sábado, 24 de março de 2018

Quatro dias para declarar uma Guerra Fria


Thierry Meyssan

A semana que acaba de decorrer foi extraordinariamente rica em acontecimentos.
Mas nenhum média esteve à altura de dar conta deles já que todos mascararam
deliberadamente alguns dos factos para proteger a narrativa que, a propósito,
divulgava o seu governo. Londres tentou provocar um grande conflito, mas perdeu
face à Rússia, ao Presidente Trump e à Síria.

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  Embora dispondo do quarto exército no mundo, o Reino Unido não pode desafiar a
  Rússia sem se apoiar em aliados. Tem, portanto, que inventar um casus belli, e
  fazer os seus parceiros reagir para os levar a exporem-se junto com ele.
O governo britânico e alguns dos seus aliados, entre os quais o Secretário de
Estado, Rex Tillerson, tentaram lançar um esquema de Guerra Fria contra a
Rússia.
O seu plano previa, por um lado, encenar um atentado contra um ex-agente duplo
em Salisbury e, por outro, um ataque químico contra os «rebeldes moderados» na
Ghuta. Os conspiradores pretendiam aproveitar-se do esforço da Síria a libertar
os subúrbios da sua capital e da distração da Rússia por ocasião da sua eleição
presidencial. Na sequência destas manipulações, o Reino Unido teria pressionado
os EUA a bombardear Damasco, incluindo o palácio presidencial sírio, e pedido à
Assembleia Geral da ONU para excluir a Rússia do Conselho de Segurança.
No entanto, os Serviços de Inteligência sírio e russo souberam do que se
tramava. Eles ficaram convictos que os agentes dos EUA que preparavam, a partir
da Ghuta, um ataque químico contra a própria Ghuta não dependiam do Pentágono,
mas, antes de uma outra agência dos EUA.
Em Damasco, o Vice-ministro das Relações Exteriores, Fayçal Miqdad, convocou de
urgência uma conferência de imprensa, a 10 de Março, para alertar os seus
concidadãos. Por seu lado, Moscovo primeiro tentou alertar Washington pelos
canais diplomáticos. Mas, sabendo que o Embaixador dos EUA, Jon Huntsman Jr, é
administrador da Caterpillar, a qual forneceu tuneladoras (tatuzões-br) aos
jiadistas para que eles construissem as suas fortificações, tentou contornar a
via diplomática normal.
Eis, pois, como os acontecimentos se encandearam :
12 de Março de 2018
O Exército sírio capturou dois laboratórios de armas químicas, o primeiro a 12
de Março, em Aftris, e o segundo no dia seguinte, em Shifunya. Enquanto a
diplomacia russa pressiona a Organização para a Proibição de Armas Químicas
(OPAQ) a entrar na investigação criminal de Salisbury.
A Primeira-ministro britânica, Theresa May, acusa violentamente a Rússia, na
Câmara dos Comuns, de ter comanditado o atentado de Salisbury. Segundo ela, o
ex-agente duplo Serguei Skripal e a sua filha teriam sido envenenados com uma
substância militar neurotóxica do tipo «desenvolvido pela Rússia» sob o nome de
“novitchok”. Sabendo que o Kremlin considera os seus cidadãos que desertaram
como alvos legítimos, seria, pois, altamente provável que tivesse comanditado o
crime.
O “novitchok” é conhecido através do que revelaram a propósito duas
personalidades soviéticas, Lev Fyodorov e Vil Mirzayanov. O cientista Fyodorov
publicou um artigo no semanário russo Top Secret (Совершенно секретно), em Julho
de 1992, alertando para a extrema periculosidade deste e chamando a atenção
contra a utilização de antigas armas soviéticas, pelos Ocidentais, para destruir
o meio ambiente na Rússia e torná-la inviável. Em Outubro de 1992, ele publicou
um segundo artigo no Novidades de Moscovo (Московские новости), junto com um
responsável da contra-espionagem, Mirzayanov, denunciando a corrupção de certos
generais e o tráfico de “novitchok” ao qual se dedicariam. Eles ignoravam a quem
o teriam podido vender. Mirzayanov foi primeiro preso por alta traição, depois
libertado. Se Fyodorov morreu na Rússia, em Agosto passado, Mirzayanov vive no
exílio nos Estados Unidos, onde ele colaborou com o Departamento da Defesa.
  O antigo oficial russo da contra-espionagem Vil Mirzayanov desertou para os
  Estados Unidos. Aos 83 anos, ele comenta o «caso Skripal» a partir de Boston.
O “novitchok” era fabricado num laboratório soviético em Nurus, no actual
Uzbequistão. Aquando da dissolução da União Soviética, ele foi destruído por uma
equipe norte-americana especializada. O Uzbequistão e os Estados Unidos,
portanto, obrigatoriamente possuíram e estudaram amostras desta substância.
Ambos são capazes de o produzir.
O Ministro britânico dos Negócios Estrangeiros ( Relações Exteriores-br), Boris
Johnson, convoca o Embaixador russo em Londres, Alexander Yakovenko.
Apresenta-lhe um ultimato de 36 horas para verificar se falta “novitchok”nos
seus stocks (estoques-br). O Embaixador responde-lhe que não falta nada porque a
Rússia destruiu a totalidade das armas químicas herdadas da União Soviética e a
OPCW (OPAQ) pronunciou-se a propósito.
Após uma conversa telefónica com Boris Johnson, o Secretário de Estado dos EUA,
Rex Tillerson, condena, por sua vez, a Rússia pelo atentado de Salisbury.
Enquanto isso, um debate sobre a situação na Ghuta desenrola-se no Conselho de
Segurança da ONU. A Representante permanente dos Estados Unidos, Nikki Haley,
afirma aí: «Há quase um ano, após o ataque de gás sarin perpetrado em Khan
Sheikun pelo regime sírio, os Estados Unidos tinham alertado o Conselho.
Dissemos que, face à inação sistemática da comunidade internacional, os Estados,
por vezes, são obrigados a agir por conta própria. O Conselho de Segurança não
agiu, e os Estados Unidos atacaram a base aérea a partir da qual al-Assad
lançara o seu ataque de armas químicas. Nós reiteramos o mesmo aviso hoje.
Os Serviços de Inteligência russos fazem circular documentos do Estado-maior
norte-americano. Eles mostram que o Pentágono está prestes a bombardear o
palácio presidencial e os ministérios sírios, dentro do modelo do que fez
aquando da tomada de Bagdade (3 a 12 de Abril de 2003).
Comentando a declaração de Nikki Haley, o Ministério russo dos Negócios
Estrangeiros, que sempre qualificou o caso de Khan Sheïkhun de «manipulação
ocidental», revela que as falsas informações, que induziram na altura a Casa
Branca em erro e a levaram a bombardear a base de Al-Shayrat, provinham de um
laboratório britânico que nunca indicou como tinha recolhido as amostras.
13 de Março de 2018
O Ministério russo dos Negócios Estrangeiros publica um comunicado condenando
uma possível intervenção militar dos EUA e anunciando que se cidadãos russos
fossem atingidos em Damasco Moscovo ripostaria de maneira proporcional ; uma vez
sendo o Presidente russo constitucionalmente responsável pela segurança dos seus
concidadãos.
Contornando a via diplomática, o Chefe do Estado-Maior russo, o General Valeri
Guerassimov, contacta o seu homólogo americano, o General Joseph Dunford, para o
informar sobre os seus receios quanto a um ataque químico de bandeira falsa na
Ghuta. Dunford toma o assunto muito a sério e alerta o Secretário da Defesa dos
EUA, o General Jim Mattis, que refere o caso ao Presidente Donald Trump. Tendo
em vista a garantia dada pelos Russos, segundo os quais este golpe sujo estaria
preparado à revelia do Pentágono, a Casa Branca pede ao Director da CIA, Mike
Pompeo, para identificar os responsáveis deste complô.
Ignoramos o resultado dessa investigação interna, mas o Presidente Trump ganha a
convicção quanto à implicação do seu Secretário de Estado, Rex Tillerson. Este é
imediatamente convidado a interromper a sua viagem oficial em África e a voltar
para Washington.
Theresa May escreve ao Secretário-geral da ONU para acusar a Rússia de ter
comanditado o atentado de Salisbury e para convocar uma reunião de urgência do
Conselho de Segurança. De imediato, ela expulsa 23 diplomatas russos.
  Publicado um mês e meio antes do atentado de Salisbury, o livro de Amy Knight
  apresenta o que se vai tornar a tese do MI5. A autora afirma, por si mesma,
  que não tem a menor prova do que escreve.
A pedido da Presidente da Comissão do Interior da Câmara dos Comuns, Yvette
Cooper, a Secretária britânica do Interior, Amber Rudd, anuncia que o MI5
(Serviço Secreto Militar do Interior) vai reabrir 14 inquéritos sobre mortes
que, segundo fontes dos EUA, teriam sido comanditadas pelo Kremlin.
Ao fazê-lo, o governo britânico adopta as teorias da professora Amy Knight. A 22
de Janeiro de 2018, esta sovietóloga dos EUA publicava um livro muito estranho:
«Ordens para matar: o regime de Putin e o assassinato político». A autora, que é
«a» especialista do antigo KGB, tenta aí demonstrar que Vladimir Putin é um
assassino em série, responsável por dezenas de assassinatos políticos, indo
desde os atentados de Moscovo, em 1999, até aos da Maratona de Boston, em 2013,
passando pela execução de Alexander Litvinenko em Londres, em 2006, ou a de
Boris Nemtsov em Moscovo, em 2015. No entanto, ela confessa, por si própria, que
não há nenhuma prova quanto às suas acusações.
Os liberais europeus entram na dança. O antigo Primeiro-ministro belga, Guy
Verhofstadt, que preside o seu grupo no Parlamento Europeu, exorta a UE a lançar
sanções contra a Rússia. O seu homólogo à cabeça do correspondente Partido
britânico, Sir Vince Cable, propõe um boicote europeu ao Campeonato do Mundo de
futebol. Desde logo, o Palácio de Buckingham anuncia que a família real cancela
a sua viagem à Rússia.
A autoridade reguladora britânica, a Ofcom, anuncia que poderia proibir o canal
de Tv Russia Today a título de retaliação, muito embora esta não tenha, de forma
alguma, violado as leis britânicas.
O Ministério russo dos Negócios Estrangeiros convoca o Embaixador britânico em
Moscovo para o informar que medidas de reciprocidade lhe serão indicadas em
breve, em retorsão pela expulsão de diplomatas russos de Londres.
O Presidente Trump anuncia no Twitter que demitiu o seu Secretário de Estado,
com o qual não tinha ainda entrado em contacto. Ele é substituído por Mike
Pompeo, ex-Director da CIA, que confirmou na véspera a autenticidade das
informação russas transmitidas pelo General Dunford. Chegado a Washington,
Tillerson recebe a confirmação da sua demissão pelo Secretário-geral da Casa
Branca, o General John Kelly.
  O antigo patrão da maior multinacional no mundo, ExxonMobil, julgava-se acima
  da barafunda. Para sua grande surpresa, Rex Tillerson foi brutalment despedido
  por Donald Trump. O primeiro pensava servir o mundo anglo-saxónico, enquanto o
  segundo o considerou como um traidor à sua pátria.
O ex-Secretário de Estado, Rex Tillerson, é originário da burguesia texana. A
sua família e ele próprio fizeram parte dos Escoteiros norte-americanos, dos
quais se tornou o Presidente nacional (2010-12).
Culturalmente próximo da Inglaterra, não hesitou, assim que se tornou tornou
Presidente da mega multinacional Exxon-Mobil (2006-16), tanto a realizar uma
campanha politicamente correcta para aceitar jovens gays entre os Escoteiros,
como a recrutar mercenários na Guiana Britânica. Ele seria membro da Pilgrims
Society, o mais prestigiado clube anglo-americano, presidido pela Rainha Isabel
II, do qual inúmeros membros fizeram parte da Administração Obama.
Durante as suas funções na Secretaria de Estado, a sua esmerada educação
forneceu uma caução a Donald Trump, considerado pela alta sociedade dos EUA como
um histrião. Ele entrou em conflito com o seu Presidente sobre três assuntos
importantes que nos permitem definir a ideologia dos conspiradores :
 Como Londres e o Estado profundo dos EUA, ele julgava útil demonizar a Rússia
para consolidar o Poder dos Anglo-Saxónicos no campo ocidental ;
 Como Londres, ele julgava que para manter o colonialismo ocidental no
Médio-Oriente, era preciso favorecer o Presidente iraniano Xeque Rohani contra o
Guia da Revolução o aiatola Khamenei. Ele apoiava portanto o acordo dos 5+1.
 Como o Estado profundo dos EUA, ele considerava que a báscula da Coreia do
Norte em direcção aos Estados Unidos devia permanecer secreta e ser utilizada
para justificar um avanço militar dirigido, na realidade, contra a China
popular. Era, portanto, favorável a conversações oficiais com Pyongyang, mas
oposto a um encontro entre os dois chefes de Estado.
14 de Março de 2018
No momento em que Washington está em estado de choque, Theresa May intervém
novamente, na Câmara dos Comuns, para aí desenvolver a sua acusação, enquanto no
mundo inteiro os diplomatas britânicos tomam a palavra em inúmeras organizações
inter-governamentais para lhes transmitir a mensagem. Respondendo à
Primeira-ministro, o deputado blairista, Chris Leslie, qualifica a Rússia de
“Estado-canalha” e pede a sua suspensão do Conselho de Segurança da ONU. Theresa
May compromete-se a examinar a questão, frisando, ao mesmo tempo, que isso só
poderia ser decidido pela Assembleia Geral afim de contornar o veto russo.
O Conselho do Atlântico Norte (OTAN) reúne-se em Bruxelas a pedido do Reino
Unido. Os 29 Estados-membro estabelecem uma ligação entre a utilização de armas
químicas na Síria e o atentado de Salisbury. Eles consideram a Rússia como
«provavelmente» responsável por estes dois acontecimentos.
  Jens Stoltenberg, Secretário-geral da OTAN, e a representante permanente do
  Reino Unido no Conselho do Atlântico Norte, Sarah MacIntosh. Esta é a antiga
  directora para as questões de Defesa e de Inteligência no Ministério britânico
  dos Negócios Estrangeiros, posto que deixou a Jonathan Allen, actual
  Encarregado de Negócios na ONU.
Em Nova Iorque, o Representante permanente da Rússia, Vasily Nebenzya, propõe
aos membros do Conselho de Segurança a adopção de uma declaração atestando a sua
vontade comum em lançar luz sobre o atentado de Salisbury e em confiar a
investigação à OPAQ, dentro do respeito pelos procedimentos internacionais
estabelecidos. Mas, o Reino Unido rejeita qualquer texto que não inclua a
expressão segundo a qual a Rússia seria «provavelmente responsável» pelo
atentado.
Durante o debate público que se segue, o Encarregado de Negócios do Reino Unido,
Jonathan Allen, representa o seu país. É um agente do MI6, que criou o serviço
de propaganda de guerra do Reino Unido e deu o seu apoio activo aos jiadistas na
Síria. Ele declara : «A Rússia já interferiu nos assuntos de outros países, a
Rússia já violou o Direito Internacional na Ucrânia, a Rússia despreza a vida de
civis, como o demonstra o ataque a um avião comercial por cima da Ucrânia por
mercenários russos, a Rússia protege o emprego por Assad de armas químicas (...)
O Estado russo é responsável por esta tentativa de assassínio. O Representante
permanente da França, François Delattre, que em virtude de um decreto
derrogatório do Presidente Sarkozy foi formado no Departamento de Estado dos
EUA, lembra que o seu país lançou uma iniciativa para pôr fim à impunidade
daqueles que utilizam armas químicas. Ele sugere que esta iniciativa dirigida
contra a Síria poderia ser virada contra a Rússia.
O Embaixador russo, Vasily Nebenzya, lembra que a sessão foi convocada a pedido
de Londres, mas que só veio a ser pública a pedido de Moscovo. Ele observa que o
Reino Unido viola o Direito Internacional ao evocar este caso no Conselho de
Segurança enquanto mantêm a OPAQ à margem da sua investigação. Ele nota que se
Londres pôde identificar o “novitchok” é porque possui a fórmula e, portanto,
pôde fabricá-lo. Ele relembra a vontade expressa da Rússia em colaborar com a
OPAQ, no quadro do respeito pelos procedimentos internacionalmente aceites.
15 de Março de 2018
O Reino Unido publica uma declaração conjunta co-assinada, no dia anterior, pela
França, Alemanha, bem como por Rex Tillerson, que era ainda Secretário de Estado
dos Estados Unidos. O texto retoma a suspeita britânica. Ele denuncia o emprego
de «um agente neurotóxico de qualidade militar, de um tipo desenvolvido pela
Rússia». Ele afirma que é «altamente provável que a Rússia seja responsável pelo
atentado».
O Washington Post publica uma carta aberta de Boris Johnson, enquanto o
Secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, lança novas sanções contra a
Rússia. Estas não estão ligadas ao caso em curso, mas às alegações de ingerência
na vida pública dos EUA. O decreto cita, no entanto, o atentado de Salisbury
como uma prova das acções sujas da Rússia.
O Secretário da Defesa britânico, o jovem Gavin Williamson, declara que depois
da expulsão dos seus diplomatas a Rússia devia «calar» (sic). É a primeira vez
desde o fim da Segunda Guerra Mundial que um dirigente de um Estado membro
permanente do Conselho de Segurança emprega um tal vocabulário em relação a um
outro membro do Conselho. Serguei Lavrov comenta: «É um jovem encantador. Quer
certamente marcar o seu lugar na história, fazendo para isso afirmações
chocantes [...] Se calhar falta-lhe educação.
  A Inglaterra não hesitou, ao longo de toda a sua história, em mentir e em
  trair a sua palavra para defender os seus interesses. Daí o seu qualificativo
  francês de «pérfida Albião» (do nome latino da Inglaterra).
Conclusão
Em quatro dias o Reino Unido e os seus aliados lançaram as premissas de uma nova
divisão do mundo, de uma Guerra Fria.
No entanto, a Síria não é o Iraque e a ONU não é o G8 (do qual a Rússia foi
excluída devido à adesão da Crimeia à sua Federação, e pelo seu apoio à Síria).
Os Estados Unidos não vão destruir Damasco e a Rússia não será excluída do
Conselho de Segurança. Depois de se ter retirado da União Europeia, depois de se
ter recusado a assinar a Declaração chinesa sobre a Rota da Seda, o Reino Unido
pensava aumentar a sua importância eliminando um concorrente. Com este golpe
manhoso, imaginava adquirir uma nova dimensão e tornar-se na «Global Britain»
anunciada pela Sra. May. Mas acabou destruindo, ele próprio, a sua
credibilidade.
Tradução
Alva

