guerra também servia bem a
interesses dos vencedores. A ocupação norte-americana só terminou oficialmente
em 1952; nesse período, os EUA puderam mudar, ou reconstruir a sociedade
japonesa, na direção que mais lhes interessava. Durante os primeiros dias da
ocupação, muitos funcionários japoneses preocupavam-se com a ideia de que os
norte-americanos estivessem decididos a abolir a instituição do imperador. E
preocupavam-se também com o alto risco de serem acusados de terem cometido
crimes de guerra e julgados em tribunais especiais (os tribunais para crimes de
guerra que julgavam os governantes alemães já estavam em curso na Europa, quando
o Japão rendeu-se). Asada Sadao, historiador japonês disse exatamente isso em
várias entrevistas que deu depois da guerra, que "os oficiais japoneses (...)
estavam obviamente ansiosos, querendo agradar os interrogadores
norte-americanos." Se os norte-americanos tanto queriam crer que a Bomba venceu
a guerra, por que desapontá-los?
Atribuir o fim da guerra à bomba atômica serviu em vários sentidos a interesses
do Japão. Mas também serviu a interesses dos EUA. Se a Bomba vencesse a guerra,
a percepção do poderio militar dos EUA só aumentaria, a influência diplomática
dos EUA na Ásia e em todo o mundo também cresceria, e a segurança dos EUA também
sairia fortalecida.
Mas se os japoneses só se tivessem rendido quando os soviéticos declararam
guerra e invadiram o país, nesse caso os soviéticos diriam que fizeram em quatro
dias o que os EUA não conseguiram fazer em quatro anos; e cresceria a percepção
do poder militar soviético; e cresceria a influência militar e a influência
diplomática dos soviéticos. Com a Guerra Fria já em curso, declarar que o
exército soviético fora o fator decisivo seria garantir ajuda e condições de
avançar, ao inimigo.
É estranho, dada a discussão que desenvolvemos aqui, perceber o quanto os
'fatos' de Hiroxima e Nagasaki estão no cerne de tudo que pensamos sobre armas
nucleares. Os eventos de que aquelas duas cidades foram palco são as pedras
basilares de tudo que dizemos sobre a importância de armas nucleares. É crucial,
para que as bombas atômicas preservem o status especialíssimo que ainda têm, que
não se apliquem a elas as regras normais da guerra e das ameaças de guerra: a
ameaça feita por Truman, de que faria chover "uma chuva de ruína" sobre o Japão,
foi a primeira ameaça nuclear explícita que a história registrou. E é chave para
a aura de 'poder invencível' que cerca as bombas atômicas e as torna tão
importantes nas relações internacionais.
Mas o que fazer dessas conclusões, se a história oficial de Hiroxima está posta
em dúvida? Hiroxima sempre foi o centro, o ponto a partir do qual irradiam todos
os demais argumentos e conclusões. A história que nos contamos a nós mesmos,
contudo, parece muito apartada dos fatos. O que pensar das armas atômicas, se
esse descomunal primeiro 'feito' - o milagre da repentina rendição do Japão - é
desmascarado e exposto como mito?*****+
30/5/2013, Ward Wilson, Foreign Policy
In
port.pravda.ru
http://port.pravda.ru/mundo/05-06-2016/41103-japao_stalin-0/#
5/6/2016
***
A pesquisa histórica caminha lentamente. Mas, frequentemente, as suas descobertas se contrapõem às visões estatais ou oficialistas.
Matadero rescatado por el pueblo impulsa la economía socialista en Yaracuy
Después de años de abandono de las instalaciones del antiguo Matadero Municipal
de Aroa, ahora EPSDC Rafael Santiago Torres Vásquez, en manos de sus
propietarios (el pueblo organizado).
-------------------------
AVN
San Felipe, 04 Jun. 2016.- En Venezuela, desde 1999, se han dado importantes
pasos hacia la integración de una economía socialista, basada en la
socialización y administración colectiva de los medios de producción, que
sustente el proyecto de justicia e igualdad social que impulsa la Revolución
Bolivariana y que hoy se cristaliza en propuestas como la del matadero comunal
Rafael Santiago Torres Vásquez, ubicado en el caserío La Luz, Aroa, municipio
Bolívar del estado Yaracuy.
Esta empresa de producción social directa se instaló en 2014 en las
infraestructuras del abandonado matadero municipal, que se creó en 1994 para
atender la creciente producción ganadera de entonces y que con el pasar de los
años fue quedando en desuso hasta llegar a su total paralización 20 años
después.
