segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
O mundo arde enquanto a esquerda ocidental anda em querelas
por Andre Vltchek [*]
É realmente uma vergonha, e cansativo, mas na verdade não há nada de
novo: na actual desordem entre os inúmeros "progressistas"' e intelectuais
"semi-esquerda", publicações, movimentos e partidos políticos do ocidente.
Covardia, egos enfatuados, falta de disciplina e mesquinhez intelectual
são muitas vezes culpados, mas isto não é tudo.
Agora é absolutamente claro que a esquerda ocidental perdeu, de modo
evidente e vergonhoso. Não tem quase nenhum poder, não tem coragem para
lutar ou assumir riscos, e não dispõe de seguimento político real na
Europa, América do Norte, Austrália ou Nova Zelândia. "As massas", aquelas
proverbiais "massas oprimidas", ultimamente têm votado e eleito vários
populistas semi-fascistas, demagogos de direita sem desculpas e
pró-oligarcas estúpidos.
Todas as "certezas teóricas" marxistas têm estado a desmoronar-se diante
dos nossos olhos, pelo menos no ocidente.
Em grande medida, o que agora acontece é absolutamente natural. A
esquerda europeia traiu, já nos anos 80 do século passado, tornando-se
demasiado maleável, demasiado indisciplinada, demasiado cautelosa e
demasiado centrada em si própria. Colocou o pragmatismo acima dos ideais.
Rapidamente adoptou o léxico do establishment liberal, completado com as
concepções ocidentais de direitos humanos, princípios democráticos e
correcção política. Deixou de ser revolucionária; no essencial cessou
toda actividade revolucionária e abandonou o elemento central de qualquer
verdadeira identidade de esquerda – o internacionalismo.
Sem pelo menos alguns princípios internacionalistas básicos, a esquerda
está agora reduzida essencialmente a algum sindicalismo de nível local:
"Deixem-nos lutar por melhores condições de trabalho e cuidados de saúde
no nosso país e que se dane isso da pilhagem neocolonialista do mundo, que
se espera poder pagar a maior parte dos nossos benefícios. Enquanto nós
comermos bem e tivermos férias prolongadas, por que nos deveríamos
revoltar, por que deveríamos lutar?"
A esquerda do ocidente também falhou em se referir honestamente à
História global, em particular ao papel que a Europa e América do Norte
têm desempenhado. Muitos dos chamados pensadores "progressistas"
ocidentais no fundamental adoptaram as interpretações da retórica
imperialista e revanchista de vários acontecimentos históricos essenciais,
tornando-se portanto eles próprios "anticomunistas".
Depois disso, quase tudo foi perdido, foi por água abaixo.
Bandeiras revolucionárias foram queimadas, pelo menos metaforicamente.
Boas velhas palavras de ordem foram descartadas. Então, em vez de
marchas, manifestações e confrontos com as autoridades que representam o
regime, rapidamente cada vez mais confortáveis sofás frente aos mais
recentes televisores de alta definição encheram-se com milhões de corpos
flácidos excessivamente acomodados.
Agora desencadeiam-se lutas torpes sobre um bolo em contracção. Teóricos
trotskistas e maoístas atiram-se às gargantas uns dos outros. Há também
leninistas e outros, muitos outros.
As coisas ainda foram mais longe: por estes dias, no Ocidente, a maior
parte dos "progressistas" adopta uma "agenda dos acontecimentos
correntes", recusando comprometer-se de alma e coração com qualquer coisa
maior. Esta posição está cada vez mais em voga e essencialmente proclama:
"Tenho minha própria filosofia. Não preciso de absolutamente nenhuma
ideologia".
Nenhuma revolução foi ganha desta forma. Mas no Ocidente, não há qualquer
desejo de verdadeira revolução. Pertencer à esquerda é sobretudo apenas
uma pose, com uma conta num site de media social e uma selfie. Não é
sério e não pretende sê-lo.
Há, naturalmente, anarco-sindicalistas com seu ar de superioridade e
teorias sublimes que seriam totalmente rejeitadas e ridicularizadas pela
grande maioria dos povos verdadeiramente oprimidos em lugares como a Ásia
ou a África.
Ultimamente, nem mesmo sei mais quem é quem, nesse pequeno e
insignificante mundo. Não o estou seguindo, dificilmente participo em
discussões teóricas.
Escrevo, usando basicamente apenas duas publicações como minha
plataforma, a partir dos quais a minha escrita vai para o mundo, em
vários idiomas.
Mas esse "pequeno e mesquinho mundo" obviamente está a seguir-me. E não
gosta do que ele vê.
Depois de haver publicado cerca de 300 ensaios nos últimos sete ou oito
anos numa das mais importantes publicações do ocidente (na verdade não
quero dizer o nome da publicação, mas a maior dos meus leitores certamente
sabe de qual estou a falar), fui literalmente atirado fora no final de
2017. Nunca descobri a verdadeira razão, mas muito provavelmente foi
devido às minhas convicções "demasiado à esquerda" e demasiado
anti-ocidentais, de retórica demasiado aberta. E, sim, havia na verdade
uma indicação: os editores não gostavam que eu escrevesse para "media
russos apoiados pelo Estado", os quais por sua vez têm algumas ligações a
sites alegadamente da esquerda radical nos EUA.
Aos olhos dos anticomunistas, que se guiam pela agenda dos meios de
comunicação ocidentais, qualquer media "patrocinado pelo Estado"' ou
"controlado pelo Estado" é mau, muito mau!
Mesmo que pertença a países que estão lutando heroicamente contra o
imperialismo ocidental, tentando salvar o nosso Planeta. Ou talvez seja
considerado particularmente mau se se pertencer a tais países. O que
obviamente se aplica aos meios de comunicação chineses, russos, cubanos,
venezuelanos ou iranianos. Em resumo – aplica-se a todos os media que em
todo o mundo lutam para impedir que se verifique o monstruoso destino
preparado pelo imperialismo ocidental; aos media que combatem com empenho
e com (ultimamente) tremendo êxito.
Ao invés de obedientemente esperar pela direita ou pela esquerda do
ocidente a fim de definir o mundo, agora os chineses, russos,
latino-americanos e os povos do Médio Oriente estão de súbito a
atreverem-se a redefinir os acontecimentos que acontecem neste planeta.
Eles entrevistam os próprios ocidentais, reflectindo aqueles monstros em
que se tornaram as sociedades europeia e norte-americana.
Ao invés daquele "nobre" "olhem o que estamos a fazer pelo o mundo", as
verdadeiras vítimas, mas também os verdadeiros revolucionários estão a
liderar debates apaixonados.
Ao invés de alguns professores doutorados debaterem em Londres sobre se a
China é verdadeiramente comunista ou não, agora é o povo chinês a falar,
esclarecendo o que seu país é e não é.
E a esquerda do ocidente não gosta. É claro que não gosta absolutamente
nada de tais desenvolvimentos.
A esquerda do ocidente "não gosta de quaisquer media patrocinados pelo
Estado". Não gosta quando outros falam. Bem, pode ser ainda mais profundo
do que isto: parece que efectivamente realmente não gostam de quem
realmente está a lutar e de quem está a ganhar: " não gostam da esquerda
que realmente se mantém no poder"
Porque a esquerda no ocidente é muito mais parte do ocidente do que
da esquerda.
Porque bem lá no fundo, está confortável e mesmo obcecada com a sua
excepcionalidade.
Porque apesar de horríveis séculos de pilhagem imperialista e
colonialista do mundo pela Europa e América do Norte, realmente não
acredita que os crimes foram cometidos por causa da cultura ocidental e
do seu modo de pensar.
Porque, no fundo, realmente não acham que as nações não-ocidentais, os
seus media e pensadores sejam capazes de definir e descrever o mundo com
precisão ou até mesmo descrever os seus próprios países com precisão. Os
media não-ocidentais simplesmente não podem e não devem ser de confiança.
Só os intelectuais ocidentais têm o direito herdado para tomar decisões
plenamente qualificadas sobre temas tão importantes como: se China é
comunista ou não, se a Rússia sob o presidente Putin é um país
progressista ou não, se o Irão é socialista ou apenas um brutal Estado
religioso, se o governo de Assad é "legítimo", se a liderança
norte-coreana é "louca" ou se o presidente Maduro da Venezuela "foi longe
demais".
Quando o mundo finalmente se prepara para se defender contra as
inevitáveis agressões ocidentais, quando os povos da Ásia, Rússia,
América Latina, África e Médio Oriente estão a descobrir as suas próprias
vozes silenciadas durante séculos pela barbárie colonialista, quando os
governos desses países estão a tornar possíveis tais plataformas de
discussão, a esquerda ocidental uiva para a lua, batendo no peito em
gestos de arrogante narcisismo e basicamente insulta aqueles que estão a
lutar, a manter-se de pé, a construir um mundo muito melhor e, sim, –
governando!
Em vários países da América do Sul, a esquerda foi recentemente derrotada
precisamente porque foi demasiado influenciada "ideologicamente" (ou mais
precisamente, "anti-ideologicamente") por aqueles fracos, obsoletos e
super-cautelosos pseudo-revolucionários ocidentais. Os povos
latino-americanos não deveriam cometer semelhantes erros no futuro e
esperançosamente não os cometerão.
Nenhum país revolucionário pode visar a perfeição, por enquanto. A
Revolução não é um mar de rosas, disse Fidel. Defender o país contra
invasões estrangeiras brutais não é uma coisa gentil: é extremamente
confuso e sangrento.