In
VOLTAIRENET.ORG
http://www.voltairenet.org/article200270.html
21/3/2018

quinta-feira, 22 de março de 2018

EEUU vive una guerra cultural, de clase y racial


Raúl Zibechi

Cuando una parte de la población de una nación está armada para defenderse de
otra parte de la población, estamos ante una guerra civil no declarada. Cuando
el Estado no tiene el monopolio de la violencia legítima, ¿podemos pensar que se
trata de un 'Estado fallido'?

Las masacres en escuelas y centros de estudio pueden considerarse una emergencia
de la violencia en la sociedad estadounidense. En los primeros 45 días de 2018,
hasta la masacre de San Valentín, hubo 18 tiroteos en escuelas, en diez de las
cuales hubo muertos, según el Everytown for Gun Safety, un grupo que defiende un
mayor control sobre la venta de armas. En el mismo lapso se han registrado 18
tiroteos en escuelas de EEUU, en 10 de los cuales hubo heridos o muertos. Desde
2013 la cifra trepa hasta los 290 tiroteos en centros educativos.

Otro informe de prensa asegura que en el primer mes y medio hubo 1.800 personas
que murieron en Estados Unidos por herida de bala. Desde 2011 fueron 200.000.
Una verdadera guerra. La notable cantidad de muertes por armas de fuego, y en
particular la sucesión de matanzas en escuelas, han llevado a diversas
organizaciones a convocar la Marcha por Nuestras Vidas (March for our Lives, en
inglés) el sábado 24 de marzo en Washington, para que la libertad de poseer
armas de grueso calibre sea regulada.