Tras años de lucha popular y de un largo y complicado proceso de rescate,
trabajadores y comunidades del sector, comprometidos con los cambios sociales
establecidos en el proyecto revolucionario, concretaron el mismo año de cierre
la toma y adjudicación de los espacios del matadero municipal y establecieron la
empresa de producción social directa (EPSD), encargada en la actualidad de la
administración.
Félix Torres, vocero ejecutivo de la EPSD y de la comuna 12 de abril, que
integra a 23 pequeñas comunidades del sector, comenta que anteriormente en el
matadero municipal, las condiciones de trabajo, la prestación del servicio de
beneficio de reses y la responsabilidad social de la empresa no eran lo que
propone una economía socialista, por lo que trabajadores y vecinos acordaron
impulsar una transformación.
“Quienes administraban el matadero municipal, bajo la figura de concesión,
siempre lo hicieron con una visión capitalista, sin importarles las condiciones
laborales ni sociales de los trabajadores, y menos las necesidades de las
comunidades. Por ello, nos organizamos, luchamos y hoy tenemos esta empresa de
producción social con la que queremos demostrar que la única vía para lograr el
bienestar de todos es el socialismo”, apuntó.
El último concesionario, quien manejó durante nueve años la empresa, abandonó
en 2013 las labores de matanza de ganado, debido a que la cantidad de reses que
llegaban al recinto bajaron de 100 diarias a nueve semanales, por lo que el
matadero dejó de ser rentable.
En ese año, 19 trabajadores, con apoyo de las comunidades circunvecinas y del
Ministerio de las Comunas y Movimientos Sociales, se organizaron para tomar las
instalaciones, rescatar las maquinarias y poner en operatividad el matadero, al
que siempre se le sacaron beneficios, sin invertir para mejorar los servicios.
“Nos formamos, impulsamos la participación colectiva y, con nuestros propios
recursos y el apoyo de empresas amigas, adecuamos y recuperamos las
instalaciones y hasta construimos infraestructuras nuevas, para poder asumir el
compromiso de prestar un servicio con visión social y con total compromiso hacia
el pueblo”, subrayó Torres.
Cuando iniciaron labores, beneficiaban nueve reses diarias. Hoy, son más de 150
semanales y van en aumento. La capacidad de la sala de matanza es de 100
animales por día, lo cual esperan alcanzar de manera progresiva.
Carmen Guerra, médica veterinaria encargada de la parte sanitaria de la
empresa, apuntó que los controles son estrictos para garantizar que la carne que
sale del matadero cumpla con los requerimientos exigidos por las normas
sanitarias.
La negociación con el dueño del ganado se concreta en el uso del matadero, a
cambio del cuero que deja cada animal. La EPSD comercializa este cuero en la
zona y en otros estados para obtener los recursos que le permiten operar y
cumplir con la función social para la que fue creada.
Cada ejemplar deja en promedio de 4 kilos de varios cortes de carne que se
almacenan y luego se distribuyen a precios justos a las comunidades.
Participación social
La EPSD Rafael Santiago Torres Vásquez cuenta con 32 trabajadores, quienes han
mejorado de manera sustancial sus condiciones de vida, porque son propietarios
de la empresa y reciben todos los derechos que por ley le corresponden,
beneficios laborales que eran negados por el privado que vulneró las
reivindicaciones de los trabajadores.
Además, la planta invierte parte de sus excedentes en obras de interés social
en las comunidades que integran la comuna a la que pertenecen.
Félix Torres comenta que en dos años se han financiado la ejecución de dos
importantes proyectos comunitarios: el techado de la escuela básica La Luz, en
el que se invirtieron más de 1.000.000 de bolívares, y la construcción del
acueducto de aguas blancas de Barrio Nuevo La Luz, donde se ejecutaron Bs.
1.100.000
Además, la empresa de producción social mantiene pensionados a 10 adultos
mayores del sector, hasta que comiencen a recibir ingresos de la Misión En Amor
Mayor; para ello, la comuna hace las diligencias.
De igual forma, cubre la beca de una estudiantes universitaria que cursa
estudios de Ingeniería en Barqusimieto, estado Lara, y dos jóvenes que cumplen
con becas trabajo en la empresa.
El apoyo a las comunidades se evidencia en el respaldo económico que aportan
para los colectivos organizados: motitaxistas, clubes deportivos y asociaciones
civiles que cumplen con una función social en sus comunidades.