A esquerda fraca e de pele fina do ocidente pode exigir dos governos
revolucionários não-ocidentais tanto "pureza" como uma "abordagem com
luvas de seda", simplesmente porque não tem ideia (ou não se importa) do
que é governar países em que milhões de homens, mulheres e crianças foram
obrigados a viver na miséria absoluta, depois de serem roubados de tudo
por europeus e norte americanos condutores de escravos. Um simples erro
que esses governos façam, um sinal de fraqueza e os seus países irão
esfumar-se, acabar em ruínas, no esquecimento: como o Iraque, o
Afeganistão, a Rússia de Yeltsin, ou a China durante o "século da
humilhação".
O "excesso de sensibilidade" da esquerda ocidental é na verdade apenas
uma fachada, não é real.
Apenas como exemplo: os editores da revista acima mencionada, a qual
tão sem cerimónia deixaram de publicar meus trabalhos, nunca demonstraram
qualquer interesse no meu bem-estar ou segurança. Acho que se caísse
morto numa das zonas de guerra que cobri, eles mal notavam. Artigos e
ensaios assinados por mim iriam simplesmente deixar de vir. Afinal, toda a
gente é substituível. Oferecer apoio qualquer estaria abaixo de sua
dignidade. Mas pedir regularmente apoio financeiro ao leitor nunca esteve.
Os meios de comunicação nos países revolucionários "patrocinados pelo
Estado" tratam o seu pessoal de forma diferente. Pelo menos alguns assim o
fazem.
E a querela continua. Perdi o interesse nos pormenores. É muito
consumidor e tempo e irrelevante.
Entretanto, sinto-me mais confortável escrevendo para esses altivos
media, de todo o mundo, editados longe do ocidente. Gosto quando os meus
camaradas estão a fortalecer-se, quando estão a vencer. Quero que eles
governem e governem bem. E quero que os seus países sobrevivam.
As coisas são tão simples como isso!
É uma grande honra mostrar meus filmes na TeleSur e Al-Mayadeen,
escrever para a New Eastern Outlook, China Daily, Countercurrents, Global
Research e Russia Today. E gosto de aparecer ao vivo, regularmente, na
PressTV iraniana. Sinto que cada palavra que escrevo e emito através
desses meios de comunicação se destina aos meus amigos, aos meus
camaradas, pela nossa luta e por um mundo muito melhor.
E deixem-me repetir: Quero que meus amigos e camaradas vençam, tenham
êxito e, sim, governem!
A esquerda ocidental pode continuar a querelar e mastigar-se: " Quem
disse o quê? Quem é realmente de esquerda e quem não é? Quem é marxista
puro e quem é simplesmente um social-democrata?"
Nem todos os media da esquerda ocidental são como o acima descrito.
Ainda existem alguns maravilhosos escritores e editores no ocidente. Mas a
situação geral na Europa e América do Norte está a deteriorar-se.
A governação e a luta revolucionária e internacionalista da esquerda nos
países independentes geralmente não tem tempo para debates sublimes. Temos
Moscovo, Pequim, Caracas, Havana, La Paz, Damasco e muitas outras cidades
maravilhosas às nossas costas – para defender. Lidaremos com a teoria mais
tarde, muito mais tarde, depois de vencermos, depois de haver verdadeira
paz, acompanhada por justiça, depois todos nós neste planeta podemos nos
orgulhar do que realmente somos – nós próprios e definidos por nós
próprios!
[*] Filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu
guerras e conflitos em dezenas de países. Três de seus livros mais
recentes são o romance revolucionário Aurora e dois best-sellers de
não-ficção política: Exposing Lies of The Empire e Fighting Against
Western Imperialism . Vltchek actualmente reside no sudeste da Ásia e no
Médio Oriente e continua a trabalhar em todo o mundo. Pode ser
contactado através do seu sítio web e do seu Twitter
O original encontra-se em New Eastern Outlook ,
www.globalresearch.ca/...
e em www.informationclearinghouse.info/48728.htm
In
RESISTIR.INFO
http://resistir.info/crise/o_mundo_arde.html
12/2/2018
sábado, 10 de fevereiro de 2018
Contra o entreguismo. Pelo Brasil primeiro! Requião convoca os brasileiros à luta pela soberania.
Na primeira sessão do Senado de 2018, nesta segunda-feira (5), o senador Roberto
analisou a realidade do país hoje, mostrou a falácia da cobertura da mídia, que
revela uma visão distorcida dos fatos, e convocou os brasileiros à batalha pela
reconquista da soberania nacional, a estar com do lado da Pátria, do Povo, ou se
arrepender.
O senador divulgou ainda um texto do professor Maurício Abdala, da Universidade
Federal do Espírito Santo, publicado no jornal “Le Monde Diplomatique”, que
mostra quem são e como agem os donos do poder.
Brasileiros, tomemos consciência: na luta final pela soberania, só tememos a
desonra
Há tempo que a ciência e os fatos da vida comprovam que nada é por acaso.
No entanto, embora a ideia medieval da abiogênese, a “geração espontânea”, seja
a representação paradigmática daqueles tempos trevosos, ainda hoje a proposição
do espontaneísmo resiste e é amplamente aceita, quando se trata da política ou
mesmo da economia.
Diariamente, a mídia empresarial espalha a intrujice de que do acúmulo de lixo
nascem insetos e ratos, que é possível originar vida de matéria não viva.
Se Humberto Eco foi assertivo ao dizer que a internet liberou infindáveis
legiões de néscios, ele esqueceu de acrescentar à turma os comentaristas e ditos
analistas de política e economia que infestam as televisões, rádios e jornais da
mídia comercial e monopolista.
É notável a incapacidade de raciocinar, de somar dois com dois.
Gramsci dizia que não existe o canalha absoluto, que o canalha absoluto é uma
criação ficcional.
Essa generosidade do filósofo que sofreu no corpo debilitado os horrores do
fascismo sempre me impressionou.
Então, se concedemos que nem todos sejam canalhas plenos, integrais, resta outra
suposição: a burrice córnea.
A ceratina penetrou de tal forma na cabeça dessa gente que as tornou duras,
resistentes, impermeáveis à verdade dos fatos.
Se, ato contínuo à ampliação de nosso mar territorial de 12 para 200 milhas
marítimas, em 1970, sob Garrastazu Médici, os norte-americanos movimentam sua IV
Frota — por mais que o governo militar fosse um aliado incondicional– não o
fazem para competir com os franceses na pesca da lagosta.
Se, sob Ernesto Geisel, em 1975, de repente, os Estados Unidos tornam-se
guardiões dos direitos humanos e pressionam a ditadura brasileira, não é porque
a tortura, os assassinatos, o desaparecimento de opositores os preocupassem, e
sim os acordos nucleares do Brasil com a Alemanha.
Mais recentemente, quando os norte-americanos grampeiam a presidente Dilma,
monitoram suas conversas, perscrutam suas decisões e controlam sua comunicação
com ministros, auxiliares e políticos, não estão à procura da receita de sua
dieta para emagrecer.
Quando os serviços de espionagem dos Estados Unidos invadem, vasculham, devassam
todas as informações da Petrobrás, não são os Cerveró, os Duque, os Paulo
Roberto Costa, os Youssef, os Barusco ou os Sérgio Machado que os mobilizam.
A corrupção é um segredo de polichinelo, o pré-sal o prêmio.
Se, antigamente, a Escola das Américas era o centro formador dos torturadores,
dos assassinos estatais, dos sabotadores dos governos populares e nacionalistas,
hoje, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, em cooperação com o FBI, a
CIA, a NSA, encarrega-se de seduzir, domesticar e abduzir juízes, procuradores e
policias. E políticos é claro.
A produção de cabos Anselmo não foi interrompida, sofisticaram-se os meios e os
métodos. Ao invés dos sicários a soldo, temos os heróis de almanaques.
Os super-juízes, os super-procuradores, e, como contrafação, já que nenhuma
exageração escapa do ridículo, temos o japonês da federal. E o coreano do MBL.
Quando o presidente Lula sanciona, em 2010, a Lei da Ficha Limpa e a presidente
Dilma, em 2013, assina a Lei das Organizações Criminosas, disciplinando a
delação premiada; quando se desequilibra a harmonia entre os poderes, e
produz-se a hipertrofia do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia
Federal; quando o presidencialismo de coalizão cede a um Parlamento que se
transformou em mandalete dos financiadores de campanha; quando o presidente Lula
coloca no Banco Central e no Ministério da Fazenda homens de confiança do
mercado financeiro; quando a presidente Dilma, na crise política após as
jornadas de 2013 e a eleição de 2014, adota políticas neoliberais, aprofundando
a crise; quando tanto um como outro presidentes constrangem-se diante das
pressões da mídia monopolista e comercial e fogem de adotar aqui as mesmas
legislações que os norte-americanos e alguns países europeus adotaram para
democratizar os meios de comunicação; quando tudo isso somado produz um salto
qualitativo, temos o golpe e seu corolário de horrores: a alienação da soberania
nacional, a entrega do petróleo, dos minérios, das terras, da água, a destruição
da República Social, a sabotagem da Petrobrás, as privatizações. E o
aceleramento da marcha da desindustrialização e da precarização da ciência e da
tecnologia.