​Los convocantes de la protesta demandan la prohibición de la venta libre de
fusiles de asalto, por considerarlas armas de guerra que van más allá de la
defensa personal. Pero defienden "el derecho de los estadounidenses respetuosos
de la ley a poseer y portar armas, como se establece en la Constitución de los
Estados Unidos".
Más aquí: Entra en vigor en Texas una ley que permite portar armas abiertamente

Ocho datos que tienes que conocer sobre la matanza en Las Vegas
Los organizadores también reclaman la prohibición de las revistas especializadas
en armas de guerra, asegurando que aquellos estados que las prohíben tienen la
mitad de tiroteos. Y sostienen que la verificación de antecedentes de los
compradores reduce drásticamente los sucesos violentos.
Lo que sorprende es que aún los opositores a las armas de fuego muestran su
respeto por la "segunda enmienda" de la Constitución que defiende "el derecho
del pueblo a poseer y portar armas". Lo cierto es que en EEUU hay más armas que
habitantes y que la mitad de las armas del mundo en posesión de civiles está en
este país.
Lea más: Masacre de Las Vegas demuestra que la Enmienda II no protege a los
ciudadanos

Trump: las leyes de armas serán discutidas "mientras las cosas vayan sucediendo"
El Congreso nunca autorizó la creación de una base de datos sobre la cantidad de
armas en poder de particulares ni la cantidad de muertos por armas de fuego. No
cualquiera tiene un arma. Una pista sobre los poseedores la ofrece el
Departamento de Justicia de Estados Unidos: en 2013 se vendieron 16,3 millones
de armas de fuego (45.000 cada día), un aumento del 130% en relación a 2007,
cuando Barack Obama llegó a la Presidencia y se desató el pánico a que el
Gobierno restringiera la venta.
Aunque la violencia crece, cada vez son menos los ciudadanos de EEUU que tienen
armas. En la década de 1980, la mitad de las familias tenían armas, cifra que
cayó a un tercio en la actualidad. Lo que indica que los que tienen un rifle,
una escopeta o una pistola cada vez acumulan más cantidad de armas. Según un
estudio de EFE, el 66% de los estadounidenses posee más de un arma en su casa.
Le puede interesar: Masacre en Florida: el impactante relato de los testigos del
tiroteo
El estudio ofrece algunas pistas sobre quiénes tienen armas y contra quiénes las
utilizan. El 65% afirma que posee un arma para protección, seguido de los que
las tienen para uso deportivo y caza, y muy lejos por los coleccionistas. La
mitad afirma que creció en un hogar con armas.

Los sangrientos tiroteos de 2018 agravan 'epidemia' en escuelas de EEUU
La distribución entre grupos sociales es la clave. El 57% de los republicanos
está armado frente a sólo el 25% de los demócratas. La mitad de los blancos
(49%) tiene armas frente a menos de un tercio de los negros (31%) y apenas una
quinta parte de los latinos (20%). El 72% de los estadounidenses disparó alguna
vez un arma.
El panorama se aclara. Una minoría de hombres blancos republicanos está armada.
Por otro lado, sabemos que la policía ha disparado y matado más de mil personas
cada año desde el comienzo de la crisis de 2008, en su inmensa mayoría negros,
lo que ha dado pie al nacimiento de movimientos como Black Lives Matter (Las
vidas negras importan, en inglés), entre otros.
¿Cómo entender y cómo analizar estos datos?
La primera cuestión es que estamos ante un país que vive una larga guerra civil.
Cada día 309 personas reciben heridas de bala y 93 mueren por disparos. Desde
1967 murieron por disparos 1,59 millones de personas, más que los ciudadanos de
EEUU que perdieron la vida en guerras, que suman 1,2 millones en estos 50 años.
No se lo pierda: Gobernador de Florida anuncia plan para prevenir tiroteos en
centros educativos
Son cifras elocuentes. Es una guerra interna de la que no se puede acusar a
ninguna potencia extranjera. Es una forma de vida que está en el ADN de los
estadounidenses y que probablemente esté arraigada en la forma como se creó la
nación. Por algo la segunda enmienda se formuló en 1791, cuando la rebelión
contra la monarquía inglesa llevó a los rebeldes a crear milicias armadas para
defenderse de los ejércitos coloniales.
Trump cuestiona por qué EEUU recibe migrantes de "países de mierda"
La segunda cuestión es la identidad de los estadounidenses, punto en el que
aparecen fuertemente divididos. El hecho de que 'sólo' la mitad tenga armas, y
que apenas uno de cada cuatro votantes demócratas las posea, enseña una fractura
identitaria muy fuerte. Más aún porque cada vez son menos los que creen que las
armas resuelven los problemas de seguridad, tal y como muestran el descenso
constante en la posesión y los movimientos que se han disparado este año contra
las armas de guerra.
El tercer aspecto es el que siento más importante. Los más oprimidos, negros e
hispanos, los más débiles socialmente, son los que menos armas tienen. Son las
víctimas principales de los que tienen armas, tanto de los civiles como de los
policías, guardias nacionales y militares que son mayoritariamente blancos, en
particular los mandos medios y superiores.
No se lo pierda: "Trump hace que EEUU sea un país despreciado en todo el mundo"
Por lo anterior, debemos concluir dos cuestiones: el Estado no tiene el
monopolio de las armas y la violencia se ejerce principalmente contra los
pobres, focalizada en negros e hispanos. Una frase casi prohibida en EEUU,
resume la cuestión: lucha de clases.

LA OPINIÓN DEL AUTOR NO COINCIDE NECESARIAMENTE CON LA DE SPUTNIK
In
SPUTNIK
https://mundo.sputniknews.com/firmas/201803221077231572-america-norte-venta-armas-seguridad-social/
22/3/2018

quarta-feira, 21 de março de 2018

As novas ditaduras latino-americanas


 

       por Jorge Beinstein [*] 