La comuna también percibe anualmente 10% de los excedentes que la empresa
registra, por lo que recientemente la empresa le transfirió 400.000 bolívares de
manera directa.
Ampliar cobertura y producción
Entre sus proyectos, la EPS plantea la colocación de una línea de desposte con
la que podrán despresar las piezas de carne y distribuirlas directamente a la
población a través de carnicerías bolivarianas.
Juan Mendoza, habitante del sector, mencionó que ampliar la distribución de
carne a toda la población es necesaria, por cuanto el producto se consigue en
las carnicerías del mercado capitalista a precios especulativos. “Hasta cuatro
mil bolívares cuesta un kilo de carne actualmente, mientras que en este matadero
lo conseguimos por menos de la cuarta parte”, subrayó.
También se prevé instalar de una planta de procesamiento de subproductos
(sangre, huesos y otros) para generar insumos que sirvan para la elaboración de
alimentos balanceados para animales.
“Tenemos un alto potencial para desarrollar un proyecto integral de crecimiento
y atención al pueblo, con la venta directa de carne y la elaboración de diversos
insumos que pueden contribuir a impulsar el desarrollo agropecuario de nuestro
municipio y del estado, y hacia allá vamos”, concluyó Torres.
In
APORREA
http://www.aporrea.org/poderpopular/n291759.html
4/6/2016
sábado, 4 de junho de 2016
La fábrica textil Creciendo Juntas cumplió 5 años de autogestión
A pocos días de realizarse la marcha nacional "Ni Una Menos", desde la CNCT nos
parece oportuno promover una de las experiencias de fábricas recuperadas por
mujeres, que hace poco cumplió 5 años. Hoy son parte de la Red Textil y de la
CNCT.
--------------
Se cumple el quinto aniversario de la fábrica argentina téxtil Creciendo Juntas,
en plena crisis. En estos cinco años han conseguido mucho, y han mantenido los
empleos. Pero los problemas causados por la reciente apertura de importaciones
(descenso de las ventas, aumento de precios, etc.), sin políticas públicas de
apoyo, han afectado a todo el sector. Junto con otras empresas han reclamado
compromisos a las nuevas autoridades, hasta ahora con un resultado positivo.
Fue en 2011 cuando las 28 trabajadoras de las Industrias Textiles Zuco volvían
de las vacaciones y se encontraron con que el dueño se había ido y las había
dejado sin los aguinaldos, las vacaciones y la quincena. Entonces las mujeres no
se quedaron de brazos cruzados y se dispusieron a acampar en la puerta de la
fábrica. Dos meses después, sin respuestas, entraron en la empresa y se pusieron
a trabajar.
Elsa Vega, presidenta de la cooperativa, cuenta: “tuvimos que ingresar rompiendo
la cerradura con un cerrajero y después de cinco minutos teníamos a toda la
policía. Nos querían sacar por la fuerza. Resistimos, fue una tensión más o
menos de tres horas. Estuvimos ahí y no sabíamos qué iba a pasar hasta que
intervino la vicegobernadora”.
Fue allí que hicieron una asamblea en la calle, donde eligieron a las
autoridades y el nombre de la cooperativa: Creciendo Juntas, como símbolo de la
lucha y la autogestión.
“En ese momento éramos 28 mujeres que nos quedamos sin la fuente de trabajo,
pero solo 17 conformamos la cooperativa, porque algunas compañeras se fueron a
trabajar a otro lado” continúa Vega. “En ese momento fue difícil, pero hoy
tenemos constancia en el trabajo. Producimos unas 3.700 camisas por mes. Todavía
estamos confeccionando a fasón, pero también tenemos nuestra marca propia
Erría-Eguía, que significa Rioja tierra de pan, en vasco”.
Con el tiempo, la cooperativa se fue fortaleciendo gracias a la integración. Hoy
son parte de la Red Textil Cooperativa (RTC), a nivel nacional, integrada por
otras 70 cooperativas. Juntas, hace poco hicieron una jornada en la calle
pidiendo políticas públicas.
“Si bien nosotras tenemos trabajo, hoy la situación de las textiles es muy
crítica. La gente está sufriendo la falta de trabajo, el aumento del precio de
los servicios, la baja en la venta de productos y la falta de políticas públicas
de parte del gobierno provincial”, agrega Vega. “Cuando el nuevo gobierno abrió
las importaciones nos afectó no solo a las cooperativas, sino toda la industria
textil. Eso es algo de lo que estamos luchando junto a la RTC , movilizándonos y
juntándonos con las autoridades”.