Na divisão internacional do trabalho é o papel que nos reservam: celeiro do
mundo, exportador de grãos e de matérias primas minerais, fornecedor de
petróleo. E de água! Afinal, vimos em Davos a Nestle e a Coca- Cola renovarem a
cobiça pelo aquífero Guarani, uma das maiores reservas de água doce do planeta.
Senhoras e senhores, esses são os fatos da realidade. Essa é a verdade que os
fatos revelam, por mais que o cinismo e a estultícia da grande mídia tentem
perverter e adulterar a natureza das coisas.
Como antídoto para o massacre diário do discurso antinacional, antidemocrático e
antipopular que se estabeleceu no país, quero oferecer um texto do professor de
Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo, Maurício Abdala, publicado
no “Le Monde Diplomatique”.
Os 13 pontos do professor Abdala são uma leitura necessária para quem ama o
Brasil e acredita que ainda é possível vencer esses tempos tão sinistros da
nossa história.
Vamos ao contraveneno às sandices daqueles que acreditam que do lixo que
produzem é possível brotar alguma vida.
Vamos lá.
1 – O foco do poder não está na política, mas na economia. Quem comanda a
sociedade é o complexo financeiro-empresarial com dimensões globais e
conformações específicas locais.
2 – Os donos do poder não são os políticos. Estes são apenas instrumentos dos
verdadeiros donos do poder.
3 – O verdadeiro exercício do poder é invisível. O que vemos, na verdade, é a
construção planejada de uma narrativa fantasiosa com aparência de realidade para
criar a sensação de participação consciente e cidadã dos que se informam pelos
meios de comunicação tradicionais.
4 – Os grandes meios de comunicação não se constituem mais em órgãos de
“imprensa”, ou seja, instituições autônomas, cujo objeto é a notícia, e que
podem ser independentes ou, eventualmente, compradas ou cooptadas por
interesses. Eles são, atualmente, grandes conglomerados econômicos que também
compõem o complexo financeiro-empresarial que comanda o poder invisível.
Portanto, participam do exercício invisível do poder utilizando seus recursos
de formação de consciência e opinião.
5 – Os donos do poder não apoiam partidos ou políticos específicos. Sua tática é
apoiar quem lhes convém e destruir quem lhes estorva. Isso muda de acordo com a
conjuntura. O exercício real do poder não tem partido e sua única ideologia é a
supremacia do mercado e do lucro.
6 – O complexo financeiro-empresarial global pode apostar ora em Lula, ora em um
político do PSDB, ora em Temer, ora em um aventureiro qualquer da política. E
pode destruir qualquer um desses de acordo com sua conveniência.
7 – Por isso, o exercício do poder no campo subjetivo, responsabilidade da mídia
corporativa, em um momento demoniza Lula, em outro Dilma, e logo depois Cunha,
Temer, Aécio, etc. Tudo faz parte de um grande jogo estratégico com cuidadosas
análises das condições objetivas e subjetivas da conjuntura.
8 – O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste
nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção é tornar as leis e
a administração do país totalmente favoráveis para suas metas de maximização dos
lucros.
9 – Assim, os donos do poder não querem um governo ou outro à toa: eles querem,
na conjuntura atual, a reforma na previdência, o fim das leis trabalhistas, a
manutenção do congelamento do orçamento primário, os cortes de gastos sociais
para o serviço da dívida, as privatizações e o alívio dos tributos para os mais
ricos.
10 – Se a conjuntura indicar que Temer não é o melhor para isso, não hesitarão
em rifá-lo. A única coisa que não querem é que o povo brasileiro decida sobre o
destino de seu país.
11 – Portanto, cada notícia é um lance no jogo. Cada escândalo é um movimento
tático. Analisar a conjuntura não é ler notícia. É especular sobre a estratégia
que justifica cada movimento tático do complexo financeiro-empresarial (do qual
a mídia faz parte), para poder reagir também de maneira estratégica.
12 – A queda de Temer pode ser uma coisa boa. Mas é um movimento tático em uma
estratégia mais ampla de quem comanda o poder. O que realmente importa é o que
virá depois.
13 – Lembremo-nos: eles são mais espertos. Por isso estão no poder.
Senhoras e senhores, Brasileiros, os pressupostos estão aí. Mas essa
compreensão incisiva da realidade obriga-nos um passo seguinte: a ação.
Depois que Hitler invadiu a França, despojando-a de sua soberania, anulando-a
como nação, Charles de Gaulle chamou seus compatriotas à resistência, acima dos
interesses de cada um. O que estava em jogo era a existência do país, seus
valores, suas tradições, suas crenças, sua identidade.
Até mesmo os contrabandistas que tão bem conheciam as fronteiras da França, até
eles foram convocados à grande tarefa de libertação do país.
Não estou insinuando que, no caso da grande tarefa de libertação do Brasil, até
corruptos devam ser convocados, mesmo porque boa parte deles estão de papo para
o ar, refestelados nos milhões com que foram premiados pela delação.
Convoco os homens e as mulheres que amam este país, que abominam a corrupção e o
entreguismo.
Que rejeitam ser escravos do dinheiro; que não aceitam a prevalência do capital
financeiro sobre o capital produtivo.
Que não querem ver esse país tão rico transformado em uma plantation colonial, a
ofertar ao mundo desenvolvido grãos, minérios, petróleo, terras e água.
Que não querem ver os nossos trabalhadores transformados em mão de obra
semiescravizada, para o desfrute global.
Com Shakespeare e Henrique V, antes da batalha de Agincourt, encerro dizendo:
aqui estão os brasileiros que deviam estar. E os que não estiverem vão se
arrepender até o fim de suas vidas não terem estado conosco.
Nada temos a perder, pois o que tínhamos está sendo surrupiado, desbaratado e
vendido a preço de banana pelos entreguistas do Brasil, com a prestimosa
colaboração de alguns tolos que se arvoram em heróis da pátria.
In
DINÂMICA GLOBAL
https://dinamicaglobal.wordpress.com/2018/02/07/contra-o-entreguismo-pelo-brasil-primeiro-requiao-convoca-os-brasileiros-a-luta-pela-soberania/
7/2/2018
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
Vice-presidente da Bolívia avalia experiência do governo de Evo Morales no país
Álvaro Garcia Linera: “Processos de distribuição social da riqueza têm de vir
acompanhados de democratização social"
Daniel Araújo Valença e Ilana Lemos de Paiva*
Linera se construiu como um dos maiores marxistas do continente e do mundo e se
debruça sobre as condições concretas de vida das pessoas / Reprodução
Em 2006, Álvaro García Linera tornava-se vice-presidente da Bolívia para, ao
lado de Evo Morales, buscar transformar aquele país, o mais pobre da América do
Sul. Linera se construiu como um dos maiores marxistas do continente e do mundo
e se debruça sobre as condições concretas de vida das pessoas e de como é
possível mobilizá-las para a transformação social.
Não se trata, portanto, de estudar as categorias do marxismo por si mesmas; nem
de exercer o poder político pelo mero exercício, mas de refletir sobre os erros
e acertos das esquerdas latino-americanas nestas últimas décadas. O que ocorre
no continente para explicar esse avanço conservador? O que fazer? Estas são
algumas das respostas que Linera ajuda a desvendar, em uma entrevista realizada
na Vice-Presidência da Bolívia cujo alguns trechos você lê abaixo e aqui pode
ler na íntegra.
Brasil de Fato: Vice-presidente, pode nos falar um pouco sobre o que se passou
aqui na Bolívia nestes 10 anos de governo indígena-camponês-popular?
Álvaro García Linera: A Bolívia tem atravessado um processo revolucionário que
mudou sua estrutura social, sua estrutura estatal e a organização econômica da
sociedade. De uma maneira tal que, em muitos aspectos, a Bolívia contemporânea é
muito diferente da Bolívia que conhecíamos décadas atrás. Hoje, os índios
governam a Bolívia. Não o fazem sozinhos, fazem-no articulando outros setores
sociais, mas construíram um poder.
A indianitud deixou de ser um elemento de desvaloração para transformar-se em um
elemento de valoração social. Em termos sociológicos, o capital étnico, ou seja,
a cor da pele, o sobrenome, as roupas, o idioma foram enfraquecidos como
mecanismo de enclassamento social. Quem sabe este tenha sido o feito mais
importante da sociedade boliviana, esta modificação de ordem simbólica.
Em seus escritos, o senhor sempre faz referência à indianização do estado
boliviano. Gostaria que falasse um pouco sobre isso. Há quem diga que a
Constituição da Colômbia, de 1991, é um prenúncio da boliviana porque há
previsão de direitos indígenas.
As constituições latino-americanas, como a colombiana, são uma derivação do
multiculturalismo, que é o reconhecimento dos povos indígenas enquanto minorias
protegidas pelo Estado, estando este sob condução de outros setores sociais
diferentes aos indígenas. É o que ocorreu na maior parte dos países da América
Latina. O que houve na Bolívia foi um movimento duplo. O reconhecimento dos
direitos dos povos indígenas como nações, com estrutura identitária e histórica
própria, com direito a exercer o seu idioma, os seus sistemas educativos, suas
narrativas e instituições próprias.