       A ascensão autoritária 

       A radicalização reaccionária dos governos de países como o Paraguai,
      Argentina, Brasil, México ou Honduras começa a gerar polémica quanto à sua
      caracterização.
       Nenhum desses regimes resultou de golpes de estado militares. Nos casos
      do Brasil, Honduras ou Paraguai a destituição dos presidentes foi
       realizada (mediante paródia constitucional) pelo poder legislativo em
       combinação mais ou menos forte com os poderes judicial e mediático. No
      Brasil a Presidência passou a ser exercida pelo vice-presidente Temer
      (ungido por um golpe parlamentar) cujo nível de aceitação popular segundo
      diversos inquéritos rondaria apenas 3% dos cidadãos. No Paraguai ocorreu o
      mesmo e o presidente destituído foi substituído pelo vice-presidente
      através de um procedimento parlamentar express e a seguir foram realizadas
       eleições presidenciais que consagraram Horacio Cartes, um personagem de
      ultra-direita claramente vinculado ao narcotráfico.
       Nas Honduras realizaram-se eleições presidenciais em Novembro/2017 [1] ,
      a  "Alianza de Oposición contra la Dictadura"  havia ganho claramente mas
      o governo, fazendo honra ao qualificativo com que o havia marcado a
      oposição, consumou uma fraude escandalosa afirmando assim a continuidade
      do ditador Juan Orlando Hernandez.
       Um caso extremamente curioso é o da Argentina, onde em 2015 se realizaram
      eleições presidenciais em meio a uma avalanche mediática, económica e
      judicial sem precedentes contra o governo e favorável ao candidato
      direitista Maurizio Macri. O resultado foi a vitória de Macri por escassa
      margem, o qual logo que assumiu a presidência avançou sobre os outros
      poderes do estado conseguindo em pouco tempo de facto a soma do poder
      público. Se a essa concentração de poder acrescentarmos o controle dos
      meios de comunicação e o poder económico, encontramo-nos perante uma
      pequena camarilha com uma capacidade de controle própria de uma ditadura.
      Completa o panorama o comportamento cada vez mais repressivo do governo
      que, pela primeira vez desde o fim da ditadura militar em 1983, decidiu a
      intervenção das Forças Armadas em conflitos internos mediante a
      constituição de uma  "força militar de arranque rápido"  integrada por
      efectivos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica e a formação de uma
      força operativa conjunta com a DEA utilizando a desculpa da  "luta contra
      o narcotráfico e o terrorismo".  [2] Desse modo a Argentina incorpora-se
      numa tendência regional imposta pelos Estados Unidos de reconversão
      convergente das Forças Armadas convencionais, das polícias e outras
      estruturas de segurança em polícias-militares capazes de "controlar" as
       populações desses países. Não seguindo o velho estilo
      conservador-quartelada inspirado na "doutrina de segurança nacional" e sim
      estabelecendo espaços sociais caóticos imersos no desastre, atravessados
      precisamente pelo narcotráfico (promovido e manipulado desde cima) e
      outras formas de criminalidade dissociadora seguindo a doutrina da Guerra
      de Quarta Geração.
       No México, como sabemos, sucedem-se os governos fraudulentos imersos numa
      crescente onda de barbárie e na Colômbia a abstenção eleitoral
      tradicionalmente maioritária chegou recentemente a cerca de dois terço do
      padrão eleitoral [3] , adornada por um muito publicitado  "processo de
      paz"  que conseguiu a rendição das FARC assegurando ao mesmo tempo a
       preservação da dinâmica de saqueios, assassinato e concentração de
      rendimentos que caracteriza tradicionalmente esse sistema. Nestes dois
      casos não nos encontramos perante algo "novo" e sim frente a regimes
      relativamente velhos que foram evoluindo até chegarem hoje a constituir
      verdadeiros exemplos de aplicação com êxito das técnicas mais avançadas de
      desintegração social. A tragédia desses países mostra o futuro que aguarda
      os recém chegados ao inferno.
       O panorama é completado com as tentativas de restauração reaccionária na
      Bolívia e na Venezuela. No caso venezuelano a intervenção directa dos
      Estados Unidos procura recuperar (recolonizar) a maior reserva petrolífera
      do mundo no momento em que o reinado do petro-dólar (fundamento da
      hegemonia financeira global do império) entra em declínio rápido perante a
       ascensão da China (o maior comprador internacional de petróleo) que
      procura impor a sua própria moeda apoiada pelo ouro (o petro-yuan-ouro) em
      aliança precisamente com a Venezuela e outros gigantes do sector
      energético, como a Rússia e o Irão.
       Na Bolívia, o aparelho de inteligência imperial realiza uma das suas
      manipulações de manual inspirada na doutrina da Guerra de Quarta Geração.
      Põe em acção seus apêndices mediáticos locais e globais tentando lançar a
       histeria (neste caso racista) de faixas importante das classes médias
       brancas e mestiças contra o presidente índio. Aqui não só se trata de
      varrer um governo progressista como também de apropriar-se das reservas de
      lítio, a maiores do mundo (segundo diferentes prospecções, a Bolívia
      contaria com aproximadamente 50% das reservas de lítio do planeta),
      elemento chave na futura reconversão energética global.
       Principais características 
       As actuais ditaduras têm todas as características para apresentar uma
      imagem civil com aparência de respeito pelos preceitos constitucionais,
      mantendo um calendário eleitoral com pluralidade de partidos e os demais
      traços de um regime democrático de acordo com as regras ocidentais. Por
      outro lado, encontramo-nos perante mecanismos explícitos de censura e,
      ainda que marginais ou em posições muito secundárias, ouvem-se algumas
      vozes divergentes. Os prisioneiros políticos passam quase sempre pelos
       tribunais onde os juízes os condenam de maneira arbitrária mas
       aparentando apoiar-se nas normais legais vigentes. Os assassinatos de
       opositores são minimizados ou ocultados pelos meios de comunicação e
      ficam em geral envoltos por mantos de confusão que diluem as culpas
      estatais, amalgamando de maneira sistemática os crimes políticos com as
      violências policiais contra pobres e pequenos delinquentes sociais e
      repressões aos protestos populares.
       Essa máscara democrática, prolixamente negligente, acaba por ser o que é:
      uma máscara, quando constatamos que os meios de comunicação convertidos
      num instrumento de manipulação total da população estão controlados por
      monopólios como o grupo Clarín na Argentina, O Globo no Brasil ou Televisa
      no México, cujos proprietários fazem parte do círculo estreito do Poder.
      Ou quando chegamos à conclusão de que o sistema judicial está
      completamente controlado por esse círculos do qual participam os
      principais interesses económicos (transnacionalizados) manejando à
       discrição o aparelho policial-militar. E que em consequência os partidos
      políticos significativos, os meios de comunicação, as grandes estruturas
      sindicais e outros espaço de expressão potencial da sociedade civil estão
       estrategicamente controlados (para além de certos descontroles tácticos)
      mediante uma teia embrulhada de repressões, chantagens, crimes selectivos,
      abusos judiciais, bombardeios mediáticos esmagadores dissociadores ou
      disciplinadores e fraude eleitoral mais ou menos descarada conforme o
      problema concreto resolver.
       O novo panorama provocou uma crise notável de percepção onde a realidade
      se choca com princípios ideológicos, conceptualizações e outros
      componentes de um  "sentido comum"  herdado do passado. Não somos vítimas
      de um rígido enquadramento da população com pretensões totalitárias
      explícitas que anule toda possibilidade de dissensão, procurando integrar
      o conjunto da sociedade num simples esquema militar, e sim perante
      sistemas flexíveis, na realidade confusos, que não tentam disciplinar a
      todos e sim, antes, desarticular, degradar a sociedade civil convertendo-a
      numa vítima inofensiva, esmagada pela tragédia.
       Não se apresentam projectos nacionais desmesurados, próprios dos
       militares  "salvadores da pátria"  de outros tempos, ou imagens sinistras
      como a de Pinochet, nem sequer discursos hiper-optimistas como os dos
      globalistas neoliberais dos anos 1990 ou personagens cómicos como Carlos
      Menem, e sim presidentes sem carisma, torpes, aborrecidos repetidores de
      frases banais preparadas pelos assessores de imagem que formam uma rede
      regional globalizada de "formadores de opinião"  made in USA. 
       Em suma, as ditaduras blindadas e triunfalistas do passado parecem ter
      sido substituídas por ditaduras ou proto-ditaduras cinzentas que oferecem
       pouco ou nada, montadas sobre embrutecedores cilindros compressores
       mediáticos. Sempre por trás (na realidade por cima) destes fenómenos
      encontram-se o aparelho de inteligência dos Estados Unidos e os de alguns
      dos seus aliados. A CIA, a DEA, o MOSSAD, o MI6 conforme os casos
      manipulam os ministérios da segurança ou da defesa, os das relações
      exteriores, as grandes estruturas policiais desses regimes vassalos e
      concebem estratégias eleitorais fraudulentas e repressões pontuais.
       Capitalismo de desintegração 
       Forjam-se assim articulações complexas, sistemas de dominação onde
      convergem elites locais (mediáticas, políticas, empresariais,
      policiais-militares, etc) com aparelhos externos integrantes do sistema de
      poder dos Estados Unidos.
       Estas forças dominam sociedade marcadas pelo que poderia ser qualificado
       como  "capitalismo de desintegração"  baseado no saqueio de recursos
      naturais, na especulação financeira e na crescente marginalização da
       população, radicalmente diferente dos velhos capitalismo subdesenvolvidos
      estruturados em torno de actividades produtivas (agrícolas, mineiras,
      industriais). Não é que nos velhos sistema não existisse o saqueio de
      recursos nem o banditismo financeiro, que em alguns momentos e países
      ocupavam o centro da cena, mas no longo prazo e na maior parte dos casos
      ficavam num segundo plano. A super-exploração da mão-de-obra e
      açambarcamento dos lucros produtivos surgiam como os principais objectivos
      económicos directos daquelas ditaduras.
       Tão pouco é certo que agora as elites dominantes se desinteressem dos
      salários ou da propriedade da terra. Ao contrário, desenvolvem um amplo
      leque de estratagemas destinados a reduzir os salários reais e
      apropriar-se de territórios. Se bem que nos velhos capitalismos não
      existisse só produção e sim também especulação e saqueio, nos actuais a
      base produtiva, em retracção por causa da pilhagem desmesurada, continua a
      ser uma fonte importantíssima de benefícios. Contudo, a sua preservação, a
      sua reprodução no longo prazo, não está no centro das preocupações
      quotidianas das elites, presas psicologicamente pela dinâmica parasitária
      da especulação financeira e seu entorno de negócios turvos.
       Isto acontece porque, entre outras coisas, no actual imaginário burguês o
      longo prazo desapareceu, suas operações mais importantes são regidas pelo
      curto prazo lumpen-capitalista. No saqueio de recursos naturais através da
      mega-mineração a céu aberto, da extracção de gás e petróleo de xisto ou da
      agricultura baseada em transgénicos, utilizam-se tecnologias orientadas
      pela velocidade do ritmo financeiro ao serviço de gente que não tem tempo
      nem interesse para se dedicar a temas tais como a saúde da população
      afectada, o equilíbrio ambiental e outras áreas impactadas pelos "danos
      colaterais" do êxito empresarial (financiarização da mudança tecnológica,
      a cultura técnica dominante como auxiliar do saqueio).
       Estes capitalismos de desintegração são conduzidos por elites que podem
      ser caracterizadas como lumpen-burguesias, burguesias principalmente
      parasitárias, transnacionalizadas, financiarizadas, oscilando entre o
      legal e o ilegal, cada vez mais afastadas da produção. São instáveis não
      por acidentes da conjuntura e sim pela sua essência decadente. Por cima
      delas encontram-se as grandes potências e suas elites embarcadas desde há
      tempos no caminho da degradação, num planeta onde os produtos financeiros
       derivados representavam em fins de 2017 umas sete vezes o Produto Global
      Bruto, onde a dívida global total (pública mais privada) era de quase três
      vezes do Produto Global Bruto, onde só cinco grandes bancos
       estado-unidenses dispunham de "activos financeiros derivados" da ordem
      dos 250 milhões de milhões de dólares (13 vezes o Produto Interno Bruto
      dos Estados Unidos), onde as oito pessoas mais ricas do mundo dispõem em
      conjunto de uma riqueza equivalente a 50% da população mundial (os mais
      pobres).
       A formação e escalada dessas elites latino-americanas são o resultado de
      prolongados processos de decadência estrutural e cultural, de um
      subdesenvolvimento que incluiu já várias décadas de componentes
      parasitários que se foram apropriando do sistema, foram carcomendo-o,
      envenenando, apodrecendo, seguindo a lógica sobredeterminante do
      capitalismo global, não de maneira mecânica e sim impondo especificidades
      nacionais próprias de cada degeneração social.
       Por baixo dessas elites surgem populações fragmentadas, com trabalhadores
      integrados do ponto de vista das normas laborais em vigor separados dos
      trabalhadores informais, precários. Com massas crescentes de marginais
      urbanos, de pobres e indigentes estigmatizados pelos meios de comunicação,
      desprezados por boa parte das classes integradas que se vão apequenando na
      medida em que avançam os processos de concentração económica e pilhagem de
      riquezas.
       Não se trata de espaços sociais estanques, segmentados de modo estável, e
      sim de sociedade submetidas à reprodução ampliada da rapina elitista
      transnacionalizada, à sucessão interminável de transferências de
      rendimentos de baixo para cima e para o exterior, à degradação crescente
      da qualidade de vida das classes baixas assim como de porções crescentes
      das camadas médias.
       Alguns autores referem-se ao fenómeno qualificando-o de  "neoliberalismo
      tardio"  [4] , algo assim como um regresso aos paradigmas neoliberais que
      tiveram seu auge nos anos 1990 mas num contexto global desfavorável a esse
      retorno (ascensão do proteccionismo comercial, declínio da unipolaridade
       em torno dos Estados Unidos, etc). Nós nos encontraríamos portanto frente
      a uma aberração histórica, um contra-senso económico e geopolítico
      protagonizado por círculos dirigentes obstinados na sua subordinação ao
      império norte-americano, interrompendo a marcha normal, racional,
      progressista e despolarizante que predominava na América Latina. As
      direitas latino-americanas encontrar-se-iam embarcadas em um projecto na
       contramão da evolução do mundo.
       Mas acontece que o mundo não se encaminha rumo a uma nova harmonia, um
       novo ciclo produtivo, e sim rumo ao aprofundamento de uma crise de longa
       duração, iniciada há quase meio século. Esta caracteriza-se entre outras
      coisas pelo declínio tendencial das taxas de crescimento das economias
      capitalistas centrais tradicionais e pela hipertrofia financeira
      (financiarização da economia global) impulsionando a ruptura de normas,
      legitimidades institucionais e equilíbrios sócio-culturais que asseguravam
      a reprodução da civilização burguesa para além das turbulências políticas
      ou económicas. A mutação parasitário-depredadora do capitalismo tem como
      centro um Ocidente articulado em torno do império norte-americano, mas
      envolve o conjunto da periferia e também afecta potências emergentes como
      a China ou a Rússia, muito dependentes das suas exportações em que os
       mercados da Europa, Estados Unidos e Japão cumprem um papel decisivo.
       Assim, as taxas de crescimento do Produto Interno Bruto da China vêm-se
       desacelerando e a economia russa oscila entre a recessão, a estagnação e
      o crescimento anémico.
       Um aspecto essencial da nova situação global é o carácter abertamente
      devastador das dinâmicas agrícolas, mineiras e industriais motorizadas
      tanto pelas potências tradicionais como pelas emergentes, cujos efeitos
      deixaram de ser uma nebulosa ameaça futura para se converterem num
      desastre presente que se vai ampliando ano após ano.
       Tudo isto nos deveria levar à conclusão de que os regimes reaccionários
      da América Latina não têm nada de tardio, de desactualizado, de
      deslocalização histórica e sim que são a expressão do apodrecimento
      radical das suas elites, da sua mutação parasitária enlaçada com um
       fenómeno global que as inclui. O que nos permite descobrir não só a
      fragilidade histórica, a instabilidade dessas burguesias, tão prepotentes
      e vorazes como doentias, como também as vãs ilusões progressistas
      negadoras da realidade que, ao qualificar de  tardio  o lumpen-capitalismo
      dominante marcam-no como  anormal,  anómalo, fora da época, alentando a
      esperança do  retorno à "normalidade"  de um novo ciclo de prosperidade na
      região, mais ou menos keynesiano, mais ou menos produtivo, mais ou menos
      democrático, mais ou menos razoável, nem muito direitista nem muito
      esquerdista, nem tão elitista nem tão populista. O sujeito burguês desse
      horizonte burguês fantasiaso está só na sua imaginação, a marcha real do
      mundo converteu-o num habitante fantasmagórico da memória. Enquanto isso
      os grandes "empresários", os círculos concretos de poder, participam de
      corpo e alma na orgia da devastação, tão desinteressados no longo prazo e
      no desastre social e ambiental quanto na racionalidade progressista (à
      qual consideram estorvo, um travão populista ao livre funcionamento do
       "mercado").
       Reacções populares e aprofundamento da crise 
       A grande incógnita é a que se refere ao futuro comportamento das grandes
      maiorias populares que foram afectadas tanto do ponto de vista económico
      como cultural pela decadência do sistema. As elites puderam aproveitar a
      desestruturação, as irracionalidades sociais geradas por um fenómeno
      perverso que atravessou tanto as etapas direitistas como as progressistas.
      Durante os períodos de governos de direita civis ou militares promovendo e
      garantindo privilégios e abusos de todo tipo, afirmou-se um "sentido
      comum" egoísta, dissociador, subestimador de identidades culturais
      solidárias. Mas quando chegaram as experiências progressistas essas elites
      utilizaram a degradação social existentes, a fragmentação neoliberal
      herdada (enlaçadas em alguns casos com tradições de marginalização muito
      enraizadas) impulsionando irrupções racistas, neofascistas das camadas
       médias estendidas por vezes até espaços médio-baixos onde se misturam o
      pequeno comerciante com o assalariado integrado (em consequência, acima do
      marginalizado, do precário).
       Assistimos assim no Brasil, Argentina, Bolívia ou Venezuela mobilizações
      histéricas de classes médias urbanas neofascistas a exigirem as cabeça dos
      governantes "populistas", manipuladas pelos meios de comunicação e pelos
      poderes económicos que o progressismo havia respeitado como parte da sua
      pertença ao sistema (admitida abertamente, silenciada ou negada de maneira
      superficial ou insuficiente).
       Agora as chamadas restaurações conservadoras ou direitistas não estão a
      restaurar o passado neoliberal e sim a instaurar esquemas de devastação
      nunca antes vistos. Puderam triunfar graças às limitações e esvaziamentos
      de progressismos encurralados pelas crises de sistemas que eles pretendiam
       melhorar, reformas ou em alguns casos superar de maneira indolor,
      gradual, "civilizada".
       Mas a crises nacionais não se detêm. Ao contrário, são incentivadas pelos
      comportamentos saqueadores das direitas governantes que continuam a
      praticar suas tácticas dissociadoras, de embrutecimento colectivo,
      buscando gerar ódio social para com os pobres. Os meios de comunicação
      trabalham em pleno por trás desses objectivos e na medida em que o
      declínio económico avança pressionado pelas políticas oficiais e pela
      marcha da crise global, as manipulações mediáticas começam a demonstrar-se
       impotentes perante a maré ascendente de protestos populares. A
       virtualidade do marketing neofascista começa a ser ultrapassada pela
       materialidade das penúrias, não só dos pobres como também de camadas
      médias que se vão empobrecendo. Males materiais que ao se ampliarem lhes
      abrem a porta à rebeldia daqueles que foram enganados e dos que foram
      crédulos. É assim que no Brasil o repúdio popular ao governo de Temer é
      esmagador e na Argentina a imagem edulcorada de Macri se vai diluindo
      velozmente enquanto se estendem os protestos populares.
       A repressão, a militarização dos governos de direitas surge então como
      alternativa de governabilidade. As dinâmicas ditatoriais desses regimes
      vão engendrando dispositivos policiais-militares com a esperança de
      controlar os de baixo, vão funcionando com cada vez maior intensidade os
      mecanismos de "cooperação hemisférica": operações conjuntas com a DES,
      fornecimento de armamento e capacitação para o controle de protestos
      sociais, multiplicação de estruturas repressivas nacionais e regionais
       monitoradas a partir dos Estados Unidos.
       Trata-se de um combate com final aberto entre forças sociais que procuram
      sobreviver e que, ao fazê-lo, podem chegar a engendrar vastos movimentos
      de regeneração nacional, radicalmente anti-sistémicos e elites degradadas
      e instáveis, dependentes do amo imperial (que se reserva o direito de
      intervenção directa, se as circunstâncias o exigirem e permitirem),
      animadas por um niilismo portador de pulsões tanáticas.