Gracias a la presión las autoridades los recibieron y asumieron algunos
compromisos, como continuar con la confección de guardapolvos (indumentaria que
utilizan los escolares en las escuelas públicas argentinas) y avanzar en el
diálogo con el Ministerio de Seguridad para seguir haciendo la funda de los
chalecos antibala. Además, hablaron de cómo seguir con las políticas públicas.
Todavía siguen dialogando.
In
CNCT
http://www.cnct.org.ar/la-fabrica-textil-creciendo-juntas-cumplio-5-anos-de-autogestion
31/5/2016
sexta-feira, 3 de junho de 2016
Xadrez do desmanche nacional
Luis Nassif
Se algum historiador ou cientista político quiser um estudo de caso porque
países seguidamente perdem as janelas de oportunidade abertas pela história,
debruce-se sobre o Brasil.
Durante um breve período de tempo o país conquistou avanços inéditos. Avançou
nas formas de participação popular nas políticas públicas, definiu uma nova
estratégia diplomática, inovou em políticas sociais, industriais, na diplomacia
comercial.
No período Dilma foram abandonadas várias dessas iniciativas. Faltava à
presidente dimensão política para entender o alcance tanto da diplomacia quanto
das formas de participação.
Deixou de lado, mas não desmontou as políticas recebidas. Esta é a diferença
central em relação ao interino Michel Temer.
Mesmo sendo interino, o governo Temer está promovendo o maior desmanche de
políticas públicas da história. É uma nuvem de gafanhotos avançando sobre
qualquer grama à vista, em uma demonstração tão ostensiva de despreparo e
prepotência que lembra as mais atrasadas republiquetas latino-americanas.
A montagem de políticas públicas é trabalho de ourivesaria. Envolve segmentos
sociais e econômicos, definição de práticas, consolidação de valores, de
conceitos, abertura de canais de participação. Foi graças a esse trabalho
pertinaz que o país manteve a continuidade nas políticas de saúde, com a
apropriação da pasta por sanitaristas a partir da Constituinte; que avançou na
educação, na diplomacia, graças à continuidade de sucessivos governos.
De repente, entra um novo governo que se aboleta no poder e não dispõe de
quadros minimamente preparados sequer para entender os pontos centrais de cada
área.
Nem o Ministério do governo Sarney conseguiu acumular tal dose de ignorância
bruta. Ministros da Educação sem um pingo de conhecimento sobre a área;
chanceler totalmente jejuno em questões diplomáticas; Ministro da Casa Civil
empenhado em destruir qualquer organização que tenha o cheiro do governo
anterior.
Desmanche na Educação
O Fórum Nacional de Educação (FNE) foi um enorme avanço em políticas públicas.
Junta representantes de todos os setores, de sindicatos de professores a ONGs do
setor privado. Logrou uma mobilização ampla na Conferência Nacional de Educação
de 2010, mais de 800 mil pessoas definindo um conjunto de metas em todas as
áreas da educação.
Mal chegou ao cargo, o novo Ministro da Educação Mendonça Filho mandou demitir
todos os funcionários da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização,
Diversidade e Inclusão (Secadi) e oito da Secretaria Executiva.
Nem se preocupou em saber para quê servia a Secretaria, qual a relevância do
FNE. De uma penada, desmontou uma estrutura central para os avanços da educação
brasileira.
Fez mais. Hoje em dia há um trabalho grandioso de educação inclusiva, que
colocou na rede pública cerca de 800 mil alunos com alguma forma de deficiência.
Mendonça acaba de demitir todo o departamento que cuidava disso e anunciar a
volta das crianças para o redil das APAEs (Associações de Pais e Amigos dos
Excepcionais), cuja Federação se transformou em um enorme sorvedouro de dinheiro
público e cuja pedagogia (com exceção de poucas APAEs, como a de São Paulo) foi
condenada nos principais fóruns pedagógicos internacionais.
Desmanche na diplomacia
Levou anos para que a diplomacia brasileira assumisse um protagonismo maior no
cenário global. Foram décadas de trabalho profícuo, de montagem de alianças no
cipoal sutil e sofisticado da diplomacia internacional, onde entram as ligações
com os países vizinhos, as relações com os Estados Unidos, as estratégias para
consolidar o papel do Brasil no mundo, nas instituições multilaterais, e a
maneira a aproveitar da melhor forma possível esses avanços diplomáticos.