E segundo: em nossa experiência, o sujeito que reconhece o direito dos povos
indígenas é um sujeito indígena. Em outros casos, os sujeitos reconhecidos são
os indígenas e o sujeito que reconhece são os não-indígenas, como maioria. E
aqui isso se inverte. Isso é a indianização do Estado. Como se traduz? Os
indígenas se transformam em sujeito decisório das políticas públicas do país:
definição de investimentos, de horizontes, de projetos. Tomada de decisões
fundamentais do Estado e do governo passam por esse sujeito indígena originário
campesino.
Há também vários de seus escritos, principalmente os da década passada, em que o
senhor fala sobre o encontro entre o indianismo e a classe, o marxismo e o
indianismo.
A grande virtude do indianismo foi que deu visibilidade, como nunca antes, ao
fato de que a organização da sociedade fundada em identidades étnicas – cor da
pele, sobrenomes, vestimenta – era o fundamento da conquista colonial e que
atravessava todo o ordenamento da sociedade boliviana. Isso significava que não
havia classe no sentido econômico do termo? Não, claro que havia, mas o mais
interessante é que isso possuía um tipo de isomorfismo. Se você sabia a cor da
pele de uma pessoa, sabia qual era o seu ofício. Com um agravante: que podia
procurar ter outra profissão, mas se a sua cor de pele, sobrenome ou idioma lhe
denunciasse, seu esforço por enquadrar-se economicamente falhava, porque
continuava a ser um índio.
Isto quer dizer que a divisão da sociedade por trabalho, por propriedade, era
similar à divisão da sociedade por identidades étnicas, com o agravante de que
era a identidade étnica que dirigia o trabalho. Sua possibilidade de ascender
socialmente não dependia fundamentalmente de seu trabalho, dependia da sua
etnicidade, dependia de sua branquitude social. E vice e versa: eras pobre e não
tinha trabalho, nem propriedade, mas se tivesse a branquitude social, isso lhe
permitia um ascenso.
Isso o marxismo não podia entender, pois o marxismo se pôs a estudar a divisão
das classes sociais por ofícios e por propriedade. O marxismo tinha uma vontade
de poder, mas como não conseguia realmente entender a estrutura real de classes,
não tinha capacidade de mobilização ou de compreensão. O indianismo tinha
capacidade de mobilização - não de mobilização social -, mas de despertar
ético-moral da sociedade, mas não tinha vontade de poder, porque tudo era apenas
uma denúncia.
A forma que eu encontrei de articulação é: a etnicidade é um capital a mais, é
um bem monopolizável que permite que você ascenda ou descenda socialmente, como
pode ser o salário, como podem ser os vínculos sociais, como pode ser a
propriedade. Então, na abordagem marxista, temos que as classes sociais se
constituem, e, de fato, a etnicidade é uma forma de enclassamento social, é uma
forma de construção histórica das classes sociais, que convém trabalhar em sua
particularidade.
Tem que estar atento a qual é a identidade que lhe permite adicionar um vínculo
coletivo frente a um adversário, e a identidade que serviu, no caso da Bolívia,
porque estava ali, foi a identidade étnica. O marxismo na Bolívia, de alguma
maneira, enriqueceu-se com o indianismo. Aqui se deu “alma local”,
territorialidade, raiz, e segue funcionando.
O esquema marxista das classes sociais funciona, mas não é entendida como:
‘temos aqui a classe operária. Vamos ver quem são e os coloco numa caixa. Quem é
a pequena burguesia? E os coloco em uma caixa’. Deve-se ir pelo caminho reverso.
Deve-se analisar como se constituem as classes sociais hoje, para então dizer:
‘esses são os sujeitos’.
Terás invertido a ordem do procedimento para falar sobre as classes sociais. O
que temos que ver é como são construídas as classificações, onde está o efeito
eficiente das classificações, qual a base para a distinção, em torno de que
princípios se diferenciam na prática, antes de dizer que se tem que diferenciar
pelos papéis desempenhados na produção.
É possível que isso não seja o decisivo. Veja primeiro como as pessoas estão
lutando e, em função de como lutam, por bens, por discursos, por propriedades,
por salários, por identidades, então podemos identificar as classes sociais,
emergentes dessas lutas de classes.
Em 2012, o senhor escreveu um livro chamado Tensiones Creativas de la
Revolución. Quais seriam as tensões de hoje, com a mudança de correlação de
forças no continente? Existem novos cenários?
O primeiro tema [deste livro] era Democracia x Estado ou Movimentos sociais x
Estado. Isso foi abordado por Lênin, do seu modo. Estado é monopólio. Movimentos
sociais é democracia. Agora, temos que optar, por qual? Se optas pela
democracia, perfeito, maior participação, mas perdes a centralização de poder
frente aos seus adversários. Se optares por maior poder, perfeito, terás como se
defender, mas não vai se diferenciar em nada de um Estado capitalista, porque
terás perdido o fundamento de qualquer revolução social: o democrático, o
participativo. É uma contradição. Não há solução.
questão da revolução é que tens que viver a contradição, assumir a contradição.
Em uns momentos aumento um pouco mais aqui, em outros um pouco mais ali, mas
nunca poderás perder nenhum dos dois, ad infinitum. Não é um ou outro. São os
dois. Mas é uma contradição? Sim. O futuro é uma contradição viva.
O segundo tema é [privilegiar] “sua base social ou irradiar-se”? O problema da
Dilma [Rousseff]. Irradio-me para manter a hegemonia e incorporo aos outros,
porque se não incorporas aos outros, eles vão te golpear. Mas até que ponto e
como os incorpora? Se incorporar demais, te engolem. Se os incorpora como bloco,
unificados, vão te destruir, porque nunca vão estar satisfeitos com você.
Suportam-te, sorriem-te, porque tens o poder, mas no momento em que tiver uma
fissura no poder, vão abri-la até te destruir, como aconteceu no Brasil.
Mas se te restringes ao teu núcleo duro também perdes em termos de hegemonia, e
então permites que outras forças articulem quem você não articulou, e te
asfixiam. Então, qual é a saída? Jogar com os dois. Em alguns momentos me
expando, em outros me retraio. Podes expandir quando tens maior capacidade
econômica redistributiva.
Mas quando os recursos se tornam escassos, tens que se retrair e se apegar ao
teu único núcleo que será o que vai te defender. Empresários e classe média
nunca sairão às ruas para defender índios e trabalhadores. Quando tens que
dividir o pouco, por quem deves optar? Pelos teus. Essa é nossa experiência. E
quando viola esta regra, perde tua base. Quando tens pouco e opta pelos outros,
que não pelos teus, perdes tua base e os que supostamente iriam te apoiar, não o
farão. Vão ver que perdeste tua base e vão te esmagar. É como uma regra.
A terceira tensão era a questão social e o meio ambiente. Se somente proteges a
“Mãe Terra”, que é tua base indígena, perfeito, mas se não tens como alimentar o
povo, como construir um colégio, ou garantir a saúde, essas pessoas irão “cair
em cima” de ti e reclamar onde está sua escola e seu hospital, e vai votar por
quem promete a escola, o hospital, a rodovia ou um salário melhor. Mas, se
somente se dedicas a isto, deixando de lado políticas de proteção do meio
ambiente, então simplesmente estás assumindo um caminho no sentido de um Estado
de bem-estar, desenvolvimentista, extrativista, já terás abandonado esta meta
comunitário-comunista, esta nova forma de encontro metabólico entre natureza e
ser humano. Então, em meus textos, digo-lhes que há sempre que caminhar com os
dois.
Em qualquer transformação revolucionária, tens que usar todos os meios
socialmente disponíveis para preservar o poder, e a chave para preservar o poder
com os meios disponíveis é a tua estabilidade e o teu bem-estar econômico. Se
conseguires gerar um bem-estar econômico, socialmente aceitável para a
população, isto vai te permitir manter um controle do poder estatal, o que vai
te permitir ganhar tempo, que é o que necessitamos para promover no interior da
sociedade maior participação democrática, que vá superando o papel do Estado na
gestão da economia.
Tempo, à espera que outro país irmão, o Brasil, a Argentina, o Peru ou o
Uruguai, leve adiante suas próprias transformações que te permitam acoplar-se
com os processos de outros países do mundo, porque tu, sozinho, não poderás
construir um átomo de comunismo, estás asfixiado. Mas, por sua vez, também
precisa do poder, para que este tempo ganho e estes recursos obtidos gerem
bem-estar e melhores condições. E como ganhas tempo? Melhora a economia. Se quer
melhorar a economia, mantenha o poder e, logo, ganhará tempo e, assim por
diante. É como um ciclo que se retroalimenta. O grande problema de nossos
processos, em muitas partes da América Latina, é que não se consegues alinhar
bem estas três variáveis: tempo, economia e poder.
No momento atual, com a economia tão globalizada, pensas que é o mesmo? Porque
com as crises estruturais do capital nós sempre esbarramos nesta questão da
economia…
Com mais razão. Essa globalização te exige que, se não tens o apoio dos outros,
estás condenado ao fracasso.
Sim, mas hoje, toda a América Latina está na mesma situação. O que pensas?
Conseguimos romper com isso. Em plena globalização, Brasil, Venezuela, Bolívia,
Equador, começamos a articular uns com os outros. O que foi feito aqui está
começando a ser debatido na Europa. A América Latina se adiantou em 10 anos em
relação ao mundo. As coisas que o Lula começou a fazer, esta economia que
mesclava uma globalização seletiva (para essas coisas me globalizo, para essas
coisas me concentro no mercado interno), [Jeremy] Corbyn está discutindo na
Inglaterra, o Podemos na Espanha, [Jean-Luc] Mélenchon na França. O horizonte
único, que Reagan e Thatcher nos deixaram, ruiu. Porém, o mundo só começou a
debater isso quando entramos em retrocesso aqui. Os conservadores começam a
ressuscitar o que havia ocorrido há 20 anos. Uma espécie de assintonia com o
processo planetário.