      20/Março/2018
       [1] Hugo Noé Pino, "Cronología del fraude electoral en Honduras",
      Criterio.hn. Diciembre 8 de 2017, 
      criterio.hn/2017/12/08/cronologia-del-fraude-electoral-honduras/
       [2] Manuel Gaggero, "Argentina. La historia se repite… como tragedia", 
      www.resumenlatinoamericano.org/...
       [3] Ana Patricia Torres Espinosa, "Abstención electoral en Colombia.
      Desafección política, violencia política y conflicto armado", Cuadernos de
      Investigación, Universidad Complutense de Madrid, Facultad de Ciencias
      Políticas y Sociología,  politicasysociologia.ucm.es/...
             Miguel García Sanchez, "Sobre la baja participación electoral en
      Colombia", Semana, 2016-10-18,  www.semana.com/...
       [4] "El neoliberalismo tardío. Teoría y praxis. Documento de Trabajo nº
      5", Daniel García Delgado y Agustina Gradin (compiladores), FLACSO,
      Argentina 2017. 
      [*] Economista. Autor de "Macrì: Orígenes e instalación de una dictadura
      mafiosa", que pode ser descarregado  aqui . 
In
RESISTIR.INFO
http://resistir.info/beinstein/nuevas_dictaduras_mar18.html
21/3/2018

segunda-feira, 19 de março de 2018

Revisitação à perversidade da "avaliação de desempenho"



       por Jorge Seabra [*] 

             
             Os trabalhadores não se revoltam por serem avaliados. Revoltam-se
            contra critérios que servem apenas de pretexto para excluir os menos
            bem aceites pelas chefias. O actual "sistema avaliador", perverso e
             empapado de ideologia neoliberal, serve para tudo – menos para
            avaliar.
             É difícil precisar a data em que a sociedade portuguesa foi
             atingida pelo novo paradigma "da avaliação do desempenho", que se
            infiltrou por todos os poros, por todas as frinchas da actividade
            laboral, extravasando os proletários do campo e da ferrugem,
             atingindo trabalhadores de escolas, hospitais e centros de Saúde
             infectando investigadores de humanidades ou de ciências exactas,
             artistas, empregados dos  shopping's,  de agências imobiliárias ou
            de viagens, vendedores de automóveis ou de latas de conserva. 