Nos últimos anos, o país logrou colocar um representante na OMC (Organização
Mundial do Comércio), outro na UNCTAD, na crise de 2008 liderou blocos
relevantes, o G20, os países exportadores agrícolas, os BRICs. Enfim, ganhou uma
dimensão e um protagonismo que não se via desde a Operação Panamericana, no
governo JK.
Aí José Serra assume a chancelaria. Criticava-se muito em Dilma o voluntarismo,
a maneira de interferir e travar temas sobre os quais não tinha nenhum
conhecimento mais aprofundado. Perto de Serra, Dilma é um poço de racionalidade
e flexibilidade.
Para se mostrar decidido, Serra toma qualquer decisão que passe à sua frente,
mesmo sem ter a menor ideia sobre as consequências. Faltam-lhe conhecimentos
básicos sobre diplomacia e, menos ainda, sobre estratégias diplomáticas.
Passou a tocar diplomacia de ouvido, repetindo bordões sobre acordos bilaterais,
sem entender que a própria posição do país nos organismos multilaterais
fortaleceria sua posição nas negociações bilaterais.
Bastou o diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, chamar sua atenção para a
possibilidade de atuar nas duas frentes, para Serra pegar a borduna e bater na
mesa, como um punk de periferia. Na mini reunião ministerial da OMC, acusou a
instituição de enfrentar o imobilismo, falhar em derrubar os subsídios e
barreiras sanitárias e fitossanitárias. E sinalizou que o Brasil poderia “tomar
outros caminhos”.
Serra regurgitava impropérios contra a OMC e os jornais divulgavam o fato da
China ter-se transformado no maior comprador de carne bovina brasileira. Motivo,
o extenso trabalho de derrubada das barreiras fitossanitárias empreendido pelo
governo Dilma, através da Ministra da Agricultura Kátia Abreu. E não apenas na
China, mas em todo o mundo.
Enquanto Serra submetia os demais ministros presentes ao encontro a um esforço
ingente para disfarçar o choque com tal demonstração de ignorância, nos
bastidores seus assessores diziam para os jornalistas não levar a sério a
bazófia: não haveria hipótese de desligamento da OMC. Vai discutir subsídio
agrícola onde? Na Mooca? No Ceasa?
Não apenas isso. Não conseguiu entender a importância da África para o país, o
espaço que se abre para o agronegócio e para as construtoras brasileiras.
Desmanche na EBC
A maneira como o Ministro-Chefe da Casa Civil Eliseu Padilha investiu contra a
EBC é a demonstração cabal de que a lei... ora a lei.
Graças ao Ministro Dias Toffoli, a lei foi restabelecida. E é surpreendente a
maneira como foi recebido o voto de Toffoli. Em qualquer circunstância, seria
mais do que óbvio, visto que o interino recorreu a uma Medida Provisória para
intervir em uma fundação cuja autonomia é garantida por lei.
Mas os tempos são tão bicudos, é tão precário o conceito de segurança jurídica,
que a decisão de Toffoli configurou-se um ato de coragem e a primeira prova da
independência do Supremo em relação ao governo interino.
No final do dia, corriam os boatos que, em represália, Padilha faria Temer
encaminhar um projeto de lei propondo a extinção da EBC.
A segurança jurídica
A desenvoltura com que o governo interino se lançou na missão de destruir tudo o
que lembrasse o governo de fato é a demonstração mais cabal da insegurança
jurídica do país e da anomia absoluta do Supremo.
O novo normal jurídico criou um arremedo de civilização, um retrocesso como não
se imaginaria alguns anos atrás.
1. Tira-se uma presidente do órgão por questões orçamentárias, atropelando
tudo o que é previsto na Constituição.
2. Um interino assume e desmonta toda uma estrutura pública sem ao menos se
ter a certeza de que permanecerá além dos 180 dias do interinato.
3. Procuradores e delegados transformam os inquéritos em julgamentos
políticos, selecionando as vítimas e vazando informações antes mesmo que a
defesa dos acusados seja comunicada.
4. Um Ministro do Supremo – Gilmar Mendes – manifesta diuturnamente suas
preferências políticas, decide de acordo com suas convicções políticas, sem ao
menos manter a congruência de seus próprios votos, e nada ocorre. Não é
declarado suspeito.
Não tem como evitar um profundo sentimento de vergonha quando se observa a que
foram reduzidas as instituições brasileiras.
In
GGN
http://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-do-desmanche-nacional
3/6/2016
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