O senhor fala em seus livros que a revolução é feita por ondas sucessivas. Na
Bolívia, a taxa de redução da pobreza que, em 2016, de acordo com o informe
presidencial de Evo, foi menor que nos anos anteriores; ocorreu também um
aumento do abandono escolar, relacionado com a questão do trabalho. Houve a
derrota do bloco indígena campesino popular no referendo de fevereiro de 2016.
Será que o modelo de controle dos excedentes e de redistribuição a partir do
Estado não necessita de novos processos democratizantes? Não somente o controle
e redistribuição de excedentes, mas enfrentar a questão do trabalho associado, a
esfera da produção, da economia comunitária...
Existe aí um duplo problema. Uma autocrítica que nós devemos fazer é que esses
processos de distribuição social da riqueza sempre têm de vir acompanhados de
democratização social ou de ideologia. Porque, quando há distribuição da riqueza
sem democratização social, aparece como uma coisa verticalmente feita ‘pelos de
cima’. Então, isso te conduz a uma posição passiva. Não é a sua luta, não é o
fruto de sua associação organizativa, é o fruto de sua espera, pelo líder, pelo
presidente, pela pessoa que lhe protege. É uma forma real de despolitizar.
Todo processo tem que vir acompanhado de democratização, de formas de
participação, de formas de deliberação local, regional, segmental, organizativa,
corporativa e que estas conquistas sejam vistas como suas conquistas. Por outro
lado, devemos compreender que a sociedade tem também ondas sucessivas: o momento
da individualidade, o momento do corporativismo e o momento do universalismo.
Aqui [com gestos, referindo-se ao momento da individualidade], penso em mim
mesmo.
Aqui [momento do corporativismo], penso em meus companheiros. Aqui [momento do
universalismo], penso em todos, mas isso não dura. As pessoas estiveram contigo,
marcharam, lutaram, foram baleadas, perseguidas, torturadas, mas logo têm que ir
para casa. “Que vai ser de minha filha quando for estudar? Tenho que pagar a
dívida da casa”. A retirada corporativa é como uma espécie de lei da ação
coletiva e é o que tem passado na maior parte do continente. Por que isso
ocorre? Porque as pessoas não podem se manter perpetuamente mobilizadas. Eu
estava revisando os textos dos bolcheviques, que mostram que os sovietes no ano
1908 já quase não existiam. Os sovietes cheios de soldados, de obreiros, de
jovens, de senhoritas, de servidores, de engraxates, e as pessoas logo
desaparecem! As pessoas entram em um processo de retirada familiar, retirada
pessoal e podem passar 1, 5, 20 anos até que haja uma nova oleada.
Na América Latina há uma espécie de assintonia novamente. Alguns processos
progressistas distribuíram riqueza sem democratização social e vivenciam um novo
momento de refluxo, em que normalmente as pessoas se despolitizam. Uma maior
democratização teria permitido pelo menos manter grupos corporativos, de
democracia interna, de bairros, de zona, de fábrica. Quando não tens a
democratização, a caída do momento universal é para o individualismo. Isso te
coloca em condições mais adversas.
Sobre o individualismo, quem tem os melhores discursos é a direita, porque ela
apela ao esforço individual, ao empreendedorismo, à iniciativa, à
competitividade. Daí, é no Estado que buscamos os mecanismos de influência para
buscar ‘re-ideologizar’ e novamente gerar mecanismo de articulação coletiva. É
um pouco o que faz o Lula, a seu modo, com sua experiência sindical: ir outra
vez ao coletivo, à assembleia. É a paixão da associatividade, a que desperta o
Lula, porque sabe que sem isso está perdido.
Qualquer processo de transformação sem isso está perdido. A direita trabalha um
lado que está permanentemente presente nas pessoas: sua individualidade. Agora,
tu trabalhas sobre coisas que excepcionalmente estão nas pessoas: o coletivo.
Por isso, as revoluções não são tão fáceis. São excepcionalidades históricas.
Porque, senão, estaria havendo uma revolução a cada seis meses no mundo, não é?
A entrevista foi realizada em 11 de setembro de 2017, no gabinete da
Vice-presidência do Estado Plurinacional de Bolívia, por Daniel Araújo Valença,
professor do curso de Direito da Universidade Federal Rural do Semi-Árido
(Ufersa), e Ilana Lemos de Paiva, professora do Departamento de Psicologia da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Leia a íntegra em
http://www.culturasjuridicas.uff.br/index.php/rcj/article/view/437.
*colaboração para o Brasil de Fato
Edição: Nina Fideles
In
BRASIL DE FATO
https://www.brasildefato.com.br/2018/02/06/vice-presidente-da-bolivia-avalia-experiencia-do-governo-de-evo-morales-no-pais/
6/2/2018
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
Reciclagem da Dívida Ativa: um esquema altamente fraudulento
por Poder Popular
Maria Fattorelli se refere à criação da chamada 'Empresa Estatal Não Dependente', que ela descobriu na Grécia ao auditar a dívida daquele país em 2015. Aqui no Brasil surgiram empresas como essas, em sociedade com os estados e municípios, que emitem papéis com garantia do Estado para reciclar a dívida ativa, mas que apenas aumentam ainda mais a dívida pública. Ela cita o exemplo da empresa PBH Ativos SA, de Belo Horizonte, cujo principal sócio é o município. Começou a operar com capital de apenas R$ 100 mil, mas emitiu 23 mil debêntures no valor de R$ 100 mil cada, com garantia do município. "Na prática, isso é uma dívida pública disfarçada", afirma a auditora. Segundo Fattorelli, por esses papéis são cobrados o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor – índice oficial da inflação) mais 11% de juros, uma quantia impagável. Os bancos, explicou, ganham com a emissão desses papéis e muitas vezes com a compra desses mesmos papéis, tornando-se credores dos estados e municípios. Os papéis são criados para reciclar a dívida ativa, mas tornam-se parte da dívida pública. Conforme explicado por ela, enquanto a dívida pública representa o montante devido por estados, governo e municípios (a União), a dívida ativa, por sua vez, são créditos a receber de tributos não pagos no prazo, a maior parte constituída de créditos podres, pois as empresas devedoras já quebraram, muitas não existem mais. São créditos dificílimos de receber. "Essa fraude tem conivência dos parlamentares e do presidente ilegítimo. Tanto isso é verdade que tais operações ficaram de fora da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 55, já aprovada, que estabeleceu um teto para todas as chamadas despesas primárias – educação, saúde, previdência etc., afora as despesas financeiras. Isso mostra a geração da dívida pública sem contrapartida alguma para a população e o país". Em seminário internacional realizado em novembro último, promovido pela Auditoria Cidadã com apoio de diversas entidades, foi aprovada uma nota de repúdio a esse esquema altamente fraudulento e contra os Projetos de Lei PLS 204/2016, PLP 181/2015 e PL 3337/2015 que "visam dar uma aparência de legalidade às operações de securitização que estamos denunciando como grandes fontes de expropriação de recursos públicos, em todos os entes da federação brasileira, com o aumento das dívidas públicas em milhões e até bilhões de reais embasadas em falsas contrapartidas" [2] . Maria Lúcia Fattorelli defendeu a auditoria da dívida pública citando o exemplo do Equador, que comprou por 30% o valor total da dívida após acordo com 95% dos credores. Explicou que os 5% restantes sequer apareceram para negociar. Lembrou, por fim, que a dívida pública serve como instrumento de pressão do sistema financeiro para impor suas políticas para o país, tais como a reforma trabalhista, as privatizações, a tentativa de reforma da Previdência, o congelamento dos investimentos em saúde, educação etc., sempre em prejuízo dos trabalhadores.
05/Fevereiro/2018
[1] www.youtube.com/channel/UCl5r_25WtDFFPiB_JBEGzzQ [2] www.auditoriacidada.org.br/... O original encontra-se no jornal Poder Popular Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . |
07/Fev/18
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
DNA de esqueleto indica existência de britânicos negros e de olhos azuis há 10 mil anos
© BBC Com base nos dados, cientistas reconstruíram o que acreditam ter sido o
rosto do Homem de Cheddar
O Homem de Cheddar nada tem a ver com o queijo de sabor forte e, por vezes, cor
amarelada. É, na verdade, um dos mais antigos britânicos de que se tem registro.
E agora, também objeto de uma nova descoberta.
Uma análise recente do fóssil encontrado em 1903 em uma gruta de Cheddar,
desfiladeiro repleto de cavernas localizado em Somerset, no Reino Unido, indicou
que ele tinha olhos azuis, cabelo crespo e pele escura.
A análise contraria a imagem anterior projetada a partir do fóssil.
Inicialmente, acreditava-se que ele tinha olhos escuros, pele clara e cabelos
lisos.
Uma equipe de cientistas não só identificou o novo fenótipo atribuído ao
britânico de 10 mil anos atrás como também fez uma reconstrução detalhada de seu
rosto.
Avaliações anteriores já indicavam que ele era mais baixo que a média e que
provavelmente morreu por volta dos 20 anos.