       Uma nova mentalidade dita moderna e empresarial, própria de gente viçosa
      e empreendedora, com pinceladas de arrogância e um confuso paleio
      ideológico mal aprendido nas universidades de Verão dos "jotas", começou a
      enviar para o caixote do lixo toda a experiência já acumulada no campo
      laboral, impondo como natural uma vida sempre sob pressão, avaliada em
      metas, objectivos,  rankings  e comportamentos, aumentando a submissão do
      trabalho às cada vez maiores exigências dos "donos do mundo".
       No terreno, as "avaliações de desempenho", apresentadas sob a capa de
      rigor técnico, passaram a acicatar a concorrência individual, empurrando
      os trabalhadores uns contra os outros, isolando-os perante as
      arbitrariedades do assédio (designação de perseguições e maus-tratos por
      parte das chefias), que passaram a atingir formas desumanas e doentias,
      muitas vezes disfarçadas.
       O inimaginável acontece: treinar "avaliadores" como psicopatas 
       Abordando o tema na sua vertente clínica,  Christophe Dejours ,
      psiquiatra, psicanalista e director do Laboratório de Psicologia do
       Trabalho e da Acção do  Conservatoire National des Arts et Métiers,  de
      Paris, que analisou maus-tratos graves passados na Renault e na France
       Telecom, numa  entrevista dada ao Público de 1/2/2010 [1] (em plena
      "crise" financeira que acentuou a desregulação do trabalho em Portugal),
      falou do sofrimento da avaliação, do assédio, do suicídio nas empresas:
       "A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou
      totalmente o mundo do trabalho porque pôs em concorrência os serviços, as
      empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada a
       prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego,
      isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o
      êxito dos colegas constitui uma ameaça, o que altera completamente as
       relações de trabalho: O que quero é que os outros não consigam fazer bem
      o seu trabalho!...". 
       Quanto ao perfil dos que são alvo preferencial da agressão das chefias,
      Christophe Dejours, precisa:
       "São justamente pessoas que acreditam no seu trabalho, que estão
      envolvidas e que quando começam a ser censuradas de forma injusta, são
      muito vulneráveis. Por outro lado, são pessoas muito honestas e algo
      ingénuas. Portanto, quando lhes pedem coisas que vão contra as regras da
      profissão, contra a lei e os regulamentos, contra o código do trabalho,
      recusam a fazê-lo…". 
      Segundo Dejours há técnicas organizadas com o apoio de psicólogos para
      ensinar chefias e responsáveis de recursos humanos a fazerem o assédio. E
      cita um exemplo:
       "No início de um estágio de formação em França, cada um dos quinze
      participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O
      estágio durou uma semana e cada participante tinha de tomar conta do seu
      gatinho. No fim, o director do estágio deu a todos a ordem… de matar o seu
      gato".  Catorze mataram o gatinho e a única participante que se recusou,
       adoeceu e foi tratada por Christophe Dejours que, assim, ficou a conhecer
      o caso.  "O estágio era para ser impiedoso, uma aprendizagem de assédio",
       explica o psiquiatra.
       Nesta guerra de domínio do capital, para os que vivem do seu trabalho –
      mesmo tendo funções superiores – não há almoços grátis. Falar de um
      ambiente fascizante, não será exagero. O caminho do despedimento está
      aberto pelo desgaste moral causado por processos de assédio em que a
       "avaliação do desempenho" representa uma das formas mais usadas de
      violência e submissão, sob o disfarce do rigor.
       Na realidade, nada disto tem a ver com reais preocupações de avaliação,
      no seu verdadeiro sentido, mas com uma estratégia de domínio e
      fragmentação profissional e social. Os trabalhadores não se revoltam por
      serem avaliados. Revoltam-se contra regras sem credibilidade, impostas com
      falsa superioridade moral por quem muitas vezes é reconhecidamente
      incompetente e tudo ignora do trabalho realizado, seguindo critérios que
      servem apenas de pretexto para excluir os menos bem aceites pelas chefias.
       E ver dirigentes políticos, com licenciaturas domingueiras inventadas ou
       alcançadas com ridículas equivalências, a encherem o peito com exigências
      de rigor, denuncia a pouca credibilidade das propostas.
       A ausência de um debate sério sobre o conteúdo e a imposição de
      "avaliações" irracionais – pela forma aleatória, pouco coerente ou até
      displicente como são aplicadas – tem mostrado o seu carácter instrumental
      ao serviço de objectivos alheios à justa valorização do trabalhador e à
      sua progressão e aperfeiçoamento profissionais.
       O exemplar caso da "avaliação" (ou não) dos professores 
       O que se passou com os professores no tempo do governo Sócrates e da
       ministra Maria de Lurdes Rodrigues retrata, em traços coloridos, todo
       esse enviesado processo que começou por dividir os professores em
       "titulares" e "não titulares", através de critérios inaceitáveis e até aí
      desconhecidos, pondo depois uns a avaliar os outros, subvertendo a
      hierarquia naturalmente reconhecida.
       Alguns dos piores engulhos dessa avaliação sem sentido, que acentuou a
      desautorização dos professores e estimulou o facilitismo, foram travados
      pela enorme contestação, com greves e protestos constantes que culminaram
      em duas gigantescas manifestações, cada uma com mais de cem mil
      professores, que se deslocaram à capital, um espantoso acontecimento,
      inédito no país e na Europa.
       O tema monopolizou totalmente o debate nacional, e foi assumido pela
       comunicação social como se só dele dependesse o futuro do país e nada
      houvesse mais decisivo para a nação do que "a recusa dos professores em se
      deixarem avaliar", o que, de resto, constituía uma flagrante mentira.
       Dez anos depois, contudo, e segundo afirmações da própria Maria de Lurdes
      Rodrigues, o que na altura a ex-ministra considerava absolutamente
      essencial para o avanço do país, afinal tinha pouca importância: "Os
      resultados mostram que conseguimos melhorar [o ensino] em todos os níveis,
      apesar de não termos conseguido fazer a avaliação" (  Lusa,  10/2/2017).
       Melhoria do ensino graças a ela? Não! Graças aos professores? Sim,
      seguramente…
      Voltemos ao conceito da tal "avaliação" 
       Segundo o jornalista Vítor Malheiros ( Público, 4/2/2014 ), "o recurso à
      avaliação individual de desempenho estandardizada serve apenas para que
      empresários, gestores ou capatazes possam tomar decisões de despedimento
      ou recompensa de trabalhadores motivadas por razões pessoais ou políticas
      e as possam justificar com ar inocente apontando para uma tabela  Excel
       ".
       O jornalista explicita que a "avaliação" pune o absentismo "mesmo quando
      ele é justificado por razões legais, como uma baixa de maternidade ou a
      redução de horas concedidas aos trabalhadores-estudantes", e "não faz
      apenas uma análise quantitativa e qualitativa do trabalho realizado (o que
       não seria fácil só por si), mas inclui também uma componente
      comportamental".
       Na verdade, segundo diz, "é importante ser "positivo" (o que significa
      oferecer as suas ideias mas nunca criticar as ideias do chefe), ser
      "construtivo" (o que significa nunca criticar as ideias da organização),
      estar "disponível" (o que significa fazer horas extraordinárias sem
       compensação)…".
      Fausto Leite,  advogado e especialista de Direito do Trabalho [2] , também
      concorda que "a avaliação tem sido usada para dividir os trabalhadores e
      expurgar os incómodos. No tempo da escravatura, os que tinham menos
      desempenho eram chicoteados. Agora pretende-se condená-los à pobreza,
      ainda que haja razões para a diminuição da produtividade, como a doença ou
      as responsabilidades familiares ( Público,2-3-2014 )".
       Entre outras empresas e instituições, também os institutos superiores de
      investigação foram avaliados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia de
      forma tão incompetente e pouco científica que despertou um coro de
      protestos. "Dos três avaliadores que visitaram o Centro de Arquitectura do
       Porto, nenhum era arquitecto, nem conheciam Siza Vieira", escandalizou-se
       o conhecido físico Carlos Fiolhais, em artigos publicados no  Público  em 
      3/9/2014 e  11/11/2014 . Segundo o físico, havia uma cota escondida de 50%
      de instituições que podiam ser aprovadas (e financiadas). As outras eram
      para fechar. De resto, as regras também tinham sido mudadas durante o
      decorrer do processo [3] .
       As Sociedades de Física, Química, Matemática, Filosofia, o Conselho de
      Laboratórios Associados (2500 laboratórios), os reitores das
      universidades, os sindicatos, as associações de bolseiros, enfim, quase
      todos os que puderam pronunciar-se e não estavam envolvidos no crime,
      manifestaram-se contra, sem que isso conseguisse impedir totalmente o
      desastre.
       Para muitos, a recusa de uma proposta de "avaliação de desempenho" para a
      função pública coloca-os numa presumida posição de inferioridade moral,
      fazendo-os cair na armadilha de aceitarem acriticamente as condições
      propostas, desejando ingenuamente mostrar que não têm receio de a ela se
       sujeitarem.
       Foi o caso de algumas organizações sindicais que, postas perante formas
      redutoras de "avaliação" – que separam o trabalhador do contexto em que
      desenvolve a sua actividade e se mostram totalmente desadaptadas à
      avaliação da profissão, incluindo até, por vezes, cláusulas abusivas –
      decidiram enveredar pela via do seu aperfeiçoamento o que, possibilitando
      o aparar de algumas arestas, as colocou do lado dos manhosos promotores do
      vicioso processo.
       O paradoxal caso dos médicos: quando a avaliação é objectiva, descarta-se
      
       No caso dos médicos, menorizou-se a longa e rica experiência já alcançada
      dentro do Serviço Nacional de Saúde (SNS) com as celebradas Carreiras
      Médicas, que obrigavam a que qualquer lugar ou graduação só pudesse ser
      ocupado após concurso público com avaliação por um júri de pares
       qualificados.
       Uma das conclusões que desde logo essa experiência tornou evidente, foi a
      importância e a complexidade de julgar os diversos passos e aspectos de
      toda uma carreira e, tão ou mais importante do que isso, as graves
      repercussões profissionais e psicológicas que podiam resultar de uma
      classificação injusta.
       Essa preocupação levou a que os problemas, detectados em anos e anos de
      provas e recursos, fossem progressivamente corrigidos, procurando anular
      os factores mais subjectivos, estabelecendo procedimentos concursais mais
      claros e apertadas grelhas de critérios a seguir.
       Paradoxalmente (ou talvez não) foi no cume da onda de "avaliações" que as
      das Carreiras Médicas foram substituídas por contratações individuais sem
      concurso, bastando uma carta do director do Serviço e a assinatura de cruz
      da Administração (que nada percebia da parte técnica eventualmente
      fornecida) para que o escolhido pudesse ocupar o lugar disponível.
       Culminando a arbitrariedade e prepotência do toda a pressão "avaliadora",
      os governos da troika, que encheram a boca com pomposas tiradas sobre a
      incontornável necessidade de "premiar o mérito" de cada um, mandaram às
      urtigas todos os prémios e progressões que tinham prometido aos
      trabalhadores pela "avaliação do desempenho", roubando os únicos estímulos
      que tinham estabelecido para o "progresso" para gastar o dinheiro a salvar
      a Banca dos seus buracos.
       É pois altura de, para além de se exigir que sejam pagas as promessas e
      que se reponha tudo o que é devido com os acrescentos que os trabalhadores
      merecem, começar a pôr termo a este "sistema avaliador" perverso e
      empapado de ideologia neoliberal, que serve para tudo menos… para avaliar!
       [1] Sobre o mesmo tema, também vale a pena ler a entrevista dada em Maio
       de 2016 à revista Psychologies (Maio de 2016)
       [2] O leitor que queira aprofundar o ponto de vista deste especialista
      pode ver e ouvir a sua intervenção no  debate sobre "Justiça e Direito do
      Trabalho", realizado em Lisboa a 25/2/2015
       [3] O blogue De Rerum Natura , animado por Carlos Fiolhais e outros
      investigadores na área da ciência, com particular atenção à pseudo-ciência
      e aos inimigos da ciência, denunciou – a nível nacional e internacional –
      a incompetência da "  avaliação " e as suas nebulosas motivações. 
      07/Março/2018
      [*] Médico.
       O original encontra-se em 
      www.abrilabril.pt/trabalho/revisitacao-perversidade-da-avaliacao-de-desempenho
       
In
RESISTIR.INFO
http://resistir.info/portugal/avaliacao_07mar18.html#asterisco
7/3/2018

sexta-feira, 16 de março de 2018

Marielle, uma voz



"Hoje dizemos Marielle. Uma voz coletiva que tem nome, que se ocupou em lutar
contra a noite, que carrega no seu corpo negro todas as mulheres assassinadas,
todos os corpos e todo o sangue, todos os nomes expropriados de seus donos,
todos os sonhos, toda a vida que a morte carregou para o oco da noite. Que diz
alto os nomes dos assassinos e os acusa. A voz tem um nome, Marielle. E Marielle
foi morta outra vez. Mas esta morte tem um nome, porque carregava muitas vozes,
porque nunca estava sozinha nunca será esquecida, porque através dela é que
lembramos dos esquecidos."


Por Mauro Luis Iasi.

“ “Quando é abatido o que não lutou só,
o inimigo
ainda não venceu.”
– BERTOLD BRECHT.
A chuva caia torrencialmente sobre a cidade. Iansã mandava seus raios e os
clarões tentavam negar a noite que insiste em suas sombras. Os corpos não se
viam, a pele negra se confunde com a noite, os rios de sangue fluem para a vala,
de todas as feridas abertas, dos navios descarregando sua carga humana
acorrentada, no verde dos canaviais, nas favelas, nas ruelas da velha cidade,
das flechas de São Sebastião.

O sangue, ferro vermelho, rio que tanto carrega a vida como se esvai para fora
dela, também dá cor as bandeiras que a defende. Na noite as cores se amam no
negro, o vermelho, o lilás o preto. Iansã manda seus raios.
Outro corpo cairá. Na noite não saberemos seu nome, dos sonhos que carregava,
dos braços que o esperavam no vazio da volta. No porão do navio negreiro se
contará a carga faltante. No mar escuro o esquecimento fará parte da memória dos
peixes. São muitos e diários, aqueles que partem sem deixar seu nome para que
gritemos, para que nossas lágrimas de dor e raiva alcancem seu corpo, para que o
abutre do esquecimento não dilacere sua memória.
Os índios e as montanhas guardarão suas almas, das senzalas se ouvirão cantos
incompreensíveis, o bater dos pés no chão para que a terra acorde de seu
pesadelo de morte. O ar da noite gelará por um instante e cada gota de chuva
brilhará como uma estrela.
Nunca saberemos todos os nomes. Algumas vozes, no entanto, carregam a magia de
falar por todas as vozes esquecidas, sei lá por que razão, rolam de sua face
lágrimas de outras gentes, sentindo em seu corpo o açoite e o tiro, a dor e a
falta. A voz da memória é que fala nelas e com sua força rompe o tecido do tempo
e a pretensão da noite, revolve a terra numa agricultura reversa, desplantando o
oculto. Nessas vozes cantam cânticos ancestrais, contam-se histórias de nossos
avós, que lançam faíscas de luz na noite do esquecimento. Iansã manda seus
raios.
Tal magia se adquire ao se comer o mesmo pão do sofrimento, quando se vive na
noite ao lado dos explorados, quando se nasce onde não se pode viver, quando se
vive ali onde a regra é morrer. É a voz de quem sobreviveu aos seus e levou suas
almas costurados no vestido, no lenço preso na cabeça, na bandeira que leva com
seus mortos para marchar nas avenidas que levam nomes de seus assassinos.
São vozes que brotam do fundo da terra, das covas rasas, das valas e que se
servem da boca de pessoas vivas, no sentido mais vivo da palavra viva. Dos
lábios e línguas no prazer dos beijos, dos açoites de verdades que rasgam os
véus escuros da noite que insiste. Iansã manda seus raios e o clarão mostra o
que a noite oculta.
Por conta dessas vozes vivas sabemos dos outros que a noite esconde. Sua voz tem
nome e corpo, mas sua estatura projeta algo muito além do portador da voz,
porque foi buscar seu tamanho na memória dos índios e das montanhas, das
senzalas e favelas, da força dos pés que acordam a terra. Por isso podemos dizer
seu nome e ao dizê-lo acordar os mortos que carrega, devolvê-los aos braços que
esperavam, ao caminho interrompido que trilhavam. Iansã nos ilumina com seus
raios.
Hoje dizemos Marielle. Uma voz coletiva que tem nome, que se ocupou em lutar
contra a noite, que carrega no seu corpo negro todas as mulheres assassinadas,
todos os corpos e todo o sangue, todos os nomes expropriados de seus donos,
todos os sonhos, toda a vida que a morte carregou para o oco da noite. Que diz
alto os nomes dos assassinos e os acusa. Esta voz tem um nome e dizemos:
Marielle. Iansã ilumina seu corpo com seus raios. A voz tem um nome, Marielle. E
Marielle foi morta outra vez. No navio negreiro, no canavial, nas ruas estreitas
do Rio de Janeiro, na favela, na fábrica, em casa, agora no carro. Mas esta
morte tem um nome, porque carregava muitas vozes, porque nunca estava sozinha
nunca será esquecida, porque através dela é que lembramos dos esquecidos. Seu
nome é Marielle, seu nome é mulher, seu nome é negra, seu nome é justiça, seu
nome é luta, seu nome é socialista, seu nome é Marielle.
Iansã chora tempestades.
Cada gota de chuva lava nossa cidade, cada raio a ilumina. Cada gota de sangue
que cai na terra renasce em nossa luta… que nunca termina… nunca… nunca termina.

***
Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador
do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro
do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser
da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe
Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a
emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora
para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

In
BLOGUE DA BOITEMPO
https://blogdaboitempo.com.br/2018/03/15/marielle-uma-voz/
15/3/2018