Fraturas na superfície do crânio sugerem que ele pode ter morrido de maneira
violenta. Não se sabe como o corpo chegou à caverna, mas é possível que tenha
sido colocado lá por indivíduos da tribo.
Extração do DNA
Os pesquisadores do Museu de História Natural de Londres extraíram o DNA de uma
parte do crânio, próxima ao ouvido, conhecida como osso petroso.
Inicialmente, Ian Barnes e Selina Brace, que fazem parte da instituição e
integram o projeto, não tinham certeza se conseguiriam algum DNA do fóssil.
Mas eles tiveram sorte: não só o DNA foi preservado, como também produziu a
maior cobertura (uma medida da precisão de sequenciamento) para um genoma na
Europa desse período de Pré-história - conhecido como Mesolítico ou Idade Média
da Pedra.
Análise do DNA foi feita a partir do crânio, mais precisamento do osso
petroso
Os pesquisadores do museu se juntaram a cientistas da universidade londrina UCL
(University College London) para analisar os resultados, incluindo variantes
genéticas associadas com cabelo, olhos e cor da pele.
A descoberta indica ainda que os genes da pele mais clara se difundiu na Europa
mais tarde do que se pensava, e que a cor da pele não é necessariamente
referência de origem geográfica, como normalmente é vista hoje em dia.
Como a pele mudou
A pele clara provavelmente chegou à Grã-Bretanha há cerca de 6 mil anos, com uma
migração de pessoas do Oriente Médio.
Essa população tinha pele clara e olhos castanhos. Acredita-se que tenha acabado
absorvendo características de grupos como o do Homem de Cheddar.
Não se sabe ao certo, contudo, por que a pele clara acabou se sobressaindo entre
os habitantes da região. Mas acredita-se que a dieta à base de cereais
provavelmente era deficiente em vitamina D - isso exigiria que agricultores
processassem esse nutriente por meio da exposição à luz solar, que é mais
escassa onde fica o Reino Unido.
"Podem haver outros fatores causando menor pigmentação da pele ao longo do tempo
nos últimos 10 mil anos. Mas essa é a grande explicação à qual a maioria dos
cientistas se fia", disse Mark Thomas, geneticista da UCL.
O Fóssil foi encontrado em 1903 numa caverna em Cheddar, no condado de
Somerset
Para Tom Booth, arqueólogo do Museu de História Natural em Londres e integrante
do projeto que desvendou as características do Homem de Cheddar, a análise
mostra como as categorias raciais são construções modernas ou muito recentes.
"Elas realmente não se aplicam ao passado", disse ao jornal britânico The
Guardian.
Yoan Diekmann, biólogo especializado em estudos da computação na universidade
londrina UCL e também parte da equipe, concorda com o colega. Afirma que a
conexão comumente estabelecida entre "britanidade" e brancura "não é uma verdade
imutável". "Sempre mudou e sempre mudará", declarou à mesma publicação.
A análise genética também sugere que o Homem Cheddar não bebia leite na idade
adulta - algo que só se espalharia entre os humanos muito mais tarde, na Idade
do Bronze, iniciada em alguns lugares há cerca de 5 mil anos.
Chegadas e partidas
As análise também indicam que os europeus dos tempos atuais mantiveram, em
média, apenas 10% das características de ancestrais como o britânico de Cheddar
Acredita-se que os humanos chegaram no que hoje é o Reino Unido há 40 mil anos,
mas um período de frio extremo conhecido como o Último Máximo Glacial teria os
forçado a migrar dali 10 mil anos depois.
Também já foram coletadas evidências em cavernas de que humanos
caçadores-coletores voltaram quando as condições climáticas melhoraram. Mas
acabaram sendo surpreendidos pelo frio - marcas nos ossos sugerem que esse grupo
canibalizou seus mortos.
O território hoje conhecido como Grã-Bretanha foi ocupado novamente há 11 mil
anos e, desde então, permanece habitado, segundo os pesquisadores.
O Homem de Cheddar é parte dessa onda migratória que teria caminhado pela
chamada Doggerland - que, naquele período, ligava a ilha ao continente, mas
posteriormente acabou coberta pelo aumento do nível do mar.
Nos anos 1990, outra análise do DNA já havia identificado possíveis
'parentes do Homem de Cheddar'
Essa não é a primeira tentativa de análise genética do Homem de Cheddar. No
final dos anos 1990, o geneticista Brian Sykes já havia sequenciado o DNA
mitocondrial de um dos molares do fóssil.
A sequência, transmitida exclusivamente da mãe para os filhos, foi comparada com
20 residentes vivos do povoado em Cheddar.
Duas dessas pessoas tinham mostras similares - uma delas era o professor de
história Adrian Targett.
A atual descoberta feita por pesquisadores do Museu de História Natural e da UCL
vai ser detalhada em um documentário para a televisão britânica com o título The
First Brit: Secrets of the 10,000 Year Old Man ("O primeiro britânico: segredos
do homem de 10 mil anos de idade"), feito pela Plimsoll Productions e a ser
exibido pelo Channel 4. Também vai virar, é claro, artigo acadêmico.
Professor Chris Stringer ficou impressionado ao ver a reconstrução do
Homem de Cheddar
O professor Chris Stringer, que lidera os estudos sobre origens humanas no
museu, se dedica a estudar o esqueleto do Homem de Cheddar há 40 anos.
Ele se impressionou ao ver a reconstrução que pode ter revelado o rosto de seu
objeto de estudo.
"Ficar cara a cara com a imagem de como esse homem pode ter parecido - a
combinação impressionante de cabelo, rosto, cor dos olhos e pele escura - é algo
que não poderíamos imaginar
alguns anos atrás. Mas é que os dados científicos mostram."
In
MSN
https://www.msn.com/pt-br/noticias/ciencia-e-tecnologia/dna-de-esqueleto-indica-existência-de-britânicos-negros-e-de-olhos-azuis-há-10-mil-anos/ar-BBIO9W6?li=AAkXvDK&ocid=spartanntp
7/2/2018
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
Resolución política del VIII Pleno del Comité Central del Partido Comunista de Venezuela (PCV)
Por: Prensa Popular
Partido Comunista de Venezuela (PCV)
Propuestas del PCV para una salida revolucionaria a la crisis del capitalismo
dependiente y rentista de Venezuela
El VIII Pleno del Comité Central del Partido Comunista de Venezuela (PCV),
reunido en Caracas el 30 de enero de 2018, con presencia de los Secretarios
Políticos regionales del PCV y la Comisión Ejecutiva Nacional de la Juventud
Comunista (JCV), evaluó la dinámica y compleja coyuntura nacional e
internacional, así como el desarrollo del amplio proceso de discusión colectiva
que abrió el VII Pleno del CC (19 de diciembre de 2017) con miras a la
realización de la XIV Conferencia Nacional del PCV, especialmente enmarcado en
el documento base de discusión: «El cuadro socioeconómico y político de la
actual crisis capitalista en Venezuela. La salida revolucionaria y las tareas
del PCV», que incluye los elementos definitorios para la escogencia de la
candidatura del PCV a la Presidencia de la República.
En los últimos años se ha agudizado la crisis del agotado modelo de acumulación
capitalista dependiente y rentista de Venezuela, generando un creciente
empobrecimiento en las condiciones de vida y trabajo de las masas populares y
trabajadoras de la ciudad y el campo; poniendo en evidencia que los proyectos
progresistas-reformistas que se han dado en Venezuela y otros países de
Latinoamérica desde principios de este siglo, al no estar dirigidos por
organizaciones genuinamente revolucionarias, carecen del contenido de clase
necesario para –más allá de medidas sociales asistencialistas– plantearse
extirpar de raíz el sistema capitalista, proponerse que la clase obrera y el
pueblo trabajador vanguardicen los procesos de cambio hasta conquistar el poder
e iniciar, sobre las bases científicas del marxismo-leninismo, la construcción
del socialismo.
Ante la crisis del capitalismo dependiente y rentista venezolano, mientras las
masas trabajadoras sufren la acelerada pérdida de la capacidad adquisitiva de
sus exiguos ingresos –con un criminal y desbocado aumento en los precios de
todos los bienes y servicios– y la bonificación de su salario –con graves
perjuicios para el futuro de las familias y abaratando el despido en entidades
públicas y privadas–, la banca continúa con manos libres para la especulación
financiera y cambiaria en detrimento de la producción interna; los monopolios de
la alimentación incrementan su dominio de la estructura de distribución y
comercialización; los sectores comerciales y empresariales promueven el
bachaquerismo sin controles efectivos de la Sundde; la burguesía
comercial-importadora obtiene ganancias milmillonarias con el dólar preferencial
para alimentos y medicinas; se deterioran instalaciones industriales y
agrícolas, o no se les proveen los insumos oportunamente, para justificar su
paralización y posterior liquidación o privatización.
El cada vez más restringido acceso a la alimentación, a la atención médica de
calidad y a las medicinas, producto de la corrupción privada y pública, del
bloqueo imperialista, de la ineficiencia estatal y de la improductividad
nacional, está afectando gravemente a la población. La inestabilidad de la
economía y la pérdida de confianza en el futuro del país, promueven el flujo
constante de migración juvenil profesionalizada, la fuga de cerebros y la
pérdida de fuerza de trabajo, lo cual afecta las perspectivas del desarrollo
nacional.
El gobierno nacional, a pesar de múltiples anuncios y reiteradas promesas, no ha
concebido y, mucho menos, ejecutado políticas o planes que signifiquen una
salida revolucionaria a la crisis capitalista venezolana, es decir, en favor de
los intereses del pueblo, limitándose a gestionar la crisis sin afectar el
dominio del capital.
La Asamblea Nacional Constituyente (ANC) avanza en forma acelerada a su
deslegitimación, debido a que las expectativas positivas que una amplia franja
de la población se había hecho con la elección de la ANC (30 de julio de 2017)
–y que se expresaron en contundentes apoyos populares a candidaturas del partido
de gobierno en las elecciones de Gobernaciones (15 de octubre) y Alcaldías (10
de diciembre)–, se han venido diluyendo en el tiempo en la misma medida que las
respuestas que las masas esperaban a problemas concretos no se han hecho
efectivas e incluso se aprueban leyes con las que se lesiona la soberanía y se
privilegia al capital transnacional, como la de «inversión extranjera
productiva». Esta situación se ha visto agravada por voceros de la ANC, que
responden los reclamos populares con posturas altisonantes y arrogantes.
Mientras tanto, se construyen acuerdos con factores de la burguesía, tanto con
los grandes grupos económicos (mediante el Consejo Nacional de Economía
Productiva, los motores de la «Agenda económica bolivariana» o los precios
concertados), como con los sectores políticos en la mesa de diálogo de República
Dominicana –ya conocidos como «Pacto de Santo Domingo»–. Al tiempo que, de
manera simultánea, avanza la agresiva e injerencista política del imperialismo
estadounidense y europeo, especialmente a través de los gobiernos de Trump y de
Santos. Evidenciándose que «diálogo, negociación y presión» es la fórmula que
aplica la derecha internacional, la cual actúa en interés del gran capital
monopólico transnacional.
El desarrollo de la lucha de clases por el poder político en Venezuela permite
prever diversos escenarios, contextualizados por la profundización de la crisis
del sistema capitalista y agudas confrontaciones interimperialistas, de
exacerbación de la sostenida agresión internacional de la derecha mundial contra
Venezuela y su gobierno, de agravamiento de las condiciones de vida del pueblo
venezolano y aumento progresivo de la violencia social.
Con este marco político y socioeconómico, el VIII Pleno del CC –en el desarrollo
de la política de «Acumulación de fuerzas revolucionarias obrero-campesinas,
comuneras y populares», definida por nuestro XV Congreso (junio de 2017)–,
estableció que,
En dependencia de la fecha que finalmente establezca el CNE para las elecciones
presidenciales, el Buró Político fijará la fecha de realización de nuestra XIV
Conferencia Nacional, que es la instancia estatutaria para la escogencia de la
candidatura del PCV a la Presidencia de la República; por lo que el VIII Pleno
del CC autorizó al Buró Político para continuar analizando, explorando y
reuniéndose con las y los posibles candidatos del bloque de fuerzas patrióticas
y revolucionarias.
VIII Pleno del Comité Central del Partido Comunista de Venezuela – PCV
Caracas, 30 de enero de 2018.
In
APORREA
https://www.aporrea.org/actualidad/n320539.html
2/2/2018
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
La batalla de de Stalingrado, un momento crucial de la historia
William Peynsaert
Investig’Action
Traducido del francés para Rebelión por Beatriz Morales Bastos
Hace 70 años* los soviéticos infligían a los fascistas una derrota memorable, un “razgrom”, por decirlo en su lengua. Es
en Stalingrado donde acaba definitivamente el Blitzkrieg de los nazis. Los
soviéticos rodearon ahí a 300.000 alemanes, los cuales capitularon el 2 de
febrero de 1943 mientras que en su discurso del 30 de enero Hitler afirmaba
todavía que el pueblo alemán lucharía hasta que la victoria fuera segura. A
partir de entonces la victoria final de los aliados no es sino cuestión de
tiempo. Una victoria forjada en sangre, sudor y lágrimas, sobre todo de los
soviéticos.
A mediados de la década de 1920 los soviéticos ya habían considerado la
posibilidad de una nueva guerra mundial. En toda Europa llegan al poder
regímenes fascistas. Primero Mussolini en Italia, el 30 de octubre de 1922.
Hitler, por su parte, llega al poder el 30 de enero de 1933. Alemania se rearma
a toda velocidad. La defensa de la joven URSS es una prioridad absoluta en su
primer Plan Quinquenal de 1928. La Unión Soviética es la única que se da cuenta
del verdadero peligro. Hitler escribe negro sobre blanco en su best-seller,
Mein Kampf, que el bolchevismo es el enemigo mortal del fascismo .
Italia también es belicista. En 1935 ocupa Etiopía. Los dirigentes soviéticos
creen que Europa va a despertar. Proponen un sistema europeo de seguridad
colectiva. En vano. Ya en 1935 los soviéticos saben gracias a su agente secreto
Richard Sorge que sin lugar a dudas vendrá un ataque de Alemania. Hasta 1941 la
Unión Soviética tendrá decenas de iniciativas para crear un frente de paz contra
las amenazas de las guerras fascistas.
La actitud del avestruz de Occidente
Las potencias capitalistas no quieren saber nada y esperan que los nazis elijan
la URSS como primer objetivo. Hasta 1921 Gran Bretaña, Francia, Estados Unidos y
Japón harán todo lo posible para eliminar a los bolcheviques. El 24 de junio de
1941, justo después del ataque alemán contra Rusia, el futuro presidente
estadounidense Harry Truman declarará en el New York Times: “Si vemos que
Alemania gana, debemos ayudar a Rusia y si Rusia gana, debemos ayudar a
Alemania, para hacer que se maten entre sí todo lo posible”.
Inglaterra y Francia se pierden en concesiones a los nazis. Se sacrifican
Austria, Chequia y Eslovaquia. Este último país incluso pagará a los nazis para
que se deshaga de sus judíos: 500 deutsche mark por judío… Uno de los resultados
de la política occidental de conciliación. En 1939 prácticamente lo único que
pueden hacer los soviéticos es llegar a un pacto de no agresión con su enemigo
hereditario.
La resistencia debe venir de la izquierda. En 1935 Georgi Dimitrov, secretario
general del Komintern, un vínculo de cooperación mundial entre los partidos
comunistas, invita encarecidamente a las fuerzas de izquierda a unirse en un
amplio frente popular contra el fascismo. Ahí donde el fascismo toma el poder
hacer retroceder todos los logros sociales, se oprime a la clase obrera, se
suprimen los sindicatos y se maltrata a las minorías.
En la visión jerarquizada del mundo del “Blut und Boden” (Sangre y suelo) no hay
lugar para todas aquellas personas a quienes los fascistas califican de
“extranjeras al pueblo”, de “degeneradas”, de “inferiores” o de “parásitos”. Los
patronos obtienen carta blanca. En todos los países los comunistas se sitúan a
la vanguardia contra esta ideología. En Eslovaquia organizan en 1944 una
insurrección nacional; en Yugoslavia los comunistas logran prácticamente solos
echar a los fascistas.
Una guerra de destrucción
El sentimiento de superioridad de la “raza de los señores” alemana lleva a una
guerra de destrucción de la que no se libra absolutamente nada. El 3 de marzo de
1941 Hitler da la siguiente orden: “ La guerra contra Rusia no se podrá hacer
de manera caballerosa. Es un combate de ideologías entre razas diferentes y
habrá que llevarla a cabo con una dureza sin precedentes, despiadada y que no
retroceda ante nada. [ … ] No se hará reproche alguno a los soldados alemanes
a los que se considere culpables de violaciones de las leyes internacionales”.
No solo las altas instancias políticas nazis quieren un genocidio bestial,
también la Wehrmacht alemana [las Fuerzas Armadas Unificadas de Alemania]. El 2
de mayo de 1941 el general Erich Hoepner escribe: “La guerra contra Rusia es un
capítulo importante en la lucha por la supervivencia de la nación alemana. Es
el mejor combate de los pueblos germanos contra los eslavos, la defensa de la
cultura europea contra el maremoto de Moscú y de Asia, la lucha por contener el
bolchevismo judío. El objetivo de esta lucha debe ser la destrucción de la
actual Rusia y se debe llevar a cabo con una dureza sin precedentes”.
El outsider rojo
El 22 de junio de 1941 la Alemania nazi ataca la Unión Soviética con más de tres
millones de hombres, 3.600 tanques y más de 4.000 aviones. Más de un millón de
sus aliados, entre ellos italianos, rumanos, húngaros, finlandeses y eslovacos.
Empieza la Operación Barbarroja. Los primeros objetivos: Leningrado, Ucrania y
los campos petroleros del Cáucaso. El objetivo final es la línea A-A, de
Arjanguelsk en el norte a Astrajan en el sur.