quinta-feira, 15 de março de 2018

Economía política de las masacres



James Petras
Rebelión
      Traducido para Rebelión por Paco Muñoz de Bustillo

Cada año más de 30.000 ciudadanos de Estados Unidos pierden la vida a causa de
disparos. Cada mes, en patios escolares, discotecas, salas de concierto, centros
de trabajo y lugares públicos, personas inocentes son exterminadas por asesinos
que manejan potentes armas semiautomáticas compradas legalmente. La Asociación
Nacional del Rifle (NRA, por sus siglas inglesas), una organización con 3
millones de afiliados, apoya y promociona el acceso libre a armamento militar.
La inmensa mayoría de legisladores, presidentes y jueces de EE.UU. es partidaria
de la posesión de esas mismas armas que causan las masacres.
¿Por qué el sistema político estadounidense se lamenta de la frecuencia con que
se producen atentados masivos y sin embargo respalda el proceso político que
hace posibles las matanzas? El volumen, alcance y duración de las masacre
requiere que examinemos las características sistémicas a gran escala y largo
plazo de la economía política estadounidense.
 Política bélica: Las masacres en el exterior como símbolo del “heroísmo
americano”
El gobierno de EE.UU. ha participado en multitud guerras sangrientas en las que
ha masacrado a millones de civiles –incluyendo familias enteras en sus casas–
que no suponían ninguna amenaza para el pueblo estadounidense. Las guerras
representan el triunfo de la destrucción y la muerte como modo de promover los
programas políticos de Estados Unidos. Se rinde honores a los criminales de
guerra. Los conflictos políticos y problemas sociales internos se resuelven
destruyendo a adversarios inventados y a naciones enteras.
En una economía política en la que las masacres perpetradas en el extranjero son
dirigidas por líderes elegidos democráticamente, ¿quién va a cuestionar el
comportamiento de un “vecino sociópata” que se limita a seguir el modo de actuar
de su presidente? Este hecho no debería sorprender a nadie: las masacres al por
mayor en el exterior promovidas por nuestros dirigentes se reproducen en las
masacres al por menor en el interior desencadenadas por el “chiflado local”.
Los medios de comunicación: Hablan las armas, los asesinatos resuelven y los
medios se enriquecen
Todos los días, a todas horas, en todos los medios de comunicación, las armas y
las matanzas dominan las mentes, los pensamientos y las fantasías (o las
pesadillas) de los espectadores, especialmente de los millones que absorben el
“mensaje”. Las películas, los programas de televisión y los videojuegos están
plagados de conflictos que se resuelven por las armas, matando víctimas, ya sean
policías o civiles. Los problemas se resuelven mediante la violencia.
El mensaje de los medios de comunicación es que las masacres logran victorias.
Las guerras y los asesinatos se reproducen en multitud de escenarios: hogares,
edificios públicos, escuelas, centros de trabajo, calles y plazas. Las guerras y
las masacres son un elemento esencial de este sistema político y los medios de
comunicación aseguran que penetren en la mente de las masas y se normalicen.
 La economía 
Las armas que se utilizan en las masacres son un negocio muy lucrativo. Los
fabricantes, vendedores al por mayor, vendedores al por menor y clubs de armas
así como las instituciones policiales y militares prosperan en este mercado
libre del asesinato. Los dirigentes políticos utilizan la economía que se mueve
alrededor de las armas para financiar sus campañas electorales. Los políticos
ven con buenos ojos las guerras, la industria armamentística y las asociaciones
pro-armas, con lo que perpetúan las condiciones para que se produzcan las
masacres. Las grandes empresas están protegidas de los asesinatos internos. ¿Por
qué iban a preocuparse los ejecutivos y las élites políticas de las matanzas que
se producen en las escuelas públicas si sus propios hijos están a salvo en sus
caros colegios privados? Al fin y al cabo, están en juego los votos y los
beneficios. Solo los “fracasados” envían a sus hijos a peligrosas escuelas
públicas. Los “triunfadores” tienen alternativas más seguras…
Soluciones 
Para hacer frente a la epidemia de matanzas masivas es esencial efectuar cambios
en la economía política.
1. Reemplazar las políticas de guerras imperiales por el fomento de la
diplomacia, las negociaciones y la resolución pacífica de los conflictos.
2. Reemplazar la cultura de las armas presente en los medios de comunicación por
los valores culturales de la solidaridad en comunidades seguras y comprometidas
con lo público.
3. Reemplazar la obsesión de los civiles por poseer armas militares con una
visión de la propia vida edificada en torno a un ambiente saludable compartido
por vecinos comprometidos socialmente.
4. Prohibir o regular los clubs de armas y las milicias. Abolir la venta del
armamento militar que se utiliza en estas carnicerías. Las armas empleadas en
tiro deportivo y en la caza son diferentes de las armas de guerra utilizadas
para masacrar a docenas de niños apiñados en sus aulas.
 Planteamientos falsos y verdaderos sobre las masacres 
El presidente Trump ha propuesto armar a los profesores para “solucionar” las
matanzas en la escuela. Se trata de una opción descabellada que solo agravaría
la proliferación de armas, estimularía nuevas carnicerías, socavaría el papel de
los maestros como educadores y crearía nuevos “modelos” para potenciales futuros
asesinos. La propuesta de Trump también pone de manifiesto el profundo desprecio
de su administración por el papel que tienen la educación pública y los
educadores públicos en la construcción de una sociedad sana. Su propensión a
culpar a las víctimas (“si los maestros estuvieran armados…”) es una muestra del
grotesco darwinismo social inherente a su ideología y de su interés por destruir
por completo el sector público. Los hijos de la élite y de los políticos no
tienen que asistir a clases de matemáticas o de francés a cargo de profesores
armados. Según la lógica de Trump y de la élite empresarial y política, los
tiroteos en las aulas de las escuelas públicas simplemente subrayan la necesidad
de disolver los Departamentos de Educación de todos los niveles, así como los
demás servicios públicos de esta nación.
Los profesores deberían poder concentrarse en educar a sus alumnos sobre cómo
ser ciudadanos productivos y competentes que valoran la comunidad y la
cooperación por encima de las armas y la guerra. Deberían graduar estudiantes
capaces de evaluar críticamente el papel de los medios de comunicación en la
promoción de la violencia. Deberían fomentar en sus alumnos habilidades cívicas
que les llevaran a movilizarse contra líderes políticos que han aceptado
sobornos (“donaciones”) de sectas de la muerte como la Asociación Nacional del
Rifle.
Para detener la violencia, los dinamizadores comunitarios pueden boicotear a las
empresas que proporcionan apoyo político y material a quienes promueven la
guerra, a las milicias y a los extremistas armados.
Sería necesario aprobar leyes nacionales para limitar las armas de fuego a
parcelas y eventos bien definidos, como los clubs de tiro o la caza.
Los propietarios de armas deberían obtener los permisos de uso según estrictos
criterios psicológicos y tener que renovar dichos permisos con frecuencia. El
ejército debería informar a las autoridades civiles locales de cualquier
conducta violenta y criminal de los soldados que dejen el ejército. No pueden
liberar una “bomba de relojería” en medio de la población a la que han jurado
proteger así como así. La enfermedad mental es un asunto de salud pública y
debería incrementarse la partida presupuestaria destinada a financiar hospitales
e instalaciones en las que identificar y tratar a los individuos que lo
necesiten. Estos enfermos no deberían entrar y salir de las cárceles o ser
arrojados a las calles.
Los vendedores de armas y las exhibiciones de armas tendrían que estar regulados
y obligados a seguir protocolos estrictos bajo amenaza de sanciones.
Los cazadores deberían usar armas apropiadas para el tipo de caza que practican.
Las armas semiautomáticas no son las indicadas para cazar ciervos, conejos o
pavos. Pero se utilizan para cazar y para matar a seres humanos, incluyendo a
niños desarmados en sus aulas.
 Conclusión
Es posible poner en marcha cambios culturales, políticos y económicos, pero para
ello es preciso que las luchas populares se mantengan en el tiempo. Mientras
tanto, deberían implementarse reformas a corto plazo para regular y reducir la
frecuencia y mortandad de las masacres locales.
Es preciso divulgar y rectificar el protocolo por el cual la policía acordona el
perímetro de las matanzas, impidiendo que entren rápidamente los primeros
equipos médicos que acuden a estabilizar a los heridos al tiempo que se protege
a sí misma (un proceso que puede prolongarse durante una hora y provocar muertes
innecesarias por pérdida de sangre). Mientras los equipos SWAT* se preparan y
“aseguran el perímetro”, con una serie de maniobras coreografiadas para asegurar
la “protección de la fuerza”, (un eufemismo que significa “proteger a la
policía”), se desperdician los “minutos de oro” en que se podría estabilizar a
las víctimas. Si los heridos recibieran rápidamente primeros auxilios y pudieran
ser inmediatamente transferidos a los hospitales para someterse a cirugía de
emergencia y transfusiones de sangre, muchas de las víctimas se salvarían. Es un
escándalo la terrible tasa de mortalidad de estos tiroteos (el 100% en el caso
de los niños y profesores de la Escuela Primaria de Sandy Hook**) especialmente
si tomamos en cuenta lo poco que se reflexiona sobre ello posteriormente. Parece
claro que los jueces y la policía locales y estatales ocultan información sobre
el efecto que tiene impedir la entrada rápida de equipos médicos de emergencia.
Es imprescindible que se realice una investigación independiente sobre el
retraso deliberado de la policía en permitir la asistencia inmediata que salva
vidas.
Prácticamente todos los tiroteos producidos en escuelas que han terminado en
masacres los cometen individuos a quienes la policía o la comunidad conocen por
su comportamiento imprevisible y maltrato familiar. El hecho de que la policía
local o la familia conocieran que estos individuos dementes y homicidas tenían
acceso a armamento militar y no actuaran, a pesar de las quejas recibidas al
respecto, exige que una investigación independiente a escala estatal y federal.
Es preciso reforzar las leyes o estatutos relacionados con la hospitalización o
detención preventivas de estos individuos inestables y violentos. Es preciso
nombrar una comisión nacional que investigue la situación de los tratamientos de
salud mental en Estados Unidos y los recursos destinados para ello. En vez de
pedir a los profesores que vayan armados, hay que mantener instituciones
cualificadas de salud mental. No basta con encerrar a los enfermos mentales en
cárceles locales por pequeñas faltas y luego volver a ponerlos en la calle sin
ofrecerles ninguna asistencia.
Es preciso apoyar la enseñanza pública y a sus profesores. Hay que terminar con
décadas de políticas que debilitan servicios públicos como la educación, y
potencian la “libertad de elección de escuela”, —un eufemismo para decir
enseñanza privada— convirtiendo la educación en un privilegio para ricos en vez
de un derecho de los ciudadanos. En lugar de un único profesor (preferiblemente
armado, según el presidente Trump y la NRA) para dar clase a cuarenta alumnos,
cada aula debería contar con tres profesores competentes que trabajaran en
equipo para asegurar el progreso de los estudiantes en las diversas asignaturas
necesarias para llegar a ser en un futuro ciudadanos libres y productivos. Es un
escándalo que el Departamento de Educación y la Secretaria de Educación hayan
mantenido silencio y permanecido ausentes tras las frecuentes masacres de
estudiantes. Pero tampoco resulta extraño si consideramos las prioridades de sus
altos cargos, procedentes de la élite y, en el caso de la secretaria actual
Betsy DeVos, de la clase de los multimillonarios. Nunca han puesto un pie en una
escuela pública. Sus hijos reciben “educación en casa” con tutores privados o
asisten a elitistas academias privadas. Sus programas contrarios a la enseñanza
pública reflejan su hostilidad ideológica hacia el propio concepto de bienestar
social. Las palabras de Trump culpando a los profesores por no ir armados en el
aula muestran claramente su desdén por la enseñanza pública y por las familias
de clase trabajadora y media que confían sus hijos a la educación pública en
todo el país.
Estos sucesos tienen lugar en el espacio público, un espacio a disposición de
todos los ciudadanos que debería ser seguro. La escuela pública ha sido uno de
los cimientos en los que se basaba la creación de una ciudadanía libre y
productiva. No es casualidad que las masacres de jóvenes tengan lugar
exclusivamente en escuelas pública. Los valiosos hijos de la élite están a salvo
en sus hogares-fortaleza y en escuelas privadas superselectas, atendidas por
profesores altamente cualificados, que pueden dedicarse a enseñar sin
preocuparse por si alguien esconde un arma o por la aparición repentina de un
pistolero. Sus hijos tienen el futuro garantizado.
Pero la situación de los hijos de clase media y trabajadora es mucho más
incierta. El acceso a la educación de calidad ha dejado de ser un derecho y un
deber para los ciudadanos. En el mejor de los casos, los jóvenes pueden “acceder
a préstamos para la educación” con tipos de interés usurarios que les encadenan
a décadas de servidumbre por deudas, mientras los estudiantes de clase alta
tienen libertad para seguir una carrera y desarrollar su talento. Mientras
continúen deteriorándose las perspectivas de futuro de los jóvenes, con el
traspaso masivo de riqueza nacional a las élites, estas masacres, los suicidios
y las muertes por sobredosis no pararán de aumentar. Todo esto ocurre en un
contexto sociopolítico: las decisiones deliberadas tomadas desde arriba generan
horror y caos en la base.
Existe un sustrato de clase en las pesadillas que atenazan a los padres,
profesores y estudiantes de clase media y trabajadora de todo el país.
Seguridad, educación de calidad y sanidad de calidad son, cada vez más, dominio
exclusivo de la élite. Las políticas dirigidas por esta, que se iniciaron en el
reinado del presidente Ronald Reagan, han orquestado la disolución de las
instituciones públicas de salud mental y el alta masiva de individuos inestables
y vulnerables, al tiempo que violentos, en comunidades que no están preparadas
para ello. Quienes sufren las consecuencias de dichas políticas no significan
nada para la élite, aunque asistan a sus funerales para hacerse la foto. Las
políticas dirigidas por las élites de los presidentes Bill Clinton, George Bush
hijo, Barack Obama y Donald Trump no han dejado de promover el desmantelamiento
del sector público y la privatización de la riqueza y de las instituciones de la
nación.
La tremenda reducción de impuestos provocada por la ley fiscal de Donald Trump
representa una ganancia inesperada de más de un billón de dólares para la clase
inversora (la élite financiera) a costa de las instituciones públicas y la red
de seguridad que dan servicio a las clases media y trabajadora. La mayor
incidencia de asesinatos en masa, así como el lugar donde se producen y la
identidad de las víctimas, no son fruto del azar: están definidas por la clase y
son reflejo de la pérdida de poder ciudadano. Los ganadores de esta lucha de
clases derraman lágrimas de cocodrilo para la foto mientras en privado
ridiculizan a las familias de las víctimas por confiar en las instituciones
públicas.
Las decisiones tomadas desde arriba que han producido esta epidemia de masacres
en las escuelas públicas, así como otras epidemias paralelas de suicidios y
sobredosis entre las clases media y trabajadora, han beneficiado enormemente a
la élite. Los multimillonarios y los donantes de ambos partidos políticos no
tienen motivo alguno para dar marcha atrás y poner en marcha reformas o
programas destinados a recuperar los derechos de los ciudadanos y el espacio
público. Solo los amigos, familias y vecinos de las víctimas de clase media y
baja, a quienes en privado se considera “fracasados que deciden enviar a sus
hijos a instituciones públicas”, pueden unirse para cambiar todo esto y
recuperar la justicia social y económica que rinda homenaje a los muertos
inocentes y ofrezca un futuro digno y justo para sus hijos. No se trata de armar
a los profesores o de envolver a los alumnos pequeños en “mantas a prueba de
balas”, mientras la élite nos culpa de nuestro sufrimiento desde la seguridad de
sus mansiones. Comprender el sustrato de clase de esta crisis nos ayudará a
levantar los cimientos de las soluciones reales.
Notas:
* SWAT, unidad de élite incorporada a diversas fuerzas de seguridad,
especializada en operativos de alto riesgo y dotada de equipos muy sofisticados.
**Tiroteo masivo en la escuela de Sandy Hook, Connecticut, en diciembre de 2012,
que produjo 26 muertos (20 de ellos, niños de 6 y 7 años). Fue el más mortífero
de los habidos en escuelas primarias o secundarias en la historia del país.

In
REBELION
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=239032
15/3/2018