Las expectativas son optimistas: “Nos bastará con llamar a la puerta y toda la
estructura roja caerá por sí misma”, declara Hitler a propósito de la Unión
Soviética. Los Aliados también creen que la URSS va a caer muy rápido. Las
primeras semanas el agresor tiene el viento en popa. Rodea a partes importantes
del ejército rojo. En contra de lo esperado, estas unidades aisladas prosiguen
el combate. Los alemanes se asustan de sus propias pérdidas. Es lo que se
trasluce leyendo el diario secreto de Franz Halder, Jefe del Estado Mayor de
Hitler. El primer día de la invasión escribe: “No hay señales de intentos de
dislocación operativa. Ni siquiera hay que tener en cuenta esta posibilidad”. El
24 de junio: “Es notable la tenaz resistencia de cada una de las unidades rusas
consideradas individualmente”. Y el 29 de junio: “Los informes de todos los
frentes confirman las primeras indicaciones según las cuales lucha hasta el
último ruso”. Diez días después de la invasión, el 3 de julio, habla de 54.000
muertos en el lado alemán, más que todas las pérdidas alemanas en la conquista
de Polonia en 1939. Pero sigue soñando porque el mismo día todavía escribe: “Sin
duda no es exagerado afirmar que la campaña de Rusia se habrá ganado en menos de
dos semanas”. El 11 de agosto, después de encarnecidos combates en torno a
Smolensk, el Jefe del Estado Mayor despierta bruscamente: “Toda la situación
muestra cada vez más claramente que hemos subestimado al coloso ruso”.
Fábricas sobre ruedas
El ataque hace que el ejército alemán se enfrente a enormes retos logísticos.
Los guerrilleros rompen en todas partes las cadenas de suministro. Sin embargo,
los nazis esperan que los soviéticos se desmoronen en cualquier momento.
Lo que ocurre en el plano económico es totalmente imprevisible. Inmediatamente
después del ataque alemán los soviéticos desmontan su industria al oeste del
Ural para reconstruirla al este. A finales de 1941 se han desplazado no menos de
1.521 grandes fábricas, algo único en la historia mundial (1). De este modo la
industria soviética se encuentra a salvo de los bombardeos alemanes. En 1942 los
soviéticos producen tres veces más tanques que los alemanes, entre ellos el
famoso T-34, sin duda el mejor tanque medio de la Segunda Guerra Mundial.
Los soviéticos también aguantan en el plano ideológico. Aplican al pie de la
letra su divisa “los comunistas tienen que estar en la línea de fuego”. En junio
de 1941 cada comité provincial del partido tenía que haber enviado entre 500 y
3.000 hombres y mujeres al ejército en el plazo de tres días. En unos días se
moviliza a 95.000 miembros del partido y 58.000 parten al frente. El prestigio
del partido aumenta enormemente. En 1943 el partido cuenta con 2,7 millones de
miembros y casi la misma cantidad de personas en la sección de jóvenes (el
Komsomol) activa en el ejército. Los esfuerzos de guerra de los soviéticos dan
fruto. En diciembre de 1941 obligan a los alemanes a detenerse ante Moscú. Es la
primera derrota alemana de la guerra.
La Operación Urano
En la primavera de 1942 los alemanes vuelven a pasar a la ofensiva. Llegan al
Volga, cerca de Stalingrado. Si toman la ciudad los soviéticos perderán su
principal vía navegable y sus reservas de petróleo. Por otra parte, se ha
llegado a un acuerdo con los japoneses: que los alemanes se apropien de
cualquier ciudad del Volga y los japoneses atacarán a los rusos a su espalda
(2). Los [bombarderos] Stukas alemanes dejan la ciudad reducida a ruinas. A
continuación las tropas terrestres alemanas toman el relevo. Pero las ruinas que
los alemanes han creado se vuelven contra ellos. Sus tanques apenas se pueden
desplazar entre los escombros. Los soviéticos siguen ocupando una pequeña parte
de Stalingrado, a orillas del Volga. Hitler declara triunfalmente que no hay la
menor navegación por el río.
Se confía al estratega Gueorgui Joukov la misión de salvar la situación. Quiere
rodear al general alemán Friedrich von Paulus y a su Sexto Ejército. Los
preparativos de la Operación Uranio tiene lugar en el mayor de los secretos. Los
alemanes no sospechan nada. Los soviéticos inician un movimiento en forma de
tenaza. Atacan a los dos flancos del Sexto Ejército en Stalingrado. Los dos
extremos del ataque se cruzan en la parte trasera de la ciudad, cerca de Kalach.
En los flancos de las tropas alemanas solo hay tropas rumanas, peor armadas. El
día del cerco prosiguen los ataques alemanes contra Staligrado como si no
ocurriera nada.
La maniobra de cerco tiene éxito. 300.000 fascistas quedan atrapados en el
caldero de Stalingrado. Hitler prohíbe a von Paulus retirarse. Su ejército se
debe sacrificar para hacer ganar tiempo a otros frentes.
Una guerra de ratas
La prensa alemana disimula todo el tiempo posible la noticia del cerco. Después
de la rendición se hace creer al pueblo alemán que no hay supervivientes. El
régimen criminal no admitirá jamás haber cometido un error. El puente aéreo
destinado a salvar al ejército de tierra a partir del aire es un fracaso. El
comandante en jefe de la Luftwaffe [Fuerzas Aéreas alemanas], Hermann Göring,
había jurado que era posible, pero incluso sobre el papel era imposible. El
Sexto Ejército necesitaba cotidianamente 700 toneladas de mercancías. En teoría
todavía era posible un total de 350 toneladas, solo en las circunstancias más
favorables.
Por consiguiente, el Sexto Ejército se las tiene que arreglar solo. La
Rattenkrieg o “guerra de las ratas” prosigue en medio de un frío polar. Se lucha
por cada casa, por cada habitación. Los soviéticos derriban los muros interiores
de las casas para que sus tiradores de élite puedan circular más fácilmente.
Desarrollan una verdadera cultura del francotirador, con estrellas nacionales
como Vassili Zaitsev. Ironías del destino, en estos combates cuerpo a cuerpo el
arma más eficaz no es otra que una “pala afilada”. Los soldados duermen por la
noche vestidos para que no se la roben.
Los soviéticos no dejan nada al azar, tampoco en el plano psicológico. Tocan
tangos para suscitar un ambiente macabro en toda la ciudad de Stalingrado
rodeada. Los altavoces claman sin parar “Cada siete segundo muere un alemán en
Stalingrado. Stalingrad Massengrab (fosa común)”. Hordas de alemanes se
precipitan para conseguir un billete de vuelta en uno los aviones de transporte,
que cada vez tienen más dificultades para aterrizar o despegar en este caldero.
La situación es insostenible. A pesar de las órdenes de Hitler, von Paulus
capitula en febrero de 1943. Y para gran enfado de Hitler, no se suicida.
El principio del fin
El precio que pagan los fascistas es enorme. Hay 24 generales entre los 90.000
prisioneros de guerra. Han muerto unos 140.000 hombres rodeados. Han perdido
60.000 vehículos ligeros, 1.500 tanques, 6.000 cañones y 7.000 motos. En todas
las operaciones que tuvieron lugar en Stalingrado o entorno a la ciudad los
alemanes dejaron 850.000 hombres, muertos, heridos o desaparecidos.
Muchos ciudadanos y militares alemanes ya no creen en el Endsieg, la victoria
final. Una investigación secreta de los servicios de inteligencia alemanes
revela la desesperación: “La gente pregunta sobre todo por qué no se evacuó o
despejó Stalingrado y cómo es posible que unos meses antes se afirmara que la
situación militar era segura. Ahora muchos conciudadanos piensan seriamente en
las consecuencias de una derrota”. En toda la Europa ocupada se endurecen las
acciones de resistencia contra la política de terror de los fascistas. En mayo
de 1945 los nazis son derrotados. Los ciudadanos de la Unión Soviética
demostraron ser más resistentes y productivos que el enemigo. Defendieron los
logros de su revolución .
Las cifras de las pérdidas
Entre el 22 de junio de 1941 y el 9 de mayo de 1945 cada día perdieron la vida
más de 17.000 soldados y ciudadanos soviéticos, esto es, un total de 25,3
millones de personas. El 27% de la población activa de la URSS murió durante la
guerra. Entre 16 y 18 millones murieron por factores externo a la violencia
“normal” de la guerra: al menos 3,5 millones de prisioneros de guerra soviéticos
murieron de hambre en los campos alemanes; entre 4 y 5 millones de ciudadanos
soviético (de los cuales aproximadamente un millón eran judíos) fallecieron en
las ejecuciones masivas o en las cámaras de gas; de 8 a 10 millones de civiles
soviéticos murieron de hambre debido al bloqueo y a la locura destructora de los
alemanes. Y 7 u 8 millones de militares perdieron al vida (3). Un 80% de las
pérdidas alemanas de la guerra se produjeron en el frente del Este. Por lo que
se refiere a las pérdidas de los Aliados durante la Segunda Guerra Mundial, son
las siguientes: 187.000 estadounidenses, 400.000 británicos y 650.000 franceses
(siempre contabilizando militares y civiles).
Notas:
* Este artículo se publicó el 3 de marzo de 2013, por lo tanto actualmente se
conmemora el 75 aniversario de la batalla. Se publicó originalmente en la página
web Solidaire, aunque el enlace no funciona en la actualidad (N. de la t.).
(1) The Soviet Economy and the Red Army, 1930-1945, Walter Scott Dunn, p. 34.
(2) Stalin’s Spy: Richard Sorge and the Tokyo Espionage Ring, Whymant, Robert,
p. 206.
(3) Atlas zur Geschichte, Band 2, Gotha (DDR), 1981/V. Koulikov, L’Aide
internationaliste accordée aux peuples d’Europe, en Histoire de l’URSS:
Nouvelles Recherches , n° 4, Moscú, 19851
Fuente: http://www.investigaction.net/fr/La-bataille-de-Stalingrad-un/
In
REBELION
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=237493
5/2/2018
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